Mostrar mensagens com a etiqueta Tejo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tejo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de julho de 2020

O Tejo e o Mar da Palha em José Rodrigues Miguéis



O livro organizado por Luísa Ducla Soares e editado pela Câmara Municipal de Lisboa intitula-se «Lisboa de José Rodrigues Miguéis» e reúne em 111 páginas citações de diversos livros deste autor português (1901-1980). Sobre o Rio Tejo podemos ler: «Lá ao fundo, o Tejo reluzia como uma colcha de áqua-marina bordada a prata» e, mais à frente, no mesmo «O milagre segundo Salomé», surge: «No Tejo lavado e reluzente, alguns destróiers balouçam languidamente, vaporzitos espertos abrem no ar as sereias estrídulas, um cruzador inglês, todo branco como um iate, vira com a maré em torno da âncora.» E em «A Escola do Paraíso» pode ler-se: (…)«o menino olha os telhados de veludo, o céu sereno, o rio coberto de palhetas de prata cintilantes: são peixinhos que saltam, andam a brincar, brilham à lua (…)» Em «Idealista no Mundo Real» José Rodrigues Miguéis escreveu: «O grito de uma sereia no Tejo rasgou o véu azul da manhã. Baltazar virou-se para as janelas e, com a face apoiada na mão esquerda, ficou a olhá-las. As andorinhas cortavam o ar, explorando os beirais familiares. Adivinhava-se o primeiro espreguiçamento da Primavera no ar quase tépido e, ao fundo, para lá do casario apinhado, a toalha do rio desdobrada ao sol. Nos telhados forrados de musgo, líquenes e gramíneas, enxugava a humidade dos chuveiros de véspera.» Não se fica pela paisagem e pelo povoamento o autor de «O idealista no Mundo Real quando escreve: «A Universidade é uma fábrica de manequins e de burocratas. Porque é que um labrego que sai das unhas negras da Escola há-de ser necessariamente um superior? Quantos génios tivemos nós que nunca por lá passaram – o Herculano, o Oliveira Martins, o Camilo, o Ramalho, o Gomes Leal, o Lúcio de Azevedo – e  os que o foram apesar dela!»     

[Crónicas do Tejo 223]

(Fotografia de Luís Eme)

domingo, 23 de fevereiro de 2020

No tempo de Jesus não havia fotografias



Meu neto Pedro, menino de oito anos, é que fez a inesperada pergunta: «Avô, no tempo de Jesus não havia fotografias?». Apeteceu-me responder que no tempo de Jesus não havia fotografias nem telemóveis nem megafones. Por isso os discípulos de Jesus subiam aos terraços das casas desse tempo para falarem às multidões que O seguiam de terra em terra. A imagem mais divulgada de Jesus é, julgo eu, a de Rembrandt. Um Jesus já perto do julgamento estranho e insólito em que o «juiz» lava as mãos numa bacia colocada numa varanda para significar de modo simbólico o seu «desligar» da condenação de um justo. O sonho da esposa de Pôncio Pilatos não admitia segundas leituras nem interpretações posteriores. Ainda hoje em 2019 se diz «andou de Herodes para Pilatos» quando alguém se sente empurrado ou incompreendido ou «lavar as mãos como Pilatos» quando um outro alguém se pretende desligar de uma decisão incómoda e difícil porque não pacífica. Não esquecer que «Varanda de Pilatos» é o título de um livro de Vitorino Nemésio, uma novela editada pela Imprensa Nacional. Eu mesmo (peço muita desculpa aos leitores) usei num verso essa referência num poema magoado sobre o assassinato de um sócio do Sporting Clube de Portugal no Estádio do Jamor em 1996: «A Varanda de Pilatos/É na Praça da Alegria / Visto isso mais os actos/ Ninguém faz da noite dia.» Conclusão provisória, como todas as conclusões: no tempo de Jesus não havia fotografias mas as imagens continuam vivas e a memória instalada desse tempo agarra-se a muitos de nós como uma segunda pele. Um dia o meu neto Pedro irá perceber. A resposta à sua pergunta sobre as fotografias no tempo de Jesus pode demorar mas vai chegar um dia, talvez de modo inesperado. Mas vai chegar.     

[Crónicas do Tejo 202]

(Óleo de Rembrandt)

