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terça-feira, 19 de março de 2024

«Fernando Pessoa – Ensaio sobre o drama Octávio / Vitoriano Braga – Octávio Peça em três actos»


No âmbito da comemoração dos 80 anos da morte de Vitoriano Braga a presente edição de 135 páginas pretende (segundo Nuno Ribeiro) «constituir-se como um contributo para o conhecimento da relação entre Pessoa e Vitoriano Braga». Fernando Pessoa (1888-1935) era primo de Vitoriano Braga (1888-1940) e tem no seu espólio vário material sobre as peças de teatro deste autor que, além de dramaturgo foi fotógrafo amador, funcionário da CP, tradutor, crítico e desportista. Multifacetada figura da cultura portuguesa, foi apresentado a Fernando Pessoa por José Boavida Portugal em 27-2-1913 e escreveu nove peças de teatro entre 1908 e 1927. Três delas («Octávio», «O Milagre» e «A casaca encarnada») estavam no projecto editorial não concretizado da empresa OLISIPO, fundada por Fernando Pessoa.

O enredo da peça «Octávio» organiza-se em torno de um casamento de conveniência entre Maria da Graça e Octávio que na página 75 a adverte: «Não duvido da amizade do Ricardo mas Ricardo é um homem e um homem, por melhor que seja, vivendo na intimidade duma mulher, acompanhando-a em passeios, entrando no seu próprio quarto, usando, finalmente de uma liberdade igual à que existe entre ti e ele, tem sempre, um momento em que os encantos da mulher o inebriam.»

Fernando Pessoa, no seu ensaio sobre a peça, afirma: «Quando se compreende para querer, o fim que se busca em compreender é forçosamente a utilidade ou a vida prática. Quando se compreende só para compreender, o fim que se busca é necessariamente a verdade ou a ciência. Quando se compreende para sentir, o fim que se busca é necessariamente a beleza ou a arte.»

(Editora: Apenas Livros, Edição e Introdução: Nuno Ribeiro)

[Livros e Autores 20]

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

«A mesa está posta» de Jorge Silva Melo


Depois de «Deixar a vida» (2002) e «Século passado» (2007) Jorge Silva Melo (n.1948) surge com este livro de 407 páginas que é de todo impossível sintetizar em 31 linhas. Crítico de cinema e de teatro, actor, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema, JSM trabalhou como assistente de Peter Stein e Giorgio Strehler, sendo fundador do Teatro da Cornucópia e director do Grupo Artistas Unidos. Bastaria a «saga maldita» dos Artistas Unidos no «Espaço A Capital» para organizar um inventário de acções miseráveis, silêncios criminosos, alheamentos perversos, traições canalhas e mentiras tenebrosas: «Fomos para sítios que detestei como o Teatro Taborda onde nem sequer a chave tínhamos! Depois o Convento das Mónicas onde até nos cortaram a electricidade para nos obrigarem a sair…» A sua paixão pelo Teatro nasceu muito cedo: «Foi lá em cima, no Tivoli entrando pela porta das traseiras, que comecei a ver teatro. Foi por 1958-9, Era uma coisa cá comigo, como se fosse um segredo.» Das suas memórias se pode extrair uma ideia de Teatro: «Um segredo ente o palco e quem, deslumbrado, vê?» Ou sobre a Vida: «Mas não é isso a vida, histórias que vamos inventando nessa vida sempre mais pequena do que o nosso desejo?» Sobre Teatro o autor não pergunta mas declara: «O teatro que me interessa não tem nada, nada, nada mesmo nada a ver nem com a magia nem com as variedades.» E sobre o Cinema, mais adiante: «A minha formação é o cinema, estudei cinema, fiz cinco longas metragens e alguns documentários: em que é que escrever uma peça é diferente de escrever um argumento?» A propósito de «A Estalajadeira» de Carlo Goldoni surge uma ideia: «Sim gosto de ver uma senhora a passar a ferro, gosto do realismo, (…) ingénuo, analítico. E quando penso no teatro é raro não pensar logo em copos, pratos, louças, cadeiras, mesas. Sim, venho daí.» Enda Walsh está na página 159 («Andamos todos à volta do Christy») e Tchékhov na 279: «Querem heróis, heroínas, efeitos cénicos. Mas na vida as pessoas não andam aos tiros nem fazem declarações de amor a toda a hora nem a toda a hora se dizem coisas inteligentes.» Ao lado da vida fica a força da morte: «10 de Agosto, 2018. Sei do suicídio, no Porto, de um actor que não conheci, amigo de amigos. Rapaz ainda, 31 anos. Fiquei tão triste. Chamava-se António Alves Vieira. (Que querem?, sinto culpa por não o ter conhecido, gostava de ter estado com ele, de o ter visto, actor. Porque gostava de o ter honrado naquilo mesmo que fazia, o teatro que quis.) Penso nesse rapaz que não conheci.» Uma nota final para uma paixão antiga: «Volto sempre a Goldoni, nasceu ali um teatro, nasceu um mundo. Não terá sido Goldoni a inventar o sorriso, essa forma que ele tem de acariciar as fraquezas dos homens?» Um livro a não perder.

