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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

«Caos e catástrofe» de Luís de Miranda Rocha

Luís de Miranda Rocha (1947-2007) deixou um livro inédito dedicado a J. L.Pires Laranjeira, recuperado do seu computador por Zulmira de Miranda Rocha. Escritor, jornalista («Diário de Lisboa») e professor (CENJOR) foi também ensaísta, crítico e poeta. Estreado em livro no ano de 1968 («O corpo e o muro») publicou 20 títulos até 2003 na área da Poesia e 7 títulos no domínio do ensaio entre 1977 e 2006.Embora natural de Mira, publicou vários livros em Santarém – dois de poesia e um de ensaio.

O ponto de partida deste livro escrito entre 2005 e 2006 é o som do Mundo: «A vida que vivemos desvivemos/ouvindo-o a nossa vida nele ressoa». A ligação entre a vida e o Mundo («A vida com que o mundo se confunde/o mundo com que a vida se conforma») explica-se na página 9: «Se o mundo é esse caos que se mantém/a vida nele que o não ordena agrava/o mundo é que então agrava a vida/no mundo é que então se entrevê/a catástrofe que às vezes acontece/é no caos que se gera e dele resulta/e dele à vezes já nem se distingue».Tal como o título do livro, o poema da página 10 liga o caos à catástrofe: «Nem sempre o caos precede/a catástrofe às vezes/ acontece e somente/depois o caos se forma». O poema da página 39 adverte: «Não há como impedir que uma catástrofe/ocorra não se sabe onde ou quando». Já o poema da página 57 sugere «Que se instaure o estado de catástrofe/por tempo indefinido» porque «A nossa vida anda tão errada/a nossa vida o mundo o nosso mundo». O ponto de chegada é esperança: «Depois que baixe o som desta desordem/então que se insinue um senso que/Então que se sugira outro sentido.»

(Editora: Crescente Branco, Desenho: Manuel Oliveira, Composição: César Antunes)

 [Livros e Autores 26]


segunda-feira, 5 de junho de 2023

«José Afonso ao vivo» de Adelino Gomes

Trata-se aqui de um belíssimo livro/disco de 84 páginas com dois CDs e um LP dos concertos de José Afonso em Coimbra (4-5-68) e Carreço (23-2-80). Adelino Gomes (n.1944) chamou-lhe «Uma fagulha colectiva» embora na página 3 se leia «Zeca Afonso inédito» e na capa se leia «José Afonso do vivo». O trabalho deste livro/disco confirma em pleno as palavras de Jacinto Baptista em 1978 no jornal «Diário Popular»: «O jornalista é o historiador do quotidiano». Na verdade Adelino Gomes estava no Cais da Rocha Conde de Óbidos em 9-9-67 e queria entrevistar José Afonso (1929-1987) para o programa PBX no RCP mas a primeira resposta é adversativa: «Porquê? Para quê? Deixei-me dessas coisas. Importantes, umas cantiguetas?» . Adelino Gomes não desiste e recorre a fotografias, recortes de jornais, cartazes, ofícios da GNR, ofícios da PIDE, cartas, bilhetes para espectáculos, convites, recados. Assim organiza uma reportagem, o mesmo é dizer, uma cartografia sentimental dum certo tempo português exacto e definido.

A primeira parte do livro vai de 9-9-67 (chegada da navio «Angola») a 28-12-68, data do espectáculo na Gruta das Lapas (Torres Novas) com intervenção directa do pároco Amílcar Fialho, natural de Santa Catarina. A segunda parte avança para 28-2-1980 com os pormenores do concerto realizado nesse dia às21h30m na Sociedade Instrução e Recreio de Carreço. O resto está no livro e nenhuma nota de leitura pode substituir. Fiquemos com as palavras finais de Adelino Gomes: «Falei com mais de uma centena e meia de pessoas. Pessoalmente, via telefone e inúmeras vezes por email. Apenas uma pequena parte verá o seu nome citado neste trabalho. Esse foi sempre, enquanto jornalista, um dos meus dramas.»      

Resumir um livro de 84 páginas em 23 linhas também pode ser visto como um drama mas como diz o lugar-comum de todos nós «não há-de ser nada» O importante é que o convite a ler o livro e a ouvir os CDs ou o LP seja aceite porque um caso destes só acontece uma vez na vida.

(Editora: Tradisom, Introdução, investigação e texto: Adelino Gomes, Nota do editor: José Moças. Posfácio: Ricardo Romano, Concerto de Coimbra: Jorge Rino, Concerto de Carreço: Manuel Mina, Design: Rodrigo Madeira, Revisão: Laura Alves, Apoios: Fundação INATEL, Municípios de Coimbra, Torre de Moncorvo, Santo Tirso, Setúbal, Viana do Castelo e Grândola)

[«Livros e Autores 10]


domingo, 15 de janeiro de 2023

«tal&qual – memórias de um jornalismo» de Gonçalo Pereira Rosa e José Paulo Fafe

 

Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) e José Paulo Fafe (n.1961) são os autores deste livro de 171 páginas com 32 primeiras páginas a cores de um jornal que custava 5$00 em 1980 e nasceu para vingar um programa com o mesmo título que um presidente da RTP liquidou com a desculpa de uma entrevista imaginada com José Agostinho de Macedo ter «indisposto» a hierarquia da Igreja – o que foi negado por D. António Ribeiro, cardeal patriarca de Lisboa. Mais do que «memórias de um jornalismo» o que este livro propõe são visitas guiadas a um certo tempo português no qual não havia Internet nem telemóvel.

