sábado, 18 de maio de 2019

«Fogo no mar» de João Falcato com uma capa de Victor Palla



Partindo de «O todo ou o seu nada» de Amadeu Lopes Sabino (Editora Bizâncio) cheguei a este livro é de 1953; conta a história da viagem do cargueiro «Mello» que uma explosão inexplicável consumiu em fogo nas águas sombrias do mar. O livro (Coimbra Editora) é dedicado à memória dos companheiros do autor que encontraram a morte no incêndio do cargueiro português a meio de uma viagem entre Buenos Aires e Lisboa: Álvaro Firmo da Silva, Alberto dos Santos Faria, Álvaro de Almeida Costa, Henrique Torcato Craveiro, Luís Alexandre Júnior, João da Silva Moreira, José Pereira, Herculano José, Joaquim Marques Machado, António Varela, José Simões, António Pais, Joaquim da Silva Pracana, José de Sousa Frade e José Fernandes d´Assunção. Há uma cantiga na página 28: «As ondas do mar são brancas / E no meio amarelas / Pobrezinho de quem nasce / Para morrer no meio delas» mas as primeiras linhas do romance são uma bela crónica de despedida: «Um primeiro puxão fez estremecer o «Mello», negro, sujo de carvão. Em movimentos descompassados, os rebocadores arrastam o corpo inerte e bojudo do navio, da beira do cais. Içada a escada do portaló, desligados os cabos que eram nervos que o faziam ser terra, prático na ponte, mansamente, em estremecimento de quem deseja maior pressa, o seu corpo é levado para o meio da doca. A ponte de Alcântara que fecha a saída, começa a girar numa permissão de passagem solicitada pelo som cavo do apito. Barcos pequenos saúdam com um zumbido quase imperceptível e seguem apressados o seu caminho na água suja da doca. AS chaminés dos rebocadores vomitam fumo negro, espesso, quase sólido. Sentado numa pedra do cais, um pescador solitário tira o chapéu encardido, num mudo desejo de boa viagem.» (fim de citação)           

[Crónicas do Tejo 163]

quarta-feira, 8 de maio de 2019

«O leitor irresponsável» de Vergílio Alberto Vieira



Vergílio Alberto Vieira (n.1950) tem vindo a juntar em livro desde 1993 os seus trabalhos de ensaio e crítica literária publicados com regularidade no Jornal de Notícias (1987-1998) e no Expresso (1999-2000) além de outros jornais e revistas mas adverte que tal tarefa é «dar nome a esse crime sem castigo, que leva alguém a reunir, em livro, o que sobre livros escreveu ao longo de anos, não é questão de profissão de fé, mas ofício de aprendiz sem mestre».
Se eu tivesse de sintetizar este livro de Vergílio Alberto Vieira (204 páginas) poderia dar-lhe o nome de «Almanaque Literário» tal como Carlos de Oliveira fez em «O aprendiz de feiticeiro», um livro de 282 páginas no qual o autor de «MIcropaisagem» revisita livros de autores tão diversos como Marguerite Yourcenar, Afonso Duarte, Abel Botelho, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Erskine Caldwell, Alves Redol, José Gomes Ferreira, James Joyce ou Tchekov.
Neste livro de Vergílio Alberto Vieira são comentados, entre outros, livros de Louis-Ferdinand Celine, William Blake, Pablo Neruda, Ernest Hemingway, Graham Green, Jorge Luís Borges, Italo Calvino, Paul Celan, António Rebordão Navarro, Fernando J.B. Martinho, Pires Laranjeira, José Emílio-Nelson, Luís de Miranda Rocha, Rosa Alice Branco, Amadeu Baptista, Isabel de Sá, Orlando da Costa, Fernando Assis Pacheco, João de Melo e Luiz Pacheco.
Tal como Carlos de Oliveira faz um retrato de Alves Redol («Vejo-o meio sorridente, a boina basca puxada sobre a testa, a conversa pausada (afabilidade, camaradagem, aflorando palavra a palavra), o trato sereno, quase tímido, dum camponês civilizado que conheceu muito mundo e muito meandro sem desgastar toda a pureza inicial.»), Vergílio Alberto Vieira retrata Al Berto: «Nascido em Coimbra pelo ano de 1948, Al Berto , pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares fez obra ao arrepio da sensatez, criou os seus infernos, recusou a quietude, foi homem  de paixão e, se nele havia um «louco» como Emile Cioran admite que há em nós, expulsou-o, cumprindo-se como destino.» Porque os livros não nascem sozinhos, são escritos por um autor.

