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terça-feira, 14 de abril de 2026

O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750) - Filipe do Carmo Francisco


FILIPE DO CARMO FRANCISCO

O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750)

Com o subtítulo de «Guerra e Cultura na formação de uma imagem pública setecentista», este livro de 300 páginas inclui no seu conjunto várias ilustrações a cores (nove) e a preto e branco (uma) além de (da página 202 à 300) várias notas, anexo documental, bibliografia e índice remissivo. Onze quadros e sete mapas completam o conjunto. Da página 16 à 201 surge o texto do ensaio. O autor (n.1981) abre o livro com uma frase exemplar: «Clio, a Musa da História tem na mão um papiro para lembrar que o principal modo de registo da Memória é a palavra escrita». Por outras palavras - nem lenda nem fantasia. D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756), Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo Novo (1744) e Marquês de Alona (1748) casou em 1715 com D. Maria de Lencastre filha dos Condes de Vila Nova de Portimão e foi mais tarde Vice Rei de Índia Portuguesa entre 1744 e 1750. Desempenhou vários cargos de relevo tanto em termos militares como políticos. (Editora Tribuna da História, Patrocínio Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e Comissão Portuguesa de História Militar, Editor Pedro de Avillez,Capa Maia Moura Design, Revisão Manuel Amaral). JCF       


segunda-feira, 23 de março de 2026

MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000 (de Ana Francisco Sutherland)


Ana Francisco Sutherland

MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000

Um dos aspectos mais curiosos deste livro de 416 páginas (Editora Park Books – Zurich) é que a jovem autora nasceu em Lisboa (1978) e os arquitectos cujo trabalho está plasmado neste inventário qualificado de dois bairros londrinos (rua a rua, casa a casa) formando uma espécie de «bilhete de identidade» de cada projecto e de cada realização, são também, em grande parte, emigrantes – vieram de países como Iraque, Índia, Jugoslávia, Itália, Alemanha e na maioria do Reino Unido entre ingleses e escoceses. A identificação de cada casa envolve: morada, arquitecto autor do projecto, pessoa ou promotor imobiliário que fez a encomenda, ano da construção e prémios atribuídos. Quinze das casas estudadas foram desenhadas pelo arquitecto para nela viver com a sua família. Ao mesmo tempo que fazia o trabalho de campo, a autora pôde consultar os arquivos do RIBA Royal Institute of British Architects, fundado em 1834 e que integra quase toda a memória da arquitectura inglesa. O trabalho demorou sete anos pois incluiu entrevistas a arquitectos e seus familiares, promotores imobiliários, consulta de arquivos municipais e entrevistas com historiadores. Não por acaso o prefácio é assinado por Neil Bingham, reputado historiador ligado à Royal Academy of Arts, ao RIBA e responsável no Victoria anda Albert Museum pela curadoria da vertente histórica da Arquitectura. Além das casas estudadas em pormenor, o livro indica em três página outros edifícios com interesse na zona de Blackheath e de Greenwich. Para além do apoio do mecenato (John Payne) colaboraram de modo activo no livro (entre outras entidades e pessoas) The Blackheath Society, The Greenwich Society e o Wates Family Enterprise Trust. A autora estreou-se em livro no ano de 2003 com «Personagens para um lugar memorável» (Editora Black Sun - Lisboa) um livro de contos curtos por si ilustrados. Assumiu desde Janeiro de 2026 a presidência da The Blackheath Society. Seguindo à risca as indicações de Tolstoi («Se queres ser universal, escreve sobre a tua aldeia») a autora juntou os desenhos, mapas e plantas à escala do marido (Ian Sutherland), as fotografias do filho Tomás e o trabalho de relações públicas do outro filho Lucas. Tal como num poema, este livro foi escrito para juntar de novo tudo o que a Morte separou. JCF 


terça-feira, 31 de agosto de 2021

As buganvílias de Marta na ADECO

Passaram já trinta e quatro anos mas tudo permanece igual no recreio da ADECO com as paredes caiadas e os pneus dos meninos em sossego mas por pouco tempo. As buganvílias de Marta são uma afirmação do calendário; o seu esplendor está no coração do mês de Maio prestes a despedir-se do Mundo entre o Dia da Mãe e as primeiras cerejas tão vermelhas como as flores. Aqui, no recanto do recreio dos meninos, só os pneus podem dialogar com a exuberante beleza das buganvílias. Com uma diferença: os pneus precisam de perícia, de velocidade e de destreza mas as flores não precisam de nada; elas já são só por si o maior valor acrescentado à luz da manhã no Jardim Infantil.

