Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de julho de 2026

SANTO CRISTO ÁLBUM DE EMOÇÕES E ROTEIRO DE RAZÕES - José Andrade


SANTO CRISTO ÁLBUM DE EMOÇÕES E ROTEIRO DE RAZÕES - José Andrade

Este livro de 114 páginas (Edição Letras Lavadas) integra uma dupla inscrição: é um dicionário actual e é uma história passada. Dito de outra maneira: apresenta 32 verbetes que vão de Andor e Caloura a Tesouro e Vigília e também uma separata histórica comemorativa dos 250 anos da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Cada entrada de José Andrade tem a correspondente imagem. Vem a propósito recordar os nomes dos fotógrafos convocados – José António Rodrigues, Mário Pereira, Arturo Mari e Orlando Medeiros. A separata inclui o texto do voto de congratulação da Assembleia Regional em Abril de 2015, os primeiros Estatutos em Abril de 1765, os 184 primeiros irmãos, os 8 últimos provedores e os 338 actuais irmãos à data de 2015. Este livro foi editado em Abril de 2015 mas reimpresso em 2017, 2018 e 2020. A página 40 integra a partitura do Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres e como convite à leitura fica a citação da letra: «Glória a Cristo Jesus, glória eterna/Nosso Rei, nossa firme esperança/soberano que os mundos governa/e as nações recebem por herança/Com o manto e o ceptro irrisório/sois de espinhos cruéis coroado/Rei da dor, uma vez no Pretório/Rei de amor, para sempre adorado/Combatendo por vossa Bandeira/que no peito trazemos erguida/alcançamos a paz verdadeira/e a vitória nas lutas da vida/Só a Vós com inteira obediência/serviremos com firme vontade/porque em Vós há justiça e clemência/porque em voz resplandece a verdade/ Concedei-nos por graça divina/que sejamos um povo de eleitos/firmes crentes na Vossa doutrina/cumpridores dos Vossos preceitos». Mais do que um livro, esta é uma notável fotobiografia que junta de modo feliz emoção e razão. JCF     


quinta-feira, 9 de julho de 2026

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -Fascículos de Poesia


NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -Fascículos de Poesia

Quase setenta anos depois do primeiro fascículo destas «Folhas de Poesia» publicados na cidade do Porto por um núcleo fundador que englobava Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Ernâni Melo Viana, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto resolveu em boa hora publicar   em edição fac-similada os nove fascículos publicados entre 1957 e 1962. Segundo o ensaio de António Carlos Cortez «as Notícias do Bloqueio albergaram nas suas páginas múltiplas vozes, nacionais e estrangeiras, sendo que, como confirma cada número, mais do que poetas de poemas se tratava». Num volume que pode ser lido como o décimo da série surgem poemas de autores de hoje, a saber: Ivo Machado, Carlos Leite, Inês Lourenço, José Manuel Mendes, José Viale Moutinho, Manuel Silva-Terra, Amadeu Baptista, Francisco Duarte Mangas, Maria Antónia Bastos, José da Cruz Santos, José Carlos Costa Marques, José Manuel Teixeira da Silva, Júlio Roldão, João Pedro Mésseder, Alexandre Teixeira Mandes, Eugénia Soares Lopes, Augusto Baptista, Ricardo Guimarães, Domingos Lobo, A. Dasilva O., António Carlos Cortez, Luís Filipe Castro Mendes, Aurelino Costa, José Queiroga e José Éfe. Este conjunto de poemas sobre Gaza (em 2025) faz a ligação ao poema sobre Hiroxima (em 1945) de António Rebordão Navarro: «quero que todos saibam da morte que durou 200 dias/ quero que a lembrem com o coração e os músculos/quero que no seio guardem o seu nome/Aikichi Kuboyama». O grafismo, os desenhos, as xilogravuras e o linóleo são de Álvaro A. Portugal, Augusto Gomes, Eduardo Luiz, Altino Maia, Querubim Lapa, Rui Knopfli, António Bronze, Domingos Pinho, Charles Withe, Francisco Relógio e Ana Biscaia. JCF   

      

quarta-feira, 27 de maio de 2026

"Contributo para o movimento reorganizativo do Proletariado" de Vidaul Ferreira


Vidaul Ferreira

Contributo para o movimento reorganizativo do Proletariado

Vidaul (Froes) Ferreira (n.1948) veio ao Mundo no início da NAKBA na Palestina com o assassinato do diplomata sueco enviado especial da ONU e o massacre de Der Iassine pelos grupos terroristas Stern, Irgun e Lehi além da entrada em vigor da Declaração Universal dos Direitos do Homem. O livro de 73 páginas (Editora Libertação, design e paginação de João Aldeia) é um depoimento comovido que começa com os primeiros passos do autor: «a minha meninice foi passada em Angola; nasci em Vila Franca de Xira mas fui para lá com três anos e regressei com quase treze em meados de 1961. Assisti a acontecimentos que me impressionaram muito. Regressámos a Portugal por decisão de meus pais quando começou abertamente a guerra colonial em Angola». O texto recorda a fundação do MRPP: «A reunião teve lugar em Benfica no fim de semana de 18 de Setembro de 1970 em casa de Maria José e Filipe Rosas; dormimos lá duas noites, a reunião decorreu de sexta à tarde até domingo à noite. Foi ali decidido o nome definidor Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado MRPP». Há uma nota final sobre o tempo actual ao tempo da escrita do livro – 2018: «Entre socialismo e capitalismo mais de noventa por cento da Humanidade escolhe o socialismo; o socialismo é uma necessidade histórica». Além de Vidaul Ferreira (ele mesmo) e de figuras da política e da cultura como Saldanha Sanches, Vítor Dias, Paula Godinho ou Amadeu Lopes Sabino, as páginas do livro recordam alunos da Escola Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira como Álvaro Monteiro Rodrigues Pato, José Carlos Pereira Lilaia, José do Carmo Francisco e Horácio José Cecílio Rufino que, mesmo morto no Registo Civil, continua vivo no coração dos rapazes da nossa turma. JCF   


segunda-feira, 4 de maio de 2026

PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA - de Luís Pequito

 

