Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de julho de 2026

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -Fascículos de Poesia


NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -Fascículos de Poesia

Quase setenta anos depois do primeiro fascículo destas «Folhas de Poesia» publicados na cidade do Porto por um núcleo fundador que englobava Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Ernâni Melo Viana, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto resolveu em boa hora publicar   em edição fac-similada os nove fascículos publicados entre 1957 e 1962. Segundo o ensaio de António Carlos Cortez «as Notícias do Bloqueio albergaram nas suas páginas múltiplas vozes, nacionais e estrangeiras, sendo que, como confirma cada número, mais do que poetas de poemas se tratava». Num volume que pode ser lido como o décimo da série surgem poemas de autores de hoje, a saber: Ivo Machado, Carlos Leite, Inês Lourenço, José Manuel Mendes, José Viale Moutinho, Manuel Silva-Terra, Amadeu Baptista, Francisco Duarte Mangas, Maria Antónia Bastos, José da Cruz Santos, José Carlos Costa Marques, José Manuel Teixeira da Silva, Júlio Roldão, João Pedro Mésseder, Alexandre Teixeira Mandes, Eugénia Soares Lopes, Augusto Baptista, Ricardo Guimarães, Domingos Lobo, A. Dasilva O., António Carlos Cortez, Luís Filipe Castro Mendes, Aurelino Costa, José Queiroga e José Éfe. Este conjunto de poemas sobre Gaza (em 2025) faz a ligação ao poema sobre Hiroxima (em 1945) de António Rebordão Navarro: «quero que todos saibam da morte que durou 200 dias/ quero que a lembrem com o coração e os músculos/quero que no seio guardem o seu nome/Aikichi Kuboyama». O grafismo, os desenhos, as xilogravuras e o linóleo são de Álvaro A. Portugal, Augusto Gomes, Eduardo Luiz, Altino Maia, Querubim Lapa, Rui Knopfli, António Bronze, Domingos Pinho, Charles Withe, Francisco Relógio e Ana Biscaia. JCF   

      

terça-feira, 2 de junho de 2026

A PRAIA de António Manuel Venda

António Manuel Venda - A PRAIA (poesia)

António Manuel Venda (n.1968) junta neste seu sexto livro de poesia 18 poemas que ocupam 88 páginas. A edição é de «On y va», a foto de Maria Ramires e o grafismo de João Paulo Fidalgo. O ponto de partida é o poema «a praia» que, como qualquer poema digno desse nome e desde sempre ao longo da História, se articula entre a canção e a reflexão; neste caso uma canção triste entre lágrimas e sangue pisado. «Isto não é para estas urgências» foi a frase diabólica pronunciada por alguém com maldade de guichet e para quem a palavra «humanidade» é um mistério e uma coisa distante do seu reduzido horizonte. Não por acaso o livro é dedicado à memória do pai e da mãe do autor, ela que foi «abandonada pelo Estado Português e pelas suas Instituições». No início do livro surge uma citação de Piedad Bonnett «Deitaram sal sobre os meus olhos». Trata-se do sal das lágrimas do homem que foi menino e esteve com a avó materna numa feira onde homens de olhos vendados tentavam partir panelas e lá dentro podia haver água ou um pombo; hoje há um carro funerário onde o homem que foi menino vê uma urna a caminho do cemitério local mas essa urna parece uma panela de barro de onde pode fugir um pombo pronto a voar. São dezoito poemas cada um com a sua particular oficina e resultado. O primeiro e o último do conjunto são o pranto e a lamentação da morte de quem deu a vida ao autor. Não se trata de um caso particular, pelo contrário estes poemas não passam ao lado de ninguém. Perante eles não se consegue ficar indiferente. Nestes poemas, de modo límpido, incisivo e eficaz, junta-se de novo tudo o que a morte separou. JCF

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PREGOS DE CRUZ (Emanuel Jorge Botelho)

 


Emanuel Jorge Botelho (n.1950) estreou-se em livro no ano de 1981 e este seu mais recente volume (2025) tem 41 páginas - Editora Averno, capa Inês Dias, grafismo Pedro Santos. Já em 1986 a Revista «Seara Nova» tinha chamado a atenção para a importância da sua poesia (ao tempo) em afirmação. É o que se pode chamar um corredor de fundo. Claro que as coisas não são assim tão simples; basta pensar nos casos de Cesário Verde (1855-1886) ou de Charles Bizet (1838-1875) para perceber que não são apenas os maratonistas que ficam na posteridade das letras e das artes. Os jovens que morrem cedo também ficam num panteão de qualidade e memória. Voltando ao livro cujo título lembra a ideia da morte, notamos as citações na página 5 – Malcolm de Chazal, Marina Tsvietaieva e Paul Celan. O poema da página 7 abre o livro e refere «talvez assim me safe da purga com que a alma/se livra do ardil da incerteza/e o silêncio venha, sem ser visto/repor a verdade que há na morte». A chave pode estar na página 13 («cada poema é um sudário da alma») ou na página 20: «fazes o quê com o medo que te resta?». Perante o inevitável da morte só o amor pode responder: «é tudo muito simples;/digo meu amor/e tudo sara no meu corpo/o meu medo sabe de cor o teu nome/e gosta da tua voz.» O livro apresenta ainda epígrafes de E.M. Cioran, Yannis Ritsos, José Sebag, Paul Celan e Artaud. JCF

