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quarta-feira, 8 de junho de 2022

«As Batalhas do Caia» de Mário Cláudio

A partir do conto «A Catástrofe», de duas cartas a Ramalho Ortigão, de uma carta de Oliveira Martins e do poema «A Portugal» de Tomás Ribeiro, organiza Mário Cláudio (n.1941) em 153 páginas o romance que Eça de Queirós (1845-1900) planeou e anunciou mas não chegou a concluir. O próprio título sugere um plural que já tinha sido referido na página 55 («os sucessos do Caia») ou na 82 («As batalhas do Caia») mas que noutras páginas (46, 55 e 76) surge no singular como «A Batalha do Caia».Além do título, a ideia de publicar o livro é objecto de reflexão na página 37: «o livro é, por um lado, inoportuno, por outro, um ataque de folha em folha à vizinha Espanha e serve portanto apenas para criar irritação. Por isso era melhor talvez que não se publicasse.» O ponto de partida está na página 152: «a nossa Patriazinha a sofrer tratos de polé às mãos do inimigo tradicional, que assunto melhor, um verdadeiro achado, para espiolhar, se me apetecer?» A mesma Patriazinha pode ser «ditosa pátria» na página 12 ou na página 145 mas aqui na variante «ditosa Pátria».

Não temos em «As Batalhas do Caia» apenas o livro em projecto de Eça de Queirós que Mário Cláudio escreveu «escutando dentro de si a voz de José Maria» como refere a página 153. É Portugal enquanto memória colectiva que estas páginas revelam a partir do percurso particular do multifacetado homem que foi Eça de Queirós: Porto, Lisboa, Coimbra, Évora, Leiria são lugares onde, além de escritor ele foi jornalista e administrador de concelho. Cruzam a narrativa não só as peripécias de Eça de Queirós enquanto cônsul mas outras histórias como por exemplo os vagabundos de Paris que vendem o sangue nos Hospitais ao Instituto Pasteur para voltarem à taberna e a dormir no chão ou Policarpo, herói anónimo que em itálico conta as desventuras dum soldado que é sentinela à porta do Arsenal da Marinha em Lisboa e volta à sua terra: «E ao aparecerem os filhos, uns atrás dos outros, perceberá que está completando a casa que levantaram os avós».

Portugal será no fundo o protagonista deste romance como no aforismo da página 83 («Portugal é como o célebre pescador que desconhecia por completo o nome do próprio filho») ou da página 84 («Portugal é uma alforreca a que nos apetece chamar de medusa») ou na página 14: «Você diverte-me, José porque se diria detestar aquilo que ama em Inglaterra e amar aquilo que detesta em Portugal.» Ficamos por aqui dando razão à frase da página 82: «Não há armistício para as batalhas do Caia». Ou por outras palavras: «Quem leu, leu; quem não leu não sabe o que perdeu.»   

(Editora: Dom Quixote, Edição: Maria do Rosário Pedreira, Capa: Rui Garrido, Revisão: Madalena Escourido)

[Um livro por semana 687]

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

«O pórtico da Glória» de Mário Cláudio

Depois de «A Quinta das Virtudes» e «Tocata para dois clarins», Mário Cláudio (n.1941) encerra neste livro o chamado «tríptico do sangue da tribo» - um conjunto de romances nos quais a ficção e a realidade se cruzam de modo feliz. Não se trata apenas da vida e da morte de um casal (Diego e Hermínia) nem da cartografia das indústrias organizadas por um natural de Béjar (Espanha) a viver no Porto (bisavô do narrador) mas também, em paralelo, o tempo da cidade tripeira entre os finais do século XIX e o início do século XX, o viver coletivo pois revela  o respirar da cidade, sua paisagem e seu povoamento. O título do volume surge com o sonho da página 70: «Saímos ambos da Igreja do Salvador de Matosinhos, tudo conforme ao que, na realidade, se dera e eis que de repente verifiquei que se abria diante de nós um certo pórtico, por onde eu nunca passei, a não ser em estampas e que é chamado da Glória e que confere acesso à Catedral de Santiago de Compostela.»