Luís Pequito

PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA

As dezanove fotografias que integram o corpo deste livro de 93 páginas escrito por Luís Pequito (n.1966) podem levar o leitor a considerar este trabalho como uma fotobiografia. A edição e o grafismo são do Município de Proença-a-Nova e a nota de contracapa é de João Lobo. O livro organiza-se em seis blocos de texto: O ti Chico Boieiro, O ti Manuel Galo, O Domingos da Murteirinha, O Manuel Isaías, O Padre Armando e Histórias à lareira. Mesmo quando parte de um retrato pessoal, há sempre o cuidado por parte do autor de o envolver nas coordenadas do tempo e do espaço geral. Neste livro a paisagem não é mais importante do que o povoamento. Na linha de Liev Tolstói (1828-1910) para quem «a aldeia é a base para chegar ao Mundo», estas narrativas cruzam o particular e o geral, o público e o privado, o real e o simbólico, a crença e a dúvida, a luz e a sombra. A página 29 do livro adapta uma quadra de Rosalia de Castro (1837-1885) trocando a palavra Galiza por Pergulho: «Este parte, aquele parte/E todos, todos se vão/Pergulho ficas sem homens/Que possam cortar teu pão». Embora não seja portador de carteira profissional de jornalista, o autor leva a cabo neste livro uma reportagem sentimental não só do tempo mas também do espaço do Pergulho. Como o Jornalismo é uma disciplina da Literatura, este livro é, na verdade, (tal como um poema, uma crónica, um conto, uma novela, um romance, um ensaio ou uma peça de teatro) a possibilidade alcançada de ligar de novo tudo o que a Morte separou. JCF


terça-feira, 14 de abril de 2026

O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750) - Filipe do Carmo Francisco


FILIPE DO CARMO FRANCISCO

O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750)

Com o subtítulo de «Guerra e Cultura na formação de uma imagem pública setecentista», este livro de 300 páginas inclui no seu conjunto várias ilustrações a cores (nove) e a preto e branco (uma) além de (da página 202 à 300) várias notas, anexo documental, bibliografia e índice remissivo. Onze quadros e sete mapas completam o conjunto. Da página 16 à 201 surge o texto do ensaio. O autor (n.1981) abre o livro com uma frase exemplar: «Clio, a Musa da História tem na mão um papiro para lembrar que o principal modo de registo da Memória é a palavra escrita». Por outras palavras - nem lenda nem fantasia. D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756), Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo Novo (1744) e Marquês de Alona (1748) casou em 1715 com D. Maria de Lencastre filha dos Condes de Vila Nova de Portimão e foi mais tarde Vice Rei de Índia Portuguesa entre 1744 e 1750. Desempenhou vários cargos de relevo tanto em termos militares como políticos. (Editora Tribuna da História, Patrocínio Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e Comissão Portuguesa de História Militar, Editor Pedro de Avillez,Capa Maia Moura Design, Revisão Manuel Amaral). JCF       


sábado, 11 de outubro de 2025

«Os nossos heróis do Desporto» de Rui Miguel Tovar


Este livro de 119 páginas ilustrado por Andrea Ebert conta 50 histórias de 51 figuras do Desporto em Portugal: Alexandre Yokochi, Armando Marques, Carlos Lopes, Carlos Resende, Cristiano Ronaldo, Diogo Ganchinho, Duarte Bello, Edite Fernandes, Elisabete Jacinto, Emanuel Silva, Eusébio, Fernanda Ribeiro, Fernando Bello, Fernando Gomes, Fernando Pimenta, Figo, Filipa Martins, Frederico Morais, Fu Yu, Gustavo Lima, Hugo Chapouto, João Sousa, Joaquim Agostinho, José Mourinho, Livramento, Luciana Dinis, Madjer, Marcelino Sambé, Marco Freitas, Michelle Brito, Miguel Maia, Miguel Oliveira, Naide Gomes, Nelson Évora, Nuno Delgado, Obikwelu, Pedro Fraga, Peyroteo, Ricardinho, Rosa Mota, Rui Bragança, Rui Costa, Sandra Bastos, Sérgio Paulinho, Telma Monteiro, Teresa Bonvalot, Tiago Pires, Ticha Penicheiro, Tomaz Morais, Vanessa Fernandes e Vítor Hugo. A explicação é que Duarte e Fernando Bello são irmãos. Nuno Delgado (n.1976) está na página 82: «Como é uma criança com energia para dar e vender, os pais inscrevem-no na Casa do Benfica de Santarém, onde vive. Rapidamente chega a tricampeão nacional.» Para Diogo Ganchinho a página 22: «Nascido e criado em Santo Estevão, o atleta dá os primeiros passos aos 6 anos no meio rural de uma vila pertencente ao concelho de Benavente. O Clube de Futebol Estevense tem apenas um minitrampolim e um colchão». Sobre Cristiano Ronaldo lê-se na página 20: «A sua vida já deu dois filmes e uma série interminável de livros. Ronaldo é Aquário. Como Eusébio, aliás.» Se o livro tivesse outra disponibilidade poderia integrar António  Bessone Basto, Joaquim Fiúza, Francisco Rebelo de Andrade, José Manuel Quina, Mário Quina, Hugo Rocha e Nuno Barreto. Entre outros, claro. Um belo livro.

