sábado, 24 de outubro de 2026

EMANUEL CAMEIRA - Vítor Silva Tavares e a &etc


EMANUEL CAMEIRA -
Vítor Silva Tavares e a &etc

Esta ««narrativa histórico-sociológica» de 478 páginas (Editora Barco Bêbado , texto inicial de Paul da Costa Domingos, capa de Carlos Ferreiro) junta a biografia de Vítor Silva Tavares ao percurso da Editora &etc que existiu  de 1973 a 2015. Vítor Manuel Lopes Silva Tavares (1937-2015) nasceu numa família pobre: «Venho de gente muito pobre, a roçar mesmo a miséria, um pouco menos por parte do meu pai. Quando eu nasci a miséria batia no fundo. E ela ficou sempre com um tremendo complexo de me ter feito nascer em condições tão más». A formação de Vítor Silva Tavares foi feita de forma anárquica ligando uma linha popular («O Mosquito», «Cavaleiro Andante»,« Mundo de Aventuras») a uma linha erudita – Assis Esperança, Ferreira de Castro, Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Máximo Gorki, Dostoievski, Roberto Louis Stevenson, Daniel Defoe, José Cardoso Pires, DylanThomas, Mário Domingues, Raoul Veneigen, Luiz Pacheco, James Fenimore Cooper e muitos outros. Vitor Silva Tavares estava muito tempo de castigo no Liceu e passava tardes no Cinema Paris e no Jardim Cinema a ver filmes. Importante foi o conhecimento e a amizade com Fernando Amado (1899-1968) com quem teve longas conversas na Pastelaria Orion na Calçada do Combro. A ligação a Santos Fernando (1927-1975), a Ferro Rodrigues (1925-2006) e a Luiz Pacheco (1925-2008) foi um passo para chegar a Fernando Pessoa e a Mário de Sá Carneiro mas em 1959 parte para Angola e escreve no Jornal «O Intransigente» de Benguela dirigido por Gastão Vinagre e onde conhece Edite Soeiro (1934-2009). Liga-se a Aníbal Fernandes no Lobito e começa a ler Henry Miller, Ernest Hemingway, Blaise Cendrars e ouve Jazz: Miles Davis, Gerry Mullingan, Dave Brubeck, Billie Holiday, Modern Jazz Quartet. Sobre a Editora VST afirmava que «era uma aventura poética e não literária», na linha de um doa autores da Casa (Eduardo Guerra Carneiro) «muitas vezes escrevo para não enlouquecer». Os título desta Editora estão disponíveis na Livraria Letra Livre Calçada do Combro 139 Lisboa. JCF      


domingo, 18 de outubro de 2026

Rui Bondoso (nova biografia) - RESPONDO POR MIM


Rui Bondoso
(nova biografia) - RESPONDO POR MIM

Com o subtítulo de «Biografia de Orlando Neves um criador multifacetado», este livro sobre Orlando Neves (1935-2005) tem 343 páginas (Edições Esgotadas, Prefácio de António Cândido Franco) e inclui um útil índice remissivo sobre este autor de 107 títulos de todos os géneros literários, autor cujos dicionários e obras de consulta estão na ordem do dia mas cuja obra ficcional, poética, teatral e de literatura infantil permanece no esquecimento. O resgate do seu percurso pessoal e de agente cultural surge não como um exercício de nostalgia mas como um espaço de resistência à homogeneidade do pensamento. É curioso notar a quantidade e qualidade de escritores licenciados em Direito tal como Orlando Neves: Eça de Queirós, Almeida Garrett, José Rodrigues Miguéis, Vasco Graça Moura e Mário de Carvalho sem esquecer Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro que desistiram do Curso para se dedicarem às Letras. Entre 1969 e 2004 Orlando Neves traduziu 157 livros para as editoras Início, Ulisseia, Portugália e Civilização – entre outras. A página 218 reproduz uma entrevista de Orlando Neves e Cândido de Azevedo em 1990 que termina deste modo: «uma enorme percentagem de analfabetos e maior ainda a percentagem daqueles que, não o sendo, não possuem o mínimo dos mínimos de instrução e cultura suficientes para se interessarem por Literatura». Uma nota final para a página 254 onde se pode perceber que Aquilino Ribeiro ofereceu ao jovem Orlando Neves em Moimenta da Beira o seu livro «Cinco réis de gente» mas ele – Orlando Neves - conseguiu ser muito mais do que isso – cinco réis. Foi, é e continua a ser mais do que tudo aquilo que este livro de Rui Bondoso consegue dizer e eu (soldado raso das Letras) consigo sintetizar. JCF


