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segunda-feira, 5 de junho de 2023

«José Afonso ao vivo» de Adelino Gomes

Trata-se aqui de um belíssimo livro/disco de 84 páginas com dois CDs e um LP dos concertos de José Afonso em Coimbra (4-5-68) e Carreço (23-2-80). Adelino Gomes (n.1944) chamou-lhe «Uma fagulha colectiva» embora na página 3 se leia «Zeca Afonso inédito» e na capa se leia «José Afonso do vivo». O trabalho deste livro/disco confirma em pleno as palavras de Jacinto Baptista em 1978 no jornal «Diário Popular»: «O jornalista é o historiador do quotidiano». Na verdade Adelino Gomes estava no Cais da Rocha Conde de Óbidos em 9-9-67 e queria entrevistar José Afonso (1929-1987) para o programa PBX no RCP mas a primeira resposta é adversativa: «Porquê? Para quê? Deixei-me dessas coisas. Importantes, umas cantiguetas?» . Adelino Gomes não desiste e recorre a fotografias, recortes de jornais, cartazes, ofícios da GNR, ofícios da PIDE, cartas, bilhetes para espectáculos, convites, recados. Assim organiza uma reportagem, o mesmo é dizer, uma cartografia sentimental dum certo tempo português exacto e definido.

A primeira parte do livro vai de 9-9-67 (chegada da navio «Angola») a 28-12-68, data do espectáculo na Gruta das Lapas (Torres Novas) com intervenção directa do pároco Amílcar Fialho, natural de Santa Catarina. A segunda parte avança para 28-2-1980 com os pormenores do concerto realizado nesse dia às21h30m na Sociedade Instrução e Recreio de Carreço. O resto está no livro e nenhuma nota de leitura pode substituir. Fiquemos com as palavras finais de Adelino Gomes: «Falei com mais de uma centena e meia de pessoas. Pessoalmente, via telefone e inúmeras vezes por email. Apenas uma pequena parte verá o seu nome citado neste trabalho. Esse foi sempre, enquanto jornalista, um dos meus dramas.»      

Resumir um livro de 84 páginas em 23 linhas também pode ser visto como um drama mas como diz o lugar-comum de todos nós «não há-de ser nada» O importante é que o convite a ler o livro e a ouvir os CDs ou o LP seja aceite porque um caso destes só acontece uma vez na vida.

(Editora: Tradisom, Introdução, investigação e texto: Adelino Gomes, Nota do editor: José Moças. Posfácio: Ricardo Romano, Concerto de Coimbra: Jorge Rino, Concerto de Carreço: Manuel Mina, Design: Rodrigo Madeira, Revisão: Laura Alves, Apoios: Fundação INATEL, Municípios de Coimbra, Torre de Moncorvo, Santo Tirso, Setúbal, Viana do Castelo e Grândola)

[«Livros e Autores 10]


quarta-feira, 22 de março de 2023

«Vinho & Amigo o mais antigo – canções de beber dedicadas aos verdadeiros amigos – pela Off&Sina de Mvsica»

 


Livro/disco  com coordenação editorial de Carmo Gregório, textos de Bartolomeu Dutra, Francisco Luís Parreira, Frei Bento Domingues, João Paulo Martins, João Pimentel Carreiro, José Fanha e Paulo Sucena, arranjos e direcção musical de João Pimentel,  músicos: Rui Curto (acordeão), Jorge Trindade (clarinetes), João Pimentel (guitarra), Eduardo Jordão (piano), Ceciliu Isfan (violino e viola), solistas: Ana Baptista, Bartolomeu Dutra, Manuel Freire e Tony da Costa, coro: Ana Baptista e Cathrin Lybart (sopranos), Bruno Sales e Rodrigo Carreto (tenores), Gustavo Lopes (barítono), vozes: Daniel Vieira, Eduardo Costa Pereira, João Pimentel, Paulo Sucena e Rui Curto, declamador: José Fanha, assistente de produção executiva: Carole Plackitt, assistentes na direcção musical: Ana Baptista e Cathrin Lybart, engenheiro de som: Joaquim Monte, assistentes: Jerôme Durant e José Gil. O ponto de partida está na página 7: «Em finais do século passado, um grupo de amigos, reflectindo sobre a importância do vinho na sociabilidade e cultura portuguesas, constatou o seu parco conhecimento sobre as canções de beber do cancioneiro popular português, Assim nasceu a ideia de recolher e gravar uma antologia de cantigas populares portuguesas relacionada com o vinho, a amizade e o acto social de beber. Por variadas razões o projecto, embora nunca esquecido, foi sendo adiado. Tal como o vinho e a amizade carecem de maturação, também este desígnio só passados cerca de vinte anos se corporizou. O trabalho que agora se apresenta reúne textos de um conjunto de autores que aceitaram o desafio de reflectir sobre o tema, para além da antologia das cantigas registadas no CD que é parte integrante deste livro.» Uma das cantigas refere Santarém, Chamusca e Cartaxo: «Pelo belo do Cartaxo/A virar copos abaixo/Pelo belo do Chamusca/ Que seja de cor bem fusca/Pelo belo de Santarém/Que grandes virtudes tem/Pelo bom de Carcavelos/Que dá cor aos caramelos.»

