domingo, 2 de dezembro de 2018

«Deus nos valha o bacalhau!» de Fernanda Frazão e Luís Filipe Coelho



Este livro de 22 páginas só é pequeno na aparência pois nele se recolhem 53 receitas de bacalhau divididas em duas secções: Petiscos e Entradas (6) e A substância (47). Tendo nascido no ano de 1951 em Santa Catarina (Caldas da Rainha) a minha infância foi «habitada» em casa de minha avó materna por muito bacalhau trazido pelo armazenista de Alcobaça senhor Sebastião dos Santos Vazão. Era o mesmo bacalhau islandês que ainda hoje (2018) compro na Manteigaria Silva, em Lisboa, entre o Rossio e a Praça da Figueira.
Para que conste ficam na ficha de leitura duas receitas. A primeira na página 3 é «Bacalhau à taverneiro»: «Coze-se o bacalhau. Aquece-se uma travessa e guarnece-se o fundo com bom azeite., misturado com salsa, chalotas, alho e cebolinho picados, temperando com pimenta e noz-moscada ralada, lasquece-se o bacalhau por cima, ainda quente e regue-se com limão ou agraço.»
A segunda é «Bacalhau à marinheira» na página 10: «Cozido o bacalhau, depõe-se numa travessa com a água da cozedura, na qual se dissolve uma gema de ovo cozida, um alho esmagado e pimenta, juntando-se-lhe além disso azeite cru, vinagre e cebolinhas cozidas com o bacalhau.»
Fiquemos por aqui não sem antes lembrar uma conversa com José Quitério que explicava a paixão portuguesa pelo bacalhau com esta ideia: «O bacalhau só sabe bem com bom azeite e onde há bom azeite é em Portugal…»

(Editora: Apenas Livros, Colecção: Papoulas Gustativas)

[Um livro por semana 602]

domingo, 25 de novembro de 2018

«Uma casa é como uma árvore por dentro» de Luís Filipe Maçarico



O título deste livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) surge na página 42 no último poema deste volume de 54 páginas: «Uma casa é como / uma árvore por dentro / crescemos e somos raízes / emaranhamos pelas paredes / e das varandas abertas / chegam, desde a infância / o ar o vento e o sol / que são a seiva dos dias.»
O ponto de partida é a casa da Praça da Armada: «Na implacável contabilidade / das noites onde envelheço / à janela das velha casa / entre as brisas de Junho / e os nevoeiros de Dezembro / permaneço.»
O ponto de chagada é Almada em «O meu novo quarto»: «O meu novo quarto / tem o dobro do espaço / daquele onde dormi / sessenta e três anos.»
Pelo meio surgem as diversas viagens. Seja no Elevador do Lavra (‘Há um jardim suspenso / no cimo e cúpulas de luz /sobre velhos prédios») seja no eléctrico 19 («Escutar sensualildades / desfrutar o sabor / dos vocábulos / no prazer das frases /murmuradas / enquanto a cidade cintila») seja o Cais do Sodré: «Eis o caminho a sombra / os passos o destino / varres sonos sobre marés.»
Mas outras viagens podem ser fora do país como Tozeur («Tomoko é o melro / de Yokohama / no café da manhã») como Jerba («O meu amigo diz-me / que o verdadeiro muçulmano / procura a paz/ encontrando no Corão / um bálsamo / para os males do Mundo» ou dentro do país m Alpedrinha: «Entro na manhã / que espalha jorros de luz / sobre a terra verde das / árvores nuas.»    
O conjunto ide 54 páginas inclui quatro páginas de «Impressões» assinadas por Maria Alberta Menéres, José Gomes Ferreira, Mário Castrim, Albano Martins, Eugénio de Andrade, Álvaro Cunhal, Carlos Fernandes, Fernando Paulouro Neves, Mohamed Loffi Chaibi, Paula Cristina Lucas, José do Carmo Francisco, Salem Omrani, Isabel Mendes Ferreira, Manuel Frexes, Ana Machado, Miguel Rego, Margarida Almeida Bastos, Maria Antonieta Garcia e Suso Sudón.

(Prefácio: Eduardo Olímpio, Fotografia: Maria Clara Amaro, Capa: Marta Barata)

[Um livro por semana 601]

sábado, 17 de novembro de 2018

«Freguesia do Divino Espírito Santo da Feteira» de Carlos Lobão



Carlos Lobão (n.1959) é professor de História na Escola Secundária Manuel de Arriaga onde fundou o Clube de Filatelia «O Ilhéu» e tem publicada uma vasta obra fruto do seu trabalho de investigação histórica. Recebeu da Câmara Municipal da Horta em 2013 um Diploma e uma Medalha de Mérito Municipal.
Este livro sobre a Feteira tem 223 páginas e parte de uma certeza do autor: «a história não é nem deve ser entendida como um exercício de relações públicas, arte de elogiar ou condenar defuntos mas antes um esforço para compreender os outros, nas suas especificidades, nas suas diferenças. Vê-los como pessoas do tempo em que viveram. Por conseguinte, se somos é porque fomos.»  
A Ilha do Faial conta com 13 freguesias: Feteira, Castelo Branco, Capelo, Praia do Norte, Cedros, Salão, Ribeirinha, Pedro Miguel, Praia do Almoxarife, Flamengos, Conceição, Matriz e Angústias. Trata-se aqui (Feteira) de um percurso na História: «a primeira referência à Feteira data de 1568, ano em que o rei D. Sebastião mandou pelo Decreto de 30 de Julho, aumentar a côngrua do seu vigário, elevando-a de 10$000 réis para 20$000.» Mas também na religião: «A religiosidade açoriana é proclamada de uma maneira incontestável, visível no grande número de igrejas, conventos, capelas, ermidas e nichos existentes em todas as ilhas (daí a estreita ligação entre arte e religião) além das inúmeras festas religiosas com luzidas procissões e grande número de romeiros/peregrinos.»
Geografia, História, Economia, Religião, Instrução, Folclore, e Desporto são o título de alguns dos capítulos deste livro em cujas páginas a História se quer «compreensiva , rigorosa na sua metodologia, interrogativa mais do que explicativa e alheia a qualquer tipo de missão». Num duplo registo de geral e de particular encontramos o pintor, desenhador e gravador Rogério Silva (1929-2006) que fundou com Almeida Firmino e Emanuel Félix a Revista Gávea.  
  
