quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Mário Máximo - A Linguagem das Nuvens


Mário Máximo -
A Linguagem das Nuvens

Mário Máximo publica com regularidade desde 1986 livros de poesia, crónica, teatro, conto e ensaio. O seu mais recente trabalho (Edições Fénix, Capa, composição e paginação de Tânia Marques) tem 112 páginas e está organizado em nove partes, cada uma com dez poemas. O título está na contracapa - «Decifro a vida através da literatura que me representa. Descobri que a linguagem das nuvens é, afinal a minha linguagem de sempre». Mas também nos poemas das páginas 27 e 28: «A linguagem das nuvens paira no firmamento. A linguagem das nuvens encanta os olhares dos corpos». No poema da página 37 se percebe que acima do Homem e da Mulher está Deus: «Deus é esse pormenor sem o qual nada poderia existir». Depois de perguntar «Onde vivem as estrelas?», o poeta responde: «O firmamento é uma pintura móvel onde os astros são pontos poéticos». Na página 110 o autor apresenta-se: «Escrevo versos assim como as nascentes criam rios de leito profundo». Na página 7 explica o seu ofício: «Desenho as curvas mais difíceis da geometria interior». Mas adverte na página 8: «Não aceito sermões compostos por palavras inertes». O seu ponto de partida é o da página 10: «Irei aprender todas as línguas, idiomas, dialectos, variantes». Ele sabe que todo o poema é uma resposta: «Ouvi o chamamento dos astros e os recados vindos de dentro». E aspira a viajar entre a Terra e o Firmamento: «Aves efémeras cruzam os ares e eu vou nesses voos em súplica». Porque é esse o seu lugar: «O poeta vive no mundo de cima como no mundo de baixo». Neste conjunto de 90 poemas todos com 7 versos (sete é o número perfeito) se confirma uma ideia de Camilo Castelo Branco (1825-1890) : a grande Poesia não tem presente; ou é sonho ou é saudade. Sonho de um futuro por viver; saudade de um passado que não se repete. Tal como numa oração, cada poema junta de novo dois tempos separados pela distância e pela morte. JCF        


terça-feira, 27 de outubro de 2026

José Fanha - Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim


 José Fanha - Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim

José Fanha (n.1951) organizou este seu livro de 229 páginas (Âncora Editora, Capa de Sofia Travassos) de modo a cruzar os dois lados da realidade, ter e o ser, o património e o sentimento. Mas organiza a narrativa de modo muito hábil e transforma o texto num património de sentimentos. O mesmo é dizer – dois em um. O autor reconhece que a memória é uma coisa estranha: «Uma espécie de reservatório onde se vão acumulando e misturando recordações verdadeiras e outras que nem por isso. Será essa a razão por que há tantas coisas que recordamos com o seu perfeito recorte de realidade e que nunca aconteceram. Por vezes, no entanto, até parecem mais reais do que se o fossem. Outras há que são memórias autênticas. Fechamos so olhos e elas aí estão a trazer-nos aquilo que já fomos e que é o chão do que viremos a ser». O arco temporal deste trabalho narrativo vai de 1951 a 1980. O jovem José Fanha viveu na Estrada da Luz e foi aluno do Colégio dos Maristas na Rua Artilharia Um: «Na Estrada da Luz nunca foi Inverno, tanto quanto m lembro. Lisboa não é feita para o frio nem para a chuva. E eu também não. Por isso, tanto quanto me recordo, quando chegava aos Maristas já era Primavera e pronto. Lisboa sempre foi assim, feita para a alegria do sol, para aquela luz incomparável que sobe do rio e nos entra no coração». Sobre a cidade de Lisboa lê-se na página 40: «Não recordo onde morava então. Com a minha mãe, andava a mudar permanentemente de casa. Corremos pensões, messes militares, apartamentos por aqui e por ali e talvez seja a própria cidade de Lisboa que mais sinto como aquilo a que tenho podido chamar um lar». E conclui: «…a minha cidade é a do sol, a que está virada para o rio como se ali, nas águas lentas e largas, pudesse encontrar o seu céu e o seu destino». Nem mais. Quem leu, leu; quem não leu não sabe o que perdeu. JCF    

     