O ponto de partida para as 139 páginas é a biografia dos onze filhos que Diego e Hermínia trouxeram ao Mundo. A técnica de conjugar ficção e realidade surge expressa na página 17 («Mas é de clara vantagem para quem escreve, na atenção aos tais incidentes de negligência e dramatismo, com que o acto religioso se preencheu, acrescentar alguma coisa àquilo que quedou por inteiro inventado») e, mais à frente, na 21: «E eu faço com que desapareça agora o austero José e deixo Diogo sozinho, a vaguear por ali, tímido em excesso». Num outro passo se articula de novo esta dupla inscrição: «Chegou a altura de celebrar as núpcias da minha avó Joana II e não encontro caminho para a pena que a arrastará porque junto de nós é que se torna mais difusa a escrita, adulterada pela arbitrariedade das razões que a sustentam.» Um dos aspectos fascinantes deste cruzamento está numa fala da página 65: «…terá a criatura sangue cigano, pois que passa o tempo de terra em terra e nem sabemos donde provém e porque razões se radicou por cá e arrisca-se a mana a que lhe corte ele o pescoço com uma navalha ou a que faça um assado de porco doente que algum lavrador enterrou?». A sombra do grande escritor nascido em Lisboa surge na página 77: «Naquela pequena praça, vizinha dos cenários de mais de um crime hediondo, a que não era alheia a sombra do espectro de Camilo Castelo Branco, principiava assim um entrecho de sucessos e de fracassos, marcado por razoável dose de traições.»

Vencedor do Prémio PEN Clube Português de Narrativa e do Prémio Eça de Queiroz, surge agora em segunda edição. Um livro a não perder por duas grandes razões. Por um lado prova que a Literatura é sempre uma homenagem à Literatura. Por outro lado Mário Cláudio realiza entre memória e ficção um feliz artesanato nestas páginas, juntando de novo tudo o que a morte separou.          

(Editora: Publicações Dom Quixote, Edição: Maria do Rosário Pedreira, Revisão: Madalena Escourido, Capa: Rui Garrido, Retrato original: Fernando Lanhas)

[Um livro por semana 677]


quarta-feira, 30 de junho de 2021

«Os Tripeiros» de António Coelho Lousada

António Coelho Lousada (1828-1859) não foi «um jornalista de banca» nas colaborou em diversos jornais e revistas do Porto como A Lira da Mocidade, A Grinalda, Miscelânea Poética, O Bardo, Braz Tisana, Clamor Público, A Esmeralda, O Nacional, O Comércio do Porto ou A Península. A sua vida foi marcada pela paixão por Maria Emília Braga, irmã dos escritores Alexandre e Guilherme Braga, falecida em 1850. Arnaldo Gama considerou-o «Um homem de talento», Pedro da Silveira lembra-o como «Um moço triste, preso à lembrança de noiva» e Camilo Castelo Branco viu nele «uma inteligência que será aqui a primeira.» A narrativa arranca no ano de 1384 quando, perante o cerco castelhano a Lisboa, o Mestre de Avis envia Rui Pereira (tio do Condestável) ao Porto a pedir auxílio aos burgueses da cidade. Não é fácil tal tarefa pois vozes se levantam contra («Se os de Lisboa carecem de nós, nós não carecemos deles»)  até que um discurso serena os ânimos: «Meteram-vos na cabeça que vos queriam matar à fome porque se embarca a carne na esquadra mas não se lembrou ninguém que todos os miúdos cá ficam!» Segundo Camilo Castelo Branco em Os Tripeiros «sublimemente se explica o epíteto que alguns palermas cuidam soar indecorosamente para os netos da valente raça de portuenses».