(Edição/ Capa: Junta de Freguesia da Feteira, Apoios: Prorural, Leader, Governo dos Açores, Portugal 2020 e União Europeia)

[Um livro por semana 600]

terça-feira, 6 de novembro de 2018

«Histórias da minha rua» de Maria Cecília Correia



Sobre a obra e a vida de Maria Cecília Correia (1919-1993) decorre até 16 de Novembro deste ano no Espaço Academia Estrela (Rua do Quelhas, 32 – Lisboa) a exposição «Comemorar Maria Cecília Correia» da Biblioteca da Junta de Freguesia da Estrela. O livro de estreia desta autora («Histórias da minha rua») venceu o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho de 1953 e tem tido sucessivas reedições. O volume integra dez histórias a partir do espaço do quotidiano citadino que é o ponto de partida para outros lugares povoados pela magia, pelo sonho e pela beleza.
 Vejamos três exemplos. Em «História do Chico e da Angelina» podemos ler: «O Chico e a Angelina eram pobres. Viviam numa barraca muito velha, no meio de outras barracas velhas, lá para o outro lado do rio, mas ainda muito longe do rio. Todos ali eram pobres, todos berravam uns com os outros mas todos eram amigos e se ajudavam. Eram pobres porque ganhavam pouco, viviam longe e tinham que pagar a camioneta e o barco.» A «História do pessegueiro que falava com as pessoas» abre deste modo: «Os meninos que têm um jardim grande, com muitas flores, mangueiras para regar e lagos com repuxo, não achariam muita graça aquele quintal pequenino. Mas a verdade é que havia ali muitas coias diferentes que não havia nesses jardins grandes. Era um quintal onde tudo podia acontecer.» Por fim a «História da Rosa» pode, num certo sentido, resumir o espírito das outras dez histórias: «A rosa foi para a jarra preta. Ela se calhar não queria mas eu cortei-a e trouxe-a para casa. Mas ela gostaria de ter ficado no jardim, eu sei. Então fui falar com a rosa. Disse-lhe que a casa tinha muitas coisas lá dentro, tinha Amor, Crianças, Saudade. Faltava-lhe a Beleza. E foi por isso que a tirei da roseira para a pôr na cantarinha preta.»      
As magníficas ilustrações de Maria Keil (Amaral) são um valor acrescentado à beleza do livro. Uma maravilha a não perder.
(
Editora: Avis Rara, Ilustrações: Maria Keil)

[Um livro por semana 599]

terça-feira, 30 de outubro de 2018

«Dispatch Vox» de Jorge Fernandes



Depois de «Este tempo de aqui» (2012), «Agora o mar» (2013) e «Actuação prescrita» (2014) surge este novo original «Dispatch Vox» (2017) de Jorge Fernandes (n.1980) com 91 páginas organizadas em três sequências (Aforísticas, Vazadas e Dispatch Bodmer), livro que é dedicado «aos que não adormeceram na esperança da ressurreição». Na página 31 da Revista Olga (Madrid Dezembro 2017) o poema de Jorge Fernandes apela para uma «homenagem à literatura» pois convoca poemas de Fernando Assis Pacheco e de Ruy Belo. Trata-se de uma poesia culta e informada da autoria de um Poeta que em termos simples já leu tudo o que havia para ler na Poesia Portuguesa.
Um dos poemas iniciais deste livro refere «O medo muda o Mundo» quando se sabe que para Ruy Belo «O medo da morte é a fonte da arte». Na segunda sequência a ironia atinge um universo que o poeta bem conhece : «Só os advogados pouco ortodoxos descrêem da justissa?». É possível que o erro de ortografia em Justiça surja para acentuar uma ideia muito divulgada em quem frequenta Tribunais: «O Direito é o maior inimigo da Justiça». Na terceira sequência citamos «Memória digenital» como exemplo de uma escrita oscilando entre a ironia e o pleno usufruto do jogo das palavras: «Não conseguia decidir entre Marylin, aliás Norma Jean, que deu forma á norma dos jeans e Brigitte Bardot dita bêbê em bendita cara de bebé. Sem fio condutor, meteu-lhes pén…drive.»

(Editora: Quarto Crescente, Desenhos: Luís d´Orey, Capa: Fatehpur Sikri, Foto: Sara Vieira, Composição: César Antunes)

[Um livro por semana 597]

terça-feira, 23 de outubro de 2018

«Mil e outras noites – Uma antologia» de Eduardo Guerra Carneiro



Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004) começou a publicar em 1961 («O perfil da estátua») mas é um livro de 1970 («Isto anda tudo ligado») que o torna conhecido, citado e referido. Jornalista sempre (República, O Século, Diário de Lisboa, Diário Popular, Tempo) a sua poesia é feita, segundo Vítor Silva Tavares em Agosto de 1978, de «memórias, sonhos, encontros, desencontros. As marcas incisivas do prazer – e do conhecimento da dor».
O jornal «Tempo» saía à quinta-feira, veja-se o poema da página 34: «Abandono agora estas palavras / e deixo que elas sirvam de pedal. / À quinta-feira tombam desarmadas. / Em desleixo as largo. Não são estas / já minhas as palavras. São papel.» Em Mafra o poeta teve como companheiros de Instrução José Cid, Nuno Guimarães e Adriano Correia de Oliveira. Lá, na Tapada, ensinavam a matar: «Em certos meses mafras se povoam / de soldados novos. São meses sol / de guerra que aqui dentro vai roendo / as mãos e lá fora vai matando / homens.»
A poesia de Eduardo Guerra Carneiro oscila (também mas não) só entre a paisagem e o povoamento, entre as corridas e os cafés. Vejamos no primeiro caso: «As motos roncam no circuito / de Vila Real e lá estou eu, pendurado no muro das traseiras, a espreitar a Norton  / que vem à cabeça, curvando, espectacular / na rampa de São Pedro.» No segundo caso temos «Nos cafés desenham os paisanos, vulgares / senhores de bagaço e genebra, raspando o mármore / entre as folhas do jornal. Morrem os cafés / com seu bilhar, bengaleiro e escarrador.» O poeta era vizinho de gatos e de Agostinho da Silva: «Resta-me ouvir os do vizinho, também sábio / e eu próprio ronronar / para o teu sorriso, de gato, no plátano».
Findo o livro de 202 páginas fica o desafio de sempre e para sempre: «É um desafio permanente esta aventura da escrita, corpo-a-corpo com o desejo de inventar a comunicação ou descrever o desejo. Desafio, pois, entre os muros da ignorância , os canais da imaginação, na paisagem real ou recriada.»

(Editora: Língua Morta, Selecção: Miguel Filipe Mochila, Prefácio/Posfácio: Vítor Silva Tavares, Colaboração: Sérgio Guerra Carneiro)

[Um livro por semana 596]

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

«II Colóquio da Ribeira de Muge – O Culto Mariano» de Roberto Caneira, Ana Correia, Manuel Evangelista e Aurélio Lopes



Realizado em 10-6-2017, este Colóquio foi organizado pela Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge e pela Junta de Freguesia da Raposa. Das quatro em presença referimos em especial a comunicação de Aurélio Lopes que tem início com um paradoxo: «A afirmação de uma divindade feminina numa organização religiosa fortemente patriarcal é algo, à primeira vista, insólito e inaudito.» De facto numa sociedade constituída por «pastores, artesãos e mercadores» a mulher é a vilã: «trai e arrasta o homem num intemporal processo de desobediência, justificando assim todo um interminável percurso de estigmatização e sujeição, na família e na sociedade. É Pandora. É Eva. As mulheres serão, assim, profundamente secundarizadas e subalternizadas.» A conclusão surge na página 49: «O Cristianismo (como o Judaísmo e o Islamismo) possui apenas um Deus, um Deus estereotipadamente masculino, dir-se-á. Mas o Cristianismo irá impregnar sistemas culturais, religiosos e filosóficos muito diversificados e muito diferentes das matrizes ideológicas donde emana. Muitos deles habituados, há milénios, a divindades femininas ligadas à terra, fertilidade, saúde e ciclos de vida. A ascenção gradual do culto mariano virá, assim, a preencher uma evidente necessidade entre as massas cristãs, sobretudo entre as populações rurais e menos instruídas.»

