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quinta-feira, 11 de julho de 2019

«Veneza pode esperar» de Rita Ferro



Depois de se estrear em 1990 com «O nó na garganta» e de ter publicado romances, crónicas, fotobiografias e literatura infantil, Rita Ferro (n.1955) estreia-se no registo diarístico com este «Veneza pode esperar». O ponto de partida está na página 168: «O meu avô António nasceu há 117 anos – como pode um homem tão moderno ter nascido no século XIX? O João Amaral, da LeYa, desafiou-me a escrever um romance biográfico sobre ele, mas ao fim de meses de tentativas falhadas substituí-o por este diário.» O diário cobre o tempo passado entre Maio e Novembro de 2013 e o título do volume está na página 217. Rita Ferro define-se como uma «sem-terra» da Política: «A esquerda enerva-me por se arrogar de superioridade moral, a direita, por se acreditar socialmente superior, os monárquicos, por acharem que validam os seus pergaminhos prescritos com este pacote suspeito: o fado e as corridas como defesas prioritárias, a religião defendida como uma tribo, o ceptro sem mão que o sustente.» Ao contrário do que escreve na página 201 a autora não «fala sozinha». Este livro de 236 páginas pode ser lido como um coro grego onde cabemos todos e ninguém fica de fora. O ponto de partida para o «coro grego» pode ser uma frase de Woody Allen em «As faces de Harry:« A frase mais bela do mundo não é «amo-te» mas «é benigno». A propósito da Vida e daquilo que viemos aqui fazer: «Uns querem ser felizes, outros aprender. Os primeiros raramente conseguem, desesperam. Os segundos não se ralam com a infelicidade, desde que instrua. O problema é quando a infelicidade nada traz.» Veja-se esta reflexão sobre uma casa que demorou onze anos a construir e que hoje (2013) é só recordação: «Já não tenho a casa nem economias para a reforma, apenas grandes recordações.» Ou esta outra sobre gatos: «Hitler não gostava de gatos, Churchill adorava-os e eu fui educada a detestá-los. A minha mãe achava que ter gatos era um sintoma de solidão desesperada e sentia tanto medo deles como das donas.» Façamos um resumo: o livro lê o diferente, o presente e o futuro. O diferente é dado pela fala de uma mulher que vive em Harare: «Cada dia é uma dádiva e este apego que vocês têm às coisas na Europa, parece-nos absurdo.» O presente tem a ver com o autismo actual: «Chega um casal de espanhóis, cada um carregando o seu iPad. Preparo-me para dizer bom dia mas nenhum contacto é estabelecido. Conversam a um palmo de distância e olham noutra direcção. Nem a vibração do telemóvel os arranca a si mesmos. Quando falo e solto uma gargalhada não movem as cabeças.» O futuro é um dos netos: «Ontem, dando banho àqueles oito quilos de futuro, pensei que a vida tem sempre razão.»
Povoam este livro memórias de Agustina Bessa Luis, Manuel da Silva Ramos, Vergílio Ferreira, Natália Correia, Arur Portela Filho, Afonso Lopes Vieira, Gabriel García Márquez ou Sebastião da Gama – entre outros. Sobre o Prémio PEN Clube atribuído ao livro «A menina é filha de quem?» percebe-se a mágoa por indevidamente o prémio associar nas notícias o seu nome ao cargo político do avô e não ao facto de o mesmo avô ter trazido a Portugal em 1935 escritores como Henri Membré, François Mauriac e Jacques Maritain (entre outros) para ajudar a criar em Portugal um PEN Clube. 
         
(Editora: Dom Quixote, Revisão: Clara Boléo, Capa: Maria Manuel Lacerda, Edição: Cecília Andrade)