Tal como refere o título do sexto capítulo este «romace-crónica» cruza no seu articulado «causa pública e coisas particulares» em 165 páginas. De um lado o Porto: «O Porto tinha de tudo: súbditos da coroa e súbditos da mitra e moradores que nem reconheciam uma nem outra; havia cristãos, mouros e judeus. A aljama era a mais pobre; a esnoga era a mais rica; a cruz era a mais forte.» No pano de fundo geral nascemos conflitos particulares, os amores de Fernando/Irene ou João/Garifa e surge uma reflexão sobre o Amor («As mulheres lucram menos com o que recebem do homem em geral: não as compensamos.» ) ou dito de outra maneira («A pobre não sabia que o amor não se traduz bem em palavras») ou ainda («maior feitiçaria que a do amor não pode haver») e conclui, dirigindo-se aos leitores: «os que são casados, o são por amor e os solteiros e as solteiras ainda não deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa soma, simplesmente pelo dote e nada mais». Voltando ao lado social da narrativa, lê-se na página 126: «A poesia nessa época era tida em grande conta e as atenções da assembleia voltaram-se para o bardo.» E na 148 se lê: «as mouras por aqueles tempos roubavam às cristãs bastantes corações, tanto de nobres como de peões, o que as obrigava a crer em poderes ocultos para não se confessarem derrotadas nos encantos.»

(Editora: Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Prefácio, notas e revisão: José Viale Moutinho, Foto: João Paulo Coutinho)

 [Um livro por semana 670]


terça-feira, 25 de maio de 2021

«Contos Municipais» de António Manuel Venda

António Manuel Venda (n.1968) organiza nestes dez contos uma memória, um decálogo, uma radiografia de um determinado município no qual o insólito convive com o trivial, o vulgar com o invulgar, o estranho com o comum. Como pode ler-se na contracapa: «há um presidente, alguns vereadores, os inevitáveis técnicos, uma empregada de limpeza, um tipo da inspecção (da capital), um ouriço-cacheiro com um cargo que não é nada de deitar fora, um bruxa, o diabo, secretárias, amantes, uma toupeira de risca azul, um ladrão, uma «préfeita» e pouco mais».

No conto «Ligação umbilical» a geminação municipal é para ser feita com um afinal inexistente município do Brasil: «Claro que o município de Tupirim de Parapapá não existia mas nunca ninguém se tinha preocupado em ir comprovar como uma simples busca num atlas.»

No conto «As grandes opções do plano» trata-se de um vereador e de uma assessora descobertos por uma empregada de limpeza os dois em cima de uma mesa da sala de reuniões a «tratarem das grande opções do plano». Depois de várias peripécias, a empregada de limpeza passa a auxiliar de acção educativa e no fim acrescenta: «Tenho é ideia de que a menina estava por cima».

Em «Então o homem já explodiu ou não?» uma nova vereadora queixa-se, por exemplo, de: «no seu município havia o costume, que classificou como «medieval», de o edifício da câmara fechar no dia dos anos do presidente., mesmo que este não fosse sábado, domingo ou feriado.»

Fica uma ideia apenas aproximada do livro de 87 páginas com dez contos que sem deixarem de ser municipais como refere o título tratam acima de tudo do factor humano que marca o fio da narrativa: o município é um pequeno mundo com sua luz e sua sombra, seus conflitos e entendimentos, suas guerras e seus momentos felizes.

(Editora: Just Media, Capa e grafismo: Paulo Escrevente, Imagem da capa: António Manuel Venda, Foto do autor: João Andrés, Apoio: Junta de Freguesia de Monchique)