(Editora: Fabula Urbis, Rua Augusto Rosa 29 Lisboa telefone 218885032)

[Livros e Autores 08]


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

«José Afonso ao vivo» de Adelino Gomes


Trata-se aqui de um belíssimo livro/disco de 84 páginas com dois CDs e um LP dos concertos de José Afonso em Coimbra (4-5-68) e Carreço (23-2-80). Adelino Gomes (n.1944) chamou-lhe «Uma fagulha colectiva» embora na página 3 se leia «Zeca Afonso inédito» e na capa se leia «José Afonso do vivo». O trabalho deste livro/disco confirma em pleno as palavras de Jacinto Baptista em 1978 no jornal «Diário Popular»: «O jornalista é o historiador do quotidiano». Na verdade Adelino Gomes estava no Cais da Rocha Conde de Óbidos em 9-9-67 e queria entrevistar José Afonso (1929-1987) para o programa PBX no RCP mas a primeira resposta é adversativa: «Porquê? Para quê? Deixei-me dessas coisas. Importantes, umas cantiguetas?» . Adelino Gomes não desiste e recorre a fotografias, recortes de jornais, cartazes, ofícios da GNR, ofícios da PIDE, cartas, bilhetes para espectáculos, convites, recados. Assim organiza uma reportagem, o mesmo é dizer, uma cartografia sentimental dum certo tempo português exacto e definido.

A primeira parte do livro vai de 9-9-67 (chegada da navio «Angola») a 28-12-68, data do espectáculo na Gruta das Lapas (Torres Novas) com intervenção directa do pároco Amílcar Fialho, natural de Santa Catarina. A segunda parte avança para 28-2-1980 com os pormenores do concerto realizado nesse dia às21h30m na Sociedade Instrução e Recreio de Carreço. O resto está no livro e nenhuma nota de leitura pode substituir. Fiquemos com as palavras finais de Adelino Gomes: «Falei com mais de uma centena e meia de pessoas. Pessoalmente, via telefone e inúmeras vezes por email. Apenas uma pequena parte verá o seu nome citado neste trabalho. Esse foi sempre, enquanto jornalista, um dos meus dramas.»      

Resumir um livro de 84 páginas em 23 linhas também pode ser visto como um drama mas como diz o lugar-comum de todos nós «não há-de ser nada» O importante é que o convite a ler o livro e a ouvir os CDs ou o LP seja aceite porque um caso destes só acontece uma vez na vida.

(Editora: Tradisom, Introdução, investigação e texto: Adelino Gomes, Nota do editor: José Moças. Posfácio: Ricardo Romano, Concerto de Coimbra: Jorge Rino, Concerto de Carreço: Manuel Mina, Design: Rodrigo Madeira, Revisão: Laura Alves, Apoios: Fundação INATEL, Municípios de Coimbra, Torre de Moncorvo, Santo Tirso, Setúbal, Viana do Castelo e Grândola)

