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quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Hospital de Abrantes: Urgência de cinco estrelas


Num tempo de «bota abaixo» em que é fácil dizer mal de tudo e de todos, vou contra a corrente para dizer bem da Urgência do Hospital de Abrantes. Vitimado por uma síncope no dia 25-7-22 na Praia Fluvial do Penedo Furado, bati com a cabeça nas pedras da zona das merendas. Transportado pelos impecáveis Bombeiros de Vila de Rei, fui sujeito no Hospital de Abrantes a uma Tomografia que felizmente não acusou derrame interno. A maneira competente e simpática como fui tratado durante o «episódio» leva-me a recordar a frase ouvida no ano de 1962 em Vila Franca de Xira sobre um rancho de raparigas da região de Abrantes a caminho da Lezíria: «São sérias, asseadas e danadas para trabalhar!». 

                                                                                                                                                JCF


quarta-feira, 14 de abril de 2021

«Almanaque da Língua Portuguesa» de Marco Neves

Declaração de interesses: sou um apaixonado por almanaques, tenho uma vasta colecção, consegui o do meu ano de nascimento (1951) e espero publicar em 2021 um livro baseado no conceito de almanaque para celebrar os meus 50 anos de vida literária. Tenho também a «Miscellanea» de Miguel Leitão de Andrade, «Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco e «O aprendiz de feiticeiro» de Carlos de Oliveira. Não estou mal…

O Dicionário de António de Morais Silva (1988) indica como significado de «almanaque»: «calendário com os dias do ano, festas, feriados, etc.; folhinha, Livro que contém indicações úteis, trechos de literatura, resenha de acontecimentos, poesias, anedotas, charadas, etc.; anuário.»

Sobre o «Almanaque» de Marco Neves (n-1980) que é o seu décimo livro, apenas algumas notas. As palavras mais bonitas estão na página 194: saudade, amor, mãe, felicidade, mar, menina, borboleta, flor, Portugal, amizade paz, melancolia e livro. As mais feias estão na página 158: badalhoco, escroque, cônjuge, ódio, sovaco, escarro, corrupção, porrada, conspurcar, nauseabundo, furúnculo e picheleiro. Também as palavras mais pequenas estão na página 195: «bá, cá, dá, fá, gã, há, já, lá, má, na, pá, rã, Sá, tá, vá, Xá, zá.» Os erros mais comuns cabem na página 118: «fizes-te, prontos, á, concerteza, quaisqueres, subir para cima, a gente vamos, haviam muitas pessoas, há x anos atrás, fizestes, à/há e hades».

Sobre o Crioulo há uma possível origem («crias, crianças, criados, crioulos») e sobre o Português pode ler-se na página 137: «Antes do latim de onde veio o português, tivemos o itálico; antes do itálico, o indo-europeu, antes do indo-europeu, outras línguas, que não conhecemos, numa sucessão que vem do fundo de muitos milénios desde a origem da linguagem humana. É bem provável que, num qualquer momento de história das línguas que vieram a dar ao português, tenha havido um crioulo metido ao barulho, um povo que entrou em contacto com outro povo, nascendo daí uma outra língua, diferente das duas línguas-mãe…»             

(Editora: Guerra e Paz, Revisão: Ana de Castro Salgado, Capa e Paginação: Ilídio Vasco, Fotos. Inácio Ludgero)

 [Um livro por semana 665]


terça-feira, 29 de setembro de 2020

«Assim nasceu uma língua» de Fernando Venâncio

Fernando Venâncio (n.1944) organiza este livro de 311 páginas em quatro partes: «Antes do Português», «Portugal constrói uma língua», «O Galego e o Português» e «Sós e acompanhados». Sendo impossível resumir um livro desta dimensão em poucas linhas faço nesta ficha um convite à sua leitura que nada pode substituir. Trata-se de um livro sobre palavras e, tal como Ruy Belo escreveu em «País Possível» de 1973, «Sempre entre mim e ao que chama coisas há-de haver palavras». O ponto de partida é um texto da página 14: «As línguas são feitas de palavras e a maioria delas acham-se recolhidas em dicionários. São factos, esses, que nenhuma dúvida parecem admitir. Acontece que a palavra, a noção aqui em causa, suscita vários problemas. E o primeiro deles é a sua própria existência. As palavras existem? Existem, sim, mas é com uma existência precária, artificial, baseada num exercício de abstracção. A larga maioria dos habitantes do planeta teria dificuldade em responder à solicitação: «Diga uma palavra». Com efeito, aquilo que produzimos, ao falarmos, não são palavras mas cadeias de sons entendíveis por outrem. Cadeias que podem ser muito breves: «Aí!» ou «Pára!» Daí uma descoroçoante mas muito prática definição de palavra: «um conjunto de letras entre dois espaços em branco». Exacto: a palavra pertence por natureza ao terreno da escrita e só nele tem verdadeiramente sentido.»

