José
Mário Silva (n.1972) é jornalista, crítico literário, tradutor, poeta
ficcionista e organizou a antologia «Os cem melhores poemas dos últimos cem
anos». Este é o seu sexto livro. Reúne 27 ficções e um texto no qual Adelaide
Candeias expressa a sua revolta porque numa das ficções («Como desenhar um
quadrado») surgem referências que lhe parecem atentatórias do seu «bom nome» e
da «verdade» e também porque foi condenada ao anonimato – coisa que não pode
admitir e daí o seu recurso a um Direito de Resposta como nas Cartas ao
Director dos jornais. É aqui que bate o ponto: na ficção da página 33 o autor organiza
fichas biográficas de desportistas locais ocupando as páginas do Jornal Gazeta
da Cadrafil cujo director (Amílcar Candeias) é definido como «insigne»,
«exemplar», «notabilíssimo», «venerável» e «distinto» enquanto o Jornal é
«conceituadíssimo». Os atletas são Elias Fagundes, Miquelina Marques, Xavier
Toledo, Alzira de Sousa Machado e os próximos são Tibério Moreno, Salvador
Tolentino, Pedro Barreirinhas, Valentina Sobral, Conceição Farinha, Catarina
Nepumoceno, Samuel Tenreiro e Anabela Candeias. Esta ficção em particular
coloca o problema do pó e da posteridade. Neste caso é Cadrafil, uma localidade
alentejana que fica «por trás do sol-posto» e é conhecida «pelo queijo de
ovelha, pelos tapetes e pelo azeite» mas, ao mesmo tempo, por «um cultura
desportiva que pede meças a muita cidade desenvolvida». Este livro de 159
páginas (Editora Parsifal, capa de Pedro Gil, foto de Inês Bernardo) afirma-se
como um digno sucessor da «Miscellanea» de Miguel Leitão de Andrada (1629) de
«Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (1882) e de «O aprendiz de Feiticeiro»
de Carlos de Oliveira (1971). Há uma mistura feliz de vários mundos, vários
tempos, vários registos de estilo. Ou como Almeida Garrett queria vem «falar
verdade a mentir». Nota – este livro foi apresentado quando em Copenhaga o
treinador afastava Cristiano Ronaldo, um técnico conhecido por dizer a jogadores
no Restelo «vocês três façam um quadrado». JCF
domingo, 11 de outubro de 2026
JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO
sábado, 10 de outubro de 2026
Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)
Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)
Na
sequência de outros dois livros sobre a vida do Clube (1989, 1999) Carlos Lobão
(n.1959) assina este volume de 293 páginas que celebra os 50 anos da
colectividade. A escolha deste autor acaba por ser óbvia para a «Comissão dos
50 anos do Futebol Clube dos Flamengos». Natural da freguesia, com uma notável
carreira de futebolista (1973-1987) e de treinador de futebol (1989-2004),
junta ao percurso desportivo a Licenciatura, a Pós-Graduação, o Mestrado e o
Doutoramento em História, sendo autor de duas dezenas de trabalhos publicados
no âmbito da História Local. O livro é um meticuloso registo de actividades do
Clube que, embora tenha a palavra Futebol no seu nome integra outras
actividades desportivas e culturais ou recreativas: Filatelia, Jornal, Conjunto
Musical, Folclore, Futebol Feminino, Futsal, Veteranos, Caderneta de Cromos,
Andebol, Ciclismo, Damas, Futebol de Salão, Hóquei em Patins, Voleibol e Rally Paper.
A narrativa recorre com frequência aos jornais: Correio da Horta, Horta
Desportiva, O Telégrafo ou Diário Insular. A página 105 refere o Hino do FCF da
autoria de Manuel Correia Gaudêncio e Albino Garcia: «Pelo Vale ecoa o
grito/Duma esperança a florescer/Entre a bola e o apito/Faz-se novo o velho
dito/Saber ganhar e perder!//Com coragem, Juventude/Aos Flamengos vamos
dar/Nova vida e mais saúde/No desporto a praticar.//Caminhando p´rá vitória/Somos
a força em corrida/Nova luz na nossa história/E, dos Flamengos, a glória/Em
cada nova partida!». Albert Camus (1913-1960) Prémio Nobel da Literatura em
1957 afirmou dever ao Futebol tudo o que sabia sobre a Moral e as obrigações
dos homens. Ele foi guarda-redes da equipa Universitária de Argel. De facto uma
equipa de futebol é uma escola de virtudes, um palco de sonhos, uma gramática
do Mundo. Não é por acaso que muitas equipas da primeira divisão inglesa
nasceram em paróquias ou em pubs – algo que se pode traduzir por taberna (no
espaço rural) ou café (no espaço urbano). Numa equipa de futebol o todo é
sempre mais que a soma das partes. JCF
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA
SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA
Com
selecção, tradução e notas de Manuel Simões (ex-professor em diversas
Universidades italianas), este livro de 143 páginas é uma edição que inclui
poemas de seis livros e alguns dispersos desta «voz obstinada e generosa de um
dos maiores poetas do nosso tempo» - segundo a apresentação do tradutor.