[Um livro por semana 623]

terça-feira, 3 de julho de 2018

«No lamaçal da Primavera» de Alice Ruivo



Neste seu quinto livro de ficção, Alice Ruivo (n.1955) retoma o universo sentimental dos seus primeiros romances: O amargo e doce sabor da vida, Matilde, Carlota e Juliana e No dorso do vento. Neste No lamaçal da Primavera o ponto de partida é o casal Aurora e Jaime que vê a sua longa relação sacudida por uma frase de Jaime («Vamos para o divórcio») originando em Aurora uma nova situação: «Não é fácil recomeçar aos cinquenta e cinco anos mas estava decidida a deixar para trás os cacos, as pálpebras vermelhas e os soluços inacabáveis.»
O livro organiza-se em histórias cruzadas de várias gerações, a autora evidencia o mérito de partir sempre do particular para o geral deixando o registo de um certo tempo português entre 1945 e 2015, algo como setenta anos. Foi em 1945 que os pais de Aurora (Severino e Amélia) casaram. Com o divórcio de Aurora e Jaime a transitar em julgado, surge uma aproximação a Mariana: «Mariana colocou a mão sobre a sua nuca, procurou a raiz naquela massa de cabelo. Beijaram-se. Sentiu o seu clitóris endurecer, sair do seu esconderijo para se oferecer à fricção.» Mais à frente acontece o desenlace («não criámos raízes, na verdade muita coisa nos separa») e a conclusão: «Célia era mãe de Severino (pai de Aurora) e de Olinda (mãe de Mariana). Tinham a mesma avó. A avó Célia. Eram primas. Ou meias-primas.» Mais tarde Aurora fará o balanço com Mariana: «Eu não deixei o Jaime, ele é que me deixou. Por isso tu não foste uma troca, da mesma forma eu também não fui para ti. Ou seja: não deixaste a Odete por mim e ainda bem. Por isso aqui ninguém usou ninguém. Acontece entre duas criaturas que são livres e donas da sua pessoa.»
Tal como no caso Aurora/Jaime, com o problema de Constança e Fernando passa-se o mesmo: o conflito passa do privado para o social e a história torna-se exemplar, ganhando assim o estatuto de história de proveito e exemplo. Um livro de 179 páginas que se lê com a sofreguidão de um «policial» não à procura do criminoso mas à descoberta do lugar específico do tecido social onde os dramas se escondem e se revelam.  
  
(Capa: Maria Soledade Centeno, Prefácio: José Luís Outono, Posfácio: Lynda Carvalho - Um livro por semana 590)

segunda-feira, 25 de junho de 2018

«Crónicas de Porcelana» de Soledade Martinho Costa



Soledade Martinho Costa que desde 1973 é reconhecida como autora de livros de poesia, teatro, etnografia e literatura infanto-juvenil, estreou-se no campo da crónica em 2015 com «Uma estátua no meu coração». Este segundo livro de crónicas num total de 214 páginas integra 61 textos divididos em 4 grupos: «Abre-latas», «Histórias da Velha do arco», «Segredos» e «Crónicas de Porcelana». O ponto de partida do livro é uma frase de José Saramago no livro «Deste Mundo e do outro»: «Crónicas que são? Pretextos ou testemunhos?» Mas também um ideia do mesmo autor, citada na página 9, logo a seguir à dedicatória: «A vida, que parece uma linha recta, não o é. Construímos a nossa vida só uns  cinco por cento, o resto é feito pelos outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros.»
Esta ideia de «viver com os outros» (título de um livro de Isabel da Nóbrega) está presente na atitude da autora perante figuras das Artes e das Letras que povoam algumas da crónicas como Sarah Affonso, Amália Rodrigues, Afonso Praça, Tóssan, Carlos Nejar, Luiz Pacheco ou Francisco Lyon de Castro. Para dar uma ideia aproximada do interesse deste livro de crónicas fiquemos por três citações. A primeira sobre a profissão de escritor: «Dirigi-me ao Hospital Novo de Celas, em Coimbra, ali a dois passos. Para meu espanto a funcionária desfez de imediato as minhas dúvidas com a seguinte explicação: - Sabe, é que no nosso ficheiro não consta a profissão de escritora. A palavra mais parecida é escriturária. Por isso é que está assim escrito – e acrescentou: - Já há uns meses, esteve cá um escritor e aconteceu a mesma coisa; nós escrevemos escriturário, lembro-me muito bem. Ele chamou-nos a atenção mas, como disse, essa profissão não consta do nosso ficheiro.» A segunda, a propósito do livro «Os contos exemplares» de Sophia de Mello Breyner é uma situação passada numa livraria de Lisboa: «Não leve. Esse livro é já muito antigo. Foi escrito há muito tempo. Tem aqui outros mais modernos… Não quer ver?» A terceira citação surge na página 85: «são mesmo os Portugueses um povo adverso aos livros e à leitura? Um povo que não lê? Que mal conhece os seus autores? Que prefere o futebol e as tristes cenas de muitos dos programas que entram na nossa casa sem nos pedirem licença, transmitidos pelos canais de televisão? Que tem absoluto desconhecimento da importância da leitura? Ou a razão deste despovoamento nas livrarias tem origem noutras causas? A situação difícil em que os Portugueses vivem (nem todos, é claro!)? A falta de dinheiro para gastar em livros quando a despensa está vazia?»