 [Um livro por semana 668]

domingo, 16 de agosto de 2020

«O Estendal e Outros Contos» de Jaime Rocha



Jaime Rocha (n.1949), poeta, ficcionista e dramaturgo, estreou-se na Poesia com «Melânquico» (1970), na Ficção com «Tonho e as almas» (1984) e no Teatro com «Deuscão» (1988). O conto «O Estendal» que abre o volume de 67 páginas e 9 narrativas oscila entre um registo naturalista («a guerra continuava, os massacres não tinham fim») as termina num tom de surpresa, de insólito e de irreal: «o estendal estava cheio de crianças ainda recém-nascidas. Todas juntas, umas ao lado das outras, muito quietas, penduradas com molas, a secar». Em «O último parente de Justino» a narrativa volta a arrancar num tom muito próximo do real («A última vez que Justino foi visto, avançava em passo lento pela alameda do cemitério, encostado à fila esquerda dos ciprestes onde se localizavam os jazigos mais antigos.») mas conclui de modo insólito: «No dia do funeral do sobrinho, Justino subiu a alameda estreita do cemitério à frente do féretro. Antes que os coveiros descessem a urna, atirou-se ele inesperadamente para dentro da cova.» Em «A mulher que aprendeu a chorar» o ponto de partida volta a se rum olhar lúcido e realista sobre o Mundo («Há uma depressão na terra que atinge as colheitas, os animais. O ar tornou-se irrespirável e já não é possível arranjar tempo suficiente para se passar um serão tranquilo em casa. Os vizinhos destroem as paredes com berbequins, deitam abaixo cozinhas inteiras.») mas a história é povoada por gente insólita, uma mistura entre ficção e realidade, cinema e quotidiano: «A mulher do filme morreu de facto? Claro que não. O mesmo aconteceu com o seu amado. Matou-o mas ele não morreu. Pense é que ele se ausentou para o estrangeiro, abandonou-a..É a coisa mais banal do mundo.» Em «A gaiola do senhor Flor» o princípio da narrativa é «Foi no dia em que o senhor Flor apareceu com uma gaiola na mão que os amigos chegaram à conclusão de que ele tinha endoidecido de vez.» e termina com a porta da gaiola aberta: «A minha mulher disse-me que, para presa, basta ela. Não quer o pássaro aqui dentro.» Fica uma ideia e um convite à leitura deste livro de contos onde de modo hábil e límpido se cruzam os mundos do real e do imaginário.

(Editora: Relógio d´Água, Capa e Foto: Carlos César Vasconcelos, Revisão. Anabela Prates Carvalho)
                        
[Um livro por semana 649]

quarta-feira, 15 de julho de 2020

«Pavese no café Ceuta» de Francisco Duarte Mangas



Reunião de 16 narrativas em 184 páginas, deste recente trabalho de Francisco Duarte Mangas se poderá afirmar um conhecido lugar-comum – «toda a Literatura é uma homenagem à Literatura.» Depois de «Diário de Link», «Geografia do Medo» e «Jacarandá» o autor, logo na primeira narrativa, apresenta um retrato da paixão dos livros: («miram o homenzinho a alojar livros como se os metesse dentro dele.») ao lado de uma lucidez magoada («Se um homem das belas letras, à nossa frente, indispõe – que dizer de um magote, como ratinhos em busca de jorna nas remotas searas do Sul?») passando por Eça de Queirós («respeitoso como se olhasse a bandeira e ouvisse o hino») ao lado da amizade: «Se a doutora Luísa Dacosta perguntar por mim, diga-lhe, por favor, fui a Granada.» Em «Lenha verde» pode ler-se uma frase que resume tudo: «Eu escrevo lendo os outros». Ou dito de outra maneira: «Não se vende o que se ama. Em vez de filhos criei heterónimos – impedidos de herdar qualquer legado.» Em «Clandestinos» o ponto de partida é o anúncio de jornal: «Travesti Cláudia, curta temporada. Activa/Passiva. Peito XXL. Meiguinha. Sem pressas.» mas Gabriela sai do livro de Jorge Amado e procura saber algo mais de Gisberta antes de ela ser «fétida melancolia, brinquedo de moleque…» Em «Pavese no café Ceuta» o equívoco é do autor de «O ofício de viver» : «Li todos os livros do poeta que aqui julgava encontrar» mas o poeta português que o italiano procura está no café Progresso e não no café Ceuta.
Herdeiro de Leitão de Andrade, Camilo Castelo Branco e Carlos de Oliveira com as suas Miscelâneas, Narcóticos e Aprendizes de Feiticeiro, Francisco Duarte Mangas avança uma feliz definição da paixão dos livros que está na origem deste livro: «Tenho o vício absurdo de guardador da palavra escrita.» Tal como antes tinha na página 85 referido a Poesia: «A poesia, se não for o lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos, é a mais fútil das ocupações.»

