terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

«Vozes do Sul no Mundo Global: África, Médio Oriente e outros lugares» de Adelino Torres



Adelino Torres (n.1939) tem nacionalidade luso-francesa e é professor catedrático jubilado do ISEG – Universidade de Lisboa. O livro é dedicado a Adriano Moreira e Elikia M´Bokolo e lembra a memória de Alfredo Margarido, Hermínio Martins, Ilídio do Amaral e Inácio Rebelo de Andrade. A origem dos textos é variada: o primeiro capítulo corresponde a uma comunicação feita ao colóquio «Racismo ontem e hoje» organizado em 2005 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o segundo é uma versão actualizada do texto «Terrorismo: o apocalipse da razão» inserido no livro «Terrorismo» dirigido por Adriano Moreira nas Edições Almedina em 2004, o terceiro foi publicado na Revista Mulemba (Maio 2014) editada pela Universidade Agostinho Neto (Luanda).No Preâmbulo o autor explica: «As vozes do Sul a que me refiro são aquelas, ainda minoritárias mas cada vez mais numerosas, de livres pensadores que, em África e no Médio Oriente, bem como noutras regiões do mundo, se batem pela liberdade de pensamento crítico e humanista contra todas as formas de obscurantismo, sem esquecer também o cada vez mais limitado europocentrismo que de certo modo o alimenta.
A posição do autor sobre os vários terrorismos ao longo de quase 150 anos, ou seja, desde a versão anarquista (a partir de 1880), à versão anticolonialista (desde 1945), à versão «Nova Esquerda» (com Fidel Castro em Cuba) termina no terrorismo de hoje: «o Islamismo político radical representa um fundamentalismo que nega a hermenêutica (quer dizer a interpretação) porque se trata de um pensamento «totalitário de recusa do outro, obscurantista na medida em que subordina a racionalidade e o próprio procedimento empírico ao arbitrário teológico.»
A fricção entre o futuro e o passado fica expressa na página 65: «Embora muitos possam pensar que os islamitas se adaptam à modernidade na verdade o seu horizonte é gerir a sociedade com as ideias fixas do passado. A sua ligação com o mundo moderno limita-se a pouco mais do que à utilização dos meios técnicos onde a tecno-ciência é limitada por uma espécie de estatuto extra-cultural e a-histórico que conduz a que estes integristas não admitam os fundamentos teóricos da ciência moderna.» Fica uma ideia em 25 linhas do livro de 210 páginas.

(Editora: Colibri, Prefácio: José Filipe Pinto, Capa: Raquel Ferreira, Editor: Fernando Mão de Ferro)

[Um livro por semana 611]

domingo, 17 de fevereiro de 2019

«JCC Autobiografia autorizada, algo exagerada e muito ilustrada» de José Constantino Costa



José Constantino Costa (n.1958) poderia ter intitulado este livro como «Fotobiografia» mas preferiu chamar-lhe «Autobiografia muito ilustrada». Carlos Reis no «Dicionário de Estudos Narrativos» (Almedina) define a autobiografia como «o relato de uma vida feito por quem a viveu». O livro tem 219 páginas e eu assino na contracapa um texto sintético de quatro linhas: «Entre o que conta e o que sugere, entre a vida e o estilo, entre o segue pisado e o exercício, JCC parte da sua memória particular (pessoal, escolar, profissional) para inscrever uma memória geral do tempo português destes últimos sessenta anos.» Algumas das histórias são apelativas de modo especial. Por exemplo a do guarda da PSP que não sabia como se escreve «Caetanos»: com «c» e não com «q», com «e» e não com «i». Ou a secretária duma empresa que julgava ser o nome Holanda começado por «O» como Omã. Ou então o infeliz que não queria ser entrevistado e respondia: «Vai-te embora que eu sou maluco…eu sou maluco!». Sem esquecer o equívoco de uma senhora na Alliance Française de Algés que perguntava a autor com 34 anos: «que que vá chamar a sua netinha?»      
Pelo meio da narrativa há um «conto do vigário» que começa com o clássico «Não imagina quantas pessoas abordei nesta última meia hora sem sucesso!» além de uma história do 745 com um guarda da PSP nos Restauradores a pedir ajuda para «esclarecimento do sucedido» no autocarro: «O senhor motorista relatou a ocorrência de altercações no veículo que culminaram em agressão» e de uma outra história passada no 758: «Quando me reformei comecei a fazer recados para um gabinete de arquitetos; foi uma revelação, rejuvenesci dez anos, descobri Lisboa que julgava conhecer e percebi que tinha saída junto das mulheres…»  O insólito tem a ver com a página 25 onde se lê «o Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 28-2-1904» em vez de 13-9-1908. O autor está bem acompanhado pois um livro de Jacinto Baptista e António Valdemar refere 1-12-1907 como data do primeiro derby lisboeta. Portugal tem um sistema cultural cheio de paradoxos e de mentiras: o morto fala, o cantor não canta, o juiz trabalha na TV e o anjo da morte é uma mulher. O erro crasso da página 25 não é um caso isolado; tem companhia e muita.  
Logo na página 16 surge uma história mais frequente do que parece: a mulher que decide pelo pai em vez do marido quando precisa de tomar uma decisão: «o jovem casal separou-se e ela voltou para a terra com o pai.» Na página 37 JCC refere Eça de Queirós como «o meu escritor português do século XIX» e não por acaso o mesmo Eça, numa carta aos condes de Arnoso e de Sabugosa, afirma: «Contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas. Todas as outras ocupações humanas tendem mais ou menos a explorara o homem.»

