domingo, 17 de fevereiro de 2019

«JCC Autobiografia autorizada, algo exagerada e muito ilustrada» de José Constantino Costa



José Constantino Costa (n.1958) poderia ter intitulado este livro como «Fotobiografia» mas preferiu chamar-lhe «Autobiografia muito ilustrada». Carlos Reis no «Dicionário de Estudos Narrativos» (Almedina) define a autobiografia como «o relato de uma vida feito por quem a viveu». O livro tem 219 páginas e eu assino na contracapa um texto sintético de quatro linhas: «Entre o que conta e o que sugere, entre a vida e o estilo, entre o segue pisado e o exercício, JCC parte da sua memória particular (pessoal, escolar, profissional) para inscrever uma memória geral do tempo português destes últimos sessenta anos.» Algumas das histórias são apelativas de modo especial. Por exemplo a do guarda da PSP que não sabia como se escreve «Caetanos»: com «c» e não com «q», com «e» e não com «i». Ou a secretária duma empresa que julgava ser o nome Holanda começado por «O» como Omã. Ou então o infeliz que não queria ser entrevistado e respondia: «Vai-te embora que eu sou maluco…eu sou maluco!». Sem esquecer o equívoco de uma senhora na Alliance Française de Algés que perguntava a autor com 34 anos: «que que vá chamar a sua netinha?»      
Pelo meio da narrativa há um «conto do vigário» que começa com o clássico «Não imagina quantas pessoas abordei nesta última meia hora sem sucesso!» além de uma história do 745 com um guarda da PSP nos Restauradores a pedir ajuda para «esclarecimento do sucedido» no autocarro: «O senhor motorista relatou a ocorrência de altercações no veículo que culminaram em agressão» e de uma outra história passada no 758: «Quando me reformei comecei a fazer recados para um gabinete de arquitetos; foi uma revelação, rejuvenesci dez anos, descobri Lisboa que julgava conhecer e percebi que tinha saída junto das mulheres…»  O insólito tem a ver com a página 25 onde se lê «o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 28-2-1904» em vez de 13-9-1908. O autor está bem acompanhado pois um livro de Jacinto Baptista e António Valdemar refere 1-12-1907 como data do primeiro derby lisboeta. Portugal tem um sistema cultural cheio de paradoxos e de mentiras: o morto fala, o cantor não canta, o juiz trabalha na TV e o anjo da morte é uma mulher. O erro crasso da página 25 não é um caso isolado; tem companhia e muita.  
Logo na página 16 surge uma história mais frequente do que parece: a mulher que decide pelo pai em vez do marido quando precisa de tomar uma decisão: «o jovem casal separou-se e ela voltou para a terra com o pai.» Na página 37 JCC refere Eça de Queirós como «o meu escritor português do século XIX» e não por acaso o mesmo Eça, numa carta aos condes de Arnoso e de Sabugosa, afirma: «Contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas. Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorara o homem.»

(Editora: Mar de Letras – Ericeira, Capa: Luís Filipe Maçarico, Fotografias: José Constantino Costa, Revisão: José do Carmo Francisco, Design e Paginação: Rui Jorge Almeida)