O texto de Gonçalo Pereira Rosa ocupa 38 páginas, intitula-se «A vitamina do regime» e analisa o contexto da história de um jornal ao longo de 27 com as suas regras de ouro: «As histórias que não saem noutro lado», «Não há vacas sagradas», «Cão de guarda da Democracia», «A voz dos que não têm voz», «A transgressão prova o crime» e «Sem foto, não há história». Os autores dos 22 depoimentos são os seguintes jornalistas: Cristina Arvelos, Victor Bandarra, Sónia Bento, Fernando Brandão, Manuel Catarino, Frederico Duarte Carvalho, Palmira Correia, Paulo Delgado, José Paulo Fafe, João Ferreira, José Ferreira Fernandes, Catarina Vaz Guerreiro, Luís Marques, Jorge Morais, António Nascimento, Isabel Nery, Alexandre Pais, Carla Pernes, Octávio Ribeiro, Tiago Salazar, Paula Silva e Augusto Freitas de Sousa.     

Apenas três notas: página 58 «O jornalista conta histórias, não é a história», página 104 «era uma semanário que causava engulhos à esquerda e à direita, dava voz a quem não tinha voz e era lido tanto pelo ministro como pela senhora que fazia a limpeza ao gabinete ministerial» e página 158 «Livre, irreverente, incómodo, o projecto vivia do que cada leitor pagava por cada exemplar. Sem a almofada da publicidade e dos fretes encapotados, com a queda dos hábitos de leitura em papel, as receitas deixaram de poder garantir o trabalho dos extraordinários repórteres que lhe davam alma.»

(Editora: Âncora, Prefácio: Joaquim Letria, Capa: Cláudia Fonseca)

[Um livro por semana 697]

 

domingo, 12 de dezembro de 2021

Para acabar de vez com a violência doméstica

Neste trabalho de «Ler e depois» como lhe chamou o ensaísta Óscar Lopes, recebo livros desde Agosto de 1978 quando comecei no «Diário Popular». Estes anos passaram num instante Um dos mais recentes livros que me chegou às mãos foi «Poemas para acabar com a violência doméstica» de Anne Quetzal, edição da Rosmaninho-Editora de Arte de Santarém. O título precipita em mim uma dissertação que engloba a chamada violência contra idosos – a que eu conheço melhor. Um certo jornalismo de castanholas e pandeiretas usa e abusa na Imprensa, na Rádio e na TV da expressão «violência doméstica» aplicada apenas e só a um dos lados da questão como se só existisse agressão da parte do homem contra a mulher ou do jovem contra o mais velho. No caso da chamada violência contra o idoso quero lembrar dois factos do meu conhecimento. Uma senhora de Penedono desloca-se com frequência com a filha e o marido para tratar de análises no Centro de Saúde onde a filha vive. Faz força e finca-pé para levar com ela uma galinha dizendo que «Os ovos do supermercado não prestam e só como ovos da minha galinha!» Claro que os tapetes do automóvel são obrigatoriamente lavados pois o cheiro e a porcaria são insuportáveis. Outro caso é o de um idoso que durante quatro anos recebeu a visita de um dos três filhos todas as segundas feiras para almoçar com ele. A recepção era invariavelmente esta: «Nunca esperei ser tão desprezado!» Com algum esforço se chega à ideia de que ele referia os outros filhos que estavam a trabalhar em Lisboa e não podiam deslocar-se numa segunda-feira de manhã. Conclusão provisória: a violência existe mas tem um sentido muito diferente do que as pandeiretas e as castanholas teimam em afirmar.      

[Crónicas do Tejo 296]


terça-feira, 25 de agosto de 2020

Há sempre coisas que ficam por dizer



Uma crónica é um contrato entre o jornalista, o director do Jornal e os leitores. Os termos podem não ser reduzidos a escrito mas, como nos velhos tempos, vale sempre o aperto de mão e a palavra de honra. O jornalista dá o seu melhor, o director do Jornal concede-lhe um espaço que vale ouro e os leitores dão ao texto a melhor atenção possível. Ao chegar à crónica nº 200 dei por mim a reler algumas delas - desde logo porque queria fazer uma escolha para a edição de um futuro livro no qual se reúnem cinquenta. Na crónica nº 165 publicada em 10 de Maio de 2019 gostaria de ter acrescentado «A tua voz tem o registo da mais alta Poesia, instável mas feliz ponto de encontro entre a saudade e o sonho, entre o passado e o futuro, entre a sombra e a luz. Porque, tal como numa liturgia urbana, há no ouro das alfaias da tua voz um tempo de celebrar, de convocar, juntar e harmonizar de novo tudo aquilo que, no nosso coração, a morte acabou por separar.»Continuo a pensar que o Jornalismo é uma disciplina da Literatura porque o Jornalista é o Historiador de todos os dias. Agora no momento em que escrevo faltam poucos dias para que Cristiano Ronaldo celebre 35 anos mas tudo teria sido diferente se no dia 24 de Outubro de 1999 um grupo de Homens (árbitro, enfermeiro, delegado) não tivesse dado o melhor de si para o salvar de uma taquicardia grave no decurso de um jogo de Iniciados Casa Pia-Sporting. E o jornalista que relatou com fidelidade e pormenor a situação fui eu porque eu estava lá nessa manhã de Domingo. O Jornal «Sporting» foi o único que referiu o problema mas compreende-se: o jogador ainda não era famoso nem em Portugal nem na Europa nem no Mundo. E porque há sempre coisas que ficam por dizer é que desde 1978 ainda não parei de escrever nos jornais. E espero continuar.    