(Editora: Nuvem de Tinta, Prefácio: José Manuel Constantino, Edição: Diana Garrido, Revisão: Cristina Correia, Paginação: Maria Alves, Capa: Pedro Aires Pinto)

[Livros e Autores 32]

 

terça-feira, 22 de julho de 2025

Contributo para a História do Clube Futebol Benfica

 


Domingos Estanislau (n,1946 - Ferragudo) foi presidente da Direcção do Clube Futebol Benfica entre 1988 e 2022. A partir do conhecimento profundo da vida do Clube, escreveu uma viagem ao passado da Instituição (fundada em 1895) que envolve a História geral do Clube mas também o perfil pessoal de muitos atletas de diversas modalidades que inscreveram o seu nome na História do Desporto em Portugal. Francisco Lázaro, Olivério Serpa, Fernando Adrião, Sidónio Serpa, Torcato Ferreira, António Livramento, Aurélio Pereira e Artur Correia são um exemplo de quem saiu deste Clube para a posteridade. Num registo diferente, o livro recorda figuras que atingiram patamares de alto nível em diversos sectores quer como jogadores, quer como dirigentes, treinadores ou jornalistas: Carlos Pereira, Paulo Bento, Silveira Ramos, Carlos Freitas, Paulo Garcia, João Fonseca, Jean Paul e Diogo Luís. O livro tem 316 páginas e foi apresentado por Sidónio Serpa no Palácio Baldaya na Estrada de Benfica no dia 19-7-25 perante uma assistência numerosa onde registámos (entre outros) José Peseiro, Shéu Han, João Barnabé, Silveira Ramos, Augusto Baganha, Carla Couto, Edite Fernandes, Helder Campos, Miguel Pacheco e Bernardo Ribeiro (Jornal RECORD). Na página 203 o autor faz uma revelação curiosa sobre o facto de ter sido treinador interino de uma equipa do futebol juvenil do seu Clube: «Costumo dizer aos meus amigos que fui o primeiro treinador do Mundo a jogar com três centrais. E, bem vistas as coisas, até é verdade, as equipas na altura jogavam com 4 defesas, 3 médios e 3 avançados». As 31 fotos a cores tornam este livro uma verdadeira fotobiografia do Clube. 

(Editora Espaço Ulmeiro, revisão Rita Guimarães, capa e grafismo Armando Cardoso, prefácio Ricardo Marques). O livro integra textos (entre outros) de Pedro Macieira, Jorge Marques da Pastora, Mimoso de Freitas, Nuno Markl, Vitor Cândido, David Pereira e Aurélio Pais.

  

segunda-feira, 16 de junho de 2025

«História do Sporting Clube de Portugal» de Luís Augusto Costa Dias com Paulo J.S. Barata


Com o subtítulo de «Uma nova abordagem das origens aos anos Alvalade» este livro de 254 páginas tem o ponto de partida na página 12: «Esta História do Sporting Clube de Portugal é, a vários títulos, nova, antes de mais porque ao inserir a história do clube na história da cultura e do desporto em Portugal, a inscreve na Nova História Cultural, que se coloca no social e radica a análise de factos, pessoas e instituições nos contextos mais amplos das sociedades. Apesar de se tratar de uma nova abordagem, não se pretende fazer aqui uma reescrita de história do Sporting, antes a sua renovação e aperfeiçoamento.» O facto de esta «era» da vida do Clube ser chamada «Anos Alvalade» assenta em Salazar Carreira, conhecido atleta e dirigente que escreveu o seguinte em 1922 no Boletim do SCP: «Quando um dia se escrever a história do nosso clube, já cheia de páginas de glória, ligando intimamente a sua vida à vida do desporto português, salientar-se-á formidavelmente a influência indirecta de José Alvalade no desenvolvimento do desporto nacional.» Afirma-se na página 61 «José Alvalade não foi apenas um criador de instalações desportivas; foi sobretudo um excelente organizador, obstinado, rigoroso, meticuloso. Foi ainda um conceptualizador, um empreendedor e um concretizador de planos. As suas ideias veiculam uma nova noção de desporto e de prática desportiva.» Eis uma citação do seu texto de 1910: «O carácter português é orgulhoso e sobretudo pouco paciente. O seu desideratum é conseguir em pouco tempo, ou para ser mais exacto, é conseguir mais do que pode ser.» Do Sport Club de Belas em 1902 ao Campo Grande Foot-ball Club em 1904 e ao Sporting Clube de Portugal em 1906, é uma «viagem» a não perder.       

(Editora: Contraponto, Edição: Paulo Morais e Raul Couceiro, Revisão: Luísa Pinho e Cristina Dionísio, Design da capa: Diana Cordeiro)

 [Livros e Autores 30]