[Um livro por semana 610]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

«Os rios de mim» de Ronaldo Cagiano



Ronaldo Cagiano nasceu em Cataguases (Minas Gerais – Brasil), é licenciado em Direito, viveu em Brasília e em São Paulo, tendo-se radicado em Portugal (Costa do Sol) e estreou-se em livro em 1989 com «Palavra engajada» (poemas).
Neste livro de 2018 o ponto de partida é o «eu»: «Nasci empurrado pelas águas/ de um ribeirão em fúria / numa madrugada espúria / com sua opulência de gritos, / abril se despedaçando». O ponto de chegada é o lugar no qual «Há um mundo dentro das palavras/ (máquina soturna) / que tento desbravar: / esse promontório / que é sedução / ou abismo.» e surge uma certeza: «A viagem ao passado / nunca regressa: / na combustão da memória / sinto um cão / chafurdando o íntimo / adulando um cardume de açoites.»
Pelo meio, entre o ponto de partida e o ponto de chegada, ficam as viagens (Buenos Aires, Lisboa, Roma) e os rios (Tibre, Tejo). Tal como Federico García Lorca, o autor poderia afirmar num verso que «a vida não é bela nem sagrada» mas, e ao mesmo tempo, o poeta teima, teima sempre: «Não há metáfora possível / no cativeiro da fé. (…) Na contumácia da mentira / residem a inexatidão da vida / a persuasão da morte. / Nas vísceras do pranto / a denúncia do que não sabemos. / Minha vida só reconhece / o matraquear das dúvidas / e sua rumorosa oficina de desacertos.»
Num duplo registo (Natureza e Cultura) os poemas oscilam entre a Geografia,  o Cinema, a Literatura e a Música. O livro abre com o poema que dá título ao conjunto: «Nas águas do velho rio / que passa pela minha cidade / e corta minha memória / feito / lâmina resoluta / há barcos misteriosos / que conduzem sonhos e malogros / do menino que adormece em mim.» O Cinema está no poema da página 34: Almodóvar e Kiarostami. A Literatura está nas citações e até num poema em diálogo com a Poesia de Murilo Mendes. Versos de Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, David Mourão-Ferreira, Manuel Bandeira, António Cícero ou Nuno Júdice ajudam o Poeta a responder à «dor» do Mundo que é sempre muito mais do que «uma sílaba atroz».
      
(Editora: Urutau, Apresentação: Álvaro Alves de Faria, Revisão: Beatriz Regine Guimarães Barboza, Edição; Tiago Fabris Rendelli e Wladimir Vaz)

[Um livro por semana 609]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

«Jorge de Sena Aqui no meio de nós» de Fernando J.B. Martinho



Este livro de Fernando J.B. Martinho (n.1938) tem 110 páginas, vai buscar o título à página 27 e nas suas quatro divisões aborda a figura de Jorge de Sena em paralelo com a sua Poesia. Logo na página 7 o autor cita Carlos de Oliveira que definia assim os escritores que contam «aqueles que acrescentam ou opõem alguma coisa ao que já existe ou o exprimem de maneira diferente.» Fernando J.B. Martinho é das pessoas que melhor conheceu Jorge de Sena (1919-1978) como se lê na página 23: «Vivi três anos em Santa Bárbara, na Califórnia. Morei num apartamento em Isla Vista, perto da Universidade e do Pacífico. Foram três anos cheios e frutuosos. Era Leitor de Português no Departamento de Espanhol e Português da Universidade onde, desde 1970, Jorge de Sena ensinava. A casa de Sena, em Goleta, ficava a dez minutos de carro. Foram muitas as horas que passei na Randolph Road, em conversas informais na ampla sala onde esteva a Biblioteca, em chás com torradas e compota de lima ao serão, antes de voltar a casa, com a Joana e a Rute.»
O autor define esta Poesia na páagina 42: «sempre a Poesia de Sena soube dialecticamente combinar  a disciplina e o excesso, a ordem e o tumulto, o clássico e o moderno».  Noutro passo explica como, diferente de Régio ou Torga, Sena escreve uma Poesia sem Teatro: «Não há cenário nem há plateia. Não há espectáculo. Não há confessionalismo. O que em seu lugar temos é uma desesperada descida às funduras da alma humana».
Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e tradutor, Sena é acima de tudo Poeta como no  auto-retrato publicado no volume «Peregrinatio ad Loca Infecta»: «Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos / mágoas, humilhações, tristes surpresas / e foi traído e foi roubado e foi / privado em extremo da justiça justa / e andou terras e gentes conheceu / os mundos e submundos; e viveu / dentro de si o amor de ter criado; / quem tudo leu e amou quem tudo foi / não sabe nada nem triunfar lhe cabe / em sorte como a todos os que vivem. / Apenas não viver lhe dava tudo / Inquieto e franco, altivo e carinhoso / será sempre sem pátria/ E a própria morte / quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.»

