sexta-feira, 13 de abril de 2018

O comboio da Sertã, a vila das Caldas, «gralhas» e deslizes



Uma pessoa acorda, toma banho, come, veste-se e vai para a rua e a primeira coisa que vê é uma carrinha frigorífica à porta dum talho com a expressão «São António» em vez de Santo António. Sabe-se que São se usa para João ou Pedro, os santos populares de Junho cujo nome começa por consoante. Minutos depois no comboio a mesma pessoa lê Melecas em vez de Meleças e no Metropolitano vê Marques Pombal em vez de Marquês de Pombal. Ao sair na Praça de Espanha (lê-se Praca Espanha) fica a pensar no nome antigo da estação que era Palhava em vez de Palhavã. A seguir pega num livro e lê uma referência ao comboio da Sertã na página 74 e duas vezes na página 90 às Caldas da Rainha como vila sem esquecer na página 98 a expressão vila termal. Sabe-se que não há nem nunca houve comboios na Sertã e as Caldas são cidade desde 1927. Na página 131 lê-se reouve quando o verbo é reaver ou seja «ter de novo» que é diferente de ouvir.
Pego noutro livro e leio lojistas com «g» na página 130 depois de ter lido na página 125 Dutra Trafaria em vez de Dutra Faria. Li depois no mesmo livro o nome do jornalista Urbano Carrasco como Urbano Camacho referido como sendo do «Diário da Manhã» mas não faz sentido no contexto porque esse jornal era da situação, não da oposição. Leio na página 26 António Régio por António Sérgio e na página 32 «ostão» por estão. Mas para acabar o dia em beleza leio num livro sobre São Domingos de Benfica uma referência ao conde de União que não existe porque se trata do conde de Unhão. Cheguei a casa com o cinto cheio de caça mas terá valido a pena? Talvez sim ou talvez não. Nunca saberei ao certo.  

(Crónicas do Tejo 108 - fotografia de autor desconhecido)



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Mário Duarte a «angústia sem lágrimas» entre o pó e a posteridade



Autor de «Aquário» (1979) e «Jornal Poliédrico» (1989). Mário Duarte (1954-1978) pôs termo à vida em 1978 na Holanda onde vivia como exilado. Na apresentação do segundo livro Fernando Venâncio escreve: «Desconhecemos, ainda, o Diário de Mário Rui. Nele se encontrará, porventura, resposta para a interrogação sobre o grau de consciência que o jovem exilado tinha do seu talento, em particular literário. Do que não resta dúvida é que o escritor Mário Duarte tinha virtudes das que mais recomendam um oficial das letras: era laborioso e era um insatisfeito. Não é impensável que, ultrapassada a euforia dum início de reconhecimento, Mário Duarte repudiasse, garbosamente, os seus ensaios de juventude. Hoje,  eles são todo o acervo de um autor por quem os Desuses já guerreavam.» Citemos um dos textos: «Corredores Os corredores. O Hospital: edifício erecto e escuro. Os rostos semeiam-se na imensidão asséptica das enfermarias. O edifício está esventrado por corredores-gemidos. E os elevadores furam as paredes com pessoas de batas eficientes. As lavandarias produzem as batas entre indescritíveis ruídos brancos. O fumo das roupas acende muito feliz por uma chaminé de metal (um osso desmesurado, oco, em espirais). Os doentes olham os corredores com espanto. As camas disseminam-se. As camas invadem os corredores. Gritam as enfermeiras de touca eriçada. Os doentes emudecem. Os estudantes da Faculdade riem o espaço dos lábios. Os doentes imóveis. As pernas das camas caminham docemente pelas áleas laterais. Gritam os partos. As crianças dolorosas enxameiam os corredores de urina. À mulher dói-lhe o fruto: o nascimento. A cara crispa-se. Os lábios enrugam-se. A criança não quer sair. O útero lateja como um solo de clarinete.» (Fim de citação)   
     