 

domingo, 7 de dezembro de 2025

CÂNTICOS DO CÂNTICO (Organização de RUY VENTURA)


800 anos depois do «Cântico das Criaturas» de São Francisco de Assis (1182-1226) escrito no século XIII e aqui reproduzido numa versão de Ruy Ventura que também organiza o volume e assina o posfácio, este livro de 87 páginas integra quarenta poemas dos seguintes autores: Abel Inácio Quitaia, Alexandre Faria, Álvaro Valverde, Amadeu Baptista, António Cândido Franco, Aurelino Costa, Carlos Poças Falcão, Flor Campino, Heleno Godoy, Joana Ruas, João Rasteiro, Joaquim Félix de Carvalho, Jorge Teixeira, José de Jesus, José do Carmo Francisco, José Kozer, José Luís Peixoto, José Mário Silva, José Rui Teixeira, Leonardo Almeida Filho, Luís Aguiar, Luís Leal, Luísa Costa Macedo, Márcio Catunda, Marco Daniel Duarte, Maria Guadalupe Alexandre, Maria José Diegues de Oliveira, Maria José Mures, Maria Sarmento, Maria Teresa Maia Gonzalez, Natália Carbajosa Palmeiro, Nuno Matos Duarte, Ozias Filho, Rafael Angel Garcia Lozano, Ronaldo Cagiano, Rui Almeida, Ruy Ventura, Vanessa S. Dias, Verónica Benedito e Victor Oliveira Mateus. Fixemos uma advertência do organizador: «O chamado Cântico das Criaturas não deve ser entendido como texto isolado, mesmo sendo um dos cumes mais altos da capacidade expressiva desse homem descalço, roto e remendado que recorria à animação gestual e a palavras de fogo quando se tratava de arrastar os seus semelhantes às alturas celestes». A edição é da OFFICIUM LECTIONIS, teve o apoio da Província Portuguesa da Ordem Franciscana, de Frei Hermínio Araújo e é dedicada à memória do Papa Francisco (1936-2025)cuja Lettera ai Poeti abre o volume. JCF

   

terça-feira, 29 de abril de 2025

«Barcelona» de António Manuel Venda


Em 1923 Jorge Luís Borges (1899-1986), argentino com origens familiares portuguesas em Moncorvo, publicou o livro de poemas Fervor de Buenos Aires. Em 2021, quase cem anos depois, António Manuel Venda (n.1968) publica este livro de poemas com o título de Barcelona. Além dos títulos com referências a nomes de cidades pouca coisa aproxima os dois volumes: o primeiro é uma viagem sentimental pelas ruas de Buenos Aires, o segundo é uma viagem pelos sonhos e pelas memórias do autor. Os vinte e cinco poemas que integram este livro são um transporte entre o sonho do futuro e a memória do passado. Uma ideia da viagem está inscrita no primeiro poema: «eu/olhando para o céu azul/um céu tão cheio/tão cheio mesmo/de estradas brancas/perguntei-me/baixinho/quase como/se não tivesse voz/em qual dos pássaros/pequeninos de metal/poderia estar/então/se tivesse decidido/precisamente/nesse dia/viajar para barcelona» Um conceito de futuro lê-se na página 68: «o que interessava/era marcar uma data/para a reunião/agrupar as hostes/e avançar com a coisa/ou melhor/com as coisas/as grandes coisas/para ver se/de uma vez por todas/ resolviam o problema/do concelho/se voltavam/a pô-lo no mapa/se é que alguma vez/algum mapa/já tinha referido/o concelho/entenda-se»Um retrato do passado regista-se na página 13: «teria de recuar/até à adolescência/para te encontrar de novo/teria de fazer/ todo o percurso/desde o sul/no autocarro/que arranjaram/para a escola» Volta o passado na página 59: «éramos tão jovens/ naquela altura/há tanto tempo/o teu país/ainda não estava/na união europeia/aliás/ainda não se chamava/união europeia/embora estivesse quase/a chamar-se» Se o sonho é uma viagem, a viagem pode ser um sonho: «e eu/quando durmo/sabendo desta história/quando verdadeiramente/durmo/por vezes /sonho tambérm /e em cada sonho/viajo para um país/distante do lugar/onde terei nascido.»

(Editora: On y va, Foto: Dora Nogueira, Grafismo: João Paulo Fidalgo)

[Livros e Autores 28]

domingo, 6 de outubro de 2024

«Asas de papel» de António Ferra

António Ferra estreou-se na área da Poesia em 2006 - «Com  cidade no corpo».  Depois do anterior «Ente» em 2020 («um gajo tem de se preparar para a vida eterna»), António Ferra surge com «Asas de papel» em 2021 procurando que o poema seja o lugar da síntese, do resumo, da brevidade, do desafio ao leitor.