Como não podia deixar de ser o chamado «Acordo Ortográfico de 1990» aparece logo na ficha técnica e numa nota na página 200: «não existem e nunca existirão, traduções luso-brasileiras, seja de Proust, de Dan Brown ou de instruções de máquina de lavar. Em matéria de tradução e de edição, o Brasil e Portugal têm cada um, a sua política e a sua indústria , inteiramente independentes . O célebre Acordo Ortográfico de 1990 foi, no mundo real, um devaneio inútil e dispendioso.» Já num artigo no jornal «Público» disponível na Internet Fernando Venâncio chamou ao «AO90» a fórmula do desastre.      

(Editora: Guerra e Paz, Revisão: Ana de Castro Salgado, Capa e paginação: Ilídio J.B. Vasco, Mapas e fotografia: Carlos Filipe Nogueira, Maria Alice Fernandes e Fernando Venâncio)

[Um livro por semana 652]

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Portugal - entre a sarjeta e o altar



Portugal é um país de analfabetos que conhece Bulhão Pato pelas amêijoas, Camões pelo olho perdido em combate e Bocage pelas anedotas. Não há volta a dar a esta situação. Foi para mim muito penoso e desagradável um destes dias ter ouvido alguém que parecia um sacerdote católico de Pedrógão Grande enquanto se paramentava a falar no que temia da burocracia portuguesa como sinónimo de atraso nas indemnizações. O vómito era grande, o nojo era enorme, a repulsa era poderosa. Alguém numa televisão pretendia transformar em notícia um simples temor (ainda por cima) direcionado a uma entidade (burocracia) não apresentada nem definida nem apontada,
O mesmo sacerdote católico nada disse (eu não o ouvi) em 2003 quando ardeu noventa por cento da mancha florestal do concelho de Vila de Rei, morreram dezoito pessoas e a vaga de calor fez 1593 (ou 1953) vítimas só confirmadas pelo INE em Janeiro de 2004. Presumo também que nada disse em 8 de Setembro de 1966 quando na Serra de Sintra morreram na flor da idade vinte e cinco jovens militares do Regimento de Queluz.
Aos Domingos de manhã há muitas pessoas a sair de uma igreja dos arredores de Lisboa e a atravessarem a estrada fora das passadeiras tal é a pressa de comprarem um jornal que em vez de tinta usa a água suja das sarjetas para ser impresso. Esta relação entre a sarjeta e o altar preocupa-me mas já não a estranho. Em Portugal é assim. Os que saem a correr da igreja nem reparam no jornal «A Voz da Verdade» que fica numa pequena mesa ao lado da pia baptismal. «A Voz da Verdade» é um jornal que tem poucos leitores. Os seus possíveis leitores que vão à missa dominical preferem um jornal impresso com a água suja das sarjetas.   

(Vinte Linhas 1698)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pedrógão Grande e Tancos - os plurais são sempre um abuso


É conhecida a história de três alfaiates ingleses que assinaram uma petição à sua rainha lá pelos idos de 1500. O texto começava com um abusivo «nós, o povo inglês» o mesmo é dizer «we, english people» mas o abuso está no plural. Tudo isto tem a ver com o fogo de Pedrógão Grande e as munições de Tancos. Não ´é preciso ter muitos contactos para receber mensagens SMS ou EMAIL utilizando um abusivo plural para dar conta da revolta individual e copiada perante os factos. Sintomático é que algumas das mais incendiárias notícias sobre o fogo de Pedrógão Grande foram assinadas por um pseudónimo de um jornalista espanhol. Quando procuraram saber quem era o «artista» a chefe de redacção referiu com todo o desplante que é normal em Espanha as notícias serem assinadas com pseudónimo. Enfim trata-se de uma pacalaia como se diz na minha terra. Quanto ao dito assalto às munições de Tancos foi por acaso num jornal espanhol que apareceu uma lista supostamente completa ou inventada do material bélico roubado. Claro que isto é um esquema tal como é esquema o artigo a comparar o fogo no Sul de Espanha com o fogo do Centro de Portugal. Os demagogos falam no plural e comparam o que não tem comparação. É como comparar os fogos daqui com os da Califórnia nos EUA. Este tratamento sobranceiro dos espanhóis e o sublinhar canino deste lado da fronteira faz-me lembrar a história da letra que todos os meses era enviada para cobrança num banco de Madrid. Essa letra era avalizada por um Banco, o mesmo é dizer dinheiro em caixa. Quando no BPA começámos a perceber que o crédito em conta só surgia no dia seguinte demos início a uma tentativa de sermos ressarcidos dos juros mas ao fim de muito tempo com cartas, telegramas e telexes veio uma resposta taxativa e plural: «Es una prática de nosostros».

(Vinte Linhas 1694)