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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

«Viagens sem bola» de Rui Miguel Tovar

Albert Camus, Nobel da Literatura em 1957, escreveu «tudo o que sei sobre a moral e as obrigações dos Homens é ao Futebol que o devo.» Este livro de Rui Miguel Tovar (n.1977) é a prova. O ponto de partida são as viagens para ver futebol e os títulos das trinta crónicas dão uma ideia: Banguecoque, Belo Horizonte, Berlim, Boston, Brasília, Bucareste, Buenos Aires, Cairo, Chernobyl, Corleone, Croácia, Donetsk, Lijiang, Londres, Los Angeles, Lviv, Montevideo, Nova Iorque, Pádua, Paris, São Petersburgo, Rio de Janeiro, Rosário, São Paulo, Teerão, Três Corações, Varsóvia, Veneza, Maldivas e Abu Dhabi. A rubrica «Hoje jogo eu» fez parte da minha educação sentimental como leitor de A BOLA. Num certo sentido este livro é um conjunto de textos à maneira do «Hoje jogo eu». Se o ponto de partida é «pelo mundo fora em busca do inesperado» como refere a capa, o ponto e chegada é um inventário da condição humana no sentido dado à expressão «sangue pisado». Só que nestas 171 páginas junta-se ao sangue pisado a arte, um talento de escrita não ao alcance de qualquer aspirante.

Vejamos alguns exemplos desta feliz mistura entre vida (sangue pisado) e estilo (arte): o humor na página 6 - «Do meu ponto de vista Spike Lee é uma velhinha.» e na página 113 «no rugby só se avança se se passar a bola para trás», o poder de síntese na página 15 «tuk-tuk é uma moto com atrelado» ou na 46 «Buenos Aires é a cidade mais rezingona do mundo.», na 31«Boston, cidade de MIT e Harvard, casa dos Celtics (basquetebol) Red Sox (basebol) e Bruins (hóquei no gelo)» ou ainda na 56 «Manuel José, a figura nacional do Cairo. Mais respeitado até que qualquer sinal vermelho». Sem esquecer os franceses a verem um jogo Arsenal-Leyton Orient e a falar «um inglês pior ainda que o do polícia francês do Àllo!Àllo!» Ou o Rio de Janeiro na página 125 «Nevoeiro de manhã, futebol à tarde, destruição à noite, o Rio não está assim tão maravilhoso.» Por fim uma ideia sobre Veneza na página 160: «Veneza a cidade do futuro? Quando muito, sem futuro. Veneza arrisca-se a ser apenas um parque temático de arte e cultura»

O amor está presente na paixão de Elza Soares e Garrincha («Meu Deus, como essa gente é boba, não sabe que vai viver por um tempo tão curto, para quê ficar agarrado a tanta coisa, não vai levar nada» terminando de forma abrupta: «Um homem como ele ser expulso do país é um absurdo» O cinema está muito presente na página 64: «quem não chora com a última cena do Cinema Paraíso, a reposição de todos os beijos censurados pelo padre da aldeia ao longo de anos e anos, aí já não há desculpa». Terminamos esta nota com a memória do Europeu 2016: «Aparece uma bola vinda sabe-se lá de onde, começam-se a marcar penáltis na baliza do Éder. É um festival. De remates, de golos, de cabeça no ar. Não há amanhã. Só hoje. E o hoje não vai acabar. É eterno.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Jesus, Preparação: Diogo Morais Barbosa e Carlos Almeida, Prefácio e edição: Francisco José Viegas, Design de capa: Rui Rodrigues, Foto da capa: Sandro Bisaro, Produção: Teresa Reis Gomes, Foto do autor: Ágata Xavier)

[Um livro por semana 693]

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A luz e a sombra no olhar de Rui Jordão


