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sábado, 11 de outubro de 2025

«Os nossos heróis do Desporto» de Rui Miguel Tovar


Este livro de 119 páginas ilustrado por Andrea Ebert conta 50 histórias de 51 figuras do Desporto em Portugal: Alexandre Yokochi, Armando Marques, Carlos Lopes, Carlos Resende, Cristiano Ronaldo, Diogo Ganchinho, Duarte Bello, Edite Fernandes, Elisabete Jacinto, Emanuel Silva, Eusébio, Fernanda Ribeiro, Fernando Bello, Fernando Gomes, Fernando Pimenta, Figo, Filipa Martins, Frederico Morais, Fu Yu, Gustavo Lima, Hugo Chapouto, João Sousa, Joaquim Agostinho, José Mourinho, Livramento, Luciana Dinis, Madjer, Marcelino Sambé, Marco Freitas, Michelle Brito, Miguel Maia, Miguel Oliveira, Naide Gomes, Nelson Évora, Nuno Delgado, Obikwelu, Pedro Fraga, Peyroteo, Ricardinho, Rosa Mota, Rui Bragança, Rui Costa, Sandra Bastos, Sérgio Paulinho, Telma Monteiro, Teresa Bonvalot, Tiago Pires, Ticha Penicheiro, Tomaz Morais, Vanessa Fernandes e Vítor Hugo. A explicação é que Duarte e Fernando Bello são irmãos. Nuno Delgado (n.1976) está na página 82: «Como é uma criança com energia para dar e vender, os pais inscrevem-no na Casa do Benfica de Santarém, onde vive. Rapidamente chega a tricampeão nacional.» Para Diogo Ganchinho a página 22: «Nascido e criado em Santo Estevão, o atleta dá os primeiros passos aos 6 anos no meio rural de uma vila pertencente ao concelho de Benavente. O Clube de Futebol Estevense tem apenas um minitrampolim e um colchão». Sobre Cristiano Ronaldo lê-se na página 20: «A sua vida já deu dois filmes e uma série interminável de livros. Ronaldo é Aquário. Como Eusébio, aliás.» Se o livro tivesse outra disponibilidade poderia integrar António  Bessone Basto, Joaquim Fiúza, Francisco Rebelo de Andrade, José Manuel Quina, Mário Quina, Hugo Rocha e Nuno Barreto. Entre outros, claro. Um belo livro.

(Editora: Nuvem de Tinta, Prefácio: José Manuel Constantino, Edição: Diana Garrido, Revisão: Cristina Correia, Paginação: Maria Alves, Capa: Pedro Aires Pinto)

[Livros e Autores 32]

 

terça-feira, 22 de julho de 2025

Contributo para a História do Clube Futebol Benfica

 


Domingos Estanislau (n,1946 - Ferragudo) foi presidente da Direcção do Clube Futebol Benfica entre 1988 e 2022. A partir do conhecimento profundo da vida do Clube, escreveu uma viagem ao passado da Instituição (fundada em 1895) que envolve a História geral do Clube mas também o perfil pessoal de muitos atletas de diversas modalidades que inscreveram o seu nome na História do Desporto em Portugal. Francisco Lázaro, Olivério Serpa, Fernando Adrião, Sidónio Serpa, Torcato Ferreira, António Livramento, Aurélio Pereira e Artur Correia são um exemplo de quem saiu deste Clube para a posteridade. Num registo diferente, o livro recorda figuras que atingiram patamares de alto nível em diversos sectores quer como jogadores, quer como dirigentes, treinadores ou jornalistas: Carlos Pereira, Paulo Bento, Silveira Ramos, Carlos Freitas, Paulo Garcia, João Fonseca, Jean Paul e Diogo Luís. O livro tem 316 páginas e foi apresentado por Sidónio Serpa no Palácio Baldaya na Estrada de Benfica no dia 19-7-25 perante uma assistência numerosa onde registámos (entre outros) José Peseiro, Shéu Han, João Barnabé, Silveira Ramos, Augusto Baganha, Carla Couto, Edite Fernandes, Helder Campos, Miguel Pacheco e Bernardo Ribeiro (Jornal RECORD). Na página 203 o autor faz uma revelação curiosa sobre o facto de ter sido treinador interino de uma equipa do futebol juvenil do seu Clube: «Costumo dizer aos meus amigos que fui o primeiro treinador do Mundo a jogar com três centrais. E, bem vistas as coisas, até é verdade, as equipas na altura jogavam com 4 defesas, 3 médios e 3 avançados». As 31 fotos a cores tornam este livro uma verdadeira fotobiografia do Clube. 