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

RAOUL FOLLEREAU - CANTAREI DEPOIS DA MORTE


RAOUL FOLLEREAU -
CANTAREI DEPOIS DA MORTE

Raoul Follerreau (1903-1977) estava destinado ao anonimato pois nasceu numa família de industriais mas afinal toda a sua vida foi dominada por conferências, apelos e denúncias sobre os problemas dos mais pobres dos pobres e dos mais doentes dos doentes – os leprosos. Nas praças, nas igrejas e nos estádios, ele dirigiu-se a todos – jovens, chefes de Estado, Papas – ninguém ficou de fora. Desde 1918 que levantou a sua voz mas foi em 1933 que aconteceram dois encontros decisivos da sua vida – um com o Padre Carlos de Foucauld e outro com os leprosos de África. Casado com Madalena Boudou desde 1925, escreveu em 1949 o livro «Bomba atómica ou Caridade?» que vendeu seis milhões de cópias e fundou o Dia Mundial dos Leprosos em 1954. A sua luta tornou-o conhecido em todo o Mundo. Este livro de 65 páginas com o subtítulo de «Textos Poéticos» (Edição APARF - Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau) abre com uma pergunta («Se Cristo, amanhã, bater à tua porta, reconhecê-Lo-ás?») continua com um pedido («Senhor, nunca deixes de nos amar!») e termina com uma certeza: «Já não passarei de pó, mas farei/crescer a erva e desabrochar a flor./Já não passarei de pó, mas cantarei/ nos vossos peitos./Estarei vivo na vossa alegria,/na vossa esperança divina, /no vosso entusiasmo deslumbrante, /na vossa cólera trovejante./O meu coração exausto/viverá na eternidade dos mundos.» JCF  


domingo, 11 de outubro de 2026

JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO


JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO

José Mário Silva (n.1972) é jornalista, crítico literário, tradutor, poeta ficcionista e organizou a antologia «Os cem melhores poemas dos últimos cem anos». Este é o seu sexto livro. Reúne 27 ficções e um texto no qual Adelaide Candeias expressa a sua revolta porque numa das ficções («Como desenhar um quadrado») surgem referências que lhe parecem atentatórias do seu «bom nome» e da «verdade» e também porque foi condenada ao anonimato – coisa que não pode admitir e daí o seu recurso a um Direito de Resposta como nas Cartas ao Director dos jornais. É aqui que bate o ponto: na ficção da página 33 o autor organiza fichas biográficas de desportistas locais ocupando as páginas do Jornal Gazeta da Cadrafil cujo director (Amílcar Candeias) é definido como «insigne», «exemplar», «notabilíssimo», «venerável» e «distinto» enquanto o Jornal é «conceituadíssimo». Os atletas são Elias Fagundes, Miquelina Marques, Xavier Toledo, Alzira de Sousa Machado e os próximos são Tibério Moreno, Salvador Tolentino, Pedro Barreirinhas, Valentina Sobral, Conceição Farinha, Catarina Nepumoceno, Samuel Tenreiro e Anabela Candeias. Esta ficção em particular coloca o problema do pó e da posteridade. Neste caso é Cadrafil, uma localidade alentejana que fica «por trás do sol-posto» e é conhecida «pelo queijo de ovelha, pelos tapetes e pelo azeite» mas, ao mesmo tempo, por «um cultura desportiva que pede meças a muita cidade desenvolvida». Este livro de 159 páginas (Editora Parsifal, capa de Pedro Gil, foto de Inês Bernardo) afirma-se como um digno sucessor da «Miscellanea» de Miguel Leitão de Andrada (1629) de «Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (1882) e de «O aprendiz de Feiticeiro» de Carlos de Oliveira (1971). Há uma mistura feliz de vários mundos, vários tempos, vários registos de estilo. Ou como Almeida Garrett queria vem «falar verdade a mentir». Nota – este livro foi apresentado quando em Copenhaga o treinador afastava Cristiano Ronaldo, um técnico conhecido por dizer a jogadores no Restelo «vocês três façam um quadrado». JCF    

sábado, 10 de outubro de 2026

Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)


Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube
(FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)