(Editora: Colibri, Foto: Fernando Bento, Capa: Raquel Ferreira, Editor: Fernando Mão de Ferro)

[Um livro por semana 608]

domingo, 20 de janeiro de 2019

«Uma noite com o fogo» de António Manuel Venda



O segundo título do livro é «Serra de Monchique, num dos grandes incêndios deste século» e ajuda a situar este volume de 159 páginas assinado por António Manuel Venda (n.1968) mas o texto da contracapa explica melhor: «O grande incêndio da Serra de Monchique, em Agosto deste ano, marcado pela polémica sobre a actuação dos inúmeros meios disponibilizados para a zona, não foi uma novidade. No início deste século, a mesma serra já tinha sido invadida pelo fogo de uma forma avassaladora. Este livro, cuja primeira edição foi publicada há nove anos, conta uma das noites da tragédia em 2003, mostrando como já nessa altura o combate às chamas parecia ser algo proibido na serra.»
O pano de fundo deste conflito é antigo na sociedade portuguesa. Desde sempre existiu uma clivagem, uma divergência, uma ruptura, entre as Cidades e as Serras, a Corte e o Campo, o Urbano e o Rural. No ano de 2003 além da Serra de Monchique ardeu 90 por cento da mancha florestal de Vila de Rei, morreram perto de vinte pessoas mas o assunto não foi muito tomado a sério. A chamada «agenda política» esteva voltada para outros campos, os campos de futebol que estavam a ser inaugurados em Agosto de 2003 já a pensar no Europeu de 2004.
Voltando à relação «Urbano-Rural», na página 13 identifica-se a Cidade com o Inferno: «O inferno uma cidade… Lembrei-me disso. Lembrei-me da minha ideia do inferno, a que tinha desde a infância, uma cidade moderna, muitos prédios, ou antes, com arranha-céus – talvez a expressão mais adequada para o caso.» Ao contrário da cidade (comboios, autocarros, bicicletas, automóveis) o campo é povoado por animais (escalavardos, gatos-bravos, raposas, coelhos, veados, texugos, javalis, aves) e por pessoas numa relação intensa com a Natureza: «Naquela aldeia ficava a casa onde tinha vivido a minha avó, onde a minha mãe tinha nascido, onde tinha crescido, onde tinha estado até ao seu casamento.» Noutra página se anota uma relação implícita entre a serra (a aldeia) e a vida (a avó) : «A minha avó a querer ir para a aldeia junto ao ribeiro, que não ficava a mais do que algumas centenas de metros se se continuasse a descer pela estrada de terra.» A avó surge como um símbolo da Terra e do seu eco-sistema, algo que foi destruído mas não morto. A ruptura, as costas voltadas, os dois mundos separados (Natureza e Cultura) estão sempre presentes, seja no ministro («o motorista para levá-lo para o remanso da capital»), seja no homem que dá ordens («Um homem que mandava nos bombeiros, três ou quatro políticos, uns técnicos de uma direcção qualquer») e, mais adiante, «dava ordens de copo de whisky na mão». Whisky em vez de medronho, a Cidade em vez do Campo, aí está (ou pode estar) o ponto da questão.