(Editora Espaço Ulmeiro, revisão Rita Guimarães, capa e grafismo Armando Cardoso, prefácio Ricardo Marques). O livro integra textos (entre outros) de Pedro Macieira, Jorge Marques da Pastora, Mimoso de Freitas, Nuno Markl, Vitor Cândido, David Pereira e Aurélio Pais.

  

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

«História do Sporting Clube de Portugal» de Luís Augusto Costa Dias com Paulo J.S. Barata

Com o subtítulo de «Uma nova abordagem das origens aos anos Alvalade» este livro de 254 páginas tem o ponto de partida na página 12: «Esta História do Sporting Clube de Portugal é, a vários títulos, nova, antes de mais porque ao inserir a história do clube na história da cultura e do desporto em Portugal, a inscreve na Nova História Cultural, que se coloca no social e radica a análise de factos, pessoas e instituições nos contextos mais amplos das sociedades. Apesar de se tratar de uma nova abordagem, não se pretende fazer aqui uma reescrita de história do Sporting, antes a sua renovação e aperfeiçoamento.» O facto de esta «era» da vida do Clube ser chamada «Anos Alvalade» assenta em Salazar Carreira, conhecido atleta e dirigente que escreveu o seguinte em 1922 no Boletim do SCP: «Quando um dia se escrever a história do nosso clube, já cheia de páginas de glória, ligando intimamente a sua vida à vida do desporto português, salientar-se-á formidavelmente a influência indirecta de José Alvalade no desenvolvimento do desporto nacional.» Afirma-se na página 61 «José Alvalade não foi apenas um criador de instalações desportivas; foi sobretudo um excelente organizador, obstinado, rigoroso, meticuloso. Foi ainda um conceptualizador, um empreendedor e um concretizador de planos. As suas ideias veiculam uma nova noção de desporto e de prática desportiva.» Eis uma citação do seu texto de 1910: «O carácter português é orgulhoso e sobretudo pouco paciente. O seu desideratum é conseguir em pouco tempo, ou para ser mais exacto, é conseguir mais do que pode ser.» Do Sport Club de Belas em 1902 ao Campo Grande Foot-ball Club em 1904 e ao Sporting Clube de Portugal em 1906, é uma «viagem» a não perder.       

(Editora: Contraponto, Edição: Paulo Morais e Raul Couceiro, Revisão: Luísa Pinho e Cristina Dionísio, Design da capa: Diana Cordeiro)

 [Livros e Autores 30]


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Há sempre coisas que ficam por dizer



Uma crónica é um contrato entre o jornalista, o director do Jornal e os leitores. Os termos podem não ser reduzidos a escrito mas, como nos velhos tempos, vale sempre o aperto de mão e a palavra de honra. O jornalista dá o seu melhor, o director do Jornal concede-lhe um espaço que vale ouro e os leitores dão ao texto a melhor atenção possível. Ao chegar à crónica nº 200 dei por mim a reler algumas delas - desde logo porque queria fazer uma escolha para a edição de um futuro livro no qual se reúnem cinquenta. Na crónica nº 165 publicada em 10 de Maio de 2019 gostaria de ter acrescentado «A tua voz tem o registo da mais alta Poesia, instável mas feliz ponto de encontro entre a saudade e o sonho, entre o passado e o futuro, entre a sombra e a luz. Porque, tal como numa liturgia urbana, há no ouro das alfaias da tua voz um tempo de celebrar, de convocar, juntar e harmonizar de novo tudo aquilo que, no nosso coração, a morte acabou por separar.»Continuo a pensar que o Jornalismo é uma disciplina da Literatura porque o Jornalista é o Historiador de todos os dias. Agora no momento em que escrevo faltam poucos dias para que Cristiano Ronaldo celebre 35 anos mas tudo teria sido diferente se no dia 24 de Outubro de 1999 um grupo de Homens (árbitro, enfermeiro, delegado) não tivesse dado o melhor de si para o salvar de uma taquicardia grave no decurso de um jogo de Iniciados Casa Pia-Sporting. E o jornalista que relatou com fidelidade e pormenor a situação fui eu porque eu estava lá nessa manhã de Domingo. O Jornal «Sporting» foi o único que referiu o problema mas compreende-se: o jogador ainda não era famoso nem em Portugal nem na Europa nem no Mundo. E porque há sempre coisas que ficam por dizer é que desde 1978 ainda não parei de escrever nos jornais. E espero continuar.    

