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segunda-feira, 1 de junho de 2026

BALEEIROS EM TERRA de Sidónio Bettencourt

Sidónio Bettencourt - BALEEIROS EM TERRA

Sidónio Bettencourt (n.1955) é natural dos Arrifes (São Miguel) mas tem raízes no Pico como se lê na dedicatória: «Ao avô Manuel Moniz da Papuda, Aos baleeiros, À minha família, Ao Povo das Lajes do Pico». O livro é editado pelo Instituto Açoriano de Cultura com apoio da Direcção Regional dos Assuntos Culturais e da Câmara Municipal das Lajes do Pico, capa de Raúl Resendes, design de Angelina Caixeiro, revisão Margarida Vitória Fonseca, aguarela de Ferdinand Bouton, fotos de Museu dos Baleeiros, família de Carlos Cordeiro, Aurélio Machado, Ermelindo Ávila, Helder Silveira, João Melo, Manuel Moniz Bettencourt, Márcia Olival da Rosa, Raúl Resendes, Sérgio Ávila, António Sena e Kai-Uwe Franz. O livro de 63 páginas é o mais recente de Sidónio Bettencourt depois de «Deserto de todas as chuvas» e «Já não vem ninguém» (autor) e de «A balada das baleias» e  «Açores – o poema da luz» (co-autor). A qualidade e a quantidade das fotografias dão ao volume o estatuto de fotobiográfico. A vida das baleias e dos baleeiros perdura há muito tempo na Literatura; por exemplo Bernard Wolf, António Tabucchi, Trevor Housby, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Herman Melville, Manuel Greaves, Florêncio Terra, Rodrigo Guerra e Dias de Melo com os seus «Pedras Negras», «Mar Rubro», «Mar pela Proa», «Vida Vivida em Terra de Baleeiros» ou «Memória das Gentes». A página 53 afirma: «Morrem os baleeiros mas fica a sua cultura, a sua ética, os seus rituais e a sua mentalidade». A última baleia foi capturada em 1987 e em 21 de Agosto de 1994 o autor regista: «Isto que nós estamos a viver neste momento a bordo de uma canoa baleeira – o Ester – não vem descrito nos livros. Pancada bem forte; chuva, mar, muito vento e o corpo é só água… Tudo tão cinzento, cinzento quase breu. Está tanto nevoeiro, tanto mar que tenho dificuldade em gravar um bocadinho desta chuva terrível e a ilha praticamente desapareceu. A linha do horizonte está aqui a meia dúzia de metros.» Afinal esta reportagem de rádio traduzida em livro vem provar que o jornalista é o historiador do quotidiano. JCF        


segunda-feira, 25 de maio de 2026

"ALBUFEIRA Histórias da Nossa Gente", 25 histórias de Ana Sofia Brito

 

Ana Sofia Brito

ALBUFEIRA Histórias da Nossa Gente - 25 histórias  

O grande ponto de partida deste grupo de 25 histórias que ocupam um livro de 111 páginas (Editora On y va, apoio da Câmara Municipal de Albufeira, ilustrações de Guilherme Limão, grafismo e paginação de João Paulo Fidalgo, foto da autora de Daniel Azevedo) está na página 6: «Se queremos saber para onde vamos, temos de saber de onde viemos». A autora é licenciada em Letras, jornalista, actriz e malabarista e este é o seu quinto livro publicado. Sendo bisneta, neta, filha, amiga, mãe, prima e tia de gente albufeirense, Ana Sofia Brito escreve sobre pessoas mas, ao mesmo tempo, faz uma declaração de amor à sua cidade – sua luz, sua beleza, seu cheiro, suas ruas. No meio das 25 histórias com gente de Albufeira lá aparece um holandês: «O holandês do Café Sul tinha a mania de que era o dono da vila e de que tinha chegado para pôr ordem no chiqueiro, como ele dizia. Não sei onde é que raio aquele estúpido aprendeu a palavra chiqueiro mas andava sempre com ela na boca quando era para se referir às coisas que lhe desagradavam em Albufeira». A banda sonora deste livro pode ter Toots Hibbert, Gregory Isaacs, Bob Marley ou Peyter Tosh e está na página 85. Citando uma das histórias do livro (Uma barraca na feira) podemos concluir que a vida é feita de lágrimas e de sangue pisado mas pelo meio surge um tempo de humor: «A bem dizer, aquilo era uma barraca de meninas, pronto. Os homens assomavam-se a fazer de conta que compravam pão com banha mas a banha ali era outra». Se não existisse já um livro com esse título, este poderia chamar-se «Um reino maravilhoso» não no sentido de maravilha mas de encanto, de amor, de luminosidade, de oração profana que procura e consegue juntar de novo tudo o que foi separado pela Morte e pelo esquecimento. As ilustrações de Guilherme Limão fazem deste livro um álbum, uma bela fotobiografia de um tempo e de um lugar. JCF        


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Fausto Castelhano terceira memória