(Editora: Sarrabal, Capa: «A feira» de Petrus van Shendel, Revisão: L. Baptista Coelho - Um livro por semana 588)


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Para Emília Isabel em Santarém a partir de uma foto de Joshua Benoliel


A foto do grande Joshua Benoliel (1873-1932) surge no jornal da Exposição da Fundação Gulbenkian intitulada «O Mundo derrubado» patente ao público de 30-6-2017 a 4-9-2017. Parece-me que a legenda está errada (não tenho a certeza) pois a viúva do militar sobe a Rua Garrett dirigindo-se à Basílica dos Mártires. Se descesse estaria a regressar da missa de sufrágio na Basílica. Tudo isto tem a ver com a Emília Isabel porque a Rua Garrett cruza-se coma a Rua Serpa Pinto em Lisboa e a Rua Serpa Pinto em Santarém aparece num poema que escrevi mentalmente à janela da redacção do jornal O MIRANTE nos idos de 1998. Vinte anos passaram num instante mas o que eu via nas mulheres da Rua Serpa Pinto em Santarém era a vastidão da Charneca, a riqueza da Lezíria e a diversidade do Bairro. O Ribatejo, claro. Via e vejo nas mulheres a imagem directa da terra, sementeiras e colheitas, lágrimas e beijos, alegrias e tristezas, luz e escuridão, vida e morte.
A Emília Isabel talvez já não passe pela Rua Serpa Pinto ou se passa eu já não estou lá à janela para registar em poema esse tempo breve mas intenso entre o lugar e o espaço, entre a terra e a memória. A beleza da mulher viúva na fotografia de Joshua Benoliel precipita a minha memória da beleza de Emília Isabel. A primeira tem o registo objectivo de uma fotografia; a segunda tem o registo subjectivo de um poema. Em ambos os casos há no olhar da mulher uma clara rejeição da morte. De 1918 a 1998 são oitenta anos de alegria teimosa contra a tristeza da morte, da indiferença e do esquecimento. Tal como a Terra, a Mulher deseja a luz da Primavera que nasce todos os dias porque o Amor nunca desiste de aparecer na nossa Vida mesmo no mais cinzento quotidiano.    

(Crónicas do Tejo 91 - Fotografia de Joshua Benoliel)

domingo, 15 de outubro de 2017

Menina 25 Anos Depois


Vem do lado da luz e faz um vagaroso intervalo na pressa do trânsito, tão veloz e tão compacto.
É um tempo novo que os seus olhos abrem no que resta da manhã: a cidade tinha uns taipais de névoa e foi a sua força que os rompeu. Barcos aflitos apitaram no Tejo o desassossego da rota duvidosa.
São estes os paradoxos do Tempo: quem procure o seu bilhete de identidade achará cifras e datas, uma cronologia pesada. Porém, nem a voz nem o olhar nem o corpo solto e leve se conjugam com o tempo registado. E a luz, aquilo a que chamo luz, mistura de respiração e olhar, retrato e volume, ruptura e movimento, essa continua a iluminar quem dela, mulher-menina, se aproxima. Tal como há vinte e cinco anos ela transporta as quatro estações na voz, os dias da semana no olhar, os meses no rosto, as horas nas mãos.
É o tempo condensado de uma viagem entre o campo e a cidade.
Celeiro de emoções, adega de perfumes, eira de saudades, sótão de memórias, a sua voz é, ainda hoje, o registo pessoal da luz da aldeia contra a névoa da cidade.