[Crónicas do Tejo 225] 

(Fotografia de Vinicius Carriço)   

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A luz e a sombra no olhar de Rui Jordão


Escrevo para juntar de novo o que a morte separou. De Rui Jordão tenho três histórias; duas que ouvi contar e outra que vivi. O jogador natural de Benguela aproveitou uma ida a Espanha para receber algum do dinheiro que lhe ficaram a dever no Saragoça mas as notas tiveram de ser distribuídas por todos os jogadores do Sporting Clube de Portugal na camioneta. Logo em Elvas começou o meticuloso trabalho de recolher o dinheiro entregue a cada um para poder passar na fronteira. Dizem que quando um amigo esteve em Cabo Verde, Rui Jordão foi visitá-lo: meteu-se num avião e viajou quem sabe a lembrar os quintalões de Benguela onde se podia jogar sem relógios em muda aos seis acaba aos doze. Há uma dupla inscrição. O inventário ao lado do esplendor da amizade. O grupo de amigos do futebol integrava Mário Jorge e Manuel Fernandes. Um dia no Estoril estava com Mário Jorge na esplanada quando Jordão passou por nós em corrida matinal. Nem mesmo o ter sido chamado pelo nome o demoveu. Olhou para mim e terá tido a intuição de que eu sou jornalista; seguiu em frente e nunca mais consegui palavras suas para um livro. Ainda bem que no tempo de Fernando Assis Pacheco havia disposição para entrevistas: o livro é «Retratos falados» da Editora ASA. Os homens querem os seus momentos de luz e os seus momentos de sombra. A mim calhou-me a sombra nessa manhã de esplanada no Estoril. Talvez não tenha sido o Jordão, ele-mesmo. Pode ter sido o seripipi de Benguela, ave de vasta paleta de cores: plumagem de canela, face negra, peito e garganta cinzentos, ventre dourado e rabadilha vermelha. Sendo natural de Benguela «leva no bico uma esperança» como dizem os versos de Ernesto Lara Filho e a música de Carlos Mendes.  Há no olhar de Rui Jordão o peso da sombra e a força da luz. Como num quadro, a vida insinua esta verdade: é a sombra que dá relevo à luz. É a morte que cria dimensões na vida. Há no olhar de Rui Jordão a fusão de três mundos: animal, vegetal e mineral. O mesmo é dizer: seripipi de Benguela, infinitos quintais das casas e pedras junto ao mar. O mar onde Rui Jordão corria todas as manhãs à procura das ondas onda cabe a beleza de todas as sereias e a massa sonora de todas as orquestras.      

(Fotografia de autor desconhecido)       

sábado, 21 de setembro de 2019

Uma memória para José Pereira e Pepe - «Os Belenenses» cem anos depois


A propósito dos cem anos do Clube «Os Belenenses» que ocorre em 23-9-2019 não posso deixar de manifestar o meu desagrado pelo facto de o jornal «Diário de Notícias» de hoje 21-9-2019 ter dedicado um Suplemento Especial ao facto histórico mas ter esquecido dois daqueles que eu considero elementos chave da memória do Clube azul da cruz de Cristo. Sobre José Pereira nada ou quase nada sei. Ainda ontem falei com uma pessoa do Jornal «Badaladas» de Torres Vedras onde ele terá nascido em 15-9-1931 mas nada de concreto fiquei a saber. Sei que jogou no Mundial 1966 ao lado dos Magriços mas depois foi para Barcelona onde viveu e terá regressado ao Caramão da Ajuda. Sobre Pepe (1908-1931) apenas uma frase tirada de um poema dito por Barroso Lopes na Revista «O Mexilhão no Teatro Variedades: «Era a alma do povo em corpo de rapaz!» 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