terça-feira, 31 de outubro de 2023

«O quarto segredo de Fátima» de Mário Rui Silvestre


Mário Rui Silvestre é autor multifacetado: contos («Do rio à margem»), romances («Para a morte não ter razão»), poemas («Ribaterra»), historiografia («As gloriosas máquinas do pão») e ensaio («Em torno de Camões») por exemplo. Neste seu recente livro de 472 páginas, o autor organiza, em 16 capítulos, uma narrativa que cruza vários  registos. Um deles é o policial («Onde é que trazes a bomba!?») a propósito do assalto ao automóvel do narrador que transportava um manuscrito. O outro é o histórico («nesta húmida manhã de 13 de Março do ano de Cristo de 1147»). O ponto de partida é uma ideia («Hoje Fátima seria impossível») e uma certeza: «Fátima é uma narrativa compósita, construída, a maior parte, depois de 1930». Esta data está ligada à morte do Patriarca Mendes Belo em 1929, ele que «nunca validou com a sua presença tamanho logro». O jornal «O Mensageiro» perguntava «Como conciliar a afirmativa de que a guerra acabava no dia treze de Outubro se ainda hoje continua?» O pároco de Fátima, por sua vez, «nunca foi à Cova da Iria no dia das aparições» A este aspecto pessoal juntamos o lado social: «O erro da República foi querer acabar, numa geração, com a religiosidade popular irracional e fanática». Pode ler-se na página 221 «O verdadeiro milagre de Fátima está nisto: ter sido o elo aglutinador das forças reaccionárias, religiosas e civis que acabaram com a República e prolongaram as trevas.» Portugal não mudou muito: «paranóia e regabofe de reis, abusos do clero e parasitismo de fidalgos». Uma conclusão provisória: «Se não existisse morte não havia religiões». Um convite à leitura: «O melhor dos tesouros perdidos é buscá-los». Também por isso este é, sem dúvida, um livro a não perder.

(Editora 5livros.pt)

[Livros e Autores 15]

 

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

«Bernardo Santareno – da nascente até ao mar» de José Miguel Noras


José Miguel Noras (n.1956) está já a trabalhar num novo volume («Santareno do mar ao fim do mundo») pois a vida de Bernardo Santareno (1920-1980) não podia caber num livro de 389 páginas mais 48 de fotografias a cores sobre o seu percurso escolar, académico, cultural, cívico, literário e artístico. As fotografias constituem uma excelente «fotobiografia» com fotos únicas e legendas com valor acrescentado. O resumo da sua vida está na página 39: «Infância traumatizada. Adolescência dolorosa. Filho único. Liceu em Santarém. Solidão. Faculdade em Lisboa. Crise mística profunda. Interrupção dos estudos. Faculdade em Coimbra. Melhor, menos solidão. E poemas. Quando tive dinheiro para editá-los, editei-os. Poemas maus. Um primeiro livro de Teatro, já formado em Medicina: «A promessa, O Bailarino, A excomungada» Edição do autor, paga com o que ia ganhando como médico da frota bacalhoeira.» Sobre a vida no mar lê-se na página 301: «Queria de todo o coração ser útil a esta gente, os pescadores, pois eles são bons, humildes, e extraordinários de coragem e trabalho.» Sobre si Bernardo Santareno afirma: «Um indivíduo como eu, é claro, tem de sofrer mais que os outros pois sente mais fundo, todos os inevitáveis achaques do mundo. Mas é a vida.» Na página 251 outra afirmação: «A única coisa de que gosto é de escrever. Todas as outras actividades me conduzem a essa, que é fundamental para mim. Escrevo em qualquer lado e tudo o que me rodeia me é totalmente indiferente quando estou a escrever.» Em 1956 afirma ao pai: «Nada é firme nem seguro nesta vida. Não fazemos outra coisa que não seja experimentar caminhos, nunca chegaremos a um fim. É preciso muita coragem para se viver, sobretudo num país como o nosso, neste tempo e quando não se é de todo estúpido e inculto.» Fica o convite à leitura. Um livro grande que é também um grande livro.

(Editora: Âncora, Capa: Sofia Travassos, Revisão: António Carmo, Carlos Oliveira e Rejane Wilke. Nota de abertura: António Ramalho Eanes, Prefácio: João Luís Madeira Lopes, Posfácio: Joaquim Martinho da Silva, Apoio: Municípios de Santarém, Alcanena, Almeirim, Alpiarça, Golegã, Lamego, Nazaré e Tomar, Instituto Politécnico de Santarém e Associação Industrial Portuguesa)              

[Livros e Autores 13]

  

segunda-feira, 5 de junho de 2023

«José Afonso ao vivo» de Adelino Gomes

Trata-se aqui de um belíssimo livro/disco de 84 páginas com dois CDs e um LP dos concertos de José Afonso em Coimbra (4-5-68) e Carreço (23-2-80). Adelino Gomes (n.1944) chamou-lhe «Uma fagulha colectiva» embora na página 3 se leia «Zeca Afonso inédito» e na capa se leia «José Afonso do vivo». O trabalho deste livro/disco confirma em pleno as palavras de Jacinto Baptista em 1978 no jornal «Diário Popular»: «O jornalista é o historiador do quotidiano». Na verdade Adelino Gomes estava no Cais da Rocha Conde de Óbidos em 9-9-67 e queria entrevistar José Afonso (1929-1987) para o programa PBX no RCP mas a primeira resposta é adversativa: «Porquê? Para quê? Deixei-me dessas coisas. Importantes, umas cantiguetas?» . Adelino Gomes não desiste e recorre a fotografias, recortes de jornais, cartazes, ofícios da GNR, ofícios da PIDE, cartas, bilhetes para espectáculos, convites, recados. Assim organiza uma reportagem, o mesmo é dizer, uma cartografia sentimental dum certo tempo português exacto e definido.

A primeira parte do livro vai de 9-9-67 (chegada da navio «Angola») a 28-12-68, data do espectáculo na Gruta das Lapas (Torres Novas) com intervenção directa do pároco Amílcar Fialho, natural de Santa Catarina. A segunda parte avança para 28-2-1980 com os pormenores do concerto realizado nesse dia às21h30m na Sociedade Instrução e Recreio de Carreço. O resto está no livro e nenhuma nota de leitura pode substituir. Fiquemos com as palavras finais de Adelino Gomes: «Falei com mais de uma centena e meia de pessoas. Pessoalmente, via telefone e inúmeras vezes por email. Apenas uma pequena parte verá o seu nome citado neste trabalho. Esse foi sempre, enquanto jornalista, um dos meus dramas.»      