(Óleo de Albert Linch)

sábado, 8 de julho de 2017

Lamentação para um tempo passado na foto a preto e branco


Num destes fins de tarde de Lisboa com um céu cheio de nuvens brancas a anunciar trovoadas e bandos de turistas (não viajantes) em calções curtos que sobem as Escadinhas do Duque a gritar «Are you local people?», num destes fins de tarde recebi uma oferta inesperada. Um livreiro em arrumações na sua livraria descobriu desirmanada uma fotografia a preto e branco que me ofereceu. Pode ser a Brigitte Bardot, pode ser uma das jovens actrizes a que os jornais dos anos 60 chamavam «azougadas» e mostravam os seus pequenos biquínis nas praias da Riviera Francesa. O livreiro meu amigo oferece-me a fotografia e com ela o pretexto para uma crónica. Esmo sem estar presente nela esta fotografia tem a ver com esse tempo. Eu era em 1966 um jovem atónito, confuso e perdido na grande cidade. Tinha começado a trabalhar numa sexta-feira nove de Setembro porque nesse tempo trabalhava-se ao sábado até às 13 horas nos Bancos. Não tenho a certeza se actriz é Brigitte Bardot nem isso é agora o mais importante. Sei que este é um retrato desse tempo de guerra e paz, de amor e ódio, de morte e vida. Mesmo quando as manhãs se abriam em esperança as tardes acabavam em amargura. O tempo era triste, a monotonia tudo abarcava, o velho ditador, o monstro de Santa Comba Dão falava na Rádio e na TV para dizer: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!»

(Vinte Linhas 1692)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Revista Aldraba nº 21 Abril 2017 - Homenagem a Maria do Céu Ramos