Na sequência de outros dois livros sobre a vida do Clube (1989, 1999) Carlos Lobão (n.1959) assina este volume de 293 páginas que celebra os 50 anos da colectividade. A escolha deste autor acaba por ser óbvia para a «Comissão dos 50 anos do Futebol Clube dos Flamengos». Natural da freguesia, com uma notável carreira de futebolista (1973-1987) e de treinador de futebol (1989-2004), junta ao percurso desportivo a Licenciatura, a Pós-Graduação, o Mestrado e o Doutoramento em História, sendo autor de duas dezenas de trabalhos publicados no âmbito da História Local. O livro é um meticuloso registo de actividades do Clube que, embora tenha a palavra Futebol no seu nome integra outras actividades desportivas e culturais ou recreativas: Filatelia, Jornal, Conjunto Musical, Folclore, Futebol Feminino, Futsal, Veteranos, Caderneta de Cromos, Andebol, Ciclismo, Damas, Futebol de Salão, Hóquei em Patins, Voleibol e Rally Paper. A narrativa recorre com frequência aos jornais: Correio da Horta, Horta Desportiva, O Telégrafo ou Diário Insular. A página 105 refere o Hino do FCF da autoria de Manuel Correia Gaudêncio e Albino Garcia: «Pelo Vale ecoa o grito/Duma esperança a florescer/Entre a bola e o apito/Faz-se novo o velho dito/Saber ganhar e perder!//Com coragem, Juventude/Aos Flamengos vamos dar/Nova vida e mais saúde/No desporto a praticar.//Caminhando p´rá vitória/Somos a força em corrida/Nova luz na nossa história/E, dos Flamengos, a glória/Em cada nova partida!». Albert Camus (1913-1960) Prémio Nobel da Literatura em 1957 afirmou dever ao Futebol tudo o que sabia sobre a Moral e as obrigações dos homens. Ele foi guarda-redes da equipa Universitária de Argel. De facto uma equipa de futebol é uma escola de virtudes, um palco de sonhos, uma gramática do Mundo. Não é por acaso que muitas equipas da primeira divisão inglesa nasceram em paróquias ou em pubs – algo que se pode traduzir por taberna (no espaço rural) ou café (no espaço urbano). Numa equipa de futebol o todo é sempre mais que a soma das partes. JCF      

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA

 

SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA

Com selecção, tradução e notas de Manuel Simões (ex-professor em diversas Universidades italianas), este livro de 143 páginas é uma edição que inclui poemas de seis livros e alguns dispersos desta «voz obstinada e generosa de um dos maiores poetas do nosso tempo» - segundo a apresentação do tradutor. Salvatore Quasímodo, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1959, traduziu Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Catulo, Ovídio, Virgílio, Moliére, Shakespeare, E.E. Cummings e Pablo Neruda. Organizou duas antologias de poesia italiana e publicou vários livros de ensaios. O seu poema mais conhecido é «A sombra dos salgueiros» do livro «Dia após dia»: «E como podíamos nós cantar/com o pé estrangeiro sobre o coração,/entre os mortos abandonados nas praças/sobre a erva dura de gelo, ao lamento/balido das crianças, ao uivo negro/da mãe que ia ao encontro do filho/crucificado no poste do telégrafo?/À sombra dos salgueiros, como ex-votos/também as nossas cítaras pendiam,/oscilavam leves ao triste vento». Há um poema que recorda o maior massacre de civis em Itália no Outono de 1944 por parte das tropas nazis: «Epígrafe para os caídos de Marzabotto – Os mil oitocentos e trinta do planalto/fuzilados e queimados/por obscura crónica camponesa e operária/entram na história do mundo/com o nome de Marzabotto». Outro poema é dedicado à memória dos sete irmãos Cervi, agricultores da Emília Romagna que foram capturados e fuzilados pelos fascistas em Dezembro de 1943: «Mas eu escrevo ainda palavras de amor/e também esta é uma carta de amor/à minha terra. Escrevo aos irmãos Cervi/não às sete estrelas da Ursa: aos sete emilianos/dos campos. Tinham no coração poucos livros,/morreram jogando dados de amor no silêncio./Não conheciam soldados filósofos poetas/deste humanismo de raça campesina./O amor e a morte num túmulo de névoa pouco fundo». Ficamos com uma ideia mas nada substitui a leitura do livro em boa hora editado num registo bilingue. (Edições Fantasma, Capa: Eva Hiernaux, Paginação: Carlos Ramos) JCF                

terça-feira, 29 de setembro de 2026

MISS SHERCLIFF NO PAÍS DE SALAZAR - novo livro de Wilton Fonseca Gonçalo Pereira Rosa