Benfica (des)Aparecida

Depois de «Benfica de Outrora e a Herdade da Granja» (2022) e de «Bonifácio – Quinta de Montalegre» (2024) Fausto Castelhano (n.1940) regressa com «Benfica (dês)Aparecida», um livro de 236 páginas, editado pela Espaço Ulmeiro, com capa e design de Armando Cardoso e prefácio de Ricardo Marques. O volume organiza-se em seis blocos. Fausto Castelhano tem sido um apaixonado pela história da freguesia de Benfica e colabora no Blog «Retalhos de Bem-Fica» de Alexandra Carvalho onde tem publicado alguns textos que integram este livro. Trata-se de uma fascinante fotobiografia na qual paisagem e povoamento surgem lado a lado. O mesmo é dizer a Avenida Gomes Pereira, a fábrica Simões, os Laboratórios Atral, o restaurante Sozinhito, a Rua Cláudio Nunes, a Rua José Baptista de Sousa, a Avenida Grão Vasco, a Rua Emília das Neves, a Rua e o Largo Ernesto da Silva, a Estrada do Poço do Chão, a Estrada dos Arneiros, a Curva da Marreca, os rios e os ribeiros da Freguesia, as Quintas e Palacetes, as Fábricas e as Escolas, os Colégios e os Externatos. Mas também algumas pessoas que povoam esta paisagem de Benfica: Fernando Augusto, Alfredo Augusto, Mário Félix, Silvino Pereira, Alice Gorjão, Mário Ferraz, António Russo, Alice Lisboa, Júlio Pereira, Manuel Maneta, Mário Fonseca, Manuel Fragoso, Manuel Luís, José Gomes Pereira, Carlos Castelhano, Saúl Albuquerque, Júlio Pires, o Almeida das Telefonias, José Dias. Eduardo Beltrão, Fernando Rodrigues, João Dias, Manuel da Costa, Manuel Rodrigues, João Roseira, António Castelhano, António Pereira, Gaspar do Girassol, Alfredo Martins, Raúl Ferreira, o Jardim da Drogaria, o Albino das Chapinhas, José Neves e Artur Lopes sem esquecer Fausto Castelhano, autor desta história mas também protagonista inclusivé como associado do Clube Futebol Benfica por duas vezes - o nº 642 e o 1694. O livro inclui biografias de figuras como Gomes Pereira, Cláudio Nunes, Ernesto da Silva ou Duque de Saldanha e de instituições como a Quinta do Charquinho ou a Escola do Megistério Primário. Neste livro não falta uma comovente memória de António Ferreira que, transtornado com a moret do pai (funcionário da Secretraia do Cemitério), subia ao alto do muro da entrada secundária do mesmo a dizer em voz alta: «Paizinho venha para casa, a mãe já está à espera, não se demore. Venha depressa jantar bacalhau com batatas».  «As crianças e o mundo rural na freguesia de Benfica», «Passarinho Moni», «O antigo dono da Farmácia União», «MARIJÚ o café esquecido» e «O Incrível comboio Larmanjat na Estrada de Benfica» completam este fotobiografia da freguesia de Benfica.  JCF      


domingo, 11 de maio de 2025

«Sala de espelhos» de Urbano Bettencour


É provável que Urbano Bettencourt (n.1949) tenha ouvido a advertência - «Se quer ser alguém nas Letras, não perca tempo a escrever sobre os livros dos outros». Ensaísta, poeta e ficcionista, a sua obra é um «não» a esse aviso; este «Sala de Espelhos» vem confirmar o seu (digamos) lugar de ser. O ponto de partida destas 427 páginas lê-se na página 9: «Aquilo que aqui se propõe, longe der ser uma história literária, é muito simplesmente a análise de autores e textos particulares, mas sem perder de vista o seu contexto, as condições em que lhes foi possível existir, ganhar visibilidade e a realização plena no contacto com o leitor.» Os autores estudados são os seguintes: Florêncio Terra, Roberto de Mesquita, Manuel Zerbone, Luís Francisco Bicudo, Armando Côrtes-Rodrigues, Raul Brandão, Vitorino Nemésio, Maduro Dias, Manuel Ferreira, Natália Correia, Dias de Melo, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Fernando Aires, Fernando de Lima, Manuel Lopes, Resendes Ventura, José Martins Garcia, Daniel de Sá, Álamo Oliveira, J.H. Santos Barros, João de Melo, Mário Machado Fraião, Ana Ferraz da Rosa, Joel Neto, Alexandre Borges, Nuno Costa Santos, João Pedro Porto e Carlos Nogueira Fino. Mas o livro não se esgota nos autores e nos temas sugeridos na página 427; integra o seu autor que se salvou pelos livros e ainda bem. Vejamos como era o tempo de meados da década de 50 no Pico: «A camioneta arrancava às cinco horas. Às nove horas, depois de quarenta quilómetros de ilha e amais nove de Canal, desembarcávamos na Horta, a cidade em frente.» Se eram complicadas as viagens na estrada e no mar, as viagens nas Letras não o eram menos; em casa não havia Odisseia nem Os Lusíadas nem Guerra e Paz nem Bíblia. Numa pequena loja vendia-se açúcar, farinha, tecidos, petróleo, sal, botões, cadernos e lápis para ardósias; havia também um livro nunca lido de Max du Veuzit (John chauffer russo) mas mesmo assim a peça chave na formação do autor. Sala de espelhos - um livro a não perder.

(Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Assistência editorial: Sara Santos, Foto do autor: Eduardo Bettencourt Pinto, Design: Inês de Matos Machado)

[Livros e Autores 29]


domingo, 18 de fevereiro de 2024

«Os Açores nos versos dos seus Poetas» de Olegário Paz


Este livro de 550 páginas é o resultado de um espantoso trabalho de recolha semanal («Porque hoje é Sábado») que durou quase cinco anos até chegar à fasquia dos 400 poemas e dos 400 poetas. Olegário Paz (n.1941) organizou o volume por Ilhas (nove ao todo) e uma espécie de «décima Ilha» que é o conjunto de Poetas que mesmo não sendo das Ilhas pelo seu nascimento estão, em termos sentimentais, ligados aos Açores.

Vem ao caso o Poeta Carlos Faria (1929-2010) delegado de propaganda médica, agente cultural nas Artes e nas Letras, natural da Golegã, autor (entre outros) do livro «São Jorge – Ciclo da Esmeralda» (1992). Vejamos um excerto do poema «São Jorge-Pico»: «Diz o Poeta Almeida Firmino que na Ilha do Pico/ não há grilos! Ele é que sabe desta vida maravilhosa de cantores/ que se perderam no fundo dos vulcões/ e cantaram tão alto que perderam /as asas canoras nos fundos poemas da terra…/ O João sorri frontalmente e concorda/que os grilos não podem passar o canal de barco/ou a nado…/Os grilos, às vezes, embarcam de asas coladas /nos sacos e malas dos emigrantes/ e vão para a América: mas de lá/ não vêm notícias de tais cantores /que se perdem nas ruas de Boston ou São Francisco, /atropelados pelos automóveis!...»

Para cada conjunto de poemas surge uma nota de apresentação assinada por dez autores: João Saramago, Nuno Vieira, Maria Inês Vargas, Manuel G. Serpa, Frederico Maciel, Victor Rui Dores, Álamo Oliveira, Maria João Ruivo, Manuel Chaves e Miguel Real. 

(Editora: Letras Lavadas, Prefácio: Onésimo Teotónio Almeida, Posfácio: Artur Teodoro de Matos, Nota de contracapa: Dora Gago, Jardim Gonçalves, António Rego e Esaú Dinis)

[Livros e Autores 19]


sexta-feira, 7 de julho de 2023

«Montes da Senhora – Freguesia, Vida e História» de Victor Neto


O ponto de partida do livro de 172 páginas, 57 fotos, um mapa e vários anexos é, segundo Victor Neto (n.1949) «para quem nos quiser conhecer melhor, para reavivar a memória dos mais velhos e para quem nos suceder na procura do conhecimento dos seus antepassados.» Os Montes da Senhora são seis: Monte Baixo, Monte Meio, Monte Cima, Aldeia Cimeira, Monte Trigo e Monte Barbo. Logo na página 12 o poema de José Fernando Delgado Mendonça afirma «A minha aldeia /É feita de gente». O volume poderia ter como segundo título «A Terra e o Homem» pois regista uma dupla inscrição – Geografia e História. O mesmo é dizer público e privado. De um lado o lugar «No Pico do Galego se pode observar, em dia claro, a cidade de Castelo Branco e as serranias de Espanha a nordeste e sudeste, as serras do Muradal e da Gardunha e da Estrela a norte, a serra de Alvelos e o Picoto Rainho a nordeste, a serra da Melriça a oeste, a serra de São Mamede e o norte alentejano a sul.» Do outro lado o Homem que habita o espaço. Tanto pode ser lembrado por Baptista-Bastos («Eu gostava de conversar com os velhos, bebia com eles o vinho da terra e tentava apreender essa sabedoria milenar criada pelas rotinas desgraçadas do tempo. Recordo dois deles: o tio João Garrido e o tio Canhoto.») como por Bernardino Páscoa sobre o pai («Todos os soldados, polícias, guardas-republicanos em gozo de licença ou férias passavam lá por casa para assinar  o passaporte») ou Manuel Sequeira sobre o avô: «O oficial de dia era o responsável máximo pelo quartel mas confiava no cabo de dia e decidiu pernoitar em casa da namorada. Na noite da morte de Sidónio Pais o cabo de dia assumiu o comando do quartel e nunca mais se livrou da alcunha dada pelos companheiros – Comandante Beirolas». Sem esquecer a legenda da foto 57. «No já longínquo tempo das ceifas, os Homens ajoelhavam-se pedindo à Nossa Senhora do Pópulo a sua protecção para não encontrarem por lá doenças que naquele tempo eram letais. Muitos ficaram por lá.»