[Crónicas do Tejo 225] 

(Fotografia de Vinicius Carriço)   

terça-feira, 30 de junho de 2020

Dissertação para a voz de Maria Flor Pedroso



Quase nada sei das origens da tua voz, seu timbre e sua altura, seu calor e sua extensão, seu peso e seu rigor. Chamo-lhe calorosa pois sinto nela o calor que sacode o dia, aquece o pão, ferve o leite e convida ao pequeno almoço com ovos e bacon. Quando ouço a tua voz sinto nela o rumor ritmado das ondas de todas as praias e as melodias de todas as orquestras. Melodia, harmonia, contraponto – o que quer que seja musical nas manhãs de Rádio. Porque toda a minha infância cabe numa telefonia Schaub Lorenz. O senhor Messias, o Compadre Alentejano, o Teatro das Comédias, o romance da hora do almoço, o telefone toca do Matos Maia. E também os discos pedidos dos doentinhos dos sanatórios – Serviço 6, Sala 2, Cama 4. Sem esquecer os anúncios: «Candeeiros bem bonitos / modernos, originais / compre-os na Rádio Vitória / não se preocupe mais.» A tua voz é clarim, bandeira, estandarte.  Primeiro avisa, depois convoca, de seguida vem guiar os ouvintes como numa antiga romaria entre o sol que brilha e o pó que não assenta. Havia a Rádio Graça, a Rádio Peninsular, o Clube Radiofónico de Portugal e a Rádio Voz de Lisboa. A Voz de Lisboa era essa mistura feliz do vagar dos eléctricos e da pressa na espuma dos rebocadores, o vagar do sinaleiro e a pressa das fragatas do outro lado do Tejo. Vivi no Montijo entre 1957 e 1961; por isso ser fragateiro era um dos meus destinos possíveis. Aos Domingos à tarde os eléctricos levavam bandeiras de estádios: Luz, Restelo, Tapadinha, Lumiar. À noite saía nos jornais o resumo da jornada com a classificação e os melhores marcadores. Os ardinas voavam nas Escadinhas do Duque. Era a voz de Lisboa. Quase nada sei das origens da tua voz. Sei que nela passa o coração do Mundo. As sombras e as luzes, as sementeiras e as colheitas, a terra e o mar. Tudo cabe na tua voz que não termina e que continua. 
      
[Crónicas do Tejo 117]

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

«Deuses menores e espíritos do lugar» de Aurélio Lopes


Aurélio Lopes (n.1954) estreou-se nas publicações desta área temática em 1995 com «Religião Popular no Ribatejo». Este recente livro de 183 páginas está organizado em quatro capítulos: O Santo e a Imagem, o Santo e o Lugar, o Santo e a Festa e o Santo e a Promessa.
Na página 139 cita-se um texto de Lourenço Fontes em 1992: «Não é diretamente Deus quem o povo procura; vai ao santo. Nem é o padroeiro, é o taumaturgo; nem é a igreja paroquial, é a capela, a ermida, o santuário; onde é mais fácil a religião popular. Onde, até, não há um padre a controlar, a proibir ou vigiar a fé.»
No final a página 183 o autor resume: «São os santos, hoje como ontem, símbolos e protetores de povos e lugares. Corporizados na sua «imagem», nesta se projetam enquanto foco energético e devocional; numa simbiose, algo indistinta, entre representação e representado. «Imagens» que o povo encara como se dos próprios santos se tratasse. Santos/«Imagens»; optando por aquela comunidade e só por aquela. Em inequívocas e taumatúrgicas opções de pertença. Expressos em lendários míticos que descrevem as sempre milagrosas aparições e remontam (ou fazem remontar) à génese da igreja e da povoação. À semelhança de princípios totémicos servem, assim, de pais e antepassados das populações. Intermediários por definição. Focos de poder por vocação. Nos quais as comunidades se revêem e compreendem. E aos quais apelam e prometem em situações de vulnerabilidade individual e colectiva. Santos que embora vistos em termos populares como dotados de um poder intrínseco, não deixam de ser, em termos conceptuais, intermediários entre a Terra e o Céu.»

(Editora: Apenas Livros, Revisão: Luís Filipe Coelho)

[Um livro por semana 637]


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A luz e a sombra no olhar de Rui Jordão