O moínho da capa da Revista ALDRABA nº 21 está parado tal como parou no passado dia 18 de Abril o moínho do coração de Maria do Céu Ramos, vice-presidente da Direcção e associada nº 59 da ALDRABA. Entre o moínho que transforma grão em farinha e o que transforma dias em tempo de viver, as semelhanças são óbvias. Pelo menos para mim que fui convidado para apresentar o conteúdo destas 30 páginas. Num dos meus poemas associei o moínho ao navio: ambos precisam de velas e ambos viajam embora com destinos diferentes. O destino do moínho é o pão, o destino do navio é o porto mais próximo. Nada contra os motores actuais mas isso é outra conversa.  
O texto de José Nelson Cordeniz sobre as danças de Carnaval na Ilha Terceira surge com uma arte final algo descuidada. Além de um abuso dos advérbios de modo (essencialmente, especialmente, propriamente, actualmente, claramente) nota-se que o acordeão vem a página 21 como algo de positivo e na página 19 aparece a concertina como instrumento musical que tem prejudicado a música folclórica. Embora não seja este o local e o momento para tratar este assunto, a verdade é que para a maioria das pessoas acordeão e concertina andam a par. Outro pormenor de descuido está na referência à estrutura das danças: «Saudação, Assunto e Despedida» na página 20 mas «Introdução, Assunto e Despedida» na página 21 embora o texto anuncie que é tudo «igual». Pouco compreensível é na página 21 o texto que refere «um convívio após a Dança recheado de iguarias típicas» mas não é o convívio que é recheado; pode ser a mesa posta. De qualquer modo a mensagem de inventário e notícia chega ao leitor e é esse o objectivo do texto.
Nuno Nabais num artigo de opinião intitulado «Lisboa, a Cultura e Espinosa» refere entre outros pontos de muito interesse esta ideia: «hoje aquilo que interessa à Universidade não é a indústria cultural mas o comércio cultural». Nesse sentido, não é de estranhar que, mais à frente, surja outra ideia sobre a mudança de paradigma: «os suplementos literários foram substituídos por agendas culturais» ou dito de outra maneira «uma compilação avulsa de sugestões de entretenimento». Em termos sintéticos pode dizer-se que os jornais do meu tempo (1978) tinham secções de «Artes e Espectáculos» mas hoje é só espectáculo. Tudo isto pode ser dito de outra maneira: são quatro os conceitos e as palavras-chave para a actual circunstância – património, luxo, arte e turismo. Espinosa nasceu em Amsterdam. De família natural de Vidigueira que foi expulsa de Portugal e refugiou-se na Holanda. Escreve Nuno Nabais: «Sonhava em português, fazia exegese em hebraico, escrevia tratados de ética e filosofia política em latim e dirigia a oficina de lentes em holandês». Nestas palavras está um resumo do escritor que pode vir um dia para o Panteão Nacional ou ter até o seu nome num Prémio Literário.
Fernando Fitas assina um texto sobre os Museus no qual afirma que «o Museu tem de ser um espaço vivo para ser vivido», permitindo aos visitantes manusear as peças das prateleiras. Luís Filipe Maçarico refere dois livros de António Salvado e cita de um deles a frase de um autor francês para quem «o Museu é a Universidade Popular através dos objectos». Shawn Parkhurst da Universidade americana de Louiseville (Kentucky) ocupa a página 8 com um texto de amor ao Rio Douro: «O amor agarrou-me em 1992. Eu já não existo sem o Douro, mesmo estando longe dele». Outras águas são as de Sónia Tomé. Resumem a sua participação no Festival Literário Internacional de Querença em Agosto de 2016. Nesse encontro literário foi patente a flutuação entre dois tempos e dois mundos da água no Alto Barrocal Algarvio: ora escassa, ora excessiva. Muito curiosa é uma das quadras sobre uma realidade que já não volta: a má língua das mulheres quando lavavam a roupa numa pedra da ribeira: «Água nos dá alegria / Lava a alma e o coração / Água lava tudo quanto cria / Só a má língua é que não».
João Coelho recorda os tempos difíceis dos marçanos que com 13 ou 14 anos chegavam da terra e começavam logo a carregar as compras das «senhoras» às costas em cabazes de vime. O pagamento era «cama, mesa e roupa lavada» mas a cama era má, a comida era´péssima e da roupa só era lavada uma muda por semana que o sabão sempre foi caro e a ganância sempre foi forte. Nuno Roque da Silveira conta a história de Joaquim Raposo Dias, um polidor de móveis na Calçada das Necessidades e a memória do seu avô Raposo que tinha um quiosque no cruzamento das ruas Marquês de Fronteira e Artilharia Um. Escreve a certo passo «Caíram-lhe em cima» mas o texto não explica quem caiu em cima do avô. Talvez mariolas como então se dizia e escrevia. Maria Adelaide Furtado lembra a gramática dos toques dos sinos que até há pouco tempo e ainda no século XX regulavam a vida de muitas comunidades. Nos Açores havia uma frase em muitas freguesias que toda a gente acatava: «Trindades batidas, meninas recolhidas» Tanto o sino como o chocalho nascem da arte do fogo. E tanto um como outro continuam a ter uma função comunicativa mas já não tão importante como por exemplo no século XIX em que «era o sino que punha em movimento todo o Universo». Os chocalhos empurravam os rebanhos mas hoje há cada vez menos pastores e menos rebanhos para guardar. José Rodrigues Simão assina um texto de memórias (55 anos depois no título) apesar de no texto se referir a 50 anos e não 55. Embora louve o esplendor da paisagem não existe nele um enquadramento geográfico que o permita localizar de imediato. O mesmo se passa com o texto de Mateus Dias Campeã sobre a memória de uma caçada e o uso do furão. Maria Eugénia Gomes assina as páginas sobre as viagens e os actos eleitorais da ALDRABA e é no seu texto que se percebe melhor o conteúdo da capa da Revista: «Os moinhos do Outeiro são únicos no Mundo em termos de funcionamento». O cartoon de Luís Afonso mantém o nível altíssimo de ironia que num jantar simpático em Serpa o levou a lamentar para mim a saída de Sousa Cintra do lugar de Presidente da Direcção do SCP: «Cada frase daquele homem era já meia anedota. Era só completar.» A Revista fecha com um poema, um belo poema de Izidro Alves que além de tudo o que quase exige o texto da página 8 («terra, poesia e emoção») tem muita oficina e é essa oficina que leva este poema a cumprir aquilo que me parece ser a razão de ser de toda a literatura: ligar de novo tudo o que a Morte separou.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Recado a Isabel Trigo de MIra