(Crónicas do Tejo 107 - fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)

quarta-feira, 21 de março de 2018

Uma «Festa Redonda» da Terceira no CCB de Lisboa


António Valdemar, Luísa Costa e Luiz Fagundes Duarte foram os mestres-de- cerimónias da «Festa Redonda» terceirense em pleno CCB de Lisboa. O bilhete indicava a data (10 Mar 18), a hora (15:00), o preço (5,00 €) e o motivo (Dia Literário Vitorino Nemésio) mas não indicava o sentido último da Festa que é (e será sempre) um encontro, um intervalo de alegria e de luz num quotidiano cinzento e monótono. António Valdemar (com erudição e fotografias antigas) apresentou o percurso pessoal de Vitorino Nemésio (1901-1978) desde o seu nascimento (Vila Praia da Vitória) até às cidades que tomou como suas (Lisboa e Coimbra) sem esquecer a passagem pela Horta onde fez o exame do quinto ano do Liceu que lhe foi negado em Angra do Heroísmo. A nota de 10 (dez!) valores a Português e Francês que lhe foi atribuída no Liceu da Horta pode ter sido o impulso para o Prémio Montaigne que recebeu mais tarde e para o seu livro de poemas que foi escrito no idioma de Voltaire. Vitorino Nemésio foi sempre um poeta e (sabe-se) toda a poesia é (sempre) uma resposta. Para fazer uma roda são precisas quatro pessoas e foi Manuel Nemésio, do alto dos seus 87 anos, que acabou por encerrar a sessão. Antes tinha Luísa Costa lido (como só ela sabe) alguns poemas da «Festa Redonda» fazendo com que quem (de olhos fechados) a ouvia, se colocasse numa carroça de Vila Praia da Vitória a caminho de Angra do Heroísmo – quando ainda não havia a EVT e era tudo artesanal. Luiz Fagundes Duarte mostrou um pouco da «oficina poética» do Mestre e uma desconhecida e curiosa «memória justificativa» para a futura (nunca concretizada) segunda edição do livro «Festa Redonda» de Vitorino Nemésio. Por mim não posso deixar de lembrar que o quarto de João Garcia fica na Rua da Rosa. Tal como o de Vitorino Nemésio, ele mesmo.

(Crónicas do Tejo 122)


quinta-feira, 15 de março de 2018

O Saldanha numa memória escrita de Jorge Silva Melo


Em boa hora o jornal «Diário de Notícias» publicou uma colecção de fotografias de Lisboa com o título de «Lisboa antiga». No livro «Século passado» de Jorge Silva Melo (Edições Cotovia) descubro uma crónica notável sobre a vida no Saldanha nos idos anos 60 do século XX. A ler: «Sempre que, agora, por lá passo, pelo Saldanha, sinto-me fechado, angustiado, enterrado, esmagado, Foi ali que abri a minha vida juvenil, início de poemas, ideias de filmes e artigos, artigos, política. E agora quase só lá passo de carro, ponho-me a olhar para o que já não reconheço: há branco a mais, vidro a mais, atafulhamento de volumes, luzes a mais e não percebo o que por ali há, lojas e lojas onde não ouso entrar, marcas a mais, uns cinemas, umas caves, outras lojas, não sei, sei que nada daquele mundo é para mim, agora, parece-me arrabalde, auto-estrada. E foi, durante anos, o centro de Lisboa, da minha vida universitária, da Lisboa conspirativa dos literatos e cineastas, da gente do teatro e dos jornais. E era nos cafés, abertos desde manhã cedo a até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo se ia passando. A modorra de quem não sabe o que pode fazer para que as coisas mudem, as discussões sobre o filme acabado de estrear na sala ao lado, a análise do livro recenseado no suplemento do «Diário de Lisboa», nossa leitura obrigatória a partir das cinco da tarde, a participação nas polémicas que zurziam, os projectos profissionais. E, ao domingo, era o almoço com a família no Monte- Carlo, almoço demorado com pratos e sobremesas e conversas sobre cinema, o filme que se havia de ver naquela noite, se o Bem-Hur no Monumental, se o Quanto mais quente melhor, lá em baixo no São Jorge.» (Fim de citação…)    
(Crónicas do Tejo 106)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Lisboa e o Tejo a partir de uma gravura do século XVI