Salvatore Quasímodo, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1959, traduziu
Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Catulo, Ovídio, Virgílio, Moliére, Shakespeare,
E.E. Cummings e Pablo Neruda. Organizou duas antologias de poesia italiana e
publicou vários livros de ensaios. O seu poema mais conhecido é «A sombra dos
salgueiros» do livro «Dia após dia»: «E como podíamos nós cantar/com o pé
estrangeiro sobre o coração,/entre os mortos abandonados nas praças/sobre a
erva dura de gelo, ao lamento/balido das crianças, ao uivo negro/da mãe que ia
ao encontro do filho/crucificado no poste do telégrafo?/À sombra dos
salgueiros, como ex-votos/também as nossas cítaras pendiam,/oscilavam leves ao
triste vento». Há um poema que recorda o maior massacre de civis em Itália no
Outono de 1944 por parte das tropas nazis: «Epígrafe para os caídos de
Marzabotto – Os mil oitocentos e trinta do planalto/fuzilados e queimados/por
obscura crónica camponesa e operária/entram na história do mundo/com o nome de
Marzabotto». Outro poema é dedicado à memória dos sete irmãos Cervi,
agricultores da Emília Romagna que foram capturados e fuzilados pelos fascistas
em Dezembro de 1943: «Mas eu escrevo ainda palavras de amor/e também esta é uma
carta de amor/à minha terra. Escrevo aos irmãos Cervi/não às sete estrelas da
Ursa: aos sete emilianos/dos campos. Tinham no coração poucos livros,/morreram
jogando dados de amor no silêncio./Não conheciam soldados filósofos
poetas/deste humanismo de raça campesina./O amor e a morte num túmulo de névoa
pouco fundo». Ficamos com uma ideia mas nada substitui a leitura do livro em
boa hora editado num registo bilingue. (Edições Fantasma, Capa: Eva Hiernaux,
Paginação: Carlos Ramos) JCF
terça-feira, 29 de setembro de 2026
MISS SHERCLIFF NO PAÍS DE SALAZAR - novo livro de Wilton Fonseca Gonçalo Pereira Rosa
MISS SHERCLIFF NO PAÍS DE SALAZAR - novo livro de Wilton Fonseca Gonçalo Pereira Rosa
Com
o subtítulo de «As aventuras de uma jornalista inglesa em tempos de guerra e de
paz» este livro de 329 páginas (Editora Âncora, prefácio de Joaquim Letria,
capa de Sofia Travassos) é a biografia de Josephine Alfreda Lilly Shercliff
(1902-1985), una mulher a quem Salazar chamava «a senhora inglesa» e Mário
Soares e Raul Rego chamavam «a nossa miss». Na página 12 há um resumo: «Esteve
nas tricheiras da Guerra Civil Espanhola, visitou a Linha Maginot que deveria
ter contido os exércitos de Hitler, fugiu à pressa da França ocupada e chegou
um dia a Lisboa com a intenção de de emigrar para os Estados Unidos. Ficou
entre hordas de refugiados e nunca mais partiu». Um aspecto curioso do livro é
que a jornalista (a quem ofereceram em Inglaterra aos seis anos de idade a
assinatura de um jornal) esteve sempre atenta aos momentos políticos de
Portugal e em 1963 (por exemplo) refere as prisões de Alexandre Cabral (contista
e estudioso de Camilo Castelo Branco) Alberto Ferreira («Seara Nova») e Alves
Redol (vencedor do Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências). No mesmo
ano a sua atenção incidiu sobre outras prisões: Pedro Alvim («Diário de
Lisboa»), Fonseca e Costa (cineasta), Vasco Vieira de Almeida (quadro superior
do Banco Português do Atlântico), Vasco Granja (crítico de cinema), Rogério
Paulo (actor) e Miguel Torga (escritor e médico). Na página 150 recorda-se um
diálogo em Paria entre um jornalista local e o embaixador Marcelo Matias:
«Quando é que os portugueses vão deixar Goa? – Não a vamos deixar». Mais do que
o percurso pessoal e profissional de Miss Shercliff este é, ao mesmo tempo, um
grande inventário do tempo político português que lhe foi dado viver entre 1940
e 1985. JCF
domingo, 20 de setembro de 2026
Simon Critchley - EM QUE PENSAMOS QUANDO PENSAMOS EM FUTEBOL
Simon Critchley - EM QUE PENSAMOS QUANDO PENSAMOS EM FUTEBOL
Depois
de ter publicado na mesma editora «O livro dos filósofos mortos» Simon
Critchley (n.1960) apesar de ser professor de filosofia abre o seu livro sobre
Futebol com as palavras de um jogador (Johan Cruyff) que afirmou «jogar futebol
é muito simples mas jogar futebol simples é a coisa mais difícil que existe».
Mais tarde disse: «Nunca vi um saco de dinheiro marcar um golo». Declara o
autor na página 31: «O futebol é a minha paixão de toda a vida, é uma da poucas
coisas que se pode dizer que uniram esta vida e ligam às vidas de outros alguns
que me estão próximos como o meu pai e o meu filho». O autor confessa não ser
um neutro: «Toda a minha família veio do Liverpool e fui criado numa devoção
fanática do Clube (Liverpool Football Club) e numa crença de que a minha equipa
não era apenas muito boa mas que os seus fãs eram especiais e a sua cultuira
única». Depois cita um artigo de 25-4-07 no qual Barney Ronay afirma: «A maioria dos Clubes da Premiership
tem as suas raízes numa igreja ou num pub local». Este livro está povoado por
jogadores especiais – Zinedine Zidane, Roberto Baggio, Paolo Maldini, Thierry
Henry, Andrea Pirlo, Andrés Inierts e não só. A palavra Futebol em si tem uma
dupla inscrição tanto soccer usada nos EUA como football association usada no
resto do Mundo apela para socius, termo latino que tem a ver com «livre associação
de seres humanos». O autor manifesta-se agradecido a vários escritores que bem
escreveram sobre Futebol: Eduardo Galeano, David Goldblatt, Paul Simpson, Uli
Hesse, Simon Kuper, Jonathan Wilson, Barry Glendinning ou Barney Ronay já antes
citado e que explica melhor a sua ideia: «Isto é um resposta à ideia
tatcheriana de que não existe algo que se possa chamar sociedade». A páginas
tantas aparecem saudades dos grandes treinadores do Liverpool: Billy Shankly,
Joe Fagan, Roy Evans, Kenny Dalglish, Gerard Houlier, Rafa Benitez ou Bob
Paisley. Conclusão possível:« O futebol não é apenas sobre vencer. Normalmente é
sobre perder. Tem de ser». Edições 70, tradução Jorge Pereirinha Pires, capa
Susana Villar, revisão Joaquim E. Oliveira. JCF
domingo, 13 de setembro de 2026
Em resumo 68 (Ruslam Botiev o artista de Alfama veio da Mongólia)
Em resumo 68
Ruslam Botiev o artista de Alfama veio da Mongólia
Lá pelos idos de 1982 o
professor Jacinto do Prado Coelho (1920-1984) disse-me à porta do seu gabinete
na Fundação Gulbenkian: «Você com os artistas não vi ter problemas mas tenha
muito cuidado com os figurões!». Só muito mais tarde percebi que à volta dos
artistas circulavam alguns figurões a tentar sacar o máximo fazendo um
investimento mínimo. Conheci fulanos que obtinham das tipografias dois
orçamentos para a publicação de um livro mas um tinha os dados correctos e o
outro estava com valores em duplicado. O figurão dizia ao artista que pagava
metade da despesa na tipografia mas quem pagava tudo era o artista. Porque a
factura respeitava o orçamento original que o figurão tinha guardado na sua
gaveta. Passava por benemérito mas era um explorador da boa-fé dos artistas. Um
poeta esteve doze anos sem publicar e e embarcou nessa aventura porque sentia a
falta de ver um livro seu na montra das livraria. Ruslam Botiev é outra coisa,
é um artista. O desenho que fez a propósito da primeira crónica do meu livro «O
passado é para sempre» (Editora On y va) é um trabalho notável sobre a Praça de
São Marcos em Veneza, onde pela primeira vez na vida, vi «música» ao lado de
café e de gelados na factura do famoso café Florian. Um dia no seu atelier
frente à igreja de São João da Praça em Alfama disse-lhe que ele era uma pessoa
especial. Sorriu e respondeu: «Espacial era o meu irmão que foi um dos
cosmonautas da equipa de Yuri Gagarin. O irmão de Ruslam Botiev morreu há
poucos anos com o COVID 19; já Yuri Gagarin viveu entre 1934 e 1968 mas ficou
na História porque foi o primeiro homem a viajar no Espaço. Esta crónica é uma
maneira modesta de dizer obrigado. A vida não é só feita de lágrimas e de
sangue pisado; este desenho é uma maravilha e nasceu da leitura de uma das
minhas crónicas. Já ganhei o dia.