«O livrinho dos campeões» de António Manuel Venda



Com o subtítulo de «e outras histórias de um adepto do melhor clube do mundo» o livro integra 25 crónicas em 151 páginas, selecionadas por António Manuel Venda (n.1968) que explica na nota final: «Estes textos foram escritos ao longo de muitos anos, desde a segunda metade da década de 1990. São os vinte e cinco selecionados de centenas que escrevi sobre futebol para meios de comunicação social (dois inclusive da minha terra, o Jornal de Monchique e a Rádio Fóia) e também para espaços on-line (como o blog sportinguista És a nossa fé). Com a derradeira revisão feita em Agosto de 2017, surgem no final com referências a acontecimentos a que dizem respeito e com o ano em que foram originalmente escritos.» O presente volume é dedicado aos filhos do autor (Bernardo, Madalena, Francisca e Rodrigo) e à memória de Malcolm Allison (1927-2010) treinador do Sporting Clube de Portugal na época desportiva de 1981/1982. O título do conjunto é retirado do primeiro texto do livro: «A primeira vez em que vi um jogo do Sporting ao vivo foi no Estádio do Portimonense, em Portimão, na memorável época do título com o treinador inglês Malcolm Allison. O resultado está num livrinho de páginas brancas que fui preenchendo a cada dia em que a equipa jogava. Numa entrada de quatro de Abril de 1982 surge a minha letra tremida com o registo de uma surpreendente derrota.» Não é só de vida e de vitória que estas histórias tratam; também se recorda a morte de um sócio «leonino» numa final da Taça de Portugal: «sobre o apito inicial do árbitro, um adepto do Sporting foi atingido no peito por um very light lançado por alguém das claques do Benfica. Teve morte imediata.» Um dos registos deste livro é o do humor, como na página 64: «A verdade é que o árbitro terá ficado pior do que doido ao ver as raparigas a entrarem-lhe pelo quarto adentro. Quase vinte e quatro horas depois o clube haveria de perder o jogo e sem grande exibição do adversário. Muitos comentadores acabariam por falar de uma noite infeliz do árbitro; sem saberem, é claro, que a noite infeliz tinha sido a anterior.» Outro registo é o futuro como na página 127: «Tenho uma fotografia das do telemóvel que invariavelmente me deixa espantado. Um torneio de futebol no Verão de 2014, para miúdos, em Montemor-o-Novo, num campo ao ar livre. Futebol de cinco, já com a noite a cair. Vejo bem o meu filho mais velho nessa fotografia e um pouco afastado dele, um colega. Não têm o equipamento preto do Grupo União Sport.» Uma nota final citando a página 33, talvez o melhor exemplo daquilo que este livro pode proporcionar, ligando o pó e a posteridade: «Numa das fotos a mulher está a encher um garrafão de água na Fonte da Santa, já perto do Alto de Fóia, enquanto Cadorin segura a filha pequenina pela mão. A casa dos meus pais, onde eu vivia então, fica mais abaixo no sopé da montanha. Só na entrevista da filha, mais de vinte anos depois, descobri que ele ia com a família buscar água à minha terra. Quanta energia para os golos terá conseguido assim?»

