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domingo, 18 de fevereiro de 2024

«Os Açores nos versos dos seus Poetas» de Olegário Paz


Este livro de 550 páginas é o resultado de um espantoso trabalho de recolha semanal («Porque hoje é Sábado») que durou quase cinco anos até chegar à fasquia dos 400 poemas e dos 400 poetas. Olegário Paz (n.1941) organizou o volume por Ilhas (nove ao todo) e uma espécie de «décima Ilha» que é o conjunto de Poetas que mesmo não sendo das Ilhas pelo seu nascimento estão, em termos sentimentais, ligados aos Açores.

Vem ao caso o Poeta Carlos Faria (1929-2010) delegado de propaganda médica, agente cultural nas Artes e nas Letras, natural da Golegã, autor (entre outros) do livro «São Jorge – Ciclo da Esmeralda» (1992). Vejamos um excerto do poema «São Jorge-Pico»: «Diz o Poeta Almeida Firmino que na Ilha do Pico/ não há grilos! Ele é que sabe desta vida maravilhosa de cantores/ que se perderam no fundo dos vulcões/ e cantaram tão alto que perderam /as asas canoras nos fundos poemas da terra…/ O João sorri frontalmente e concorda/que os grilos não podem passar o canal de barco/ou a nado…/Os grilos, às vezes, embarcam de asas coladas /nos sacos e malas dos emigrantes/ e vão para a América: mas de lá/ não vêm notícias de tais cantores /que se perdem nas ruas de Boston ou São Francisco, /atropelados pelos automóveis!...»

Para cada conjunto de poemas surge uma nota de apresentação assinada por dez autores: João Saramago, Nuno Vieira, Maria Inês Vargas, Manuel G. Serpa, Frederico Maciel, Victor Rui Dores, Álamo Oliveira, Maria João Ruivo, Manuel Chaves e Miguel Real. 

(Editora: Letras Lavadas, Prefácio: Onésimo Teotónio Almeida, Posfácio: Artur Teodoro de Matos, Nota de contracapa: Dora Gago, Jardim Gonçalves, António Rego e Esaú Dinis)

[Livros e Autores 19]


segunda-feira, 26 de abril de 2021

«Florir na Charneca» de José Correia Tavares


José Correia Tavares (1938-2018) estreou-se nos anos sessenta do século XX com «Dádiva» (1961) e «A flor e o muro» (1962) e este recente «Florir na Charneca» é o seu segundo livro póstumo, tendo sido escrito na Charneca de Caparica numas férias de Verão. Conta com 90 páginas e divide-se em quatro sequências: «Balanço provisório»,«Fio de prumo»,«Com peso e medida» e «Tudo em aberto».

No prefácio José Manuel Mendes situa a obra de José Correia Tavares como exprimindo «uma tensão criativa entre as tradições fono-rítmicas, sentenciosas efabulatórias com origem popular, que renovou nos temas e formas, sobretudo ao eleger a quadra modo dilecto de respiração em verso, e a poética contemporânea, investida no trabalho da linguagem, numa busca das novas possibilidades do realismo, na abertura a instâncias sem fronteiras – da matriz lírica a um pendor sócio-interventivo com lugar para o humor e para a sátira.»

Dois exemplos dos poemas pessoais, digamos do lado do «eu»: «Já não tenho a energia / De quando era adolescente / Mas, no amor, na poesia, / Basta querer, vou à frente.» ou então «Sereias ias buscar /Uma ou duas sempre tinhas, /Velho, agora, frente ao mar /Riem de ti as sardinhas.»

E dois poemas desta vez do lado colectivo, o do «nós»: «Qualquer coisa como isso /Nada mais se pretendia/ Mas, daqui levou sumiço/ O que foi democracia» ou então «No país sem berbicacho, /Diria, de norte a sul, /Bem raro será o tacho /Que não tenha saco azul.»

(Editora: Húmus, Foto e apresentação: Natércia Tavares, Prefácio José Manuel Mendes, Apoio. Câmara Municipal de Almada)

 [Um livro por semana 666]

 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Almada e o Tejo – roteiro sentimental de uma das «minhas» cidades



Quando elaborei por escrito e por extenso uma espécie de «memória justificativa» para num certo sentido legitimar o início das minhas crónicas (do Tejo) no «Correio do Ribatejo» dei conta das minhas vivências em 1957 no Montijo (escola primária), em 1961 em Vila Franca de Xira (escola comercial) e em 1997 em Santarém (redactor de O MIRANTE) sem esquecer Lisboa e a Rua do Ouro onde tenho vivido e trabalhado desde 1966 até hoje – 2018. Mas a vida é um mistério e nada acontece por acaso: hoje (15-3-2018) entrei numa livraria com o meu amigo Joaquim Nascimento (ofereceu-me um livro!) e comprei o brasão de Almada. Embora nunca tenho lá vivido nem trabalhado, a verdade é que, desde sempre, me lembro de esta (hoje) cidade fazer parte da minha vida. Há muitos anos morreu na piscina do Seminário de Almada um jovem estudante natural de Santa Catarina (o António) de quem eu era muito amigo. Na altura só me lembro de duas palavras perante a sua morte: dôr e confusão. Dôr pelo desaparecimento dele e confusão pelas circunstâncias nunca esclarecidas da sua morte. Mais tarde Almada foi o lugar onde entrevistei o dramaturgo Romeu Correia para a Revista «A Bola Magazine», entrevista mais tarde englobada no meu livro «As palavras em jogo» e parte dela recordada no livro «Passeio mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro. A propósito deste meu grande amigo e quase-conterrâneo (Salir de Matos fica perto de Santa Catarina) não posso deixar de recordar as suas grandes capacidades informáticas em meu favor (sou um sem-abrigo) e as nossas intermináveis caldeiradas em Cacilhas quando a refeição serve em teoria para actualizar a escrita mas apesar de tudo esta nunca fica, de facto, em dia. A minha filha Ana, o marido e os filhos gostam muito da Casa da Cerca mas isso já é outra crónica.