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Vergílio Alberto Vieira teatro - Parábola do Rei Morto

 
Vergílio Alberto Vieira - teatro - Parábola do Rei Morto

Autor multifacetado (ensaio, diarística, dramaturgia, ficção e poesia) Vergílio Alberto Vieira (n.1950) assina esta tragédia em três actos levada à cena pela Companhia de Teatro de Braga – Editora Rosmaninho, Apresentação: Rui Madeira, Ilustrações Luiz d´Orey sobre o retrato de Cristóvão de Moraes em 1571, Foto do autor: Rui Maio Sousa, Grafismo: César Antunes. Não é novo o tema de D. Sebastião e do Sebastianismo; já vem de Fernando Pessoa, Fr. Bernardo da Cruz, Bandarra (o sapateiro de Trancoso), Natália Correia e Mário Cesariny entre outros além da Ópera «Le Pelétier» de Gaetano Donizetti estreada em 1834. Este livro de 74 páginas oscila «entre a verdade dos factos e a factualidade das aparências» e envolve todos os componentes do sonho quimérico do «Desejado» em Alcácer Quibir – glórias, prestígio, grandeza. A figura do «Impostor» reclama uma fuga sob disfarce de Fez a caminho da Terra Santa e o regresso a Tânger em 1564 mas o Tribunal condenou-o a morte e mais tarde um dos carrascos desvenda o rosto do enforcado que é afinal o rei D. Sebastião tal como se identifica no retrato de autoria de Cristóvão de Moraes em 1571. Participam na acção da tragédia várias figuras: Preboste, Impostor, Mestre d´El-Rei, Guardas Reais, Cigana. Arauto, Carrascos, Oficial de Justiça, Meirinho das Prisões, Frei Maurício e D. Catarina d´Áustria. Uma grande reflexão actual sobre Portugal e os Portugueses, entre presságios e promessas por cumprir. JCF   
          

domingo, 25 de outubro de 2026

LEANDRO CEIA (reedição) - ABC DO TRABALHOR


LEANDRO CEIA
 (reedição) - ABC DO TRABALHOR

Dedicado a Alfredo Matos que promoveu a primeira edição deste opúsculo em 1979 pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Setúbal com o título de «Abc do Trabalhador», Leandro Ceia explica a mudança na página 3: «O vocábulo trabalhador, de trabalho mais dor, deriva do latim tripaliu que no Império Romano designava um instrumento de tortura de escravos. Por entender que no futuro todo o trabalho deixará de ser penoso, mas sim livre e fonte de alegria, o autor substutui-o por trabalhor – retira-lhe a sílaba «dor». Além do texto-base que ocupa 72 páginas, o livro integra vários anexos: dois poemas de Eugénia Cunhal (de 1947 e 1962), uma carta de Álvaro Cunhal (de 1966) e a exortação de Vasco Gonçalves (primeiro ministro entre 18-7-74 e 19-9-75) no I Congresso de Escritores Portugueses (1975). A contracapa reproduz capas de livros dos seguintes autores: Câmara Reys, José Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro, Mário Dionísio, Joseia Matos Mira, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Nuno de Figueiredo e José Saramago. Do livro «Até amanhã, camaradas» de Manuel Tiago surge uma pequena citação: «Temos conseguido jornas mais altas?  É certo – disse Alfredo. – Mas que valem jornas mais altas se os preços sobem e faltam géneros? Se lutamos por jornas mais altas temos também de lutar contra a falta de géneros e sobretudo a falta de pão…». A capa é de Ilija Iliev, os desenhos de Piçarra Luís, a composição é de Paula Ferreira e a impressão é de V. Alberto Santos. JCF    

  