(Editora: On y va, Capa: João Paulo Fidalgo, Foto: João Andrés, Contracapa: Rodolfo Begonha)  
          
[Um livro por semana 625]

sábado, 15 de setembro de 2018

Os Totós ou Futebol, Mentiras e Falsificações


Nota prévia – Este Totó é um magnífico trabalho de caricatura do meu grande amigo Aniceto Carmona, natural de Vila Velha de Ródão. Primeiro caso: No «Notícias Magazine» de 18-3-2018 integrado no jornal «Diário de Notícias» desse dia o texto de Ferreira Fernandes refere as datas de Fernando Peyroteo como 1918-1968 quando o correcto é 1918-1978. Segundo caso: No Palácio Baldaya, numa exposição sobre o passado de Benfica, refere-se a Fábrica Simões & Cia Lda (malhas e confecções) situada na Avenida Gomes Pereira e pode ler-se o seguinte: «Fábrica em Palma de Baixo (Lumiar)». Terceiro caso: Na Estrada de Benfica está escrito numa chapa metálica da Câmara Municipal de Lisboa o seguinte: «Campo da Feteira. Este foi o primeiro campo atlético que pode considerar-se ter pertencido ao então designado Sport Lisboa, actual Sport Lisboa e Benfica. Inaugurado em 1907, o campo tinha capacidade para 8.000 espectadores, medindo 120 metros de comprimento e 79 metros de largura. O erro está na confusão estabelecida entre o Grupo Sport Lisboa, fundado em Belém no dia 28 de Fevereiro de 1904 e o Sport Lisboa e Benfica fundado em 13 de Setembro de 1908. Pelo meio fica o Sport Clube de Benfica, fundado em 26 de Julho de 1906, esse sim o proprietário do Campo da Feteira. O Sport Clube de Benfica praticava o atletismo e o ciclismo. Por essa razão o emblema do novo Clube em 1908 (S.L.B.) inclui a roda da bicicleta ao lado da bola e da águia. Não saber isto é ser Totó. Utilizar expressões dúbias como «pode considerar-se» é mais que isso, é ser Totó ao quadrado. Ninguém os proíbe de serem Totós mas não podem é tratar os outros como se fossem Totós. Deixem isso para a Universidade da Rabicha que tem uma parede branca capaz de aceitar tudo. Todas as mentiras e todas as falsificações.

(Crónicas do Tejo 126)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

«Big Mal & Companhia» de Gonçalo Pereira Rosa



Portugal é um país pequeno na Geografia mas grande nos Paradoxos; tropeçamos no insólito, no peculiar, no inesperado. Há o morto que fala, o cantor que não canta, o juiz que fala na TV e nos jornais. No Futebol Português primeiro jogou em 18-12-1921 a selecção nacional e só depois em 18-6-1922 se disputou a final do Campeonato de Portugal. O paradoxo deste livro de Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) está implícito: os estágios nos hotéis foram o motivo de ruptura, hostilidade e afastamento de Allison mas foi em algo parecido com estágios (almoço, lanche e jantar em restaurante) que os jogadores do Sporting criaram, cimentaram e deram corpo à sua união, à sua amizade e ao seu companheirismo. Dinis Machado contou-me que seu pai, Oliveira Machado, dono do «Farta Brutos», ex-árbitro, colaborador do RECORD e benfiquista fanático, o levou à Rua Jardim do Regedor para ver a Sala de Troféus do SLB. No fim da visita ouviu-o dizer: «Eu sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!». Gonçalo Pereira Rosa apertou a mão a antigos jogadores leoninos e ao longo de quatro anos reuniu depoimentos: Meszaros, Melo, Fidalgo, José Eduardo, Francisco Barão, Inácio, Eurico, Zezinho, Virgílio, Marinho, Ademar, Lito, Mário Jorge, Esmoriz, Carlos Xavier, Freire, Alberto, Nogueira, Manuel Fernandes e António Oliveira. Não só os jogadores mas também outras figuras da época: Mário Mateus (Marinho), Manuel Pinto Coelho, Armando Biscoito, Eugénio Silva Ribeiro e João Xara Brasil. O livro tem 316 páginas, 12 capítulos e 1 epílogo e com as 16 páginas a cores é uma fotobiografia. Um dia Brian Clough, em conversa com Allison afirmou: «Não terás problemas com directores até ao momento em que tiveres sucesso». Pedro Gomes e Barnabé testemunham a mesma atitude; depois de vitórias nas «Reservas» do Sporting com o Alhandra e o Sintrense foram castigados por falta de empenho. O mesmo é dizer falta de esforço, devoção e dedicação. Os directores nunca poderão ter com eles a glória; só lhes resta o poder. Andei pelo país de 1988 a 2006 em reportagem para o Jornal SPORTING e posso testemunhar que Jesus Correia ou Manuel Fernandes eram festejados com júbilo enquanto os vice-presidentes eram ignorados. O despedimento do médico Pinto Coelho por um director à porta do autocarro «leonino» foi uma facada no treinador Alison, seu amigo de todas as horas. Em 1928 nos Jogos Olímpicos de Amsterdão Portugal começou por ganhar ao Chile por 4-2 e à Jugoslávia por 2-1 vindo a perder com o Egipto por 2-1, o Egipto que a Itália venceu por 9-0. A equipa do Sporting teve uma maldição parecida: venceu o Campeonato e a Taça de Portugal mas foi eliminada na Taça UEFA por uma equipa com nome de medicamento. O incrível aconteceu em 1982 como em 1928. Passar do particular para o geral é um dos méritos deste livro. Cada história vale por si mas desenha o quadro de um tempo português em 1981-82 um tempo sem telemóveis nem Internet mas no qual já existiam as raízes do actual estado de coisas. Um exemplo: Southampton e a tentativa de esconder na RTP o filme do jogo no qual pela primeira vez uma equipa portuguesa venceu uma equipa inglesa em Inglaterra. A página 167 do livro compara o jogo de futebol a um circo. É um tema que dá pano para mangas. Um dia Fernando Assis Pacheco escreveu «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa». Eu digo «Se eu fosse Deus faria com que este livro tivesse os leitores que merece». E apertava a mão ao Gonçalo como o Dinis Machado apertou ao Jesus Correia.