sábado, 18 de maio de 2019

«Fogo no mar» de João Falcato com uma capa de Victor Palla



Partindo de «O todo ou o seu nada» de Amadeu Lopes Sabino (Editora Bizâncio) cheguei a este livro é de 1953; conta a história da viagem do cargueiro «Mello» que uma explosão inexplicável consumiu em fogo nas águas sombrias do mar. O livro (Coimbra Editora) é dedicado à memória dos companheiros do autor que encontraram a morte no incêndio do cargueiro português a meio de uma viagem entre Buenos Aires e Lisboa: Álvaro Firmo da Silva, Alberto dos Santos Faria, Álvaro de Almeida Costa, Henrique Torcato Craveiro, Luís Alexandre Júnior, João da Silva Moreira, José Pereira, Herculano José, Joaquim Marques Machado, António Varela, José Simões, António Pais, Joaquim da Silva Pracana, José de Sousa Frade e José Fernandes d´Assunção. Há uma cantiga na página 28: «As ondas do mar são brancas / E no meio amarelas / Pobrezinho de quem nasce / Para morrer no meio delas» mas as primeiras linhas do romance são uma bela crónica de despedida: «Um primeiro puxão fez estremecer o «Mello», negro, sujo de carvão. Em movimentos descompassados, os rebocadores arrastam o corpo inerte e bojudo do navio, da beira do cais. Içada a escada do portaló, desligados os cabos que eram nervos que o faziam ser terra, prático na ponte, mansamente, em estremecimento de quem deseja maior pressa, o seu corpo é levado para o meio da doca. A ponte de Alcântara que fecha a saída, começa a girar numa permissão de passagem solicitada pelo som cavo do apito. Barcos pequenos saúdam com um zumbido quase imperceptível e seguem apressados o seu caminho na água suja da doca. AS chaminés dos rebocadores vomitam fumo negro, espesso, quase sólido. Sentado numa pedra do cais, um pescador solitário tira o chapéu encardido, num mudo desejo de boa viagem.» (fim de citação)           

[Crónicas do Tejo 163]

quarta-feira, 6 de março de 2019

Crónica ou quase-poema para o som de uma voz de mulher



A tua voz tem a extensão, o timbre e a altura da forte alegria teimosa contra a névoa da melancolia e da tristeza ao fim da tarde nas ruas da cidade de Lisboa. Quase ninguém repara mas, de súbito, na tua voz há pomares nos passeios, há moinhos nos jardins e fragatas azuis entre as duas margens do estuário do Tejo.
Diria então por outras palavras – há na tua voz o som da alegria que nasce da terra, seja nas mulheres que colhem no seu avental a fruta do tempo, seja nas outras que tiram dos alforges o grão que os rodízios de madeira do moinho vão transformar em farinha, promessa de pão no calor do forno ou seja ainda nas despedidas das mulheres aos homens das fragatas entre melões para os Mercados de Lisboa ou madeira e cortiça com destino às fabriquetas do Poço do Bispo.
Há sempre três mundos no pequeno mundo da tua voz (animal, vegetal e mineral), um mundo que junta as pedras, os arbustos e os cavalos incansáveis no seu trabalho de transportar homens e produtos que mais tarde serão mercadorias.
A tua voz, mesmo quando se torna adversativa (o mesmo é dizer mas, porém, todavia, contudo) tem sempre um pequeno sopro de ternura fazendo assim com que se torne tudo menos agressivo para quem ouve, aceita e toma a sério.
A tua voz tem o registo da mais alta Poesia, instável mas feliz ponto de encontro entre a saudade e o sonho, entre o passado e o futuro, entre a sombra e a luz. Porque, tal como numa liturgia urbana, há no ouro das alfaias da tua voz um tempo de celebrar, de convocar, juntar e harmonizar de novo tudo aquilo que, no nosso coração, a morte acabou por separar.

[Crónicas do Tejo 165]

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Gonçalo Pereira Rosa - «já nada me espanta» e outros casos tristes


Começo o texto com uma nota pessoal: prestes a completar 40 anos de actividade em jornais e revistas não me envergonho de nada do que publiquei mas arrependo-me de ter publicado sem anotações no Jornal «Sporting» uma página do livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista. Trata-se de um jogo entre o SCP e o Sport Lisboa em 1-12-1907 ao qual foi atribuído por erro crasso o título de «O primeiro derby» isto porque o SLB não podia ter disputado nenhum jogo antes de 13-9-1908. Gonçalo Pereira Rosa estudou agora o caso do assassinato da actriz Maria Alves em 1926 e publicou dois livros onde esse tema é desenvolvido mas o «Magazine» do «D.N.» publicou outro dia um texto sobre o assunto como se a pólvora estivesse a ser descoberta agora, no ano de 2018. Gonçalo respondeu com ironia a quem o interpelou sobre este caso: «Já nada me espanta». Outro dia passou-me pelas mãos um recorte da revista «Sábado» com a história da macaca de Oliveira de Azeméis, vila onde a comitiva do SCP costumava parar nos anos 40 antes de ir jogar com o FCP. Claro que os «leões» ganhavam, perdiam ou empatavam segundo factores determinados: as incidências do jogo, os erros dos jogadores de ambas as equipas, a influência da arbitragem que, muitas vezes, é decisiva. Ou seja – outras macacadas. Há por ali o perfume da prosa de António Simões («A Bola») mas uma coisas destas não é para quem quer, é para quem pode. Não dá para imitar. Voltando ao «Magazine» que faz parte do «D.N.» não bastava terem trocado «enclave» por «conclave» a propósito da Síria. Apetece dizer como a minha avó de Santa Catarina: «Não há direito!» E ela não desconfiava do que muito mais tarde eu verifiquei nos Tribunais de Menores: o Direito é o maior inimigo da Justiça.