 (Capa: José Luís Ribeiro, Paginação: Gráfica 99, Revisão: Sérgio Fernandes)

 [Livros e Autores 11]


quinta-feira, 30 de junho de 2022

«A inscrição dos dias – Cartas para Q.» de Pedro Martins

 


Pedro Martins (n.1949) trabalhou na Banca e na edição de livros tendo colaboração na Revista Alentejo e nos jornais Diário de Lisboa, O Ponto, Notícias da Amadora, Diário do Alentejo, Notícias do Sul e Voz do Povo (2ª série). O prefácio adverte o leitor («livro breve que não é ficção, não é história com maiúscula e não é jornalismo») cabendo ao autor na página 70 uma declaração: «Tenho vinte e três anos, estou na guerra e triste. E também não permitirei que ninguém diga que estes são os mais belos anos da minha vida.» Esta citação de Paul Nizan abre espaço para referência a muitos escritores que o autor convoca apesar das 93 páginas: José Rodrigues Miguéis, Aragon, Manuel da Fonseca, Manuel do Nascimento, Antunes da Silva, Carlos de Oliveira, Fernando Pessoa, Jorge Amado, Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Daniel Filipe, Maiakovski, Nicolás Guillén e José Bação Leal mas não só.

O livro parte de uma experiência pessoal: «A Segunda Repartição, a PIDE militar, quis mostrar serviço e violou a correspondência sem brio profissional nem competência. Podiam ter feito desaparecer a carta mas preferiram dizer que a vigilância continua. Rasgaram o envelope, leram a carta, analisaram o conteúdo, talvez o tenham considerado inofensivo ou, mesmo, piegas e deixaram as folhas no saco do correio de Empada.» Mas atinge um olhar sobre a situação geral do País: «Não dá para recuperar a honra perdida dessa instituição que, há muito, constitui o pilar principal desse fascismo rústico, beato, de falinhas mansas, voz esganiçada, amaricada até, que à tortura chama «safanões dados a tempo» e ao campo de concentração, da morte lenta, do Tarrafal, candidamente chama colónia penal, tão bem corporizado por essa figura sinistra que nos chegou de Santa Comba com passagem pelo seminário e Universidade de Coimbra, esse António, esse Oliveira, esse Salazar, esse filho-da-puta» Nesse tempo (1971-1973) havia duas verdades, a oficial e a verdadeira. Oficial: «Por acidente com arma de fogo quando se encontravam de serviço no HMBIS faleceram 02 militares de C. Caçadores.» Verdadeira: Mortos 2 soldados por um outro soldado português internado em Psiquiatria no Hospital Militar de Bissau». O livro «Poesias e Cartas» de José Bação Leal tem um espaço próprio: «Mataram-no em Moçambique, no Hospital de Nampula mas a mãe não o deixou morrer: foi bater à porta dos amigos do filho a quem ele tinha escrito. Juntou cartas aos poemas dele que tinha resgatado do cesto dos papéis para onde ele os atirara e pediu um prefácio a Urbano Tavares Rodrigues.»

(Editora: Parsifal, Prefácio: Francisco Belard. Capa: Pedro Gil. Paginação: Augusto Nunes)

José do Carmo Francisco      [Um livro por semana 688]

 

domingo, 15 de maio de 2022

«Pensamentos inconjuntos» de Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro é especialista no estudo do espólio de Fernando Pessoa, tendo publicado sob sua responsabilidade obras deste poeta e pensador na Europa, nos EUA e no Brasil. O seu trajecto nos estudos filosóficos começou em 2011 tendo continuado em 2016 e 2017 (cinco livros ao todo) e tal como refere Cláudia Souza no prefácio «os seus aforismos dialogam de alguma forma com a filosofia do primeiro romantismo alemão.» O autor segue a ideia da Revista Athenaeum («Um fragmento tem de ser como uma pequena obra de arte») e os seus aforismos dialogam com o pensamento de (entre outros) Pascal, Fernando Pessoa, Angelus Silesius, Shakespeare, Kant, Goethe, Beaudelaire, Ortega & Gasset e Miguel de Unamuno.   O ponto de partida está na página 17 («O problema da ciência é que não pensa; o problema da filosofia é que só pensa») continua na 18 («A ciência procura explicações para hipóteses que não justifica; a filosofia procura refutar as hipóteses da ciência por meio de explicações igualmente injustificadas») para concluir na 20: «Perante as hipóteses da ciência e as explicações da filosofia só nos resta dizer como Francisco Sanches e, presumivelmente antes dele, Arcesilau de Pitane: “nem mesmo sei se nada sei”» O precário das conclusões e explicações percebe-se na página 25: «Nada deve aumentar tanto o sentimento de sem-sentido de todas as nossas explicações como verificar que afirmamos num dia aquilo que podemos negar no outro.» Entre a Arte e a Filosofia fica a força do aforismo: «A diferença entre arte e filosofis reside nisto: a arte não exige a verdade daquilo que constrói, enquanto a filosofia exige a verdade mesmo quando desconstrói.» E fica a definição de fragmento: «O fragmento funciona como um simulacro: remete para uma totalidade que não sabemos sequer se existe ou se se pretende que exista.» Conclusão prematura mas possível: «Talvez a salvação esteja na aceitação e fruição possível daquilo que os deuses têm para nos dar, quer existam, quer não.»  