A fotografia reproduz a panorâmica da cidade de Lisboa que está num livro na Real Biblioteca de Madrid sendo os autores Georg Braun (1541-1622) e Frans Hogenberg (1535-1596) e cuja legenda na Revista National Geographic Magazine na sua recente edição especial com o título de «A conquista da América», começa deste modo e transcrevo com a devida vénia: «Localizado no estuário do Tejo, o porto de Lisboa foi o ponto de partida da maioria das expedições das Descobertas e de chegada do ouro do Brasil, alicerce da prosperidade do século XVI» Quero dizer na minha o seguinte: o Tejo é sempre o mesmo ainda que pareça novo todos os dias. O estuário do Tejo conhecido em termos populares por Mar da Palha ali está hoje (2017) quando escrevo esta crónica tal como estava no século XVI. Lisboa, sim, está diferente, o terramoto de 1755 deitou abaixo muitas casas. Não esquecer que o palácio da família do Marquês de Pombal era na Rua Formosa que é hoje a Rua de O Século. O arquitecto convidado pelo Marquês de Pombal morava por ali perto na Rua da Rosa e daí não é de admirar que a Baixa Pombalina seja parecida com o traçado do Bairro Alto e não tenha becos mas apenas praças, ruas e travessas. O Bairro Alto (onde esse senhor vivia) também não tem e fico todo arrepiado quando leio algo como «os becos do Bairro Alto». Adiante que se faz tarde. Voltando ao princípio e para terminar, perante esta belíssima imagem do Tejo e da Cidade de Lisboa só me posso lembrar de um verso de Fernando Assis Pacheco. Claro que não sei se o Fernando Assis Pacheco, ele mesmo, conhecia esta gravura mas o seu verso não se sai do pensamento. Algo como isto: «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa.»

(Crónicas do Tejo 105)

quinta-feira, 1 de março de 2018

«Marta de Jesus – A verdadeira» de Álamo Oliveira


Álamo Oliveira (n.1945) é conhecido pela vasta obra publicada (36 livros) em diversos campos (poesia, teatro, romance, conto e ensaio) mas seria reconhecido não tivesse vindo ao Mundo no Raminho – Ilha Terceira- Açores. O terrível sistema cultural onde estamos inseridos tem destas particularidades; o preconceito e a ignorância fazem o resto (como refere Vamberto Freitas) e vão atirando o pó do esquecimento contra a mais que justa posteridade da obra e do autor. O ponto de partida do livro é a vida na ilha das Flores: «Ali a vida era entendida de forma ervanária. Era como se fossem plantas das valetas ou da horta: nasciam, viviam, morriam e ponto final. Claro que havia os inconformados do sistema mas esses eram os que se atiravam num barco qualquer e iam à procura da terra que lhes estaria prometida.» Existe uma data para o arranque da narrativa («Era o Dia de Reis do ano de 2001 e toda a manhã choveu») e um lugar determinado: «ilha das Flores, assim chamada pela quantidade que delas havia e pela sua congénita formosura.» A protagonista é Marta de Jesus: «Tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura, cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só.» O pano de fundo da narrativa é o tempo da Guerra Colonial («Era já notável o número de mortos, os hospitais enchiam-se de feridos e estropiados») e é nesse contexto que surgem os seguidores de Emanuel Salvador: «O grupo aumentava e criava um ambiente de grande solidariedade e, sobretudo, de comunhão de ideias. Esse grupo designa os seus cronistas tal como os dos Quatro Evangelhos: «Mateus, Lucas, Marcos e João». Os caciques e os  reaccionários locais são nas Ilhas o equivalente a Salazar em Lisboa: «A guerra estoirou forte e feio na Guiné, em Angola e em Moçambique e Salazar começa a ficar sem tropas para mandar para as colónias.» Personagem presente e ausente é Pedro («um jovem poeta que saíra da ilha») e que aparece na página 141 referido pelo seu verso mais citado «califórnias perdidas de abundância». Depois de uma narrativa de 190 páginas com uma dupla inscrição (Os Evangelhos e o Grupo das Flores) o livro conclui: «Se esta foi ou não a verdadeira história de Marta de Jesus, ninguém sabe. Sabe-se que ela nasceu, viveu e morreu na ilha das Flores.» Havia um papel no seu leito de morte sendo «Mistério» a última palavra desse texto. O próprio autor acaba por sugerir: «Será bom que amanhã alguém volte a este assunto.» Livro dedicado a dois poetas (Marcolino Candeias e Vasco Pereira da Costa), trata-se de um texto invulgar, insólito e interminável. Por isso o livro não acaba na página 190 e continua a inquietar e a agitar o espírito dos seus felizes leitores.