(Crónicas do Tejo 128)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O meu destino em 1957 era ser navalheiro como toda a gente



«Eu sou a filha da Julita» - dizia a menina que me abriu a porta do escritório da fabrica «Ivo Cutelarias» fundada em 1954 por João Ivo Peralta, irmão de António Ivo Peralta («Sovi»), amigo da minha mãe (Olímpia do Carmo Almeida) e do meu pai (José Francisco). Foi no passado dia 8 de Março e houve uma viagem no tempo. A partir da frase «Eu sou a filha da Julita» lembrei-me de Santa Catarina em 1966 quando havia as férias «grandes»: a Julita comprava uma cigana para o almoço do pai (Euménio) dito Ménio, o Roberto inaugurava com o meu avô José Almeida Penas a época do «abafado» na azenha do ti Zé Padre no Rio do Casal da Coita que vinha pelo Vale de Água até se juntar ao Rio da Pedra. O meu avô era guarda-redes da equipa onde jogavam o meu tio-avô Joaquim Freire, o Juventino do ti Manel Inácio (o primeiro jornalista), o ti Carlos Pinheiro (que me dava limões), o Abílio Milhafre (que tocava clarinete), o Diamantino do Manel Lúcio, o Zé Coimbra que tocava pratos na Filarmónica. Eram onze e não havia substituições. Nos jogos do Campo do Rio da Pedra, mais tarde, lembro-me do Joaquim Clímaco recolher o dinheiro para a lavadeira num boné. Esse mesmo Joaquim (irmão do Manel, meu colega na 4ª classe) um Domingo de manhã salvou-me a vida: a minha avó mandou-me ir buscar a burra ao Vale de Água e o cão a ladrar à porta do Afonso (ferrador) assustou o animal que dasatou a galopar. Perto do portão da Casa Grande o Joaquim conseguiu parar a burra e assim me safei pois poderia ter ficado ali se batesse com a cabeça nas pedras da rua. O meu avô foi amigo do Artur Sena Pinheiro, fundador da «Senófila» onde nasceram os Xutos e Pontapés. A vida é um mistério. A memória é um sótão distante. A prata da minha casa tem onze heróis. Estão todos na fotografia; ninguém quer sair.

(Crónicas do Tejo 125 - Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Almada e o Tejo – roteiro sentimental de uma das «minhas» cidades



Quando elaborei por escrito e por extenso uma espécie de «memória justificativa» para num certo sentido legitimar o início das minhas crónicas (do Tejo) no «Correio do Ribatejo» dei conta das minhas vivências em 1957 no Montijo (escola primária), em 1961 em Vila Franca de Xira (escola comercial) e em 1997 em Santarém (redactor de O MIRANTE) sem esquecer Lisboa e a Rua do Ouro onde tenho vivido e trabalhado desde 1966 até hoje – 2018. Mas a vida é um mistério e nada acontece por acaso: hoje (15-3-2018) entrei numa livraria com o meu amigo Joaquim Nascimento (ofereceu-me um livro!) e comprei o brasão de Almada. Embora nunca tenho lá vivido nem trabalhado, a verdade é que, desde sempre, me lembro de esta (hoje) cidade fazer parte da minha vida. Há muitos anos morreu na piscina do Seminário de Almada um jovem estudante natural de Santa Catarina (o António) de quem eu era muito amigo. Na altura só me lembro de duas palavras perante a sua morte: dôr e confusão. Dôr pelo desaparecimento dele e confusão pelas circunstâncias nunca esclarecidas da sua morte. Mais tarde Almada foi o lugar onde entrevistei o dramaturgo Romeu Correia para a Revista «A Bola Magazine», entrevista mais tarde englobada no meu livro «As palavras em jogo» e parte dela recordada no livro «Passeio mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro. A propósito deste meu grande amigo e quase-conterrâneo (Salir de Matos fica perto de Santa Catarina) não posso deixar de recordar as suas grandes capacidades informáticas em meu favor (sou um sem-abrigo) e as nossas intermináveis caldeiradas em Cacilhas quando a refeição serve em teoria para actualizar a escrita mas apesar de tudo esta nunca fica, de facto, em dia. A minha filha Ana, o marido e os filhos gostam muito da Casa da Cerca mas isso já é outra crónica.

(Crónicas do Tejo 123)

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dissertação para a voz de Maria Flor Pedroso



Quase nada sei das origens da tua voz, seu timbre e sua altura, seu calor e sua extensão, seu peso e seu rigor. Chamo-lhe calorosa pois sinto nela o calor que sacode o dia, aquece o pão, ferve o leite e convida ao pequeno almoço com ovos e bacon. Quando ouço a tua voz sinto nela o rumor ritmado das ondas de todas as praias e as melodias de todas as orquestras. Melodia, harmonia, contraponto – o que quer que seja musical nas manhãs de Rádio. Porque toda a minha infância cabe numa telefonia Schaub Lorenz. O senhor Messias, o Compadre Alentejano, o Teatro das Comédias, o romance da hora do almoço, o telefone toca do Matos Maia. E também os discos pedidos dos doentinhos dos sanatórios – Serviço 6, Sala 2, Cama 4. Sem esquecer os anúncios: «Candeeiros bem bonitos / modernos, originais / compre-os na Rádio Vitória / não se preocupe mais.» A tua voz é clarim, bandeira, estandarte.  Primeiro avisa, depois convoca, de seguida vem guiar os ouvintes como numa antiga romaria entre o sol que brilha e o pó que não assenta. Havia a Rádio Graça, a Rádio Peninsular, o Clube Radiofónico de Portugal e a Rádio Voz de Lisboa. A Voz de Lisboa era essa mistura feliz do vagar dos eléctricos e da pressa na espuma dos rebocadores, o vagar do sinaleiro e a pressa das fragatas do outro lado do Tejo. Vivi no Montijo entre 1957 e 1961; por isso ser fragateiro era um dos meus destinos possíveis. Aos Domingos à tarde os eléctricos levavam bandeiras de estádios: Luz, Restelo, Tapadinha, Lumiar. À noite saía nos jornais o resumo da jornada com a classificação e os melhores marcadores. Os ardinas voavam nas Escadinhas do Duque. Era a voz de Lisboa. Quase nada sei das origens da tua voz. Sei que nela passa o coração do Mundo. As sombras e as luzes, as sementeiras e as colheitas, a terra e o mar. Tudo cabe na tua voz que não termina e que continua.        

