segunda-feira, 23 de março de 2026

MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000 (de Ana Francisco Sutherland)


Ana Francisco Sutherland

MODERN BUILDINGS IN BLACKHEATH AND GREENWICH LONDON 1950-2000

Um dos aspectos mais curiosos deste livro de 416 páginas (Editora Park Books – Zurich) é que a jovem autora nasceu em Lisboa (1978) e os arquitectos cujo trabalho está plasmado neste inventário qualificado de dois bairros londrinos (rua a rua, casa a casa) formando uma espécie de «bilhete de identidade» de cada projecto e de cada realização, são também, em grande parte, emigrantes – vieram de países como Iraque, Índia, Jugoslávia, Itália, Alemanha e na maioria do Reino Unido entre ingleses e escoceses. A identificação de cada casa envolve: morada, arquitecto autor do projecto, pessoa ou promotor imobiliário que fez a encomenda, ano da construção e prémios atribuídos. Quinze das casas estudadas foram desenhadas pelo arquitecto para nela viver com a sua família. Ao mesmo tempo que fazia o trabalho de campo, a autora pôde consultar os arquivos do RIBA Royal Institute of British Architects, fundado em 1834 e que integra quase toda a memória da arquitectura inglesa. O trabalho demorou sete anos pois incluiu entrevistas a arquitectos e seus familiares, promotores imobiliários, consulta de arquivos municipais e entrevistas com historiadores. Não por acaso o prefácio é assinado por Neil Bingham, reputado historiador ligado à Royal Academy of Arts, ao RIBA e responsável no Victoria anda Albert Museum pela curadoria da vertente histórica da Arquitectura. Além das casas estudadas em pormenor, o livro indica em três página outros edifícios com interesse na zona de Blackheath e de Greenwich. Para além do apoio do mecenato (John Payne) colaboraram de modo activo no livro (entre outras entidades e pessoas) The Blackheath Society, The Greenwich Society e o Wates Family Enterprise Trust. A autora estreou-se em livro no ano de 2003 com «Personagens para um lugar memorável» (Editora Black Sun - Lisboa) um livro de contos curtos por si ilustrados. Assumiu desde Janeiro de 2026 a presidência da The Blackheath Society. Seguindo à risca as indicações de Tolstoi («Se queres ser universal, escreve sobre a tua aldeia») a autora juntou os desenhos, mapas e plantas à escala do marido (Ian Sutherland), as fotografias do filho Tomás e o trabalho de relações públicas do outro filho Lucas. Tal como num poema, este livro foi escrito para juntar de novo tudo o que a Morte separou. JCF 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PREGOS DE CRUZ (Emanuel Jorge Botelho)

 


Emanuel Jorge Botelho (n.1950) estreou-se em livro no ano de 1981 e este seu mais recente volume (2025) tem 41 páginas - Editora Averno, capa Inês Dias, grafismo Pedro Santos. Já em 1986 a Revista «Seara Nova» tinha chamado a atenção para a importância da sua poesia (ao tempo) em afirmação. É o que se pode chamar um corredor de fundo. Claro que as coisas não são assim tão simples; basta pensar nos casos de Cesário Verde (1855-1886) ou de Charles Bizet (1838-1875) para perceber que não são apenas os maratonistas que ficam na posteridade das letras e das artes. Os jovens que morrem cedo também ficam num panteão de qualidade e memória. Voltando ao livro cujo título lembra a ideia da morte, notamos as citações na página 5 – Malcolm de Chazal, Marina Tsvietaieva e Paul Celan. O poema da página 7 abre o livro e refere «talvez assim me safe da purga com que a alma/se livra do ardil da incerteza/e o silêncio venha, sem ser visto/repor a verdade que há na morte». A chave pode estar na página 13 («cada poema é um sudário da alma») ou na página 20: «fazes o quê com o medo que te resta?». Perante o inevitável da morte só o amor pode responder: «é tudo muito simples;/digo meu amor/e tudo sara no meu corpo/o meu medo sabe de cor o teu nome/e gosta da tua voz.» O livro apresenta ainda epígrafes de E.M. Cioran, Yannis Ritsos, José Sebag, Paul Celan e Artaud. JCF