MISS SHERCLIFF NO PAÍS DE SALAZAR - novo livro de Wilton Fonseca Gonçalo Pereira Rosa
Com
o subtítulo de «As aventuras de uma jornalista inglesa em tempos de guerra e de
paz» este livro de 329 páginas (Editora Âncora, prefácio de Joaquim Letria,
capa de Sofia Travassos) é a biografia de Josephine Alfreda Lilly Shercliff
(1902-1985), una mulher a quem Salazar chamava «a senhora inglesa» e Mário
Soares e Raul Rego chamavam «a nossa miss». Na página 12 há um resumo: «Esteve
nas tricheiras da Guerra Civil Espanhola, visitou a Linha Maginot que deveria
ter contido os exércitos de Hitler, fugiu à pressa da França ocupada e chegou
um dia a Lisboa com a intenção de de emigrar para os Estados Unidos. Ficou
entre hordas de refugiados e nunca mais partiu». Um aspecto curioso do livro é
que a jornalista (a quem ofereceram em Inglaterra aos seis anos de idade a
assinatura de um jornal) esteve sempre atenta aos momentos políticos de
Portugal e em 1963 (por exemplo) refere as prisões de Alexandre Cabral (contista
e estudioso de Camilo Castelo Branco) Alberto Ferreira («Seara Nova») e Alves
Redol (vencedor do Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências). No mesmo
ano a sua atenção incidiu sobre outras prisões: Pedro Alvim («Diário de
Lisboa»), Fonseca e Costa (cineasta), Vasco Vieira de Almeida (quadro superior
do Banco Português do Atlântico), Vasco Granja (crítico de cinema), Rogério
Paulo (actor) e Miguel Torga (escritor e médico). Na página 150 recorda-se um
diálogo em Paria entre um jornalista local e o embaixador Marcelo Matias:
«Quando é que os portugueses vão deixar Goa? – Não a vamos deixar». Mais do que
o percurso pessoal e profissional de Miss Shercliff este é, ao mesmo tempo, um
grande inventário do tempo político português que lhe foi dado viver entre 1940
e 1985. JCF