(Crónicas do Tejo 117 – fotografia de autor desconhecido)


quinta-feira, 8 de março de 2018

Lisboa e o Tejo a partir de uma gravura do século XVI


A fotografia reproduz a panorâmica da cidade de Lisboa que está num livro na Real Biblioteca de Madrid sendo os autores Georg Braun (1541-1622) e Frans Hogenberg (1535-1596) e cuja legenda na Revista National Geographic Magazine na sua recente edição especial com o título de «A conquista da América», começa deste modo e transcrevo com a devida vénia: «Localizado no estuário do Tejo, o porto de Lisboa foi o ponto de partida da maioria das expedições das Descobertas e de chegada do ouro do Brasil, alicerce da prosperidade do século XVI» Quero dizer na minha o seguinte: o Tejo é sempre o mesmo ainda que pareça novo todos os dias. O estuário do Tejo conhecido em termos populares por Mar da Palha ali está hoje (2017) quando escrevo esta crónica tal como estava no século XVI. Lisboa, sim, está diferente, o terramoto de 1755 deitou abaixo muitas casas. Não esquecer que o palácio da família do Marquês de Pombal era na Rua Formosa que é hoje a Rua de O Século. O arquitecto convidado pelo Marquês de Pombal morava por ali perto na Rua da Rosa e daí não é de admirar que a Baixa Pombalina seja parecida com o traçado do Bairro Alto e não tenha becos mas apenas praças, ruas e travessas. O Bairro Alto (onde esse senhor vivia) também não tem e fico todo arrepiado quando leio algo como «os becos do Bairro Alto». Adiante que se faz tarde. Voltando ao princípio e para terminar, perante esta belíssima imagem do Tejo e da Cidade de Lisboa só me posso lembrar de um verso de Fernando Assis Pacheco. Claro que não sei se o Fernando Assis Pacheco, ele mesmo, conhecia esta gravura mas o seu verso não se sai do pensamento. Algo como isto: «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa.»

(Crónicas do Tejo 105)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

António Carmo – Histórias do Tejo num olhar da Madragoa


António Carmo (n.1949) é um pintor que todas as manhãs celebra a festa do encontro numa mesa da pastelaria-café «A Brasileira» no Chiado. Por brincadeira chamo a essa mesa «a mesa dos resistentes» porque nela de facto resistem hoje alguns artistas plásticos portugueses que considero os últimos da geração de Carlos Botelho, Almada Negreiros, Jorge Barradas ou Nikias Skapinakis. Um dos meus livros («Leme de Luz») tem capa de António Carmo e alguns textos meus publicados no jornal «O Ponto» tiveram a sorte e a honra de serem por ele ilustrados. Não somos amigos íntimos mas a admiração e o respeito pelo trabalho de cada um é a regra. Tudo isto tem a ver com o quadro «Histórias do Tejo» porque o meu olhar sobre o Mar da Palha se cruza com o do pintor António Carmo. Em 1957 fui viver para o Montijo e atravessava os estuário do Tejo nos velhos vapores (uma hora de viagem) para apanhar o comboio (automotora) do Rossio para Caldas da Rainha às 17h e 20m. Uma vez durante as cheias do Rio Tejo os empregados do vapor levavam os passageiros ao colo na Estação Sul e Sueste. Em 1966 fui viver para o Bairro de Santa Catarina e trabalhava na Rua do Ouro, estava sempre perto do Tejo. António Carmo tem o olhar da Madragoa sobre o Rio Tejo, todos os dias diferente, todos os dias igual. Pela minha parte até 1996 andei sempre por ali perto: Rua do Ouro, Fontes Pereira de Melo, Rua Castilho, Rua do Instituto Industrial. Sempre perto do Tejo. Quando havia duas horas para almoço, o passeio dos empregados do BPA na Rua do Ouro era até ao Cais das Colunas. Dizia-se «virar o carro», expressão irónica em 1966 para quem, como eu, só teve acesso a automóvel próprio em 1983. Este quadro de António Carmo lembra dois aspectos da travessia do Tejo: a grande aventura das Descobertas e o trabalho quotidiano das fragatas.    