(Editora: Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge, Capa: Manuel Evangelista, Patrocínios: Fidalgo & Mindrico Lda, Tolaoleu, Caravana Centro e Itinerarium XIV, Coordenação: Manuel Evangelista e Samuel Tomé)

(Um livro por semana 594)

domingo, 7 de outubro de 2018

«Guia de Campo – Praia Fluvial do Malhadal – Ribeira da Isna» de Patrícia Garcia-Pereira, Eva Monteiro, Albano Soares, Sandra Antunes e Rui Félix



O texto da contra-capa resume o que é este livro de 171 páginas: «Este guia contém informações sobre 180 espécies de plantas, insectos, anfíbios, répteis, aves, mamíferos e peixes, observados na Praia Fluvial de Malhadal, no trilho marcado ao longo da Ribeira da Isna. Destaca-se a diversidade de insectos, em particular gafanhotos e grilos, libelinhas e libélulas, assim como borboletas diurnas» Na introdução pode ler-se: «Este guia foi elaborado a partir de uma série de visitas ao trilho da Praia Fluvial do Malhadal para inventariar a biodiversidade observada, especialmente plantas e insectos, que são a base do funcionamento de qualquer ecossistema terrestre.»
Criada em 1983 com a ideia de garantir a água às terras (solos) das proximidades, a Praia Fluvial do Malhadal tem um potencial turístico muito forte: solários, bar, esplanada, parque de merendas, churrasqueira e parque aquático insuflável, por exemplo. Este guia faz um inventário que valoriza e divulga os dois mundos desta Praia Fluvial – o animal e o vegetal. A título de exemplo na página 53 pode ler-se na ficha da «silva» esta observação: «os seus frutos, as amoras, são muito apreciados pelos humanos, aves e mamíferos.» Outra informação curiosa pode ler-se na página 135: «Achigã: originária do sul do Canadá e norte dos Estados Unidos da América e introduzido em Portugal em 1898 na Lagoa das Sete Cidades, Açores. Está presente no continente português desde 1952, tendo-se espalhado rapidamente por todas as bacias hidrográficas particularmente a sul do Rio Tejo.»        

(Editora: Livros do Corvo, Prefácio: João Lobo, Capa. Rui Félix, Fotografias: Albano Soares, Armindo Alves, Carlos Alexandre, Centro Ciência Viva da Floresta, Eva Monteiro, Frank Pennemkamp, João Carrola, Patrícia Garcia-Pereira e Rui Félix, Design: José Perico, Colaboração: Sónia Tomé)

(Um livro por semana 595)

domingo, 30 de setembro de 2018

Zeffirino Giménez Malla – um cigano que foi santo


Não se sabe o dia nem o lugar do nascimento de Zeffirino Giménez Malla conhecido como Pelé. Nasceu em 1861, filho de Josefa Malla e João Jiménez e é possível que tenha vindo ao Mundo em Alcolea de Cinca (Huesca) ou em Benavente (Lérida) porque os pais eram nómadas e atravessaram várias localidades da Catalunha e de Aragão. Aprendeu a arte de cesteiro com um tio e vendia cestos e canastras pelas aldeias. Como nunca passou pela Escola não sabia ler nem escrever nem fazer contas. Casou em 1912 com Teresa Jiménez Jiménez e como não tiveram filhos adoptou uma sobrinha da esposa – Pepita. A maneira como Zeffirino se tornou «comerciante de cavalos» diz bem da sua dimensão humana: um dia numa estrada não teve medo do vómito de sangue de Rafael Jordán e levou-o para casa. O irmão de Rafael (Simón) ofereceu-lhe muito dinheiro sugerindo-lhe a compra de mulas que o governo francês estava a vender . Com parentes chegados em Dax, Zeffirino fez negócio e enriqueceu em 1919 no fim da I Guerra Mundial. Pelé foi um cigano que deu um testemunho forte da sua vida cristã tanto aos ciganos como aos camponeses. Rufino Bruno Vidal afirma o seguinte: «O Pelé era um homem muito honesto no seu trabalho de comerciante de cavalos e nunca se permitia enganar alguém, antes repreendia aqueles ciganos que procuravam enganar os camponeses dizendo que não deviam fazê-lo e era muito amado e apreciado pelos camponeses.» O seu martírio foi em 1936 (talvez 2 de Agosto) e a prisão terá sido porque lhe perguntaram se trazia armas e ele mostrou o terço. Sabe-se que durante a Guerra Civil de Espanha foram fuzilados milhares de sacerdotes, religiosos e também leigos mas os fuzilamentos foram de ambas as partes. Numa guerra civil todos são pecadores; não há santos. Como Pelé, cigano e santo.

(Crónicas do Tejo 129)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Gonçalo Pereira Rosa - «já nada me espanta» e outros casos tristes


Começo o texto com uma nota pessoal: prestes a completar 40 anos de actividade em jornais e revistas não me envergonho de nada do que publiquei mas arrependo-me de ter publicado sem anotações no Jornal «Sporting» uma página do livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista. Trata-se de um jogo entre o SCP e o Sport Lisboa em 1-12-1907 ao qual foi atribuído por erro crasso o título de «O primeiro derby» isto porque o SLB não podia ter disputado nenhum jogo antes de 13-9-1908. Gonçalo Pereira Rosa estudou agora o caso do assassinato da actriz Maria Alves em 1926 e publicou dois livros onde esse tema é desenvolvido mas o «Magazine» do «D.N.» publicou outro dia um texto sobre o assunto como se a pólvora estivesse a ser descoberta agora, no ano de 2018. Gonçalo respondeu com ironia a quem o interpelou sobre este caso: «Já nada me espanta». Outro dia passou-me pelas mãos um recorte da revista «Sábado» com a história da macaca de Oliveira de Azeméis, vila onde a comitiva do SCP costumava parar nos anos 40 antes de ir jogar com o FCP. Claro que os «leões» ganhavam, perdiam ou empatavam segundo factores determinados: as incidências do jogo, os erros dos jogadores de ambas as equipas, a influência da arbitragem que, muitas vezes, é decisiva. Ou seja – outras macacadas. Há por ali o perfume da prosa de António Simões («A Bola») mas uma coisas destas não é para quem quer, é para quem pode. Não dá para imitar. Voltando ao «Magazine» que faz parte do «D.N.» não bastava terem trocado «enclave» por «conclave» a propósito da Síria. Apetece dizer como a minha avó de Santa Catarina: «Não há direito!» E ela não desconfiava do que muito mais tarde eu verifiquei nos Tribunais de Menores: o Direito é o maior inimigo da Justiça.