Resumir um livro de 84 páginas em 23 linhas também pode ser visto como um drama mas como diz o lugar-comum de todos nós «não há-de ser nada» O importante é que o convite a ler o livro e a ouvir os CDs ou o LP seja aceite porque um caso destes só acontece uma vez na vida.

(Editora: Tradisom, Introdução, investigação e texto: Adelino Gomes, Nota do editor: José Moças. Posfácio: Ricardo Romano, Concerto de Coimbra: Jorge Rino, Concerto de Carreço: Manuel Mina, Design: Rodrigo Madeira, Revisão: Laura Alves, Apoios: Fundação INATEL, Municípios de Coimbra, Torre de Moncorvo, Santo Tirso, Setúbal, Viana do Castelo e Grândola)

[«Livros e Autores 10]


domingo, 9 de abril de 2023

«Pelo Campo – Correspondências e outras histórias» de Carlos Lobão

 


A freguesia dos Cedros situa-se na ilha do Faial, entre a Praia do Norte e o Salão e fica a 19 quilómetros da Horta. O livro de 427 páginas integra 197 notícias mas nem em todos os jornais existem colecções completas conforme assinala Carlos Lobão (n. 1959) que explica na página 13: «Adicionámos algumas notas de rodapé, alguns itálicos, sobretudo no que diz respeito às festividades religiosas e alguns quadros sobre o movimento da população e sobre diferentes recenseamentos.» O livro parte de uma ideia («Ninguém tem dúvidas que desde sempre a maioria dos homens vive no anonimato») que desde 1883 tende a ser contrariado pelos jornais faialenses: O Açoriano (Notícias do Campo e Caixa do Correio), O Faialense (Freguesias Rurais), O Atlântico (Correspondências e Freguesias Rurais, O Jornal do Povo (Pelo Campo), O Telégrafo (Correspondência, O Correio da Horta (O Correio nos Cedros) e O Eco Cedrense (Crónica Local). Afirma o autor: «a análise destas correspondências permite verificar quão importante é o papel da imprensa para o conhecimento da comunidade de Santa Bárbara dos Cedros, no período compreendido entre 1883 e 1977.» Temos aqui o jornalista como historiador do quotidiano. De um lado as instituições locais, a vida social, cultural, económica e religiosa e do outro lado as pessoas – nascimento, filiação, casamento, emigração, morte. Na página 103 lê-se: «Os senhores da cidade têm o mercado, têm o passeio, têm a pesqueira e não sei que mais comodidades sustentadas pela Câmara e nós, os campónios, contribuímos para isso e não gozamos.» E conclui: «Têm excelentes escolas e nós desafiamos a quem quer que seja para nos contradizer o que vamos asseverar e daremos um doce a quem nos provar o contrário. Não há sequer uma abegoaria em que a água e o vento entrem tanto à vontade como na escola do sexo masculino desta freguesia.»

(Edição: Junta de Freguesia dos Cedros, Composição e paginação: Carlos Lobão e Gráfica O Telegrapho)

 [Livros e Autores 09]


domingo, 15 de janeiro de 2023

«tal&qual – memórias de um jornalismo» de Gonçalo Pereira Rosa e José Paulo Fafe

 

Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) e José Paulo Fafe (n.1961) são os autores deste livro de 171 páginas com 32 primeiras páginas a cores de um jornal que custava 5$00 em 1980 e nasceu para vingar um programa com o mesmo título que um presidente da RTP liquidou com a desculpa de uma entrevista imaginada com José Agostinho de Macedo ter «indisposto» a hierarquia da Igreja – o que foi negado por D. António Ribeiro, cardeal patriarca de Lisboa. Mais do que «memórias de um jornalismo» o que este livro propõe são visitas guiadas a um certo tempo português no qual não havia Internet nem telemóvel.

O texto de Gonçalo Pereira Rosa ocupa 38 páginas, intitula-se «A vitamina do regime» e analisa o contexto da história de um jornal ao longo de 27 com as suas regras de ouro: «As histórias que não saem noutro lado», «Não há vacas sagradas», «Cão de guarda da Democracia», «A voz dos que não têm voz», «A transgressão prova o crime» e «Sem foto, não há história». Os autores dos 22 depoimentos são os seguintes jornalistas: Cristina Arvelos, Victor Bandarra, Sónia Bento, Fernando Brandão, Manuel Catarino, Frederico Duarte Carvalho, Palmira Correia, Paulo Delgado, José Paulo Fafe, João Ferreira, José Ferreira Fernandes, Catarina Vaz Guerreiro, Luís Marques, Jorge Morais, António Nascimento, Isabel Nery, Alexandre Pais, Carla Pernes, Octávio Ribeiro, Tiago Salazar, Paula Silva e Augusto Freitas de Sousa.     

Apenas três notas: página 58 «O jornalista conta histórias, não é a história», página 104 «era uma semanário que causava engulhos à esquerda e à direita, dava voz a quem não tinha voz e era lido tanto pelo ministro como pela senhora que fazia a limpeza ao gabinete ministerial» e página 158 «Livre, irreverente, incómodo, o projecto vivia do que cada leitor pagava por cada exemplar. Sem a almofada da publicidade e dos fretes encapotados, com a queda dos hábitos de leitura em papel, as receitas deixaram de poder garantir o trabalho dos extraordinários repórteres que lhe davam alma.»

