Em resumo 68
Ruslam Botiev o artista de Alfama veio da Mongólia
Lá pelos idos de 1982 o
professor Jacinto do Prado Coelho (1920-1984) disse-me à porta do seu gabinete
na Fundação Gulbenkian: «Você com os artistas não vi ter problemas mas tenha
muito cuidado com os figurões!». Só muito mais tarde percebi que à volta dos
artistas circulavam alguns figurões a tentar sacar o máximo fazendo um
investimento mínimo. Conheci fulanos que obtinham das tipografias dois
orçamentos para a publicação de um livro mas um tinha os dados correctos e o
outro estava com valores em duplicado. O figurão dizia ao artista que pagava
metade da despesa na tipografia mas quem pagava tudo era o artista. Porque a
factura respeitava o orçamento original que o figurão tinha guardado na sua
gaveta. Passava por benemérito mas era um explorador da boa-fé dos artistas. Um
poeta esteve doze anos sem publicar e e embarcou nessa aventura porque sentia a
falta de ver um livro seu na montra das livraria. Ruslam Botiev é outra coisa,
é um artista. O desenho que fez a propósito da primeira crónica do meu livro «O
passado é para sempre» (Editora On y va) é um trabalho notável sobre a Praça de
São Marcos em Veneza, onde pela primeira vez na vida, vi «música» ao lado de
café e de gelados na factura do famoso café Florian. Um dia no seu atelier
frente à igreja de São João da Praça em Alfama disse-lhe que ele era uma pessoa
especial. Sorriu e respondeu: «Espacial era o meu irmão que foi um dos
cosmonautas da equipa de Yuri Gagarin. O irmão de Ruslam Botiev morreu há
poucos anos com o COVID 19; já Yuri Gagarin viveu entre 1934 e 1968 mas ficou
na História porque foi o primeiro homem a viajar no Espaço. Esta crónica é uma
maneira modesta de dizer obrigado. A vida não é só feita de lágrimas e de
sangue pisado; este desenho é uma maravilha e nasceu da leitura de uma das
minhas crónicas. Já ganhei o dia.
José do Carmo Francisco

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