(Edição: Teodolito, Editor: Carlos da Veiga Ferreira)

[Um livro por semana 647]

domingo, 19 de janeiro de 2020

«Habeas Corpus» de Carlos Querido



Carlos Querido (n.1956) regressa ao micro-conto depois do anterior «Insanus»  de 2017. O título do conjunto de 33 contos é tirado do texto da página 93 cuja origem vem da velha lei britânica «habeas corpus ad subjiciendum» que dá a garantia de liberdade do indivíduo perante a possibilidade de uma detenção arbitrária. Em termos simples permite agudar julgamento em liberdade. No micro-conto em causa, o conflito surge entre a família do protagonista (Zé Manel) e os amigos «das farras, do futebol e dos poemas». Enquanto os primeiros desejam um enterramento convencional, os segundos fazem uma cremação e para isso levam o corpo e no seu lugar deixam sacos de areia. De um lado o tio padre comandando as operações; do outro os amigos que realiza, a cremação entre whisky e poemas de Ruy Belo e Garcia Montero.   
Num dos micro-contos (página 31) pode ler-se «Tão insondáveis como o universo só os enigmas da alma» e é mesmo de enigmas da alma que trata este livro com várias referências a poemas da Garcia Montero, Ruy Belo, Inês Lourenço ou Ricardo Reis (Fernando Pessoa) além de outras figuras das artes e das letras como Carl Jung, Beethoven, Mozart, Agata Christie ou Gustave Flaubert. Essa ligação à Poesia surge na página 13 de modo mais explícito em «O poema do búzio»: «Vem isto a propósito dum poema sobre um búzio que num dia incerto ofereci a uma rapariga que venho a descobrir que era minha mãe.»
Completa este belo volume de 136 páginas um conjunto de dez fotos de Sal Nunkachov.

(Editora: Abysmo, Capa: Sal Nunkachov, Revisão: Noémia Machado)

 [Um livro por semana 638]