(Editora: Quarto Crescente, Capa: Imhoteb, Bronze, Revisão do texto: Jorge Fernandes, Composição: César Antunes)

[Um livro por semana 618]

domingo, 28 de abril de 2019

«António Botto – Projecto de um livro» de Fernando Pessoa



Nuno Ribeiro, autor de inúmeras edições e estudos sobre a obra de Fernando Pessoa publicados na Europa, no Brasil e nos E.U.A. além de coordenador com Cláudia Souza da «Coleção Pessoana» da Editora Apenas Livros, organiza este livro de 72 páginas que surge na sequência dos anteriores «Escritos sobre o Tédio», «Poemas à Noite» e «Poemas ao Vinho», tem um objectivo («constituir-se como um contributo para o estuda das relações entre a obra de Botto e de Pessoa») e integra textos transcritos directamente do espólio de Fernando Pessoa que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal.
O ponto de partida é a reflexão de Eugénio de Andrade que define a poesia de António Botto (1897-1959) deste modo: «Sortilégio rítmico, linearidade discursiva, preferência pelas cadências da fala e pela frase directa roçando às vezes pela vulgaridade, concisão próxima da melhor tradição popular, sensibilidade atenta à realidade imediata, ausência de preocupações metafísicas, gosto por um hedonismo esteticista e ainda alguma pobreza ao nível do pensado e do sentido, tornaram esta poesia notada por espíritos exigentes e, simultaneamente, acessível». É um facto que as elites portuguesas preferiram Pascoaes, José Régio e Fernando Pessoa nos anos 20, 30 e 40 em detrimento de António Botto, sendo ele o poeta mais falado. Jorge de Sena, por sua vez, define esta poesia em quatro fases: primeiro juvenil com influência de Correia de Oliveira, Augusto Gil e Lopes Vieira, depois simbolístico-esteticista, a seguir pessoal e original e, por fim, decadência longa e triste.
Fernando Pessoa (1888-1935) dá início ao estudo sobre António Botto com as seguintes palavras: «António Botto é o único poeta português, dos que sabemos que existem, a quem a designação de esteta se pode aplicar distintivamente, isto é, como definição bastante, sem acréscimo nem restrição. É este o teorema; o fim deste breve estudo é demonstrá-lo. Todo poeta, porque todo artista, é forçosamente esteta, pois esteta significa, primariamente, cultor da beleza e todo artista e portanto poeta é, pelo menos, cultor da beleza pela criação dela. Há porém poetas e artistas que criam beleza por um movimento íntimo espontâneo, em que a ideia de beleza não figura como elemento determinantes: assim um Byron ou um Shelley olha menos à beleza possível do que cria ao aliviar a alma do peso de uma emoção e a criação da beleza é mais parte do alívio que preocupação directa. Outros há que, escravos embora da beleza são, todavia, no mesmo tempo, súbditos de outras preocupações , como a religiosa em Dante e Milton e a psicológica em Shakespeare.»

(Editora: Apenas Livros, Capa: Susana Resende)

 [Um livro por semana 617]