O primeiro poema pode ser lido como diálogo com a fotografia do desenho colocada ao alto da página: «o destino dos pássaros migrantes /nas asas de papel de revistas semanais». No poema seguinte reflecte-se de novo a noção de viagem: «tantos danos na viagem pelo corpo/e as aves insistem na rugosidade das pedras». Depois das aves surgem as laranjas («as laranjas amadurecem fora da época/sobre um tanque gelado na montanha») e as árvores: «as árvores não deixam sombra na sombra que deixamos»

Na paisagem e no povoamento deste livro breve cabe também uma reflexão sobre o acto de comunicar: «às vezes não dizemos nada/achamos que as palavras nos dividem»

Na dupla inscrição (poema/desenho) o autor mantém a sua paralela actividade de artista plástico, ilustrando algumas das suas obras – como é o caso deste «Asas de papel».

(Impressão: Gráfica 99, Desenhos: António Ferra, Paginação: Sérgio Ninguém)

 [Livros e Autores 25]


segunda-feira, 9 de setembro de 2024

«Novos trabalhos novos danos» de Vergílio Alberto Vieira

Embora seja autor de diversificada obra (Ficção, Teatro, Diário, Tradução, Ensaio, Infanto-Juvenil e Organização de publicações), também com livros editados em Espanha, Japão, França, Itália, Marrocos, Brasil, México, Bulgária, Hungria, Áustria, Moçambique, Colômbia e Alemanha, esta recolha em dois volumes junta a sua «Obra Poética» que começou em 1971 com «Na margem do silêncio». .Dedicada aos netos (António e Manuel), esta viagem em forma de livro no tempo de 1971 a 2021 pode sugerir quatro anotações. O poema «Os livros» simboliza a aventura: «Da voz/que os ditou, ninguém/ a origem de tudo saberá.» O poema «Dos jornais» liga estes dois Mundos: «Meu Deus como eu sou paraliterário/à quinta-feira véspera de jornal/ nadando em papel como num aquário/ejectando a minha bolha pontual». O poema «Cesário Verde» junta esses dos espaços (livro e jornal): «Quem algum dia o viu passar sem pressa/A caminho da Baixa, àquela hora/ Não terá dado conta que era essa/A rua que já os passos lhe demora.» Da página 597 à 621 são 25 poemas sobre figuras da vida portuguesa: Pedro Hispano, Inês de Castro, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Francisco Sá de Miranda, Fernão Mendes Pinto, Luís de Camões, Francisco Sanches, D. Sebastião, Padre António Vieira, Sebastião José de Carvalho e Melo, Antero de Quental, Amadeo de Souza-Cardoso, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Francine Benoit, Maria Helena Vieira da Silva, Jorge de Sena, Amália Rodrigues, Natália Correia, Fernando Lanhas, Alexandre O´Neill, Herberto Helder e Emmanuel Nunes.

(Edição: Crescente Branco, Capa: Athena, a Melancólica, Prólogo: Cristina Robalo Cordeiro, Foto do autor: Rui Sousa)

 [Livros e Autores 24]


terça-feira, 25 de junho de 2024

«No azul da manhã acorda para cantar» de Luís Filipe Maçarico

Neste livro de 169 páginas Luís Filipe Maçarico (n.1952) reúne uma escolha de 120 poemas publicados em livros, colectâneas, revistas e jornais nos últimos 46 anos. Por isso a capa refere «Antologia Poética (1973-2019)». Os poemas do volume registam um percurso fiel ao registo do poema «Caminhada» do livro «Essência»: «Habituei-me a guardar apenas/ As palavras essenciais». Há neste textos poéticos uma dupla inscrição – o «eu» e o «nós». Por um lado «Da sabedoria»: «Alma/Conhece/o lume/da sabedoria/para seres/ água/nos olhos/que amo.» Do outro lado «Neve em Alpedrinha»: «Enterro os olhos/Na delícia/Do mistério mais branco. /Esta noite, a serra/Vestiu-se de noiva/Para o poema celebrar/As bodas/Duma terra luminosa.». O Poeta nasceu em Évora («Alentejo terra de sonho e sofrimento/onde o poema tem sede de flores/e rios.») mas vive em Lisboa onde escreve: «Há sempre uma palavra /que pousa e outra que voa /sobre os telhados de Lisboa.» Permanece neste poemas o registo particular («Envelheces/Guardas a palavra/Uma fotografia velha/Coisas que não disseste/Talvez te esqueças.») sempre ao lado do geral «Alentejano,/a tua gota de suor/ensina-me a respirar./Não é fácil erguer/um palácio de palavras /e sedes./Não é fácil viver/de pé e cantar.» Embora a geografia dos poemas passe por Cabo Verde, Palestina, Tunísia ou Itália, o poema acaba por falar também da casa do Poeta: «Uma casa é como /Uma árvores por dentro./ Cada casa é uma veia/Que alimenta/O poema prestes a/ Nascer. Respiração de pássaros prontos para viajar…»