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

«As longas noites de Caxias» de Ana Cristina Silva



Este livro de Ana Cristina Silva é dedicado a «todos os resistentes antifascistas» e adverte: «Esta obra baseia-se em factos verídicos. No entanto, nomes e situações foram ficcionados.» O livro de estreia da autora é «Mariana, todas as cartas» de 2002 e o seu anterior romance é «Salvação» de 2018. O título deste recente trabalho surge nas páginas 127, 149 e 200 mas o primeiro é o ponto de partida: «Nas longas noites de Caxias, nunca as detidas viram um sorriso no rosto de Maria Helena.» Por um lado está Leninha, do outro Laura Branco, a agressora e a agredida. Não apenas pelos actos mas também pelas palavras porcas: «És uma cabra e não és uma vaca porque não tens físico para isso!» Laura respondeu: «Mas tens tu.» A narrativa não se limita ao duelo entre a agente da PIDE e a detida em Caxias. As memórias de infância de Laura são o retrato dum certo tempo português: «As suas amigas eram filhas dos homens que se alugavam à jorna na praça da vila (…) Outros havia em piores condições. Trabalhadores que não eram escolhidos pelos feitores (…) e que se juntavam nas tabernas. Homens desgarrados que cantavam o orgulho de ser alentejano por ruas tortas, pedindo com mágoa uma moeda para os filhos.» Do lado de Maria Helena há vitórias e derrotas: «Chamava-se Maria Augusta, era camponesa do Couço e denunciou os camaradas. Uma outra camponesa, de nome Maria Custódia, oriunda da mesma terra, não proferiu qualquer palavra.» A hostilidade perversa de Maria Helena para com as mulheres tinha raízes na infância: «No dia em que Salazar foi a Setúbal e beijou Maria Helena na testa o seu pai deu uma tareia na mulher.(…)Envergonhava-se da mãe, fraca e débil, sempre a suspirar pelos cantos. (…) Desde a primeira classe que as colegas de Maria Helena suspeitavam que ela tinha instintos ruins.» O filho de Maria Helena era um rapazinho cobarde mas era adepto do Benfica como a mãe. Essa relação surge na organização da narrativa como exemplar. O Clube tem uma visão revisionista da História do Desporto em Portugal: mente sobre a data da fundação, mente sobre os títulos de campeão, mente sobre a idade dos jogadores, inventa mentiras delirantes como a de em 1907 um grupo de sete jogadores ter saído do SLB para fundar o SCP. Os jogadores em causa saíram do Grupo Sport Lisboa e apenas procuravam um estádio onde pudessem tomar banho depois dos jogos. O SCP tinha sido fundado em 1906, depois de tentativas em 1902 (Belas) e 1904 (Campo Grande). O julgamento de Leninha foi o previsível: a maior parte do discurso era palavreado patriótico no qual mergulhava para se justificar a si própria. O discurso deslocado da realidade surge em 1977 mas o resultado é suave: «Seis meses de cadeia.» Laura conclui: seria um processo lento, requereria todo o seu esforço para não se deixar enredar nas imagens do passado.» A vida de Maria Helena cabe em duas linhas («um matrimónio despedaçado, um filho que só lhe dava preocupações, uns pais cada vez mais velhos e agora um amante que a abandonava») mas no fim afirma «nunca me arrependi de nada. Os tempos da PIDE foram os mais felizes da minha vida.»

(Editora: Planeta Manuscrito, Revisão: Fernanda Fonseca, Capa: Patrícia Silva sobre imagem de Hayden Verry, Foto; Fernando Dinis)

[Um livro por semana 632]

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

«Um muro no meio do caminho» de Julieta Monginho



O livro abre com uma frase de Celeste Pedro («cada um de nós pode fazer tão pouco ao menos que esse pouco seja feito») e outra da «Odisseia» de Homero traduzida por Frederico Lourenço: «Desatrela os cavalos dos estrangeiros e trá-los para que comam.» Julieta Monginho (n.1958) estreou-se em 1996 com «Juízo Perfeito»,  venceu  o Grande Prémio de Romance e Novela A.P.E./D.G.L.B. 2008 com «A terceira mãe» e neste livro de 243 páginas junta 10 histórias afluentes, trabalhadas em ficção a partir do voluntariado na ilha grega de Chios no Verão de 2016.
O ponto de partida é: «conhecer essas vidas em fuga, ajudá-las a seguir o caminho aberto por direito, pois se não acreditasse no poder do direito como reduto do pensamento humanista moldado por centenas de anos vividos e sofridos, me perderia definitivamente no espectáculo do mundo.» As voluntárias sabem que três palavras as acompanham («vontade, sorriso, impotência») além das palavras de Eleni: «Aquela gente não pode ficar à mercê do frio e das autoridades de Vial. Já estão a instalar gente à beira-mar, em Souda, junto à muralha. Não há quem lhes dê de comer. Nós vamos dar-lhes de comer.» É neste vasto anfiteatro que surge o trabalho do escritor, o historiador do quotidiano: «Observar o que é vivido com um microscópio numa mão, um telescópio na outra. Estar dentro e fora. Escavar, escavar, escavar, como se a pele fosse a alma e às vezes é.» O primeiro olhar é para as mulheres: «A sua imensa tarefa – a de chorar? Quantas vezes por mil se multiplica o seu desgosto? É no corpo delas que começa a dor. São elas a parir e a ver partir os seus meninos – os soldados, os mortos. São elas que escondem a vergonha, limpam e ordenam, calam e renunciam.» Num certo sentido pode dizer-se que as mulheres estão mais visíveis entre o muro e o mundo. O muro tem um destino («É o destino de todos os muros: serem derrubados, depois de fazerem muitas vítimas.») e o mundo tem muitas perguntas: «O que seria do mundo sem as armas? O que seria a raiva, sem a possibilidade de eliminar o semelhante? Se o dinheiro desaparecesse por magia , o que fariam os homens à cobiça? Se as terras se unissem num único lugar, o que fariam os homens às disputas? Se os espelhos desaparecessem, o que fariam os homens à vaidade?» Um aspecto curioso tem a ver com a fixação na Alemanha como destino: Uma advogada uruguaia sublinhou que toda a gente quer ir para a Alemanha, a autora refere «Alemanha, a terra prometida. Exibida no mundo inteiro como a capital da Europa», um refugiado desabafa: «ficamos aqui só uns dias, depois continuamos até à Alemanha.» Uma nota final para a história de Asmahn e a escolha do nome de um bebé: «Vai chamar-se Nymir, como o avô, o pai do Ahmad. O nome do meu pai fica para o segundo.». A mesma Asmahn que chora ao dizer: «O Ahmad proibiu-me as fotografias. Tem de as apagar do telemóvel, suplico-lhe.» As fotografias não passaram de um pretexto. A escolha do nome do bebé não permite dúvidas.