(Editora: Planeta, Revisão: Fernanda Fonseca, Fotos: José Lorvão e Arquivo Manuel Pinto Coelho -  Um livro por semana 593)
   

domingo, 13 de agosto de 2017

Carta a João Oliveira e Costa


Quando aceitei o seu pedido de amizade no Facebook estava a lembrar-me da entrevista que lhe fiz para a «Gazeta das Caldas» a propósito do seu livro «O império dos pardais». Nunca esperei que minutos passados caísse no meu Facebook uma chuva de tretas saídas não da sua Universidade mas da Faculdade de História da Rabicha, ali a Campolide, lugar onde a História é falsificada. Para além das tretas custou-me muito ver que em alguns comentários aparece a expressão «Carrega Benfica» que é uma cópia mentirosa, repugnante e mal feita de uma frase  do treinador Joseph Szabo (há quem escreva José Sezabo) dirigida a Fernando Peyroteo. Vem na página 85 do livro «Memórias de Peyroteo» e a sua expressão integral está na frase - «Não esquecer principal papel dê avançado-centro: Carega Maria!! (Compreenda-se atirar ao golo)» O comentário entre parêntesis é do autor do livro, Fernando Peyroteo.
Por favor arranje maneira de me desligar desta «amizade» no Facebook que não me interessa, só me desgasta  e onde entrei por engano. Tenho 66 anos de idade, nasci em 1951 e já não tenho paciência para muitas coisas, uma delas é este conjunto de tretas que me entrou assim tão de repente pelo ecran dentro. Para si não terá qualquer importância pois amigos não lhe faltarão e a mim faz-me diferença. Este friso de atletas do SLB mostra entre outras coisas que o gesto era transversal a todos os clubes grandes e até a alguns mais pequenos como o Casa Pia. O senhor que é especialista em História percebe muito bem que a matriz da época é muito importante para perceber um gesto. Não podemos olhar para coisas e pessoas dos anos 30 com os olhos de 2017. Fico à espera da supressão deste equívoco. Por favor. Espero que não me desiluda porque no Facebook não posso (mesmo!) ser seu amigo. 