Na grande seara de lágrimas e de sangue pisado, de saudade e de distância, as buganvílias de Marta na ADECO são mais que uma imagem e uma memória, são o adubo da nova sementeira que todos os anos se repete no pátio onde os meninos velozes correm ao lado dos velhos pneus. Depois do frio e da chuva no Inverno vem o Sol e o calor da Primavera. Como se fosse também um relógio, o tempo dá a sua luz ao esplendor das buganvílias. É assim como a Música, uma melodia com princípio, meio e fim mas que, mesmo depois do último acorde, não se perde mesmo quando se deixa de ouvir. E continua a cantar, como se fosse um leve sussurro, no coração de cada um de nós. (escrito sobre uma foto de Ana Isabel)

[Crónicas do Tejo 286]


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Lugar de Ser ou 70 anos em 20 linhas

 


A vida é um mistério, não um negócio. Nasci a 13-2-51 em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em casa dos meus avós maternos e os meus pais só casaram no Verão – a casa não estava pronta. Fui pinto balseiro. Tive uma infância feliz: o dinheiro era escasso mas sobejava ternura e não havia preço para os beijos ou para as lágrimas. Saltei do carro de bois em 1956 na aldeia para o eléctrico de Lisboa em 1966 e para o avião em 1976 quando fui a Londres. Tirei o Curso Geral do Comércio porque o tempo exigia: «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu». Na véspera do dia em que comecei a trabalhar morreram 25 rapazes na Serra de Sintra. O meu destino sempre esteve ligado aos outros; nunca me quis separar e fingir que podia fazer tudo sozinho. Vivi na minha terra, no Montijo, em Vila Franca de Xira e em Lisboa. Casei em 1977, os meus filhos nasceram em 1978, 1981 e 1985. Há cem anos entre o meu avô materno e o neto mais velho. O meu primeiro livro (1971) foi produzido a stêncil, o segundo 1981 foi composto a chumbo, os posteriores já foram a computador. Meu pai começa a trabalhar com 7 anos, eu com 15 e os meus filhos com 25. Há um progresso mas sem esquecer as palavras de Raúl Brandão: «Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior». Em 2005 acabei de pagar a hipoteca de uma casa com janelas para o Tejo. Há destinos simétricos: eu tenho duas irmãs e o meu filho tem duas irmãs. A vida é um mistério, nunca um negócio. Fui delegado sindical de 1972 e 1996, tenho uma reforma pequena mas posso sorrir: todos os dias morre gente que chamava Marcha do Benfica ao Hino da Eurovisão.

[Crónicas do Tejo 274]

(Óleo de Wislow Homer)


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O fascismo ou «tirou a carta mas vai puxar terra para os pés»

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da sua roda pedaleira em descanso. Para os outros era apenas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas até Santarém para tirar a carta de condução. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado de Santarém. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de Domingo anunciando futuros casamentos, «profissão jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos Domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de ligeiros, pesados e serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto da Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguiu tirar a carta de condução, pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/Autoridade, em Santa Catarina, uma pequena aldeia da Estremadura, que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».   