(Edição: Subterrânea – Colectivo Literário, Prefácio: Cláudia Souza)

 [Um livro por semana 686]


domingo, 12 de dezembro de 2021

Para acabar de vez com a violência doméstica

Neste trabalho de «Ler e depois» como lhe chamou o ensaísta Óscar Lopes, recebo livros desde Agosto de 1978 quando comecei no «Diário Popular». Estes anos passaram num instante Um dos mais recentes livros que me chegou às mãos foi «Poemas para acabar com a violência doméstica» de Anne Quetzal, edição da Rosmaninho-Editora de Arte de Santarém. O título precipita em mim uma dissertação que engloba a chamada violência contra idosos – a que eu conheço melhor. Um certo jornalismo de castanholas e pandeiretas usa e abusa na Imprensa, na Rádio e na TV da expressão «violência doméstica» aplicada apenas e só a um dos lados da questão como se só existisse agressão da parte do homem contra a mulher ou do jovem contra o mais velho. No caso da chamada violência contra o idoso quero lembrar dois factos do meu conhecimento. Uma senhora de Penedono desloca-se com frequência com a filha e o marido para tratar de análises no Centro de Saúde onde a filha vive. Faz força e finca-pé para levar com ela uma galinha dizendo que «Os ovos do supermercado não prestam e só como ovos da minha galinha!» Claro que os tapetes do automóvel são obrigatoriamente lavados pois o cheiro e a porcaria são insuportáveis. Outro caso é o de um idoso que durante quatro anos recebeu a visita de um dos três filhos todas as segundas feiras para almoçar com ele. A recepção era invariavelmente esta: «Nunca esperei ser tão desprezado!» Com algum esforço se chega à ideia de que ele referia os outros filhos que estavam a trabalhar em Lisboa e não podiam deslocar-se numa segunda-feira de manhã. Conclusão provisória: a violência existe mas tem um sentido muito diferente do que as pandeiretas e as castanholas teimam em afirmar.      

[Crónicas do Tejo 296]


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Dissertação para uma fotografia a preto e branco na eira

Há um homem a sorrir que pega na joeira e, com toda a perícia, faz saltar o feijão e a sua palha para que o vento os separe no ar e assim o regresso à joeira seja apenas dos feijões depois de a palha ter sido levada pela brisa. Esse gesto tem sido repetido ao longo do tempo mas as mais recentes gerações já não o dominam sem sequer o lembram; basta neste caso uma fotografia a preto e branco tirada por uma jovem arquitecta portuguesa nascida em Lisboa no ano de 1978. O protagonista da fotografia nasceu em 1927 e é o avô paterno da autora deste retrato em movimento a aproveitar a brisa do Oceano Atlântico que vem do lado de São Martinho do Porto para limpar a palha do feijão em Santa Catarina. Os tempos modernos alteraram essa gramática de sementeira e colheita, esse calendário da terra entre a chuva do Inverno e o sol do Verão, essa regularidade muito antiga e, afinal, de todos os anos; hoje o feijão aparece nas prateleiras das grandes superfícies em latas com origem na China ou na Tailândia. Passa-se com o feijão o mesmo que acontece com os caracóis: descobriram alguns que os mais baratos são os de Marrocos e, por isso, dão mais lucro a quem os cozinha com cebola e orégãos para os vender em pratinhos nas esplanadas ou à beira do mar. O sabor perdeu-se mas o lucro aumentou em termos exponenciais. Apanhados ao romper do dia nas searas e nos canaviais à beira das linhas de água, os velhos caracóis da minha juventude tinham um travo genuíno que se perdeu para sempre com a chegada de toda esta modernidade comercial. Não há nada a fazer contra isso. Basta o pranto e a lamentação desta crónica povoada de nostalgia e de palavras.       

[Crónicas do Tejo 294]

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

As buganvílias de Marta na ADECO

Passaram já trinta e quatro anos mas tudo permanece igual no recreio da ADECO com as paredes caiadas e os pneus dos meninos em sossego mas por pouco tempo. As buganvílias de Marta são uma afirmação do calendário; o seu esplendor está no coração do mês de Maio prestes a despedir-se do Mundo entre o Dia da Mãe e as primeiras cerejas tão vermelhas como as flores. Aqui, no recanto do recreio dos meninos, só os pneus podem dialogar com a exuberante beleza das buganvílias. Com uma diferença: os pneus precisam de perícia, de velocidade e de destreza mas as flores não precisam de nada; elas já são só por si o maior valor acrescentado à luz da manhã no Jardim Infantil.

Na grande seara de lágrimas e de sangue pisado, de saudade e de distância, as buganvílias de Marta na ADECO são mais que uma imagem e uma memória, são o adubo da nova sementeira que todos os anos se repete no pátio onde os meninos velozes correm ao lado dos velhos pneus. Depois do frio e da chuva no Inverno vem o Sol e o calor da Primavera. Como se fosse também um relógio, o tempo dá a sua luz ao esplendor das buganvílias. É assim como a Música, uma melodia com princípio, meio e fim mas que, mesmo depois do último acorde, não se perde mesmo quando se deixa de ouvir. E continua a cantar, como se fosse um leve sussurro, no coração de cada um de nós. (escrito sobre uma foto de Ana Isabel)

[Crónicas do Tejo 286]


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Lugar de Ser ou 70 anos em 20 linhas

 