José do Carmo Francisco
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
GUERRAS E PAZ de JOSÉ MANUEL JARA (segunda edição)
GUERRAS E PAZ de JOSÉ MANUEL JARA (segunda edição)
Com
o subtítulo de CARTAS POLÉMICAS, este livro de José Manuel Jara (n.1949) reúne
em 126 páginas um conjunto de 103 cartas enviadas ao Director do Jornal
«Público» de Lisboa com um arco temporal entre 14 de Abril de 1999 e 3 de Abril
de 2026. (Editora Página a Página, capa de Afonso Santos, prefácio de José
Goulão) . A página 17 reproduz uma página publicada no «Público» de 7 de
Fevereiro de 2026 com uma reflexão sobre as diferenças entre censura e
critérios editoriais. Nela o autor queixa-se de um problema «nas últimas
semanas o catavento epistolar tem deixado passar com mais facilidade o que
sopra da direita ou do centro- esquerda, não da esquerda». O prefácio assinala
na página 8 os conflitos na Ucrânia, na Síria, no Afeganistão e na Líbia além
da Venezuela, Cuba, Palestina e Irão, sublinhando o facto de «os poderes políticos
e militares portugueses terem cedido a Base das Lajes à potência agressora de
um país que tem relações normais com Portugal e que em nada ameaçou ou ameaça
os portugueses». Na página 56 a carta lembra que o regime ucraniano implantado
em Fevereiro de 2014 resultou de um golpe de Estado no qual os vencedores instalaram
um regime hostil à população russófona no plano linguístico, político e
racial». Em 1977 um aluno finalista de História da Universidade de Chicago
perguntou ao escritor argentino Jorge Luís Borges «quem é Napoleão». Em 1979 um
estudante da Universidade de Iwoa City perguntou à professora Ermelinda Galamba
se «Namíbia e Líbia são a mesma coisa». Além de tudo o mais, este livro ajuda a
responder a essas duas perguntas. JCF
terça-feira, 8 de setembro de 2026
OS NARCÓTICOS (Volume 2) - miscelânea de Camilo Castelo Branco
OS NARCÓTICOS (Volume 2) - miscelânea de Camilo Castelo Branco
Na senda de outras miscelâneas como a anterior de Leitão de Andrada (1629) ou a posterior de Carlos de Oliveira (1971). a primeira como MISCELLANEA e a segunda como O APRENDIZ DE FEITICEIRO, este volume 2 de OS NARCÓTICOS de Camilo Castelo Branco tem 234 páginas, inclui Notas Bibliográficas, Históricas Críticas e Humorísticas e já teve desde 1882 várias reedições – 1920, 1958, 1993 e 2008. De uma carta escrita na Índia pela Marquesa de Távora aos filhos se pode ler: «Isto, meus filhos é um continuado desassossego; porque aqui não há paz que persista nem o Estado a tem mais, que com o rei do Canará e de Sonda porque nenhum destes é capaz de fazer guerra ao Marata». Na página 11 Camilo (ele mesmo) escreve « Os livreiros do Brasil operam as suas contrafacções movidos dum pensamento chão, correntio e singelo: roubar-nos. Eles não desejam definitivamente que os escritores portugueses desanimem e vão para o Brasil alistar-se em maltas que medrem no latrocínio: pelo contrário, ambicionam que a pobreza nos aguilhoe e force a escrever muito, para eles, como pregoeiros da nossa fecundidade, possam continuar a roubar-nos e encher-nos de edições e glórias transatlânticas. A glória! Que mais queremos nós?». Duzentos anos depois do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825) aqui está um livro especial como afinal são todos os deste notável autor. Editora Bonecos Rebeldes, capa de Fernando Martins, revisão de António Bárcia. JCF
terça-feira, 1 de setembro de 2026
FASTIGÍNIA de Tomé Pinheiro da Veiga
FASTIGÍNIA de Tomé Pinheiro da Veiga
Com edição, estudos, variantes e notas de Ernesto Rodrigues (n.1956), este livro de 752 páginas (Edição Letras Lavadas, capa Museu Diocesano de Valladolid) é o resultado de um trabalho de investigação que Ernesto Rodrigues dedicou desde 1988 à obra de Tomé Pinheiro da Veiga (1566-1656) - «mais de meia vida» nas palavras do próprio que completa a frase de modo esclarecedor: «foi um prazer». Este trabalho é uma segunda edição, revista e aumentada, da edição de 2011 que, por sua vez, celebrava o centenário da edição de Sampaio Bruno ainda com o título de «Fastigímia». Esta edição actual parte de 17 manuscritos – 13 em Portugal e os outros em Madrid, Paris, Londres e Bloomington (Indiana – EUA). Para Hernâni Cidade «Tomé Pinheiro da Veiga deve ser considerado como um dos maiores escritores do seu tempo» e para Graça Almeida Rodrigues este livro integra com outros (Arte de Furtar, Apólogos Dialogais, Os Ratos da Inquisição e Obras do Diabinho da Mão Furada) «uma literatura não conformista que apresenta uma crítica à administração e aos costumes da época». Tomé Pinheiro da Veiga começa por uma advertência («Estas são as duas jóias que fazem Valladolid sem preço: muita liberdade e nenhuma inveja») e noutro ponto adverte o autor do livro: «Não vos ofereço, aqui, história senão retrato nem comédia aprazível senão pintura natural». São muitos os assuntos destes «retratos» em forma de carta ou crónica: o nascimento do rei espanhol em 1605, a religião, a política, a economia, a sociedade, os jogos, as festas, o lazer, o luxo, a ostentação, a gastronomia, as artes e as letras. Num país pequeno e pobre como o nosso onde quase tudo é mínimo e mesquinho é uma alegria saudar um livro grande que é, ao mesmo tempo, um grande livro. JCF
terça-feira, 18 de agosto de 2026
“O PROCESSO” - novo livro de Orlando Raimundo
“O PROCESSO” - novo livro de Orlando Raimundo
Dedicado â memória de Redondo Junior, jornalista e homem de
teatro injustamente esquecido, este livro de Orlando Raimundo (1949-2026) tem
