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sábado, 11 de julho de 2026

SANTO CRISTO ÁLBUM DE EMOÇÕES E ROTEIRO DE RAZÕES - José Andrade


SANTO CRISTO ÁLBUM DE EMOÇÕES E ROTEIRO DE RAZÕES - José Andrade

Este livro de 114 páginas (Edição Letras Lavadas) integra uma dupla inscrição: é um dicionário actual e é uma história passada. Dito de outra maneira: apresenta 32 verbetes que vão de Andor e Caloura a Tesouro e Vigília e também uma separata histórica comemorativa dos 250 anos da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Cada entrada de José Andrade tem a correspondente imagem. Vem a propósito recordar os nomes dos fotógrafos convocados – José António Rodrigues, Mário Pereira, Arturo Mari e Orlando Medeiros. A separata inclui o texto do voto de congratulação da Assembleia Regional em Abril de 2015, os primeiros Estatutos em Abril de 1765, os 184 primeiros irmãos, os 8 últimos provedores e os 338 actuais irmãos à data de 2015. Este livro foi editado em Abril de 2015 mas reimpresso em 2017, 2018 e 2020. A página 40 integra a partitura do Hino do Senhor Santo Cristo dos Milagres e como convite à leitura fica a citação da letra: «Glória a Cristo Jesus, glória eterna/Nosso Rei, nossa firme esperança/soberano que os mundos governa/e as nações recebem por herança/Com o manto e o ceptro irrisório/sois de espinhos cruéis coroado/Rei da dor, uma vez no Pretório/Rei de amor, para sempre adorado/Combatendo por vossa Bandeira/que no peito trazemos erguida/alcançamos a paz verdadeira/e a vitória nas lutas da vida/Só a Vós com inteira obediência/serviremos com firme vontade/porque em Vós há justiça e clemência/porque em voz resplandece a verdade/ Concedei-nos por graça divina/que sejamos um povo de eleitos/firmes crentes na Vossa doutrina/cumpridores dos Vossos preceitos». Mais do que um livro, esta é uma notável fotobiografia que junta de modo feliz emoção e razão. JCF     


domingo, 10 de março de 2019

«Sob os braços da azinheira – Leituras de Fátima» de Ruy Ventura



O ponto de partida deste livro de Ruy Ventura (n.1973) está na página 63: «Não pretendo ser exaustivo neste ensaio sobre Fátima. Tenho por isso a vantagem de abordar apenas aqueles textos cujo interesse se mostrou mais saliente a meus olhos.» Já na página 29 tinha advertido: «Se as civilizações vão mudando, a cultura permanece. E não há cultura sem culto.»
Mas o olhar pessoal do autor insere-se no olhar geral: «O estatuto do acontecimento-Fátima tem evoluído. A quase impossível indiferença perante o que há de enigmático e de misterioso no relato de três crianças tem gerado adesões, delírios e rejeições, os quais vêm originando desde a sua apropriação e reelaboração sectária por grupos integristas à sua manipulação e ao seu desprezo por correntes e agentes que não aceitam e combatem a crença.» Num certo sentido Ruy Ventura responde ao desafio de Natércia Freire: «E os símbolos, os sonhos, as visões, / - sonâmbulas manhãs de nuvens altas / Clamam quem os decifre, quem os leia». Já o Papa Francisco em 2013 referiu: «Trata-se de uma verdadeira “espiritualidade encarnada na cultura dos simples”. Não é vazia de conteúdos mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no ato de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum. É “uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários”.» Por outro lado o poeta Paul Claudel conclui: «Fátima é um arrombamento. É uma irrupção brutal, diria quase escandalosa, do outro mundo através das fronteiras inoportunas deste. Já não estamos prante intérpretes e mensageiros, nem prante confidências ou comunicações a algumas almas eleitas a coberto do sono, do êxtase ou da noite.»
Sabendo que não possível resumir
um livro de 246 páginas em 26 linhas de A4, ficam algumas pistas de leitura e uma dupla nota final. Por um lado as páginas 187 a 203 integram um poema dramático de Ruy Ventura no qual o caminheiro se transforma em peregrino. Entretanto o conjunto das imagens das páginas 219 a 238 constitui-se como uma belíssima embora breve fotobiografia de Fátima e da sua História.
    