A vida é um mistério, não um negócio. Nasci a 13-2-51 em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em casa dos meus avós maternos e os meus pais só casaram no Verão – a casa não estava pronta. Fui pinto balseiro. Tive uma infância feliz: o dinheiro era escasso mas sobejava ternura e não havia preço para os beijos ou para as lágrimas. Saltei do carro de bois em 1956 na aldeia para o eléctrico de Lisboa em 1966 e para o avião em 1976 quando fui a Londres. Tirei o Curso Geral do Comércio porque o tempo exigia: «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu». Na véspera do dia em que comecei a trabalhar morreram 25 rapazes na Serra de Sintra. O meu destino sempre esteve ligado aos outros; nunca me quis separar e fingir que podia fazer tudo sozinho. Vivi na minha terra, no Montijo, em Vila Franca de Xira e em Lisboa. Casei em 1977, os meus filhos nasceram em 1978, 1981 e 1985. Há cem anos entre o meu avô materno e o neto mais velho. O meu primeiro livro (1971) foi produzido a stêncil, o segundo 1981 foi composto a chumbo, os posteriores já foram a computador. Meu pai começa a trabalhar com 7 anos, eu com 15 e os meus filhos com 25. Há um progresso mas sem esquecer as palavras de Raúl Brandão: «Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior». Em 2005 acabei de pagar a hipoteca de uma casa com janelas para o Tejo. Há destinos simétricos: eu tenho duas irmãs e o meu filho tem duas irmãs. A vida é um mistério, nunca um negócio. Fui delegado sindical de 1972 e 1996, tenho uma reforma pequena mas posso sorrir: todos os dias morre gente que chamava Marcha do Benfica ao Hino da Eurovisão.

[Crónicas do Tejo 274]

(Óleo de Wislow Homer)


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O fascismo ou «tirou a carta mas vai puxar terra para os pés»

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da sua roda pedaleira em descanso. Para os outros era apenas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas até Santarém para tirar a carta de condução. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado de Santarém. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de Domingo anunciando futuros casamentos, «profissão jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos Domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de ligeiros, pesados e serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto da Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguiu tirar a carta de condução, pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/Autoridade, em Santa Catarina, uma pequena aldeia da Estremadura, que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».   

[Crónicas do Tejo 240]

(Fotografia da Colecção de JCF)


domingo, 22 de novembro de 2020

Saudação breve a Ana Carolina


Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos a fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras por fim encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal, sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tu não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa, oh! Ana Carolina tu não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo, naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer, um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de júbilo. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.      

[Crónicas do Tejo 239]

(Óleo de Gary Melchers)


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O cais dos soldados em Londres


Estamos em Blackheath. Na Morden Road passamos à porta da casa do compositor Charles Gounod que aqui viveu nos tempos da guerra entre a França e a Prússia. Vinha à tarde no comboio de Charing Cross e alugava uma carruagem à porta da estação dos comboios. Mais à frente, no planalto, ficamos a saber que a actual A2, um dos itinerários principais de Inglaterra foi, em tempos recuados, a estrada romana para Canterbury. Henrique VIII, entre pompa e circunstância, aqui recebeu Ana de Cléves como futura esposa, no ano de 1540. Por sua vez Wat Tyler juntou em 1381 uma assembleia de camponeses revoltados nesta mesma estrada. Hoje o coração desta imensidão verde recebe mães com crianças, passeadores de cães, papagaios de papel, carrinhos de choque e jogatanas intermináveis de futebol –muda aos seis, acaba aos doze. Os circos, tal como as caravanas de ciganos, já são mais raros. Foi neste relvado sem fim à vista que nasceram alguns clubes de rugby e de futebol. Um deles, o Blackheath Football Club, fez parte dos pioneiros que, em 1863, na Freemason´s Tavern, criaram as leis do moderno futebol, tornando a sua prática independente do rugby. Cruzando em diagonal o Greenwich Royal Park, cedo chegamos à zona do mercado a funcionar em grande aos sábados e domingos. Muito perto das antigas cozinhas onde os velhos marinheiros, sem família e sem dinheiro, vinham às sopas reais, surgem as mais inesperadas lojas. De antiguidades, lhes chamamos em Portugal. São coisas ditas efémeras: mapas, cartazes, postais ilustrados, livros antigos, fotografias, discos LP e EP, pequenos móveis úteis às costureiras antigas, no tempo das libras se dividirem em xelins e em dinheiros. Nessa rua descubro o conceito activo e prático de fundo editorial: compram-se cinco livros por cinco libras, cada livro mais barato do que uma viagem de autocarro. Vejamos um conjunto: uma história breve do Jazz, um livro da Penguin sobre pássaros, uma biografia de Frank Sinatra, a vida do guarda-redes mais lendário do vizinho Charlton Athletic e um guia da Londres, bairro a bairro, de Barnet e Merton, de Ealing a Lewisham.  Mas apetece voltar atrás como se o efémero se pudesse suspender e transformar em permanente, algures numa estante. Não resisti e trouxe uma gravura mostrando Portugal como um leão e Espanha como uma mulher. Gravura antiga, percebe-se pelas bandeiras. Século XIX, sem dúvida. Há lojas de roupa em segunda mão, boa e barata, devidamente limpa e reclassificada que as pessoas já se habituaram a procurar uma vez por semana para ver as novidades. Os lucros dessas lojas revertem para apoio da investigação e da luta contra o cancro. Os ingleses de aqui ao pé da porta gostam de conservar os objectos do passado. Em Blackheath, Age Exchange é o nome desta loja especial na qual se reproduz o ambiente de um estabelecimento comercial dos anos 40, com balcão, balanças e moedas da época da II Guerra Mundial. Já passei férias em Southwark, na City (Barbican) e em Blackheath; faço sempre aproximações a Lisboa. A Southwark chamava Terreiro do Trigo, ao Barbican chamava Gulbenkian e a Blackheath chamo Restelo. No primeiro caso o rio ali mesmo à beira, no segundo os jardins e os prédios com o brutalismo dos anos 60 e 70, no terceiro caso as grandes avenidas com casas bonitas e árvores frondosas. Há uma comum curiosidade. Entre o Terreiro do Trigo e Santa Apolónia havia em temos o Cais dos Soldados. Tal como em Greewich havia o cais de onde partiam jovens marinheiros, soldados da Rainha, os mesmos que anos mais tarde, sem família e sem dinheiro, terão a sua sopa diária nos edifícios da Escola Naval. É dessa rua, do outro lado dessa rua de Greenwich que trago como memória de uma memória, a gravura onde Portugal é um leão e a Espanha uma mulher.

