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quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Que se passa com o Baum?" de Woody Allen

 


Woody Allen - Que se passa com o Baum? (romance)

Woody Allen tem a particularidade de ter nascido em Nova Iorque (EUA) no mesmo dia em que morreu Fernando Pessoa em Lisboa (Portugal) – 30 de Novembro de 1935. Actor de cinema e de teatro, escritor, músico de Jazz e cineasta, este «Que se passa com Baum?» é o seu primeiro romance. O título original é «What´s with Baum?», a tradução é de Miguel Martins, a revisão é de Joana Camões Pereira, a foto é de Soon-Yi Previn, a capa é de Cody Corcoran, o volume tem 202 páginas e o editor é Edições 70. O herói do romance,  Asher Baum, vive em Nova Iorque e começou a falar sozinho, situação habitual para quem não tem ninguém que o possa ouvir. Jornalista judeu de meia-idade, percebeu que a sua editora nova iorquina lhe cortara os contactos e deixou de publicar os seus livros. O seu terceiro casamento está por um fio e tem problemas com o filho que é um escritor bem sucedido no seu meio. Não é inocente a referência a um poema de W.H. Auden na página 11: «Pensamentos da sua própria morte/como o som distante/de uma trovoada num piquenique». A página 202 revela um curioso diálogo entre o escritor e o seu irmão Josh quando Asher lhe revela a sua ideia para um novo livro: «A vida acabou. Não existe nada. O Universo não existe. Não existem estrelas, nem luz, nem espaço, nem tempo. Absolutamente nada». No seu livro autobiográfico anterior (»A propósito de nada») Woody Allen considera que «a vida é uma sorte». A leitura deste romance pode (e deve) ser também uma sorte para os leitores. Nem mais. JCF         


quinta-feira, 18 de maio de 2017

«hoje estarás comigo no paraíso» de Bruno Vieira Amaral


Este livro de 363 páginas poderia ter o titulo de «A morte minuciosa de João Jorge Rego» mas em vez do livro de Orlando Neves, a preferência de Bruno Vieira Amara vai para uma citação do Evangelho de São Lucas. A questão da posteridade está em textos de Zola e Sienkiewicz. O primeiro afirma «É preciso morrer para nos fazerem justiça e o segundo confirma: «Todo o homem tem em si uma tragédia».
O protagonista é primo em segundo grau do autor («Era filho do irmão mais velho do meu avô paterno») e o ponto de partida é uma suposição lógica: «Os seus restos mortais terão acabado numa vala comum ou num ossário». João Jorge (1963-1985), como quase toda a gente, tinha duas vidas: «um gozão respeitador, um vadio amigo da família». O autor define a sua família deste modo: «A família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações». É essa família que vive entre dois mundos: «Vivíamos isolados na periferia e na infância. Havia o mundo exterior (…) e havia o nosso mundo real e próximo, as idas à praia do Barreiro, os torneiros de futebol de caricas, a mãe do BMX a fumar à janela (…)e era neste mundo que brincávamos, sorríamos, sofríamos e vivíamos».
Osvaldo Peres adverte o autor de que não basta conhecer as experiências dos outros em Luanda, no Bairro Operário, é preciso mergulhar na realidade de um país porque «se o não fizesse, os esforços para compreender a vida de João Jorge seriam em vão». Quando o rapazito de dez anos (João Jorge) afirma «Cuidado comigo que eu sou de Luanda» está a dizer quatro séculos de história de uma cidade – conclui Osvaldo Peres. Claro que há outras maneiras de ver Angola: «Angola é palavras, pacaças, palancas, petróleo e o curso lento e largo do Cuanza, as quitandeiras, as cascatas de Cambambe, conchas de cauri, casas cobertas de colmo e os panos de palma, trompetes de marfim». Em Angola, no ano em que nasceu João Jorge mataram um homem no Rangel: «levou tanto pontapé na cabeça que até lhe saltou um olho, era Sebastião Lutukuta, foi morto em 27 de Agosto de 1963, mataram o preto errado, ali todos os pretos eram o preto errado».
A narrativa de Bruno Vieira Amaral tem antepassados ilustres como Camilo Castelo Branco, Raul Brandão, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires ou Nuo Bragança. O uso excessivo dos advérbios de modo, o itálico sem coerência, a ausência de um glossário no final, a par de uma revisão desatenta (láios por lábios na página 182), a falta de parêntesis na página 253 ou as duplas aspas na página 299, não alteram em nada o fascínio que o livro transporta. Como toda a grande literatura este belo livro «junta de novo tudo o que a morte separou».

(Editora: Quetzal, Capa: Rui Rodrigues, Revisão: Carlos Pinheiro - Um livro por semana 556)