(Editora: Santuário de Fátima, Prefácio: Marco Daniel Duarte, Capa: Azinheira Grande (foto de 2018), Design e Paginação: Inês Duarte)

[Um livro por semana 612]

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

«II Colóquio da Ribeira de Muge – O Culto Mariano» de Roberto Caneira, Ana Correia, Manuel Evangelista e Aurélio Lopes



Realizado em 10-6-2017, este Colóquio foi organizado pela Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge e pela Junta de Freguesia da Raposa. Das quatro em presença referimos em especial a comunicação de Aurélio Lopes que tem início com um paradoxo: «A afirmação de uma divindade feminina numa organização religiosa fortemente patriarcal é algo, à primeira vista, insólito e inaudito.» De facto numa sociedade constituída por «pastores, artesãos e mercadores» a mulher é a vilã: «trai e arrasta o homem num intemporal processo de desobediência, justificando assim todo um interminável percurso de estigmatização e sujeição, na família e na sociedade. É Pandora. É Eva. As mulheres serão, assim, profundamente secundarizadas e subalternizadas.» A conclusão surge na página 49: «O Cristianismo (como o Judaísmo e o Islamismo) possui apenas um Deus, um Deus estereotipadamente masculino, dir-se-á. Mas o Cristianismo irá impregnar sistemas culturais, religiosos e filosóficos muito diversificados e muito diferentes das matrizes ideológicas donde emana. Muitos deles habituados, há milénios, a divindades femininas ligadas à terra, fertilidade, saúde e ciclos de vida. A ascenção gradual do culto mariano virá, assim, a preencher uma evidente necessidade entre as massas cristãs, sobretudo entre as populações rurais e menos instruídas.»

(Editora: Academia Itinerarium XIV da Ribeira de Muge, Capa: Manuel Evangelista, Patrocínios: Fidalgo & Mindrico Lda, Tolaoleu, Caravana Centro e Itinerarium XIV, Coordenação: Manuel Evangelista e Samuel Tomé)

(Um livro por semana 594)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Testamento espiritual e últimas vontades de João XXIII



João XXIII (1881-1963) é o Papa a quem muitos de nós (nasci em 1951) devem o fim de um dos mandamentos que se aprendiam quando a Catequese se chamava Doutrina: «Ouvir missa inteira e abster-se de trabalhos servis nos Domingos, Festas e Dias de Guarda». De facto foi no Concílio Vaticano II que se deu o fim da missa «ouvida» para se iniciar a missa participada pois os celebrantes passaram a estar virados para o Povo em vez de se colocarem de costas. Posto isto vamos à citação retirada do livro Diário Íntimo de João XXIII (Editora Morais): «Peço perdão àqueles a quem inconscientemente ofendi; àqueles para quem não consegui ser motivo de edificação. Sinto que nada tenho a perdoar seja a quem for, porquanto em todas as pessoas que conheci e que comigo tiveram relações – mesmo que me tivessem ofendido ou desprezado ou tivessem tido pouca estima por mim (com razão, de resto) ou me tivessem dado desgostos – apenas encontro irmãos e benfeitores, a quem estou grato e por quem rezo e rezarei sempre. Nascido pobre mas de gente honrada e humilde, sinto-me particularmente feliz por morrer pobre, tendo distribuído, segunda as várias exigências e circunstâncias da minha vida simples e modesta, ao serviço dos pobres e da Santa Igreja que me alimentou, tudo o que me veio parar às mãos – em proporções bastante limitadas de resto – durante os anos do meu sacerdócio e do meu episcopado. Agradeço a Deus esta graça da pobreza de que fiz voto na minha juventude, pobreza de espírito, como padre do Sagrado Coração e pobreza de facto; e o amparo que me deu, a fim de não ter precisado de pedir nunca nada, nem lugares, nem favores, nem dinheiro, nem para mim nem para os meus parentes e amigos.» O texto é datado de Veneza em 29 de Junho de 1954 (fim de citação).