Escrevo para juntar de novo o que a morte separou. De Rui Jordão tenho três histórias; duas que ouvi contar e outra que vivi. O jogador natural de Benguela aproveitou uma ida a Espanha para receber algum do dinheiro que lhe ficaram a dever no Saragoça mas as notas tiveram de ser distribuídas por todos os jogadores do Sporting Clube de Portugal na camioneta. Logo em Elvas começou o meticuloso trabalho de recolher o dinheiro entregue a cada um para poder passar na fronteira. Dizem que quando um amigo esteve em Cabo Verde, Rui Jordão foi visitá-lo: meteu-se num avião e viajou quem sabe a lembrar os quintalões de Benguela onde se podia jogar sem relógios em muda aos seis acaba aos doze. Há uma dupla inscrição. O inventário ao lado do esplendor da amizade. O grupo de amigos do futebol integrava Mário Jorge e Manuel Fernandes. Um dia no Estoril estava com Mário Jorge na esplanada quando Jordão passou por nós em corrida matinal. Nem mesmo o ter sido chamado pelo nome o demoveu. Olhou para mim e terá tido a intuição de que eu sou jornalista; seguiu em frente e nunca mais consegui palavras suas para um livro. Ainda bem que no tempo de Fernando Assis Pacheco havia disposição para entrevistas: o livro é «Retratos falados» da Editora ASA. Os homens querem os seus momentos de luz e os seus momentos de sombra. A mim calhou-me a sombra nessa manhã de esplanada no Estoril. Talvez não tenha sido o Jordão, ele-mesmo. Pode ter sido o seripipi de Benguela, ave de vasta paleta de cores: plumagem de canela, face negra, peito e garganta cinzentos, ventre dourado e rabadilha vermelha. Sendo natural de Benguela «leva no bico uma esperança» como dizem os versos de Ernesto Lara Filho e a música de Carlos Mendes.  Há no olhar de Rui Jordão o peso da sombra e a força da luz. Como num quadro, a vida insinua esta verdade: é a sombra que dá relevo à luz. É a morte que cria dimensões na vida. Há no olhar de Rui Jordão a fusão de três mundos: animal, vegetal e mineral. O mesmo é dizer: seripipi de Benguela, infinitos quintais das casas e pedras junto ao mar. O mar onde Rui Jordão corria todas as manhãs à procura das ondas onda cabe a beleza de todas as sereias e a massa sonora de todas as orquestras.      

(Fotografia de autor desconhecido)       

sábado, 15 de setembro de 2018

Os Totós ou Futebol, Mentiras e Falsificações


Nota prévia – Este Totó é um magnífico trabalho de caricatura do meu grande amigo Aniceto Carmona, natural de Vila Velha de Ródão. Primeiro caso: No «Notícias Magazine» de 18-3-2018 integrado no jornal «Diário de Notícias» desse dia o texto de Ferreira Fernandes refere as datas de Fernando Peyroteo como 1918-1968 quando o correcto é 1918-1978. Segundo caso: No Palácio Baldaya, numa exposição sobre o passado de Benfica, refere-se a Fábrica Simões & Cia Lda (malhas e confecções) situada na Avenida Gomes Pereira e pode ler-se o seguinte: «Fábrica em Palma de Baixo (Lumiar)». Terceiro caso: Na Estrada de Benfica está escrito numa chapa metálica da Câmara Municipal de Lisboa o seguinte: «Campo da Feteira. Este foi o primeiro campo atlético que pode considerar-se ter pertencido ao então designado Sport Lisboa, actual Sport Lisboa e Benfica. Inaugurado em 1907, o campo tinha capacidade para 8.000 espectadores, medindo 120 metros de comprimento e 79 metros de largura. O erro está na confusão estabelecida entre o Grupo Sport Lisboa, fundado em Belém no dia 28 de Fevereiro de 1904 e o Sport Lisboa e Benfica fundado em 13 de Setembro de 1908. Pelo meio fica o Sport Clube de Benfica, fundado em 26 de Julho de 1906, esse sim o proprietário do Campo da Feteira. O Sport Clube de Benfica praticava o atletismo e o ciclismo. Por essa razão o emblema do novo Clube em 1908 (S.L.B.) inclui a roda da bicicleta ao lado da bola e da águia. Não saber isto é ser Totó. Utilizar expressões dúbias como «pode considerar-se» é mais que isso, é ser Totó ao quadrado. Ninguém os proíbe de serem Totós mas não podem é tratar os outros como se fossem Totós. Deixem isso para a Universidade da Rabicha que tem uma parede branca capaz de aceitar tudo. Todas as mentiras e todas as falsificações.