(Editora: On y va, Foto do autor: João Andrés, Paginação: João Paulo Fidalgo)

[Um livro por semana 607]



sábado, 12 de janeiro de 2019

«O Lápis Surdo sou eu» de Ramiro S. Osório



Ramiro S. Osório (n.1939) viveu em Paria 22 anos tendo regressado a Lisboa em 1984. Em Paris o autor deste livro foi aluno de Barthes e de Bruno Bettelheim que influenciaram a sua relação com a escrita ou, dito pelo próprio, «3 bês trouxeram água ao moinho da milha literatura». O autor estreou-se em 1976 com «Ramirosório superstrass» (Moraes Editores), livro entretanto publicado de novo em 2000 pela Editora & Etc.  Os 16 contos deste livro foram escritos em Paris e são dedicados «a todas as pessoas (crianças ou não) que nunca encontraram um dragão e à Susana que encontrou um». O Prémio da Associação Portuguesa de Escritores atinge com esta publicação a sua plena finalidade pois a edição anterior apenas integrava 8 dos 16 contos.
O usufruto deste livro é toda uma grande festa a juntar o texto e as ilustrações que não é possível reproduzir numa curta ficha de leitura. Como convite à leitura fica o conto «O lápis surdo»: «Quem é que terá tudo a triste ideia de pôr os animais a falar, nas histórias para crianças? – Não sei – escreveu a máquina de escrever, O lápis fez como se não tivesse ouvido a pergunta. Mas a máquina de escrever não tinha papas nas teclas. – Esse lápis é mudo! E surdo que nem uma porta! A porta não gostou do que ouviu. Escancarou-se toda, rangendo nos gonzos quanto podia. – As portas não são surdas! Porque é que dizem sempre «surdo que nem uma porta?  É mesmo uma ideia sem pés nem cabeça! Essa frase faz a ideia explodir. – Eu não tenho pés nem tenho cabeça! Nunca vi nenhuma ideia com pés ou cabeça! Pés e cabeça são coisa de que nós não precisamos! E, por entre toda aquela algazarra de tantos fala-barato, o lápis – surdo ao  diz-que-diz – continuava a correr mudo pela folha de papel, a correr mundo fora pela folha fora, cobrindo-a e palavras, beijos, palavras…»

(Editora: Sulfúria Edições, Apoio: Sociedade Portuguesa de Autores, Desenhos: Ramiro S. Osório)  
         
[Um livro por semana 606]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

«O todo ou o seu nada» de Amadeu Lopes Sabino



O título deste livro de Amadeu Lopes Sabino (n.1943) está num verso de Fernando Pessoa («Mensagem»)  e o conteúdo (231 páginas) faz o inventário completo, qualificado e circunstanciado de cinco décadas de relacionamento entre o autor e João Falcato. Este foi um homem de sete ofícios e esteve ao longo do seu tempo (1915-2005) em várias situações: marinheiro, náufrago, viajante, escritor, professor, jornalista e produtor de vinhos. Na página final o autor despede-se dele: «eternamente jovem , escoltado por Marta e por Maria, seguido por José, o neto e por outras e muitas gentes, por quantos nele acreditaram e por outros que três vezes o negaram , por discípulos e adversários, por associados e rivais, por meirinhos e juízes, pelos náufragos do Mello e pelos personagens de livros que escreveu, publicou, começou, idealizou e abandonou. Era um vate, um adivinho, um construtor de universos. Um prestidigitador. O todo e o seu nada. O meu mestre.»Embora referido como «romance» nas páginas de abertura, o autor define este livro como «biografia» e afirma «uma falsa biografia não é uma biografia falsa». Muito curiosa é a oposição entre dois escritores franceses que integram a educação sentimental do autor e do protagonista. Amadeu Lopes Sabino «mantinha desde os quinze anos uma relação íntima com Camus que nada iria abalar.» João Falcato tinha muito a ver com Malraux, o homem dos «percursos supostos e dos encontros fictícios.» Mas não trata apenas de Literatura este livro; há nestas páginas muito de História como por exemplo os navios interceptados ou abatidos no Atlântico durante a II Guerra Mundial: «Carvalho Araújo, João Belo, Cabo de São Vicente, Maria da Glória, Delães, Santa Irene, Quanza» ou seja e em resumo «Onze navios perdidos por acção dos beligerantes, uma centena de passageiros e tripulantes mortos». Voltando às Artes e às Letras, o livro regista a convivência do protagonista com poetas, ficcionistas, dramaturgos e pintores: Mário Cesariny, Vergílio Ferreira, José Régio, Sebastião da Gama, Fernando Namora, Júlio Resende – entre outros. Partindo da biografia de uma personalidade, o livro acaba por ser uma viagem no tempo português de 1915 a 2005. Na página 66 João Falcato queixa-se ao comandante local da GNR sobre o abandono das mobílias do seu domicílio conjugal. A resposta do graduado é: «Os ricos entendem-se sempre. A Guarda é para os pobres.» Sobre o livro inicial de João Falcato («Fogo no mar») vejamos a leitura de Jaime Brasil em O Primeiro de Janeiro de 14-3-1945: «Não há na literatura portuguesa depois da História trágico-marítima mais pungentes páginas a evocar a angústia dos naufrágios.» Leitor de Português em Munique durante pouco tempo, recorda um incidente no eléctrico a caminho da Universidade e no fim da viagem o jovem de vinte anos fala do passageiro: «O homem era um judeu. Há ainda muitos nesta terra. São inimigos da Alemanha. Se houvesse de novo ordem de matança eu matava alguns com prazer.» Mas o humor também está presente por exemplo na página 97: «Aos vê-los andar, tirar o chapéu, acender o cigarro, esperar que um carro passe para atravessar a rua, deter-se de esguelha para responder guturalmente à interpelação do estrangeiro, fico sempre a pensar onde estará o motor que aciona este mecanismo.»
 