(Crónicas do Tejo 102)


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O filme «Dom Roberto», o teatro de rua e as cégadas


Tanto no Montijo (1957-1961) como em Vila Franca de Xira (1961-1966) como na minha terra natal (Santa Catarina) sempre me lembro (1951-1957) de ver o chamado teatro dos robertos. Os primeiros que vi terão actuado junto da casa do «tio» Zé Rebelo (casa que já não existe) talvez no local onde hoje está o pelourinho que ao tempo estava junto da casa do Zé Latoeiro. A minha avó Maria do Carmo não gostava da linguagem dos robertos (tudo à base do «rais ta parta») e levava-me consigo de volta com um argumento forte: «Isto é só miséria!». Entre 1961 e 1966, eles actuavam no Bairro do Bom Retiro em Vila Franca de Xira em frente ao café do Birra, do outro lado do Colégio Sousa Martins. Como a linguagem era a mesma, o meu pai desandava e nunca víamos o fim do espectáculo. Em Lisboa conheci de perto as cégadas a partir de 1966. Não é a mesma coisa pois nas cégadas os actores movimentam-se na rua e nos Robertos estão confinados ao espaço quadrado do pano. Nas cégadas havia sempre um polícia, um janota, uma mulher e um homem. Claro que no fim o polícia batia a torto e a direito no janota para defender a honra do homem. Depois da apoteose surgiam quatro rapazes com um lençol velho para onde as pessoas à janela atiravam moedas para o jantar dos membros da «trupe». A Travessa do Caldeira recebia muitas cégadas que vinham do Bairro da Bica. Recebia também «touradas». Um dia um toureiro improvisado depois de se ver livre da «vaquinha» (ou tourinha) que era uma roda de bicicleta com um par de chifres, estava à espera de aplausos e levou na cabeça com uma panela de água de uma moradora que não gostou da brincadeira. A resposta magoada e triste do actor amador foi fulminante: «Nunca mais trabalho nesta praça!»      

(Crónicas do Tejo 100 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Luís Alberto Ferreira – do azul de Luanda ao azul de Belém


Luís Alberto Ferreira (n.1933) é um magnífico jornalista luandense que desde cedo se tornou adepto do Clube Atlético de Luanda, agremiação especial de onde partiu gente para o MPLA – Américo Boavida e Diógenes Boavida foram seus jogadores. As calúnias contra este Clube («clube dos cozinheiros», «clube dos mulatos», «ninho de conspiradores») ainda deram mais força a uma entidade que nasceu, cresceu e sobreviveu «como um corcel de persistência e de estoicismo» tornando-se uma Escola de «amizades, de interacções e de solidariedades». Daí o nome de «Escola» que todos lhe davam, englobando neste «todos» a diversidade dos negros mestiços e brancos que estavam na Direcção (Aníbal Melo, Couto Cabral, Faliero Cunha, Alberto Luís Ferreira) e a massa adepta que ia dos musseques às Ingombotas e aos Coqueiros. Leitor atento da Revista Stadium, o jovem Luís Alberto reparava sempre num jogador dos azuis de Belém (José Simões) que usava um lenço dobrado sobre os calções negros. A camisola era azul como a do Atlético de Luanda. Anos depois, já estudante em Lisboa, o jovem luandense ia ver os jogos de Os Belenenses de eléctrico ao lado de Artur Quaresma e de Mariano Amaro. José Simões foi vitimado por uma pneumonia não sem antes ter visto a sua recusa em fazer a saudação nazi mascarada na capa de uma Revista onde alguém lhe desenhou os dedos. Pode ter sido essa «Escola» que ensinou Luís Alberto Ferreira a respeitar os outros que são adversários mas não inimigos. Por isso no funeral do extremo-esquerdo portista Nóbrega estavam poucos adeptos e nenhum dos «adesivos» que só aparecem nas vitórias. O pai de Rui e de Avelino Mingas também lá jogou e por isso há uma lógica quando Rui Mingas canta: «Fuba podre / peixe podre / pano ruim /cinquenta angolares / porrada se refilares».

(Crónicas do Tejo 109 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Do comboio de Falconwood ao comboio de Rio Maior


O meu neto Thomas está um homenzinho. Entrou para uma «Grammar School» em Londres e lá vai todos os dias com gravata e blazer no comboio que em sete minutos o leva para a Escola. Os sete minutos são os mesmos que me levam todos os dias ao Rossio. Gosto muito de todos os meus netos (são quatro) mas o mais velho é especial por ter sido o primeiro a nascer (2006) e por ser protagonista de um dos mas veementes poemas que escrevi - «Domingo à tarde em Falconwood». Pois a memória magoada desse domingo à tarde no jardim junto aos comboios de Falconwood com o seu arraial de exclusão, de maldade e de estupidez («sumos de pacote e bolos de fábrica») levou-me a recordar a Feira de Rio Maior. Além dos cabos de cebolas de Alvorninha, havia uma corrida de bicicletas com os homens da Volta a Portugal. Na curva da estrada colocavam fardos de palha. Ainda me lembro dos agentes da P.V.T. e das suas ruidosas máquinas. Outra máquina era o comboio que me lembro de ter visto em Rio Maior. Era uma locomotiva adaptada à via reduzida. Eu sentia-me excluído da Feira de Rio Maior porque quando queria alguma coisa a resposta era sempre a mesma: «Tu não tens querer!» Muitos anos depois em Falconwwod o meu neto Thomas foi excluído não de uma festa de aniversário (estavam no seu direito) mas do convívio com os seus amigos de rua e de escola que estavam a poucos centímetros do nosso banco de jardim. Há uma música triste comum às duas exclusões como se o comboio trouxesse na sua via reduzida a redução da vida ao rancor, à maldade e à estupidez. Ou seja à exclusão. Os meus avós podem ter a desculpa do tempo cinzento («Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma») mas as mães de Falconwood não podem ter perdão. O meu neto Thomas vai estudar numa escola onde os filhos delas nunca vão entrar.     