     

terça-feira, 6 de outubro de 2020

«A luz de Pequim» de Francisco José Viegas

Neste seu nono livro com o inspector Jaime Ramos em figura principal, Francisco José Viegas (n.1962) define o submundo da noite portuense como «uma guerra civil na cidade» e junta, como numa oração, dois Mundos: o dos Homens e o dos Deuses. Entre o precário da Vida e o inevitável de Morte, só o Amor resolve e abre uma luz sobre o Mundo. Tal como na Contabilidade, o escritor assina o Inventário e o leitor estabelece o Balanço que se divide em Activo, Passivo e Situação Líquida. Não por acaso o escritor argentino Jorge Luís Borges se refere a Moncorvo como a terra dos seus avós. Sempre que alguém invoca o seu nome em qualquer parte do Mundo, é Portugal que é lembrado e referido. Não esquecer: foi um apaixonado pela literatura policial. O livro parte de uma descrição de um crime em Moncorvo mas a sua geografia não se limita a Trás-os-Montes e chega a Pequim: as páginas375 e 395 referem de modo explícito «a luz da Pequim».

Jaime Ramos surge na página 15 como «um monumento classificado como velharia que mais tarde ou mis cedo seria removido o seu pedestal e substituído por um halograma» e na 27 como «um homem tolerado, uma sombra do que já fora, uma respiração ofegante que subia degraus numa casa deserta e que conhecia a penumbra da suspeita, uma desconfiança que as novas gerações usavam como método de gestão de recursos humanos» para na 98 ouvir alguém dizer: «Não fazes os relatórios a horas, confias no destino, não respondes aos pedidos de informação, és um empecilho, fazes o que te apetece» e termina na págian 247 a dizer: «Eu não trabalho em homicídio para mudar o mundo nem para fazer do mundo um lugar melhor. É mais para castigar os criminosos e cumprir uma função. Crime e castigo. Punição. Vingança.»

Não é possível resumir um livro de 396 páginas em meia dúzia de linhas mas fica o firme convite à leitura. Mesmo que na página 176 apeteça dizer em voz alta ao «artista» que fala de escritores e fascismo esta coisa elementar: em 1965 a PIDE destruiu a Sociedade Portuguesa de Escritores na Rua da Escola Politécnica por causa do Prémio atribuído ao escritor Luandino Vieira pelo livro «Luanda». Natural de Ourém e José Martins da Graça de seu nome. Mas isso é outra coisa e um livro de ficção vive dessas falas de gente desalinhada e distraída. Uma nota final para a página 395 onde o nome do Bairro em Pequim significa «voltado para o sol» mas Beto e Roberto da Ganga foram encontrados com o rosto voltado para o chão «de poeira e folhagem envelhecida.»

(Edição: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa, Foto: Getty Images)

 [Um livro por semana 653]

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

«Mata – Retratos à la Minuta» de Manuel Barata



Manuel Barata (n.1952) junta neste livro de 100 páginas 46 retratos de pessoas naturais da freguesia da Mata ou a ela ligadas. Na página 7 do livro explico num texto de 6-12-2018, de modo resumido, o que sinto pelo livro: «Habituado por quarenta anos de jornalismo dito cultural a resumir, sintetizar e simplificar, vejo neste livro uma autobiografia na terceira pessoa do plural. Parece contraditório mas não é. Porque, contando as histórias dos outros, o autor conta-se a si próprio, integra-se e passa a fazer parte de um todo. O mesmo é dizer uma aldeia só com uma estrada para ir e para vir, os seus conflitos, palavras, sacrifícios, alegrias, ócios e negócios, vida e morte. Em ponto grande. Que é o ponto da paixão. Manuel Barata junta no seu trabalho a herança de dois mestres da nossa Literatura: Camilo e Eça. Do primeiro aquela certeza de que a poesia não tem presente – ou é sonho de futuro ou saudade do passado. Do segundo outra ideia, a de que as ocupações humanas tendem a explorara o Homem mas contar histórias é outra coisa - entretém o Homem o que, quase sempre, equivale a consolá-lo». Dito de outra maneira: uma viagem pelo Mundo da Mata (Castelo Branco) na segunda metade do século XX, uma viagem também ao lado de dentro da alma, uma aldeia em radiografia sentimental.