(Editora: Bizâncio, Capa: Armando Lopes, Revisão: Sandra Pereira, Paginação: Ana Ribeiro)

[Um livro por semana 605]

domingo, 23 de dezembro de 2018

«Já perto dos anjos» de António Ferra



Depois dos poemas de «Dos livros levanta-se um pássaro» (2017), António Ferra (n.1947) publica a narrativa poética «Já próximo dos anjos» que tem como ponto de partida um interesse: «os habitantes daquele bairro num pequeno café / à noite / a beber cerveja logo a seguir ao jantar (…) Viam futebol num plasma enorme para o tamanho do café / parte dos olhos do magote projectados na pantalha / a outra parte dos olhos no Nada Absoluto.» O título do livro incorpora uma dupla inscrição: pode ser lido como uma estação do Metro de Lisboa (Anjos) ou um ser espiritual que se presume habitar no céu (anjos).
Na página 44 o autor apresenta-se: «(aqui há uns cem anos eu era capaz de escrever o mistério da lua em vez de o mistério da noite, já então expressão gasta. Mas desde que o satélite passou a ser um lugar comum, devassado, pálido e sem interesse, desromantizou-se o luar e os escritores tiveram de reinventar o céu.)» e conclui na página 34: «A minha literatura é amar a liberdade / rir-me das frases impotentes / é mijar quando me apetece sobre o poder intelectual do comércio.»
A organização do livro é explicada na página 12: «Os nomes das pessoas, as identidades, são fundamentais para se compreender o que se está a passar, como é o caso dos relatos ficcionais.» Um exemplo: na página 7 «Um utópico pediu-me que lhe pagasse um copo de branco» mas na página 13 já é «O gajo do copo com quem bebi vinho branco perto do Chile – Daniel Moreira Nunes – olhava de soslaio para Ermelinda Neves Afonso» e na página 15 surge de novo «aquele que bebeu um copo de branco comigo numa pastelaria perto do Chile» para mais tarde afirmar «As mãos são o grande enigma da Humanidade / são a parte visível da alma, a fonte máxima da criatividade.»
Tudo se resume afinal a um «diálogo surdo entre Eros e Tanatos» (o Amor e a Morte) como no poema da página 42, diálogo esse que «dura enquanto respiramos / perguntando sem dar por isso / porque se esconde Deus nos sacrários / onde se faz a cremação dos dias.» 

