segunda-feira, 15 de outubro de 2018

«II Colóquio da Ribeira de Muge – O Culto Mariano» de Roberto Caneira, Ana Correia, Manuel Evangelista e Aurélio Lopes



Realizado em 10-6-2017, este Colóquio foi organizado pela Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge e pela Junta de Freguesia da Raposa. Das quatro em presença referimos em especial a comunicação de Aurélio Lopes que tem início com um paradoxo: «A afirmação de uma divindade feminina numa organização religiosa fortemente patriarcal é algo, à primeira vista, insólito e inaudito.» De facto numa sociedade constituída por «pastores, artesãos e mercadores» a mulher é a vilã: «trai e arrasta o homem num intemporal processo de desobediência, justificando assim todo um interminável percurso de estigmatização e sujeição, na família e na sociedade. É Pandora. É Eva. As mulheres serão, assim, profundamente secundarizadas e subalternizadas.» A conclusão surge na página 49: «O Cristianismo (como o Judaísmo e o Islamismo) possui apenas um Deus, um Deus estereotipadamente masculino, dir-se-á. Mas o Cristianismo irá impregnar sistemas culturais, religiosos e filosóficos muito diversificados e muito diferentes das matrizes ideológicas donde emana. Muitos deles habituados, há milénios, a divindades femininas ligadas à terra, fertilidade, saúde e ciclos de vida. A ascenção gradual do culto mariano virá, assim, a preencher uma evidente necessidade entre as massas cristãs, sobretudo entre as populações rurais e menos instruídas.»

(Editora: Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge, Capa: Manuel Evangelista, Patrocínios: Fidalgo & Mindrico Lda, Tolaoleu, Caravana Centro e Itinerarium XIV, Coordenação: Manuel Evangelista e Samuel Tomé)

(Um livro por semana 594)

domingo, 7 de outubro de 2018

«Guia de Campo – Praia Fluvial do Malhadal – Ribeira da Isna» de Patrícia Garcia-Pereira, Eva Monteiro, Albano Soares, Sandra Antunes e Rui Félix



O texto da contra-capa resume o que é este livro de 171 páginas: «Este guia contém informações sobre 180 espécies de plantas, insectos, anfíbios, répteis, aves, mamíferos e peixes, observados na Praia Fluvial de Malhadal, no trilho marcado ao longo da Ribeira da Isna. Destaca-se a diversidade de insectos, em particular gafanhotos e grilos, libelinhas e libélulas, assim como borboletas diurnas» Na introdução pode ler-se: «Este guia foi elaborado a partir de uma série de visitas ao trilho da Praia Fluvial do Malhadal para inventariar a biodiversidade observada, especialmente plantas e insectos, que são a base do funcionamento de qualquer ecossistema terrestre.»
Criada em 1983 com a ideia de garantir a água às terras (solos) das proximidades, a Praia Fluvial do Malhadal tem um potencial turístico muito forte: solários, bar, esplanada, parque de merendas, churrasqueira e parque aquático insuflável, por exemplo. Este guia faz um inventário que valoriza e divulga os dois mundos desta Praia Fluvial – o animal e o vegetal. A título de exemplo na página 53 pode ler-se na ficha da «silva» esta observação: «os seus frutos, as amoras, são muito apreciados pelos humanos, aves e mamíferos.» Outra informação curiosa pode ler-se na página 135: «Achigã: originária do sul do Canadá e norte dos Estados Unidos da América e introduzido em Portugal em 1898 na Lagoa das Sete Cidades, Açores. Está presente no continente português desde 1952, tendo-se espalhado rapidamente por todas as bacias hidrográficas particularmente a sul do Rio Tejo.»        

(Editora: Livros do Corvo, Prefácio: João Lobo, Capa. Rui Félix, Fotografias: Albano Soares, Armindo Alves, Carlos Alexandre, Centro Ciência Viva da Floresta, Eva Monteiro, Frank Pennemkamp, João Carrola, Patrícia Garcia-Pereira e Rui Félix, Design: José Perico, Colaboração: Sónia Tomé)

(Um livro por semana 595)

domingo, 30 de setembro de 2018

Zeffirino Giménez Malla – um cigano que foi santo


Não se sabe o dia nem o lugar do nascimento de Zeffirino Giménez Malla conhecido como Pelé. Nasceu em 1861, filho de Josefa Malla e João Jiménez e é possível que tenha vindo ao Mundo em Alcolea de Cinca (Huesca) ou em Benavente (Lérida) porque os pais eram nómadas e atravessaram várias localidades da Catalunha e de Aragão. Aprendeu a arte de cesteiro com um tio e vendia cestos e canastras pelas aldeias. Como nunca passou pela Escola não sabia ler nem escrever nem fazer contas. Casou em 1912 com Teresa Jiménez Jiménez e como não tiveram filhos adoptou uma sobrinha da esposa – Pepita. A maneira como Zeffirino se tornou «comerciante de cavalos» diz bem da sua dimensão humana: um dia numa estrada não teve medo do vómito de sangue de Rafael Jordán e levou-o para casa. O irmão de Rafael (Simón) ofereceu-lhe muito dinheiro sugerindo-lhe a compra de mulas que o governo francês estava a vender . Com parentes chegados em Dax, Zeffirino fez negócio e enriqueceu em 1919 no fim da I Guerra Mundial. Pelé foi um cigano que deu um testemunho forte da sua vida cristã tanto aos ciganos como aos camponeses. Rufino Bruno Vidal afirma o seguinte: «O Pelé era um homem muito honesto no seu trabalho de comerciante de cavalos e nunca se permitia enganar alguém, antes repreendia aqueles ciganos que procuravam enganar os camponeses dizendo que não deviam fazê-lo e era muito amado e apreciado pelos camponeses.» O seu martírio foi em 1936 (talvez 2 de Agosto) e a prisão terá sido porque lhe perguntaram se trazia armas e ele mostrou o terço. Sabe-se que durante a Guerra Civil de Espanha foram fuzilados milhares de sacerdotes, religiosos e também leigos mas os fuzilamentos foram de ambas as partes. Numa guerra civil todos são pecadores; não há santos. Como Pelé, cigano e santo.

(Crónicas do Tejo 129)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Gonçalo Pereira Rosa - «já nada me espanta» e outros casos tristes


Começo o texto com uma nota pessoal: prestes a completar 40 anos de actividade em jornais e revistas não me envergonho de nada do que publiquei mas arrependo-me de ter publicado sem anotações no Jornal «Sporting» uma página do livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista. Trata-se de um jogo entre o SCP e o Sport Lisboa em 1-12-1907 ao qual foi atribuído por erro crasso o título de «O primeiro derby» isto porque o SLB não podia ter disputado nenhum jogo antes de 13-9-1908. Gonçalo Pereira Rosa estudou agora o caso do assassinato da actriz Maria Alves em 1926 e publicou dois livros onde esse tema é desenvolvido mas o «Magazine» do «D.N.» publicou outro dia um texto sobre o assunto como se a pólvora estivesse a ser descoberta agora, no ano de 2018. Gonçalo respondeu com ironia a quem o interpelou sobre este caso: «Já nada me espanta». Outro dia passou-me pelas mãos um recorte da revista «Sábado» com a história da macaca de Oliveira de Azeméis, vila onde a comitiva do SCP costumava parar nos anos 40 antes de ir jogar com o FCP. Claro que os «leões» ganhavam, perdiam ou empatavam segundo factores determinados: as incidências do jogo, os erros dos jogadores de ambas as equipas, a influência da arbitragem que, muitas vezes, é decisiva. Ou seja – outras macacadas. Há por ali o perfume da prosa de António Simões («A Bola») mas uma coisas destas não é para quem quer, é para quem pode. Não dá para imitar. Voltando ao «Magazine» que faz parte do «D.N.» não bastava terem trocado «enclave» por «conclave» a propósito da Síria. Apetece dizer como a minha avó de Santa Catarina: «Não há direito!» E ela não desconfiava do que muito mais tarde eu verifiquei nos Tribunais de Menores: o Direito é o maior inimigo da Justiça.