Tirando o contacto para o livro «Vítor Damas - a baliza de prata» (Editora Gato do Bosque) a última vez que estive perto de si foi no Instituto Português de Oncologia onde registei a entrega de material desportivo da IPSS «Leões de Portugal» aos meninos da Pediatria. Ver crianças tão pequenas a sofrer foi comovente e ainda mais quando um dos meninos se identificou como benfiquista mas aceitando com simpatia a oferta de camisolas, bonés e calções com as cores do Sporting Clube de Portugal. A ideia do desportivismo pode ser confirmada no livro referido pelas participações de Toni, Shéu e Humberto Coelho. Hoje quero dar um pequeno testemunho sobre o nosso sistema cultural. Estou quase a fazer 40 anos de jornalismo que iniciei no «Diário Popular» em 1978. No tempo de Cesário Verde o grande poeta era o Cláudio Nunes mas hoje ninguém sabe quem é. No tempo de Camilo Pessanha o famoso era o Augusto Gil. Dos livros do Círculo de Leitores sobre os Reis de Portugal só os homens apresentam data de nascimento. As 17 autoras só registam licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Há uma escritora que enganou toda a gente sobre a sua idade: nasceu em 1922 ma os dicionários referem o ano de 1932. O que se passou com os cachecóis do SLB com o «36» em vez de «33» é que se indicassem «33» já ninguém os comprava. Na verdade as Liga não são Campeonatos porque foram torneios experimentais, privados e particulares. Realizaram-se nos domingos deixados livres pelo Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938 mas como o SLB ganhou 3 tentam (Ricardo Ornelas foi o pioneiro) fazer passar a ideia de que nessas épocas desportivas não existiu o Campeonato de Portugal. Num certo sentido é como insistir na data de 1904 quando o SLB foi fundado em 1908. Basta ver o emblema com a bola e a roda da bicicleta. A coisa é tão repugnante que no livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista alteram as fontes («O Século» e o «Diário de Notícias») do dia 2-12-1907 acrescentando «e Benfica» que não está nas notícias citadas. O sistema cultural é tão egoísta, duro e egocêntrico que Vítor e Homero Serpa em 2004 num livro dos CTT sobre o Futebol em Portugal até escrevem que o vencedor do Campeonato de 1957/58 foi o SLB quando de facto foi o SCP. Portugal é um país de analfabetos e não há nada a fazer a não ser olhar com serenidade para este e outros desastres. 

(Fotografia de autor desconhecido - Vinte Linhas 1688)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O castelo de S. Jorge está em frente e o Tejo logo à direita


Nota prévia - A foto original é de José Antunes («Diário Popular») e o trabalho da criação do «postal» é de Carlos Vilas (Centro Comercial Nevada - Estrada de Benfica). Os meninos dos verdes estão na casa dos cinco anos. Nessa idade tudo é de graça - não há preço nem para as lágrimas nem para os beijos. A foto original inclui meninos dos «amarelos» e dos «encarnados», o mesmo é dizer dos três e dos quatro anos. Das monitoras a única que se reconhece é a Guiomar. Por acaso hoje em 2017 a Guiomar já não está no Colégio onde meu neto Pedro repete os passos do pai (Filipe) e das tias (Ana e Marta) no longo caminho de «tornar-se pessoa». Aliás um belo título de Carl Rogers . A crónica já viajou na paisagem e no povoamento e agora fixa-se na figura de Marta. Ela insiste na ideia de que não é aquela segunda menina do lado esquerdo; isto mesmo contra o testemunho da monitora Guiomar, aquela que lidera o grupo dos meninos de verde. Mas não é importante que Marta, hoje com 31 anos, não se reconheça na foto de José Antunes, trabalhada em formato de «postal» por Carlos Vilas. O que conta mesmo, o que vale e o que tudo justifica é a temperatura sentimental da crónica assinada por quem se coloca defronte do teclado. Frente aos meninos está o castelo de São Jorge e, logo à direita, o Rio Tejo. Temos de um lado o tempo cristalizado dos séculos que passaram pelo castelo; do outro lado temos o tempo imparável do rio que se demora algum tempo no Mar da Palha, antes de desaguar no Oceano Atlântico. De um lado séculos; do outro milhões de anos. Frente a esta dupla imagem que os meninos defrontam, a sua idade nada conta. São pequenos, usam bibe verde e trazem no seu olhar toda a esperança do Mundo. E todo o Amor sem o qual nenhuma esperança é possível.

