sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

António Carmo – Histórias do Tejo num olhar da Madragoa


António Carmo (n.1949) é um pintor que todas as manhãs celebra a festa do encontro numa mesa da pastelaria-café «A Brasileira» no Chiado. Por brincadeira chamo a essa mesa «a mesa dos resistentes» porque nela de facto resistem hoje alguns artistas plásticos portugueses que considero os últimos da geração de Carlos Botelho, Almada Negreiros, Jorge Barradas ou Nikias Skapinakis. Um dos meus livros («Leme de Luz») tem capa de António Carmo e alguns textos meus publicados no jornal «O Ponto» tiveram a sorte e a honra de serem por ele ilustrados. Não somos amigos íntimos mas a admiração e o respeito pelo trabalho de cada um é a regra. Tudo isto tem a ver com o quadro «Histórias do Tejo» porque o meu olhar sobre o Mar da Palha se cruza com o do pintor António Carmo. Em 1957 fui viver para o Montijo e atravessava os estuário do Tejo nos velhos vapores (uma hora de viagem) para apanhar o comboio (automotora) do Rossio para Caldas da Rainha às 17h e 20m. Uma vez durante as cheias do Rio Tejo os empregados do vapor levavam os passageiros ao colo na Estação Sul e Sueste. Em 1966 fui viver para o Bairro de Santa Catarina e trabalhava na Rua do Ouro, estava sempre perto do Tejo. António Carmo tem o olhar da Madragoa sobre o Rio Tejo, todos os dias diferente, todos os dias igual. Pela minha parte até 1996 andei sempre por ali perto: Rua do Ouro, Fontes Pereira de Melo, Rua Castilho, Rua do Instituto Industrial. Sempre perto do Tejo. Quando havia duas horas para almoço, o passeio dos empregados do BPA na Rua do Ouro era até ao Cais das Colunas. Dizia-se «virar o carro», expressão irónica em 1966 para quem, como eu, só teve acesso a automóvel próprio em 1983. Este quadro de António Carmo lembra dois aspectos da travessia do Tejo: a grande aventura das Descobertas e o trabalho quotidiano das fragatas.    

(Crónicas do Tejo 102)


domingo, 18 de fevereiro de 2018

«Filhos da Primavera Árabe» de Paulo Jorge Pereira


Paulo Jorge Pereira (n.1970) avança na Nota do Autor a razão de ser do livro: «Este livro é um grito pela defesa dos inocentes, erguendo a voz em nome dos indefesos para que se diga basta de violência e ganância» explicando a organização da narrativa: «A história que aqui se conta, ficção misturada com realidade, é um símbolo da desgraça e da desigualdade na Síria perante a complacência generalizada.» 
Por sua vez o prefácio de José Manuel Rosendo sintetiza o drama dos protagonistas: «Mekdad e Waffa simbolizam o medo e a esperança, a resistência e o sofrimento. Mostram-nos como algumas decisões são difíceis e como, mesmo perante a adversidade e a morte daqueles de quem gostamos até doer, mesmo assim, é preciso continuar a fazer o caminho»
O casal Mekdad/Waffa vive em Damasco uma vida calma: «Iam ao cinema e ao teatro. As suas conversas não tinham fronteiras. Discutiam livros e filmes, pintura e escultura, banda desenhada e política, música e moda, religião e desporto.» Entretanto surge no livro o «diário» de um jornalista que é uma espécie de contraponto da narrativa e talvez não por acaso surge em itálico. Pode ler-se nas suas páginas uma pergunta: «E como se classifica um líder a arrasar o próprio país e o seu povo para se perpetuar no poder? Um presidente que é médico, licenciado em Oftalmologia e que não podia ser mais cego aos Direitos Humanos.»
Um idoso afegão adverte Mekdad: «Bandos de assassinos semeiam o terror e dizem que é para proteger o povo, a democracia, a bandeira, os direitos e não sei mais o quê. Tudo mentira!»  Estas três linhas narrativas diferentes (os dois protagonistas, o diário do jornalista e as ideias do idoso afegão) são a espinha dorsal desta história. Tudo começa numa frase escrita em Março de 2011 na parede de uma escola («És o próximo, doutor!») a que o jornalista chama na página 69 «movimento de revolta pelas liberdades» mas países como a Tunísia, o Egipto, a Líbia e o Iémen vivem dentro de outros conceitos e as chamadas «liberdades» não são matéria prioritária para esses povos. Na página 99 Mekdad afirma: «Tínhamos um belo país com arte, ciência e cultura, quase três mil locais arqueológicos, profissionais qualificados, estudantes interessados e uma geração com futuro risonho. A guerra roubou-nos tudo.»
A única resposta só pode ser o Amor mas Mekdad adverte Anne já na Alemanha: «Não podes amar alguém que já morreu. Eu estou vivo mas morri na guerra. Todas as razões que tinha para viver desapareceram.»
Uma nota final: os anjinhos do Mediterrâneo já existiram em 1917 na Arménia, em 1948 em Der Iassine, em 1961 em Agadir ou nestes dias na Faixa de Gaza. Vão continuar a existir porque a guerra não acaba, faz parte da vida do Mundo.