(Crónicas do Tejo 128)

sábado, 15 de setembro de 2018

Os Totós ou Futebol, Mentiras e Falsificações


Nota prévia – Este Totó é um magnífico trabalho de caricatura do meu grande amigo Aniceto Carmona, natural de Vila Velha de Ródão. Primeiro caso: No «Notícias Magazine» de 18-3-2018 integrado no jornal «Diário de Notícias» desse dia o texto de Ferreira Fernandes refere as datas de Fernando Peyroteo como 1918-1968 quando o correcto é 1918-1978. Segundo caso: No Palácio Baldaya, numa exposição sobre o passado de Benfica, refere-se a Fábrica Simões & Cia Lda (malhas e confecções) situada na Avenida Gomes Pereira e pode ler-se o seguinte: «Fábrica em Palma de Baixo (Lumiar)». Terceiro caso: Na Estrada de Benfica está escrito numa chapa metálica da Câmara Municipal de Lisboa o seguinte: «Campo da Feteira. Este foi o primeiro campo atlético que pode considerar-se ter pertencido ao então designado Sport Lisboa, actual Sport Lisboa e Benfica. Inaugurado em 1907, o campo tinha capacidade para 8.000 espectadores, medindo 120 metros de comprimento e 79 metros de largura. O erro está na confusão estabelecida entre o Grupo Sport Lisboa, fundado em Belém no dia 28 de Fevereiro de 1904 e o Sport Lisboa e Benfica fundado em 13 de Setembro de 1908. Pelo meio fica o Sport Clube de Benfica, fundado em 26 de Julho de 1906, esse sim o proprietário do Campo da Feteira. O Sport Clube de Benfica praticava o atletismo e o ciclismo. Por essa razão o emblema do novo Clube em 1908 (S.L.B.) inclui a roda da bicicleta ao lado da bola e da águia. Não saber isto é ser Totó. Utilizar expressões dúbias como «pode considerar-se» é mais que isso, é ser Totó ao quadrado. Ninguém os proíbe de serem Totós mas não podem é tratar os outros como se fossem Totós. Deixem isso para a Universidade da Rabicha que tem uma parede branca capaz de aceitar tudo. Todas as mentiras e todas as falsificações.

(Crónicas do Tejo 126)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Testamento espiritual e últimas vontades de João XXIII



João XXIII (1881-1963) é o Papa a quem muitos de nós (nasci em 1951) devem o fim de um dos mandamentos que se aprendiam quando a Catequese se chamava Doutrina: «Ouvir missa inteira e abster-se de trabalhos servis nos Domingos, Festas e Dias de Guarda». De facto foi no Concílio Vaticano II que se deu o fim da missa «ouvida» para se iniciar a missa participada pois os celebrantes passaram a estar virados para o Povo em vez de se colocarem de costas. Posto isto vamos à citação retirada do livro Diário Íntimo de João XXIII (Editora Morais): «Peço perdão àqueles a quem inconscientemente ofendi; àqueles para quem não consegui ser motivo de edificação. Sinto que nada tenho a perdoar seja a quem for, porquanto em todas as pessoas que conheci e que comigo tiveram relações – mesmo que me tivessem ofendido ou desprezado ou tivessem tido pouca estima por mim (com razão, de resto) ou me tivessem dado desgostos – apenas encontro irmãos e benfeitores, a quem estou grato e por quem rezo e rezarei sempre. Nascido pobre mas de gente honrada e humilde, sinto-me particularmente feliz por morrer pobre, tendo distribuído, segunda as várias exigências e circunstâncias da minha vida simples e modesta, ao serviço dos pobres e da Santa Igreja que me alimentou, tudo o que me veio parar às mãos – em proporções bastante limitadas de resto – durante os anos do meu sacerdócio e do meu episcopado. Agradeço a Deus esta graça da pobreza de que fiz voto na minha juventude, pobreza de espírito, como padre do Sagrado Coração e pobreza de facto; e o amparo que me deu, a fim de não ter precisado de pedir nunca nada, nem lugares, nem favores, nem dinheiro, nem para mim nem para os meus parentes e amigos.» O texto é datado de Veneza em 29 de Junho de 1954 (fim de citação).

(Crónicas do Tejo 127 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

«Big Mal & Companhia» de Gonçalo Pereira Rosa



Portugal é um país pequeno na Geografia mas grande nos Paradoxos; tropeçamos no insólito, no peculiar, no inesperado. Há o morto que fala, o cantor que não canta, o juiz que fala na TV e nos jornais. No Futebol Português primeiro jogou em 18-12-1921 a selecção nacional e só depois em 18-6-1922 se disputou a final do Campeonato de Portugal. O paradoxo deste livro de Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) está implícito: os estágios nos hotéis foram o motivo de ruptura, hostilidade e afastamento de Allison mas foi em algo parecido com estágios (almoço, lanche e jantar em restaurante) que os jogadores do Sporting criaram, cimentaram e deram corpo à sua união, à sua amizade e ao seu companheirismo. Dinis Machado contou-me que seu pai, Oliveira Machado, dono do «Farta Brutos», ex-árbitro, colaborador do RECORD e benfiquista fanático, o levou à Rua Jardim do Regedor para ver a Sala de Troféus do SLB. No fim da visita ouviu-o dizer: «Eu sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!». Gonçalo Pereira Rosa apertou a mão a antigos jogadores leoninos e ao longo de quatro anos reuniu depoimentos: Meszaros, Melo, Fidalgo, José Eduardo, Francisco Barão, Inácio, Eurico, Zezinho, Virgílio, Marinho, Ademar, Lito, Mário Jorge, Esmoriz, Carlos Xavier, Freire, Alberto, Nogueira, Manuel Fernandes e António Oliveira. Não só os jogadores mas também outras figuras da época: Mário Mateus (Marinho), Manuel Pinto Coelho, Armando Biscoito, Eugénio Silva Ribeiro e João Xara Brasil. O livro tem 316 páginas, 12 capítulos e 1 epílogo e com as 16 páginas a cores é uma fotobiografia. Um dia Brian Clough, em conversa com Allison afirmou: «Não terás problemas com directores até ao momento em que tiveres sucesso». Pedro Gomes e Barnabé testemunham a mesma atitude; depois de vitórias nas «Reservas» do Sporting com o Alhandra e o Sintrense foram castigados por falta de empenho. O mesmo é dizer falta de esforço, devoção e dedicação. Os directores nunca poderão ter com eles a glória; só lhes resta o poder. Andei pelo país de 1988 a 2006 em reportagem para o Jornal SPORTING e posso testemunhar que Jesus Correia ou Manuel Fernandes eram festejados com júbilo enquanto os vice-presidentes eram ignorados. O despedimento do médico Pinto Coelho por um director à porta do autocarro «leonino» foi uma facada no treinador Alison, seu amigo de todas as horas. Em 1928 nos Jogos Olímpicos de Amsterdão Portugal começou por ganhar ao Chile por 4-2 e à Jugoslávia por 2-1 vindo a perder com o Egipto por 2-1, o Egipto que a Itália venceu por 9-0. A equipa do Sporting teve uma maldição parecida: venceu o Campeonato e a Taça de Portugal mas foi eliminada na Taça UEFA por uma equipa com nome de medicamento. O incrível aconteceu em 1982 como em 1928. Passar do particular para o geral é um dos méritos deste livro. Cada história vale por si mas desenha o quadro de um tempo português em 1981-82 um tempo sem telemóveis nem Internet mas no qual já existiam as raízes do actual estado de coisas. Um exemplo: Southampton e a tentativa de esconder na RTP o filme do jogo no qual pela primeira vez uma equipa portuguesa venceu uma equipa inglesa em Inglaterra. A página 167 do livro compara o jogo de futebol a um circo. É um tema que dá pano para mangas. Um dia Fernando Assis Pacheco escreveu «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa». Eu digo «Se eu fosse Deus faria com que este livro tivesse os leitores que merece». E apertava a mão ao Gonçalo como o Dinis Machado apertou ao Jesus Correia.

