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terça-feira, 9 de junho de 2020

Saudação breve a Ana Carolina


Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos a fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras por fim encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal, sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tu não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa, oh! Ana Carolina tu não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo, naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer, um anúncio de vida e de alegrai contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de júbilo. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.      

[Crónicas do Tejo 239]

(Óleo de Gary Melchers)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Crónica sobre uma aguarela de Joan Sutherland



Primula Integrifolia é o seu nome e consta no original da aguarela por si assinada. Sei que os botânicos, os pintores e os arquitectos paisagistas sabem sempre os nomes latinos das flores. Faz parte do seu trabalho porque cada ofício e profissão tem as suas palavras exactas, precisas e perfeitas. Minha filha Marta que vive e trabalha em Sydney (Austrália) soube dizer de imediato que esta flor em concreto é oriunda da zona dos Pirenéus Atlânticos. No seu caso tenho a ideia de ter visto um exemplar da flor no seu jardim nos arredores de York em Inglaterra mas o que me interessa é o rigor do traço, as linhas perfeitas, o recorte exacto das cores, o equilíbrio de todos os componentes na sua aguarela. Não por acaso seu filho Ian desenha tão bem e ganhou prémios como arquitecto na cidade de Londres. Seus netos Thomas e Lucas, apesar de serem jovens, já vão no bom caminho como seus discípulos. O meu orgulho de avô em comum é ver os nossos netos a desenharem tão bem apesar da sua idade, treze e oito anos. Pela minha parte acresce o pormenor de ainda ontem (10 de Agosto de 2019) o comissário de bordo no avião que liga Lisboa a Londres ficou encantado com o emblema do Sporting Clube de Portugal a verde na camisola branca do nosso neto Lucas. Tal como há alguns anos atrás em pleno parque de Greenwich junto ao Tamisa (o Tejo de Londres) algumas pessoas gostaram da camisola verde o Thomas, o nosso neto mais velho com estas palavras muito próprias para um lugar como Greenwish Park – «Sporting since 1906». Por simples curiosidade vejo que esta planta tem efeitos positivos em seis campos: anti-inflamatório, defesa do sistema imunológico, na pele, nas cólicas, nas funções hepáticas e no controle emocional.  Nada acontece por acaso, é o que fico a pensar, caríssima comadre.  
      
[Crónicas do Tejo 196]

domingo, 20 de janeiro de 2019

«Uma noite com o fogo» de António Manuel Venda



O segundo título do livro é «Serra de Monchique, num dos grandes incêndios deste século» e ajuda a situar este volume de 159 páginas assinado por António Manuel Venda (n.1968) mas o texto da contracapa explica melhor: «O grande incêndio da Serra de Monchique, em Agosto deste ano, marcado pela polémica sobre a actuação dos inúmeros meios disponibilizados para a zona, não foi uma novidade. No início deste século, a mesma serra já tinha sido invadida pelo fogo de uma forma avassaladora. Este livro, cuja primeira edição foi publicada há nove anos, conta uma das noites da tragédia em 2003, mostrando como já nessa altura o combate às chamas parecia ser algo proibido na serra.»
O pano de fundo deste conflito é antigo na sociedade portuguesa. Desde sempre existiu uma clivagem, uma divergência, uma ruptura, entre as Cidades e as Serras, a Corte e o Campo, o Urbano e o Rural. No ano de 2003 além da Serra de Monchique ardeu 90 por cento da mancha florestal de Vila de Rei, morreram perto de vinte pessoas mas o assunto não foi muito tomado a sério. A chamada «agenda política» esteva voltada para outros campos, os campos de futebol que estavam a ser inaugurados em Agosto de 2003 já a pensar no Europeu de 2004.
Voltando à relação «Urbano-Rural», na página 13 identifica-se a Cidade com o Inferno: «O inferno uma cidade… Lembrei-me disso. Lembrei-me da minha ideia do inferno, a que tinha desde a infância, uma cidade moderna, muitos prédios, ou antes, com arranha-céus – talvez a expressão mais adequada para o caso.» Ao contrário da cidade (comboios, autocarros, bicicletas, automóveis) o campo é povoado por animais (escalavardos, gatos-bravos, raposas, coelhos, veados, texugos, javalis, aves) e por pessoas numa relação intensa com a Natureza: «Naquela aldeia ficava a casa onde tinha vivido a minha avó, onde a minha mãe tinha nascido, onde tinha crescido, onde tinha estado até ao seu casamento.» Noutra página se anota uma relação implícita entre a serra (a aldeia) e a vida (a avó) : «A minha avó a querer ir para a aldeia junto ao ribeiro, que não ficava a mais do que algumas centenas de metros se se continuasse a descer pela estrada de terra.» A avó surge como um símbolo da Terra e do seu eco-sistema, algo que foi destruído mas não morto. A ruptura, as costas voltadas, os dois mundos separados (Natureza e Cultura) estão sempre presentes, seja no ministro («o motorista para levá-lo para o remanso da capital»), seja no homem que dá ordens («Um homem que mandava nos bombeiros, três ou quatro políticos, uns técnicos de uma direcção qualquer») e, mais adiante, «dava ordens de copo de whisky na mão». Whisky em vez de medronho, a Cidade em vez do Campo, aí está (ou pode estar) o ponto da questão.