(Um livro por semana 581: Editora EGO, Mapa: Tiago Leal, Prefácio: José Manuel Rosendo)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O filme «Dom Roberto», o teatro de rua e as cégadas


Tanto no Montijo (1957-1961) como em Vila Franca de Xira (1961-1966) como na minha terra natal (Santa Catarina) sempre me lembro (1951-1957) de ver o chamado teatro dos robertos. Os primeiros que vi terão actuado junto da casa do «tio» Zé Rebelo (casa que já não existe) talvez no local onde hoje está o pelourinho que ao tempo estava junto da casa do Zé Latoeiro. A minha avó Maria do Carmo não gostava da linguagem dos robertos (tudo à base do «rais ta parta») e levava-me consigo de volta com um argumento forte: «Isto é só miséria!». Entre 1961 e 1966, eles actuavam no Bairro do Bom Retiro em Vila Franca de Xira em frente ao café do Birra, do outro lado do Colégio Sousa Martins. Como a linguagem era a mesma, o meu pai desandava e nunca víamos o fim do espectáculo. Em Lisboa conheci de perto as cégadas a partir de 1966. Não é a mesma coisa pois nas cégadas os actores movimentam-se na rua e nos Robertos estão confinados ao espaço quadrado do pano. Nas cégadas havia sempre um polícia, um janota, uma mulher e um homem. Claro que no fim o polícia batia a torto e a direito no janota para defender a honra do homem. Depois da apoteose surgiam quatro rapazes com um lençol velho para onde as pessoas à janela atiravam moedas para o jantar dos membros da «trupe». A Travessa do Caldeira recebia muitas cégadas que vinham do Bairro da Bica. Recebia também «touradas». Um dia um toureiro improvisado depois de se ver livre da «vaquinha» (ou tourinha) que era uma roda de bicicleta com um par de chifres, estava à espera de aplausos e levou na cabeça com uma panela de água de uma moradora que não gostou da brincadeira. A resposta magoada e triste do actor amador foi fulminante: «Nunca mais trabalho nesta praça!»      

(Crónicas do Tejo 100 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

«Velhos são os caminhos» de José Correia Tavares


José Correia Tavares (1938-2018)) apresenta-se numa quadra da página 31: «Constando aí meus rigores / Tudo ciência de ouvido / Muitos e grandes autores / Emendei a seu pedido.» Este livro é especial porque integra uma epígrafe de J. Rentes de Carvalho do livro «Mazagran»: «É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que nascem com a idade.»
Esta capacidade (ironia) de rir de si próprio surge na página 22: «Sou um poeta menor / Flori mas frutos não dei / Talvez, sabendo-as de cor, / Por medo às tábuas da lei.» Noutra quadra se pode ler toda uma sábia acumulação da filosofia: «Na paixão mal conjugados / Os verbos não se entendendo / Tempos e modos trocados / Amar é viver morrendo.» Poesia que não se fecha em si mesma, há nela um olhar sobre o mundo e o tempo: «Um cigarro na caruma / Parecendo não dar guerra / Sem importância nenhuma / Fará arder toda a serra.» Uma quadra faz a antecipação do fim da vida: «Mãos dadas à minha volta / Quando partir, rumo aos céus / Eu preciso duma escolta / Para me encontrar com Deus.» A Guerra Colonial está sempre presente: «Perdi, quando tinha farda / Cristo num fio em Angola/ Resta-me o anjo-da-guarda / Mas não bate bem da bola.» Noutra quadra é a Vida que passa depressa: «As coisas são mesmo assim: / Tendo mais ou menos graça / Passou a vida por mim / Como o sol pela vidraça.» Mas, mesmo passando depressa, a Vida é povoada por filhos da mãe: «Todos uns belos sacanas: / Antigos seminaristas, / Em suas vidas, profanas / Ostentam de bispo as cristas.» Ou então por ladrões: «Tu sempre foste ladrão / Mas escapas, qual enguia / Se um de nós te põe a mão / Vais parar à enxovia.»
Entre o Mundo e a Vida, a voz do Poeta tudo regista, até um canto gregoriano: «O canto gregoriano / Que nos ares se levanta / Mesmo divino, é humano / Pois sai da nossa garganta.» Tal como regista a própria arte poética: «Há coisas essenciais / Para fazer um poema: / Alegrias, também ais / Seja lá qual for o tema.»