(Editora: Planeta, Revisão: Fernanda Fonseca, Fotos: José Lorvão e Arquivo Manuel Pinto Coelho -  Um livro por semana 593)
   

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O meu destino em 1957 era ser navalheiro como toda a gente



«Eu sou a filha da Julita» - dizia a menina que me abriu a porta do escritório da fabrica «Ivo Cutelarias» fundada em 1954 por João Ivo Peralta, irmão de António Ivo Peralta («Sovi»), amigo da minha mãe (Olímpia do Carmo Almeida) e do meu pai (José Francisco). Foi no passado dia 8 de Março e houve uma viagem no tempo. A partir da frase «Eu sou a filha da Julita» lembrei-me de Santa Catarina em 1966 quando havia as férias «grandes»: a Julita comprava uma cigana para o almoço do pai (Euménio) dito Ménio, o Roberto inaugurava com o meu avô José Almeida Penas a época do «abafado» na azenha do ti Zé Padre no Rio do Casal da Coita que vinha pelo Vale de Água até se juntar ao Rio da Pedra. O meu avô era guarda-redes da equipa onde jogavam o meu tio-avô Joaquim Freire, o Juventino do ti Manel Inácio (o primeiro jornalista), o ti Carlos Pinheiro (que me dava limões), o Abílio Milhafre (que tocava clarinete), o Diamantino do Manel Lúcio, o Zé Coimbra que tocava pratos na Filarmónica. Eram onze e não havia substituições. Nos jogos do Campo do Rio da Pedra, mais tarde, lembro-me do Joaquim Clímaco recolher o dinheiro para a lavadeira num boné. Esse mesmo Joaquim (irmão do Manel, meu colega na 4ª classe) um Domingo de manhã salvou-me a vida: a minha avó mandou-me ir buscar a burra ao Vale de Água e o cão a ladrar à porta do Afonso (ferrador) assustou o animal que dasatou a galopar. Perto do portão da Casa Grande o Joaquim conseguiu parar a burra e assim me safei pois poderia ter ficado ali se batesse com a cabeça nas pedras da rua. O meu avô foi amigo do Artur Sena Pinheiro, fundador da «Senófila» onde nasceram os Xutos e Pontapés. A vida é um mistério. A memória é um sótão distante. A prata da minha casa tem onze heróis. Estão todos na fotografia; ninguém quer sair.

(Crónicas do Tejo 125 - Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Almada e o Tejo – roteiro sentimental de uma das «minhas» cidades



Quando elaborei por escrito e por extenso uma espécie de «memória justificativa» para num certo sentido legitimar o início das minhas crónicas (do Tejo) no «Correio do Ribatejo» dei conta das minhas vivências em 1957 no Montijo (escola primária), em 1961 em Vila Franca de Xira (escola comercial) e em 1997 em Santarém (redactor de O MIRANTE) sem esquecer Lisboa e a Rua do Ouro onde tenho vivido e trabalhado desde 1966 até hoje – 2018. Mas a vida é um mistério e nada acontece por acaso: hoje (15-3-2018) entrei numa livraria com o meu amigo Joaquim Nascimento (ofereceu-me um livro!) e comprei o brasão de Almada. Embora nunca tenho lá vivido nem trabalhado, a verdade é que, desde sempre, me lembro de esta (hoje) cidade fazer parte da minha vida. Há muitos anos morreu na piscina do Seminário de Almada um jovem estudante natural de Santa Catarina (o António) de quem eu era muito amigo. Na altura só me lembro de duas palavras perante a sua morte: dôr e confusão. Dôr pelo desaparecimento dele e confusão pelas circunstâncias nunca esclarecidas da sua morte. Mais tarde Almada foi o lugar onde entrevistei o dramaturgo Romeu Correia para a Revista «A Bola Magazine», entrevista mais tarde englobada no meu livro «As palavras em jogo» e parte dela recordada no livro «Passeio mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro. A propósito deste meu grande amigo e quase-conterrâneo (Salir de Matos fica perto de Santa Catarina) não posso deixar de recordar as suas grandes capacidades informáticas em meu favor (sou um sem-abrigo) e as nossas intermináveis caldeiradas em Cacilhas quando a refeição serve em teoria para actualizar a escrita mas apesar de tudo esta nunca fica, de facto, em dia. A minha filha Ana, o marido e os filhos gostam muito da Casa da Cerca mas isso já é outra crónica.

(Crónicas do Tejo 123)

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dissertação para a voz de Maria Flor Pedroso



Quase nada sei das origens da tua voz, seu timbre e sua altura, seu calor e sua extensão, seu peso e seu rigor. Chamo-lhe calorosa pois sinto nela o calor que sacode o dia, aquece o pão, ferve o leite e convida ao pequeno almoço com ovos e bacon. Quando ouço a tua voz sinto nela o rumor ritmado das ondas de todas as praias e as melodias de todas as orquestras. Melodia, harmonia, contraponto – o que quer que seja musical nas manhãs de Rádio. Porque toda a minha infância cabe numa telefonia Schaub Lorenz. O senhor Messias, o Compadre Alentejano, o Teatro das Comédias, o romance da hora do almoço, o telefone toca do Matos Maia. E também os discos pedidos dos doentinhos dos sanatórios – Serviço 6, Sala 2, Cama 4. Sem esquecer os anúncios: «Candeeiros bem bonitos / modernos, originais / compre-os na Rádio Vitória / não se preocupe mais.» A tua voz é clarim, bandeira, estandarte.  Primeiro avisa, depois convoca, de seguida vem guiar os ouvintes como numa antiga romaria entre o sol que brilha e o pó que não assenta. Havia a Rádio Graça, a Rádio Peninsular, o Clube Radiofónico de Portugal e a Rádio Voz de Lisboa. A Voz de Lisboa era essa mistura feliz do vagar dos eléctricos e da pressa na espuma dos rebocadores, o vagar do sinaleiro e a pressa das fragatas do outro lado do Tejo. Vivi no Montijo entre 1957 e 1961; por isso ser fragateiro era um dos meus destinos possíveis. Aos Domingos à tarde os eléctricos levavam bandeiras de estádios: Luz, Restelo, Tapadinha, Lumiar. À noite saía nos jornais o resumo da jornada com a classificação e os melhores marcadores. Os ardinas voavam nas Escadinhas do Duque. Era a voz de Lisboa. Quase nada sei das origens da tua voz. Sei que nela passa o coração do Mundo. As sombras e as luzes, as sementeiras e as colheitas, a terra e o mar. Tudo cabe na tua voz que não termina e que continua.        