(Crónicas do Tejo 94 – fotografia de autor desconhecido)


domingo, 10 de dezembro de 2017

Pedrógão Grande, Tancos e José Gomes Ferreira - o Senhor da Serra é longe de Sintra


Algumas patacoadas escritas sobre os mortos de Pedrógão Grande e o assalto a Tancos levaram-me a lembrar os 25 mortos do Regimento da Artilharia Ligeira de Queluz na Serra de Sintra no dia 8-9-1966. Folheando o Diário de José Gomes Ferreira (1900-1985) leio esta entrada relativa a esse dia: «Esta madrugada ouvi, pela primeira vez nos longos anos da minha existência, os regougos de uma raposa perto de casa. Descoberta de um mundo misterioso que aproveita o ante-nascimento do Sol para a liberdade sem homens.» em 1966 havia a Censura e o Senhor da Serra era longe de Sintra. Só em 17 de Setembro de 1966 o «poeta militante» escreve «De novo em Albarraque». O Senhor da Serra é perto de Coimbra e Sintra é perto de Lisboa. Num país pequeno como Portugal essas ciosas contam. Na Rua do Ouro os cafés estavam cheios de gente ansiosa por notícias não «visadas pela Censura». A verdade é que 51 anos passaram num instante e todas as mortes nos dizem respeito. Mesmo quando não parece. No dia 12 de Janeiro de 1966 José Gomes Ferreira (1900-1985) escreveu no seu Diário: «Em Janeiro de 1966 existem em Portugal 13 escritores cujos nomes não podem sair nos jornais. A saber: quatro componentes do júri que deu o prémio ao Luandino Vieira: Augusto Abelaira, Alexandre Pinheiro Torres, Fernanda Botelho e Manuel da Fonseca. E os nove assistentes que em Roma, na reunião da Comunidade Europeia de Escritores, votaram a expulsão do Paço de Arcos: Sophia de Mello Breyner, Mário Sacramento, Natália Correia, Francisco Rebelo, Jorge Reis, Fausto Lopo de Carvalho, o Tareco, o José Augusto França e o Urbano Tavares Rodrigues. E neste país de abaixo-assinados ainda não apareceu nenhum protesto de escritores contra este facto inaudito que nos marca a todos a ferro em brasa.»
   
(Crónicas do Tejo 93)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Netos, cirurgião, pianista e guarda-redes ou a magia das mãos



Aqui estou depois de seis dias de «estadia» no Hospital da Luz onde fiz vários exames e fui operado a uma neoplasia do cólon. Tudo começou no Museu da Água onde caí por ter batido com o joelho num pilarete. Levado para o Hospital de São José pelo INEM, tive um tratamento cinco estrelas tanto na viatura como no «Banco» com várias análises e exames. A razão do meu problema era a anemia; faltava saber como e quando eu perdia sangue. A cirurgia aconteceu em 16 e o regresso a casa foi em 21. Os meus quatro netos tiveram uma reacção curiosa: os três mais velhos enviaram cartões com incentivos, o mais pequeno ficou atónito perante a panóplia de cateteres no pescoço do avô. Os desenhos dos mais velhos são uma ternura e a colagem do terceiro é uma delícia. Não tenho palavras disponíveis para dizer obrigado a todos (família, amigos e conhecidos) todos irmanados na ideia de fazer e desejar o melhor. Até o  meu filho tirou dois dias de férias. O cirurgião tem mãos mágicas e nunca lhe poderei agradecer o que fez por mim. Pode ter sido baptizado pelo pároco da sua terra, primo da minha avó e com quem trabalhei na sua «missa nova». O pianista cujas mãos mágicas recordo em Cascais e Lisboa e nos discos de Colónia e Tóquio, esteve na origem dum poema do meu primeiro livro de 1981. Foi premiado pela Associação Portuguesa de Escritores sendo o júri composto por Armando Silva Carvalho, Fernando J.B. Martinho e Pedro Támen. Sem ele talvez nunca tivesse escrito «Os guarda-redes morrem ao Domingo» que deu origem a um livro com o mesmo título. Pensei muito nele naqueles dias de Hospital. Tal como pensei no pianista e no cirurgião. Afinal a magia da mão é a mesma e até os meus netos com os seus desenhos e desejos fazem magia porque juntam de novo tudo o que a morte esteve prestes a separar.