(Editor: Colibri, Prefácio: Fernando Chagas Duarte, Editor: Fernando Mão de Ferro, Capa: Raquel Ferreira com originais de Artur Bual, Fotografias: Danilo Alves e Jorge Cabral, Desenhos: Artur Bual, Apoios: C.M. Fundão, C.M. Évora, J.F. Alpedrinha, J.F. Laranjeiro-Feijó, texto da badana: Maria João Bual)

 [Livros e Autores 23]

 

quinta-feira, 23 de maio de 2024

«Jogo sensual no chão do peito» de Graça Pires»

Graça Pires (n.1946) viu em 1988 a Associação Portuguesa de Escritores atribuir o Prémio Revelação da Poesia ao seu livro «Poemas» depois editado em 1990. Neste seu recente livro de 54 páginas, Graça Pires usa como referência poética a vida da bailarina e coreógrafa americana Isadora Duncan (1877-1927) cujo nome civil era Ângela.

Por um lado o poema afirma: «Tive amigos, /eram actores, músicos, / bailarinos, boémios. /Escreviam o meu nome/nos jornais e em cartazes.» Mas também pergunta: «Como contar aqui todos os tropeços/todos os despojos, todas as solidões?» Surge uma memória justificativa: «Sempre aceitei a fama como coisa vã. /As críticas a meu respeito/ ora me divinizavam, ora me vexavam. /Recebi ovações, / fui vaiada.»

O livro tem um ponto de partida ( «Abro devagar a seda dos meus véus para/desvendar o mel e o sangue dos sentidos,/ que a vida e a morte consentiram.») e um ponto de chegada: «Os cavalos, gritando, /vieram no seu trote. /De meu brilho se tomaram. /Cavalgaram as ruínas do meu peito/e o meu silêncio sustiveram na garganta. /O coração, tão breve, / ficou suspenso por uma névoa/que, num instante, se dissipou. / Devagar bailando/Devagar morrendo.» A morte dos filhos lê-se na página 46 («Aquela manhã cinzenta foi tão cruel/que senti que morria também.») tal como o balanço está na 51: «Contra a corrente, eu sei, /remei sempre a minha vida/e na margem renegada me cobri/de desejos vadios e ideias interditos

(Editora: Labirinto, Prefácio: Eugénia Vasques, Capa: Daniel Gonçalves, Foto: Maycon Marmo, Paginação: Maria Toscano, Coordenação: Victor Oliveira Mateus, Teresa Macedo, Maria João Cabrita)

[Livros e Autores 22]


domingo, 18 de fevereiro de 2024

«Os Açores nos versos dos seus Poetas» de Olegário Paz


Este livro de 550 páginas é o resultado de um espantoso trabalho de recolha semanal («Porque hoje é Sábado») que durou quase cinco anos até chegar à fasquia dos 400 poemas e dos 400 poetas. Olegário Paz (n.1941) organizou o volume por Ilhas (nove ao todo) e uma espécie de «décima Ilha» que é o conjunto de Poetas que mesmo não sendo das Ilhas pelo seu nascimento estão, em termos sentimentais, ligados aos Açores.

Vem ao caso o Poeta Carlos Faria (1929-2010) delegado de propaganda médica, agente cultural nas Artes e nas Letras, natural da Golegã, autor (entre outros) do livro «São Jorge – Ciclo da Esmeralda» (1992). Vejamos um excerto do poema «São Jorge-Pico»: «Diz o Poeta Almeida Firmino que na Ilha do Pico/ não há grilos! Ele é que sabe desta vida maravilhosa de cantores/ que se perderam no fundo dos vulcões/ e cantaram tão alto que perderam /as asas canoras nos fundos poemas da terra…/ O João sorri frontalmente e concorda/que os grilos não podem passar o canal de barco/ou a nado…/Os grilos, às vezes, embarcam de asas coladas /nos sacos e malas dos emigrantes/ e vão para a América: mas de lá/ não vêm notícias de tais cantores /que se perdem nas ruas de Boston ou São Francisco, /atropelados pelos automóveis!...»

Para cada conjunto de poemas surge uma nota de apresentação assinada por dez autores: João Saramago, Nuno Vieira, Maria Inês Vargas, Manuel G. Serpa, Frederico Maciel, Victor Rui Dores, Álamo Oliveira, Maria João Ruivo, Manuel Chaves e Miguel Real. 

(Editora: Letras Lavadas, Prefácio: Onésimo Teotónio Almeida, Posfácio: Artur Teodoro de Matos, Nota de contracapa: Dora Gago, Jardim Gonçalves, António Rego e Esaú Dinis)

[Livros e Autores 19]


domingo, 21 de janeiro de 2024

«Poemas da mulher e do náufrago» de Jaime Rocha


Jaime Rocha (n.1949) cujo nome civil é Rui Ferreira de Sousa, estreou-se na ficção com «Tonho e as almas» de 1984. Este livro de 58 páginas junta dois títulos: «Mulher inclinada com cântaro» (2012) e «Mulher e um cão que dança» (2019). A sequência poética pode ser lida como uma «peça de teatro»: há um palco (a praia), há uma mulher (com um cântaro), há um cão (que remexe na areia) , há um homem que se aproxima e faz perguntas, há um grupo de bêbados, há um náufrago.