[Crónicas do Tejo 240]

(Fotografia da Colecção de JCF)


sábado, 4 de julho de 2020

Vítor Lambert – só agora percebi o peso específico da sua amizade



Somos feitos do que somos até aos sete anos, o resto são apenas remendos. Quis o Destino que o meu neto António seguisse agora (em 2017) as pisadas da minha filha Marta (em 1987) e frequentasse com uma diferença de trinta anos o mesmo Jardim Infantil – a Adeco, ali em Lisboa, ao Príncipe Real. Mas dizer Destino não é pensar no Acaso pois nada acontece por acaso na Vida; foi o Victor Lambert que ao longo do tempo foi mantendo a ligação entre nós e nunca deixou de me enviar as convocatórias para as Assembleias Gerais da Adeco. Sem mais e com a devida vénia transcrevo o texto da «Folha Informativa» nº 20 da Associação Conquistas da Revolução: «A ACR perdeu, em 15 de Fevereiro de 2018, um dos seus sócios fundadores e até à data membro da Direcção da nossa Associação. Além do trabalho que prestou na Direcção e nas iniciativas da nossa Associação, colaborou nos livros «Vasco, nome de Abril» e «Conquistas da Revolução». O funeral, com honras militares, realizou-se no dia 17 de Fevereiro no cemitério dos Olivais. Na altura o presidente da Direcção da ACR proferiu uma intervenção sublinhando: «Honraste a Marinha e os Marinheiros. Vamos sentir a tua falta, nunca estarás só. Sei que caminhas ao nosso lado, nunca deixando de ser um de nós. Até sempre companheiro!» Associaram-se nas despedidas Maria João Gonçalves que leu uma intervenção em nome de um conjunto de amigas, relatando as vivências comuns que ao longo dos anos partilharam, sublinhando as qualidades morais e cívicas de Vítor Lambert e o «Cabo» Geraldo Lourenço, na qualidade de praça mais antiga dos saneados do 25 de Novembro, proferindo u m improviso em que relembrou os tempos da fundação da CDAP e do Clube de Praças da Armada, elogiando a personalidade e a perseverança de Vítor Lambert.» (fim de citação)

[Crónicas do Tejo 124]

domingo, 23 de fevereiro de 2020

No tempo de Jesus não havia fotografias



Meu neto Pedro, menino de oito anos, é que fez a inesperada pergunta: «Avô, no tempo de Jesus não havia fotografias?». Apeteceu-me responder que no tempo de Jesus não havia fotografias nem telemóveis nem megafones. Por isso os discípulos de Jesus subiam aos terraços das casas desse tempo para falarem às multidões que O seguiam de terra em terra. A imagem mais divulgada de Jesus é, julgo eu, a de Rembrandt. Um Jesus já perto do julgamento estranho e insólito em que o «juiz» lava as mãos numa bacia colocada numa varanda para significar de modo simbólico o seu «desligar» da condenação de um justo. O sonho da esposa de Pôncio Pilatos não admitia segundas leituras nem interpretações posteriores. Ainda hoje em 2019 se diz «andou de Herodes para Pilatos» quando alguém se sente empurrado ou incompreendido ou «lavar as mãos como Pilatos» quando um outro alguém se pretende desligar de uma decisão incómoda e difícil porque não pacífica. Não esquecer que «Varanda de Pilatos» é o título de um livro de Vitorino Nemésio, uma novela editada pela Imprensa Nacional. Eu mesmo (peço muita desculpa aos leitores) usei num verso essa referência num poema magoado sobre o assassinato de um sócio do Sporting Clube de Portugal no Estádio do Jamor em 1996: «A Varanda de Pilatos/É na Praça da Alegria / Visto isso mais os actos/ Ninguém faz da noite dia.» Conclusão provisória, como todas as conclusões: no tempo de Jesus não havia fotografias mas as imagens continuam vivas e a memória instalada desse tempo agarra-se a muitos de nós como uma segunda pele. Um dia o meu neto Pedro irá perceber. A resposta à sua pergunta sobre as fotografias no tempo de Jesus pode demorar mas vai chegar um dia, talvez de modo inesperado. Mas vai chegar.     