288 páginas e apresenta o subtítulo de «Tentativas de condicionamento da
informação em Portugal». Entre as páginas 175 e 276 apresenta um parecer
jurídico dos professores de Direito Jónatas Machado e Paulo Nogueira da Costa As
restantes páginas são o estudo do caso que tentou decapitar um jornal de
Santarém (O MIRANTE) a partir de uma decisão judicial que pretendia condenar o
jornal a pagar uma indemnização milionária em 7-7-2015. Isto um pouco à maneira
dos casos de crueldade mental dos anos sessenta do século vinte em que maridos
dos EUA se queixavam das esposas que os obrigavam a lavar as mãos de dez em dez
minutos. Mas aqui a crueldade era outra. A origem do caso etá no facto de O
MIRANTE ter-se limitado a noticiar um facto de evidente interesse público – uma
querela entre a Câmara Municipal de Santarém e um advogado que lhe exigia meio
milhão de euros de avenças não pagas. Vejamos a página 95 do livro: «Sete anos
passados sobre o início da saga kafkiana, a 17 de Julho de 2017 o Supremo
Tribunal de Justiça voltou a dar razão aos jornalistas Joaquim Emídio e Alberto
Bastos reconfirmando a sentença do Tribunal da Relação de Évora que os
absolveu». Presidiu à sessão o conselheiro Lopes do Rego e convém referir os
nomes dos desembargadores de Évora – Tomé Almeida Ramião, José Tomé de Carvalho
e Mário Branco Coelho. Tantos anos depois de Raul Brandão ter escrito sobre o
caso de Gomes Freire de Andrade (um dos mártires da Pátria) «os tiranos e os
déspotas sempre tiveram os seus desembargadores» foi um conselheiro de nome
Paulo Távora Victor que assinou com António Joaquim Piçarra o acórdão do
Supremo que determina a vitória da Justiça sobre o Direito. O Marquês de Pombal
procurou dizimar a família Távora mas a derrota foi um acidente de percurso – a
Vida venceu a Morte. A nota da contracapa assinada por António Valdemar
conclui: «Esta luta frontal pelo direito à informação, ao fim de sete anos,
acabou reconhecida pelo Supremo Tribunal de Justiça. Fica a ser uma referência
na história do Jornalismo». A moral da história pode estar no provérbio arménio
que diz «Dai um cavalo a quem estiver disposto a dizer a verdade necessitará
dele pêra fugir quando a tiver dito». (Editora Rosmaninho – Santarém) JCF
domingo, 16 de agosto de 2026
"CANTAREI DEPOIS DA MORTE" - RAOUL FOLLEREAU
CANTAREI DEPOIS DA
MORTE - RAOUL FOLLEREAU
Raoul Follerreau (1903-1977) estava destinado ao anonimato pois nasceu numa família de industriais mas afinal toda a sua vida foi dominada por conferências, apelos e denúncias sobre os problemas dos mais pobres dos pobres e dos mais doentes dos doentes – os leprosos. Nas praças, nas igrejas e nos estádios, ele dirigiu-se a todos – jovens, chefes de Estado, Papas – ninguém ficou de fora. Desde 1918 que levantou a sua voz mas foi em 1933 que aconteceram dois encontros decisivos da sua vida – um com o Padre Carlos de Foucauld e outro com os leprosos de África. Casado com Madalena Boudou desde 1925, escreveu em 1949 o livro «Bomba atómica ou Caridade?» que vendeu seis milhões de cópias e fundou o Dia Mundial dos Leprosos em 1954. A sua luta tornou-o conhecido em todo o Mundo. Este livro de 65 páginas com o subtítulo de «Textos Poéticos» (Edição APARF - Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau) abre com uma pergunta («Se Cristo, amanhã, bater à tua porta, reconhecê-Lo-ás?») continua com um pedido («Senhor, nunca deixes de nos amar!») e termina com uma certeza: «Já não passarei de pó, mas farei/crescer a erva e desabrochar a flor./Já não passarei de pó, mas cantarei/ nos vossos peitos./Estarei vivo na vossa alegria,/na vossa esperança divina, /no vosso entusiasmo deslumbrante, /na vossa cólera trovejante./O meu coração exausto/viverá na eternidade dos mundos.» JCF
sábado, 11 de julho de 2026
SANTO CRISTO ÁLBUM DE EMOÇÕES E ROTEIRO DE RAZÕES - José Andrade
SANTO CRISTO ÁLBUM DE EMOÇÕES E ROTEIRO DE RAZÕES - José Andrade
Este livro de 114 páginas (Edição Letras Lavadas) integra uma
dupla inscrição: é um dicionário actual e é uma história passada. Dito de outra
maneira: apresenta 32 verbetes que vão de Andor e Caloura a Tesouro e Vigília e
também uma separata histórica comemorativa dos 250 anos da Irmandade do Senhor
Santo Cristo dos Milagres. Cada entrada de José Andrade tem a correspondente
imagem. Vem a propósito recordar os nomes dos fotógrafos convocados – José
António Rodrigues, Mário Pereira, Arturo Mari e Orlando Medeiros. A separata
inclui o texto do voto de congratulação da Assembleia Regional em Abril de
2015, os primeiros Estatutos em Abril de 1765, os 184 primeiros irmãos, os 8
últimos provedores e os 338 actuais irmãos à data de 2015. Este livro foi
editado em Abril de 2015 mas reimpresso em 2017, 2018 e 2020. A página 40
integra a partitura do Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres e como convite
à leitura fica a citação da letra: «Glória a Cristo Jesus, glória eterna/Nosso
Rei, nossa firme esperança/soberano que os mundos governa/e as nações recebem
por herança/Com o manto e o ceptro irrisório/sois de espinhos cruéis
coroado/Rei da dor, uma vez no Pretório/Rei de amor, para sempre
adorado/Combatendo por vossa Bandeira/que no peito trazemos erguida/alcançamos
a paz verdadeira/e a vitória nas lutas da vida/Só a Vós com inteira
obediência/serviremos com firme vontade/porque em Vós há justiça e clemência/porque
em voz resplandece a verdade/ Concedei-nos por graça divina/que sejamos um povo
de eleitos/firmes crentes na Vossa doutrina/cumpridores dos Vossos preceitos».