(Um livro por semana 582 - Editora: Letras Lavadas, Foto do autor: Eduardo B. Pinto, nota da capa: Vamberto Freitas)



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

António Carmo – Histórias do Tejo num olhar da Madragoa


António Carmo (n.1949) é um pintor que todas as manhãs celebra a festa do encontro numa mesa da pastelaria-café «A Brasileira» no Chiado. Por brincadeira chamo a essa mesa «a mesa dos resistentes» porque nela de facto resistem hoje alguns artistas plásticos portugueses que considero os últimos da geração de Carlos Botelho, Almada Negreiros, Jorge Barradas ou Nikias Skapinakis. Um dos meus livros («Leme de Luz») tem capa de António Carmo e alguns textos meus publicados no jornal «O Ponto» tiveram a sorte e a honra de serem por ele ilustrados. Não somos amigos íntimos mas a admiração e o respeito pelo trabalho de cada um é a regra. Tudo isto tem a ver com o quadro «Histórias do Tejo» porque o meu olhar sobre o Mar da Palha se cruza com o do pintor António Carmo. Em 1957 fui viver para o Montijo e atravessava os estuário do Tejo nos velhos vapores (uma hora de viagem) para apanhar o comboio (automotora) do Rossio para Caldas da Rainha às 17h e 20m. Uma vez durante as cheias do Rio Tejo os empregados do vapor levavam os passageiros ao colo na Estação Sul e Sueste. Em 1966 fui viver para o Bairro de Santa Catarina e trabalhava na Rua do Ouro, estava sempre perto do Tejo. António Carmo tem o olhar da Madragoa sobre o Rio Tejo, todos os dias diferente, todos os dias igual. Pela minha parte até 1996 andei sempre por ali perto: Rua do Ouro, Fontes Pereira de Melo, Rua Castilho, Rua do Instituto Industrial. Sempre perto do Tejo. Quando havia duas horas para almoço, o passeio dos empregados do BPA na Rua do Ouro era até ao Cais das Colunas. Dizia-se «virar o carro», expressão irónica em 1966 para quem, como eu, só teve acesso a automóvel próprio em 1983. Este quadro de António Carmo lembra dois aspectos da travessia do Tejo: a grande aventura das Descobertas e o trabalho quotidiano das fragatas.    

(Crónicas do Tejo 102)