[Crónicas do Tejo 202]

(Óleo de Rembrandt)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Crónica sobre uma aguarela de Joan Sutherland



Primula Integrifolia é o seu nome e consta no original da aguarela por si assinada. Sei que os botânicos, os pintores e os arquitectos paisagistas sabem sempre os nomes latinos das flores. Faz parte do seu trabalho porque cada ofício e profissão tem as suas palavras exactas, precisas e perfeitas. Minha filha Marta que vive e trabalha em Sydney (Austrália) soube dizer de imediato que esta flor em concreto é oriunda da zona dos Pirenéus Atlânticos. No seu caso tenho a ideia de ter visto um exemplar da flor no seu jardim nos arredores de York em Inglaterra mas o que me interessa é o rigor do traço, as linhas perfeitas, o recorte exacto das cores, o equilíbrio de todos os componentes na sua aguarela. Não por acaso seu filho Ian desenha tão bem e ganhou prémios como arquitecto na cidade de Londres. Seus netos Thomas e Lucas, apesar de serem jovens, já vão no bom caminho como seus discípulos. O meu orgulho de avô em comum é ver os nossos netos a desenharem tão bem apesar da sua idade, treze e oito anos. Pela minha parte acresce o pormenor de ainda ontem (10 de Agosto de 2019) o comissário de bordo no avião que liga Lisboa a Londres ficou encantado com o emblema do Sporting Clube de Portugal a verde na camisola branca do nosso neto Lucas. Tal como há alguns anos atrás em pleno parque de Greenwich junto ao Tamisa (o Tejo de Londres) algumas pessoas gostaram da camisola verde o Thomas, o nosso neto mais velho com estas palavras muito próprias para um lugar como Greenwish Park – «Sporting since 1906». Por simples curiosidade vejo que esta planta tem efeitos positivos em seis campos: anti-inflamatório, defesa do sistema imunológico, na pele, nas cólicas, nas funções hepáticas e no controle emocional.  Nada acontece por acaso, é o que fico a pensar, caríssima comadre.  
      
[Crónicas do Tejo 196]

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Gonçalo Pereira Rosa - «já nada me espanta» e outros casos tristes


Começo o texto com uma nota pessoal: prestes a completar 40 anos de actividade em jornais e revistas não me envergonho de nada do que publiquei mas arrependo-me de ter publicado sem anotações no Jornal «Sporting» uma página do livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista. Trata-se de um jogo entre o SCP e o Sport Lisboa em 1-12-1907 ao qual foi atribuído por erro crasso o título de «O primeiro derby» isto porque o SLB não podia ter disputado nenhum jogo antes de 13-9-1908. Gonçalo Pereira Rosa estudou agora o caso do assassinato da actriz Maria Alves em 1926 e publicou dois livros onde esse tema é desenvolvido mas o «Magazine» do «D.N.» publicou outro dia um texto sobre o assunto como se a pólvora estivesse a ser descoberta agora, no ano de 2018. Gonçalo respondeu com ironia a quem o interpelou sobre este caso: «Já nada me espanta». Outro dia passou-me pelas mãos um recorte da revista «Sábado» com a história da macaca de Oliveira de Azeméis, vila onde a comitiva do SCP costumava parar nos anos 40 antes de ir jogar com o FCP. Claro que os «leões» ganhavam, perdiam ou empatavam segundo factores determinados: as incidências do jogo, os erros dos jogadores de ambas as equipas, a influência da arbitragem que, muitas vezes, é decisiva. Ou seja – outras macacadas. Há por ali o perfume da prosa de António Simões («A Bola») mas uma coisas destas não é para quem quer, é para quem pode. Não dá para imitar. Voltando ao «Magazine» que faz parte do «D.N.» não bastava terem trocado «enclave» por «conclave» a propósito da Síria. Apetece dizer como a minha avó de Santa Catarina: «Não há direito!» E ela não desconfiava do que muito mais tarde eu verifiquei nos Tribunais de Menores: o Direito é o maior inimigo da Justiça.