(Edição: RVJ Editores Lda, Design: André Antunes, Foto: Irene Felizardo)

[Um livro por semana 650]

terça-feira, 9 de junho de 2020

Saudação breve a Ana Carolina


Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos a fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras por fim encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal, sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tu não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa, oh! Ana Carolina tu não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo, naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer, um anúncio de vida e de alegrai contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de júbilo. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.      

[Crónicas do Tejo 239]

(Óleo de Gary Melchers)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Baptista-Bastos - Das capuchas, das piçarras e dos calhabardais



Esta crónica é dedicada a Cecília Milheiro e Manuel Sequeira. A primeira porque diz sempre «bem haja» e faz do balcão da Farmácia na Estrada de Benfica um altar de paz onde as angústias de quem leva na mão uma receita se dissipam devagar; o segundo porque sendo taxista e autor de um Blog («o fogareiro») viaja pelas ruas de Lisboa como quem corre pelos calhabardais dos Montes da Senhora que são seis: Aldeia Cimeira, Monte de Cima, Monte do Meio, Monte de Baixo, Monte do Trigo e Monte do Barbo. A crónica de Baptista-Bastos surge no livro «As palavras dos outros» (Editorial Futura) e começa com estas palavras: «Escrevo no balcão da casa das piçarras negras, no último dos meus dias beirões. O vento da tarde arrasta consigo odores de urze velha e de pinhos novos – e percebo, de repente, que estou a despedir-me. Dobro os olhos para leste, onde a serra de Moradal se rasga num desfiladeiro logo baptizado de Ocreza e a ideia de ficar impõe-se-me de tal força que a ideia de partir vira num sentimento penoso. Pelas taipas de janela da loja, ao lado, saem os fumos do meu jantar da tarde; a miúda Martinha está a observar-me, em silêncio, do terreiro coberto de mato; Chico Canhoto veio com as bestas dos campos de arroteio e ofereceu-me uma saudação fraterna e sorridente; ontem, no largo junto à fonte, vi bandos de raparigas tristes, sem rapazes, na mesma hora em que Carminda, viúva de um vivo que reside temporariamente em Lisboa, depunha flores pobres na campa rasa do filho Armando, morto de tétano, com 2 anos – e, ao fazer o balanço das minhas recordações, percebo, de repente, que estou a despedir-me. Despeço-me destas terras poderosas, verdes como esmeraldas, destas terras cerdosas de cardos, de fetos, de raízes, de xistos – não fecundadas pelo braço jovem que está longe.»         
         
[Crónicas do Tejo 154]

quarta-feira, 4 de março de 2020

O rumor do Mundo em Bernardo Matias



Nasci em Santa Catarina numa casa de músicos. A casa já não existe mas as memórias não se perdem. Minha avó tinha a alcunha de «Flauta» e meu avô tocava trompete; começou com um cornetim de 1923 que hoje em 2020 ainda guardo à entrada de casa. A família Catarinense estava na Filarmónica: meu avô José Almeida, meus tios Álvaro e Armindo, meu tio Joaquim Freire, meu primo Luís Freire, meus primos direitos Reinaldo e Luís Almeida. INICIAIS, o meu primeiro livro individual, foi escrito há 40 anos e publicado há 39. Integra sete poemas dedicados a compositores e intérpretes: Vivaldi, Handel, Keith Jarret, Maria Farandouri, Mikis Theodorakis, Paul Williams e Sandy Denny. Isto vem a propósito do novo CD de Bernardo Matias (n.1996) oferecido pelo primo Luís Almeida junto ao cemitério de Santa Catarina. Pode parecer insólito mas não é: tanto a Música como a Poesia procuram juntar de novo tudo o que a morte separou. Neste caso do CD de Bernardo Matias basta pensar que Isaac Albéniz (1860-1909) vive de novo numa das faixas (Astúrias) do presente trabalho que integra onze temas. O CD junta ao som do saxofone, o piano de João Lucena e Vale na interpretação das peças de Daniel Bernardes, Sérgio Azevedo, Pedro Francisco, Nuno Roque, Daniel Schvetz, Francisco Chaves e Albéniz num arranjo do próprio Bernardo Matias. Não sou crítico musical mas vejo nesta viagem de peças musicais um rumor do Mundo, o mesmo Mundo que vivi de 1951 a 1957 quando se ouvia o comboio de São Martinho do Porto durante as vagarosas sementeiras desse tempo. Ou o oceano a bater nas rochas do lado de lá da baía amena. Os pioneiros de 1428 que se desligaram do Dom Abade de Cister e fizeram uma igreja nova na nossa terra devem estar orgulhosos de Bernardo Matias. Eu sou um obscuro publicista e também estou.       

[Crónicas do Tejo 221]