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domingo, 10 de março de 2019

«Sob os braços da azinheira – Leituras de Fátima» de Ruy Ventura



O ponto de partida deste livro de Ruy Ventura (n.1973) está na página 63: «Não pretendo ser exaustivo neste ensaio sobre Fátima. Tenho por isso a vantagem de abordar apenas aqueles textos cujo interesse se mostrou mais saliente a meus olhos.» Já na página 29 tinha advertido: «Se as civilizações vão mudando, a cultura permanece. E não há cultura sem culto.»
Mas o olhar pessoal do autor insere-se no olhar geral: «O estatuto do acontecimento-Fátima tem evoluído. A quase impossível indiferença perante o que há de enigmático e de misterioso no relato de três crianças tem gerado adesões, delírios e rejeições, os quais vêm originando desde a sua apropriação e reelaboração sectária por grupos integristas à sua manipulação e ao seu desprezo por correntes e agentes que não aceitam e combatem a crença.» Num certo sentido Ruy Ventura responde ao desafio de Natércia Freire: «E os símbolos, os sonhos, as visões, / - sonâmbulas manhãs de nuvens altas / Clamam quem os decifre, quem os leia». Já o Papa Francisco em 2013 referiu: «Trata-se de uma verdadeira “espiritualidade encarnada na cultura dos simples”. Não é vazia de conteúdos mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no ato de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum. É “uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários”.» Por outro lado o poeta Paul Claudel conclui: «Fátima é um arrombamento. É uma irrupção brutal, diria quase escandalosa, do outro mundo através das fronteiras inoportunas deste. Já não estamos prante intérpretes e mensageiros, nem prante confidências ou comunicações a algumas almas eleitas a coberto do sono, do êxtase ou da noite.»
Sabendo que não possível resumir
um livro de 246 páginas em 26 linhas de A4, ficam algumas pistas de leitura e uma dupla nota final. Por um lado as páginas 187 a 203 integram um poema dramático de Ruy Ventura no qual o caminheiro se transforma em peregrino. Entretanto o conjunto das imagens das páginas 219 a 238 constitui-se como uma belíssima embora breve fotobiografia de Fátima e da sua História.
    
(Editora: Santuário de Fátima, Prefácio: Marco Daniel Duarte, Capa: Azinheira Grande (foto de 2018), Design e Paginação: Inês Duarte)

[Um livro por semana 612]

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Gonçalo Pereira Rosa - «já nada me espanta» e outros casos tristes


Começo o texto com uma nota pessoal: prestes a completar 40 anos de actividade em jornais e revistas não me envergonho de nada do que publiquei mas arrependo-me de ter publicado sem anotações no Jornal «Sporting» uma página do livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista. Trata-se de um jogo entre o SCP e o Sport Lisboa em 1-12-1907 ao qual foi atribuído por erro crasso o título de «O primeiro derby» isto porque o SLB não podia ter disputado nenhum jogo antes de 13-9-1908. Gonçalo Pereira Rosa estudou agora o caso do assassinato da actriz Maria Alves em 1926 e publicou dois livros onde esse tema é desenvolvido mas o «Magazine» do «D.N.» publicou outro dia um texto sobre o assunto como se a pólvora estivesse a ser descoberta agora, no ano de 2018. Gonçalo respondeu com ironia a quem o interpelou sobre este caso: «Já nada me espanta». Outro dia passou-me pelas mãos um recorte da revista «Sábado» com a história da macaca de Oliveira de Azeméis, vila onde a comitiva do SCP costumava parar nos anos 40 antes de ir jogar com o FCP. Claro que os «leões» ganhavam, perdiam ou empatavam segundo factores determinados: as incidências do jogo, os erros dos jogadores de ambas as equipas, a influência da arbitragem que, muitas vezes, é decisiva. Ou seja – outras macacadas. Há por ali o perfume da prosa de António Simões («A Bola») mas uma coisas destas não é para quem quer, é para quem pode. Não dá para imitar. Voltando ao «Magazine» que faz parte do «D.N.» não bastava terem trocado «enclave» por «conclave» a propósito da Síria. Apetece dizer como a minha avó de Santa Catarina: «Não há direito!» E ela não desconfiava do que muito mais tarde eu verifiquei nos Tribunais de Menores: o Direito é o maior inimigo da Justiça.