Mais do que um livro, esta é uma notável fotobiografia que junta de modo feliz emoção
e razão. JCF
quinta-feira, 9 de julho de 2026
NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -Fascículos de Poesia
NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -Fascículos de Poesia
Quase setenta anos depois do primeiro fascículo destas «Folhas de Poesia» publicados na cidade do Porto por um núcleo fundador que englobava Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Ernâni Melo Viana, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto resolveu em boa hora publicar em edição fac-similada os nove fascículos publicados entre 1957 e 1962. Segundo o ensaio de António Carlos Cortez «as Notícias do Bloqueio albergaram nas suas páginas múltiplas vozes, nacionais e estrangeiras, sendo que, como confirma cada número, mais do que poetas de poemas se tratava». Num volume que pode ser lido como o décimo da série surgem poemas de autores de hoje, a saber: Ivo Machado, Carlos Leite, Inês Lourenço, José Manuel Mendes, José Viale Moutinho, Manuel Silva-Terra, Amadeu Baptista, Francisco Duarte Mangas, Maria Antónia Bastos, José da Cruz Santos, José Carlos Costa Marques, José Manuel Teixeira da Silva, Júlio Roldão, João Pedro Mésseder, Alexandre Teixeira Mandes, Eugénia Soares Lopes, Augusto Baptista, Ricardo Guimarães, Domingos Lobo, A. Dasilva O., António Carlos Cortez, Luís Filipe Castro Mendes, Aurelino Costa, José Queiroga e José Éfe. Este conjunto de poemas sobre Gaza (em 2025) faz a ligação ao poema sobre Hiroxima (em 1945) de António Rebordão Navarro: «quero que todos saibam da morte que durou 200 dias/ quero que a lembrem com o coração e os músculos/quero que no seio guardem o seu nome/Aikichi Kuboyama». O grafismo, os desenhos, as xilogravuras e o linóleo são de Álvaro A. Portugal, Augusto Gomes, Eduardo Luiz, Altino Maia, Querubim Lapa, Rui Knopfli, António Bronze, Domingos Pinho, Charles Withe, Francisco Relógio e Ana Biscaia. JCF
domingo, 5 de julho de 2026
"José Clemente Soares (1928-2010)" - uma fotobiografia de Adelina Soares
José Clemente Soares (1928-2010)
uma fotobiografia de Adelina Soares
sexta-feira, 26 de junho de 2026
Rui Sousa - O essencial sobre Luiz Pacheco
Rui Sousa
O essencial sobre Luiz
Pacheco
Devo começar por referir circunstâncias que me ligam a Luiz
Pacheco: conheci-o em 1967 e convivi com ele até 2008, (nasceu em 1925), fui o
assinante nº 186 do seu famoso ficheiro e recebia os livros editados pela
CONTRAPONTO antes de eles irem para as livrarias, visitei-o no Montijo, em
Lisboa e em Palmela, entrevistei-o duas vezes para o Jornal semanário OMIRANTE
de Santarém de cuja redacção fiz parte entre 1997 e 2001. Sou por essas razões
um interessado na divulgação do seu trabalho ou de estudos sobre a sua obra e a
sua vida. Mas não aceito tudo nem posso aplaudir tudo. Não me refiro à página
15 onde a palavra «assimetrias» aparece duas vezes no mesmo período, não me
refiro às palavras como recepção, activo, excepcional, aspectos, directamente,
recepção, percepção e muitas outras aqui dizimadas pelo aborto ortográfico. Não
me refiro à página 42 onde surge a palavra sarja por sorja (três vezes) nem à
página 9 onde o nome é Luís embora na página 15 apareça Luiz, não me refiro
ainda aos nomes dos meses em caixa baixa, não me refiro à indicação de que Luiz
Pacheco era filho único (terá perdido uma irmã ainda criança) nem sequer ao
aborto ortográfico que dizima um texto de Luiz Pacheco – na página 77 a palavra
aspecto sem «c» é impossível o autor ter utilizado antes de 1973, data da
segunda edição de «O Libertino passeia por Braga». Apesar da ideia-chave de
síntese, este livro de 122 páginas de Rui Sousa (Imprensa Nacional) parte dos
contributos de Ana da Silva, João Pedro George e António Cândido Franco mas não
pretende confundir-se com uma biografia. Além de escritor, Luiz Pacheco foi
editor; a sua CONTRAPONTO editou autores portugueses como Raul Leal, Manuel
Laranjeira, Mário Cesariny, Vergílio Ferreira, Manuel de Lima, António Maria
Lisboa, Natália Correia e Herberto
Helder ou estrangeiros como Eugène Ionesco, Luigi Pirandello, Karl Jaspers,
Anton Tchekov, Dostoievski e Marquês de Sade. Um livro valioso e oportuno,
prejudicado pelo aborto ortográfico de 1990 que aqui surge na fronteira do
delírio e da alucinação. JCF
terça-feira, 16 de junho de 2026
Fernando Pessoa - ESCRITOS SOBRE O SAUDOSISMO
Fernando Pessoa - ESCRITOS SOBRE O SAUDOSISMO (título 16 da colecção)
Com
edição e introdução de Nuno Ribeiro (n.1983) este livro de 79 páginas (Editora
Apenas Livros) integra doze textos em fac
símile fazendo deste trabalho algo como uma fotobiografia. Fernando Pessoa
(1888-1935) viveu alguns anos na África do Sul onde o segundo marido da mãe
exerceu o cargo de Cônsul de Portugal em Durban. Não se estranha que seja
escrito em inglês uma das suas abordagens do saudosismo: «The social transformation
wich has been taking place in Portugal for the last three generations and which
culminated with the establishment of the Republic , hás been, as is natural, accompained
by a concomitant transformation of Portuguese literature». Nos textos deste
livro Fernando Pessoa oscila entre uma revalorização de elementos saudosistas e
um distanciamento crítico. O estudo introdutório de Nuno Ribeiro ocupa o livro da
página 5 à página 19 e é um excelente ponto de partida para a abordagem deste
16º volume da colecção sobre a obra de Fernando Pessoa. JCF
quinta-feira, 4 de junho de 2026
"Que se passa com o Baum?" de Woody Allen
Woody Allen - Que se passa com o Baum? (romance)
Woody Allen tem a particularidade de ter nascido em Nova
Iorque (EUA) no mesmo dia em que morreu Fernando Pessoa em Lisboa (Portugal) –
30 de Novembro de 1935. Actor de cinema e de teatro, escritor, músico de Jazz e
cineasta, este «Que se passa com Baum?» é o seu primeiro romance. O título
original é «What´s with Baum?», a tradução é de Miguel Martins, a revisão é de
Joana Camões Pereira, a foto é de Soon-Yi Previn, a capa é de Cody Corcoran, o
volume tem 202 páginas e o editor é Edições 70. O herói do romance, Asher Baum, vive em Nova Iorque e começou a
falar sozinho, situação habitual para quem não tem ninguém que o possa ouvir.