(Crónicas do Tejo 117 – fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, 3 de julho de 2018

«No lamaçal da Primavera» de Alice Ruivo



Neste seu quinto livro de ficção, Alice Ruivo (n.1955) retoma o universo sentimental dos seus primeiros romances: O amargo e doce sabor da vida, Matilde, Carlota e Juliana e No dorso do vento. Neste No lamaçal da Primavera o ponto de partida é o casal Aurora e Jaime que vê a sua longa relação sacudida por uma frase de Jaime («Vamos para o divórcio») originando em Aurora uma nova situação: «Não é fácil recomeçar aos cinquenta e cinco anos mas estava decidida a deixar para trás os cacos, as pálpebras vermelhas e os soluços inacabáveis.»
O livro organiza-se em histórias cruzadas de várias gerações, a autora evidencia o mérito de partir sempre do particular para o geral deixando o registo de um certo tempo português entre 1945 e 2015, algo como setenta anos. Foi em 1945 que os pais de Aurora (Severino e Amélia) casaram. Com o divórcio de Aurora e Jaime a transitar em julgado, surge uma aproximação a Mariana: «Mariana colocou a mão sobre a sua nuca, procurou a raiz naquela massa de cabelo. Beijaram-se. Sentiu o seu clitóris endurecer, sair do seu esconderijo para se oferecer à fricção.» Mais à frente acontece o desenlace («não criámos raízes, na verdade muita coisa nos separa») e a conclusão: «Célia era mãe de Severino (pai de Aurora) e de Olinda (mãe de Mariana). Tinham a mesma avó. A avó Célia. Eram primas. Ou meias-primas.» Mais tarde Aurora fará o balanço com Mariana: «Eu não deixei o Jaime, ele é que me deixou. Por isso tu não foste uma troca, da mesma forma eu também não fui para ti. Ou seja: não deixaste a Odete por mim e ainda bem. Por isso aqui ninguém usou ninguém. Acontece entre duas criaturas que são livres e donas da sua pessoa.»
Tal como no caso Aurora/Jaime, com o problema de Constança e Fernando passa-se o mesmo: o conflito passa do privado para o social e a história torna-se exemplar, ganhando assim o estatuto de história de proveito e exemplo. Um livro de 179 páginas que se lê com a sofreguidão de um «policial» não à procura do criminoso mas à descoberta do lugar específico do tecido social onde os dramas se escondem e se revelam.  
  
(Capa: Maria Soledade Centeno, Prefácio: José Luís Outono, Posfácio: Lynda Carvalho - Um livro por semana 590)

segunda-feira, 25 de junho de 2018

«Crónicas de Porcelana» de Soledade Martinho Costa



Soledade Martinho Costa que desde 1973 é reconhecida como autora de livros de poesia, teatro, etnografia e literatura infanto-juvenil, estreou-se no campo da crónica em 2015 com «Uma estátua no meu coração». Este segundo livro de crónicas num total de 214 páginas integra 61 textos divididos em 4 grupos: «Abre-latas», «Histórias da Velha do arco», «Segredos» e «Crónicas de Porcelana». O ponto de partida do livro é uma frase de José Saramago no livro «Deste Mundo e do outro»: «Crónicas que são? Pretextos ou testemunhos?» Mas também um ideia do mesmo autor, citada na página 9, logo a seguir à dedicatória: «A vida, que parece uma linha recta, não o é. Construímos a nossa vida só uns  cinco por cento, o resto é feito pelos outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros.»
Esta ideia de «viver com os outros» (título de um livro de Isabel da Nóbrega) está presente na atitude da autora perante figuras das Artes e das Letras que povoam algumas da crónicas como Sarah Affonso, Amália Rodrigues, Afonso Praça, Tóssan, Carlos Nejar, Luiz Pacheco ou Francisco Lyon de Castro. Para dar uma ideia aproximada do interesse deste livro de crónicas fiquemos por três citações. A primeira sobre a profissão de escritor: «Dirigi-me ao Hospital Novo de Celas, em Coimbra, ali a dois passos. Para meu espanto a funcionária desfez de imediato as minhas dúvidas com a seguinte explicação: - Sabe, é que no nosso ficheiro não consta a profissão de escritora. A palavra mais parecida é escriturária. Por isso é que está assim escrito – e acrescentou: - Já há uns meses, esteve cá um escritor e aconteceu a mesma coisa; nós escrevemos escriturário, lembro-me muito bem. Ele chamou-nos a atenção mas, como disse, essa profissão não consta do nosso ficheiro.» A segunda, a propósito do livro «Os contos exemplares» de Sophia de Mello Breyner é uma situação passada numa livraria de Lisboa: «Não leve. Esse livro é já muito antigo. Foi escrito há muito tempo. Tem aqui outros mais modernos… Não quer ver?» A terceira citação surge na página 85: «são mesmo os Portugueses um povo adverso aos livros e à leitura? Um povo que não lê? Que mal conhece os seus autores? Que prefere o futebol e as tristes cenas de muitos dos programas que entram na nossa casa sem nos pedirem licença, transmitidos pelos canais de televisão? Que tem absoluto desconhecimento da importância da leitura? Ou a razão deste despovoamento nas livrarias tem origem noutras causas? A situação difícil em que os Portugueses vivem (nem todos, é claro!)? A falta de dinheiro para gastar em livros quando a despensa está vazia?»

(Editora: Sarrabal, Capa: «A feira» de Petrus van Shendel, Revisão: L. Baptista Coelho - Um livro por semana 588)


segunda-feira, 18 de junho de 2018

«Juncos à beira do caminho» de Francisco José Viegas



Embora conhecido como autor de livro de teatro, gastronomia, viagens e ficção (Grande Prémio da A.P.E. em 2005) Francisco José Viegas (n.1962) tem como poeta um percurso de quarenta anos. O seu primeiro livro cujo título é «O Verão e depois» foi publicado em 1978. Este livro recente com o título retirado do poema da página 21, abre com a citação de um verso de Vasco Graça Moura (1942-2014) que lembra o poeta inglês John Keats (1795-1821) - «A thing of beauty is a joy for ever».
O autor regista no livro memórias da terra e da gente: seja de um tio («O meu tio deu a volta / ao mundo; agora está a dois passos da casa / onde nasceu»), de uma tia («Ela despedia-se da vida, era a Páscoa») ou de um avô: «O meu avô vestia a ganga pobre e limpa / dos operários; rosto mais honrado / não conheci.» A morte está muito presente nos poemas deste livro, seja através de uma trilogia («a morte, a doença e a família»), seja na memória dolorida de um lugar («longe de casa, sem saber quem se ama, quem se é, quem pode amparar-nos, ouvir , responder») seja ainda na certeza duma inevitabilidade: «Um a um os meus são enterrados e aguardam-me.»
Se cada poema é um retrato, ele oscila sempre entre a paisagem e o povoamento. Por exemplo o poema da página 60: «A precoce geada de Outono desperta os demónios / da melancolia se recordo aquela paisagem / da província, amável, que nunca me roubou / nem a alegria, nem os nomes que guardei até hoje.»
Conclusão provisória como todas: se o ponto de partida é o balanço amargo da página 32 («Hipertensão, silêncio e más noites») o ponto de chegada é uma lição: «não fazer balanços, / não corrigir o passo, nem tudo pode consertar-se / - não há remédio seguro para os grandes erros, / nem no amor, nem na má educação dos filhos / nem na pequena solidão que nos protege dia a dia / quando todos regressam a casa e tu ficas entre / as mesas dos que foram embora.»