Escrevo para juntar de novo o que a morte separou. De Rui Jordão tenho três histórias; duas que ouvi contar e outra que vivi. O jogador natural de Benguela aproveitou uma ida a Espanha para receber algum do dinheiro que lhe ficaram a dever no Saragoça mas as notas tiveram de ser distribuídas por todos os jogadores do Sporting Clube de Portugal na camioneta. Logo em Elvas começou o meticuloso trabalho de recolher o dinheiro entregue a cada um para poder passar na fronteira. Dizem que quando um amigo esteve em Cabo Verde, Rui Jordão foi visitá-lo: meteu-se num avião e viajou quem sabe a lembrar os quintalões de Benguela onde se podia jogar sem relógios em muda aos seis acaba aos doze. Há uma dupla inscrição. O inventário ao lado do esplendor da amizade. O grupo de amigos do futebol integrava Mário Jorge e Manuel Fernandes. Um dia no Estoril estava com Mário Jorge na esplanada quando Jordão passou por nós em corrida matinal. Nem mesmo o ter sido chamado pelo nome o demoveu. Olhou para mim e terá tido a intuição de que eu sou jornalista; seguiu em frente e nunca mais consegui palavras suas para um livro. Ainda bem que no tempo de Fernando Assis Pacheco havia disposição para entrevistas: o livro é «Retratos falados» da Editora ASA. Os homens querem os seus momentos de luz e os seus momentos de sombra. A mim calhou-me a sombra nessa manhã de esplanada no Estoril. Talvez não tenha sido o Jordão, ele-mesmo. Pode ter sido o seripipi de Benguela, ave de vasta paleta de cores: plumagem de canela, face negra, peito e garganta cinzentos, ventre dourado e rabadilha vermelha. Sendo natural de Benguela «leva no bico uma esperança» como dizem os versos de Ernesto Lara Filho e a música de Carlos Mendes.  Há no olhar de Rui Jordão o peso da sombra e a força da luz. Como num quadro, a vida insinua esta verdade: é a sombra que dá relevo à luz. É a morte que cria dimensões na vida. Há no olhar de Rui Jordão a fusão de três mundos: animal, vegetal e mineral. O mesmo é dizer: seripipi de Benguela, infinitos quintais das casas e pedras junto ao mar. O mar onde Rui Jordão corria todas as manhãs à procura das ondas onda cabe a beleza de todas as sereias e a massa sonora de todas as orquestras.      

(Fotografia de autor desconhecido)       

sábado, 21 de setembro de 2019

Uma memória para José Pereira e Pepe - «Os Belenenses» cem anos depois


A propósito dos cem anos do Clube «Os Belenenses» que ocorre em 23-9-2019 não posso deixar de manifestar o meu desagrado pelo facto de o jornal «Diário de Notícias» de hoje 21-9-2019 ter dedicado um Suplemento Especial ao facto histórico mas ter esquecido dois daqueles que eu considero elementos chave da memória do Clube azul da cruz de Cristo. Sobre José Pereira nada ou quase nada sei. Ainda ontem falei com uma pessoa do Jornal «Badaladas» de Torres Vedras onde ele terá nascido em 15-9-1931 mas nada de concreto fiquei a saber. Sei que jogou no Mundial 1966 ao lado dos Magriços mas depois foi para Barcelona onde viveu e terá regressado ao Caramão da Ajuda. Sobre Pepe (1908-1931) apenas uma frase tirada de um poema dito por Barroso Lopes na Revista «O Mexilhão no Teatro Variedades: «Era a alma do povo em corpo de rapaz!» 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

«O Bairro dos Jornais» de Paulo Martins



Titular da carteira profissional de jornalista nº 4149, eu estou no Bairro Alto desde 1977. O primeiro jornal onde escrevi foi o «Diário Popular» em 1978 na Rua Luz Soriano nº 67 e o segundo foi «A Bola» em 1979 na Travessa da Queimada nº 23. O meu primeiro livro («Iniciais») foi publicado em 1981 pela Moraes Editora na Rua de O Século nº 34, antiga redacção de «A Capital».
Nada neste livro de Paulo Martins (n.1962) me é, nem pode ser, indiferente. Desde logo a citação de Norberto de Araújo, ilustre jornalista: «Os jornais, a fogueira que arde e que queima – ilumina daqui a cidade e, nas suas faúlhas que desencontrados ventos nem sempre levam bem, aquece em redor.» Há nos jornais uma mistura de pessoal e de público: «Por isso os apelidos Coelho (Diário de Notícias), Silva Graça e Pereira da Rosa (O Século), Burnay e Bordalo Pinheiro (Jornal do Comércio) Vieira Pinto e Ruella Ramos (Diário de Lisboa), Balsemão (Diário Popular) percorrem as páginas que se seguem. As famílias perdem influência à medida que se consuma o assédio da Banca, entre final dos anos 1960 e o início da década seguinte».
Falar de jornais é falar de Censura: «Ferreira de Castro conta um episódio em torno de uma reportagem da sua autoria, nas minas de São Domingos, detidas por uma empresa inglesa, que foi integralmente suprimida pela Censura. Pereira da Rosa disse ter lido o texto duas vezes, não encontrando razões para o corte. Debalde se queixou pelo telefone ao general investido por essa altura em ministro. Percebeu que o director da mina envolvera no caso o embaixador britânico e argumentou que em situação inversa, nenhum representante diplomático ousaria ir ao Foreign Office pedir que o Governo inglês proibisse os jornais de Inglaterra de se ocuparem dum caso semelhante. De nada valeu.» Na página 264 pode ler-se sobre as relações entre patrão e empregado o seguinte: «Havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista, confirma Baptista-Bastos. Era também um certo paternalismo e uma certa conivência mas a gente sabia para quem trabalhava e falava diretamente com eles.»
Um aspecto curioso é que os redactores dos jornais desportivos não podiam ser sócios do Sindicato dos Jornalistas até 1972 restando-lhes a filiação no Sindicato dos Tipógrafos. Por isso em 1966 foi criado o CNID para permitir as acreditações do Campeonato do Mundo em Inglaterra. Outro aspecto curioso tem a ver com as palavras do assessor de Willy Brandt que afirmou em pleno tempo do «caso República»: «Se querem ganhar dinheiro nunca metam política na primeira página e não metam também notícias importantes, ponham mulheres e crime.» Por fim uma ideia que permanece, apesar dos anos que passaram: «Num país pequeno e analfabeto, era entre o Bairro Alto e o Chiado que se concentravam não apenas as redacções dos jornais mas também as sedes partidárias – quando não partilhavam o mesmo espaço.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Pinheiro, Preparação: Diogo Morais Barbosa, Edição: Francisco José Viegas, Capa. Rui Rodrigues, Foto: Arquivo Municipal, Produção: Teresa Reis Gomes) 