 


MISS SHERCLIFF NO PAÍS DE SALAZAR -
novo livro de Wilton Fonseca Gonçalo Pereira Rosa

Com o subtítulo de «As aventuras de uma jornalista inglesa em tempos de guerra e de paz» este livro de 329 páginas (Editora Âncora, prefácio de Joaquim Letria, capa de Sofia Travassos) é a biografia de Josephine Alfreda Lilly Shercliff (1902-1985), una mulher a quem Salazar chamava «a senhora inglesa» e Mário Soares e Raul Rego chamavam «a nossa miss». Na página 12 há um resumo: «Esteve nas tricheiras da Guerra Civil Espanhola, visitou a Linha Maginot que deveria ter contido os exércitos de Hitler, fugiu à pressa da França ocupada e chegou um dia a Lisboa com a intenção de de emigrar para os Estados Unidos. Ficou entre hordas de refugiados e nunca mais partiu». Um aspecto curioso do livro é que a jornalista (a quem ofereceram em Inglaterra aos seis anos de idade a assinatura de um jornal) esteve sempre atenta aos momentos políticos de Portugal e em 1963 (por exemplo) refere as prisões de Alexandre Cabral (contista e estudioso de Camilo Castelo Branco) Alberto Ferreira («Seara Nova») e Alves Redol (vencedor do Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências). No mesmo ano a sua atenção incidiu sobre outras prisões: Pedro Alvim («Diário de Lisboa»), Fonseca e Costa (cineasta), Vasco Vieira de Almeida (quadro superior do Banco Português do Atlântico), Vasco Granja (crítico de cinema), Rogério Paulo (actor) e Miguel Torga (escritor e médico). Na página 150 recorda-se um diálogo em Paria entre um jornalista local e o embaixador Marcelo Matias: «Quando é que os portugueses vão deixar Goa? – Não a vamos deixar». Mais do que o percurso pessoal e profissional de Miss Shercliff este é, ao mesmo tempo, um grande inventário do tempo político português que lhe foi dado viver entre 1940 e 1985. JCF     


domingo, 20 de setembro de 2026

Simon Critchley - EM QUE PENSAMOS QUANDO PENSAMOS EM FUTEBOL

 

Simon Critchley - EM QUE PENSAMOS QUANDO PENSAMOS EM FUTEBOL

Depois de ter publicado na mesma editora «O livro dos filósofos mortos» Simon Critchley (n.1960) apesar de ser professor de filosofia abre o seu livro sobre Futebol com as palavras de um jogador (Johan Cruyff) que afirmou «jogar futebol é muito simples mas jogar futebol simples é a coisa mais difícil que existe». Mais tarde disse: «Nunca vi um saco de dinheiro marcar um golo». Declara o autor na página 31: «O futebol é a minha paixão de toda a vida, é uma da poucas coisas que se pode dizer que uniram esta vida e ligam às vidas de outros alguns que me estão próximos como o meu pai e o meu filho». O autor confessa não ser um neutro: «Toda a minha família veio do Liverpool e fui criado numa devoção fanática do Clube (Liverpool Football Club) e numa crença de que a minha equipa não era apenas muito boa mas que os seus fãs eram especiais e a sua cultuira única». Depois cita um artigo de 25-4-07 no qual Barney Ronay  afirma: «A maioria dos Clubes da Premiership tem as suas raízes numa igreja ou num pub local». Este livro está povoado por jogadores especiais – Zinedine Zidane, Roberto Baggio, Paolo Maldini, Thierry Henry, Andrea Pirlo, Andrés Inierts e não só. A palavra Futebol em si tem uma dupla inscrição tanto soccer usada nos EUA como football association usada no resto do Mundo apela para socius, termo latino que tem a ver com «livre associação de seres humanos». O autor manifesta-se agradecido a vários escritores que bem escreveram sobre Futebol: Eduardo Galeano, David Goldblatt, Paul Simpson, Uli Hesse, Simon Kuper, Jonathan Wilson, Barry Glendinning ou Barney Ronay já antes citado e que explica melhor a sua ideia: «Isto é um resposta à ideia tatcheriana de que não existe algo que se possa chamar sociedade». A páginas tantas aparecem saudades dos grandes treinadores do Liverpool: Billy Shankly, Joe Fagan, Roy Evans, Kenny Dalglish, Gerard Houlier, Rafa Benitez ou Bob Paisley. Conclusão possível:« O futebol não é apenas sobre vencer. Normalmente é sobre perder. Tem de ser». Edições 70, tradução Jorge Pereirinha Pires, capa Susana Villar, revisão Joaquim E. Oliveira. JCF


domingo, 13 de setembro de 2026

Em resumo 68 (Ruslam Botiev o artista de Alfama veio da Mongólia)