(Crónicas do Tejo 126)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

«Big Mal & Companhia» de Gonçalo Pereira Rosa



Portugal é um país pequeno na Geografia mas grande nos Paradoxos; tropeçamos no insólito, no peculiar, no inesperado. Há o morto que fala, o cantor que não canta, o juiz que fala na TV e nos jornais. No Futebol Português primeiro jogou em 18-12-1921 a selecção nacional e só depois em 18-6-1922 se disputou a final do Campeonato de Portugal. O paradoxo deste livro de Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) está implícito: os estágios nos hotéis foram o motivo de ruptura, hostilidade e afastamento de Allison mas foi em algo parecido com estágios (almoço, lanche e jantar em restaurante) que os jogadores do Sporting criaram, cimentaram e deram corpo à sua união, à sua amizade e ao seu companheirismo. Dinis Machado contou-me que seu pai, Oliveira Machado, dono do «Farta Brutos», ex-árbitro, colaborador do RECORD e benfiquista fanático, o levou à Rua Jardim do Regedor para ver a Sala de Troféus do SLB. No fim da visita ouviu-o dizer: «Eu sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!». Gonçalo Pereira Rosa apertou a mão a antigos jogadores leoninos e ao longo de quatro anos reuniu depoimentos: Meszaros, Melo, Fidalgo, José Eduardo, Francisco Barão, Inácio, Eurico, Zezinho, Virgílio, Marinho, Ademar, Lito, Mário Jorge, Esmoriz, Carlos Xavier, Freire, Alberto, Nogueira, Manuel Fernandes e António Oliveira. Não só os jogadores mas também outras figuras da época: Mário Mateus (Marinho), Manuel Pinto Coelho, Armando Biscoito, Eugénio Silva Ribeiro e João Xara Brasil. O livro tem 316 páginas, 12 capítulos e 1 epílogo e com as 16 páginas a cores é uma fotobiografia. Um dia Brian Clough, em conversa com Allison afirmou: «Não terás problemas com directores até ao momento em que tiveres sucesso». Pedro Gomes e Barnabé testemunham a mesma atitude; depois de vitórias nas «Reservas» do Sporting com o Alhandra e o Sintrense foram castigados por falta de empenho. O mesmo é dizer falta de esforço, devoção e dedicação. Os directores nunca poderão ter com eles a glória; só lhes resta o poder. Andei pelo país de 1988 a 2006 em reportagem para o Jornal SPORTING e posso testemunhar que Jesus Correia ou Manuel Fernandes eram festejados com júbilo enquanto os vice-presidentes eram ignorados. O despedimento do médico Pinto Coelho por um director à porta do autocarro «leonino» foi uma facada no treinador Alison, seu amigo de todas as horas. Em 1928 nos Jogos Olímpicos de Amsterdão Portugal começou por ganhar ao Chile por 4-2 e à Jugoslávia por 2-1 vindo a perder com o Egipto por 2-1, o Egipto que a Itália venceu por 9-0. A equipa do Sporting teve uma maldição parecida: venceu o Campeonato e a Taça de Portugal mas foi eliminada na Taça UEFA por uma equipa com nome de medicamento. O incrível aconteceu em 1982 como em 1928. Passar do particular para o geral é um dos méritos deste livro. Cada história vale por si mas desenha o quadro de um tempo português em 1981-82 um tempo sem telemóveis nem Internet mas no qual já existiam as raízes do actual estado de coisas. Um exemplo: Southampton e a tentativa de esconder na RTP o filme do jogo no qual pela primeira vez uma equipa portuguesa venceu uma equipa inglesa em Inglaterra. A página 167 do livro compara o jogo de futebol a um circo. É um tema que dá pano para mangas. Um dia Fernando Assis Pacheco escreveu «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa». Eu digo «Se eu fosse Deus faria com que este livro tivesse os leitores que merece». E apertava a mão ao Gonçalo como o Dinis Machado apertou ao Jesus Correia.