(Crónicas do Tejo 127 – fotografia de autor desconhecido)

sábado, 28 de abril de 2018

Padre Amílcar Fialho (1944-2001) ou a boa surpresa na página de um livro



A página 180 do livro «O sítio de Benfica e a tradição dominicana» de Artur Santa-Bárbara (edição da Paróquia de São Domingos – Benfica - Lisboa) refere dom Fernando Teles de Menezes como conde de União em vez de conde de Unhão. Má surpresa mas a página 237 mostra o largo sorriso do novo presbítero do Patriarcado, Amílcar Luís Fialho, ao lado de Frei Carlos Santos. A foto não tem data mas deve ser de 1967. Nascido em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em 27-4-1944, foi admitido no Seminário de Santarém em 1-10-1955 tendo sido ordenado sacerdote em 1967 e passando a ser pároco nas Lapas e na Ribeira Branca em 1968. Filho de João Fialho e Conceição Fialho, este meu valoroso conterrâneo veio a falecer em 18-5-2001. Da sua passagem pela Direcção do Jornal «O Almonda» regista-se em 24-5-1975 um firme propósito: «Empenhar-me-ei desde o primeiro momento não em servir ninguém mas a Verdade, que é revolucionária.» Mas em 9-11-1979 confessava a sua relativa frustração: «Passados mais de quatro anos de fortes tensões provocadas pela angústia constante de me sentir «bola de pingue-pongue» nos jogos de interesse, verifico, com pena, a necessidade de abandonar o campo por falta de forças físicas. Numa luta permanente e desgastante, obrigando-me, tantas vezes a enfrentar problemas e situação cheias de imponderáveis e contradições, o confronto humano, social e cristão arrasa o sistema nervoso, provocando possíveis doenças de consequências incalculáveis.» 

Uma nota final de agradecimento a Alexandra Xisto e Laura Martinho pela ajuda preciosa nos dados biográficos do padre Amílcar Fialho.     

(Crónicas do Tejo 110)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Portugal - entre a sarjeta e o altar



Portugal é um país de analfabetos que conhece Bulhão Pato pelas amêijoas, Camões pelo olho perdido em combate e Bocage pelas anedotas. Não há volta a dar a esta situação. Foi para mim muito penoso e desagradável um destes dias ter ouvido alguém que parecia um sacerdote católico de Pedrógão Grande enquanto se paramentava a falar no que temia da burocracia portuguesa como sinónimo de atraso nas indemnizações. O vómito era grande, o nojo era enorme, a repulsa era poderosa. Alguém numa televisão pretendia transformar em notícia um simples temor (ainda por cima) direcionado a uma entidade (burocracia) não apresentada nem definida nem apontada,
O mesmo sacerdote católico nada disse (eu não o ouvi) em 2003 quando ardeu noventa por cento da mancha florestal do concelho de Vila de Rei, morreram dezoito pessoas e a vaga de calor fez 1593 (ou 1953) vítimas só confirmadas pelo INE em Janeiro de 2004. Presumo também que nada disse em 8 de Setembro de 1966 quando na Serra de Sintra morreram na flor da idade vinte e cinco jovens militares do Regimento de Queluz.
Aos Domingos de manhã há muitas pessoas a sair de uma igreja dos arredores de Lisboa e a atravessarem a estrada fora das passadeiras tal é a pressa de comprarem um jornal que em vez de tinta usa a água suja das sarjetas para ser impresso. Esta relação entre a sarjeta e o altar preocupa-me mas já não a estranho. Em Portugal é assim. Os que saem a correr da igreja nem reparam no jornal «A Voz da Verdade» que fica numa pequena mesa ao lado da pia baptismal. «A Voz da Verdade» é um jornal que tem poucos leitores. Os seus possíveis leitores que vão à missa dominical preferem um jornal impresso com a água suja das sarjetas.   

(Vinte Linhas 1698)