(Crónica do Tejo 82 - Fotografia de José Antunes)   
   

domingo, 9 de abril de 2017

Por detrás dos sorrisos uma ribeira afluente do Ocresa



A fotografia pode ter sido tirada em 1945, talvez Setembro, mês do início das vindimas. Não se sabe nem isso é agora muito importante. Uma mulher-menina e uma menina-mulher celebram a festa das colheitas, o esplendor dos frutos, a apoteose da abundância. O lugar tem um nome (Braçal) e lá mais para trás dos sorrisos há uma ribeira que no Verão se torna caminho mas no Inverno leva água da Serra até ao Rio Ocresa. Para a direita da fotografia, a ribeira que vem da Sarzedinha alcança a Amoreira e o Casalinho nos Invernos de chuva, nevoeiro e tempestades. No tempo da fotografia tudo é diferente. O calor e os dias maiores abrem o sorriso de quem celebra a amizade num retrato, coisa rara nesse tempo de «seis por nove» a preto e branco. A fotografia é uma teimosa negação do tempo e do seu desgaste quotidiano. A mulher -menina do lado esquerdo saiu em 2003 dos palcos onde a febre, a pressa e o furor de ter sempre a palavra obrigam a uma atenção permanente. A menina-mulher do lado direito da fotografia permanece em 2017 embora tenha mudado o timbre, o registo e a extensão da voz. Tudo se modifica todos os dias de modo seguro, lento e inapelável. O sorriso em duplicado da mulher e da menina resiste na fotografia e chega a 2017 com a frescura de 1945 quando toda a esperança pessoal do Mundo tinha a sua própria legitimidade. Duzentos anos depois do primeiro livro (1817) que sistematiza em termos clínicos a Doença de Parkinson, ninguém quer sair da fotografia. O sorriso em duplicado povoa uma paisagem de onde sai uma ribeira a caminho do Ocresa. Nada mais é preciso para que o tempo seja inteiro, completo e feliz. A fotografia a tudo resiste – ao tempo, ao desgaste, à erosão dos dias. Até hoje há uma luz teimosa a dizer sempre que não. Ao esquecimento que organiza as suas emboscadas.

(Crónicas do Tejo 74 - fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

«A revolta das palavras» (até em São João de Alporão)


Nota prévia - «A revolta das palavras» (Editora Bertrand) é o título de um belo livro de Maria Ondina Braga. Eu viajo todos os dias numa carruagem do Metropolitano onde está escrito «Marques Pombal» em vez de Marquês de Pombal. Depois regresso ao fim da tarde num comboio onde está escrito «Melecas» em vez de Meleças. Vejo uma autora universitária a escrever «flexa» em vez de flecha num livro sobre quadras. José Saramago no seu «Viagem a Portugal» chama São João de «Alpalhão» à igreja de São João de Alporão em Santarém. Adiante. Todos estamos rodeados de gralhas. Nada a fazer. Gostava de aproveitar o pretexto para falar do livro de Maria Ondina Braga e numa altura em que é tão fácil publicar um livro deixo esta reflexão intitulada «Livros por abrir»; vejamos um excerto: «Livros fechados - as pessoas. Almas isoladas, tímidas (orgulhosas?), passam por nós todos os dias, moram à nossa beira, jamais as conheceremos. Quem é ele? Quem sou eu? Que temos lido uns nos outros? Que temos tentado ler? Recordo-lhe os olhos claros, a boca dura, o ar ensimesmado. A capa. O título. O formato. Mas a alma? O conteúdo? Livros que nenhumas mãos folhearam. Intactos e já passados, já caducos. Promessas frustradas. Corpos virgens que os anos ironicamente violaram de esquecimento. Um dia, contudo, o livro por abrir saiu do ventre da tipografia cheiroso de tinta fresca. O seu criador apalpou-lhe com amor a brochura de cartolina, de papel couché, desdobrou-lhe as orelhas, separou-lhe delicadamente as folhas, enterneceu-se diante dele. Um dia, nascimento e noivado ao mesmo tempo. Algo secreto, porém, vagamente vergonhoso, com qualquer coisa de incesto. Nascimento, noivado e morte. Seu destino era correr mundo, suscitar paixões, entregar-se a todos. Pessoas como livros: homens e mulheres ignorados, apagados, sombras.»

(Crónicas do Tejo 76 - fotografia de autor desconhecido)