(Editora Caminho, Capa: Rui Garrido, Foto da capa: Rui Rodrigues, Foto da contracapa: Alfredo Cunha - um livro por semana 589)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A última aguardente do Tio Nascimento



Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

(Crónicas do Tejo 113 - fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Celtic 1967 – Os leões de Lisboa na Ribeira do Jamor


A Ribeira do Jamor é bonita mas não tem estatuto para ser «cantada» por quem, como eu, andou a estudar na Escola Primária entre 1958 e 1961. Os afluentes da margem direita do Rio Tejo são: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. A pequena Ribeira do Jamor não tem dimensão para ser referida nos manuais de Geografia mas faz parte da minha memória do ano de 1967. Quando saí do eléctrico com bandeiras de «Estádio» atravessei uma pequena ponte sobre a Ribeira do Jamor. Era um jogo especial porque era a primeira final da Taça dos Campeões Europeus disputada em Portugal. Os vencedores ficaram conhecidos até hoje como os leões de Lisboa. O livro «The oficial little book of Celtic quotes and trivia» compilado por Douglas Russel em 2005 refere um facto quase lendário: os jogadores do Celtic, depois de olharem para os favoritos do Inter, terão recebido instrucções do treinador Jock  Stein para cantarem «The Celtic Song». Podem ter começado a ganhar o jogo nesses momentos. Depois de afastarem o Zurich, o Nantes e o Dukla de Praga, os leões de Lisboa venceram os italianos do Inter com golos de Tommy Gemmel e Steve Chalmers mas na minha memória ficam as jogadas endiabradas de Jimmy Johnstone a rebentar com a defesa italiana onde os jogadores eram todos famosos a começar pelo keeper Sarti e a acabar no lateral Corso que era um polivalente. A famosa empresa Fabergé celebrou a exibição soberba do Jimmy Johnstone com um ovo em sua honra, coisa que apenas tinha contemplado os Czares e as Czarinas do Império Russo no princípio do século XX. Já passaram 50 anos, quase 51, mas parece que nada mudou. Nem o eléctrico nem a Ribeira do Jamor nem o jogo entre o Celtic e o Inter, nem o Tejo ali tão perto, quase a desaguar no Oceano Atlântico.   

(Crónicas do Tejo 116)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Carlos Pinhão entre o Chiado e o Tejo



Do Largo do Chiado vê-se o Rio Tejo e os cacilheiros até parece que «estacionam» nos telhados dos prédios do Cais do Sodré e da Rua do Alecrim. Quando o jornal desportivo A BOLA era publicado às segundas, quintas e sábados, quando estava algum calor na cidade e não havia ar condicionado na redacção do jornal, o Carlos Pinhão (meu mestre informal de Jornalismo) vinha até à janela que dava para a Rua Diário de Notícias ver as cenas próprias do Bairro Alto: uma taberna, uma velha, um rapaz atrevido a chamar-lhe velha, um berreiro interminável. No fim nascia um poema que eu viria a ler mais tarde num livro de Luiz Pacheco. Longe vai o tempo de Eça de Queiroz escrever «o que um pequeno grupo de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos, decidir no Chiado que Portugal seja – é o que Portugal é.» Lá pelos idos de 1966 ainda se dizia que o Chiado era um Estado dentro do Estado: tinha como qualquer Estado o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia e a sua Catedral. O facto de um meu livro de crónicas ter o título de «Entre o Chiado e os Açores» levou-me a procurar saber mais sobre este lugar mágico, pitoresco e elegante Sempre ouvi falar do poeta António Ribeiro Chiado como estando na origem do nome do Largo e, por reflexo, do espaço à sua volta. Um belo dia Alberto Pimentel encontra um documento datado de 1567 mencionando um tal Gaspar Dias, de alcunha «o Chiado», como proprietário de uma taberna que se situou um pouco acima da esquina da actual Rua do Carmo com a Rua Garrett. Será o Chiado taberneiro ou o Chiado poeta o tronco genealógico do Chiado artéria alfacinha? Isso não sei nem estou interessado em saber. Sei que, como Carlos Pinhão descobriu há muitos anos, uma taberna é como um poema, um lugar feliz onde ninguém está só. 

(Crónicas do Tejo 115)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Quirino Teixeira – memórias dum jornalismo romântico



Quando refiro (e nunca é de mais) os meus mestres do Jornalismo no «Diário Popular» (Jacinto Baptista) e em A BOLA (Carlos Pinhão) não posso esquecer o que aprendi com Quirino Teixeira na redacção da Revista do Jornal TEMPO. Foi ele que me ensinou o pouco que sei sobre paginação de jornais e revistas, coisa essa que tão útil me foi mais tarde em todos os jornais onde trabalhei primeiro como colaborador e depois como redactor efectivo. Há muitas histórias engraçadas. Um dia, por alturas de uma passagem de ano, sugeri que na próxima semana só se referissem livros infantis sob o título de «Na semana mais pequena, livros para os mais pequenos». Quirino achou piada e disse-me para nunca me acanhar com sugestões. Um fim de tarde, passámos largo tempo a escolher uma capa para a Revista a cores (era uma igreja numa ilha açoriana) e, dois dias depois, quando o jornal saiu para as bancas, a capa era outra. Alguém se tinha chegado à frente com duzentos e cinquenta mil escudos e por isso a capa era uma família feliz – pelo menos na fotografia. Outra vez foi a nota de leitura que assinei sobre um livro do José Agostinho Baptista; ao chegar ao Funchal o poeta recebeu um envelope da sua irmã com vários textos de jornais da Madeira sobre livros recentes deste autor. Alguém, num jornal local, tinha achado que o melhor e mais fácil era copiar na íntegra o que eu tinha escrito no TEMPO. Chamo-lhe jornalismo romântico porque não havia interesses materiais em jogo, as coisas eram feitas pelo prazer de, todas semanas, sair para a rua uma revista onde estava o melhor de nós. Era essa a contrapartida, a moeda de troca. Poderia lembrar que Quirino Teixeira entrevistou Fernando Namora, Salvador Dali, Juan Miró, Antoni Tapiés, Ana Maria Matute, Camilo José Cela ou António Vallejo mas isso já é outra crónica.  
    
(Crónicas do Tejo 114)


sexta-feira, 11 de maio de 2018

«O processo de Camilo»



Novo livro de Carlos Querido

Foi apresentado em Caldas da Rainha no passado dia 14 de Abril o mais recente trabalho de Carlos Querido. Nasceu em Salir de Matos (1956), viveu em Santarém cinco anos e é hoje juiz desembargador na Relação do Porto. Autor de Salir d´Outrora (2007 e Praça da Fruta (2009) publicou recentemente Insanus (contos) depois de Príncipe Perfeito – Rei pelicano, coruja e falcão e A redenção das águas. Este livro é um pequeno ensaio de 36 páginas escrito a partir do processo judicial existente no Tribunal da Relação do Porto que narra o drama de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, presos, acusados e julgados pelo crime de adultério. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Correio do Ribatejo 127 anos depois



O jornalista como historiador do quotidiano

Quando comecei a escrever nos jornais (1978) Jacinto Baptista afirmava no «Diário Popular» - «o jornalista é o historiador do quotidiano». Ora o quotidiano português em 9-4-1891 (já lá vão 127 anos) era dominado pelo Ultimato Britânico de 1890 e pelo movimento patriótico que se levantou contra aos ingleses. O patriotismo era comum a toda as classes sociais. Basta lembrar que as comemorações camonianas de 1880 foram financiadas pelo Conde de Burnay, que o Duque de Palmela devolveu as suas condecorações trazidas de Londres ao embaixador inglês em Lisboa e que a Duquesa de Palmela organizou uma «sopa dos pobres» em Lisboa. Associações, Clubes e Filarmónicas ganhavam expressão. Mas não era só Luís de Camões que se comemorava: o 24 de Julho (de 1833) marca a chegada a Lisboa das tropas liberais, o 1º de Dezembro (de 1640) marca a recuperação da independência nacional e sem esquecer a romagem anual ao túmulo de Joaquim António de Aguiar (1793-1871) conhecido como o «Mata Fardes». O Governo inglês sonhava com um corredor continental em África do Cairo ao Cabo mas o chamado Mapa Cor-de-Rosa propunha que Portugal ocupasse o vasto território entre Angola e Moçambique. Em 11-1-1890 o embaixador britânico em Lisboa exigiu a retirada imediata das forças militares portuguesas estacionadas no Noroeste de Moçambique (Chire e Machona) e ameaçando com o uso da força caso o nosso país não aceitasse a exigência até às 10 horas da noite do dia 11-1-1890. O Governo português reúne-se de emergência com o Conselho de Estado e salvo duas excepções, todos os membros do Governo e do Conselho de Estado aceitam a imposição britânica. Claro que a 14-1-1890 o Governo demitiu-se e o novo Governo (regenerador) aceitou o Ultimato. O resto está nos livros, é História. Mas o «Correio do Ribatejo» que hoje, continua o que começou há 127 anos como «Correio da Extremadura», é também, História. O passado dá a todos nós que o fazemos hoje um orgulho, uma vontade e uma força enormes, o futuro é um horizonte de muitas coisas possíveis. O presente é esse intervalo feliz entre o passado e o futuro, espaço no qual o sonho dos pioneiros de 1891 continua activo e desafiador: contar às pessoas as suas próprias histórias, fazer da cada novo jornal um ponto de encontro, ser o historiador do quotidiano de todos nós.