Jornalista judeu de meia-idade, percebeu que a sua editora nova iorquina lhe
cortara os contactos e deixou de publicar os seus livros. O seu terceiro
casamento está por um fio e tem problemas com o filho que é um escritor bem
sucedido no seu meio. Não é inocente a referência a um poema de W.H. Auden na
página 11: «Pensamentos da sua própria morte/como o som distante/de uma
trovoada num piquenique». A página 202 revela um curioso diálogo entre o
escritor e o seu irmão Josh quando Asher lhe revela a sua ideia para um novo
livro: «A vida acabou. Não existe nada. O Universo não existe. Não existem
estrelas, nem luz, nem espaço, nem tempo. Absolutamente nada». No seu livro autobiográfico
anterior (»A propósito de nada») Woody Allen considera que «a vida é uma sorte».
A leitura deste romance pode (e deve) ser também uma sorte para os leitores.
Nem mais. JCF
terça-feira, 2 de junho de 2026
A PRAIA de António Manuel Venda
António Manuel Venda - A PRAIA (poesia)
António Manuel Venda (n.1968) junta neste seu sexto livro de
poesia 18 poemas que ocupam 88 páginas. A edição é de «On y va», a foto de
Maria Ramires e o grafismo de João Paulo Fidalgo. O ponto de partida é o poema
«a praia» que, como qualquer poema digno desse nome e desde sempre ao longo da
História, se articula entre a canção e a reflexão; neste caso uma canção triste
entre lágrimas e sangue pisado. «Isto não é para estas urgências» foi a frase
diabólica pronunciada por alguém com maldade de guichet e para quem a palavra
«humanidade» é um mistério e uma coisa distante do seu reduzido horizonte. Não
por acaso o livro é dedicado à memória do pai e da mãe do autor, ela que foi
«abandonada pelo Estado Português e pelas suas Instituições». No início do
livro surge uma citação de Piedad Bonnett «Deitaram sal sobre os meus olhos».
Trata-se do sal das lágrimas do homem que foi menino e esteve com a avó materna
numa feira onde homens de olhos vendados tentavam partir panelas e lá dentro
podia haver água ou um pombo; hoje há um carro funerário onde o homem que foi
menino vê uma urna a caminho do cemitério local mas essa urna parece uma panela
de barro de onde pode fugir um pombo pronto a voar. São dezoito poemas cada um
com a sua particular oficina e resultado. O primeiro e o último do conjunto são
o pranto e a lamentação da morte de quem deu a vida ao autor. Não se trata de
um caso particular, pelo contrário estes poemas não passam ao lado de ninguém.
Perante eles não se consegue ficar indiferente. Nestes poemas, de modo límpido,
incisivo e eficaz, junta-se de novo tudo o que a morte separou. JCF
segunda-feira, 1 de junho de 2026
BALEEIROS EM TERRA de Sidónio Bettencourt
Sidónio Bettencourt - BALEEIROS EM TERRA
Sidónio Bettencourt (n.1955) é natural dos Arrifes (São
Miguel) mas tem raízes no Pico como se lê na dedicatória: «Ao avô Manuel Moniz
da Papuda, Aos baleeiros, À minha família, Ao Povo das Lajes do Pico». O livro
é editado pelo Instituto Açoriano de Cultura com apoio da Direcção Regional dos
Assuntos Culturais e da Câmara Municipal das Lajes do Pico, capa de Raúl
Resendes, design de Angelina Caixeiro, revisão Margarida Vitória Fonseca,
aguarela de Ferdinand Bouton, fotos de Museu dos Baleeiros, família de Carlos
Cordeiro, Aurélio Machado, Ermelindo Ávila, Helder Silveira, João Melo, Manuel
Moniz Bettencourt, Márcia Olival da Rosa, Raúl Resendes, Sérgio Ávila, António
Sena e Kai-Uwe Franz. O livro de 63 páginas é o mais recente de Sidónio
Bettencourt depois de «Deserto de todas as chuvas» e «Já não vem ninguém»
(autor) e de «A balada das baleias» e «Açores – o poema da luz» (co-autor). A
qualidade e a quantidade das fotografias dão ao volume o estatuto de
fotobiográfico. A vida das baleias e dos baleeiros perdura há muito tempo na
Literatura; por exemplo Bernard Wolf, António Tabucchi, Trevor Housby, Vitorino
Nemésio, Raul Brandão, Herman Melville, Manuel Greaves, Florêncio Terra,
Rodrigo Guerra e Dias de Melo com os seus «Pedras Negras», «Mar Rubro», «Mar
pela Proa», «Vida Vivida em Terra de Baleeiros» ou «Memória das Gentes». A
página 53 afirma: «Morrem os baleeiros mas fica a sua cultura, a sua ética, os
seus rituais e a sua mentalidade». A última baleia foi capturada em 1987 e em
21 de Agosto de 1994 o autor regista: «Isto que nós estamos a viver neste
momento a bordo de uma canoa baleeira – o Ester – não vem descrito nos livros.
