quarta-feira, 27 de maio de 2026

"Contributo para o movimento reorganizativo do Proletariado" de Vidaul Ferreira


Vidaul Ferreira

Contributo para o movimento reorganizativo do Proletariado

Vidaul (Froes) Ferreira (n.1948) veio ao Mundo no início da NAKBA na Palestina com o assassinato do diplomata sueco enviado especial da ONU e o massacre de Der Iassine pelos grupos terroristas Stern, Irgun e Lehi além da entrada em vigor da Declaração Universal dos Direitos do Homem. O livro de 73 páginas (Editora Libertação, design e paginação de João Aldeia) é um depoimento comovido que começa com os primeiros passos do autor: «a minha meninice foi passada em Angola; nasci em Vila Franca de Xira mas fui para lá com três anos e regressei com quase treze em meados de 1961. Assisti a acontecimentos que me impressionaram muito. Regressámos a Portugal por decisão de meus pais quando começou abertamente a guerra colonial em Angola». O texto recorda a fundação do MRPP: «A reunião teve lugar em Benfica no fim de semana de 18 de Setembro de 1970 em casa de Maria José e Filipe Rosas; dormimos lá duas noites, a reunião decorreu de sexta à tarde até domingo à noite. Foi ali decidido o nome definidor Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado MRPP». Há uma nota final sobre o tempo actual ao tempo da escrita do livro – 2018: «Entre socialismo e capitalismo mais de noventa por cento da Humanidade escolhe o socialismo; o socialismo é uma necessidade histórica». Além de Vidaul Ferreira (ele mesmo) e de figuras da política e da cultura como Saldanha Sanches, Vítor Dias, Paula Godinho ou Amadeu Lopes Sabino, as páginas do livro recordam alunos da Escola Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira como Álvaro Monteiro Rodrigues Pato, José Carlos Pereira Lilaia, José do Carmo Francisco e Horácio José Cecílio Rufino que, mesmo morto no Registo Civil, continua vivo no coração dos rapazes da nossa turma. JCF   


segunda-feira, 25 de maio de 2026

"ALBUFEIRA Histórias da Nossa Gente", 25 histórias de Ana Sofia Brito

 

Ana Sofia Brito

ALBUFEIRA Histórias da Nossa Gente - 25 histórias  

O grande ponto de partida deste grupo de 25 histórias que ocupam um livro de 111 páginas (Editora On y va, apoio da Câmara Municipal de Albufeira, ilustrações de Guilherme Limão, grafismo e paginação de João Paulo Fidalgo, foto da autora de Daniel Azevedo) está na página 6: «Se queremos saber para onde vamos, temos de saber de onde viemos». A autora é licenciada em Letras, jornalista, actriz e malabarista e este é o seu quinto livro publicado. Sendo bisneta, neta, filha, amiga, mãe, prima e tia de gente albufeirense, Ana Sofia Brito escreve sobre pessoas mas, ao mesmo tempo, faz uma declaração de amor à sua cidade – sua luz, sua beleza, seu cheiro, suas ruas. No meio das 25 histórias com gente de Albufeira lá aparece um holandês: «O holandês do Café Sul tinha a mania de que era o dono da vila e de que tinha chegado para pôr ordem no chiqueiro, como ele dizia. Não sei onde é que raio aquele estúpido aprendeu a palavra chiqueiro mas andava sempre com ela na boca quando era para se referir às coisas que lhe desagradavam em Albufeira». A banda sonora deste livro pode ter Toots Hibbert, Gregory Isaacs, Bob Marley ou Peyter Tosh e está na página 85. Citando uma das histórias do livro (Uma barraca na feira) podemos concluir que a vida é feita de lágrimas e de sangue pisado mas pelo meio surge um tempo de humor: «A bem dizer, aquilo era uma barraca de meninas, pronto. Os homens assomavam-se a fazer de conta que compravam pão com banha mas a banha ali era outra». Se não existisse já um livro com esse título, este poderia chamar-se «Um reino maravilhoso» não no sentido de maravilha mas de encanto, de amor, de luminosidade, de oração profana que procura e consegue juntar de novo tudo o que foi separado pela Morte e pelo esquecimento. As ilustrações de Guilherme Limão fazem deste livro um álbum, uma bela fotobiografia de um tempo e de um lugar. JCF        


segunda-feira, 4 de maio de 2026

PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA - de Luís Pequito

 

Luís Pequito

PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA

As dezanove fotografias que integram o corpo deste livro de 93 páginas escrito por Luís Pequito (n.1966) podem levar o leitor a considerar este trabalho como uma fotobiografia. A edição e o grafismo são do Município de Proença-a-Nova e a nota de contracapa é de João Lobo. O livro organiza-se em seis blocos de texto: O ti Chico Boieiro, O ti Manuel Galo, O Domingos da Murteirinha, O Manuel Isaías, O Padre Armando e Histórias à lareira. Mesmo quando parte de um retrato pessoal, há sempre o cuidado por parte do autor de o envolver nas coordenadas do tempo e do espaço geral. Neste livro a paisagem não é mais importante do que o povoamento. Na linha de Liev Tolstói (1828-1910) para quem «a aldeia é a base para chegar ao Mundo», estas narrativas cruzam o particular e o geral, o público e o privado, o real e o simbólico, a crença e a dúvida, a luz e a sombra. A página 29 do livro adapta uma quadra de Rosalia de Castro (1837-1885) trocando a palavra Galiza por Pergulho: «Este parte, aquele parte/E todos, todos se vão/Pergulho ficas sem homens/Que possam cortar teu pão». Embora não seja portador de carteira profissional de jornalista, o autor leva a cabo neste livro uma reportagem sentimental não só do tempo mas também do espaço do Pergulho. Como o Jornalismo é uma disciplina da Literatura, este livro é, na verdade, (tal como um poema, uma crónica, um conto, uma novela, um romance, um ensaio ou uma peça de teatro) a possibilidade alcançada de ligar de novo tudo o que a Morte separou. JCF


terça-feira, 14 de abril de 2026

O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750) - Filipe do Carmo Francisco