(Editora: Mar de Letras – Ericeira, Capa: Luís Filipe Maçarico, Fotografias: José Constantino Costa, Revisão: José do Carmo Francisco, Design e Paginação: Rui Jorge Almeida)

[Um livro por semana 610]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

«Os rios de mim» de Ronaldo Cagiano



Ronaldo Cagiano nasceu em Cataguases (Minas Gerais – Brasil), é licenciado em Direito, viveu em Brasília e em São Paulo, tendo-se radicado em Portugal (Costa do Sol) e estreou-se em livro em 1989 com «Palavra engajada» (poemas).
Neste livro de 2018 o ponto de partida é o «eu»: «Nasci empurrado pelas águas/ de um ribeirão em fúria / numa madrugada espúria / com sua opulência de gritos, / abril se despedaçando». O ponto de chegada é o lugar no qual «Há um mundo dentro das palavras/ (máquina soturna) / que tento desbravar: / esse promontório / que é sedução / ou abismo.» e surge uma certeza: «A viagem ao passado / nunca regressa: / na combustão da memória / sinto um cão / chafurdando o íntimo / adulando um cardume de açoites.»
Pelo meio, entre o ponto de partida e o ponto de chegada, ficam as viagens (Buenos Aires, Lisboa, Roma) e os rios (Tibre, Tejo). Tal como Federico García Lorca, o autor poderia afirmar num verso que «a vida não é bela nem sagrada» mas, e ao mesmo tempo, o poeta teima, teima sempre: «Não há metáfora possível / no cativeiro da fé. (…) Na contumácia da mentira / residem a inexatidão da vida / a persuasão da morte. / Nas vísceras do pranto / a denúncia do que não sabemos. / Minha vida só reconhece / o matraquear das dúvidas / e sua rumorosa oficina de desacertos.»
Num duplo registo (Natureza e Cultura) os poemas oscilam entre a Geografia,  o Cinema, a Literatura e a Música. O livro abre com o poema que dá título ao conjunto: «Nas águas do velho rio / que passa pela minha cidade / e corta minha memória / feito / lâmina resoluta / há barcos misteriosos / que conduzem sonhos e malogros / do menino que adormece em mim.» O Cinema está no poema da página 34: Almodóvar e Kiarostami. A Literatura está nas citações e até num poema em diálogo com a Poesia de Murilo Mendes. Versos de Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, David Mourão-Ferreira, Manuel Bandeira, António Cícero ou Nuno Júdice ajudam o Poeta a responder à «dor» do Mundo que é sempre muito mais do que «uma sílaba atroz».
      
(Editora: Urutau, Apresentação: Álvaro Alves de Faria, Revisão: Beatriz Regine Guimarães Barboza, Edição; Tiago Fabris Rendelli e Wladimir Vaz)

[Um livro por semana 609]