quinta-feira, 18 de abril de 2019

«São feitas de palavras as palavras» de Carlos Nogueira



Carlos Nogueira adverte logo na página 7 deste livro de «Ensaios de literatura portuguesa»: «Nem as palavras são suficientes para dizer o mundo nem nenhum ensaio literário é capaz de falar satisfatoriamente sobre um poema, um romance, um texto literário.» Num certo sentido esta situação (adversativa…) poderia levar o autor deste texto em forma de notícia/resenha a concluir pela impossibilidade de resumir um livro de 407 páginas em 25 linhas. Mas não.
Comecemos pelo princípio. Afirma o autor o seguinte: «De que se trata neste volume é de ler textos literários, de investigar a pluralidade dos seus códigos, a multiplicidade e a infinitude dos seus significantes e das suas relações de significado.»
Aqui se estuda uma parte significativa da Poesia Portuguesa dos séculos XIX e XX: Nicolau Tolentino, João Penha, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Álvaro de Campos, Jorge de Sena, Alexandre O´Neill ,Liberto Cruz, Manuel António Pina e Daniel Faria. No que diz respeito à Ficção os ensaios dizem respeito a obras de Camilo Castelo Branco, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, José Saramago, J. Rentes de Carvalho, Afonso Cruz e Valter Hugo Mãe.
As últimas doze linhas da Introdução do autor acabam por ser também uma reflexão geral sobre o acto de escrever e são exemplares daquilo que este livro proporciona ao leitor: «Escrevemos para preencher vazios, indecisões, medos, desconhecimentos, para suprir o muito que nos falta. É na experiência dessa falta que a palavra literária nasce, mas a nova palavra logo é perturbada pela carência que a origina e, por isso, uma nova palavra ocupa o lugar da anterior Este processo não tem fim, nem na literatura nem na crítica literária. Nem uma nem a outra nos dão a plenitude que buscamos. Em vez disso, põem-nos perante os motivos, os desejos, os sentidos e os mistérios da nossa vida individual e social. Muitas das ausência que nos afectam mas também algumas das expressões triunfantes do que eu entendo que é e deve ser o universo do humano, encontra-se nos ensaios deste livro que é a utopia de um outro livro que eu não soube escrever.» Fica o veemente convite à leitura: este é um livro a não perder, sem dúvida. Quem o lê fica a ganhar sobre o que era antes.

(Editora: Edições Lusitânia, Capa: Andreia Dias)

[Um livro por semana 616]

sábado, 13 de abril de 2019

«Aquilo que não tem nome» de Victor Oliveira Mateus



Victor Oliveira Mateus organiza o volume de 67 páginas em três capítulos: «Rito matinal» (9 poemas), «Poemas de Amor e Morte» (29 poemas) e «Negro com azul ao fundo» (2 poemas). O título está no poema da página 48: «Aquilo que não tem nome / abriga-se no silêncio das ruas / acena no topo dos prédios / fala nas desabrigadas páginas / que o desalento me traz./ Aquilo que não tem nome / invade-me o corpo / enlouquece as memórias / com que insisto este casulo / raiado de melancolia./ Aquilo que não tem nome / oculta-se por entre sinais / e luzes de despedida / pedaço desse mistério / para lá da morte e da vida.» 
Há nestes 40 poemas uma dupla inscrição (Natureza e Cultura) que pode ser lida de outra maneira mas com o mesmo sentido: Geografia e Literatura. De um lado o Rio Varosa: «Agora a gincana é uma coisa ao longe, muito ao longe, fora da mulher que vai acamando as serapilheiras, dos regatos que rumam para o Varosa e dessa inominável brandura que de ti se apodera e completa.» Do outro lado a Arte Poética: «Não tens certeza alguma. Não a tens nem isso / te inquieta. Insistes em não fechar a janela, / essa ardósia rabiscada, essa amálgama de visões / que te deslumbram e perdem. Mas, vendo / bem, que coisa é essa que se diz com palavras / que não te pertencem e nem sequer entendes?»
O ponto de partida é a memória da infância («Nada resta do velho olival da minha infância») afinal uma espécie de «Imitação da felicidade» como é título dum poema - «Tudo era alegria naquele tempo com o meu tio / acenando peluches no canto do postigo e o menino / atrás de uma palmeira, esboçando destinos numa folha / de papel almaço, para que no futuro tudo / desse errado num outro presépio sombrio e lasso.» O ponto de chegada é um lugar onde se sabe que a morte é inevitável («Agora que aqui estás, deixa que o tempo afague este mármore sob o qual te vieste esconder») mas onde o poeta continua a perguntar como Camilo Castelo Branco «Onde está a felicidade?»: «a felicidade é tão só esta espera, esta serenidade entre uma árvore que te ampara e a leveza de um rio que te acena.» Ou como queria Novalis (1772-1801) e escreveu Maria Eulália de Macedo (1921-2011) a Poesia oscila sempre entre «as coisas que são verdade e a verdade das coisas».