(Um livro por semana 580 - Editora: Húmus, Prefácio: Lídia Jorge)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Jaime Murteira e Alexandre O´Neill – Ribatejo entre água e fogo


Jaime Murteira (1910-1986), pintor hoje recordado, foi discípulo dos artistas Frederico Ayres e António Saúde. Recebeu uma primeira medalha na SNBA, um prémio Silva Porto no SNI e um segundo prémio no Salão da Beira Alta. Tem obra representada nos seguintes Museus: Arte Contemporânea, Soares dos Reis, Ultramar, José Malhoa, Faro, Lagos, Vila Franca de Xira, Guimarães e Figueira da Foz. O quadro aqui reproduzido tem por título «Manhã no Ribatejo». Ora a dita «manhã» pode ter água e fogo como no poema de Alexandre O´Neill (1924-1986) no livro «As horas já de números vestidas» de 1981. O título do poema é «Fogo posto»: «Estou no centro do país, rodeado de incêndios. / Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar. / Reguei o telhado e o quintal porque as velhas são muitas / A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4./ A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão, / apagadas ou parecendo ou quase / e fala do carteiro – motorizada aqui, saco acolá, sapato mais além – que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.» (fim de citação) O poeta comentou mais tarde numa entrevista a Clara Ferreira Alves (Jornal Expresso) deste modo: «Há um poema sobre fogos-postos de que gosto muito, considero-o um dos mais bem acabados que escrevi até hoje. E emociono-me ao relê-lo. Emociono-me por estar bem feito. Nota final – por uma questão de espaço não é possível citar o poema no seu todo.

(Crónicas do Tejo 97 - Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

«A pedra não pode ser coração» de Rui Almeida


Rui Almeida (n.1972) mantém desde 2003 o Blog «poesia distribuída na rua» e tem publicado  desde 2009 um conjunto de livros: «Lábio cortado», «Caderno de Milfontes», «Leis da separação», «Temor único imenso», «A solidão como um sentido seguido de Desespero» e «Muito, menos». Poemas seus integram a antologia «Por la carretera de Sintra», organizada e traduzida por Marta López Vilar e publicada pela Editora La Lucerna.
O título deste recente livro de 42 páginas cujos poemas foram escritos entre 28 de Outubro e 1 de Dezembro de 2014, é retirado do poema da página 16: «A pedra que foi coração / É agora corpo parado / Do esquecimento / Com a textura da cinza. / Quando brilha seduz / Mas nunca se deixa encontrar, / Perde a força, falha / Na ternura. A pedra / Não pode ser coração.»
Uma das abordagens possíveis a este livro pode ser feita pelos números. A edição é de cem exemplares. Tanto o poeta como o editor terão percebido que Portugal é um país de analfabetos e quase ninguém lê poesia. Falar de Bocage pelas anedotas, de Bulhão Pato pela gastronomia e de Camões pelo olho perdido em combate é o que nos espera num país que não lê os seus poetas embora proclame, numa abjecta «frase feita» que Portugal é um país de poetas.
O ponto de partida pode ser o tempo: «Tudo quanto começa / Nunca acaba. Não é / Da memória que falo, / Antes da sensação / Física de um coração / A bater diante de ti». O ponto de chegada pode ser a alegria: «Quase eternos, vamos seguindo a luz / Tomando na mão a firmeza da vida, rasto de memória / A construir o fôlego da alegria.» Pelo meio fica a Poesia como lugar de dupla inscrição entre Natureza e Cultura: «A poesia. A vontade de ternura, um / Caderno onde encostar a cabeça.»

Editora: do lado esquerdo.