(Artes finais: Pedro Serpa, Capa, fotografia e ilustração: António Ferra, Foto: Anjo-manequim, Florença 2006)   
     
[Um livro por semana 604]

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

«Só o meu computador me compreende» de Fernando Venâncio


Fernando Venâncio (n.1944) regressa nestes «contos breves» ao seu livro anterior «Beijo técnico» - páginas abertas ao absurdo da vida. Um exemplo na página 49 deste livro: Bons conselhos: «Ele dizia-me. Toma tudo à letra. Mas não tomes tudo a sério.» Outro exemplo mas este da vida enquanto realidade: O presidente dos EUA viu o seu partido perder a maioria do Senado mas chamou no Twitter «dia glorioso» ao seu dia de derrota. É possível que alguém acredite no absurdo e na mentira. Ora o absurdo está mais perto de nós do que parece. Veja-se o texto da página 81: «Tinha o romance e só faltava o título. O programa leu o romance em seis segundos, talvez menos, e cuspiu, hierarquizados, oito títulos que garantiam fortunas. Escolheu o quinto. Gostou dele. A última viúva de Josino Fontes. Catita ao máximo. Um alexandrino perfeito. Na história não compareciam nem Fontes nem um Josino, muito menos viúvas dele. Mas também a peça de Ionesco não tinha cantora careca nenhuma e foi o êxito que se sabe.» Uma história talvez passada no país que Stefan Zweig considerou «o país do futuro» está na página 80: «Seis meses depois do golpe de estado, o ditador mudou de ideias. Arranjou um jornal, uma rádio, uma televisão, um portal na Internet e lançou-se a pregar a justiça social. Foi eleito presidente por tão extrema percentagem que a ditadura voltou. Democraticamente. E foi democraticamente que de novo houve um ditador. Sempre haviam dito que aquele era um país inviável.»        
Num tempo dominado pelas redes sociais («Pai, o que são redes sociais? – São redes, filha, em que a gente cai. – Mas sociais porquê? – Porque caímos todos juntos ») há quem perante a exclusão não compreenda nem aceite: «Diz então o meu amigo que se espanta de quem não tem conta no Twitter ou no Instagram. – Exacto, Faz-me confusão. Dá-me pena.»  O esplendor do absurdo pode estar  na página 97: «Desmontaram a Ponte sobre o Tejo. A tal. Essa mesma. Parafuso a parafuso, porca a porca, anilha a anilha, tudo foi habilmente retirado, numerado, encaixotado, armazenado.» O humor anda paredes meias com o absurdo. Vejamos o texto da página 30: «Quando lhe perguntavam o que fazia, informava que era linguista. Pensavam imediatamente e às vezes diziam que certamente falava um ror de línguas. Respondia que sim mas que o verdadeiro linguista não precisava de conhecer mais do que uma.»
Na página 30 um conto sobre a morte: «Quando o vi já sentado no metro, dei-me conta de que reparara nele, moço novo, a entrar, naquela estação do hospital. No rosto trazia toda a tristeza do Mundo. Foi nos anos oitenta, quando a sida era a morte já rondando.» Na página 31 um conto sobre a vida: «Ele sorria. Voltava a olhar o telemóvel e sorria. Estava-se no metro, cheio, mas só eu o observava. Ele continuava a sorrir. Era quase ofensivo, aquele sorriso de descarada felicidade.» Fernando Venâncio cita o título de Camilo Castelo Branco (Onde está a felicidade?) porque toda a literatura é uma homenagem à literatura.  