(Editora: Coisas de Ler, Posfácio: Ana Paula Dias, Coordenação: Gisela Gracias Ramos Rosa)

[Um livro por semana 615]

terça-feira, 2 de abril de 2019

«Três Meses no Limoeiro» de Faustino da Fonseca



Faustino da Fonseca (1871-1918) deputado, senador, jornalista e escritor foi maçon desde 1895 na Loja Renascença de Lisboa. Foi deputado à Assembleia Constituinte (1911) e eleito senador pelo Círculo Eleitoral de Angra do Heroísmo (1915). Dirigiu o jornal A Vanguarda em 1895 e colaborou nos periódicos Correio da Manhã, O Século, O Mundo e A Luta .Foi director da Biblioteca Nacional entre 1911 e 1918 e sócio da Academia das Ciências de Lisboa. A sua prisão no Limoeiro entre 7 de Agosto e 6 de Novembro de 1896 fiou a dever-se a uma crítica sua no jornal A Vanguarda sobre a falta de prestação de contas da Câmara Municipal de Lisboa no que diz respeito à subscrição nacional motivada pelo Ultimato Inglês.
Como o autor explica neste livro «exponho o que é a cadeia, o que foi, o que deveria ser; colhi, compilei e publico dados estatísticos inéditos; consagro algumas páginas aos acontecimentos que determinaram a minha prisão.» Neste livro de 115 páginas o autor não se limita a falar de si e do seu caso, antes junta elementos para uma memória do Limoeiro; veja-se a página 62: «D. João VI embarcara para o Brasil em 1807, fugindo à invasão de Junot, deixando Portugal como uma péla, sujeita ao jogo de franceses e ingleses. Os cidadãos que lamentavam as desgraças nacionais, os patriotas que pensavam na forma de melhorar a situação, foram perseguidos e presos. Muitos entraram no Limoeiro e Gomes Freire, a mais brilhante figura do exército português, foi encarcerado em S. Julião da Barra e ali sofreu um infame suplício. Os infelizes lançados na cadeia, forma metidos no oratório e sofreram os martírios morais infligidos por padres e frades fanáticos, vendidos em corpo e alma à regência e aos ingleses. Desde o amanhecer do terrível dia, todos os sinos da cidade dobravam a finados. Às duas horas da tarde, saiu do Limoeiro o fúnebre préstito, formado pela misericórdia, confrarias, frades de várias ordens, carrascos, juízes, aguazis e muita tropa. Os onze liberais, coronel Manuel Monteiro de Carvalho, major José Francisco das Neves, alferes José Ribeiro Pinto, ex-alferes António Cabral Furtado de Melo, sargento José Garcia de Morais, José Campelo de Miranda, José Joaquim Pinto da Silva, capitães Manuel Inácio de Figueiredo e Pedro Ricardo de Figueiró, Manuel de Jesus Monteiro e Máximo Dias Roberto iam descalços, de alvas, mãos amarradas, crucifixo pendurado ao peito e corda ao pescoço.»

(Ediora: Fabula Urbis e Apenas Livros, Capa: João Pimentel)

[Um livro por semana 614]