       

sábado, 24 de outubro de 2026

EMANUEL CAMEIRA - Vítor Silva Tavares e a &etc


EMANUEL CAMEIRA -
Vítor Silva Tavares e a &etc

Esta ««narrativa histórico-sociológica» de 478 páginas (Editora Barco Bêbado , texto inicial de Paul da Costa Domingos, capa de Carlos Ferreiro) junta a biografia de Vítor Silva Tavares ao percurso da Editora &etc que existiu  de 1973 a 2015. Vítor Manuel Lopes Silva Tavares (1937-2015) nasceu numa família pobre: «Venho de gente muito pobre, a roçar mesmo a miséria, um pouco menos por parte do meu pai. Quando eu nasci a miséria batia no fundo. E ela ficou sempre com um tremendo complexo de me ter feito nascer em condições tão más». A formação de Vítor Silva Tavares foi feita de forma anárquica ligando uma linha popular («O Mosquito», «Cavaleiro Andante»,« Mundo de Aventuras») a uma linha erudita – Assis Esperança, Ferreira de Castro, Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Máximo Gorki, Dostoievski, Roberto Louis Stevenson, Daniel Defoe, José Cardoso Pires, DylanThomas, Mário Domingues, Raoul Veneigen, Luiz Pacheco, James Fenimore Cooper e muitos outros. Vitor Silva Tavares estava muito tempo de castigo no Liceu e passava tardes no Cinema Paris e no Jardim Cinema a ver filmes. Importante foi o conhecimento e a amizade com Fernando Amado (1899-1968) com quem teve longas conversas na Pastelaria Orion na Calçada do Combro. A ligação a Santos Fernando (1927-1975), a Ferro Rodrigues (1925-2006) e a Luiz Pacheco (1925-2008) foi um passo para chegar a Fernando Pessoa e a Mário de Sá Carneiro mas em 1959 parte para Angola e escreve no Jornal «O Intransigente» de Benguela dirigido por Gastão Vinagre e onde conhece Edite Soeiro (1934-2009). Liga-se a Aníbal Fernandes no Lobito e começa a ler Henry Miller, Ernest Hemingway, Blaise Cendrars e ouve Jazz: Miles Davis, Gerry Mullingan, Dave Brubeck, Billie Holiday, Modern Jazz Quartet. Sobre a Editora VST afirmava que «era uma aventura poética e não literária», na linha de um doa autores da Casa (Eduardo Guerra Carneiro) «muitas vezes escrevo para não enlouquecer». Os título desta Editora estão disponíveis na Livraria Letra Livre Calçada do Combro 139 Lisboa. JCF      


domingo, 18 de outubro de 2026

Rui Bondoso (nova biografia) - RESPONDO POR MIM


Rui Bondoso
(nova biografia) - RESPONDO POR MIM

Com o subtítulo de «Biografia de Orlando Neves um criador multifacetado», este livro sobre Orlando Neves (1935-2005) tem 343 páginas (Edições Esgotadas, Prefácio de António Cândido Franco) e inclui um útil índice remissivo sobre este autor de 107 títulos de todos os géneros literários, autor cujos dicionários e obras de consulta estão na ordem do dia mas cuja obra ficcional, poética, teatral e de literatura infantil permanece no esquecimento. O resgate do seu percurso pessoal e de agente cultural surge não como um exercício de nostalgia mas como um espaço de resistência à homogeneidade do pensamento. É curioso notar a quantidade e qualidade de escritores licenciados em Direito tal como Orlando Neves: Eça de Queirós, Almeida Garrett, José Rodrigues Miguéis, Vasco Graça Moura e Mário de Carvalho sem esquecer Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro que desistiram do Curso para se dedicarem às Letras. Entre 1969 e 2004 Orlando Neves traduziu 157 livros para as editoras Início, Ulisseia, Portugália e Civilização – entre outras. A página 218 reproduz uma entrevista de Orlando Neves e Cândido de Azevedo em 1990 que termina deste modo: «uma enorme percentagem de analfabetos e maior ainda a percentagem daqueles que, não o sendo, não possuem o mínimo dos mínimos de instrução e cultura suficientes para se interessarem por Literatura». Uma nota final para a página 254 onde se pode perceber que Aquilino Ribeiro ofereceu ao jovem Orlando Neves em Moimenta da Beira o seu livro «Cinco réis de gente» mas ele – Orlando Neves - conseguiu ser muito mais do que isso – cinco réis. Foi, é e continua a ser mais do que tudo aquilo que este livro de Rui Bondoso consegue dizer e eu (soldado raso das Letras) consigo sintetizar. JCF