FILIPE DO CARMO FRANCISCO

O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750)

Com o subtítulo de «Guerra e Cultura na formação de uma imagem pública setecentista», este livro de 300 páginas inclui no seu conjunto várias ilustrações a cores (nove) e a preto e branco (uma) além de (da página 202 à 300) várias notas, anexo documental, bibliografia e índice remissivo. Onze quadros e sete mapas completam o conjunto. Da página 16 à 201 surge o texto do ensaio. O autor (n.1981) abre o livro com uma frase exemplar: «Clio, a Musa da História tem na mão um papiro para lembrar que o principal modo de registo da Memória é a palavra escrita». Por outras palavras - nem lenda nem fantasia. D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756), Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo Novo (1744) e Marquês de Alona (1748) casou em 1715 com D. Maria de Lencastre filha dos Condes de Vila Nova de Portimão e foi mais tarde Vice Rei de Índia Portuguesa entre 1744 e 1750. Desempenhou vários cargos de relevo tanto em termos militares como políticos. (Editora Tribuna da História, Patrocínio Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e Comissão Portuguesa de História Militar, Editor Pedro de Avillez,Capa Maia Moura Design, Revisão Manuel Amaral). JCF       


segunda-feira, 23 de março de 2026

MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000 (de Ana Francisco Sutherland)


Ana Francisco Sutherland

MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000

Um dos aspectos mais curiosos deste livro de 416 páginas (Editora Park Books – Zurich) é que a jovem autora nasceu em Lisboa (1978) e os arquitectos cujo trabalho está plasmado neste inventário qualificado de dois bairros londrinos (rua a rua, casa a casa) formando uma espécie de «bilhete de identidade» de cada projecto e de cada realização, são também, em grande parte, emigrantes – vieram de países como Iraque, Índia, Jugoslávia, Itália, Alemanha e na maioria do Reino Unido entre ingleses e escoceses. A identificação de cada casa envolve: morada, arquitecto autor do projecto, pessoa ou promotor imobiliário que fez a encomenda, ano da construção e prémios atribuídos. Quinze das casas estudadas foram desenhadas pelo arquitecto para nela viver com a sua família. Ao mesmo tempo que fazia o trabalho de campo, a autora pôde consultar os arquivos do RIBA Royal Institute of British Architects, fundado em 1834 e que integra quase toda a memória da arquitectura inglesa. O trabalho demorou sete anos pois incluiu entrevistas a arquitectos e seus familiares, promotores imobiliários, consulta de arquivos municipais e entrevistas com historiadores. Não por acaso o prefácio é assinado por Neil Bingham, reputado historiador ligado à Royal Academy of Arts, ao RIBA e responsável no Victoria anda Albert Museum pela curadoria da vertente histórica da Arquitectura. Além das casas estudadas em pormenor, o livro indica em três página outros edifícios com interesse na zona de Blackheath e de Greenwich. Para além do apoio do mecenato (John Payne) colaboraram de modo activo no livro (entre outras entidades e pessoas) The Blackheath Society, The Greenwich Society e o Wates Family Enterprise Trust. A autora estreou-se em livro no ano de 2003 com «Personagens para um lugar memorável» (Editora Black Sun - Lisboa) um livro de contos curtos por si ilustrados. Assumiu desde Janeiro de 2026 a presidência da The Blackheath Society. Seguindo à risca as indicações de Tolstoi («Se queres ser universal, escreve sobre a tua aldeia») a autora juntou os desenhos, mapas e plantas à escala do marido (Ian Sutherland), as fotografias do filho Tomás e o trabalho de relações públicas do outro filho Lucas. Tal como num poema, este livro foi escrito para juntar de novo tudo o que a Morte separou. JCF 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PREGOS DE CRUZ (Emanuel Jorge Botelho)

 


Emanuel Jorge Botelho (n.1950) estreou-se em livro no ano de 1981 e este seu mais recente volume (2025) tem 41 páginas - Editora Averno, capa Inês Dias, grafismo Pedro Santos. Já em 1986 a Revista «Seara Nova» tinha chamado a atenção para a importância da sua poesia (ao tempo) em afirmação. É o que se pode chamar um corredor de fundo. Claro que as coisas não são assim tão simples; basta pensar nos casos de Cesário Verde (1855-1886) ou de Charles Bizet (1838-1875) para perceber que não são apenas os maratonistas que ficam na posteridade das letras e das artes. Os jovens que morrem cedo também ficam num panteão de qualidade e memória. Voltando ao livro cujo título lembra a ideia da morte, notamos as citações na página 5 – Malcolm de Chazal, Marina Tsvietaieva e Paul Celan. O poema da página 7 abre o livro e refere «talvez assim me safe da purga com que a alma/se livra do ardil da incerteza/e o silêncio venha, sem ser visto/repor a verdade que há na morte». A chave pode estar na página 13 («cada poema é um sudário da alma») ou na página 20: «fazes o quê com o medo que te resta?». Perante o inevitável da morte só o amor pode responder: «é tudo muito simples;/digo meu amor/e tudo sara no meu corpo/o meu medo sabe de cor o teu nome/e gosta da tua voz.» O livro apresenta ainda epígrafes de E.M. Cioran, Yannis Ritsos, José Sebag, Paul Celan e Artaud. JCF