(Editora: Livros Cotovia, Organização: Leonor Buescu, Foto da capa: Jorge Gonçalves, Paginação: Joana Figueira, Apoios: Fundação Calouste Gulbenkian, Direcção Geral das Artes, Ministério da Cultura)

 [Um livro por semana 678]

 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Gralhas, P.M.E.s e carta a Jorge Silva Melo


Li no Facebook que um livro te dá como «fundador» do Teatro de Campolide omitindo a fundação do Teatro da Cornucópia, entre outras coisas relevantes. É um nojo mas tenho para a troca. Outro dia pediram-me uma crónica sobre o escritor Luiz Pacheco e eu aceitei porque fui amigo dele e era o assinante nº 186 do seu ficheiro pessoal. Escrevi a crónica e no momento de a enviar adicionei uma foto do escritor em Palmela. Pois no jornal colocaram o rosto do Luiz Pacheco ao lado do meu nome. O paginador não sabia quem sou eu e, mais grave, não sabia quem é o Luiz Pacheco, um escritor já canónico da Literatura. Eu, obscuro e discreto PME (pequeno e médio escritor) quando me querem apertar os calos mando-os logo consultar o «Dicionário de Literatura Jacinto do Prado Coelho». Como diz o Povo: Toma lá pelos queixos que é para aprenderes. O teu livro «Século Passado» tem uma gralha no nome do Joel Serrão (aparece Ferrão) e o mesmo Joel Serrão no Jornal de Letras de 29-4-2015 é omitido como organizador e editor das «Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes-Rodrigues»  tarefas que são atribuídas a António Rebordão Navarro. Também há gralhas orais. A minha filha mais velha (Arquitecta) estudou numa Universidade onde havia um senhor de fato-macaco sempre disponível para arranjar fechaduras escangalhadas, vidros partidos ou outro qualquer problema. Um dia, na bicha para o café, o senhor pediu em voz alta «duas italianas» para ele e para o engenheiro de Manutenção; sem saber de nada duas italianas estudantes em carne e osso ficaram todas abespinhadas com o homem do fato-macaco. A propósito de italianas há uma escritora desse país que insiste em escrever angélica quando a bebida dos Açores é angélica. Outra apresenta-se como estudiosa de Sebastião da Gama mas escreve que ele morreu com 28 anos (foram 27) e falha no nome do director da Gazeta do Sul – Chama Augusto Barbosa a Alves Gago, Fiquemos por aqui.

(Vinte Linhas 1702 - fotografia de autor desconhecido)

domingo, 1 de outubro de 2017

Jorge Silva Melo ou no melhor pano cai a gralha


A minha ligação ao Teatro não é de agora. Desde 1966, quando vim para Lisboa trabalhar no BPA da Rua do Ouro, estava muito perto do José Palla e Carmo e frequentei teatros os mais diversos. Vi peças de (entre outros) Luzia Maria Martins, Bernardo Santareno, Romeu Correia ou Bertolt Brecht, vi actores como (entre outros) João Perry, Vasco de Lima Couto, João d´Ávila, Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra, Rogério Vieira, Luís Lucas, Paulo Renato, Laura Alves, José Viana, Raúl Solnado. Chega. Estiva na Sala Cinzenta do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas na encenação de «A excepção e e regra» com música de José Afonso. Brecht, claro, tal como em «O círculo de giz caucasiano» no Teatro Aberto da Praça de Espanha. Recordo também o «Casimiro e Carolina» e o «Não se paga, não se paga» de Dário Fo. E a Raquel Maria que, nesta memória, não pode ficar para trás. Num certo sentido vejo no Teatro a fragilidade e a força da Poesia. Um dia Maiakowsky terá escrito que «as palavras valem pouco, tanto como as pétalas pisadas depois de um baile» mas o problema é que precisamos de palavras para comunicar com os outros, seja na Poesia, no Teatro ou em qualquer aspecto mesmo comezinho da vida. Nisto das palavras o medo maior são as gralhas. Na Poesia como no Teatro. Acabo de receber o programa dos «Artistas Unidos» sobre a peça de Dimítris Dimitriádis «A vertigem dos animais antes do abate» e lá está na linha 6 do texto «récia» em vez de Grécia. Falta um «G» em caixa alta. Talvez por isso tenho saudades do tempo em que as coisas eram compostas a chumbo. Outro aspecto diz respeito às sessões «A voz dos poetas» que só referem o local (Rua da Escola Politécnica 135) mas não a hora. Como dizia o outro – pequenas coisas que não são coisas pequenas. Nota final – talvez o nome de Brecht não seja bem assim. 

(Vinte Linhas 1699)