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

RAOUL FOLLEREAU - CANTAREI DEPOIS DA MORTE


RAOUL FOLLEREAU -
CANTAREI DEPOIS DA MORTE

Raoul Follerreau (1903-1977) estava destinado ao anonimato pois nasceu numa família de industriais mas afinal toda a sua vida foi dominada por conferências, apelos e denúncias sobre os problemas dos mais pobres dos pobres e dos mais doentes dos doentes – os leprosos. Nas praças, nas igrejas e nos estádios, ele dirigiu-se a todos – jovens, chefes de Estado, Papas – ninguém ficou de fora. Desde 1918 que levantou a sua voz mas foi em 1933 que aconteceram dois encontros decisivos da sua vida – um com o Padre Carlos de Foucauld e outro com os leprosos de África. Casado com Madalena Boudou desde 1925, escreveu em 1949 o livro «Bomba atómica ou Caridade?» que vendeu seis milhões de cópias e fundou o Dia Mundial dos Leprosos em 1954. A sua luta tornou-o conhecido em todo o Mundo. Este livro de 65 páginas com o subtítulo de «Textos Poéticos» (Edição APARF - Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau) abre com uma pergunta («Se Cristo, amanhã, bater à tua porta, reconhecê-Lo-ás?») continua com um pedido («Senhor, nunca deixes de nos amar!») e termina com uma certeza: «Já não passarei de pó, mas farei/crescer a erva e desabrochar a flor./Já não passarei de pó, mas cantarei/ nos vossos peitos./Estarei vivo na vossa alegria,/na vossa esperança divina, /no vosso entusiasmo deslumbrante, /na vossa cólera trovejante./O meu coração exausto/viverá na eternidade dos mundos.» JCF  


domingo, 11 de outubro de 2026

JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO


JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO

José Mário Silva (n.1972) é jornalista, crítico literário, tradutor, poeta ficcionista e organizou a antologia «Os cem melhores poemas dos últimos cem anos». Este é o seu sexto livro. Reúne 27 ficções e um texto no qual Adelaide Candeias expressa a sua revolta porque numa das ficções («Como desenhar um quadrado») surgem referências que lhe parecem atentatórias do seu «bom nome» e da «verdade» e também porque foi condenada ao anonimato – coisa que não pode admitir e daí o seu recurso a um Direito de Resposta como nas Cartas ao Director dos jornais. É aqui que bate o ponto: na ficção da página 33 o autor organiza fichas biográficas de desportistas locais ocupando as páginas do Jornal Gazeta da Cadrafil cujo director (Amílcar Candeias) é definido como «insigne», «exemplar», «notabilíssimo», «venerável» e «distinto» enquanto o Jornal é «conceituadíssimo». Os atletas são Elias Fagundes, Miquelina Marques, Xavier Toledo, Alzira de Sousa Machado e os próximos são Tibério Moreno, Salvador Tolentino, Pedro Barreirinhas, Valentina Sobral, Conceição Farinha, Catarina Nepumoceno, Samuel Tenreiro e Anabela Candeias. Esta ficção em particular coloca o problema do pó e da posteridade. Neste caso é Cadrafil, uma localidade alentejana que fica «por trás do sol-posto» e é conhecida «pelo queijo de ovelha, pelos tapetes e pelo azeite» mas, ao mesmo tempo, por «um cultura desportiva que pede meças a muita cidade desenvolvida». Este livro de 159 páginas (Editora Parsifal, capa de Pedro Gil, foto de Inês Bernardo) afirma-se como um digno sucessor da «Miscellanea» de Miguel Leitão de Andrada (1629) de «Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (1882) e de «O aprendiz de Feiticeiro» de Carlos de Oliveira (1971). Há uma mistura feliz de vários mundos, vários tempos, vários registos de estilo. Ou como Almeida Garrett queria vem «falar verdade a mentir». Nota – este livro foi apresentado quando em Copenhaga o treinador afastava Cristiano Ronaldo, um técnico conhecido por dizer a jogadores no Restelo «vocês três façam um quadrado». JCF    

sábado, 10 de outubro de 2026

Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)


Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube
(FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)