(Editora: On y va, Foto do autor: João Andrés, Paginação: João Paulo Fidalgo)

[Um livro por semana 607]



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pedrógão Grande e Tancos - os plurais são sempre um abuso


É conhecida a história de três alfaiates ingleses que assinaram uma petição à sua rainha lá pelos idos de 1500. O texto começava com um abusivo «nós, o povo inglês» o mesmo é dizer «we, english people» mas o abuso está no plural. Tudo isto tem a ver com o fogo de Pedrógão Grande e as munições de Tancos. Não ´é preciso ter muitos contactos para receber mensagens SMS ou EMAIL utilizando um abusivo plural para dar conta da revolta individual e copiada perante os factos. Sintomático é que algumas das mais incendiárias notícias sobre o fogo de Pedrógão Grande foram assinadas por um pseudónimo de um jornalista espanhol. Quando procuraram saber quem era o «artista» a chefe de redacção referiu com todo o desplante que é normal em Espanha as notícias serem assinadas com pseudónimo. Enfim trata-se de uma pacalaia como se diz na minha terra. Quanto ao dito assalto às munições de Tancos foi por acaso num jornal espanhol que apareceu uma lista supostamente completa ou inventada do material bélico roubado. Claro que isto é um esquema tal como é esquema o artigo a comparar o fogo no Sul de Espanha com o fogo do Centro de Portugal. Os demagogos falam no plural e comparam o que não tem comparação. É como comparar os fogos daqui com os da Califórnia nos EUA. Este tratamento sobranceiro dos espanhóis e o sublinhar canino deste lado da fronteira faz-me lembrar a história da letra que todos os meses era enviada para cobrança num banco de Madrid. Essa letra era avalizada por um Banco, o mesmo é dizer dinheiro em caixa. Quando no BPA começámos a perceber que o crédito em conta só surgia no dia seguinte demos início a uma tentativa de sermos ressarcidos dos juros mas ao fim de muito tempo com cartas, telegramas e telexes veio uma resposta taxativa e plural: «Es una prática de nosostros».

(Vinte Linhas 1694)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

«Há vozes no Charco» de Raul Malaquias Marques e Pierre Pratt


Paisagem e povoamento, já o lembrava Carlos de Oliveira. Tudo nesta história começa com a paisagem: «Não é grande este charco. Podia ser maior, é verdade. Mas, assim como está, está bem. Fosse ele maior, havia logo de vir alguém chamar-lhe lago…» Segue-se o povoamento: além dos simpáticos vizinhos da herdade, no charco existem rãs, um boi e um menino (o Quim) que guardou uma rã na taça de vidro onde a mãe costuma fazer a mousse de manga. Passada uma semana a rã acabou por regressar ao charco, levada pelo menino Quim.
O biólogo que estuda o charco e que conta esta história está preocupado porque se anuncia a construção de uma grande estrada que poderá vir a arrasar o charco: «Os senhores do projecto são categóricos. Dizem eles que nenhum desvio é possível. Não é possível porquê? Não o disseram.»
A história continua porque as vozes do charco são também as dos leitores que o autor convida a manifestarem-se não contra a estrada mas contra o facto de a estrada poder vir a arrasar o charco. Dai as palavras finais: «Vocês vêm comigo? Podemos marcar já o dia?»
Na última página se explica como este livro é «carbonfree» pois para o editar foi preciso cortar árvores e gastar energia para produzir o papel no qual o livro foi impresso. Para compensar as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, a APCC em colaboração com a Ecoprogresso apoiaram um projecto de energia limpa através do calor gerado numa indústria, evitando a emissão de dióxido de carbono por combustíveis fósseis.
(Editora: APCC, Revisão: Clara Boléo, Design: Raquel Castelo)