[Um livro por semana 620]

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Gonçalo Pereira Rosa - «já nada me espanta» e outros casos tristes


Começo o texto com uma nota pessoal: prestes a completar 40 anos de actividade em jornais e revistas não me envergonho de nada do que publiquei mas arrependo-me de ter publicado sem anotações no Jornal «Sporting» uma página do livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista. Trata-se de um jogo entre o SCP e o Sport Lisboa em 1-12-1907 ao qual foi atribuído por erro crasso o título de «O primeiro derby» isto porque o SLB não podia ter disputado nenhum jogo antes de 13-9-1908. Gonçalo Pereira Rosa estudou agora o caso do assassinato da actriz Maria Alves em 1926 e publicou dois livros onde esse tema é desenvolvido mas o «Magazine» do «D.N.» publicou outro dia um texto sobre o assunto como se a pólvora estivesse a ser descoberta agora, no ano de 2018. Gonçalo respondeu com ironia a quem o interpelou sobre este caso: «Já nada me espanta». Outro dia passou-me pelas mãos um recorte da revista «Sábado» com a história da macaca de Oliveira de Azeméis, vila onde a comitiva do SCP costumava parar nos anos 40 antes de ir jogar com o FCP. Claro que os «leões» ganhavam, perdiam ou empatavam segundo factores determinados: as incidências do jogo, os erros dos jogadores de ambas as equipas, a influência da arbitragem que, muitas vezes, é decisiva. Ou seja – outras macacadas. Há por ali o perfume da prosa de António Simões («A Bola») mas uma coisas destas não é para quem quer, é para quem pode. Não dá para imitar. Voltando ao «Magazine» que faz parte do «D.N.» não bastava terem trocado «enclave» por «conclave» a propósito da Síria. Apetece dizer como a minha avó de Santa Catarina: «Não há direito!» E ela não desconfiava do que muito mais tarde eu verifiquei nos Tribunais de Menores: o Direito é o maior inimigo da Justiça.

(Crónicas do Tejo 128)

sábado, 15 de setembro de 2018

Os Totós ou Futebol, Mentiras e Falsificações


Nota prévia – Este Totó é um magnífico trabalho de caricatura do meu grande amigo Aniceto Carmona, natural de Vila Velha de Ródão. Primeiro caso: No «Notícias Magazine» de 18-3-2018 integrado no jornal «Diário de Notícias» desse dia o texto de Ferreira Fernandes refere as datas de Fernando Peyroteo como 1918-1968 quando o correcto é 1918-1978. Segundo caso: No Palácio Baldaya, numa exposição sobre o passado de Benfica, refere-se a Fábrica Simões & Cia Lda (malhas e confecções) situada na Avenida Gomes Pereira e pode ler-se o seguinte: «Fábrica em Palma de Baixo (Lumiar)». Terceiro caso: Na Estrada de Benfica está escrito numa chapa metálica da Câmara Municipal de Lisboa o seguinte: «Campo da Feteira. Este foi o primeiro campo atlético que pode considerar-se ter pertencido ao então designado Sport Lisboa, actual Sport Lisboa e Benfica. Inaugurado em 1907, o campo tinha capacidade para 8.000 espectadores, medindo 120 metros de comprimento e 79 metros de largura. O erro está na confusão estabelecida entre o Grupo Sport Lisboa, fundado em Belém no dia 28 de Fevereiro de 1904 e o Sport Lisboa e Benfica fundado em 13 de Setembro de 1908. Pelo meio fica o Sport Clube de Benfica, fundado em 26 de Julho de 1906, esse sim o proprietário do Campo da Feteira. O Sport Clube de Benfica praticava o atletismo e o ciclismo. Por essa razão o emblema do novo Clube em 1908 (S.L.B.) inclui a roda da bicicleta ao lado da bola e da águia. Não saber isto é ser Totó. Utilizar expressões dúbias como «pode considerar-se» é mais que isso, é ser Totó ao quadrado. Ninguém os proíbe de serem Totós mas não podem é tratar os outros como se fossem Totós. Deixem isso para a Universidade da Rabicha que tem uma parede branca capaz de aceitar tudo. Todas as mentiras e todas as falsificações.