Na sequência de outros dois livros sobre a vida do Clube (1989, 1999) Carlos Lobão (n.1959) assina este volume de 293 páginas que celebra os 50 anos da colectividade. A escolha deste autor acaba por ser óbvia para a «Comissão dos 50 anos do Futebol Clube dos Flamengos». Natural da freguesia, com uma notável carreira de futebolista (1973-1987) e de treinador de futebol (1989-2004), junta ao percurso desportivo a Licenciatura, a Pós-Graduação, o Mestrado e o Doutoramento em História, sendo autor de duas dezenas de trabalhos publicados no âmbito da História Local. O livro é um meticuloso registo de actividades do Clube que, embora tenha a palavra Futebol no seu nome integra outras actividades desportivas e culturais ou recreativas: Filatelia, Jornal, Conjunto Musical, Folclore, Futebol Feminino, Futsal, Veteranos, Caderneta de Cromos, Andebol, Ciclismo, Damas, Futebol de Salão, Hóquei em Patins, Voleibol e Rally Paper. A narrativa recorre com frequência aos jornais: Correio da Horta, Horta Desportiva, O Telégrafo ou Diário Insular. A página 105 refere o Hino do FCF da autoria de Manuel Correia Gaudêncio e Albino Garcia: «Pelo Vale ecoa o grito/Duma esperança a florescer/Entre a bola e o apito/Faz-se novo o velho dito/Saber ganhar e perder!//Com coragem, Juventude/Aos Flamengos vamos dar/Nova vida e mais saúde/No desporto a praticar.//Caminhando p´rá vitória/Somos a força em corrida/Nova luz na nossa história/E, dos Flamengos, a glória/Em cada nova partida!». Albert Camus (1913-1960) Prémio Nobel da Literatura em 1957 afirmou dever ao Futebol tudo o que sabia sobre a Moral e as obrigações dos homens. Ele foi guarda-redes da equipa Universitária de Argel. De facto uma equipa de futebol é uma escola de virtudes, um palco de sonhos, uma gramática do Mundo. Não é por acaso que muitas equipas da primeira divisão inglesa nasceram em paróquias ou em pubs – algo que se pode traduzir por taberna (no espaço rural) ou café (no espaço urbano). Numa equipa de futebol o todo é sempre mais que a soma das partes. JCF      

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA

 

SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA

Com selecção, tradução e notas de Manuel Simões (ex-professor em diversas Universidades italianas), este livro de 143 páginas é uma edição que inclui poemas de seis livros e alguns dispersos desta «voz obstinada e generosa de um dos maiores poetas do nosso tempo» - segundo a apresentação do tradutor. Salvatore Quasímodo, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1959, traduziu Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Catulo, Ovídio, Virgílio, Moliére, Shakespeare, E.E. Cummings e Pablo Neruda. Organizou duas antologias de poesia italiana e publicou vários livros de ensaios. O seu poema mais conhecido é «A sombra dos salgueiros» do livro «Dia após dia»: «E como podíamos nós cantar/com o pé estrangeiro sobre o coração,/entre os mortos abandonados nas praças/sobre a erva dura de gelo, ao lamento/balido das crianças, ao uivo negro/da mãe que ia ao encontro do filho/crucificado no poste do telégrafo?/À sombra dos salgueiros, como ex-votos/também as nossas cítaras pendiam,/oscilavam leves ao triste vento». Há um poema que recorda o maior massacre de civis em Itália no Outono de 1944 por parte das tropas nazis: «Epígrafe para os caídos de Marzabotto – Os mil oitocentos e trinta do planalto/fuzilados e queimados/por obscura crónica camponesa e operária/entram na história do mundo/com o nome de Marzabotto». Outro poema é dedicado à memória dos sete irmãos Cervi, agricultores da Emília Romagna que foram capturados e fuzilados pelos fascistas em Dezembro de 1943: «Mas eu escrevo ainda palavras de amor/e também esta é uma carta de amor/à minha terra. Escrevo aos irmãos Cervi/não às sete estrelas da Ursa: aos sete emilianos/dos campos. Tinham no coração poucos livros,/morreram jogando dados de amor no silêncio./Não conheciam soldados filósofos poetas/deste humanismo de raça campesina./O amor e a morte num túmulo de névoa pouco fundo». Ficamos com uma ideia mas nada substitui a leitura do livro em boa hora editado num registo bilingue. (Edições Fantasma, Capa: Eva Hiernaux, Paginação: Carlos Ramos) JCF