(Crónicas do Tejo 123)

domingo, 5 de novembro de 2017

«Passeio Mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro


Luís Alves Milheiro (n.1962) celebra neste seu mais recente livro o centenário do escritor almadense Romeu Correia. Nascido em Cacilhas no ano de 1917, o autor de «Desporto-rei» reclamou-se sempre «um produto do movimento associativo», foi atleta em diversos clubes entre eles o Sporting Clube de Portugal de 1940 a 1945 («muita saudade e ternura») mas sempre se definiu como um contador de histórias: «Se tivesse nascido há mil anos, não teria sido cobrador no Banco, seria um contador de histórias. E sentir-me-ia muito honrado em andar de terra em terra, de povo em povo.» 
O ponto de partida deste trabalho é simples e complicado ao mesmo tempo; dizia este autor: «Escrevo para fugir à solidão. Escrevo para tentar ser amado. Escrevo pra ser solidário. Sou um trabalhador que escreve histórias sobre a vida de outros trabalhadores». O seu sonho, que ficou sempre em suspenso pois tinha que ganhar a vida num emprego, era «fazer um longo estágio por Feiras e Romarias» pois deste modo, contactando com feirantes e saltimbancos, ficaria a conhecer mais teatro do que «em qualquer conservatório estrangeiro.»
Há um lado fascinante neste «Romeu Correia por ele mesmo» que Luís Alves Milheiro criou a partir de entrevistas deste autor hoje centenário a jornais e revistas. Trata-se da referência a outros artistas. Vejamos o que diz sobre Manuel Ribeiro de Pavia: «De uma só peça. Duro como um chavelho mas, ao mesmo tempo, delicado como uma flor. Pequeno, moreno, de mãos cabeludas e retorcidas como raízes.» Ou sobre Sebastião da Gama: «Nos últimos meses de 51, navegava eu num ferry-boat para Lisboa quando, detrás dos automóveis, oiço um tremendo grito que me sacudiu: Ó Calementoso! Calamentoso! A voz e o atrevimento eram-me familiares mas aquele termo Calementoso? Volto-me e aparece-me por detrás de uma carroça, o Sebastião. Faz uma grande festa e esclarece-me: Éh pá, chamei-te Calamentoso porque escreveste o «Calamento», o romance dos pescadores da Caparica!»
A segunda parte do livro ficciona uma entrevista com Romeu Correia neste ano de 2017 (ano do Centenário) mas se tivermos que resumir tudo em duas linhas poderemos ficar pela página 120: «Foi uma luta sobretudo cultural, fundando bibliotecas, escrevendo romances, contos e peças de teatro.»

(Edição: SCALA, Capa: Mártio, Revisão: Diamantino Lourenço, Apoio: C.M. Almada)

(Um livro por semana 575)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Duas Palavras de Romeu Correia em 1968


«Na impossibilidade de viajar e percorrer as sete partidas do mundo, tenho-me debruçado sobre as recordações da minha infância para delas tirar o material com que se faz literatura. Assim tem acontecido com quase tudo o que tenho escrito e publicado desde 1947. Por minha fortuna nasci em Almada, terra profundamente associativa, cheia de cor e diversidade humana, com o estuário do Tejo lá em baixo e a grande cidade de Lisboa diante do nariz. Vila que foi conquistada à moirama por João Tiago, guerreiro de Afonso Henriques e de muitas e perdidas tradições, onde o século dezanove nos legou bandas de música, sociedades recreativas, bombeiros voluntários, cooperativas de consumo, montepios, o arco-da-velha! E ainda um espírito liberal e humanitário como raro se encontra noutro lugar. Terra de fragateiros e descarregadores de Cacilhas, de fabulosos tanoeiros-músicos, pescadores caparicanos, operários do Caramujo, de costureiras e de embarcadiços. Vila dos concertos de banda no jardim, das festas de São João e do regresso bacano da quinta da Ramalha, das cegadas carnavalescas, do enterro do bacalhau e da serração da velha, do Judas dependurado no sábado de Aleluia, das muitas e variadas pugnas desportivas dos anos vinte e trinta. Tudo isto me foi atirado aos olhos, numa rapsódia de cor que faria inveja à paleta de um Delacroix ou de um Chagall! Assisti também nas tabernas de Cacilhas e do Cais do Ginjal aos últimos abencerragens de poetas populares, cantadores de fado e escrevinhadores de cegadas: analfabetos uns, outros entendedores da escrita. Presenciei tudo isto na minha acidentada infância. Mais tarde, quando abandonei o box e o atletismo e tentei escrever histórias e comédias, socorri-me da paisagem humana almadense. A minha experiência da doca, a vagabundagem pelos cais, o contacto com tanoeiros e fragateiros, assim como o material fornecido por minha mulher, que ainda era messe tempo costureira de «macacos» de ganga, foram achegas para o Sábado sem Sol, Trapo Azul, Calamento, Gandaia, etc».

(Fotografia de autor desconhecido)