(Vinte Linhas 1697)

sábado, 10 de junho de 2017

A seita da verdade suprema não é só em Tóquio



Já passaram uns anos mas o autor destas linhas não se esquece: havia uma seita em Tóquio que atirava gás «Sarin» para as estações de Metro. Chama-se (ou chama-se ainda) «seita da verdade suprema». Em Portugal há uma coisa parecida. Vejamos: numa dessas chamadas feiras de garagem que proliferam pela Cidade de Lisboa aparecerem à venda a preços convidativos vários livros sobre o Sport Lisboa e Benfica. Até aqui nada de mal pois é preferível vender a um euro do que mandar para a guilhotina e destruir. O engraçado é que um desses livros intitulado «Amor à camisola», editado pela «Verso da História» e com prefácio de Luisão publica na página 60 esta pérola: «Eusébio foi, e é, único. E o Benfica, o seu clube de sempre.» Percebe-se a denominação de «pérola» porque isto que se lê é uma mentira monstruosa, ignóbil e repugnante. Eusébio nasceu de facto em 1940 como averiguou o dirigente benfiquista senhor Paiva das Neves, o homem do terceiro anel. Eusébio foi jogador do Sporting de Lourenço Marques e, mais tarde, quando voltou dos E.U.A. jogou no Beira-Mar e no União de Tomar. Foi em Tomar que terminou a sua carreira de futebolista. Aliás o nome da editora (Verso da História) já diz muito sobre o seu lugar no outro lado da verdade. Quem escreve o livro coloca-se no terreno da mentira por oposição à verdade. Isto lembra-me as minhas longas conversas com Cruz dos Santos, o jornalista que aparece a entrevistar Eusébio à chegada no aeroporto de Lisboa. Foi na altura em que Eusébio desatou a dizer disparates sobre o ambiente e a vida desportiva de Lourenço Marques nos anos sessenta. «Não ligue, meu caro. Isso é só para agradar ao terceiro anel. O nome dos directores do Benfica que o recusaram quando veio da América, isso ele não diz.» Cruz dos Santos, como sempre, tinha razão. 

(Vinte Linhas 1691)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cristiano Ronaldo - um triunfo no lamaçal



O dia 17 de Outubro de 1999 amanheceu com um céu de chumbo. O jogo foi em Pina Manique às onze da manhã entre o Casa Pia e o SCP. Era um Domingo. Chovia e ao mesmo tempo estava frio, muito frio. A assistência era muito reduzida. Não havia público; apenas os pais e os avós de alguns jogadores. Havia poucos guarda-chuvas à volta do pelado. Ainda na primeira parte, mais precisamente aos 30 minutos, o árbitro parou o jogo e chamou o massagista de uma das equipas, o SCP. O jogador nº 10 foi substituído pelo jogador nº 15. Na altura ninguém percebeu muito bem pois não é muito normal um árbitro sugerir a substituição de um jogador mas soube-se no fim do encontro, debaixo de mais uma forte bátega de água, que o jogador nº 10 tinha a pulsação a 220. A crónica do jogo publicada no jornal «Sporting» refere uma taquicardia. O coração de Cristiano Ronaldo tinha disparado e ele poderia ter tido um problema grave de saúde se o árbitro não tivesse tido a sensibilidade para interromper o jogo dizendo ao massagista Fontinha que o jogador não estava bem. No meio da chuva, no meio do frio, no meio do calor da luta entre o 3º classificado e o 11º da tabela do Campeonato de Iniciados, houve um árbitro que se apercebeu de que o coração do nº 10 já não cabia dentro do peito. Não sei se ele é enfermeiro ou se é bombeiro ou se é apenas um anjo do céu disfarçado de árbitro de futebol. Sei que esse jogador nº 10 lhe deve a vida e a carreira que entretanto teve a sua progressão sempre de fulgor em fulgor. Sei que cada golo decisivo que esse jogador nº 10 marca hoje com o nº 7 em Maio de 2017, quase 18 anos depois desse jogo em que teve de sair aos 30 minutos, é ao árbitro atento que o deve. Mais do que o triunfo por 5-0 no lamaçal, aquele dia ficou marcado com um triunfo contra as emboscadas da morte. 

(Vinte Linhas 1687 - Fotografia de autor desconhecido)