(Editora: Âncora, Prefácio: Joaquim Letria, Capa: Cláudia Fonseca)

[Um livro por semana 697]

 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

«História do Sporting Clube de Portugal» de Luís Augusto Costa Dias com Paulo J.S. Barata

Com o subtítulo de «Uma nova abordagem das origens aos anos Alvalade» este livro de 254 páginas tem o ponto de partida na página 12: «Esta História do Sporting Clube de Portugal é, a vários títulos, nova, antes de mais porque ao inserir a história do clube na história da cultura e do desporto em Portugal, a inscreve na Nova História Cultural, que se coloca no social e radica a análise de factos, pessoas e instituições nos contextos mais amplos das sociedades. Apesar de se tratar de uma nova abordagem, não se pretende fazer aqui uma reescrita de história do Sporting, antes a sua renovação e aperfeiçoamento.» O facto de esta «era» da vida do Clube ser chamada «Anos Alvalade» assenta em Salazar Carreira, conhecido atleta e dirigente que escreveu o seguinte em 1922 no Boletim do SCP: «Quando um dia se escrever a história do nosso clube, já cheia de páginas de glória, ligando intimamente a sua vida à vida do desporto português, salientar-se-á formidavelmente a influência indirecta de José Alvalade no desenvolvimento do desporto nacional.» Afirma-se na página 61 «José Alvalade não foi apenas um criador de instalações desportivas; foi sobretudo um excelente organizador, obstinado, rigoroso, meticuloso. Foi ainda um conceptualizador, um empreendedor e um concretizador de planos. As suas ideias veiculam uma nova noção de desporto e de prática desportiva.» Eis uma citação do seu texto de 1910: «O carácter português é orgulhoso e sobretudo pouco paciente. O seu desideratum é conseguir em pouco tempo, ou para ser mais exacto, é conseguir mais do que pode ser.» Do Sport Club de Belas em 1902 ao Campo Grande Foot-ball Club em 1904 e ao Sporting Clube de Portugal em 1906, é uma «viagem» a não perder.       

(Editora: Contraponto, Edição: Paulo Morais e Raul Couceiro, Revisão: Luísa Pinho e Cristina Dionísio, Design da capa: Diana Cordeiro)

 [Livros e Autores 30]


domingo, 28 de novembro de 2021

«O tempo de todas as incertezas» de Álvaro Ribeiro

Álvaro Ribeiro (n.1946) assina este livro de 605 páginas no qual descreve o seu trajecto pessoal a partir da inspecção em Almeirim e da incorporação nas fileiras do Exército em 15-7-1968 nas Caldas da Rainha, passando por Vendas Novas, Tancos, Vila Nova de Gaia e Espinho antes da partida para Moçambique no navio «Vera Cruz».

O Ministro do Exército falava assim em 1961: «Vamos para combater, não contra seres humanos mas contra feras e selvagens. Vamos enfrentar terroristas que devem ser abatidos como animas selvagens.» O Episcopado Português tinha feito uma advertência antes do início das hostilidades em Angola: «Nesta hora em que o Ocidente parece ter perdido a consciência de si mesmo, Portugal é consciente da sua missão evangelizadora e civilizadora e sofre ao ver que ela não é compreendida nem apreciada e até se tenta contestar-lha.» Dito de outra maneira pode ler-se sobre os Portugueses na página 21: «quanto mais distraídos e analfabetos mais controlável era a situação por parte do regime.» Mais à frente a página 27 indica: «Embarcar para a guerra parecia que nada tinha de dramático, tal a regularidade dom que acontecia. Uns chegavam, outros partiam. Era assim o viver das pessoas que se moldavam aos acontecimentos como se não houvesse alternativas. Elas existiam mas não deixavam de ser também dramáticas e traumatizantes.»

Ao lado e em paralelo com o percurso pessoal, o autor integra os nomes dos oficiais, sargentos e praças com os quais se cruzou nas diversas fases (inspecção, recruta, especialidade, formação de batalhão, embarque, viagem, operações no mato, regresso) e torna deste modo este livro num depoimento no plural, uma espécie de cartografia colectiva onde todos os camaradas de armas cabem e se integram.

O livro termina com uma advertência do autor: «As consequências da guerra na sociedade portuguesa constituem um icebergue cuja verdadeira dimensão e carcterísticas ainda ninguém cuidou de avaliar. Entretanto ele flutua à deriva.»

(Editora: Rosmaninho, Capa: Fernando Veríssimo, Colecção: Documentos para a nossa História)

[Um livro por semana 676]

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

«A PIDE e os seus informadores – O caso de Inácio» de Paulo Marques da Silva

Paulo Marques da Silva (n.1966) depois de «Fernando Namora por entre os dedos da PIDE» (2009), «Condeixa – paisagem, memória e história» (2010), «Deniz Jacinto entre duas paixões – o Teatro e a Liberdade» e «Pois não te resta ainda o Mundo?» (2015) sendo dois livros em co-autoria, surge com este «A PIDE e os seus informadores – O caso de Inácio» (2019) que faz a cartografia tenebrosa dum tempo (anos 30 a 60 do século passado) e de um lugar (Coimbra e seus arredores) inventariando as suas instituições e os elementos que não estavam com o Estado Novo. O ponto de partida é a página 63: «Todos os Organismos Oficiais estão cheios desta gente, tais como: Correios, Hospitais da Universidade, Governo Civil, Câmara Municipal, Polícia Judiciária, Polícia de Segurança Pública, Tribunais, Grémios e Regimentos. As ligações são a toda a hora e momento, a sua acção estende-se por toda a parte e hoje o Estado Novo é arrasado, alto e bom som, em todos os pontos da cidade sem o mais pequeno rebuço. Os jornais da cidade são todos dirigidos por elementos avançados já referenciados e os correspondentes dos jornais de Lisboa e Porto na mesma. Todos os Cafés da cidade são pontos de reunião de elementos avançados que, abertamente, ali fazem o seu trabalho.»