(Crónicas do Tejo 104)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Em Maio de 1967 no Jamor, ali muito perto do Rio Tejo



Em 25 de Maio de 1967 eu tinha 16 anos e ainda se ia para o Estádio Nacional de eléctrico com atrelado. Foi lá que vi na final da Taça dos Campeões, o jogo entre o Celtic e o Inter com o capitão Billy McNeill receber a Taça dos Campeões Europeus das mãos de Américo Tomás, o ao tempo presidente da República. Tudo começou com um balde de água fria: o golo de Alessandro Mazolla de grande penalidade logo aos 7 minutos. Golo do Inter, 1-0 para os italianos. Na segunda parte Tommy Gemmel empata e Steve Chalmers assina o golo da vitória que poderia ter sido mais dilatada se não fosse a excelente exibição do guarda-redes italiano – Sarti de seu nome. Ficou na minha memória o endiabrado jogador Jimmy Johnstone que espatifou por completo a defesa do Inter. Não esqueço esse jogador endiabrado também porque mereceu da Fábrica Fabergé um ovo desenhado em sua honra, depois de Czares e Czarinas da Velha Rússia terem tido essa honra tão especial. Mas também não esqueço um homem de quilt que passou o tempo todo a cantar e a dançar, numa espécie de êxtase de paixão; o homem cantava antes, durante e depois do jogo, o mesmo é dizer com 0-0, com 0-1, com 1-1 e com 2-1. O escocês cantou e dançou sempre com o seu quilt e a sua bandeira. Hoje dia 27-10-2017 fui com um casal de amigos escoceses e seus dois filhos ao Estádio Nacional onde tirámos fotografias e festejámos a vitória do Celtic. Eu tinha 16 anos e hoje tenho 66, o tempo passa a voar. O Steven era um bebé e só sabe do que ouviu contar. Diz a lenda que ainda há adeptos do Celtic em Lisboa a festejar porque nunca voltaram a Glasgow e a Edimburgh. São os leões de Lisboa. O passado nunca acaba e nem sequer ainda é passado, tudo está presente, tudo se vê de novo e é isso que faz do futebol um mundo ainda fascinante. 

(Crónicas do Tejo 99 – Fotografia de autor desconhecido)

sábado, 16 de setembro de 2017

Dissertação para um quadro de Maria de Lourdes Mello e Castro


Num primeiro olhar vejo neste belíssimo quadro de 1957 o sorriso de Lena, a menina de 1976 quando subia ao monte de pedras do Jardim da Estrela para ver o Rio Tejo. Lena, ela-mesma, a Leninha, a mais nova num gruo de cinco irmãos (Kiki, Guida, Tó, Rui, Lena) a Lena que estava na Quinta do Conde num tempo de sonhos quando parecia a todos nós que o tempo não voava, como voa, afinal. Escreveu um dia Ruy Belo que «o medo da morte é a fonte da arte» e talvez seja essa a razão para o quadro de Maria de Lourdes Mello e Castro e para a minha obscura e discreta crónica. Hoje estamos em 2017, sessenta anos depois do quadro, falo com Lena uma vez por ano e sei que as suas filhas já estudam na Universidade. Eu próprio sou um portador de passe da terceira idade que me dá descontos porque pago hoje metade do que pagava em Fevereiro passado. A viagem da obra de arte é outra, não precisa de autocarros ou Metros nem de comboios para atravessar a paisagem e o povoamento da nossa vida cinzenta.
A obra de arte torna-se mais portátil, mais leve, mais particular. Graças à multiplicidade das cópias de um quadro de 1957 podemos hoje recordar num óleo com sessenta anos uma menina que nasceu em 1976 e nunca mais saiu da memória deste seu amigo nascido em 1951. Num quadro, tal como num poema, cada leitor apropria-se daquilo que julga poder guardar junto ao lado mais sentimental do corpo humano – o lado do coração. Num certo sentido não podia ser a Lena que em 1957 ainda não tinha nascido mas no quadro é de facto, na verdade, a Lena. Essa Lena de 1976. O esplendor do sorriso, a luz do olhar, a serena contemplação do Mundo. Ou dito de outra maneira e como queria André Breton: «É no amor humano que reside todo o poder de regeneração do Mundo».                         

(Crónicas do Tejo 77)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bruno Vieira Amaral e a paisagem povoada do Mar da Palha


Fui de Santa Catarina viver para o Montijo em 1957. A casa ficava na Rua Sacadura Cabral nº 68 e, além de estranhar a água quente nas torneiras, há nesses primeiros tempos uma frase  de uma senhora «fina» ouvida numa Pastelaria do Montijo: «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!» Num certo sentido era como a frase do repugnante ditador: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!» Quem não quisesse viver quotidianamente podia ir de férias para o Aljube, Peniche, Caxias ou Tarrafal. Nesse tempo -1957 - a vida no Montijo era dominada pelo Mar da Palha: fragatas em vez de Ponte, galeras em vez de camiões, lentidão em vez de pressa. O lixo de Lisboa vinha em batelões e era descarregado no Porto da Lama. Era vulgar ouvir falar do ciclone de 1941 que matou muitos fragateiros e os sobreviventes apareciam nos ex-votos do Santuário da Senhora da Atalaia. Na rua onde morava havia a passagem de galeras de Pegões carregadas de cortiça; no regresso levavam fardos de palha e ferro para portões. Eu era apanha-bolas do Desportivo no Campo Luís Almeida Fidalgo atrás da baliza do Redol, o lendário guarda-redes. Em 1957 ainda se falava do Padre Cruz (1859-1948) que um dia parou na nossa rua para beber água na fonte da Tia Pagá. O nosso vizinho Ilhéu fazia os melhores torresmos do Mundo, a Delvira morava no Beco do Esteval, eu ia para a Escola Primária e parava com o nariz colado ao vidro das oficinas do jornal «Gazeta do Sul». Foi nas suas páginas que o poeta Sebastião da Gama se estreou. A Rua Sacadura Cabral ficava perto do Cemitério, pelo meio apenas a Rua do Norte. Ainda tenho em mim os gritos de uma mãe que viu morrer o filho atropelado no Afonsoeiro. O livro «hoje estarás comigo no paraíso» de Bruno Vieira Amaral fez-me recordar tudo isto porque o Mar da Palha é o mesmo.