(Crónicas do Tejo 128)

sábado, 15 de setembro de 2018

Os Totós ou Futebol, Mentiras e Falsificações


Nota prévia – Este Totó é um magnífico trabalho de caricatura do meu grande amigo Aniceto Carmona, natural de Vila Velha de Ródão. Primeiro caso: No «Notícias Magazine» de 18-3-2018 integrado no jornal «Diário de Notícias» desse dia o texto de Ferreira Fernandes refere as datas de Fernando Peyroteo como 1918-1968 quando o correcto é 1918-1978. Segundo caso: No Palácio Baldaya, numa exposição sobre o passado de Benfica, refere-se a Fábrica Simões & Cia Lda (malhas e confecções) situada na Avenida Gomes Pereira e pode ler-se o seguinte: «Fábrica em Palma de Baixo (Lumiar)». Terceiro caso: Na Estrada de Benfica está escrito numa chapa metálica da Câmara Municipal de Lisboa o seguinte: «Campo da Feteira. Este foi o primeiro campo atlético que pode considerar-se ter pertencido ao então designado Sport Lisboa, actual Sport Lisboa e Benfica. Inaugurado em 1907, o campo tinha capacidade para 8.000 espectadores, medindo 120 metros de comprimento e 79 metros de largura. O erro está na confusão estabelecida entre o Grupo Sport Lisboa, fundado em Belém no dia 28 de Fevereiro de 1904 e o Sport Lisboa e Benfica fundado em 13 de Setembro de 1908. Pelo meio fica o Sport Clube de Benfica, fundado em 26 de Julho de 1906, esse sim o proprietário do Campo da Feteira. O Sport Clube de Benfica praticava o atletismo e o ciclismo. Por essa razão o emblema do novo Clube em 1908 (S.L.B.) inclui a roda da bicicleta ao lado da bola e da águia. Não saber isto é ser Totó. Utilizar expressões dúbias como «pode considerar-se» é mais que isso, é ser Totó ao quadrado. Ninguém os proíbe de serem Totós mas não podem é tratar os outros como se fossem Totós. Deixem isso para a Universidade da Rabicha que tem uma parede branca capaz de aceitar tudo. Todas as mentiras e todas as falsificações.

(Crónicas do Tejo 126)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Testamento espiritual e últimas vontades de João XXIII



João XXIII (1881-1963) é o Papa a quem muitos de nós (nasci em 1951) devem o fim de um dos mandamentos que se aprendiam quando a Catequese se chamava Doutrina: «Ouvir missa inteira e abster-se de trabalhos servis nos Domingos, Festas e Dias de Guarda». De facto foi no Concílio Vaticano II que se deu o fim da missa «ouvida» para se iniciar a missa participada pois os celebrantes passaram a estar virados para o Povo em vez de se colocarem de costas. Posto isto vamos à citação retirada do livro Diário Íntimo de João XXIII (Editora Morais): «Peço perdão àqueles a quem inconscientemente ofendi; àqueles para quem não consegui ser motivo de edificação. Sinto que nada tenho a perdoar seja a quem for, porquanto em todas as pessoas que conheci e que comigo tiveram relações – mesmo que me tivessem ofendido ou desprezado ou tivessem tido pouca estima por mim (com razão, de resto) ou me tivessem dado desgostos – apenas encontro irmãos e benfeitores, a quem estou grato e por quem rezo e rezarei sempre. Nascido pobre mas de gente honrada e humilde, sinto-me particularmente feliz por morrer pobre, tendo distribuído, segunda as várias exigências e circunstâncias da minha vida simples e modesta, ao serviço dos pobres e da Santa Igreja que me alimentou, tudo o que me veio parar às mãos – em proporções bastante limitadas de resto – durante os anos do meu sacerdócio e do meu episcopado. Agradeço a Deus esta graça da pobreza de que fiz voto na minha juventude, pobreza de espírito, como padre do Sagrado Coração e pobreza de facto; e o amparo que me deu, a fim de não ter precisado de pedir nunca nada, nem lugares, nem favores, nem dinheiro, nem para mim nem para os meus parentes e amigos.» O texto é datado de Veneza em 29 de Junho de 1954 (fim de citação).

(Crónicas do Tejo 127 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

«Big Mal & Companhia» de Gonçalo Pereira Rosa



Portugal é um país pequeno na Geografia mas grande nos Paradoxos; tropeçamos no insólito, no peculiar, no inesperado. Há o morto que fala, o cantor que não canta, o juiz que fala na TV e nos jornais. No Futebol Português primeiro jogou em 18-12-1921 a selecção nacional e só depois em 18-6-1922 se disputou a final do Campeonato de Portugal. O paradoxo deste livro de Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) está implícito: os estágios nos hotéis foram o motivo de ruptura, hostilidade e afastamento de Allison mas foi em algo parecido com estágios (almoço, lanche e jantar em restaurante) que os jogadores do Sporting criaram, cimentaram e deram corpo à sua união, à sua amizade e ao seu companheirismo. Dinis Machado contou-me que seu pai, Oliveira Machado, dono do «Farta Brutos», ex-árbitro, colaborador do RECORD e benfiquista fanático, o levou à Rua Jardim do Regedor para ver a Sala de Troféus do SLB. No fim da visita ouviu-o dizer: «Eu sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!». Gonçalo Pereira Rosa apertou a mão a antigos jogadores leoninos e ao longo de quatro anos reuniu depoimentos: Meszaros, Melo, Fidalgo, José Eduardo, Francisco Barão, Inácio, Eurico, Zezinho, Virgílio, Marinho, Ademar, Lito, Mário Jorge, Esmoriz, Carlos Xavier, Freire, Alberto, Nogueira, Manuel Fernandes e António Oliveira. Não só os jogadores mas também outras figuras da época: Mário Mateus (Marinho), Manuel Pinto Coelho, Armando Biscoito, Eugénio Silva Ribeiro e João Xara Brasil. O livro tem 316 páginas, 12 capítulos e 1 epílogo e com as 16 páginas a cores é uma fotobiografia. Um dia Brian Clough, em conversa com Allison afirmou: «Não terás problemas com directores até ao momento em que tiveres sucesso». Pedro Gomes e Barnabé testemunham a mesma atitude; depois de vitórias nas «Reservas» do Sporting com o Alhandra e o Sintrense foram castigados por falta de empenho. O mesmo é dizer falta de esforço, devoção e dedicação. Os directores nunca poderão ter com eles a glória; só lhes resta o poder. Andei pelo país de 1988 a 2006 em reportagem para o Jornal SPORTING e posso testemunhar que Jesus Correia ou Manuel Fernandes eram festejados com júbilo enquanto os vice-presidentes eram ignorados. O despedimento do médico Pinto Coelho por um director à porta do autocarro «leonino» foi uma facada no treinador Alison, seu amigo de todas as horas. Em 1928 nos Jogos Olímpicos de Amsterdão Portugal começou por ganhar ao Chile por 4-2 e à Jugoslávia por 2-1 vindo a perder com o Egipto por 2-1, o Egipto que a Itália venceu por 9-0. A equipa do Sporting teve uma maldição parecida: venceu o Campeonato e a Taça de Portugal mas foi eliminada na Taça UEFA por uma equipa com nome de medicamento. O incrível aconteceu em 1982 como em 1928. Passar do particular para o geral é um dos méritos deste livro. Cada história vale por si mas desenha o quadro de um tempo português em 1981-82 um tempo sem telemóveis nem Internet mas no qual já existiam as raízes do actual estado de coisas. Um exemplo: Southampton e a tentativa de esconder na RTP o filme do jogo no qual pela primeira vez uma equipa portuguesa venceu uma equipa inglesa em Inglaterra. A página 167 do livro compara o jogo de futebol a um circo. É um tema que dá pano para mangas. Um dia Fernando Assis Pacheco escreveu «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa». Eu digo «Se eu fosse Deus faria com que este livro tivesse os leitores que merece». E apertava a mão ao Gonçalo como o Dinis Machado apertou ao Jesus Correia.