(Editora: Porto Editora, Capa: Joana Tordo, Foto: Filipe Monginho)

 [Um livro por semana 631]

sábado, 12 de janeiro de 2019

«O Lápis Surdo sou eu» de Ramiro S. Osório



Ramiro S. Osório (n.1939) viveu em Paria 22 anos tendo regressado a Lisboa em 1984. Em Paris o autor deste livro foi aluno de Barthes e de Bruno Bettelheim que influenciaram a sua relação com a escrita ou, dito pelo próprio, «3 bês trouxeram água ao moinho da milha literatura». O autor estreou-se em 1976 com «Ramirosório superstrass» (Moraes Editores), livro entretanto publicado de novo em 2000 pela Editora & Etc.  Os 16 contos deste livro foram escritos em Paris e são dedicados «a todas as pessoas (crianças ou não) que nunca encontraram um dragão e à Susana que encontrou um». O Prémio da Associação Portuguesa de Escritores atinge com esta publicação a sua plena finalidade pois a edição anterior apenas integrava 8 dos 16 contos.
O usufruto deste livro é toda uma grande festa a juntar o texto e as ilustrações que não é possível reproduzir numa curta ficha de leitura. Como convite à leitura fica o conto «O lápis surdo»: «Quem é que terá tudo a triste ideia de pôr os animais a falar, nas histórias para crianças? – Não sei – escreveu a máquina de escrever, O lápis fez como se não tivesse ouvido a pergunta. Mas a máquina de escrever não tinha papas nas teclas. – Esse lápis é mudo! E surdo que nem uma porta! A porta não gostou do que ouviu. Escancarou-se toda, rangendo nos gonzos quanto podia. – As portas não são surdas! Porque é que dizem sempre «surdo que nem uma porta?  É mesmo uma ideia sem pés nem cabeça! Essa frase faz a ideia explodir. – Eu não tenho pés nem tenho cabeça! Nunca vi nenhuma ideia com pés ou cabeça! Pés e cabeça são coisa de que nós não precisamos! E, por entre toda aquela algazarra de tantos fala-barato, o lápis – surdo ao  diz-que-diz – continuava a correr mudo pela folha de papel, a correr mundo fora pela folha fora, cobrindo-a e palavras, beijos, palavras…»

(Editora: Sulfúria Edições, Apoio: Sociedade Portuguesa de Autores, Desenhos: Ramiro S. Osório)  
         
[Um livro por semana 606]