sábado, 28 de abril de 2018

Padre Amílcar Fialho (1944-2001) ou a boa surpresa na página de um livro



A página 180 do livro «O sítio de Benfica e a tradição dominicana» de Artur Santa-Bárbara (edição da Paróquia de São Domingos – Benfica - Lisboa) refere dom Fernando Teles de Menezes como conde de União em vez de conde de Unhão. Má surpresa mas a página 237 mostra o largo sorriso do novo presbítero do Patriarcado, Amílcar Luís Fialho, ao lado de Frei Carlos Santos. A foto não tem data mas deve ser de 1967. Nascido em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em 27-4-1944, foi admitido no Seminário de Santarém em 1-10-1955 tendo sido ordenado sacerdote em 1967 e passando a ser pároco nas Lapas e na Ribeira Branca em 1968. Filho de João Fialho e Conceição Fialho, este meu valoroso conterrâneo veio a falecer em 18-5-2001. Da sua passagem pela Direcção do Jornal «O Almonda» regista-se em 24-5-1975 um firme propósito: «Empenhar-me-ei desde o primeiro momento não em servir ninguém mas a Verdade, que é revolucionária.» Mas em 9-11-1979 confessava a sua relativa frustração: «Passados mais de quatro anos de fortes tensões provocadas pela angústia constante de me sentir «bola de pingue-pongue» nos jogos de interesse, verifico, com pena, a necessidade de abandonar o campo por falta de forças físicas. Numa luta permanente e desgastante, obrigando-me, tantas vezes a enfrentar problemas e situação cheias de imponderáveis e contradições, o confronto humano, social e cristão arrasa o sistema nervoso, provocando possíveis doenças de consequências incalculáveis.» 

Uma nota final de agradecimento a Alexandra Xisto e Laura Martinho pela ajuda preciosa nos dados biográficos do padre Amílcar Fialho.     

(Crónicas do Tejo 110)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O comboio da Sertã, a vila das Caldas, «gralhas» e deslizes



Uma pessoa acorda, toma banho, come, veste-se e vai para a rua e a primeira coisa que vê é uma carrinha frigorífica à porta dum talho com a expressão «São António» em vez de Santo António. Sabe-se que São se usa para João ou Pedro, os santos populares de Junho cujo nome começa por consoante. Minutos depois no comboio a mesma pessoa lê Melecas em vez de Meleças e no Metropolitano vê Marques Pombal em vez de Marquês de Pombal. Ao sair na Praça de Espanha (lê-se Praca Espanha) fica a pensar no nome antigo da estação que era Palhava em vez de Palhavã. A seguir pega num livro e lê uma referência ao comboio da Sertã na página 74 e duas vezes na página 90 às Caldas da Rainha como vila sem esquecer na página 98 a expressão vila termal. Sabe-se que não há nem nunca houve comboios na Sertã e as Caldas são cidade desde 1927. Na página 131 lê-se reouve quando o verbo é reaver ou seja «ter de novo» que é diferente de ouvir.
Pego noutro livro e leio lojistas com «g» na página 130 depois de ter lido na página 125 Dutra Trafaria em vez de Dutra Faria. Li depois no mesmo livro o nome do jornalista Urbano Carrasco como Urbano Camacho referido como sendo do «Diário da Manhã» mas não faz sentido no contexto porque esse jornal era da situação, não da oposição. Leio na página 26 António Régio por António Sérgio e na página 32 «ostão» por estão. Mas para acabar o dia em beleza leio num livro sobre São Domingos de Benfica uma referência ao conde de União que não existe porque se trata do conde de Unhão. Cheguei a casa com o cinto cheio de caça mas terá valido a pena? Talvez sim ou talvez não. Nunca saberei ao certo.  

(Crónicas do Tejo 108 - fotografia de autor desconhecido)



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Mário Duarte a «angústia sem lágrimas» entre o pó e a posteridade



Autor de «Aquário» (1979) e «Jornal Poliédrico» (1989). Mário Duarte (1954-1978) pôs termo à vida em 1978 na Holanda onde vivia como exilado. Na apresentação do segundo livro Fernando Venâncio escreve: «Desconhecemos, ainda, o Diário de Mário Rui. Nele se encontrará, porventura, resposta para a interrogação sobre o grau de consciência que o jovem exilado tinha do seu talento, em particular literário. Do que não resta dúvida é que o escritor Mário Duarte tinha virtudes das que mais recomendam um oficial das letras: era laborioso e era um insatisfeito. Não é impensável que, ultrapassada a euforia dum início de reconhecimento, Mário Duarte repudiasse, garbosamente, os seus ensaios de juventude. Hoje,  eles são todo o acervo de um autor por quem os Desuses já guerreavam.» Citemos um dos textos: «Corredores Os corredores. O Hospital: edifício erecto e escuro. Os rostos semeiam-se na imensidão asséptica das enfermarias. O edifício está esventrado por corredores-gemidos. E os elevadores furam as paredes com pessoas de batas eficientes. As lavandarias produzem as batas entre indescritíveis ruídos brancos. O fumo das roupas acende muito feliz por uma chaminé de metal (um osso desmesurado, oco, em espirais). Os doentes olham os corredores com espanto. As camas disseminam-se. As camas invadem os corredores. Gritam as enfermeiras de touca eriçada. Os doentes emudecem. Os estudantes da Faculdade riem o espaço dos lábios. Os doentes imóveis. As pernas das camas caminham docemente pelas áleas laterais. Gritam os partos. As crianças dolorosas enxameiam os corredores de urina. À mulher dói-lhe o fruto: o nascimento. A cara crispa-se. Os lábios enrugam-se. A criança não quer sair. O útero lateja como um solo de clarinete.» (Fim de citação)   
     