(Crónicas do Tejo 128)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O meu destino em 1957 era ser navalheiro como toda a gente



«Eu sou a filha da Julita» - dizia a menina que me abriu a porta do escritório da fabrica «Ivo Cutelarias» fundada em 1954 por João Ivo Peralta, irmão de António Ivo Peralta («Sovi»), amigo da minha mãe (Olímpia do Carmo Almeida) e do meu pai (José Francisco). Foi no passado dia 8 de Março e houve uma viagem no tempo. A partir da frase «Eu sou a filha da Julita» lembrei-me de Santa Catarina em 1966 quando havia as férias «grandes»: a Julita comprava uma cigana para o almoço do pai (Euménio) dito Ménio, o Roberto inaugurava com o meu avô José Almeida Penas a época do «abafado» na azenha do ti Zé Padre no Rio do Casal da Coita que vinha pelo Vale de Água até se juntar ao Rio da Pedra. O meu avô era guarda-redes da equipa onde jogavam o meu tio-avô Joaquim Freire, o Juventino do ti Manel Inácio (o primeiro jornalista), o ti Carlos Pinheiro (que me dava limões), o Abílio Milhafre (que tocava clarinete), o Diamantino do Manel Lúcio, o Zé Coimbra que tocava pratos na Filarmónica. Eram onze e não havia substituições. Nos jogos do Campo do Rio da Pedra, mais tarde, lembro-me do Joaquim Clímaco recolher o dinheiro para a lavadeira num boné. Esse mesmo Joaquim (irmão do Manel, meu colega na 4ª classe) um Domingo de manhã salvou-me a vida: a minha avó mandou-me ir buscar a burra ao Vale de Água e o cão a ladrar à porta do Afonso (ferrador) assustou o animal que dasatou a galopar. Perto do portão da Casa Grande o Joaquim conseguiu parar a burra e assim me safei pois poderia ter ficado ali se batesse com a cabeça nas pedras da rua. O meu avô foi amigo do Artur Sena Pinheiro, fundador da «Senófila» onde nasceram os Xutos e Pontapés. A vida é um mistério. A memória é um sótão distante. A prata da minha casa tem onze heróis. Estão todos na fotografia; ninguém quer sair.

(Crónicas do Tejo 125 - Fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Do comboio de Falconwood ao comboio de Rio Maior


O meu neto Thomas está um homenzinho. Entrou para uma «Grammar School» em Londres e lá vai todos os dias com gravata e blazer no comboio que em sete minutos o leva para a Escola. Os sete minutos são os mesmos que me levam todos os dias ao Rossio. Gosto muito de todos os meus netos (são quatro) mas o mais velho é especial por ter sido o primeiro a nascer (2006) e por ser protagonista de um dos mas veementes poemas que escrevi - «Domingo à tarde em Falconwood». Pois a memória magoada desse domingo à tarde no jardim junto aos comboios de Falconwood com o seu arraial de exclusão, de maldade e de estupidez («sumos de pacote e bolos de fábrica») levou-me a recordar a Feira de Rio Maior. Além dos cabos de cebolas de Alvorninha, havia uma corrida de bicicletas com os homens da Volta a Portugal. Na curva da estrada colocavam fardos de palha. Ainda me lembro dos agentes da P.V.T. e das suas ruidosas máquinas. Outra máquina era o comboio que me lembro de ter visto em Rio Maior. Era uma locomotiva adaptada à via reduzida. Eu sentia-me excluído da Feira de Rio Maior porque quando queria alguma coisa a resposta era sempre a mesma: «Tu não tens querer!» Muitos anos depois em Falconwwod o meu neto Thomas foi excluído não de uma festa de aniversário (estavam no seu direito) mas do convívio com os seus amigos de rua e de escola que estavam a poucos centímetros do nosso banco de jardim. Há uma música triste comum às duas exclusões como se o comboio trouxesse na sua via reduzida a redução da vida ao rancor, à maldade e à estupidez. Ou seja à exclusão. Os meus avós podem ter a desculpa do tempo cinzento («Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma») mas as mães de Falconwood não podem ter perdão. O meu neto Thomas vai estudar numa escola onde os filhos delas nunca vão entrar.     