 (Editora: On y va, Foto do autor: J. Rentes de Carvalho, Ilustração: Rita Albuquerque, Paginação: João Paulo Fidalgo)

[Um livro por semana 603]

domingo, 2 de dezembro de 2018

«Deus nos valha o bacalhau!» de Fernanda Frazão e Luís Filipe Coelho



Este livro de 22 páginas só é pequeno na aparência pois nele se recolhem 53 receitas de bacalhau divididas em duas secções: Petiscos e Entradas (6) e A substância (47). Tendo nascido no ano de 1951 em Santa Catarina (Caldas da Rainha) a minha infância foi «habitada» em casa de minha avó materna por muito bacalhau trazido pelo armazenista de Alcobaça senhor Sebastião dos Santos Vazão. Era o mesmo bacalhau islandês que ainda hoje (2018) compro na Manteigaria Silva, em Lisboa, entre o Rossio e a Praça da Figueira.
Para que conste ficam na ficha de leitura duas receitas. A primeira na página 3 é «Bacalhau à taverneiro»: «Coze-se o bacalhau. Aquece-se uma travessa e guarnece-se o fundo com bom azeite., misturado com salsa, chalotas, alho e cebolinho picados, temperando com pimenta e noz-moscada ralada, lasquece-se o bacalhau por cima, ainda quente e regue-se com limão ou agraço.»
A segunda é «Bacalhau à marinheira» na página 10: «Cozido o bacalhau, depõe-se numa travessa com a água da cozedura, na qual se dissolve uma gema de ovo cozida, um alho esmagado e pimenta, juntando-se-lhe além disso azeite cru, vinagre e cebolinhas cozidas com o bacalhau.»
Fiquemos por aqui não sem antes lembrar uma conversa com José Quitério que explicava a paixão portuguesa pelo bacalhau com esta ideia: «O bacalhau só sabe bem com bom azeite e onde há bom azeite é em Portugal…»

(Editora: Apenas Livros, Colecção: Papoulas Gustativas)

[Um livro por semana 602]

domingo, 25 de novembro de 2018

«Uma casa é como uma árvore por dentro» de Luís Filipe Maçarico



O título deste livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) surge na página 42 no último poema deste volume de 54 páginas: «Uma casa é como / uma árvore por dentro / crescemos e somos raízes / emaranhamos pelas paredes / e das varandas abertas / chegam, desde a infância / o ar o vento e o sol / que são a seiva dos dias.»
O ponto de partida é a casa da Praça da Armada: «Na implacável contabilidade / das noites onde envelheço / à janela das velha casa / entre as brisas de Junho / e os nevoeiros de Dezembro / permaneço.»
O ponto de chagada é Almada em «O meu novo quarto»: «O meu novo quarto / tem o dobro do espaço / daquele onde dormi / sessenta e três anos.»
Pelo meio surgem as diversas viagens. Seja no Elevador do Lavra (‘Há um jardim suspenso / no cimo e cúpulas de luz /sobre velhos prédios») seja no eléctrico 19 («Escutar sensualildades / desfrutar o sabor / dos vocábulos / no prazer das frases /murmuradas / enquanto a cidade cintila») seja o Cais do Sodré: «Eis o caminho a sombra / os passos o destino / varres sonos sobre marés.»
Mas outras viagens podem ser fora do país como Tozeur («Tomoko é o melro / de Yokohama / no café da manhã») como Jerba («O meu amigo diz-me / que o verdadeiro muçulmano / procura a paz/ encontrando no Corão / um bálsamo / para os males do Mundo» ou dentro do país m Alpedrinha: «Entro na manhã / que espalha jorros de luz / sobre a terra verde das / árvores nuas.»    
O conjunto ide 54 páginas inclui quatro páginas de «Impressões» assinadas por Maria Alberta Menéres, José Gomes Ferreira, Mário Castrim, Albano Martins, Eugénio de Andrade, Álvaro Cunhal, Carlos Fernandes, Fernando Paulouro Neves, Mohamed Loffi Chaibi, Paula Cristina Lucas, José do Carmo Francisco, Salem Omrani, Isabel Mendes Ferreira, Manuel Frexes, Ana Machado, Miguel Rego, Margarida Almeida Bastos, Maria Antonieta Garcia e Suso Sudón.

(Prefácio: Eduardo Olímpio, Fotografia: Maria Clara Amaro, Capa: Marta Barata)

[Um livro por semana 601]