(Editora: Planeta, Revisão: Fernanda Fonseca, Fotos: José Lorvão e Arquivo Manuel Pinto Coelho -  Um livro por semana 593)
   

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Celtic 1967 – Os leões de Lisboa na Ribeira do Jamor


A Ribeira do Jamor é bonita mas não tem estatuto para ser «cantada» por quem, como eu, andou a estudar na Escola Primária entre 1958 e 1961. Os afluentes da margem direita do Rio Tejo são: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. A pequena Ribeira do Jamor não tem dimensão para ser referida nos manuais de Geografia mas faz parte da minha memória do ano de 1967. Quando saí do eléctrico com bandeiras de «Estádio» atravessei uma pequena ponte sobre a Ribeira do Jamor. Era um jogo especial porque era a primeira final da Taça dos Campeões Europeus disputada em Portugal. Os vencedores ficaram conhecidos até hoje como os leões de Lisboa. O livro «The oficial little book of Celtic quotes and trivia» compilado por Douglas Russel em 2005 refere um facto quase lendário: os jogadores do Celtic, depois de olharem para os favoritos do Inter, terão recebido instrucções do treinador Jock  Stein para cantarem «The Celtic Song». Podem ter começado a ganhar o jogo nesses momentos. Depois de afastarem o Zurich, o Nantes e o Dukla de Praga, os leões de Lisboa venceram os italianos do Inter com golos de Tommy Gemmel e Steve Chalmers mas na minha memória ficam as jogadas endiabradas de Jimmy Johnstone a rebentar com a defesa italiana onde os jogadores eram todos famosos a começar pelo keeper Sarti e a acabar no lateral Corso que era um polivalente. A famosa empresa Fabergé celebrou a exibição soberba do Jimmy Johnstone com um ovo em sua honra, coisa que apenas tinha contemplado os Czares e as Czarinas do Império Russo no princípio do século XX. Já passaram 50 anos, quase 51, mas parece que nada mudou. Nem o eléctrico nem a Ribeira do Jamor nem o jogo entre o Celtic e o Inter, nem o Tejo ali tão perto, quase a desaguar no Oceano Atlântico.   

(Crónicas do Tejo 116)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Luís Alberto Ferreira – do azul de Luanda ao azul de Belém