A mulher espera e está sentada na areia («É um choro irregular que se ouve/encostado ao corpo do homem»). O cão também «Porque ambos sabem que/um náufrago vive no coração do mar/à espera que as correntes e as rochas/o devolvam à terra». Na página 20 a mulher adverte: «Se houvesse aqui monumentos antigos/junto ao mar, ruínas, arcos, cemitérios, /mas não, não existe nada». Mas o que existe é o luto, um espaço sentimental onde se cruzam morte e vida, dor e beleza. O poema da página 56 prenuncia um mundo novo: «Foi nesse momento de fim de tarde/que as pessoas invadiram a areia/ e se puseram em torno da fogueira,/ numa espera silenciosa,/ anunciando uma outra forma de / comemorarem um festim, um mundo /novo, já sem náufragos, sem gritos,/ sem demência»

São dois poemas longos e não de livros de poesia no sentido tradicional. Textos críticos de Manuel de Freitas, João Barrento, João Paulo Sousa, José Mário Silva e Henrique Manuel Bento Fialho completam o volume.

(Edição: Volta d´Mar, Apresentação: Biblioteca da Nazaré, Capa: Marta Nunes)

 [Livros e Autores 18]

 

domingo, 15 de outubro de 2023

«Colheita serôdia – inéditos e dispersos» de Levi Condinho

Levi Condinho (n. 1941 – Bárrio, Alcobaça) mantém neste seu livro de 63 páginas a linha do  anterior «Roteiro cego» - entre a Natureza e a Cultura. O título desta recolha já remete para a actividade agrícola, a colheita serôdia é uma recolha tardia, com os frutos já maduros. Por outro lado os poemas estão povoados com referências a nomes das Artes e das Letras: Lawrence, Borges, Ruy Belo, Álvaro de Campos, José Gomes Ferreira, Herberto Helder, Peter Handke, Holderlin, Jorge Peixinho, Shoenberg, Bach, Boulez, Messien, Cesário Verde, Pavese, Mozart, Pousão, Matisse, Chagall, José Auréli ou Kurosawa.

O autor mantém a sua ligação a uma (a sua) arte poética antiga embora neste volume tenha a data de 5-6-90: «Perscrutar os veios da matéria /seus nexos sons perfumes /ínfimas substâncias copuladas pela língua /inventar o Verbo que invente a negação /da profaneidade da palavra /que autómatos nos move sobre escarpas/ autonomizar a «casa do Ser» /nos seus casulos de silêncio/ fazendo-os explodir no seio de Deus /para que Outro se recrie/ ser uno entre corpo e fluxo /usar o saber de todas a osmoses /todas a íntimas soberanias do sangue /negar a Morte abraçando-a /no Mundo»

Fiquemos com o poema escrito em 30-11-94 na memória da manhã de 1955: «Aquela tépida manhã primaveril - 1955 talvez / o bando dos «corvos» fato preto gravata obrigatória /onde seria a sessão de cinema / «Marcelino pão e vinho» - o menino em que nos revíamos / caminhando pelas Ómnias / talvez no Vale de Santarém irrecuperável neblina /essa frescura branca poalha do tempo/ o cheiro penetrante do estrume /junto a uma cavalariça rente à estrada de saibro/ o pecado pressentido a malícia indefesa /( as mãos – mundanamente – nos bolsos) / «os corvos» - «aí vão eles» murmúrios blasfémias / o ódio jacobino do mundo/ contra a redoma da Graça esse orgulho essa alteridade /(…) / o sangue do jovem «corvo» atarantado / entre antíteses impossíveis /esperma comburente no júbilo do incenso.»

(Editora – Húmus, Direcção – Francisco Guedes)

[Livros e Autores 14]

 

quarta-feira, 22 de março de 2023

«Vinho & Amigo o mais antigo – canções de beber dedicadas aos verdadeiros amigos – pela Off&Sina de Mvsica»

 