O delírio de Inácio vai ao ponto de chamar «reviralhista» a Afonso Duarte e «comunista» a Joaquim Veríssimo Serrão: «… dentro da Universidade e em grupos desafectos foi bastantes vezes notada a propaganda que o SERRÂO fazia, sendo notória a sua acção avançada» O uso de certas palavras (seita, perlenga) denota não só agressividade mas também ignorância: «O alferes Rosa Neto tinha em seu poder vária papelada e até jornais da Seara Nova». Noutro passo refere o Ateneu de Coimbra: «São maus e rancorosos. É um agrupamento que, num caso de conflito interno, vem imediatamente para a rua, constituindo brigadas de choque.» Para além de propor o encerramento de Clubes e Associações, Inácio critica a pouca firmeza das autoridades: «Como é sabido não se efectuaram prisões por causa dos desmandos efectuados e agora os homens do MUD e comunistas andam a apregoar que se o não fizeram é derivante da fraqueza do Governo que se vê num beco sem saída e até sem prestígio. O tempo do papão e do Tarrafal já passou, dizem.» O Clube fechado em Pereira do Campo vai renascer sob o patrocínio da FNAT: «O estudante Luís Mexia, sobrinho do Dr. Mário de Figueiredo, que eles colocaram à frente, é um pateta mor, sem personalidade alguma. É comido e levado com facilidade por tal «malta» que o tem ali apenas como rótulo. É com estas habilidades que o comunismo vai alastrando e aparece em todos os sectores.»      

(Editora: Palimage, Foto da Capa: Maria João Reis Torgal, Colecção: Raiz do Tempo, Apresentação: Luís Reis Torgal)

 [Um livro por semana 673]


quinta-feira, 15 de julho de 2021

«Como se eu tivesse asas – As memórias perdidas» de Chet Baker

O arco temporal desta biografia de Chet Baker (1929-1988) decorre entre 1946 (Washington) e 1963 (Barcelona) o mesmo é dizer entre a recruta no Exército americano e mais uma recaída  - «tudo recomeçou uma vez mais». Na introdução deste livro Carol Baker em 1997 afirma: «Chet Baker não pode ser descrito apenas como músico, toxicodependente, marido ou lenda» pois a sua vida aqui contada em 112 páginas foi «um irremediável caos impregnado de puro génio». No resumo possível deste livro podemos realçar os encontros com as mulheres na vida do músico: Cisella, Sherry, Charlaine, Liliane, Halema e Carol.
Com treze anos Chet passa do trombone para a trompete «porque não conseguia chegar bem às posições mais em baixo» o que prova que o acaso tem muita força. Terá sido por acaso que descobriu a droga: «O Andy foi também a primeira pessoa que me fez descobrir a erva, abençoado seja.» Em 1946 entra com 16 anos para o Exército americano, torna-se amigo de um companheiro de instrução e sente a sorte do seu lado: «Eu e o Dick fomos os únicos destacados para a Europa no nosso regimento; todos os outros foram enviados para o Japão e para a Coreia.» Na sua viagem para Bremerhaven descobre a loucura: «Como não havia álcool para beber, alguns tipos misturavam Aqua Velva e sumo de frutas. De tanto engolirem aquele cocktail tóxico à base de aftershave alguns ficaram cegos.» Na Alemanha tudo era possível: «Qualquer soldado podia mandar para um Volkswagen conduzido por um alemão (desde que o motorista estivesse sozinho) e este levá-lo aonde quer que fosse por cinco ou seis cigarros.» É em Berlim que descobre Cisella: «Ela e a irmã tinham sido enviadas para lá pelos pais na esperança de que viessem a conhecer um soldado – de preferência um oficial. O plano era casarem ou, no mínimo, receberem comida, roupa e dinheiro desse militar.» Forte o encontro com Charlie Parker no Tiffany Club : «Senti-me pouco à vontade e muito nervoso quando ele perguntou à assistência se eu estava lá e se podia subir e tocar alguma coisa com ele.»
Fica apenas uma ideia deste magnífico livro de memórias que não se pode perder.


(Editora: VS Vasco Santos, Design: João Bicker, Revisão: Carina Correia, Tradução: Sofia Castro Henriques)


[Um livro por semana 671]
 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

«Os Tripeiros» de António Coelho Lousada

António Coelho Lousada (1828-1859) não foi «um jornalista de banca» nas colaborou em diversos jornais e revistas do Porto como A Lira da Mocidade, A Grinalda, Miscelânea Poética, O Bardo, Braz Tisana, Clamor Público, A Esmeralda, O Nacional, O Comércio do Porto ou A Península. A sua vida foi marcada pela paixão por Maria Emília Braga, irmã dos escritores Alexandre e Guilherme Braga, falecida em 1850. Arnaldo Gama considerou-o «Um homem de talento», Pedro da Silveira lembra-o como «Um moço triste, preso à lembrança de noiva» e Camilo Castelo Branco viu nele «uma inteligência que será aqui a primeira.» A narrativa arranca no ano de 1384 quando, perante o cerco castelhano a Lisboa, o Mestre de Avis envia Rui Pereira (tio do Condestável) ao Porto a pedir auxílio aos burgueses da cidade. Não é fácil tal tarefa pois vozes se levantam contra («Se os de Lisboa carecem de nós, nós não carecemos deles»)  até que um discurso serena os ânimos: «Meteram-vos na cabeça que vos queriam matar à fome porque se embarca a carne na esquadra mas não se lembrou ninguém que todos os miúdos cá ficam!» Segundo Camilo Castelo Branco em Os Tripeiros «sublimemente se explica o epíteto que alguns palermas cuidam soar indecorosamente para os netos da valente raça de portuenses».