(Crónicas do Tejo 128)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Almada e o Tejo – roteiro sentimental de uma das «minhas» cidades



Quando elaborei por escrito e por extenso uma espécie de «memória justificativa» para num certo sentido legitimar o início das minhas crónicas (do Tejo) no «Correio do Ribatejo» dei conta das minhas vivências em 1957 no Montijo (escola primária), em 1961 em Vila Franca de Xira (escola comercial) e em 1997 em Santarém (redactor de O MIRANTE) sem esquecer Lisboa e a Rua do Ouro onde tenho vivido e trabalhado desde 1966 até hoje – 2018. Mas a vida é um mistério e nada acontece por acaso: hoje (15-3-2018) entrei numa livraria com o meu amigo Joaquim Nascimento (ofereceu-me um livro!) e comprei o brasão de Almada. Embora nunca tenho lá vivido nem trabalhado, a verdade é que, desde sempre, me lembro de esta (hoje) cidade fazer parte da minha vida. Há muitos anos morreu na piscina do Seminário de Almada um jovem estudante natural de Santa Catarina (o António) de quem eu era muito amigo. Na altura só me lembro de duas palavras perante a sua morte: dôr e confusão. Dôr pelo desaparecimento dele e confusão pelas circunstâncias nunca esclarecidas da sua morte. Mais tarde Almada foi o lugar onde entrevistei o dramaturgo Romeu Correia para a Revista «A Bola Magazine», entrevista mais tarde englobada no meu livro «As palavras em jogo» e parte dela recordada no livro «Passeio mágico com Romeu Correia» de Luís Alves Milheiro. A propósito deste meu grande amigo e quase-conterrâneo (Salir de Matos fica perto de Santa Catarina) não posso deixar de recordar as suas grandes capacidades informáticas em meu favor (sou um sem-abrigo) e as nossas intermináveis caldeiradas em Cacilhas quando a refeição serve em teoria para actualizar a escrita mas apesar de tudo esta nunca fica, de facto, em dia. A minha filha Ana, o marido e os filhos gostam muito da Casa da Cerca mas isso já é outra crónica.

(Crónicas do Tejo 123)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A última aguardente do Tio Nascimento



Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

(Crónicas do Tejo 113 - fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

«Velhos são os caminhos» de José Correia Tavares


José Correia Tavares (1938-2018)) apresenta-se numa quadra da página 31: «Constando aí meus rigores / Tudo ciência de ouvido / Muitos e grandes autores / Emendei a seu pedido.» Este livro é especial porque integra uma epígrafe de J. Rentes de Carvalho do livro «Mazagran»: «É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que nascem com a idade.»
Esta capacidade (ironia) de rir de si próprio surge na página 22: «Sou um poeta menor / Flori mas frutos não dei / Talvez, sabendo-as de cor, / Por medo às tábuas da lei.» Noutra quadra se pode ler toda uma sábia acumulação da filosofia: «Na paixão mal conjugados / Os verbos não se entendendo / Tempos e modos trocados / Amar é viver morrendo.» Poesia que não se fecha em si mesma, há nela um olhar sobre o mundo e o tempo: «Um cigarro na caruma / Parecendo não dar guerra / Sem importância nenhuma / Fará arder toda a serra.» Uma quadra faz a antecipação do fim da vida: «Mãos dadas à minha volta / Quando partir, rumo aos céus / Eu preciso duma escolta / Para me encontrar com Deus.» A Guerra Colonial está sempre presente: «Perdi, quando tinha farda / Cristo num fio em Angola/ Resta-me o anjo-da-guarda / Mas não bate bem da bola.» Noutra quadra é a Vida que passa depressa: «As coisas são mesmo assim: / Tendo mais ou menos graça / Passou a vida por mim / Como o sol pela vidraça.» Mas, mesmo passando depressa, a Vida é povoada por filhos da mãe: «Todos uns belos sacanas: / Antigos seminaristas, / Em suas vidas, profanas / Ostentam de bispo as cristas.» Ou então por ladrões: «Tu sempre foste ladrão / Mas escapas, qual enguia / Se um de nós te põe a mão / Vais parar à enxovia.»
Entre o Mundo e a Vida, a voz do Poeta tudo regista, até um canto gregoriano: «O canto gregoriano / Que nos ares se levanta / Mesmo divino, é humano / Pois sai da nossa garganta.» Tal como regista a própria arte poética: «Há coisas essenciais / Para fazer um poema: / Alegrias, também ais / Seja lá qual for o tema.»