Livro/disco  com coordenação editorial de Carmo Gregório, textos de Bartolomeu Dutra, Francisco Luís Parreira, Frei Bento Domingues, João Paulo Martins, João Pimentel Carreiro, José Fanha e Paulo Sucena, arranjos e direcção musical de João Pimentel,  músicos: Rui Curto (acordeão), Jorge Trindade (clarinetes), João Pimentel (guitarra), Eduardo Jordão (piano), Ceciliu Isfan (violino e viola), solistas: Ana Baptista, Bartolomeu Dutra, Manuel Freire e Tony da Costa, coro: Ana Baptista e Cathrin Lybart (sopranos), Bruno Sales e Rodrigo Carreto (tenores), Gustavo Lopes (barítono), vozes: Daniel Vieira, Eduardo Costa Pereira, João Pimentel, Paulo Sucena e Rui Curto, declamador: José Fanha, assistente de produção executiva: Carole Plackitt, assistentes na direcção musical: Ana Baptista e Cathrin Lybart, engenheiro de som: Joaquim Monte, assistentes: Jerôme Durant e José Gil. O ponto de partida está na página 7: «Em finais do século passado, um grupo de amigos, reflectindo sobre a importância do vinho na sociabilidade e cultura portuguesas, constatou o seu parco conhecimento sobre as canções de beber do cancioneiro popular português, Assim nasceu a ideia de recolher e gravar uma antologia de cantigas populares portuguesas relacionada com o vinho, a amizade e o acto social de beber. Por variadas razões o projecto, embora nunca esquecido, foi sendo adiado. Tal como o vinho e a amizade carecem de maturação, também este desígnio só passados cerca de vinte anos se corporizou. O trabalho que agora se apresenta reúne textos de um conjunto de autores que aceitaram o desafio de reflectir sobre o tema, para além da antologia das cantigas registadas no CD que é parte integrante deste livro.» Uma das cantigas refere Santarém, Chamusca e Cartaxo: «Pelo belo do Cartaxo/A virar copos abaixo/Pelo belo do Chamusca/ Que seja de cor bem fusca/Pelo belo de Santarém/Que grandes virtudes tem/Pelo bom de Carcavelos/Que dá cor aos caramelos.»

(Editora: Fabula Urbis, Rua Augusto Rosa 29 Lisboa telefone 218885032)

[Livros e Autores 08]


terça-feira, 22 de novembro de 2022

«Alumbramentos» de Zetho Cunha Gonçalves

 


O título do livro remete para a citação inicial - «Este tempo não ama os alumbrados» do poeta brasileiro Murilo Mendes. Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) sabe que o poeta não precisa de dicionários; o seu poema é, já em si, toda a gramática do Mundo.

Aqui embora pareça singular, o destinatário é múltiplo e vário: «Carrega os teus olhos com toda a força do teu Ser. Com a tua vontade inconteste, afronta o Sol e os seus astros menores: o erro, a hipocrisia, o amor, a delicadeza e a paixão serão os mesmos – com outros rostos. Quando uma porta se fecha, volta-lhe as costas – não é outro o secreto mistério dos pássaros, a depudorada leveza; imperturbável, feliz e cantante.» Porque a paixão e o poema são fenómenos da mesma ordem: «Vagarosa e de perfil, da pedra informe e súbita do mundo: magnificência – os astros em derredor, fulminados pelo desejo: rio selvática e delicadamente sôfrego, exacto. Absoluto e fatal, irradiante: paixão e poema – rutila ciência indomável» O terceiro poema mostra de modo hábil como a paixão e o poema se misturam. No início («Toda a paixão nasce unívoca») no espaço central («um nome estremece o mundo pelo corpo que devasta») e na conclusão: «E dasabam relâmpagos sobre os teus olhos – que são nocturnos e perscrutam.» Num tempo e num espaço onde a vida é precária e a morte inevitável, o poema pergunta: «Oh, meu amor – por que morrem os amantes?»

Vejamos o poema que pode ser a chave deste livro breve mas intenso: «É a voz da pedra na caligrafia do Tempo. Bate forte, bate fundo – o coração do mundo estremecendo alto, deslumbradamente vivo. Beijo cravado na idade – flor rodada, constelação. Fende a branca labareda o abrupto relâmpago pela raiz – a noite como um lençol embriagado e lúcido, acautelando os nossos corpos de estrela a estrela, jubilosamente iluminados e fatais.»

(Edição no 60º aniversário do Poeta, Disponível na Livraria Letra Livre, Calçada do Combro – Lisboa)

[Um livro por semana 695]


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

«Meu reino por um cavalo» de António Ferra e Rui Castro

Este livro (recomendado pelo Plano Nacional de Leitura) integra 21 poemas e 21 desenhos nos quais António Ferra e Rui Castro elaboram uma homenagem e sugerem um convite à leitura da obra destes poetas, a saber: Reinaldo Ferreira, Mário de Sá-Carneiro, Miguel Torga, Natália Correia, Antero de Quental, Cesário Verde, Manuel da Fonseca, José Régio. Herberto Hélder, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Almeida Garrett, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alexandre O´Neill, Emanuel Félix, Eugénio de Castro, Fernando Assis Pacheco, Vitorino Nemésio, Álvaro de Campos e Florbela Espanca. O título do volume nasce do final da peça «Ricardo III» de Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês (1554-1616). O poema dedicado a Emanuel Félix integra um verso extraído do «Auto da Lusitânia» de Gil Vicente (século XVI). As páginas finais incluem 21 notas biográficas e bibliográficas dos autores aqui seleccionados, clarificando  António Ferra, entre outras particularidades, a diferença entre pseudónimo e heterónimo.