Tal como refere o título do sexto capítulo este «romace-crónica» cruza no seu articulado «causa pública e coisas particulares» em 165 páginas. De um lado o Porto: «O Porto tinha de tudo: súbditos da coroa e súbditos da mitra e moradores que nem reconheciam uma nem outra; havia cristãos, mouros e judeus. A aljama era a mais pobre; a esnoga era a mais rica; a cruz era a mais forte.» No pano de fundo geral nascemos conflitos particulares, os amores de Fernando/Irene ou João/Garifa e surge uma reflexão sobre o Amor («As mulheres lucram menos com o que recebem do homem em geral: não as compensamos.» ) ou dito de outra maneira («A pobre não sabia que o amor não se traduz bem em palavras») ou ainda («maior feitiçaria que a do amor não pode haver») e conclui, dirigindo-se aos leitores: «os que são casados, o são por amor e os solteiros e as solteiras ainda não deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa soma, simplesmente pelo dote e nada mais». Voltando ao lado social da narrativa, lê-se na página 126: «A poesia nessa época era tida em grande conta e as atenções da assembleia voltaram-se para o bardo.» E na 148 se lê: «as mouras por aqueles tempos roubavam às cristãs bastantes corações, tanto de nobres como de peões, o que as obrigava a crer em poderes ocultos para não se confessarem derrotadas nos encantos.»

(Editora: Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Prefácio, notas e revisão: José Viale Moutinho, Foto: João Paulo Coutinho)

 [Um livro por semana 670]


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O cais dos soldados em Londres


Estamos em Blackheath. Na Morden Road passamos à porta da casa do compositor Charles Gounod que aqui viveu nos tempos da guerra entre a França e a Prússia. Vinha à tarde no comboio de Charing Cross e alugava uma carruagem à porta da estação dos comboios. Mais à frente, no planalto, ficamos a saber que a actual A2, um dos itinerários principais de Inglaterra foi, em tempos recuados, a estrada romana para Canterbury. Henrique VIII, entre pompa e circunstância, aqui recebeu Ana de Cléves como futura esposa, no ano de 1540. Por sua vez Wat Tyler juntou em 1381 uma assembleia de camponeses revoltados nesta mesma estrada. Hoje o coração desta imensidão verde recebe mães com crianças, passeadores de cães, papagaios de papel, carrinhos de choque e jogatanas intermináveis de futebol –muda aos seis, acaba aos doze. Os circos, tal como as caravanas de ciganos, já são mais raros. Foi neste relvado sem fim à vista que nasceram alguns clubes de rugby e de futebol. Um deles, o Blackheath Football Club, fez parte dos pioneiros que, em 1863, na Freemason´s Tavern, criaram as leis do moderno futebol, tornando a sua prática independente do rugby. Cruzando em diagonal o Greenwich Royal Park, cedo chegamos à zona do mercado a funcionar em grande aos sábados e domingos. Muito perto das antigas cozinhas onde os velhos marinheiros, sem família e sem dinheiro, vinham às sopas reais, surgem as mais inesperadas lojas. De antiguidades, lhes chamamos em Portugal. São coisas ditas efémeras: mapas, cartazes, postais ilustrados, livros antigos, fotografias, discos LP e EP, pequenos móveis úteis às costureiras antigas, no tempo das libras se dividirem em xelins e em dinheiros. Nessa rua descubro o conceito activo e prático de fundo editorial: compram-se cinco livros por cinco libras, cada livro mais barato do que uma viagem de autocarro. Vejamos um conjunto: uma história breve do Jazz, um livro da Penguin sobre pássaros, uma biografia de Frank Sinatra, a vida do guarda-redes mais lendário do vizinho Charlton Athletic e um guia da Londres, bairro a bairro, de Barnet e Merton, de Ealing a Lewisham.  Mas apetece voltar atrás como se o efémero se pudesse suspender e transformar em permanente, algures numa estante. Não resisti e trouxe uma gravura mostrando Portugal como um leão e Espanha como uma mulher. Gravura antiga, percebe-se pelas bandeiras. Século XIX, sem dúvida. Há lojas de roupa em segunda mão, boa e barata, devidamente limpa e reclassificada que as pessoas já se habituaram a procurar uma vez por semana para ver as novidades. Os lucros dessas lojas revertem para apoio da investigação e da luta contra o cancro. Os ingleses de aqui ao pé da porta gostam de conservar os objectos do passado. Em Blackheath, Age Exchange é o nome desta loja especial na qual se reproduz o ambiente de um estabelecimento comercial dos anos 40, com balcão, balanças e moedas da época da II Guerra Mundial. Já passei férias em Southwark, na City (Barbican) e em Blackheath; faço sempre aproximações a Lisboa. A Southwark chamava Terreiro do Trigo, ao Barbican chamava Gulbenkian e a Blackheath chamo Restelo. No primeiro caso o rio ali mesmo à beira, no segundo os jardins e os prédios com o brutalismo dos anos 60 e 70, no terceiro caso as grandes avenidas com casas bonitas e árvores frondosas. Há uma comum curiosidade. Entre o Terreiro do Trigo e Santa Apolónia havia em temos o Cais dos Soldados. Tal como em Greewich havia o cais de onde partiam jovens marinheiros, soldados da Rainha, os mesmos que anos mais tarde, sem família e sem dinheiro, terão a sua sopa diária nos edifícios da Escola Naval. É dessa rua, do outro lado dessa rua de Greenwich que trago como memória de uma memória, a gravura onde Portugal é um leão e a Espanha uma mulher.