(Crónicas do Tejo 94 – fotografia de autor desconhecido)


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Netos, cirurgião, pianista e guarda-redes ou a magia das mãos



Aqui estou depois de seis dias de «estadia» no Hospital da Luz onde fiz vários exames e fui operado a uma neoplasia do cólon. Tudo começou no Museu da Água onde caí por ter batido com o joelho num pilarete. Levado para o Hospital de São José pelo INEM, tive um tratamento cinco estrelas tanto na viatura como no «Banco» com várias análises e exames. A razão do meu problema era a anemia; faltava saber como e quando eu perdia sangue. A cirurgia aconteceu em 16 e o regresso a casa foi em 21. Os meus quatro netos tiveram uma reacção curiosa: os três mais velhos enviaram cartões com incentivos, o mais pequeno ficou atónito perante a panóplia de cateteres no pescoço do avô. Os desenhos dos mais velhos são uma ternura e a colagem do terceiro é uma delícia. Não tenho palavras disponíveis para dizer obrigado a todos (família, amigos e conhecidos) todos irmanados na ideia de fazer e desejar o melhor. Até o  meu filho tirou dois dias de férias. O cirurgião tem mãos mágicas e nunca lhe poderei agradecer o que fez por mim. Pode ter sido baptizado pelo pároco da sua terra, primo da minha avó e com quem trabalhei na sua «missa nova». O pianista cujas mãos mágicas recordo em Cascais e Lisboa e nos discos de Colónia e Tóquio, esteve na origem dum poema do meu primeiro livro de 1981. Foi premiado pela Associação Portuguesa de Escritores sendo o júri composto por Armando Silva Carvalho, Fernando J.B. Martinho e Pedro Támen. Sem ele talvez nunca tivesse escrito «Os guarda-redes morrem ao Domingo» que deu origem a um livro com o mesmo título. Pensei muito nele naqueles dias de Hospital. Tal como pensei no pianista e no cirurgião. Afinal a magia da mão é a mesma e até os meus netos com os seus desenhos e desejos fazem magia porque juntam de novo tudo o que a morte esteve prestes a separar.

(Crónicas do Tejo 104)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Meu avô em Rio Maior (feira da Cebola) e no Cartaxo (feira dos Santos)


O meu avô de Santa Catarina nasceu em 1906 e morreu em 1979. Seu nome é José Almeida Penas. Era carpinteiro, pintava, fazia portas e janelas e, às vezes, fabricava pequenos caixões. A ele recorriam as pessoas em casa de quem tinham morrido anjinhos. O recado era dado por alguém da família, um primo ou um irmão mais velho do menino morto. Nasci em 1951 e lembro-me bem de o meu avô fazer caixões pequeno sem levar dinheiro. Julgo até que em vez de pregos ele usava lágrimas para unir as tábuas. Como conhecia toda a gente na minha terra e nos lugares à volta (os casais) ele dizia baixinho a sua lamentação perante a morte daquela criança: «Ah fado dum ladrão!» Com este lamento ele revoltava-se contra o destino daquele menino cuja vida fora cortada de modo abrupto pelo tifo, pela meningite, pelo garrotilho. Pela morte numa palavra. Tenho algumas memórias felizes de meu avô em Rio Maior quando da feira da Cebola lá para Setembro. Ele e o senhor Josué iam vender a obra de todo um Verão de trabalho – barris, celhas, tinas, tonéis. Já pensavam na vindima. Depois compravam o sal na Fonte da Bica por causa da proximidade da matança do porco. A Feira dos Santos era no Cartaxo e nem me lembro como íamos para lá mas tenho memória de uma taberna onde num quadro se lembravam os maus pagadores a giz. Havia um identificado apenas como «chofer da Ribatejana». Uma vez houve pancadaria entre um grupo de forcados e um conjunto de ciganos mas quando apareceu a PSP os dois grupos voltaram-se para os agentes da polícia. Entre sorrisos, meu avô afastou-me do epicentro daquilo e dizia baixinho: «Que grande sarrafusca!» E era mesmo grande pois chegou até hoje. Sessenta anos passaram num instante. Pode dizer-se em conclusão: 1957 foi anteontem.    