(Editora: Planeta, Revisão: Fernanda Fonseca, Fotos: José Lorvão e Arquivo Manuel Pinto Coelho -  Um livro por semana 593)
   

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O meu destino em 1957 era ser navalheiro como toda a gente



«Eu sou a filha da Julita» - dizia a menina que me abriu a porta do escritório da fabrica «Ivo Cutelarias» fundada em 1954 por João Ivo Peralta, irmão de António Ivo Peralta («Sovi»), amigo da minha mãe (Olímpia do Carmo Almeida) e do meu pai (José Francisco). Foi no passado dia 8 de Março e houve uma viagem no tempo. A partir da frase «Eu sou a filha da Julita» lembrei-me de Santa Catarina em 1966 quando havia as férias «grandes»: a Julita comprava uma cigana para o almoço do pai (Euménio) dito Ménio, o Roberto inaugurava com o meu avô José Almeida Penas a época do «abafado» na azenha do ti Zé Padre no Rio do Casal da Coita que vinha pelo Vale de Água até se juntar ao Rio da Pedra. O meu avô era guarda-redes da equipa onde jogavam o meu tio-avô Joaquim Freire, o Juventino do ti Manel Inácio (o primeiro jornalista), o ti Carlos Pinheiro (que me dava limões), o Abílio Milhafre (que tocava clarinete), o Diamantino do Manel Lúcio, o Zé Coimbra que tocava pratos na Filarmónica. Eram onze e não havia substituições. Nos jogos do Campo do Rio da Pedra, mais tarde, lembro-me do Joaquim Clímaco recolher o dinheiro para a lavadeira num boné. Esse mesmo Joaquim (irmão do Manel, meu colega na 4ª classe) um Domingo de manhã salvou-me a vida: a minha avó mandou-me ir buscar a burra ao Vale de Água e o cão a ladrar à porta do Afonso (ferrador) assustou o animal que dasatou a galopar. Perto do portão da Casa Grande o Joaquim conseguiu parar a burra e assim me safei pois poderia ter ficado ali se batesse com a cabeça nas pedras da rua. O meu avô foi amigo do Artur Sena Pinheiro, fundador da «Senófila» onde nasceram os Xutos e Pontapés. A vida é um mistério. A memória é um sótão distante. A prata da minha casa tem onze heróis. Estão todos na fotografia; ninguém quer sair.

(Crónicas do Tejo 125 - Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Almada e o Tejo – roteiro sentimental de uma das «minhas» cidades



Quando elaborei por escrito e por extenso uma espécie de «memória justificativa» para num certo sentido legitimar o início das minhas crónicas (do Tejo) no «Correio do Ribatejo» dei conta das minhas vivências em 1957 no Montijo (escola primária), em 1961 em Vila Franca de Xira (escola comercial) e em 1997 em Santarém (redactor de O MIRANTE) sem esquecer Lisboa e a Rua do Ouro onde tenho vivido e trabalhado desde 1966 até hoje – 2018. Mas a vida é um mistério e nada acontece por acaso: hoje (15-3-2018) entrei numa livraria com o meu amigo Joaquim Nascimento (ofereceu-me um livro!) e comprei o brasão de Almada. Embora nunca tenho lá vivido nem trabalhado, a verdade é que, desde sempre, me lembro de esta (hoje) cidade fazer parte da minha vida. Há muitos anos morreu na piscina do Seminário de Almada um jovem estudante natural de Santa Catarina (o António) de quem eu era muito amigo. Na altura só me lembro de duas palavras perante a sua morte: dôr e confusão. Dôr pelo desaparecimento dele e confusão pelas circunstâncias nunca esclarecidas da sua morte. Mais tarde Almada foi o lugar onde entrevistei o dramaturgo Romeu Correia para a Revista «A Bola Magazine», entrevista mais tarde englobada no meu livro «As palavras em jogo» e parte dela recordada no livro «Passeio mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro. A propósito deste meu grande amigo e quase-conterrâneo (Salir de Matos fica perto de Santa Catarina) não posso deixar de recordar as suas grandes capacidades informáticas em meu favor (sou um sem-abrigo) e as nossas intermináveis caldeiradas em Cacilhas quando a refeição serve em teoria para actualizar a escrita mas apesar de tudo esta nunca fica, de facto, em dia. A minha filha Ana, o marido e os filhos gostam muito da Casa da Cerca mas isso já é outra crónica.

(Crónicas do Tejo 123)

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dissertação para a voz de Maria Flor Pedroso



Quase nada sei das origens da tua voz, seu timbre e sua altura, seu calor e sua extensão, seu peso e seu rigor. Chamo-lhe calorosa pois sinto nela o calor que sacode o dia, aquece o pão, ferve o leite e convida ao pequeno almoço com ovos e bacon. Quando ouço a tua voz sinto nela o rumor ritmado das ondas de todas as praias e as melodias de todas as orquestras. Melodia, harmonia, contraponto – o que quer que seja musical nas manhãs de Rádio. Porque toda a minha infância cabe numa telefonia Schaub Lorenz. O senhor Messias, o Compadre Alentejano, o Teatro das Comédias, o romance da hora do almoço, o telefone toca do Matos Maia. E também os discos pedidos dos doentinhos dos sanatórios – Serviço 6, Sala 2, Cama 4. Sem esquecer os anúncios: «Candeeiros bem bonitos / modernos, originais / compre-os na Rádio Vitória / não se preocupe mais.» A tua voz é clarim, bandeira, estandarte.  Primeiro avisa, depois convoca, de seguida vem guiar os ouvintes como numa antiga romaria entre o sol que brilha e o pó que não assenta. Havia a Rádio Graça, a Rádio Peninsular, o Clube Radiofónico de Portugal e a Rádio Voz de Lisboa. A Voz de Lisboa era essa mistura feliz do vagar dos eléctricos e da pressa na espuma dos rebocadores, o vagar do sinaleiro e a pressa das fragatas do outro lado do Tejo. Vivi no Montijo entre 1957 e 1961; por isso ser fragateiro era um dos meus destinos possíveis. Aos Domingos à tarde os eléctricos levavam bandeiras de estádios: Luz, Restelo, Tapadinha, Lumiar. À noite saía nos jornais o resumo da jornada com a classificação e os melhores marcadores. Os ardinas voavam nas Escadinhas do Duque. Era a voz de Lisboa. Quase nada sei das origens da tua voz. Sei que nela passa o coração do Mundo. As sombras e as luzes, as sementeiras e as colheitas, a terra e o mar. Tudo cabe na tua voz que não termina e que continua.        