 


Em resumo 68

Ruslam Botiev o artista de Alfama veio da Mongólia

Lá pelos idos de 1982 o professor Jacinto do Prado Coelho (1920-1984) disse-me à porta do seu gabinete na Fundação Gulbenkian: «Você com os artistas não vi ter problemas mas tenha muito cuidado com os figurões!». Só muito mais tarde percebi que à volta dos artistas circulavam alguns figurões a tentar sacar o máximo fazendo um investimento mínimo. Conheci fulanos que obtinham das tipografias dois orçamentos para a publicação de um livro mas um tinha os dados correctos e o outro estava com valores em duplicado. O figurão dizia ao artista que pagava metade da despesa na tipografia mas quem pagava tudo era o artista. Porque a factura respeitava o orçamento original que o figurão tinha guardado na sua gaveta. Passava por benemérito mas era um explorador da boa-fé dos artistas. Um poeta esteve doze anos sem publicar e e embarcou nessa aventura porque sentia a falta de ver um livro seu na montra das livraria. Ruslam Botiev é outra coisa, é um artista. O desenho que fez a propósito da primeira crónica do meu livro «O passado é para sempre» (Editora On y va) é um trabalho notável sobre a Praça de São Marcos em Veneza, onde pela primeira vez na vida, vi «música» ao lado de café e de gelados na factura do famoso café Florian. Um dia no seu atelier frente à igreja de São João da Praça em Alfama disse-lhe que ele era uma pessoa especial. Sorriu e respondeu: «Espacial era o meu irmão que foi um dos cosmonautas da equipa de Yuri Gagarin. O irmão de Ruslam Botiev morreu há poucos anos com o COVID 19; já Yuri Gagarin viveu entre 1934 e 1968 mas ficou na História porque foi o primeiro homem a viajar no Espaço. Esta crónica é uma maneira modesta de dizer obrigado. A vida não é só feita de lágrimas e de sangue pisado; este desenho é uma maravilha e nasceu da leitura de uma das minhas crónicas. Já ganhei o dia.

José do Carmo Francisco

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

GUERRAS E PAZ de JOSÉ MANUEL JARA (segunda edição)


GUERRAS E PAZ de
JOSÉ MANUEL JARA (segunda edição)

Com o subtítulo de CARTAS POLÉMICAS, este livro de José Manuel Jara (n.1949) reúne em 126 páginas um conjunto de 103 cartas enviadas ao Director do Jornal «Público» de Lisboa com um arco temporal entre 14 de Abril de 1999 e 3 de Abril de 2026. (Editora Página a Página, capa de Afonso Santos, prefácio de José Goulão) . A página 17 reproduz uma página publicada no «Público» de 7 de Fevereiro de 2026 com uma reflexão sobre as diferenças entre censura e critérios editoriais. Nela o autor queixa-se de um problema «nas últimas semanas o catavento epistolar tem deixado passar com mais facilidade o que sopra da direita ou do centro- esquerda, não da esquerda». O prefácio assinala na página 8 os conflitos na Ucrânia, na Síria, no Afeganistão e na Líbia além da Venezuela, Cuba, Palestina e Irão, sublinhando o facto de «os poderes políticos e militares portugueses terem cedido a Base das Lajes à potência agressora de um país que tem relações normais com Portugal e que em nada ameaçou ou ameaça os portugueses». Na página 56 a carta lembra que o regime ucraniano implantado em Fevereiro de 2014 resultou de um golpe de Estado no qual os vencedores instalaram um regime hostil à população russófona no plano linguístico, político e racial». Em 1977 um aluno finalista de História da Universidade de Chicago perguntou ao escritor argentino Jorge Luís Borges «quem é Napoleão». Em 1979 um estudante da Universidade de Iwoa City perguntou à professora Ermelinda Galamba se «Namíbia e Líbia são a mesma coisa». Além de tudo o mais, este livro ajuda a responder a essas duas perguntas. JCF