(Crónicas do Tejo 90 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O eléctrico «28» debruçado sobre o Rio Tejo


(dedicado a Thomas Francisco Sutherland em Londres)

Este é o meu eléctrico desde 1966 quando comecei a trabalhar no BPA da Rua Áurea nº 110 e morava na Travessa do Caldeira, ali à Calçada do Combro. Nesse tempo o «28» subia a Rua Augusta e descia a Rua Áurea à noite e nos fins-de-semana. Isso permitia-me ir ao cinema Estúdio 444, apanhar o Metro na estação do Campo Pequeno, sair na do Rossio e esperar o «28» ao pé das floristas do Largo. Outro dia arrancaram os carris da Rua Áurea e foi para mim doloroso porque aqueles ferros eram parte da minha memória viva tantos anos depois daquelas tão antigas viagens.
Anos depois foi o meu filho Filipe que nele viajou com os seus mais chegados amigos (os Tiagos e o Hélder) no tempo da Escola Secundária David Mourão-Ferreira e mais tarde quando a Escola Veiga Beirão mudou de nome. Tinha sido ela a minha Escola em 1971 quando, graças ao trabalho do Poeta Manuel Simões, nosso professor, os meus primeiros poemas foram editados e saíram num livrinho colectivo com o título de «Lugar de Ser».
O meu neto Thomas chama-lhe «my tram» («o meu eléctrico») e fica surpreso quando no Largo das Duas Igrejas vê passar o «28» que vem dos Prazeres para a Graça. Admira-se em voz alta: «look, there is another!». Ou seja, «olha afinal há outro!». Claro que há outras memórias do mesmo eléctrico. Eu próprio, já avô, fui muitas vezes no tal «28» à Voz do Operário ali na Graça buscar o meu neto Pedro o fim da tarde.  Este «28» é afinal todos os eléctricos que transportam passageiros e memórias, eles são uma cápsula do tempo feita de vidro e de madeira, feita de ferro e de napa – que os bancos de palhinha já não existem. Só a memória, só a recordação, só o sentimento.

(Crónicas do Tejo 75 - fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O castelo de S. Jorge está em frente e o Tejo logo à direita


Nota prévia - A foto original é de José Antunes («Diário Popular») e o trabalho da criação do «postal» é de Carlos Vilas (Centro Comercial Nevada - Estrada de Benfica). Os meninos dos verdes estão na casa dos cinco anos. Nessa idade tudo é de graça - não há preço nem para as lágrimas nem para os beijos. A foto original inclui meninos dos «amarelos» e dos «encarnados», o mesmo é dizer dos três e dos quatro anos. Das monitoras a única que se reconhece é a Guiomar. Por acaso hoje em 2017 a Guiomar já não está no Colégio onde meu neto Pedro repete os passos do pai (Filipe) e das tias (Ana e Marta) no longo caminho de «tornar-se pessoa». Aliás um belo título de Carl Rogers . A crónica já viajou na paisagem e no povoamento e agora fixa-se na figura de Marta. Ela insiste na ideia de que não é aquela segunda menina do lado esquerdo; isto mesmo contra o testemunho da monitora Guiomar, aquela que lidera o grupo dos meninos de verde. Mas não é importante que Marta, hoje com 31 anos, não se reconheça na foto de José Antunes, trabalhada em formato de «postal» por Carlos Vilas. O que conta mesmo, o que vale e o que tudo justifica é a temperatura sentimental da crónica assinada por quem se coloca defronte do teclado. Frente aos meninos está o castelo de São Jorge e, logo à direita, o Rio Tejo. Temos de um lado o tempo cristalizado dos séculos que passaram pelo castelo; do outro lado temos o tempo imparável do rio que se demora algum tempo no Mar da Palha, antes de desaguar no Oceano Atlântico. De um lado séculos; do outro milhões de anos. Frente a esta dupla imagem que os meninos defrontam, a sua idade nada conta. São pequenos, usam bibe verde e trazem no seu olhar toda a esperança do Mundo. E todo o Amor sem o qual nenhuma esperança é possível.