(Um livro por semana 579)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

«A mais absurda das religiões» de Nuno Costa Santos




Nuno Costa Santos (n.1974), director da Revista literária açoriana Grotta, é escritor e argumentista para além de autor de peças de teatro e documentários sobre poetas (Ruy Belo e Fernando Assis Pacheco) sendo cronista na Revista Sábado. O conjunto destas crónicas escolhidas por Diogo Ourique chega às 208 páginas e divide-se em cinco grupos: «Vida, vidinha», «Produtor de conteúdos», «O pai cronista», «Alguns nomes» e «Dois países».
Na introdução o autor explica o livro («Isto dava uma crónica. Houve uma altura em que estava agarrado à crónica, condição da qual nunca consegui recuperar. Qualquer coisinha trazia, enroscada, uma ideia para escrever uma crónica. Ou para ter a ideia de escrever uma crónica») e explica-se a si mesmo, deste modo: «Aqui o vosso cronista é um bicho atípico (um dia vou escrever um pouco à maneira dos mestres Millôr e O´Neill, um manual de instruções para ser melhor compreendido por aqueles que têm por hábito arrumar as pessoas em gavetas). Mas posso dizer que tenho aspectos conservadores: sou muito apegado aos meus e à minha terra, sou pelo fazer individual (detesto a palavra «empreendorismo»), sou comunitarista: acredito muito no voluntariado, algo que é alvo de desconfiança por uma esquerda estatista. Mas também sou solidário, também sou pela atenção do Estado aos mais desprotegidos socialmente, também sou liberal nos costumes, também quero caminhar para uma sociedade mais justa e mais fraterna.»
O título do livro surge na página 86: «Sentado num café à espera de um amigo que não chega. Escrevo. Num pequeno caderno. E penso que escrever é a mais absurda das religiões. Para quê escrever se posso ver o jogo de ténis na televisão. (Um tipo de pólo verde esta a fazer um serviço.) O amigo é jornalista, desculpa ainda melhor do que a de ser pai de um rapaz de dois meses (que sou).»  
Exemplar é, entre outras, a crónica da página 96 que começa com uma aproximação pessoal («Quando eu tinha 17 anos o meu pai achou que o filho não devia seguir o curso de Comunicação Social porque depois iria ficar no desemprego.») e deriva para uma situação mais geral: «Diz-se e bem que não há democracia sem jornalismo. Direi mesmo: não há democracia sem bom jornalismo, exigente, feito de frescura mas também de experiência, de olhar atento e experimentado, mais sabedor das curvas que a vida pública pode dar.»

Editora Escritório, Organização e Revisão: Diogo Ourique, Capa: Joana Viegas, Design: Dânia Afonso.  
    
(Um livro por semana 578)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Alexandre O´Neill - «Há uns que ultrapassam o efémero da crónica»


Quase a chegar ao número cem das crónicas no «Correio do Ribatejo», já era tempo de uma destas crónicas se referir a Alexandre ´O Neill, (1924-1986), poeta maior e mestre da crónica. Descobri há dias o livro «Passo tudo pela refinadora» de Laurinda Bom (Editorial Notícias) na Livraria Sá da Costa e dei logo com uma aproximação do grande mestre às crónicas e ao seu mundo. Vejamos o que delas diz o Poeta Alexandre O’ Neill: «A crónica é, efectivamente, uma coisa efémera. Vai pedir alguma coisa de empréstimo à poesia e alguma coisa ao conto e não tem completa eficácia. Nem a construção de uma nem de outro. Sobre o que escrevo, creio que há algumas que podem perdurar algum tempo na memória das pessoas, mas lembro que hoje se lêem grandes cronistas brasileiros de outros tempos e se vê que perderam a força. O que acontece é que eu não sou, a bem dizer, um cronista. Escrevo (ou escrevia, melhor) textos para jornais que, depois reconheço, muito naturalmente, como textos poéticos. Então incluo-os nos livros. Nem todos, claro. Há uns que ultrapassam o efémero da crónica. Outros, que podem parecer prosaicos, são (ou melhor, serão) poemas em prosa, digamos, o que é muito diferente da prosa-prosa. E também me posso enganar e apressar, e tomar por poema o que não é…» Nota final – Alexandre O’ Neill foi grande amigo de Jacinto Baptista e muitas vezes conversei com o Poeta na Rua da Rosa onde existiu o Jornal «O Ponto» de boa memória. De boa memória também é o conselho do Poeta para que eu estivesse sempre rodeado de bons dicionários. Tenho feito os possíveis e os impossíveis por não esquecer essa recomendação…      

(Crónicas do Tejo 95)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Luís Alberto Ferreira – do azul de Luanda ao azul de Belém