(Crónicas do Tejo 117 – fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, 3 de julho de 2018

«No lamaçal da Primavera» de Alice Ruivo



Neste seu quinto livro de ficção, Alice Ruivo (n.1955) retoma o universo sentimental dos seus primeiros romances: O amargo e doce sabor da vida, Matilde, Carlota e Juliana e No dorso do vento. Neste No lamaçal da Primavera o ponto de partida é o casal Aurora e Jaime que vê a sua longa relação sacudida por uma frase de Jaime («Vamos para o divórcio») originando em Aurora uma nova situação: «Não é fácil recomeçar aos cinquenta e cinco anos mas estava decidida a deixar para trás os cacos, as pálpebras vermelhas e os soluços inacabáveis.»
O livro organiza-se em histórias cruzadas de várias gerações, a autora evidencia o mérito de partir sempre do particular para o geral deixando o registo de um certo tempo português entre 1945 e 2015, algo como setenta anos. Foi em 1945 que os pais de Aurora (Severino e Amélia) casaram. Com o divórcio de Aurora e Jaime a transitar em julgado, surge uma aproximação a Mariana: «Mariana colocou a mão sobre a sua nuca, procurou a raiz naquela massa de cabelo. Beijaram-se. Sentiu o seu clitóris endurecer, sair do seu esconderijo para se oferecer à fricção.» Mais à frente acontece o desenlace («não criámos raízes, na verdade muita coisa nos separa») e a conclusão: «Célia era mãe de Severino (pai de Aurora) e de Olinda (mãe de Mariana). Tinham a mesma avó. A avó Célia. Eram primas. Ou meias-primas.» Mais tarde Aurora fará o balanço com Mariana: «Eu não deixei o Jaime, ele é que me deixou. Por isso tu não foste uma troca, da mesma forma eu também não fui para ti. Ou seja: não deixaste a Odete por mim e ainda bem. Por isso aqui ninguém usou ninguém. Acontece entre duas criaturas que são livres e donas da sua pessoa.»
Tal como no caso Aurora/Jaime, com o problema de Constança e Fernando passa-se o mesmo: o conflito passa do privado para o social e a história torna-se exemplar, ganhando assim o estatuto de história de proveito e exemplo. Um livro de 179 páginas que se lê com a sofreguidão de um «policial» não à procura do criminoso mas à descoberta do lugar específico do tecido social onde os dramas se escondem e se revelam.  
  
(Capa: Maria Soledade Centeno, Prefácio: José Luís Outono, Posfácio: Lynda Carvalho - Um livro por semana 590)

segunda-feira, 25 de junho de 2018

«Crónicas de Porcelana» de Soledade Martinho Costa



Soledade Martinho Costa que desde 1973 é reconhecida como autora de livros de poesia, teatro, etnografia e literatura infanto-juvenil, estreou-se no campo da crónica em 2015 com «Uma estátua no meu coração». Este segundo livro de crónicas num total de 214 páginas integra 61 textos divididos em 4 grupos: «Abre-latas», «Histórias da Velha do arco», «Segredos» e «Crónicas de Porcelana». O ponto de partida do livro é uma frase de José Saramago no livro «Deste Mundo e do outro»: «Crónicas que são? Pretextos ou testemunhos?» Mas também um ideia do mesmo autor, citada na página 9, logo a seguir à dedicatória: «A vida, que parece uma linha recta, não o é. Construímos a nossa vida só uns  cinco por cento, o resto é feito pelos outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros.»
Esta ideia de «viver com os outros» (título de um livro de Isabel da Nóbrega) está presente na atitude da autora perante figuras das Artes e das Letras que povoam algumas da crónicas como Sarah Affonso, Amália Rodrigues, Afonso Praça, Tóssan, Carlos Nejar, Luiz Pacheco ou Francisco Lyon de Castro. Para dar uma ideia aproximada do interesse deste livro de crónicas fiquemos por três citações. A primeira sobre a profissão de escritor: «Dirigi-me ao Hospital Novo de Celas, em Coimbra, ali a dois passos. Para meu espanto a funcionária desfez de imediato as minhas dúvidas com a seguinte explicação: - Sabe, é que no nosso ficheiro não consta a profissão de escritora. A palavra mais parecida é escriturária. Por isso é que está assim escrito – e acrescentou: - Já há uns meses, esteve cá um escritor e aconteceu a mesma coisa; nós escrevemos escriturário, lembro-me muito bem. Ele chamou-nos a atenção mas, como disse, essa profissão não consta do nosso ficheiro.» A segunda, a propósito do livro «Os contos exemplares» de Sophia de Mello Breyner é uma situação passada numa livraria de Lisboa: «Não leve. Esse livro é já muito antigo. Foi escrito há muito tempo. Tem aqui outros mais modernos… Não quer ver?» A terceira citação surge na página 85: «são mesmo os Portugueses um povo adverso aos livros e à leitura? Um povo que não lê? Que mal conhece os seus autores? Que prefere o futebol e as tristes cenas de muitos dos programas que entram na nossa casa sem nos pedirem licença, transmitidos pelos canais de televisão? Que tem absoluto desconhecimento da importância da leitura? Ou a razão deste despovoamento nas livrarias tem origem noutras causas? A situação difícil em que os Portugueses vivem (nem todos, é claro!)? A falta de dinheiro para gastar em livros quando a despensa está vazia?»

(Editora: Sarrabal, Capa: «A feira» de Petrus van Shendel, Revisão: L. Baptista Coelho - Um livro por semana 588)


segunda-feira, 18 de junho de 2018

«Juncos à beira do caminho» de Francisco José Viegas



Embora conhecido como autor de livro de teatro, gastronomia, viagens e ficção (Grande Prémio da A.P.E. em 2005) Francisco José Viegas (n.1962) tem como poeta um percurso de quarenta anos. O seu primeiro livro cujo título é «O Verão e depois» foi publicado em 1978. Este livro recente com o título retirado do poema da página 21, abre com a citação de um verso de Vasco Graça Moura (1942-2014) que lembra o poeta inglês John Keats (1795-1821) - «A thing of beauty is a joy for ever».
O autor regista no livro memórias da terra e da gente: seja de um tio («O meu tio deu a volta / ao mundo; agora está a dois passos da casa / onde nasceu»), de uma tia («Ela despedia-se da vida, era a Páscoa») ou de um avô: «O meu avô vestia a ganga pobre e limpa / dos operários; rosto mais honrado / não conheci.» A morte está muito presente nos poemas deste livro, seja através de uma trilogia («a morte, a doença e a família»), seja na memória dolorida de um lugar («longe de casa, sem saber quem se ama, quem se é, quem pode amparar-nos, ouvir , responder») seja ainda na certeza duma inevitabilidade: «Um a um os meus são enterrados e aguardam-me.»
Se cada poema é um retrato, ele oscila sempre entre a paisagem e o povoamento. Por exemplo o poema da página 60: «A precoce geada de Outono desperta os demónios / da melancolia se recordo aquela paisagem / da província, amável, que nunca me roubou / nem a alegria, nem os nomes que guardei até hoje.»
Conclusão provisória como todas: se o ponto de partida é o balanço amargo da página 32 («Hipertensão, silêncio e más noites») o ponto de chegada é uma lição: «não fazer balanços, / não corrigir o passo, nem tudo pode consertar-se / - não há remédio seguro para os grandes erros, / nem no amor, nem na má educação dos filhos / nem na pequena solidão que nos protege dia a dia / quando todos regressam a casa e tu ficas entre / as mesas dos que foram embora.»