(Um livro por semana 555)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

«BioAromas à Mesa» de Rui Lopes, Fernanda Delgado, Conceição Marçal e Eduardo Miguel



Este livro de 156 páginas, com a colaboração especial de Sónia Tomé e Edite Fernandes, é a memória justificativa do projecto que teve início no ano lectivo de 2007/2008 na Escola Básica e Secundária Pedro da Fonseca (Proença-a-Nova) destinado a alunos com necessidades educativas especiais. A finalidade é que os jovens possam «adquirir competências e conhecimentos na realização das tarefas em contexto de trabalho prático, de modo a poderem ingressar, um dia, no mercado de trabalho com alguma experiência e autonomia.» Eles são: André Filipe, Francisco Farinha, Hugo Branco, Sara Cardoso, Soraia Sequeira, Jacinta Fernandes, Ana Ferreira, Davide Lopes, Jéssica Martins, Inês Sequeira, Francisco Tavares, Camila Inácio, Rafael Venâncio e Beatriz Gonçalves. Passada a fase das bolachas, compotas, bombons, bolos, tartes e salgados, foram organizadas seis oficinas gastronómicas: «Os ingredientes da região», «Uma erva por prato», «Ingredientes emblemáticos com CH», «Na cozinha vegetariana», «O mundo dos arrozes» e «Leguminosas». Graça Mafalda e Cristina Dias são parceiros do projecto como Felismina Rodrigues, Isabel Gaspar e Luís Sequeira da Câmara Municipal de Proença-a-Nova cujo viveiro tem sido o espaço das actividades: «sementeira, estacaria, cultivo, corte, recolha, secagem e embalamento». As receitas são variadas e englobam peixe, carne, leguminosas, arroz, saladas, bebidas, sobremesas, doces, infusões, tisanas e chás. A título de exemplo registamos a receita da página 78: Frango do campo perfumado com lúcia-lima: «Comece por limpar bem o frango de vísceras e gorduras, preservando ao máximo a pele. Tempere com um pouco de sal e barre muito bem com a mostarda. Deixe repousar por cerca de 30 minutos. Pré aqueça o forno a 180º C. Coloque o frango num tabuleiro de forno, coloque os dois limões picados com um garfo na cavidade do frango, junte aos limões um ramo de lúcia-lima e coloque no forno até estra assado. Deve regar ou borrifar com u pouco de água a cada 15 minutos para que não seque demasiado. À parte pode preparar um molho de manteiga e sumo de limão para ir regando o frango.» As fotografias são magníficas mas a arte final do livro fica prejudicada pelo aborto ortográfico que dizimou parte do texto das receitas. Por outro lado, o uso dos advérbios de modo torna o texto mais pobre. Há páginas cujo número não aparece embora referido no índice: 9, 11, 13, 29, 41, 57, 109, 119, 121, 141, 149, 151, 153, 155. Na página 37 surge 2 águas em vez de 2 garrafas, na página 41 será «o chícharo consome-se cozido», na página 45 deverá ser «rectificando de sal se necessário», na página 58 em «ovo-lacto-vegetariano» surge um espaço a mais, página 71 será Índico (região do Globo) e não indico (verbo indicar), na página 81 repete a palavra (cariz agrícola, produtos agrícolas), na página 85 «lentilha, grão, fava e soja» serão leguminosas e não feijões, na página 110 falta parêntesis antes de «o linol», na página 110 surge «A manjerona é usada uma planta perene usada como erva», na página 111 faltam vírgulas a seguir a «possuem» e «cicatrizante», na página 113 faltam vírgulas a seguir a «sementes», na página 116 deverá ler-se «as folhas frescas ou secas, inteiras ou moídas» e não «As folhas frescas e secas. Inteiras ou moídas», na página 116 surgem 6 vezes as palavras usado ou usadas, na página 119 há reticências em excesso. «Golpada», «generoso», «reserve» , «espinhar» ou «treliça» poderiam ter figurado num glossário. (Editora: Livros do Corvo, Desenhos e fotografias: Alunos do Projecto Escola BioAromas, Capa e paginação: Carlos Vasconcelos, Revisão: Rita Lavos).  
   
(Um livro por semana 554)