Luís Alberto Ferreira (n.1933) é um magnífico jornalista luandense que desde cedo se tornou adepto do Clube Atlético de Luanda, agremiação especial de onde partiu gente para o MPLA – Américo Boavida e Diógenes Boavida foram seus jogadores. As calúnias contra este Clube («clube dos cozinheiros», «clube dos mulatos», «ninho de conspiradores») ainda deram mais força a uma entidade que nasceu, cresceu e sobreviveu «como um corcel de persistência e de estoicismo» tornando-se uma Escola de «amizades, de interacções e de solidariedades». Daí o nome de «Escola» que todos lhe davam, englobando neste «todos» a diversidade dos negros mestiços e brancos que estavam na Direcção (Aníbal Melo, Couto Cabral, Faliero Cunha, Alberto Luís Ferreira) e a massa adepta que ia dos musseques às Ingombotas e aos Coqueiros. Leitor atento da Revista Stadium, o jovem Luís Alberto reparava sempre num jogador dos azuis de Belém (José Simões) que usava um lenço dobrado sobre os calções negros. A camisola era azul como a do Atlético de Luanda. Anos depois, já estudante em Lisboa, o jovem luandense ia ver os jogos de Os Belenenses de eléctrico ao lado de Artur Quaresma e de Mariano Amaro. José Simões foi vitimado por uma pneumonia não sem antes ter visto a sua recusa em fazer a saudação nazi mascarada na capa de uma Revista onde alguém lhe desenhou os dedos. Pode ter sido essa «Escola» que ensinou Luís Alberto Ferreira a respeitar os outros que são adversários mas não inimigos. Por isso no funeral do extremo-esquerdo portista Nóbrega estavam poucos adeptos e nenhum dos «adesivos» que só aparecem nas vitórias. O pai de Rui e de Avelino Mingas também lá jogou e por isso há uma lógica quando Rui Mingas canta: «Fuba podre / peixe podre / pano ruim /cinquenta angolares / porrada se refilares».

(Crónicas do Tejo 109 – fotografia de autor desconhecido)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Em Maio de 1967 no Jamor, ali muito perto do Rio Tejo



Em 25 de Maio de 1967 eu tinha 16 anos e ainda se ia para o Estádio Nacional de eléctrico com atrelado. Foi lá que vi na final da Taça dos Campeões, o jogo entre o Celtic e o Inter com o capitão Billy McNeill receber a Taça dos Campeões Europeus das mãos de Américo Tomás, o ao tempo presidente da República. Tudo começou com um balde de água fria: o golo de Alessandro Mazolla de grande penalidade logo aos 7 minutos. Golo do Inter, 1-0 para os italianos. Na segunda parte Tommy Gemmel empata e Steve Chalmers assina o golo da vitória que poderia ter sido mais dilatada se não fosse a excelente exibição do guarda-redes italiano – Sarti de seu nome. Ficou na minha memória o endiabrado jogador Jimmy Johnstone que espatifou por completo a defesa do Inter. Não esqueço esse jogador endiabrado também porque mereceu da Fábrica Fabergé um ovo desenhado em sua honra, depois de Czares e Czarinas da Velha Rússia terem tido essa honra tão especial. Mas também não esqueço um homem de quilt que passou o tempo todo a cantar e a dançar, numa espécie de êxtase de paixão; o homem cantava antes, durante e depois do jogo, o mesmo é dizer com 0-0, com 0-1, com 1-1 e com 2-1. O escocês cantou e dançou sempre com o seu quilt e a sua bandeira. Hoje dia 27-10-2017 fui com um casal de amigos escoceses e seus dois filhos ao Estádio Nacional onde tirámos fotografias e festejámos a vitória do Celtic. Eu tinha 16 anos e hoje tenho 66, o tempo passa a voar. O Steven era um bebé e só sabe do que ouviu contar. Diz a lenda que ainda há adeptos do Celtic em Lisboa a festejar porque nunca voltaram a Glasgow e a Edimburgh. São os leões de Lisboa. O passado nunca acaba e nem sequer ainda é passado, tudo está presente, tudo se vê de novo e é isso que faz do futebol um mundo ainda fascinante. 

(Crónicas do Tejo 99 – Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 13 de agosto de 2017