Luís Alberto Ferreira (n.1933) é um magnífico jornalista luandense que desde cedo se tornou adepto do Clube Atlético de Luanda, agremiação especial de onde partiu gente para o MPLA – Américo Boavida e Diógenes Boavida foram seus jogadores. As calúnias contra este Clube («clube dos cozinheiros», «clube dos mulatos», «ninho de conspiradores») ainda deram mais força a uma entidade que nasceu, cresceu e sobreviveu «como um corcel de persistência e de estoicismo» tornando-se uma Escola de «amizades, de interacções e de solidariedades». Daí o nome de «Escola» que todos lhe davam, englobando neste «todos» a diversidade dos negros mestiços e brancos que estavam na Direcção (Aníbal Melo, Couto Cabral, Faliero Cunha, Alberto Luís Ferreira) e a massa adepta que ia dos musseques às Ingombotas e aos Coqueiros. Leitor atento da Revista Stadium, o jovem Luís Alberto reparava sempre num jogador dos azuis de Belém (José Simões) que usava um lenço dobrado sobre os calções negros. A camisola era azul como a do Atlético de Luanda. Anos depois, já estudante em Lisboa, o jovem luandense ia ver os jogos de Os Belenenses de eléctrico ao lado de Artur Quaresma e de Mariano Amaro. José Simões foi vitimado por uma pneumonia não sem antes ter visto a sua recusa em fazer a saudação nazi mascarada na capa de uma Revista onde alguém lhe desenhou os dedos. Pode ter sido essa «Escola» que ensinou Luís Alberto Ferreira a respeitar os outros que são adversários mas não inimigos. Por isso no funeral do extremo-esquerdo portista Nóbrega estavam poucos adeptos e nenhum dos «adesivos» que só aparecem nas vitórias. O pai de Rui e de Avelino Mingas também lá jogou e por isso há uma lógica quando Rui Mingas canta: «Fuba podre / peixe podre / pano ruim /cinquenta angolares / porrada se refilares».

(Crónicas do Tejo 109 – fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

«A pureza perdida do Desporto – futebol no Estado Novo» de Rahul Kumar


Rahul Kumar (n.1980) organiza o seu trabalho de investigação sobre o Desporto em Portugal de 1920 a 1960 em três capítulos: - Sociogénese do campo desportivo português – O Estado Novo e o desporto: ideologia e instituições – A pureza perdida do desporto: a profissionalização do jogador de futebol. Ao escolher o terceiro capítulo para título do livro, o autor segue o modelo dos contistas que designam um dos contos como título das suas colectâneas. É um risco assumido pois o conjunto de 288 páginas engloba várias vertentes e o Desporto em Portugal não tem nenhuma pureza perdida pois ela nunca existiu. Basta pensar que o maior feito do futebol português em 1928 (Jogos Olímpicos de Amsterdão) foi realizado ainda na base do «amadorismo» mas já se discutia na FIFA a questão o «manque à gagner» ou seja, neste caso, os salários perdidos pelos jogadores convocados para a selecção nacional durante a campanha olímpica de 1928.
Embora Rahul Kumar seja doutorado em Sociologia, este livro não deixa de ser, ao mesmo tempo, um ensaio e um conjunto de histórias: «A história aqui narrada procura compreender o significado cultural e social do desenvolvimento do jogo e a sua gradual diferenciação face a um outro conjunto de práticas recreativas e culturais. A transformação de uma actividade distintiva associada às classes dominantes, como era o futebol no final do século XIX, num espectáculo de massas não foi um processo pacífico. Com a afirmação plena da desportivização e da espactadorização do futebol – enquanto prática competitiva orientada para o público mais do que para o lazer dos praticantes – a questão à volta da qual se organizam as clivagens mais marcantes no campo concerne ao estatuto dos atletas desportivos e à sua profissionalização.»
Curioso é neste livro uma série de casos e de narrativas como por exemplo a irradiação do presidente da Direcção do Sporting Clube de Portugal em 1943 (Amado de Aguillar) por se ter dirigido ao todo poderoso Director-Geral dos Desportos em tom que o mesmo considerou «grave acto de indisciplina». Outro caso envolve o Sport Lisboa e Benfica em 1944 quando o seu secretário-geral (Júlio Ribeiro) foi suspenso por 30 dias e o Clube multado em 3.000 escudos.
O mundo do futebol em Portugal tem tido destas coisas insólitas: ainda há pouco tempo (1966) os jornalistas desportivos eram obrigados a serem sócios do Sindicato dos Tipógrafos e Ofícios Correlativos.

(Um livro por semana 577 - Edições Paquiderme, Revisão: Raul Henriques, Grafismo: Carlos Bártolo)