Pancada bem forte; chuva, mar, muito vento e o corpo é só água… Tudo tão
cinzento, cinzento quase breu. Está tanto nevoeiro, tanto mar que tenho
dificuldade em gravar um bocadinho desta chuva terrível e a ilha praticamente
desapareceu. A linha do horizonte está aqui a meia dúzia de metros.» Afinal esta
reportagem de rádio traduzida em livro vem provar que o jornalista é o
historiador do quotidiano. JCF
quarta-feira, 27 de maio de 2026
"Contributo para o movimento reorganizativo do Proletariado" de Vidaul Ferreira
Vidaul Ferreira
Contributo para o movimento
reorganizativo do Proletariado
Vidaul
(Froes) Ferreira (n.1948) veio ao Mundo no início da NAKBA na Palestina com o
assassinato do diplomata sueco enviado especial da ONU e o massacre de Der
Iassine pelos grupos terroristas Stern, Irgun e Lehi além da entrada em vigor
da Declaração Universal dos Direitos do Homem. O livro de 73 páginas (Editora
Libertação, design e paginação de João Aldeia) é um depoimento comovido que
começa com os primeiros passos do autor: «a minha meninice foi passada em
Angola; nasci em Vila Franca de Xira mas fui para lá com três anos e regressei com
quase treze em meados de 1961. Assisti a acontecimentos que me impressionaram
muito. Regressámos a Portugal por decisão de meus pais quando começou
abertamente a guerra colonial em Angola». O texto recorda a fundação do MRPP:
«A reunião teve lugar em Benfica no fim de semana de 18 de Setembro de 1970 em
casa de Maria José e Filipe Rosas; dormimos lá duas noites, a reunião decorreu
de sexta à tarde até domingo à noite. Foi ali decidido o nome definidor
Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado MRPP». Há uma nota final
sobre o tempo actual ao tempo da escrita do livro – 2018: «Entre socialismo e
capitalismo mais de noventa por cento da Humanidade escolhe o socialismo; o
socialismo é uma necessidade histórica». Além de Vidaul Ferreira (ele mesmo) e
de figuras da política e da cultura como Saldanha Sanches, Vítor Dias, Paula
Godinho ou Amadeu Lopes Sabino, as páginas do livro recordam alunos da Escola
Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira como Álvaro Monteiro Rodrigues
Pato, José Carlos Pereira Lilaia, José do Carmo Francisco e Horácio José
Cecílio Rufino que, mesmo morto no Registo Civil, continua vivo no coração dos
rapazes da nossa turma. JCF
segunda-feira, 25 de maio de 2026
"ALBUFEIRA Histórias da Nossa Gente", 25 histórias de Ana Sofia Brito
Ana Sofia Brito
O grande
ponto de partida deste grupo de 25 histórias que ocupam um livro de 111 páginas
(Editora On y va, apoio da Câmara Municipal de Albufeira, ilustrações de
Guilherme Limão, grafismo e paginação de João Paulo Fidalgo, foto da autora de
Daniel Azevedo) está na página 6: «Se queremos saber para onde vamos, temos de
saber de onde viemos». A autora é licenciada em Letras, jornalista, actriz e
malabarista e este é o seu quinto livro publicado. Sendo bisneta, neta, filha,
amiga, mãe, prima e tia de gente albufeirense, Ana Sofia Brito escreve sobre
pessoas mas, ao mesmo tempo, faz uma declaração de amor à sua cidade – sua luz,
sua beleza, seu cheiro, suas ruas. No meio das 25 histórias com gente de
Albufeira lá aparece um holandês: «O holandês do Café Sul tinha a mania de que
era o dono da vila e de que tinha chegado para pôr ordem no chiqueiro, como ele
dizia. Não sei onde é que raio aquele estúpido aprendeu a palavra chiqueiro mas
andava sempre com ela na boca quando era para se referir às coisas que lhe desagradavam
em Albufeira». A banda sonora deste livro pode ter Toots Hibbert, Gregory
Isaacs, Bob Marley ou Peyter Tosh e está na página 85. Citando uma das
histórias do livro (Uma barraca na feira) podemos concluir que a vida é feita de
lágrimas e de sangue pisado mas pelo meio surge um tempo de humor: «A bem
dizer, aquilo era uma barraca de meninas, pronto. Os homens assomavam-se a
fazer de conta que compravam pão com banha mas a banha ali era outra». Se não
existisse já um livro com esse título, este poderia chamar-se «Um reino
maravilhoso» não no sentido de maravilha mas de encanto, de amor, de
luminosidade, de oração profana que procura e consegue juntar de novo tudo o
que foi separado pela Morte e pelo esquecimento. As ilustrações de Guilherme
Limão fazem deste livro um álbum, uma bela fotobiografia de um tempo e de um
lugar. JCF
segunda-feira, 4 de maio de 2026
PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA - de Luís Pequito
Luís Pequito
PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA
As dezanove
fotografias que integram o corpo deste livro de 93 páginas escrito por Luís
Pequito (n.1966) podem levar o leitor a considerar este trabalho como uma
fotobiografia. A edição e o grafismo são do Município de Proença-a-Nova e a
nota de contracapa é de João Lobo. O livro organiza-se em seis blocos de texto:
O ti Chico Boieiro, O ti Manuel Galo, O Domingos da Murteirinha, O Manuel
Isaías, O Padre Armando e Histórias à lareira. Mesmo quando parte de um retrato
pessoal, há sempre o cuidado por parte do autor de o envolver nas coordenadas
do tempo e do espaço geral. Neste livro a paisagem não é mais importante do que
o povoamento. Na linha de Liev Tolstói (1828-1910) para quem «a aldeia é a base
para chegar ao Mundo», estas narrativas cruzam o particular e o geral, o
público e o privado, o real e o simbólico, a crença e a dúvida, a luz e a
sombra. A página 29 do livro adapta uma quadra de Rosalia de Castro (1837-1885)
trocando a palavra Galiza por Pergulho: «Este parte, aquele parte/E todos,
todos se vão/Pergulho ficas sem homens/Que possam cortar teu pão». Embora não
seja portador de carteira profissional de jornalista, o autor leva a cabo neste
livro uma reportagem sentimental não só do tempo mas também do espaço do