(Crónicas do Tejo 126)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Almada e o Tejo – roteiro sentimental de uma das «minhas» cidades



Quando elaborei por escrito e por extenso uma espécie de «memória justificativa» para num certo sentido legitimar o início das minhas crónicas (do Tejo) no «Correio do Ribatejo» dei conta das minhas vivências em 1957 no Montijo (escola primária), em 1961 em Vila Franca de Xira (escola comercial) e em 1997 em Santarém (redactor de O MIRANTE) sem esquecer Lisboa e a Rua do Ouro onde tenho vivido e trabalhado desde 1966 até hoje – 2018. Mas a vida é um mistério e nada acontece por acaso: hoje (15-3-2018) entrei numa livraria com o meu amigo Joaquim Nascimento (ofereceu-me um livro!) e comprei o brasão de Almada. Embora nunca tenho lá vivido nem trabalhado, a verdade é que, desde sempre, me lembro de esta (hoje) cidade fazer parte da minha vida. Há muitos anos morreu na piscina do Seminário de Almada um jovem estudante natural de Santa Catarina (o António) de quem eu era muito amigo. Na altura só me lembro de duas palavras perante a sua morte: dôr e confusão. Dôr pelo desaparecimento dele e confusão pelas circunstâncias nunca esclarecidas da sua morte. Mais tarde Almada foi o lugar onde entrevistei o dramaturgo Romeu Correia para a Revista «A Bola Magazine», entrevista mais tarde englobada no meu livro «As palavras em jogo» e parte dela recordada no livro «Passeio mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro. A propósito deste meu grande amigo e quase-conterrâneo (Salir de Matos fica perto de Santa Catarina) não posso deixar de recordar as suas grandes capacidades informáticas em meu favor (sou um sem-abrigo) e as nossas intermináveis caldeiradas em Cacilhas quando a refeição serve em teoria para actualizar a escrita mas apesar de tudo esta nunca fica, de facto, em dia. A minha filha Ana, o marido e os filhos gostam muito da Casa da Cerca mas isso já é outra crónica.

(Crónicas do Tejo 123)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Carlos Pinhão entre o Chiado e o Tejo



Do Largo do Chiado vê-se o Rio Tejo e os cacilheiros até parece que «estacionam» nos telhados dos prédios do Cais do Sodré e da Rua do Alecrim. Quando o jornal desportivo A BOLA era publicado às segundas, quintas e sábados, quando estava algum calor na cidade e não havia ar condicionado na redacção do jornal, o Carlos Pinhão (meu mestre informal de Jornalismo) vinha até à janela que dava para a Rua Diário de Notícias ver as cenas próprias do Bairro Alto: uma taberna, uma velha, um rapaz atrevido a chamar-lhe velha, um berreiro interminável. No fim nascia um poema que eu viria a ler mais tarde num livro de Luiz Pacheco. Longe vai o tempo de Eça de Queiroz escrever «o que um pequeno grupo de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos, decidir no Chiado que Portugal seja – é o que Portugal é.» Lá pelos idos de 1966 ainda se dizia que o Chiado era um Estado dentro do Estado: tinha como qualquer Estado o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia e a sua Catedral. O facto de um meu livro de crónicas ter o título de «Entre o Chiado e os Açores» levou-me a procurar saber mais sobre este lugar mágico, pitoresco e elegante Sempre ouvi falar do poeta António Ribeiro Chiado como estando na origem do nome do Largo e, por reflexo, do espaço à sua volta. Um belo dia Alberto Pimentel encontra um documento datado de 1567 mencionando um tal Gaspar Dias, de alcunha «o Chiado», como proprietário de uma taberna que se situou um pouco acima da esquina da actual Rua do Carmo com a Rua Garrett. Será o Chiado taberneiro ou o Chiado poeta o tronco genealógico do Chiado artéria alfacinha? Isso não sei nem estou interessado em saber. Sei que, como Carlos Pinhão descobriu há muitos anos, uma taberna é como um poema, um lugar feliz onde ninguém está só. 

(Crónicas do Tejo 115)

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Correio do Ribatejo 127 anos depois



O jornalista como historiador do quotidiano

Quando comecei a escrever nos jornais (1978) Jacinto Baptista afirmava no «Diário Popular» - «o jornalista é o historiador do quotidiano». Ora o quotidiano português em 9-4-1891 (já lá vão 127 anos) era dominado pelo Ultimato Britânico de 1890 e pelo movimento patriótico que se levantou contra aos ingleses. O patriotismo era comum a toda as classes sociais. Basta lembrar que as comemorações camonianas de 1880 foram financiadas pelo Conde de Burnay, que o Duque de Palmela devolveu as suas condecorações trazidas de Londres ao embaixador inglês em Lisboa e que a Duquesa de Palmela organizou uma «sopa dos pobres» em Lisboa. Associações, Clubes e Filarmónicas ganhavam expressão. Mas não era só Luís de Camões que se comemorava: o 24 de Julho (de 1833) marca a chegada a Lisboa das tropas liberais, o 1º de Dezembro (de 1640) marca a recuperação da independência nacional e sem esquecer a romagem anual ao túmulo de Joaquim António de Aguiar (1793-1871) conhecido como o «Mata Fardes». O Governo inglês sonhava com um corredor continental em África do Cairo ao Cabo mas o chamado Mapa Cor-de-Rosa propunha que Portugal ocupasse o vasto território entre Angola e Moçambique. Em 11-1-1890 o embaixador britânico em Lisboa exigiu a retirada imediata das forças militares portuguesas estacionadas no Noroeste de Moçambique (Chire e Machona) e ameaçando com o uso da força caso o nosso país não aceitasse a exigência até às 10 horas da noite do dia 11-1-1890. O Governo português reúne-se de emergência com o Conselho de Estado e salvo duas excepções, todos os membros do Governo e do Conselho de Estado aceitam a imposição britânica. Claro que a 14-1-1890 o Governo demitiu-se e o novo Governo (regenerador) aceitou o Ultimato. O resto está nos livros, é História. Mas o «Correio do Ribatejo» que hoje, continua o que começou há 127 anos como «Correio da Extremadura», é também, História. O passado dá a todos nós que o fazemos hoje um orgulho, uma vontade e uma força enormes, o futuro é um horizonte de muitas coisas possíveis. O presente é esse intervalo feliz entre o passado e o futuro, espaço no qual o sonho dos pioneiros de 1891 continua activo e desafiador: contar às pessoas as suas próprias histórias, fazer da cada novo jornal um ponto de encontro, ser o historiador do quotidiano de todos nós.