(Crónica do Tejo 82 - Fotografia de José Antunes)   
   

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O jornal do meu neto lembra-me o «velas do Tejo»


A minha paixão pelo jornalismo é muito antiga e não se explica: ainda agora, em tempo de vacas magras, lá continuo a comprar e a ler dois jornais por semana além de ler aqueles onde escrevo («Gazeta das Caldas» e «Correio do Ribatejo») sem esquecer «O MIRANTE» cuja camisola nunca despi e onde continuo a ter amigos. Meu neto Pedro tem cinco anos (quase seis) e avançou ontem na produção de um jornal para circular e ser lido pela família nuclear. Há ali uma mistura curiosa de televisão e de jornal em papel o que se compreende numa criança de cinco anos. Ora acontece que aquilo, o jornal do meu neto Pedro, deu-me para o sentimento e recordei de imediato o meu jornal (de parede), o «Velas do Tejo» quando na Escola Técnica de Vila Franca de Xira, ainda no Ciclo Preparatório, cheguei ao cargo de director por decisão da nossa professora de Português. Eu tinha a idade de onze anos e já sabia que no fim do Curso Geral do Comércio ia trabalhar. No Montijo, onde vivi de 1957 a 1961, uma senhora muito fina tinha dito algo como isto - «os filhos dos motoristas não vão para o Liceu». E eu não fui mesmo. O jornalismo foi também o Liceu que não tive. O meu neto Pedro e o seu jornal

são a ternura derramada que o meu olhar lhe dedica. Afinal tudo aquilo funciona: os seus cinco anos ainda não discutem a questão do pó e da posteridade. O jornalismo é ainda nos seus poucos anos de idade o esplendor do encontro, da festa e do intervalo entre o cinzento do quotidiano e o arco-íris da perenidade. Há sombras mas ninguém as vê naquele jornal onde tudo é luz, comoção e alegria. Um pequeno jornalista que ainda mal sabe escrever, veio resgatar e dar sentido ao dia do seu avô comovido pelas «notícias» e pelos desenhos ingénuos deste (quem sabe?) hoje ainda obscuro mas futuro historiador do quotidiano.

(Ilustração de Charles Dana Gibsons)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O eléctrico «28» debruçado sobre o Rio Tejo


(dedicado a Thomas Francisco Sutherland em Londres)

Este é o meu eléctrico desde 1966 quando comecei a trabalhar no BPA da Rua Áurea nº 110 e morava na Travessa do Caldeira, ali à Calçada do Combro. Nesse tempo o «28» subia a Rua Augusta e descia a Rua Áurea à noite e nos fins-de-semana. Isso permitia-me ir ao cinema Estúdio 444, apanhar o Metro na estação do Campo Pequeno, sair na do Rossio e esperar o «28» ao pé das floristas do Largo. Outro dia arrancaram os carris ds Rua Áurea e foi para mim doloroso porque aqueles ferros eram parte da minha memória viva tantos anos depois daquelas tão antigas viagens.
Anos depois foi o meu filho Filipe que nele viajou com os seus mais chegados amigos (os Tiagos e o Hélder) no tempo da Escola Secundária David Mourão-Ferreira e mais tarde quando a Escola Veiga Beirão mudou de nome. Tinha sido ela a minha Escola em 1971 quando, graças ao trabalho do Poeta Manuel Simões, nosso professor, os meus primeiros poemas foram editados e saíram num livrinho colectivo com o título de «Lugar de Ser».
O meu neto Thomas chama-lhe «my tram» (o meu eléctrico) e fica surpreso quando no Largo das Duas Igrejas vê passar o «28» que vem dos Prazeres para a Graça. Admira-se em voz alta: «look, there is another!». Ou seja, «olha afinal há outro!». Claro que há outras memórias do mesmo eléctrico. Eu próprio, já avô, fui muitas vezes no mesmo «28» à Voz do Operário ali na Graça buscar o meu neto Pedro o fim da tarde.  Este «28» é afinal todos os eléctricos que transportam passageiros e memórias, eles são uma cápsula do tempo feita de vidro e de madeira, feita de ferro e de napa – que os bancos de palhinha já não existem. Só a memória, só a recordação, só o sentimento.

(Crónicas do Tejo - Fotografia de autor desconhecido)