[Um livro por semana 679]


quinta-feira, 15 de julho de 2021

«Como se eu tivesse asas – As memórias perdidas» de Chet Baker

O arco temporal desta biografia de Chet Baker (1929-1988) decorre entre 1946 (Washington) e 1963 (Barcelona) o mesmo é dizer entre a recruta no Exército americano e mais uma recaída  - «tudo recomeçou uma vez mais». Na introdução deste livro Carol Baker em 1997 afirma: «Chet Baker não pode ser descrito apenas como músico, toxicodependente, marido ou lenda» pois a sua vida aqui contada em 112 páginas foi «um irremediável caos impregnado de puro génio». No resumo possível deste livro podemos realçar os encontros com as mulheres na vida do músico: Cisella, Sherry, Charlaine, Liliane, Halema e Carol.
Com treze anos Chet passa do trombone para a trompete «porque não conseguia chegar bem às posições mais em baixo» o que prova que o acaso tem muita força. Terá sido por acaso que descobriu a droga: «O Andy foi também a primeira pessoa que me fez descobrir a erva, abençoado seja.» Em 1946 entra com 16 anos para o Exército americano, torna-se amigo de um companheiro de instrução e sente a sorte do seu lado: «Eu e o Dick fomos os únicos destacados para a Europa no nosso regimento; todos os outros foram enviados para o Japão e para a Coreia.» Na sua viagem para Bremerhaven descobre a loucura: «Como não havia álcool para beber, alguns tipos misturavam Aqua Velva e sumo de frutas. De tanto engolirem aquele cocktail tóxico à base de aftershave alguns ficaram cegos.» Na Alemanha tudo era possível: «Qualquer soldado podia mandar para um Volkswagen conduzido por um alemão (desde que o motorista estivesse sozinho) e este levá-lo aonde quer que fosse por cinco ou seis cigarros.» É em Berlim que descobre Cisella: «Ela e a irmã tinham sido enviadas para lá pelos pais na esperança de que viessem a conhecer um soldado – de preferência um oficial. O plano era casarem ou, no mínimo, receberem comida, roupa e dinheiro desse militar.» Forte o encontro com Charlie Parker no Tiffany Club : «Senti-me pouco à vontade e muito nervoso quando ele perguntou à assistência se eu estava lá e se podia subir e tocar alguma coisa com ele.»
Fica apenas uma ideia deste magnífico livro de memórias que não se pode perder.


(Editora: VS Vasco Santos, Design: João Bicker, Revisão: Carina Correia, Tradução: Sofia Castro Henriques)


[Um livro por semana 671]
 

quarta-feira, 4 de março de 2020

O rumor do Mundo em Bernardo Matias



Nasci em Santa Catarina numa casa de músicos. A casa já não existe mas as memórias não se perdem. Minha avó tinha a alcunha de «Flauta» e meu avô tocava trompete; começou com um cornetim de 1923 que hoje em 2020 ainda guardo à entrada de casa. A família Catarinense estava na Filarmónica: meu avô José Almeida, meus tios Álvaro e Armindo, meu tio Joaquim Freire, meu primo Luís Freire, meus primos direitos Reinaldo e Luís Almeida. INICIAIS, o meu primeiro livro individual, foi escrito há 40 anos e publicado há 39. Integra sete poemas dedicados a compositores e intérpretes: Vivaldi, Handel, Keith Jarret, Maria Farandouri, Mikis Theodorakis, Paul Williams e Sandy Denny. Isto vem a propósito do novo CD de Bernardo Matias (n.1996) oferecido pelo primo Luís Almeida junto ao cemitério de Santa Catarina. Pode parecer insólito mas não é: tanto a Música como a Poesia procuram juntar de novo tudo o que a morte separou. Neste caso do CD de Bernardo Matias basta pensar que Isaac Albéniz (1860-1909) vive de novo numa das faixas (Astúrias) do presente trabalho que integra onze temas. O CD junta ao som do saxofone, o piano de João Lucena e Vale na interpretação das peças de Daniel Bernardes, Sérgio Azevedo, Pedro Francisco, Nuno Roque, Daniel Schvetz, Francisco Chaves e Albéniz num arranjo do próprio Bernardo Matias. Não sou crítico musical mas vejo nesta viagem de peças musicais um rumor do Mundo, o mesmo Mundo que vivi de 1951 a 1957 quando se ouvia o comboio de São Martinho do Porto durante as vagarosas sementeiras desse tempo. Ou o oceano a bater nas rochas do lado de lá da baía amena. Os pioneiros de 1428 que se desligaram do Dom Abade de Cister e fizeram uma igreja nova na nossa terra devem estar orgulhosos de Bernardo Matias. Eu sou um obscuro publicista e também estou.       

[Crónicas do Tejo 221]