sábado, 28 de abril de 2018

Padre Amílcar Fialho (1944-2001) ou a boa surpresa na página de um livro



A página 180 do livro «O sítio de Benfica e a tradição dominicana» de Artur Santa-Bárbara (edição da Paróquia de São Domingos – Benfica - Lisboa) refere dom Fernando Teles de Menezes como conde de União em vez de conde de Unhão. Má surpresa mas a página 237 mostra o largo sorriso do novo presbítero do Patriarcado, Amílcar Luís Fialho, ao lado de Frei Carlos Santos. A foto não tem data mas deve ser de 1967. Nascido em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em 27-4-1944, foi admitido no Seminário de Santarém em 1-10-1955 tendo sido ordenado sacerdote em 1967 e passando a ser pároco nas Lapas e na Ribeira Branca em 1968. Filho de João Fialho e Conceição Fialho, este meu valoroso conterrâneo veio a falecer em 18-5-2001. Da sua passagem pela Direcção do Jornal «O Almonda» regista-se em 24-5-1975 um firme propósito: «Empenhar-me-ei desde o primeiro momento não em servir ninguém mas a Verdade, que é revolucionária.» Mas em 9-11-1979 confessava a sua relativa frustração: «Passados mais de quatro anos de fortes tensões provocadas pela angústia constante de me sentir «bola de pingue-pongue» nos jogos de interesse, verifico, com pena, a necessidade de abandonar o campo por falta de forças físicas. Numa luta permanente e desgastante, obrigando-me, tantas vezes a enfrentar problemas e situação cheias de imponderáveis e contradições, o confronto humano, social e cristão arrasa o sistema nervoso, provocando possíveis doenças de consequências incalculáveis.» 

Uma nota final de agradecimento a Alexandra Xisto e Laura Martinho pela ajuda preciosa nos dados biográficos do padre Amílcar Fialho.     

(Crónicas do Tejo 110)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O comboio da Sertã, a vila das Caldas, «gralhas» e deslizes



Uma pessoa acorda, toma banho, come, veste-se e vai para a rua e a primeira coisa que vê é uma carrinha frigorífica à porta dum talho com a expressão «São António» em vez de Santo António. Sabe-se que São se usa para João ou Pedro, os santos populares de Junho cujo nome começa por consoante. Minutos depois no comboio a mesma pessoa lê Melecas em vez de Meleças e no Metropolitano vê Marques Pombal em vez de Marquês de Pombal. Ao sair na Praça de Espanha (lê-se Praca Espanha) fica a pensar no nome antigo da estação que era Palhava em vez de Palhavã. A seguir pega num livro e lê uma referência ao comboio da Sertã na página 74 e duas vezes na página 90 às Caldas da Rainha como vila sem esquecer na página 98 a expressão vila termal. Sabe-se que não há nem nunca houve comboios na Sertã e as Caldas são cidade desde 1927. Na página 131 lê-se reouve quando o verbo é reaver ou seja «ter de novo» que é diferente de ouvir.
Pego noutro livro e leio lojistas com «g» na página 130 depois de ter lido na página 125 Dutra Trafaria em vez de Dutra Faria. Li depois no mesmo livro o nome do jornalista Urbano Carrasco como Urbano Camacho referido como sendo do «Diário da Manhã» mas não faz sentido no contexto porque esse jornal era da situação, não da oposição. Leio na página 26 António Régio por António Sérgio e na página 32 «ostão» por estão. Mas para acabar o dia em beleza leio num livro sobre São Domingos de Benfica uma referência ao conde de União que não existe porque se trata do conde de Unhão. Cheguei a casa com o cinto cheio de caça mas terá valido a pena? Talvez sim ou talvez não. Nunca saberei ao certo.  

(Crónicas do Tejo 108 - fotografia de autor desconhecido)