(Crónicas do Tejo 107 - fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)

quarta-feira, 21 de março de 2018

Uma «Festa Redonda» da Terceira no CCB de Lisboa


António Valdemar, Luísa Costa e Luiz Fagundes Duarte foram os mestres-de- cerimónias da «Festa Redonda» terceirense em pleno CCB de Lisboa. O bilhete indicava a data (10 Mar 18), a hora (15:00), o preço (5,00 €) e o motivo (Dia Literário Vitorino Nemésio) mas não indicava o sentido último da Festa que é (e será sempre) um encontro, um intervalo de alegria e de luz num quotidiano cinzento e monótono. António Valdemar (com erudição e fotografias antigas) apresentou o percurso pessoal de Vitorino Nemésio (1901-1978) desde o seu nascimento (Vila Praia da Vitória) até às cidades que tomou como suas (Lisboa e Coimbra) sem esquecer a passagem pela Horta onde fez o exame do quinto ano do Liceu que lhe foi negado em Angra do Heroísmo. A nota de 10 (dez!) valores a Português e Francês que lhe foi atribuída no Liceu da Horta pode ter sido o impulso para o Prémio Montaigne que recebeu mais tarde e para o seu livro de poemas que foi escrito no idioma de Voltaire. Vitorino Nemésio foi sempre um poeta e (sabe-se) toda a poesia é (sempre) uma resposta. Para fazer uma roda são precisas quatro pessoas e foi Manuel Nemésio, do alto dos seus 87 anos, que acabou por encerrar a sessão. Antes tinha Luísa Costa lido (como só ela sabe) alguns poemas da «Festa Redonda» fazendo com que quem (de olhos fechados) a ouvia, se colocasse numa carroça de Vila Praia da Vitória a caminho de Angra do Heroísmo – quando ainda não havia a EVT e era tudo artesanal. Luiz Fagundes Duarte mostrou um pouco da «oficina poética» do Mestre e uma desconhecida e curiosa «memória justificativa» para a futura (nunca concretizada) segunda edição do livro «Festa Redonda» de Vitorino Nemésio. Por mim não posso deixar de lembrar que o quarto de João Garcia fica na Rua da Rosa. Tal como o de Vitorino Nemésio, ele mesmo.

(Crónicas do Tejo 122)


quinta-feira, 15 de março de 2018

O Saldanha numa memória escrita de Jorge Silva Melo


Em boa hora o jornal «Diário de Notícias» publicou uma colecção de fotografias de Lisboa com o título de «Lisboa antiga». No livro «Século passado» de Jorge Silva Melo (Edições Cotovia) descubro uma crónica notável sobre a vida no Saldanha nos idos anos 60 do século XX. A ler: «Sempre que, agora, por lá passo, pelo Saldanha, sinto-me fechado, angustiado, enterrado, esmagado, Foi ali que abri a minha vida juvenil, início de poemas, ideias de filmes e artigos, artigos, política. E agora quase só lá passo de carro, ponho-me a olhar para o que já não reconheço: há branco a mais, vidro a mais, atafulhamento de volumes, luzes a mais e não percebo o que por ali há, lojas e lojas onde não ouso entrar, marcas a mais, uns cinemas, umas caves, outras lojas, não sei, sei que nada daquele mundo é para mim, agora, parece-me arrabalde, auto-estrada. E foi, durante anos, o centro de Lisboa, da minha vida universitária, da Lisboa conspirativa dos literatos e cineastas, da gente do teatro e dos jornais. E era nos cafés, abertos desde manhã cedo a até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo se ia passando. A modorra de quem não sabe o que pode fazer para que as coisas mudem, as discussões sobre o filme acabado de estrear na sala ao lado, a análise do livro recenseado no suplemento do «Diário de Lisboa», nossa leitura obrigatória a partir das cinco da tarde, a participação nas polémicas que zurziam, os projectos profissionais. E, ao domingo, era o almoço com a família no Monte- Carlo, almoço demorado com pratos e sobremesas e conversas sobre cinema, o filme que se havia de ver naquela noite, se o Bem-Hur no Monumental, se o Quanto mais quente melhor, lá em baixo no São Jorge.» (Fim de citação…)    
(Crónicas do Tejo 106)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Lisboa e o Tejo a partir de uma gravura do século XVI


A fotografia reproduz a panorâmica da cidade de Lisboa que está num livro na Real Biblioteca de Madrid sendo os autores Georg Braun (1541-1622) e Frans Hogenberg (1535-1596) e cuja legenda na Revista National Geographic Magazine na sua recente edição especial com o título de «A conquista da América», começa deste modo e transcrevo com a devida vénia: «Localizado no estuário do Tejo, o porto de Lisboa foi o ponto de partida da maioria das expedições das Descobertas e de chegada do ouro do Brasil, alicerce da prosperidade do século XVI» Quero dizer na minha o seguinte: o Tejo é sempre o mesmo ainda que pareça novo todos os dias. O estuário do Tejo conhecido em termos populares por Mar da Palha ali está hoje (2017) quando escrevo esta crónica tal como estava no século XVI. Lisboa, sim, está diferente, o terramoto de 1755 deitou abaixo muitas casas. Não esquecer que o palácio da família do Marquês de Pombal era na Rua Formosa que é hoje a Rua de O Século. O arquitecto convidado pelo Marquês de Pombal morava por ali perto na Rua da Rosa e daí não é de admirar que a Baixa Pombalina seja parecida com o traçado do Bairro Alto e não tenha becos mas apenas praças, ruas e travessas. O Bairro Alto (onde esse senhor vivia) também não tem e fico todo arrepiado quando leio algo como «os becos do Bairro Alto». Adiante que se faz tarde. Voltando ao princípio e para terminar, perante esta belíssima imagem do Tejo e da Cidade de Lisboa só me posso lembrar de um verso de Fernando Assis Pacheco. Claro que não sei se o Fernando Assis Pacheco, ele mesmo, conhecia esta gravura mas o seu verso não se sai do pensamento. Algo como isto: «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa.»

(Crónicas do Tejo 105)

quinta-feira, 1 de março de 2018

«Marta de Jesus – A verdadeira» de Álamo Oliveira


Álamo Oliveira (n.1945) é conhecido pela vasta obra publicada (36 livros) em diversos campos (poesia, teatro, romance, conto e ensaio) mas seria reconhecido não tivesse vindo ao Mundo no Raminho – Ilha Terceira- Açores. O terrível sistema cultural onde estamos inseridos tem destas particularidades; o preconceito e a ignorância fazem o resto (como refere Vamberto Freitas) e vão atirando o pó do esquecimento contra a mais que justa posteridade da obra e do autor. O ponto de partida do livro é a vida na ilha das Flores: «Ali a vida era entendida de forma ervanária. Era como se fossem plantas das valetas ou da horta: nasciam, viviam, morriam e ponto final. Claro que havia os inconformados do sistema mas esses eram os que se atiravam num barco qualquer e iam à procura da terra que lhes estaria prometida.» Existe uma data para o arranque da narrativa («Era o Dia de Reis do ano de 2001 e toda a manhã choveu») e um lugar determinado: «ilha das Flores, assim chamada pela quantidade que delas havia e pela sua congénita formosura.» A protagonista é Marta de Jesus: «Tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura, cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só.» O pano de fundo da narrativa é o tempo da Guerra Colonial («Era já notável o número de mortos, os hospitais enchiam-se de feridos e estropiados») e é nesse contexto que surgem os seguidores de Emanuel Salvador: «O grupo aumentava e criava um ambiente de grande solidariedade e, sobretudo, de comunhão de ideias. Esse grupo designa os seus cronistas tal como os dos Quatro Evangelhos: «Mateus, Lucas, Marcos e João». Os caciques e os  reaccionários locais são nas Ilhas o equivalente a Salazar em Lisboa: «A guerra estoirou forte e feio na Guiné, em Angola e em Moçambique e Salazar começa a ficar sem tropas para mandar para as colónias.» Personagem presente e ausente é Pedro («um jovem poeta que saíra da ilha») e que aparece na página 141 referido pelo seu verso mais citado «califórnias perdidas de abundância». Depois de uma narrativa de 190 páginas com uma dupla inscrição (Os Evangelhos e o Grupo das Flores) o livro conclui: «Se esta foi ou não a verdadeira história de Marta de Jesus, ninguém sabe. Sabe-se que ela nasceu, viveu e morreu na ilha das Flores.» Havia um papel no seu leito de morte sendo «Mistério» a última palavra desse texto. O próprio autor acaba por sugerir: «Será bom que amanhã alguém volte a este assunto.» Livro dedicado a dois poetas (Marcolino Candeias e Vasco Pereira da Costa), trata-se de um texto invulgar, insólito e interminável. Por isso o livro não acaba na página 190 e continua a inquietar e a agitar o espírito dos seus felizes leitores.