Carta a João Oliveira e Costa


Quando aceitei o seu pedido de amizade no Facebook estava a lembrar-me da entrevista que lhe fiz para a «Gazeta das Caldas» a propósito do seu livro «O império dos pardais». Nunca esperei que minutos passados caísse no meu Facebook uma chuva de tretas saídas não da sua Universidade mas da Faculdade de História da Rabicha, ali a Campolide, lugar onde a História é falsificada. Para além das tretas custou-me muito ver que em alguns comentários aparece a expressão «Carrega Benfica» que é uma cópia mentirosa, repugnante e mal feita de uma frase  do treinador Joseph Szabo (há quem escreva José Sezabo) dirigida a Fernando Peyroteo. Vem na página 85 do livro «Memórias de Peyroteo» e a sua expressão integral está na frase - «Não esquecer principal papel dê avançado-centro: Carega Maria!! (Compreenda-se atirar ao golo)» O comentário entre parêntesis é do autor do livro, Fernando Peyroteo.
Por favor arranje maneira de me desligar desta «amizade» no Facebook que não me interessa, só me desgasta  e onde entrei por engano. Tenho 66 anos de idade, nasci em 1951 e já não tenho paciência para muitas coisas, uma delas é este conjunto de tretas que me entrou assim tão de repente pelo ecran dentro. Para si não terá qualquer importância pois amigos não lhe faltarão e a mim faz-me diferença. Este friso de atletas do SLB mostra entre outras coisas que o gesto era transversal a todos os clubes grandes e até a alguns mais pequenos como o Casa Pia. O senhor que é especialista em História percebe muito bem que a matriz da época é muito importante para perceber um gesto. Não podemos olhar para coisas e pessoas dos anos 30 com os olhos de 2017. Fico à espera da supressão deste equívoco. Por favor. Espero que não me desiluda porque no Facebook não posso (mesmo!) ser seu amigo. 

(Vinte Linhas 1697)

sábado, 10 de junho de 2017

A seita da verdade suprema não é só em Tóquio



Já passaram uns anos mas o autor destas linhas não se esquece: havia uma seita em Tóquio que atirava gás «Sarin» para as estações de Metro. Chama-se (ou chama-se ainda) «seita da verdade suprema». Em Portugal há uma coisa parecida. Vejamos: numa dessas chamadas feiras de garagem que proliferam pela Cidade de Lisboa aparecerem à venda a preços convidativos vários livros sobre o Sport Lisboa e Benfica. Até aqui nada de mal pois é preferível vender a um euro do que mandar para a guilhotina e destruir. O engraçado é que um desses livros intitulado «Amor à camisola», editado pela «Verso da História» e com prefácio de Luisão publica na página 60 esta pérola: «Eusébio foi, e é, único. E o Benfica, o seu clube de sempre.» Percebe-se a denominação de «pérola» porque isto que se lê é uma mentira monstruosa, ignóbil e repugnante. Eusébio nasceu de facto em 1940 como averiguou o dirigente benfiquista senhor Paiva das Neves, o homem do terceiro anel. Eusébio foi jogador do Sporting de Lourenço Marques e, mais tarde, quando voltou dos E.U.A. jogou no Beira-Mar e no União de Tomar. Foi em Tomar que terminou a sua carreira de futebolista. Aliás o nome da editora (Verso da História) já diz muito sobre o seu lugar no outro lado da verdade. Quem escreve o livro coloca-se no terreno da mentira por oposição à verdade. Isto lembra-me as minhas longas conversas com Cruz dos Santos, o jornalista que aparece a entrevistar Eusébio à chegada no aeroporto de Lisboa. Foi na altura em que Eusébio desatou a dizer disparates sobre o ambiente e a vida desportiva de Lourenço Marques nos anos sessenta. «Não ligue, meu caro. Isso é só para agradar ao terceiro anel. O nome dos directores do Benfica que o recusaram quando veio da América, isso ele não diz.» Cruz dos Santos, como sempre, tinha razão. 