Pergulho. Como o Jornalismo é uma disciplina da Literatura, este livro é, na
verdade, (tal como um poema, uma crónica, um conto, uma novela, um romance, um
ensaio ou uma peça de teatro) a possibilidade alcançada de ligar de novo tudo o
que a Morte separou. JCF
terça-feira, 14 de abril de 2026
O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750) - Filipe do Carmo Francisco
FILIPE DO CARMO FRANCISCO
O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA
RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750)
Com o
subtítulo de «Guerra e Cultura na formação de uma imagem pública setecentista»,
este livro de 300 páginas inclui no seu conjunto várias ilustrações a cores
(nove) e a preto e branco (uma) além de (da página 202 à 300) várias notas,
anexo documental, bibliografia e índice remissivo. Onze quadros e sete mapas
completam o conjunto. Da página 16 à 201 surge o texto do ensaio. O autor
(n.1981) abre o livro com uma frase exemplar: «Clio, a Musa da História tem na
mão um papiro para lembrar que o principal modo de registo da Memória é a
palavra escrita». Por outras palavras - nem lenda nem fantasia. D. Pedro Miguel
de Almeida Portugal (1688-1756), Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo
Novo (1744) e Marquês de Alona (1748) casou em 1715 com D. Maria de Lencastre
filha dos Condes de Vila Nova de Portimão e foi mais tarde Vice Rei de Índia
Portuguesa entre 1744 e 1750. Desempenhou vários cargos de relevo tanto em
termos militares como políticos. (Editora Tribuna da História, Patrocínio
Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e Comissão Portuguesa de História Militar,
Editor Pedro de Avillez,Capa Maia Moura Design, Revisão Manuel Amaral). JCF
segunda-feira, 23 de março de 2026
MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000 (de Ana Francisco Sutherland)
MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND
GREENWICH LONDON 1950-2000
Um dos
aspectos mais curiosos deste livro de 416 páginas (Editora Park Books – Zurich)
é que a jovem autora nasceu em Lisboa (1978) e os arquitectos cujo trabalho
está plasmado neste inventário qualificado de dois bairros londrinos (rua a
rua, casa a casa) formando uma espécie de «bilhete de identidade» de cada
projecto e de cada realização, são também, em grande parte, emigrantes – vieram
de países como Iraque, Índia, Jugoslávia, Itália, Alemanha e na maioria do Reino
Unido entre ingleses e escoceses. A identificação de cada casa envolve: morada,
arquitecto autor do projecto, pessoa ou promotor imobiliário que fez a
encomenda, ano da construção e prémios atribuídos. Quinze das casas estudadas
foram desenhadas pelo arquitecto para nela viver com a sua família. Ao mesmo
tempo que fazia o trabalho de campo, a autora pôde consultar os arquivos do RIBA
Royal Institute of British Architects, fundado em 1834 e que integra quase toda
a memória da arquitectura inglesa. O trabalho demorou sete anos pois incluiu
entrevistas a arquitectos e seus familiares, promotores imobiliários, consulta
de arquivos municipais e entrevistas com historiadores. Não por acaso o prefácio
é assinado por Neil Bingham, reputado historiador ligado à Royal Academy of
Arts, ao RIBA e responsável no Victoria anda Albert Museum pela curadoria da
vertente histórica da Arquitectura. Além das casas estudadas em pormenor, o
livro indica em três página outros edifícios com interesse na zona de
Blackheath e de Greenwich. Para além do apoio do mecenato (John Payne)
colaboraram de modo activo no livro (entre outras entidades e pessoas) The
Blackheath Society, The Greenwich Society e o Wates Family Enterprise Trust. A
autora estreou-se em livro no ano de 2003 com «Personagens para um lugar
memorável» (Editora Black Sun - Lisboa) um livro de contos curtos por si
ilustrados. Assumiu desde Janeiro de 2026 a presidência da The Blackheath
Society. Seguindo à risca as indicações de Tolstoi («Se queres ser universal,
escreve sobre a tua aldeia») a autora juntou os desenhos, mapas e plantas à
escala do marido (Ian Sutherland), as fotografias do filho Tomás e o trabalho
de relações públicas do outro filho Lucas. Tal como num poema, este livro foi
escrito para juntar de novo tudo o que a Morte separou. JCF
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
PREGOS DE CRUZ (Emanuel Jorge Botelho)
Emanuel
Jorge Botelho (n.1950) estreou-se em livro no ano de 1981 e este seu mais
recente volume (2025) tem 41 páginas - Editora Averno, capa Inês Dias, grafismo
Pedro Santos. Já em 1986 a Revista «Seara Nova» tinha chamado a atenção para a
importância da sua poesia (ao tempo) em afirmação. É o que se pode chamar um
corredor de fundo. Claro que as coisas não são assim tão simples; basta pensar
nos casos de Cesário Verde (1855-1886) ou de Charles Bizet (1838-1875) para
perceber que não são apenas os maratonistas que ficam na posteridade das letras
e das artes. Os jovens que morrem cedo também ficam num panteão de qualidade e
memória. Voltando ao livro cujo título lembra a ideia da morte, notamos as
citações na página 5 – Malcolm de Chazal, Marina Tsvietaieva e Paul Celan. O
poema da página 7 abre o livro e refere «talvez assim me safe da purga com que
a alma/se livra do ardil da incerteza/e o silêncio venha, sem ser visto/repor a
verdade que há na morte». A chave pode estar na página 13 («cada poema é um sudário
da alma») ou na página 20: «fazes o quê com o medo que te resta?». Perante o
inevitável da morte só o amor pode responder: «é tudo muito simples;/digo meu
amor/e tudo sara no meu corpo/o meu medo sabe de cor o teu nome/e gosta da tua
voz.» O livro apresenta ainda epígrafes de E.M. Cioran, Yannis Ritsos, José
Sebag, Paul Celan e Artaud. JCF
























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