(Um livro por semana 582 - Editora: Letras Lavadas, Foto do autor: Eduardo B. Pinto, nota da capa: Vamberto Freitas)



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

António Carmo – Histórias do Tejo num olhar da Madragoa


António Carmo (n.1949) é um pintor que todas as manhãs celebra a festa do encontro numa mesa da pastelaria-café «A Brasileira» no Chiado. Por brincadeira chamo a essa mesa «a mesa dos resistentes» porque nela de facto resistem hoje alguns artistas plásticos portugueses que considero os últimos da geração de Carlos Botelho, Almada Negreiros, Jorge Barradas ou Nikias Skapinakis. Um dos meus livros («Leme de Luz») tem capa de António Carmo e alguns textos meus publicados no jornal «O Ponto» tiveram a sorte e a honra de serem por ele ilustrados. Não somos amigos íntimos mas a admiração e o respeito pelo trabalho de cada um é a regra. Tudo isto tem a ver com o quadro «Histórias do Tejo» porque o meu olhar sobre o Mar da Palha se cruza com o do pintor António Carmo. Em 1957 fui viver para o Montijo e atravessava os estuário do Tejo nos velhos vapores (uma hora de viagem) para apanhar o comboio (automotora) do Rossio para Caldas da Rainha às 17h e 20m. Uma vez durante as cheias do Rio Tejo os empregados do vapor levavam os passageiros ao colo na Estação Sul e Sueste. Em 1966 fui viver para o Bairro de Santa Catarina e trabalhava na Rua do Ouro, estava sempre perto do Tejo. António Carmo tem o olhar da Madragoa sobre o Rio Tejo, todos os dias diferente, todos os dias igual. Pela minha parte até 1996 andei sempre por ali perto: Rua do Ouro, Fontes Pereira de Melo, Rua Castilho, Rua do Instituto Industrial. Sempre perto do Tejo. Quando havia duas horas para almoço, o passeio dos empregados do BPA na Rua do Ouro era até ao Cais das Colunas. Dizia-se «virar o carro», expressão irónica em 1966 para quem, como eu, só teve acesso a automóvel próprio em 1983. Este quadro de António Carmo lembra dois aspectos da travessia do Tejo: a grande aventura das Descobertas e o trabalho quotidiano das fragatas.    

(Crónicas do Tejo 102)


domingo, 18 de fevereiro de 2018

«Filhos da Primavera Árabe» de Paulo Jorge Pereira


Paulo Jorge Pereira (n.1970) avança na Nota do Autor a razão de ser do livro: «Este livro é um grito pela defesa dos inocentes, erguendo a voz em nome dos indefesos para que se diga basta de violência e ganância» explicando a organização da narrativa: «A história que aqui se conta, ficção misturada com realidade, é um símbolo da desgraça e da desigualdade na Síria perante a complacência generalizada.» 
Por sua vez o prefácio de José Manuel Rosendo sintetiza o drama dos protagonistas: «Mekdad e Waffa simbolizam o medo e a esperança, a resistência e o sofrimento. Mostram-nos como algumas decisões são difíceis e como, mesmo perante a adversidade e a morte daqueles de quem gostamos até doer, mesmo assim, é preciso continuar a fazer o caminho»
O casal Mekdad/Waffa vive em Damasco uma vida calma: «Iam ao cinema e ao teatro. As suas conversas não tinham fronteiras. Discutiam livros e filmes, pintura e escultura, banda desenhada e política, música e moda, religião e desporto.» Entretanto surge no livro o «diário» de um jornalista que é uma espécie de contraponto da narrativa e talvez não por acaso surge em itálico. Pode ler-se nas suas páginas uma pergunta: «E como se classifica um líder a arrasar o próprio país e o seu povo para se perpetuar no poder? Um presidente que é médico, licenciado em Oftalmologia e que não podia ser mais cego aos Direitos Humanos.»
Um idoso afegão adverte Mekdad: «Bandos de assassinos semeiam o terror e dizem que é para proteger o povo, a democracia, a bandeira, os direitos e não sei mais o quê. Tudo mentira!»  Estas três linhas narrativas diferentes (os dois protagonistas, o diário do jornalista e as ideias do idoso afegão) são a espinha dorsal desta história. Tudo começa numa frase escrita em Março de 2011 na parede de uma escola («És o próximo, doutor!») a que o jornalista chama na página 69 «movimento de revolta pelas liberdades» mas países como a Tunísia, o Egipto, a Líbia e o Iémen vivem dentro de outros conceitos e as chamadas «liberdades» não são matéria prioritária para esses povos. Na página 99 Mekdad afirma: «Tínhamos um belo país com arte, ciência e cultura, quase três mil locais arqueológicos, profissionais qualificados, estudantes interessados e uma geração com futuro risonho. A guerra roubou-nos tudo.»
A única resposta só pode ser o Amor mas Mekdad adverte Anne já na Alemanha: «Não podes amar alguém que já morreu. Eu estou vivo mas morri na guerra. Todas as razões que tinha para viver desapareceram.»
Uma nota final: os anjinhos do Mediterrâneo já existiram em 1917 na Arménia, em 1948 em Der Iassine, em 1961 em Agadir ou nestes dias na Faixa de Gaza. Vão continuar a existir porque a guerra não acaba, faz parte da vida do Mundo.

(Um livro por semana 581: Editora EGO, Mapa: Tiago Leal, Prefácio: José Manuel Rosendo)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O filme «Dom Roberto», o teatro de rua e as cégadas


Tanto no Montijo (1957-1961) como em Vila Franca de Xira (1961-1966) como na minha terra natal (Santa Catarina) sempre me lembro (1951-1957) de ver o chamado teatro dos robertos. Os primeiros que vi terão actuado junto da casa do «tio» Zé Rebelo (casa que já não existe) talvez no local onde hoje está o pelourinho que ao tempo estava junto da casa do Zé Latoeiro. A minha avó Maria do Carmo não gostava da linguagem dos robertos (tudo à base do «rais ta parta») e levava-me consigo de volta com um argumento forte: «Isto é só miséria!». Entre 1961 e 1966, eles actuavam no Bairro do Bom Retiro em Vila Franca de Xira em frente ao café do Birra, do outro lado do Colégio Sousa Martins. Como a linguagem era a mesma, o meu pai desandava e nunca víamos o fim do espectáculo. Em Lisboa conheci de perto as cégadas a partir de 1966. Não é a mesma coisa pois nas cégadas os actores movimentam-se na rua e nos Robertos estão confinados ao espaço quadrado do pano. Nas cégadas havia sempre um polícia, um janota, uma mulher e um homem. Claro que no fim o polícia batia a torto e a direito no janota para defender a honra do homem. Depois da apoteose surgiam quatro rapazes com um lençol velho para onde as pessoas à janela atiravam moedas para o jantar dos membros da «trupe». A Travessa do Caldeira recebia muitas cégadas que vinham do Bairro da Bica. Recebia também «touradas». Um dia um toureiro improvisado depois de se ver livre da «vaquinha» (ou tourinha) que era uma roda de bicicleta com um par de chifres, estava à espera de aplausos e levou na cabeça com uma panela de água de uma moradora que não gostou da brincadeira. A resposta magoada e triste do actor amador foi fulminante: «Nunca mais trabalho nesta praça!»      

(Crónicas do Tejo 100 – fotografia de autor desconhecido)