(Editora Caminho, Capa: Rui Garrido, Foto da capa: Rui Rodrigues, Foto da contracapa: Alfredo Cunha - um livro por semana 589)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A última aguardente do Tio Nascimento



Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

(Crónicas do Tejo 113 - fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Celtic 1967 – Os leões de Lisboa na Ribeira do Jamor


A Ribeira do Jamor é bonita mas não tem estatuto para ser «cantada» por quem, como eu, andou a estudar na Escola Primária entre 1958 e 1961. Os afluentes da margem direita do Rio Tejo são: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. A pequena Ribeira do Jamor não tem dimensão para ser referida nos manuais de Geografia mas faz parte da minha memória do ano de 1967. Quando saí do eléctrico com bandeiras de «Estádio» atravessei uma pequena ponte sobre a Ribeira do Jamor. Era um jogo especial porque era a primeira final da Taça dos Campeões Europeus disputada em Portugal. Os vencedores ficaram conhecidos até hoje como os leões de Lisboa. O livro «The oficial little book of Celtic quotes and trivia» compilado por Douglas Russel em 2005 refere um facto quase lendário: os jogadores do Celtic, depois de olharem para os favoritos do Inter, terão recebido instrucções do treinador Jock  Stein para cantarem «The Celtic Song». Podem ter começado a ganhar o jogo nesses momentos. Depois de afastarem o Zurich, o Nantes e o Dukla de Praga, os leões de Lisboa venceram os italianos do Inter com golos de Tommy Gemmel e Steve Chalmers mas na minha memória ficam as jogadas endiabradas de Jimmy Johnstone a rebentar com a defesa italiana onde os jogadores eram todos famosos a começar pelo keeper Sarti e a acabar no lateral Corso que era um polivalente. A famosa empresa Fabergé celebrou a exibição soberba do Jimmy Johnstone com um ovo em sua honra, coisa que apenas tinha contemplado os Czares e as Czarinas do Império Russo no princípio do século XX. Já passaram 50 anos, quase 51, mas parece que nada mudou. Nem o eléctrico nem a Ribeira do Jamor nem o jogo entre o Celtic e o Inter, nem o Tejo ali tão perto, quase a desaguar no Oceano Atlântico.   

(Crónicas do Tejo 116)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Carlos Pinhão entre o Chiado e o Tejo



Do Largo do Chiado vê-se o Rio Tejo e os cacilheiros até parece que «estacionam» nos telhados dos prédios do Cais do Sodré e da Rua do Alecrim. Quando o jornal desportivo A BOLA era publicado às segundas, quintas e sábados, quando estava algum calor na cidade e não havia ar condicionado na redacção do jornal, o Carlos Pinhão (meu mestre informal de Jornalismo) vinha até à janela que dava para a Rua Diário de Notícias ver as cenas próprias do Bairro Alto: uma taberna, uma velha, um rapaz atrevido a chamar-lhe velha, um berreiro interminável. No fim nascia um poema que eu viria a ler mais tarde num livro de Luiz Pacheco. Longe vai o tempo de Eça de Queiroz escrever «o que um pequeno grupo de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos, decidir no Chiado que Portugal seja – é o que Portugal é.» Lá pelos idos de 1966 ainda se dizia que o Chiado era um Estado dentro do Estado: tinha como qualquer Estado o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia e a sua Catedral. O facto de um meu livro de crónicas ter o título de «Entre o Chiado e os Açores» levou-me a procurar saber mais sobre este lugar mágico, pitoresco e elegante Sempre ouvi falar do poeta António Ribeiro Chiado como estando na origem do nome do Largo e, por reflexo, do espaço à sua volta. Um belo dia Alberto Pimentel encontra um documento datado de 1567 mencionando um tal Gaspar Dias, de alcunha «o Chiado», como proprietário de uma taberna que se situou um pouco acima da esquina da actual Rua do Carmo com a Rua Garrett. Será o Chiado taberneiro ou o Chiado poeta o tronco genealógico do Chiado artéria alfacinha? Isso não sei nem estou interessado em saber. Sei que, como Carlos Pinhão descobriu há muitos anos, uma taberna é como um poema, um lugar feliz onde ninguém está só. 

(Crónicas do Tejo 115)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Quirino Teixeira – memórias dum jornalismo romântico



Quando refiro (e nunca é de mais) os meus mestres do Jornalismo no «Diário Popular» (Jacinto Baptista) e em A BOLA (Carlos Pinhão) não posso esquecer o que aprendi com Quirino Teixeira na redacção da Revista do Jornal TEMPO. Foi ele que me ensinou o pouco que sei sobre paginação de jornais e revistas, coisa essa que tão útil me foi mais tarde em todos os jornais onde trabalhei primeiro como colaborador e depois como redactor efectivo. Há muitas histórias engraçadas. Um dia, por alturas de uma passagem de ano, sugeri que na próxima semana só se referissem livros infantis sob o título de «Na semana mais pequena, livros para os mais pequenos». Quirino achou piada e disse-me para nunca me acanhar com sugestões. Um fim de tarde, passámos largo tempo a escolher uma capa para a Revista a cores (era uma igreja numa ilha açoriana) e, dois dias depois, quando o jornal saiu para as bancas, a capa era outra. Alguém se tinha chegado à frente com duzentos e cinquenta mil escudos e por isso a capa era uma família feliz – pelo menos na fotografia. Outra vez foi a nota de leitura que assinei sobre um livro do José Agostinho Baptista; ao chegar ao Funchal o poeta recebeu um envelope da sua irmã com vários textos de jornais da Madeira sobre livros recentes deste autor. Alguém, num jornal local, tinha achado que o melhor e mais fácil era copiar na íntegra o que eu tinha escrito no TEMPO. Chamo-lhe jornalismo romântico porque não havia interesses materiais em jogo, as coisas eram feitas pelo prazer de, todas semanas, sair para a rua uma revista onde estava o melhor de nós. Era essa a contrapartida, a moeda de troca. Poderia lembrar que Quirino Teixeira entrevistou Fernando Namora, Salvador Dali, Juan Miró, Antoni Tapiés, Ana Maria Matute, Camilo José Cela ou António Vallejo mas isso já é outra crónica.  
    
(Crónicas do Tejo 114)


sexta-feira, 11 de maio de 2018

«O processo de Camilo»



Novo livro de Carlos Querido

Foi apresentado em Caldas da Rainha no passado dia 14 de Abril o mais recente trabalho de Carlos Querido. Nasceu em Salir de Matos (1956), viveu em Santarém cinco anos e é hoje juiz desembargador na Relação do Porto. Autor de Salir d´Outrora (2007 e Praça da Fruta (2009) publicou recentemente Insanus (contos) depois de Príncipe Perfeito – Rei pelicano, coruja e falcão e A redenção das águas. Este livro é um pequeno ensaio de 36 páginas escrito a partir do processo judicial existente no Tribunal da Relação do Porto que narra o drama de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, presos, acusados e julgados pelo crime de adultério. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Correio do Ribatejo 127 anos depois