(Crónicas do Tejo 83 - Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O castelo de S. Jorge está em frente e o Tejo logo à direita


Nota prévia - A foto original é de José Antunes («Diário Popular») e o trabalho da criação do «postal» é de Carlos Vilas (Centro Comercial Nevada - Estrada de Benfica). Os meninos dos verdes estão na casa dos cinco anos. Nessa idade tudo é de graça - não há preço nem para as lágrimas nem para os beijos. A foto original inclui meninos dos «amarelos» e dos «encarnados», o mesmo é dizer dos três e dos quatro anos. Das monitoras a única que se reconhece é a Guiomar. Por acaso hoje em 2017 a Guiomar já não está no Colégio onde meu neto Pedro repete os passos do pai (Filipe) e das tias (Ana e Marta) no longo caminho de «tornar-se pessoa». Aliás um belo título de Carl Rogers . A crónica já viajou na paisagem e no povoamento e agora fixa-se na figura de Marta. Ela insiste na ideia de que não é aquela segunda menina do lado esquerdo; isto mesmo contra o testemunho da monitora Guiomar, aquela que lidera o grupo dos meninos de verde. Mas não é importante que Marta, hoje com 31 anos, não se reconheça na foto de José Antunes, trabalhada em formato de «postal» por Carlos Vilas. O que conta mesmo, o que vale e o que tudo justifica é a temperatura sentimental da crónica assinada por quem se coloca defronte do teclado. Frente aos meninos está o castelo de São Jorge e, logo à direita, o Rio Tejo. Temos de um lado o tempo cristalizado dos séculos que passaram pelo castelo; do outro lado temos o tempo imparável do rio que se demora algum tempo no Mar da Palha, antes de desaguar no Oceano Atlântico. De um lado séculos; do outro milhões de anos. Frente a esta dupla imagem que os meninos defrontam, a sua idade nada conta. São pequenos, usam bibe verde e trazem no seu olhar toda a esperança do Mundo. E todo o Amor sem o qual nenhuma esperança é possível.

(Crónica do Tejo 82 - Fotografia de José Antunes)   
   

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Aniceto Carmona de Vila Velha de Ródão a Lisboa


Aniceto Carmona partiu de Vila Velha de Ródão e, ao contrário do Tejo que se demora no Mar da Palha, vai desaguar na Feira da Ladra, Esta Feira e um grande mar de coisas efémeras sempre à procura da posteridade. Pode ser uma BOLA de 1994 ou um livro de Leopoldo Nunes sobre Madrid. No largo Trindade Coelho, a mesa do artista da caricatura, é uma convocatória de amizades e de memórias. Aqui era o escritório do Ezequiel Carradinha que dava três contos de réis ao jornalista mais o envelope com os retratos e uma semana depois o livrinho estava pronto. Uns a verde, outros a azul, outros a encarnado, outros a branco. Jesus Correia chegou a ser campeão nacional em futebol e campeão do Mundo em hóquei. Tinha um emprego na Rau do Salitre e à noite comia uma travessa de arroz doce que a mãe lhe deixava na cozinha. Em 1948 um médico sueco nem sequer sabia o que era arroz doc. Ficou a saber e levou um prato dessa sobremesa no avião ao regressar a Estocolmo. No primeiro dia de caricaturista, Aniceto Carmona ouviu no Bairro Ato uma rapariga queixar-se «Ó filho ainda não me estreei» e mais, tarde, à saída da redacção de «Os Ridículos» ouviu uma solene advertência: «Eu só faço o natural; se queres variedades vai ao Teatro» Era o tempo das matriculadas no Governo Civil; tirar uma mulher da vida começava sempre pela entrega da cédula ao oficial de dia na Rua Capelo. Há uma pequena colónia de raparigas portuguesas no Pireu em Atenas. Trabalhavam em bares do Cais do Sodré e foram levadas por marinheiros gregos à procura de uma vida melhor. Aniceto Carmona coloca vida nas suas caricaturas, Cada desenho seu convoca uma cidade de fragatas, de polícias sinaleiros e de eléctricos com atrelado. As fragatas levou-as a Ponte, os sinaleiros foram levados pelos semáforos, os eléctricos desapareceram e no seu lugar há um trânsito febril. Aniceto Carmona não esquece uma legenda de Luís Alberto Ferreira: As três Primaveras. Uma legenda bonita com três mulheres bonitas.

(Crónicas do Tejo 81)