domingo, 18 de fevereiro de 2018

«Filhos da Primavera Árabe» de Paulo Jorge Pereira


Paulo Jorge Pereira (n.1970) avança na Nota do Autor a razão de ser do livro: «Este livro é um grito pela defesa dos inocentes, erguendo a voz em nome dos indefesos para que se diga basta de violência e ganância» explicando a organização da narrativa: «A história que aqui se conta, ficção misturada com realidade, é um símbolo da desgraça e da desigualdade na Síria perante a complacência generalizada.» 
Por sua vez o prefácio de José Manuel Rosendo sintetiza o drama dos protagonistas: «Mekdad e Waffa simbolizam o medo e a esperança, a resistência e o sofrimento. Mostram-nos como algumas decisões são difíceis e como, mesmo perante a adversidade e a morte daqueles de quem gostamos até doer, mesmo assim, é preciso continuar a fazer o caminho»
O casal Mekdad/Waffa vive em Damasco uma vida calma: «Iam ao cinema e ao teatro. As suas conversas não tinham fronteiras. Discutiam livros e filmes, pintura e escultura, banda desenhada e política, música e moda, religião e desporto.» Entretanto surge no livro o «diário» de um jornalista que é uma espécie de contraponto da narrativa e talvez não por acaso surge em itálico. Pode ler-se nas suas páginas uma pergunta: «E como se classifica um líder a arrasar o próprio país e o seu povo para se perpetuar no poder? Um presidente que é médico, licenciado em Oftalmologia e que não podia ser mais cego aos Direitos Humanos.»
Um idoso afegão adverte Mekdad: «Bandos de assassinos semeiam o terror e dizem que é para proteger o povo, a democracia, a bandeira, os direitos e não sei mais o quê. Tudo mentira!»  Estas três linhas narrativas diferentes (os dois protagonistas, o diário do jornalista e as ideias do idoso afegão) são a espinha dorsal desta história. Tudo começa numa frase escrita em Março de 2011 na parede de uma escola («És o próximo, doutor!») a que o jornalista chama na página 69 «movimento de revolta pelas liberdades» mas países como a Tunísia, o Egipto, a Líbia e o Iémen vivem dentro de outros conceitos e as chamadas «liberdades» não são matéria prioritária para esses povos. Na página 99 Mekdad afirma: «Tínhamos um belo país com arte, ciência e cultura, quase três mil locais arqueológicos, profissionais qualificados, estudantes interessados e uma geração com futuro risonho. A guerra roubou-nos tudo.»
A única resposta só pode ser o Amor mas Mekdad adverte Anne já na Alemanha: «Não podes amar alguém que já morreu. Eu estou vivo mas morri na guerra. Todas as razões que tinha para viver desapareceram.»
Uma nota final: os anjinhos do Mediterrâneo já existiram em 1917 na Arménia, em 1948 em Der Iassine, em 1961 em Agadir ou nestes dias na Faixa de Gaza. Vão continuar a existir porque a guerra não acaba, faz parte da vida do Mundo.

(Um livro por semana 581: Editora EGO, Mapa: Tiago Leal, Prefácio: José Manuel Rosendo)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O filme «Dom Roberto», o teatro de rua e as cégadas


Tanto no Montijo (1957-1961) como em Vila Franca de Xira (1961-1966) como na minha terra natal (Santa Catarina) sempre me lembro (1951-1957) de ver o chamado teatro dos robertos. Os primeiros que vi terão actuado junto da casa do «tio» Zé Rebelo (casa que já não existe) talvez no local onde hoje está o pelourinho que ao tempo estava junto da casa do Zé Latoeiro. A minha avó Maria do Carmo não gostava da linguagem dos robertos (tudo à base do «rais ta parta») e levava-me consigo de volta com um argumento forte: «Isto é só miséria!». Entre 1961 e 1966, eles actuavam no Bairro do Bom Retiro em Vila Franca de Xira em frente ao café do Birra, do outro lado do Colégio Sousa Martins. Como a linguagem era a mesma, o meu pai desandava e nunca víamos o fim do espectáculo. Em Lisboa conheci de perto as cégadas a partir de 1966. Não é a mesma coisa pois nas cégadas os actores movimentam-se na rua e nos Robertos estão confinados ao espaço quadrado do pano. Nas cégadas havia sempre um polícia, um janota, uma mulher e um homem. Claro que no fim o polícia batia a torto e a direito no janota para defender a honra do homem. Depois da apoteose surgiam quatro rapazes com um lençol velho para onde as pessoas à janela atiravam moedas para o jantar dos membros da «trupe». A Travessa do Caldeira recebia muitas cégadas que vinham do Bairro da Bica. Recebia também «touradas». Um dia um toureiro improvisado depois de se ver livre da «vaquinha» (ou tourinha) que era uma roda de bicicleta com um par de chifres, estava à espera de aplausos e levou na cabeça com uma panela de água de uma moradora que não gostou da brincadeira. A resposta magoada e triste do actor amador foi fulminante: «Nunca mais trabalho nesta praça!»      

(Crónicas do Tejo 100 – fotografia de autor desconhecido)