quinta-feira, 15 de março de 2018

O Saldanha numa memória escrita de Jorge Silva Melo


Em boa hora o jornal «Diário de Notícias» publicou uma colecção de fotografias de Lisboa com o título de «Lisboa antiga». No livro «Século passado» de Jorge Silva Melo (Edições Cotovia) descubro uma crónica notável sobre a vida no Saldanha nos idos anos 60 do século XX. A ler: «Sempre que, agora, por lá passo, pelo Saldanha, sinto-me fechado, angustiado, enterrado, esmagado, Foi ali que abri a minha vida juvenil, início de poemas, ideias de filmes e artigos, artigos, política. E agora quase só lá passo de carro, ponho-me a olhar para o que já não reconheço: há branco a mais, vidro a mais, atafulhamento de volumes, luzes a mais e não percebo o que por ali há, lojas e lojas onde não ouso entrar, marcas a mais, uns cinemas, umas caves, outras lojas, não sei, sei que nada daquele mundo é para mim, agora, parece-me arrabalde, auto-estrada. E foi, durante anos, o centro de Lisboa, da minha vida universitária, da Lisboa conspirativa dos literatos e cineastas, da gente do teatro e dos jornais. E era nos cafés, abertos desde manhã cedo a até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo se ia passando. A modorra de quem não sabe o que pode fazer para que as coisas mudem, as discussões sobre o filme acabado de estrear na sala ao lado, a análise do livro recenseado no suplemento do «Diário de Lisboa», nossa leitura obrigatória a partir das cinco da tarde, a participação nas polémicas que zurziam, os projectos profissionais. E, ao domingo, era o almoço com a família no Monte- Carlo, almoço demorado com pratos e sobremesas e conversas sobre cinema, o filme que se havia de ver naquela noite, se o Bem-Hur no Monumental, se o Quanto mais quente melhor, lá em baixo no São Jorge.» (Fim de citação…)    
(Crónicas do Tejo 106)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Jaime Murteira e Alexandre O´Neill – Ribatejo entre água e fogo


Jaime Murteira (1910-1986), pintor hoje recordado, foi discípulo dos artistas Frederico Ayres e António Saúde. Recebeu uma primeira medalha na SNBA, um prémio Silva Porto no SNI e um segundo prémio no Salão da Beira Alta. Tem obra representada nos seguintes Museus: Arte Contemporânea, Soares dos Reis, Ultramar, José Malhoa, Faro, Lagos, Vila Franca de Xira, Guimarães e Figueira da Foz. O quadro aqui reproduzido tem por título «Manhã no Ribatejo». Ora a dita «manhã» pode ter água e fogo como no poema de Alexandre O´Neill (1924-1986) no livro «As horas já de números vestidas» de 1981. O título do poema é «Fogo posto»: «Estou no centro do país, rodeado de incêndios. / Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar. / Reguei o telhado e o quintal porque as velhas são muitas / A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4./ A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão, / apagadas ou parecendo ou quase / e fala do carteiro – motorizada aqui, saco acolá, sapato mais além – que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.» (fim de citação) O poeta comentou mais tarde numa entrevista a Clara Ferreira Alves (Jornal Expresso) deste modo: «Há um poema sobre fogos-postos de que gosto muito, considero-o um dos mais bem acabados que escrevi até hoje. E emociono-me ao relê-lo. Emociono-me por estar bem feito. Nota final – por uma questão de espaço não é possível citar o poema no seu todo.

(Crónicas do Tejo 97 - Fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

«A mais absurda das religiões» de Nuno Costa Santos




Nuno Costa Santos (n.1974), director da Revista literária açoriana Grotta, é escritor e argumentista para além de autor de peças de teatro e documentários sobre poetas (Ruy Belo e Fernando Assis Pacheco) sendo cronista na Revista Sábado. O conjunto destas crónicas escolhidas por Diogo Ourique chega às 208 páginas e divide-se em cinco grupos: «Vida, vidinha», «Produtor de conteúdos», «O pai cronista», «Alguns nomes» e «Dois países».
Na introdução o autor explica o livro («Isto dava uma crónica. Houve uma altura em que estava agarrado à crónica, condição da qual nunca consegui recuperar. Qualquer coisinha trazia, enroscada, uma ideia para escrever uma crónica. Ou para ter a ideia de escrever uma crónica») e explica-se a si mesmo, deste modo: «Aqui o vosso cronista é um bicho atípico (um dia vou escrever um pouco à maneira dos mestres Millôr e O´Neill, um manual de instruções para ser melhor compreendido por aqueles que têm por hábito arrumar as pessoas em gavetas). Mas posso dizer que tenho aspectos conservadores: sou muito apegado aos meus e à minha terra, sou pelo fazer individual (detesto a palavra «empreendorismo»), sou comunitarista: acredito muito no voluntariado, algo que é alvo de desconfiança por uma esquerda estatista. Mas também sou solidário, também sou pela atenção do Estado aos mais desprotegidos socialmente, também sou liberal nos costumes, também quero caminhar para uma sociedade mais justa e mais fraterna.»
O título do livro surge na página 86: «Sentado num café à espera de um amigo que não chega. Escrevo. Num pequeno caderno. E penso que escrever é a mais absurda das religiões. Para quê escrever se posso ver o jogo de ténis na televisão. (Um tipo de pólo verde esta a fazer um serviço.) O amigo é jornalista, desculpa ainda melhor do que a de ser pai de um rapaz de dois meses (que sou).»  
Exemplar é, entre outras, a crónica da página 96 que começa com uma aproximação pessoal («Quando eu tinha 17 anos o meu pai achou que o filho não devia seguir o curso de Comunicação Social porque depois iria ficar no desemprego.») e deriva para uma situação mais geral: «Diz-se e bem que não há democracia sem jornalismo. Direi mesmo: não há democracia sem bom jornalismo, exigente, feito de frescura mas também de experiência, de olhar atento e experimentado, mais sabedor das curvas que a vida pública pode dar.»

Editora Escritório, Organização e Revisão: Diogo Ourique, Capa: Joana Viegas, Design: Dânia Afonso.  
    
(Um livro por semana 578)