(Vinte Linhas 1691)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cristiano Ronaldo - um triunfo no lamaçal



O dia 17 de Outubro de 1999 amanheceu com um céu de chumbo. O jogo foi em Pina Manique às onze da manhã entre o Casa Pia e o SCP. Era um Domingo. Chovia e ao mesmo tempo estava frio, muito frio. A assistência era muito reduzida. Não havia público; apenas os pais e os avós de alguns jogadores. Havia poucos guarda-chuvas à volta do pelado. Ainda na primeira parte, mais precisamente aos 30 minutos, o árbitro parou o jogo e chamou o massagista de uma das equipas, o SCP. O jogador nº 10 foi substituído pelo jogador nº 15. Na altura ninguém percebeu muito bem pois não é muito normal um árbitro sugerir a substituição de um jogador mas soube-se no fim do encontro, debaixo de mais uma forte bátega de água, que o jogador nº 10 tinha a pulsação a 220. A crónica do jogo publicada no jornal «Sporting» refere uma taquicardia. O coração de Cristiano Ronaldo tinha disparado e ele poderia ter tido um problema grave de saúde se o árbitro não tivesse tido a sensibilidade para interromper o jogo dizendo ao massagista Fontinha que o jogador não estava bem. No meio da chuva, no meio do frio, no meio do calor da luta entre o 3º classificado e o 11º da tabela do Campeonato de Iniciados, houve um árbitro que se apercebeu de que o coração do nº 10 já não cabia dentro do peito. Não sei se ele é enfermeiro ou se é bombeiro ou se é apenas um anjo do céu disfarçado de árbitro de futebol. Sei que esse jogador nº 10 lhe deve a vida e a carreira que entretanto teve a sua progressão sempre de fulgor em fulgor. Sei que cada golo decisivo que esse jogador nº 10 marca hoje com o nº 7 em Maio de 2017, quase 18 anos depois desse jogo em que teve de sair aos 30 minutos, é ao árbitro atento que o deve. Mais do que o triunfo por 5-0 no lamaçal, aquele dia ficou marcado com um triunfo contra as emboscadas da morte. 

(Vinte Linhas 1687 - Fotografia de autor desconhecido)

domingo, 26 de março de 2017

O Marinheiro, o Electricista e o Marquês


No livro «Jorge Vieira e o futebol do seu tempo» de Romeu Correia o marinheiro é Cipriano dos Santos (1901-1969), o electricista é Jorge Viera (1898-1986) e o marquês é António Penafiel (1898-1973). A fotografia foi tirada em Junho de 1928 na Ilha da Madeira quando a equipa principal do Sporting Clube de Portugal estreou as camisolas listadas e se deslocou ao Brasil para defrontar o Vasco da Gama (2-2-), o Fluminense (1-2) e a seleção do Rio de Janeiro (1-1). As viagens eram feitas nos paquetes da Mala Rela Inglesa: o «Alcântara» de Lisboa para o Rio de Janeiro e o «Andes» do Rio de Janeiro para Lisboa. Os jogadores «leoninos» e os atletas de outros clubes foram ao alfaiate pois as refeições ao jantar obrigavam ao uso do «smoking». A comitiva do Sporting Clube de Portugal era chefiada pelo presidente António Soares Júnior e integrava o treinador Charles Bell, Cândido de Oliveira, Salazar Carreira e os jogadores Cipriano dos Santos, Martinho de Oliveira, Jorge Viera, Matias, Serra e Moura, António Penafiel, Abrantes Mendes, Agostinho Cervantes, João Jurado, João Francisco e José Manuel Martins. Além dos jogadores «leoninos» seguiram viagem os seguintes «reforços»: António Roquete e Gustavo Teixeira (Casa Pia), Liberto dos Santos (União de Lisboa), Carlos Alves (Carcavelinhos), João dos Santos e Armando Martins (Vitória de Setúbal). O futebolista Alberto Augusto que estava no Rio de Janeiro a treinar o América. Juntou-se aos patrícios. Vasco Santana, o actor português que estava no Rio de Janeiro em 1928 afirmou a um jornal carioca: «Sou um leão velho e isso pode ser atestado pelo número de matrícula da minha carteira. Tenho também dois leõesinhos que são meus filhos e que apesar da sua tenra idade, já fazem parte dessa escola de educação física e moral que é o Sporting Clube de Portugal.»

(fotografia de autor desconhecido)