(Um livro por semana 580 - Editora: Húmus, Prefácio: Lídia Jorge)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Luís Alberto Ferreira – do azul de Luanda ao azul de Belém


Luís Alberto Ferreira (n.1933) é um magnífico jornalista luandense que desde cedo se tornou adepto do Clube Atlético de Luanda, agremiação especial de onde partiu gente para o MPLA – Américo Boavida e Diógenes Boavida foram seus jogadores. As calúnias contra este Clube («clube dos cozinheiros», «clube dos mulatos», «ninho de conspiradores») ainda deram mais força a uma entidade que nasceu, cresceu e sobreviveu «como um corcel de persistência e de estoicismo» tornando-se uma Escola de «amizades, de interacções e de solidariedades». Daí o nome de «Escola» que todos lhe davam, englobando neste «todos» a diversidade dos negros mestiços e brancos que estavam na Direcção (Aníbal Melo, Couto Cabral, Faliero Cunha, Alberto Luís Ferreira) e a massa adepta que ia dos musseques às Ingombotas e aos Coqueiros. Leitor atento da Revista Stadium, o jovem Luís Alberto reparava sempre num jogador dos azuis de Belém (José Simões) que usava um lenço dobrado sobre os calções negros. A camisola era azul como a do Atlético de Luanda. Anos depois, já estudante em Lisboa, o jovem luandense ia ver os jogos de Os Belenenses de eléctrico ao lado de Artur Quaresma e de Mariano Amaro. José Simões foi vitimado por uma pneumonia não sem antes ter visto a sua recusa em fazer a saudação nazi mascarada na capa de uma Revista onde alguém lhe desenhou os dedos. Pode ter sido essa «Escola» que ensinou Luís Alberto Ferreira a respeitar os outros que são adversários mas não inimigos. Por isso no funeral do extremo-esquerdo portista Nóbrega estavam poucos adeptos e nenhum dos «adesivos» que só aparecem nas vitórias. O pai de Rui e de Avelino Mingas também lá jogou e por isso há uma lógica quando Rui Mingas canta: «Fuba podre / peixe podre / pano ruim /cinquenta angolares / porrada se refilares».

(Crónicas do Tejo 109 – fotografia de autor desconhecido)

sábado, 8 de julho de 2017

Lamentação para um tempo passado na foto a preto e branco


Num destes fins de tarde de Lisboa com um céu cheio de nuvens brancas a anunciar trovoadas e bandos de turistas (não viajantes) em calções curtos que sobem as Escadinhas do Duque a gritar «Are you local people?», num destes fins de tarde recebi uma oferta inesperada. Um livreiro em arrumações na sua livraria descobriu desirmanada uma fotografia a preto e branco que me ofereceu. Pode ser a Brigitte Bardot, pode ser uma das jovens actrizes a que os jornais dos anos 60 chamavam «azougadas» e mostravam os seus pequenos biquínis nas praias da Riviera Francesa. O livreiro meu amigo oferece-me a fotografia e com ela o pretexto para uma crónica. Esmo sem estar presente nela esta fotografia tem a ver com esse tempo. Eu era em 1966 um jovem atónito, confuso e perdido na grande cidade. Tinha começado a trabalhar numa sexta-feira nove de Setembro porque nesse tempo trabalhava-se ao sábado até às 13 horas nos Bancos. Não tenho a certeza se actriz é Brigitte Bardot nem isso é agora o mais importante. Sei que este é um retrato desse tempo de guerra e paz, de amor e ódio, de morte e vida. Mesmo quando as manhãs se abriam em esperança as tardes acabavam em amargura. O tempo era triste, a monotonia tudo abarcava, o velho ditador, o monstro de Santa Comba Dão falava na Rádio e na TV para dizer: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!»

(Vinte Linhas 1692)