O jornalista como historiador do quotidiano

Quando comecei a escrever nos jornais (1978) Jacinto Baptista afirmava no «Diário Popular» - «o jornalista é o historiador do quotidiano». Ora o quotidiano português em 9-4-1891 (já lá vão 127 anos) era dominado pelo Ultimato Britânico de 1890 e pelo movimento patriótico que se levantou contra aos ingleses. O patriotismo era comum a toda as classes sociais. Basta lembrar que as comemorações camonianas de 1880 foram financiadas pelo Conde de Burnay, que o Duque de Palmela devolveu as suas condecorações trazidas de Londres ao embaixador inglês em Lisboa e que a Duquesa de Palmela organizou uma «sopa dos pobres» em Lisboa. Associações, Clubes e Filarmónicas ganhavam expressão. Mas não era só Luís de Camões que se comemorava: o 24 de Julho (de 1833) marca a chegada a Lisboa das tropas liberais, o 1º de Dezembro (de 1640) marca a recuperação da independência nacional e sem esquecer a romagem anual ao túmulo de Joaquim António de Aguiar (1793-1871) conhecido como o «Mata Fardes». O Governo inglês sonhava com um corredor continental em África do Cairo ao Cabo mas o chamado Mapa Cor-de-Rosa propunha que Portugal ocupasse o vasto território entre Angola e Moçambique. Em 11-1-1890 o embaixador britânico em Lisboa exigiu a retirada imediata das forças militares portuguesas estacionadas no Noroeste de Moçambique (Chire e Machona) e ameaçando com o uso da força caso o nosso país não aceitasse a exigência até às 10 horas da noite do dia 11-1-1890. O Governo português reúne-se de emergência com o Conselho de Estado e salvo duas excepções, todos os membros do Governo e do Conselho de Estado aceitam a imposição britânica. Claro que a 14-1-1890 o Governo demitiu-se e o novo Governo (regenerador) aceitou o Ultimato. O resto está nos livros, é História. Mas o «Correio do Ribatejo» que hoje, continua o que começou há 127 anos como «Correio da Extremadura», é também, História. O passado dá a todos nós que o fazemos hoje um orgulho, uma vontade e uma força enormes, o futuro é um horizonte de muitas coisas possíveis. O presente é esse intervalo feliz entre o passado e o futuro, espaço no qual o sonho dos pioneiros de 1891 continua activo e desafiador: contar às pessoas as suas próprias histórias, fazer da cada novo jornal um ponto de encontro, ser o historiador do quotidiano de todos nós.


sábado, 28 de abril de 2018

Padre Amílcar Fialho (1944-2001) ou a boa surpresa na página de um livro



A página 180 do livro «O sítio de Benfica e a tradição dominicana» de Artur Santa-Bárbara (edição da Paróquia de São Domingos – Benfica - Lisboa) refere dom Fernando Teles de Menezes como conde de União em vez de conde de Unhão. Má surpresa mas a página 237 mostra o largo sorriso do novo presbítero do Patriarcado, Amílcar Luís Fialho, ao lado de Frei Carlos Santos. A foto não tem data mas deve ser de 1967. Nascido em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em 27-4-1944, foi admitido no Seminário de Santarém em 1-10-1955 tendo sido ordenado sacerdote em 1967 e passando a ser pároco nas Lapas e na Ribeira Branca em 1968. Filho de João Fialho e Conceição Fialho, este meu valoroso conterrâneo veio a falecer em 18-5-2001. Da sua passagem pela Direcção do Jornal «O Almonda» regista-se em 24-5-1975 um firme propósito: «Empenhar-me-ei desde o primeiro momento não em servir ninguém mas a Verdade, que é revolucionária.» Mas em 9-11-1979 confessava a sua relativa frustração: «Passados mais de quatro anos de fortes tensões provocadas pela angústia constante de me sentir «bola de pingue-pongue» nos jogos de interesse, verifico, com pena, a necessidade de abandonar o campo por falta de forças físicas. Numa luta permanente e desgastante, obrigando-me, tantas vezes a enfrentar problemas e situação cheias de imponderáveis e contradições, o confronto humano, social e cristão arrasa o sistema nervoso, provocando possíveis doenças de consequências incalculáveis.» 

Uma nota final de agradecimento a Alexandra Xisto e Laura Martinho pela ajuda preciosa nos dados biográficos do padre Amílcar Fialho.     

(Crónicas do Tejo 110)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O comboio da Sertã, a vila das Caldas, «gralhas» e deslizes



Uma pessoa acorda, toma banho, come, veste-se e vai para a rua e a primeira coisa que vê é uma carrinha frigorífica à porta dum talho com a expressão «São António» em vez de Santo António. Sabe-se que São se usa para João ou Pedro, os santos populares de Junho cujo nome começa por consoante. Minutos depois no comboio a mesma pessoa lê Melecas em vez de Meleças e no Metropolitano vê Marques Pombal em vez de Marquês de Pombal. Ao sair na Praça de Espanha (lê-se Praca Espanha) fica a pensar no nome antigo da estação que era Palhava em vez de Palhavã. A seguir pega num livro e lê uma referência ao comboio da Sertã na página 74 e duas vezes na página 90 às Caldas da Rainha como vila sem esquecer na página 98 a expressão vila termal. Sabe-se que não há nem nunca houve comboios na Sertã e as Caldas são cidade desde 1927. Na página 131 lê-se reouve quando o verbo é reaver ou seja «ter de novo» que é diferente de ouvir.
Pego noutro livro e leio lojistas com «g» na página 130 depois de ter lido na página 125 Dutra Trafaria em vez de Dutra Faria. Li depois no mesmo livro o nome do jornalista Urbano Carrasco como Urbano Camacho referido como sendo do «Diário da Manhã» mas não faz sentido no contexto porque esse jornal era da situação, não da oposição. Leio na página 26 António Régio por António Sérgio e na página 32 «ostão» por estão. Mas para acabar o dia em beleza leio num livro sobre São Domingos de Benfica uma referência ao conde de União que não existe porque se trata do conde de Unhão. Cheguei a casa com o cinto cheio de caça mas terá valido a pena? Talvez sim ou talvez não. Nunca saberei ao certo.  

(Crónicas do Tejo 108 - fotografia de autor desconhecido)



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Mário Duarte a «angústia sem lágrimas» entre o pó e a posteridade



Autor de «Aquário» (1979) e «Jornal Poliédrico» (1989). Mário Duarte (1954-1978) pôs termo à vida em 1978 na Holanda onde vivia como exilado. Na apresentação do segundo livro Fernando Venâncio escreve: «Desconhecemos, ainda, o Diário de Mário Rui. Nele se encontrará, porventura, resposta para a interrogação sobre o grau de consciência que o jovem exilado tinha do seu talento, em particular literário. Do que não resta dúvida é que o escritor Mário Duarte tinha virtudes das que mais recomendam um oficial das letras: era laborioso e era um insatisfeito. Não é impensável que, ultrapassada a euforia dum início de reconhecimento, Mário Duarte repudiasse, garbosamente, os seus ensaios de juventude. Hoje,  eles são todo o acervo de um autor por quem os Desuses já guerreavam.» Citemos um dos textos: «Corredores Os corredores. O Hospital: edifício erecto e escuro. Os rostos semeiam-se na imensidão asséptica das enfermarias. O edifício está esventrado por corredores-gemidos. E os elevadores furam as paredes com pessoas de batas eficientes. As lavandarias produzem as batas entre indescritíveis ruídos brancos. O fumo das roupas acende muito feliz por uma chaminé de metal (um osso desmesurado, oco, em espirais). Os doentes olham os corredores com espanto. As camas disseminam-se. As camas invadem os corredores. Gritam as enfermeiras de touca eriçada. Os doentes emudecem. Os estudantes da Faculdade riem o espaço dos lábios. Os doentes imóveis. As pernas das camas caminham docemente pelas áleas laterais. Gritam os partos. As crianças dolorosas enxameiam os corredores de urina. À mulher dói-lhe o fruto: o nascimento. A cara crispa-se. Os lábios enrugam-se. A criança não quer sair. O útero lateja como um solo de clarinete.» (Fim de citação)   
     
(Crónicas do Tejo 107 - fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)