Como convite à leitura vejamos o poema de homenagem a Reinaldo Ferreira: «Dava tudo por um cavalo/ podia ser branco para voar/ de asas enormes para ir depressa/ para junto dos sonhos que vou sonhar// Dava tudo por uma cavalo/menos a pá se fosse padeiro/menos a pena se fosse poeta/menos a espada se fosse guerreiro//Dava tudo por uma cavalo/menos as cores se fosse pintor/menos os números se fosse engenheiro/menos a voz se fosse cantor// Dava tudo por uma cavalo/ menos o riso se fosse palhaço/ menos a máscara se fosse um actor/menos as mãos para dar um abraço//Se tivesse um segredo e quisesse guardá-lo/se eu fosse o rei da sabedoria/dava o meu reino por um cavalo/e depois guardava-o de noite e de dia»  

(Editora: Trinta por uma linha, Design e paginação: Anabela Dias, Colecção: Rimas traquinas)

[Um livro por semana 694]

 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

«Clara em castelo» de António Ferra


O mais recente livro de António Ferra integra 45 poemas pícaros no sentido não só de «astuto» e «malicioso» mas também aquele que «com arte e dissimulação logra o que deseja». Há nestes poemas uma dupla inscrição: o texto enquanto tal e o referente quotidiano como por exemplo «aceda ao portal das finanças», «estamos abertos ao sábado», «sala no primeiro andar» ou «cartão do cidadão ou BI».

O título do livro vem do poema 27: «O galope da zebra em tango argentino é dança no zoo/ (cagança poética), /com língua de velcro lambe a crina o bicho /de coice e martelo, /mestria de Braque em cubo incolor, /clara em castelo.»

Ao longo dos 45 poemas se percebe a já referida dupla inscrição (discurso poético - legenda trivial) pelo recurso a expressões como por exemplo «amparo de mãe» ou «URSS», figuras das letras e das artes, títulos de livros ou de peças de Teatro: Fernão Mendes Pinto, Braque, Debussy, Gargântua, O valente soldado Svejk, As vinhas da Ira, Beijo técnico.

A ironia atinge um ponto mais alto no verso que refere «a bicicleta de Bernardim» quando se sabe que de Bernardim é o rouxinol – o mesmo é dizer Coimbra.

Fiquemos com o poema 44 como legenda e despedida: «Querida Daisy, /nós por cá todos bem /a poetar na brevidade/de um orgasmo a solo/ o teu sardão morreu de sede/ a caminho do Algarve, /dá notícias, /teu Alfrede.»

(Editora: Douda Correria, Capa: Helena Sanmiguel Urbina, Composição: Joana Pires)

[Um livro por semana 691]


quinta-feira, 21 de julho de 2022

«O Fascínio da Quadra» de Manuel Barata


Manuel Barata (n.1952) publica regularmente desde 2003 («Quadras quase populares») sendo este o seu sétimo livro. Não surpreende que um dos poemas deste livro se intitule «Teoria da quadra» e conclua: «Uma quadra popular /não, não é arte menor;/engana-se quem achar/que é uma coisa sem valor. /Quando feita com talento /a quadra pode captar/a beleza dum momento/ perfeitamente invulgar.»

Os poemas do livro oscilam entre o «eu» e o «nós», entre o privado e o público, entre o particular e o geral. O poeta fala de si para falar dos outros e dos outros para falar de si. A quadra da página 28 recorda: «Na Beira Baixa nasci/numa paisagem tão dura! /Das muitas outras que vi, /quero esta despida e pura.» Na página 45 podemos ler sobre Salgueiro Maia: «Naquela manhã de Abril/ Maia, o nosso anti-herói/pôs fim a um regime vil/chaga velha que inda dói/ Valente e determinado/ e apoiado pelo povo/Maia, homem indomado/fez cair o Estado Novo.» E na página 47 sobre Yasser Arafat: «Nas ruínas da Mukataa/ - o seu quartel-general - /em campa muito pacata/jaz um mito universal. /Muitas vezes foi vencido/Mas nunca foi derrotado/Do seu povo era querido/pelo mundo respeitado./Era o homem do turbante /por Israel combatido /Físico insignificante? /Sim, mas forte e decidido. / Combatente de primeira /contudo sempre acossado /Era o mastro e a bandeira /da Nação-futuro-Estado.»

Mas a quadra pode ser também um lema de vida como na página 49: «Não queiras hoje acabar/um trabalho, uma obra./ Podes muito trabalhar/que o trabalho sempre sobra./Eu sei de fonte segura/que o trabalho não tem fim/Com pressa nada perdura;/ faz com calma…Vai por mim!/ Guarda algo para amanhã/faz com jeito, devagar/ ninguém faz depressa e bem /diz o saber popular.»

(Capa: Hugo Rios, Foto da contracapa: José Manuel Teixeira)

 [Um livro por semana 689]


sábado, 30 de abril de 2022

«ente» de António Ferra

O mais recente livro de António Ferra (n.1947) parte do lamento do poeta (ele mesmo) «querem-me mais número de senha que gente» mas mesmo quando lhe dizem que «os poemas são inúteis» ele recomeça porque «um gajo tem de se preparar para a vida eterna».