quinta-feira, 21 de março de 2019

«O ouvido que escreve» de Victor Rui Dores



Victor Rui Dores (n.1958) celebra 60 anos de vida e 40 anos de poesia – começou em 1978 com «Poemas de fogo e mar». O título do volume de 262 páginas recorda Verlaine (De la musique avant toute chose) e o facto de o autor ter dezenas de poemas seus musicados por compositores como Zeca Medeiros, Sérgio Luís Paixão, Luís Alberto Bettencourt, José Amorim de Carvalho, Fernando Goulart, Emiliano Toste, Custódio Castelo, Chico Ávila, Carlos Alberto Moniz, António Severino e Antero Ávila. Além dos Grupos «Tributo» e«Ronda das 9», as canções de Victor Rui Dores são interpretadas por Armando Meireles, Arminda Alvernaz, Calos Alberto Moniz, Chico Ávila, Cláudia Amaral Pinho, Emiliano Toste, Gui Serpa, Iola, José Ferreira, Maria dos Anjos, Minela, Pilar Silvestre, Sérgio Luís Paixão, Sílvia Vasconcelos e Vera Melo. Um exemplo é «O boi do Mar»: «Vogando em botes ligeiros / nas ondas do mar deserto / navegaram baleeiros / na busca de um rumo incerto / fique a terra a barlavento / a baleia já avança…/ mar nos olhos, proa ao vento / vamos arpoar a esp´rança! / baleeiros, baleeiros / a memória inda perdura / sois os heróis derradeiros / da marítima aventura».
O ponto de partida desta poesia é a Ilha: «chuvas diluvianas / o céu estará ameaçador / e o tempo ficará cinzento. / o vento vai galopar à rédea solta. / o mar andará danado para galgar a terra. / e nós continuaremos para aqui: / encharcados de nevoeiro e humi(l)dade. / eternamente à espera / que se cumpram as escrituras.» O ponto de chegada é o Mundo: «sonho que sou pianista / e para ti toco uma sonata de Beethoven. /descansa o teu olhar em mim, meu amor. / esquece a aragem fresca da noite / e olha as minhas mãos que seduzem  / os meus dedos que cantam / e escuta a cadência do instante absoluto.»
Pelo meio a viagem, seja na cidade como a Horta («como és sedutora, fascinante e misteriosa / oh minha querida cidadezinha de mar!») seja nos herói da ficção como Margarida de «Mau tempo no canal» («minha ilha, minha gente / lava salgada, meu cheiro / ai amor feito serpente / neste mar tão traiçoeiro») ou da realidade como Genuíno Madruga: «num veleiro embarcado / em marés de solidão / procuraste o sonho e o fado / da circum-navegação / é preciso estar bem vivo / anotaste no teu diário / se navegar é preciso / tu navegas solitário». Sem esquecer o sonho: «lá vai a Ilha Terceira / e o seu povo satisfeito / ver toiros segunda-feira / na varanda do seu peito / toiro na ponta da corda / fúria em terra de lava / e a ilha toda acorda / na força da festa brava.»
O autor adverte «Não é impunemente que se nasce numa ilha onde a terra é pequena, o mar é vasto e o sonho é enorme» e sobre a sua produção poética avisa: «Considero-me um modesto artesão de palavras. O meu ofício é o de lapidar as palavras exactas, únicas e essenciais.»Além de três livros recuperados (1978, 1990, 1991) e das «Canções viageiras», o volume integra  «Poemas do maduro amor» (inéditos) e nove textos («Visão das Ilhas») em forma de «poesia descritiva» - como dizia Vitorino Nemésio.  
       
(Editora: BLU edições, Ilustrações: Manuel Martins, Design Gráfico: Mário Duarte, Arte Final: Luís Maia)

 [Um livro por semana 613]

domingo, 10 de março de 2019

«Sob os braços da azinheira – Leituras de Fátima» de Ruy Ventura



O ponto de partida deste livro de Ruy Ventura (n.1973) está na página 63: «Não pretendo ser exaustivo neste ensaio sobre Fátima. Tenho por isso a vantagem de abordar apenas aqueles textos cujo interesse se mostrou mais saliente a meus olhos.» Já na página 29 tinha advertido: «Se as civilizações vão mudando, a cultura permanece. E não há cultura sem culto.»
Mas o olhar pessoal do autor insere-se no olhar geral: «O estatuto do acontecimento-Fátima tem evoluído. A quase impossível indiferença perante o que há de enigmático e de misterioso no relato de três crianças tem gerado adesões, delírios e rejeições, os quais vêm originando desde a sua apropriação e reelaboração sectária por grupos integristas à sua manipulação e ao seu desprezo por correntes e agentes que não aceitam e combatem a crença.» Num certo sentido Ruy Ventura responde ao desafio de Natércia Freire: «E os símbolos, os sonhos, as visões, / - sonâmbulas manhãs de nuvens altas / Clamam quem os decifre, quem os leia». Já o Papa Francisco em 2013 referiu: «Trata-se de uma verdadeira “espiritualidade encarnada na cultura dos simples”. Não é vazia de conteúdos mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no ato de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum. É “uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários”.» Por outro lado o poeta Paul Claudel conclui: «Fátima é um arrombamento. É uma irrupção brutal, diria quase escandalosa, do outro mundo através das fronteiras inoportunas deste. Já não estamos prante intérpretes e mensageiros, nem prante confidências ou comunicações a algumas almas eleitas a coberto do sono, do êxtase ou da noite.»
Sabendo que não possível resumir
um livro de 246 páginas em 26 linhas de A4, ficam algumas pistas de leitura e uma dupla nota final. Por um lado as páginas 187 a 203 integram um poema dramático de Ruy Ventura no qual o caminheiro se transforma em peregrino. Entretanto o conjunto das imagens das páginas 219 a 238 constitui-se como uma belíssima embora breve fotobiografia de Fátima e da sua História.
    