 O mal-estar do Mundo surge reflectido pelo sujeito do poema: «Ao sábado não trabalho, levanto-me ao meio dia, vale-me o café tardio ao lado dos filósofos de bairro de niilismo em sacos de plástico.» Como solução há uma proposta: «O melhor é ouvir contar uma história / como a daquele trovador de bairro ao terceiro copo / a falar da trela da tia extensível / a passear o cão à noite / de vocabulário a condizer com os sapatos.»

Entre o Amor e a Morte o poema adverte: «basta uma faúlha, um
cigarro mal apagado, uma faísca de raiva logo ardem gritos abafados pelas sílabas do fim»

(Impressão: Gráfica 99, Composição: Pedro Serpa, Desenho: do autor)

[Um livro por semana 685]


quinta-feira, 21 de abril de 2022

«Poemas vadios» de Álamo Oliveira


Autor multifacetado (poesia, romance, conto, teatro, ensaio) Álamo Oliveira (n.1945) surge em novo livro de 3 sequências (Dispersos, Restos, Senil idade) e 69 páginas, cujo ponto de partida é uma reflexão sobre a Poesia e o Mundo: «o que há mais no mundo/são cemitérios de versos/ todos os dias aparecem /versos e mais versos /todos mortos enterrados em livros /no entanto a poesia é contentamento indizível /afecto com carácter de urgência /grito disparado na direcção da liberdade /silêncio em voo de espanto /por isso os versos morrem sempre que alguém os afoga no papel»

A reflexão é do Poeta, ele mesmo: «tremo de medo se a ilha tremer /sinto que a alma sai dentro de mim /cismo que o sismo tem mais que fazer / ai quem me dera ser tempo sem fim. /casas caídas são dores na rua /paira a tristeza sobre o seu olhar /tombam as telhas no colo da lua /a ilha chora nas águas do mar. /esse tremor é pior do que a guerra /é um punhado de pedras de dor / mas uma esperança do ventre da terra /sai a cantar muitos versos de amor.»

Na sequência de nove poemas que começam todos do mesmo modo («perdi a poesia») o da página 34 resiste («perder não é morrer») e o da página 46 faz a ligação ao Amor: «ninguém sabe que os seus olhos /são duas ilhas azuis /a flutuar na liberdade /das palavras e dos amores»

Na sequência final um dos poemas interroga («depois da morte para que serve o medo?») e o último afirma: «O poeta vai continuar a cultivar a veleidade /de que tudo seria mais triste /se não andasse a rimar o pavor da morte /com o sossego infinito do além»

(Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Assistência editorial: Sara Santos, Capa e foto: Rui Melo, Grafismo: Rui Belo)

 [Um livro por semana 684]


domingo, 13 de março de 2022

«A solidão é como o vento» de Graça Pires


Depois de «Espaço livre com barcos», «Uma claridade que cega» e «Fui quase todas as mulheres de Modigliani», Graça Pires volta a publicar na «Poética Edições» quase 30 anos depois do seu primeiro livro («Poemas») que recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. A partir de citações de Herberto Helder e Adonis, o livro de 61 páginas nasce do que podemos designar como poema-resumo: «Encontrou-o à entrada do deserto/absorto, como se conhecesse/todas as invocações do silêncio. /Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento/pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.»

A solidão do título do livro pode surgir expressa no masculino («Sobre os seus ombros apenas a noite/sempre tão húmida, sempre tão humilhante») mas também no feminino: «Grávida da noite /soube desde logo/que o filho não iria pertencer-lhe. /Adoptaram-no./Antes de o entregar/ela lavou-o demoradamente/com as próprias lágrimas.»

Os poemas são registos qualificados daquilo a que chamamos «vida»: «A superstição é ignorância/diziam-lhe os amigos/ Ela enumerava os medos/que lhe habitavam os gestos:/espelhos quebrados/facas cruzadas, gatos pretos/ uma progressão de alarmes/abrigado na memória/pressentindo catástrofes e azares.» Ou ainda do que podemos chamar «amor»: «Rasgou o retrato em pedaços/Enviara-lho uma amiga/ do grupo do ginásio: ele ao lado deles. /Não gostou. /Ainda tinha no sangue /a vertigem solar /do corpo que amara.» Umas vezes o poema fecha-se no «eu»: «Não frequentou a escola/no tempo de criança que lhe coube. /O trabalho instalou-se desde sempre /na orfandade de suas mãos.»Outras vezes abre-se ao grupo, ao «nós»: «O jantar estava excelente/disseram seus amigos/voltando a encher os copos. /Um rumor de vindimas/propagou-se pela sala.»

Cada poema faz a crónica de uma solidão. Seja na página 42 («Elas retêm múltiplas memórias/que definem a vida que lhes coube.» ou seja n página 47: «Procurou a cicatriz dos dias, o risco da vida/e da morte, o choro dos filhos nas horas aflitas». Mas também a confusão entre Arte e Vida na página 50: «E quanta mágoa no olhar do avô /quando o neto lhe disse em arremesso:/mas isto não é um cavalo a sério, como eu queria.»

(Poética Edições)

 [Um livro por semana 682]