(Editora: Santuário de Fátima, Prefácio: Marco Daniel Duarte, Capa: Azinheira Grande (foto de 2018), Design e Paginação: Inês Duarte)

[Um livro por semana 612]

quarta-feira, 6 de março de 2019

Crónica ou quase-poema para o som de uma voz de mulher



A tua voz tem a extensão, o timbre e a altura da forte alegria teimosa contra a névoa da melancolia e da tristeza ao fim da tarde nas ruas da cidade de Lisboa. Quase ninguém repara mas, de súbito, na tua voz há pomares nos passeios, há moinhos nos jardins e fragatas azuis entre as duas margens do estuário do Tejo.
Diria então por outras palavras – há na tua voz o som da alegria que nasce da terra, seja nas mulheres que colhem no seu avental a fruta do tempo, seja nas outras que tiram dos alforges o grão que os rodízios de madeira do moinho vão transformar em farinha, promessa de pão no calor do forno ou seja ainda nas despedidas das mulheres aos homens das fragatas entre melões para os Mercados de Lisboa ou madeira e cortiça com destino às fabriquetas do Poço do Bispo.
Há sempre três mundos no pequeno mundo da tua voz (animal, vegetal e mineral), um mundo que junta as pedras, os arbustos e os cavalos incansáveis no seu trabalho de transportar homens e produtos que mais tarde serão mercadorias.
A tua voz, mesmo quando se torna adversativa (o mesmo é dizer mas, porém, todavia, contudo) tem sempre um pequeno sopro de ternura fazendo assim com que se torne tudo menos agressivo para quem ouve, aceita e toma a sério.
A tua voz tem o registo da mais alta Poesia, instável mas feliz ponto de encontro entre a saudade e o sonho, entre o passado e o futuro, entre a sombra e a luz. Porque, tal como numa liturgia urbana, há no ouro das alfaias da tua voz um tempo de celebrar, de convocar, juntar e harmonizar de novo tudo aquilo que, no nosso coração, a morte acabou por separar.

[Crónicas do Tejo 165]

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

«Vozes do Sul no Mundo Global: África, Médio Oriente e outros lugares» de Adelino Torres



Adelino Torres (n.1939) tem nacionalidade luso-francesa e é professor catedrático jubilado do ISEG – Universidade de Lisboa. O livro é dedicado a Adriano Moreira e Elikia M´Bokolo e lembra a memória de Alfredo Margarido, Hermínio Martins, Ilídio do Amaral e Inácio Rebelo de Andrade. A origem dos textos é variada: o primeiro capítulo corresponde a uma comunicação feita ao colóquio «Racismo ontem e hoje» organizado em 2005 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o segundo é uma versão actualizada do texto «Terrorismo: o apocalipse da razão» inserido no livro «Terrorismo» dirigido por Adriano Moreira nas Edições Almedina em 2004, o terceiro foi publicado na Revista Mulemba (Maio 2014) editada pela Universidade Agostinho Neto (Luanda).No Preâmbulo o autor explica: «As vozes do Sul a que me refiro são aquelas, ainda minoritárias mas cada vez mais numerosas, de livres pensadores que, em África e no Médio Oriente, bem como noutras regiões do mundo, se batem pela liberdade de pensamento crítico e humanista contra todas as formas de obscurantismo, sem esquecer também o cada vez mais limitado europocentrismo que de certo modo o alimenta.
A posição do autor sobre os vários terrorismos ao longo de quase 150 anos, ou seja, desde a versão anarquista (a partir de 1880), à versão anticolonialista (desde 1945), à versão «Nova Esquerda» (com Fidel Castro em Cuba) termina no terrorismo de hoje: «o Islamismo político radical representa um fundamentalismo que nega a hermenêutica (quer dizer a interpretação) porque se trata de um pensamento «totalitário de recusa do outro, obscurantista na medida em que subordina a racionalidade e o próprio procedimento empírico ao arbitrário teológico.»
A fricção entre o futuro e o passado fica expressa na página 65: «Embora muitos possam pensar que os islamitas se adaptam à modernidade na verdade o seu horizonte é gerir a sociedade com as ideias fixas do passado. A sua ligação com o mundo moderno limita-se a pouco mais do que à utilização dos meios técnicos onde a tecno-ciência é limitada por uma espécie de estatuto extra-cultural e a-histórico que conduz a que estes integristas não admitam os fundamentos teóricos da ciência moderna.» Fica uma ideia em 25 linhas do livro de 210 páginas.

(Editora: Colibri, Prefácio: José Filipe Pinto, Capa: Raquel Ferreira, Editor: Fernando Mão de Ferro)

[Um livro por semana 611]