segunda-feira, 19 de junho de 2017

Revista Aldraba nº 21 Abril 2017 - Homenagem a Maria do Céu Ramos


O moínho da capa da Revista ALDRABA nº 21 está parado tal como parou no passado dia 18 de Abril o moínho do coração de Maria do Céu Ramos, vice-presidente da Direcção e associada nº 59 da ALDRABA. Entre o moínho que transforma grão em farinha e o que transforma dias em tempo de viver, as semelhanças são óbvias. Pelo menos para mim que fui convidado para apresentar o conteúdo destas 30 páginas. Num dos meus poemas associei o moínho ao navio: ambos precisam de velas e ambos viajam embora com destinos diferentes. O destino do moínho é o pão, o destino do navio é o porto mais próximo. Nada contra os motores actuais mas isso é outra conversa.  
O texto de José Nelson Cordeniz sobre as danças de Carnaval na Ilha Terceira surge com uma arte final algo descuidada. Além de um abuso dos advérbios de modo (essencialmente, especialmente, propriamente, actualmente, claramente) nota-se que o acordeão vem a página 21 como algo de positivo e na página 19 aparece a concertina como instrumento musical que tem prejudicado a música folclórica. Embora não seja este o local e o momento para tratar este assunto, a verdade é que para a maioria das pessoas acordeão e concertina andam a par. Outro pormenor de descuido está na referência à estrutura das danças: «Saudação, Assunto e Despedida» na página 20 mas «Introdução, Assunto e Despedida» na página 21 embora o texto anuncie que é tudo «igual». Pouco compreensível é na página 21 o texto que refere «um convívio após a Dança recheado de iguarias típicas» mas não é o convívio que é recheado; pode ser a mesa posta. De qualquer modo a mensagem de inventário e notícia chega ao leitor e é esse o objectivo do texto.
Nuno Nabais num artigo de opinião intitulado «Lisboa, a Cultura e Espinosa» refere entre outros pontos de muito interesse esta ideia: «hoje aquilo que interessa à Universidade não é a indústria cultural mas o comércio cultural». Nesse sentido, não é de estranhar que, mais à frente, surja outra ideia sobre a mudança de paradigma: «os suplementos literários foram substituídos por agendas culturais» ou dito de outra maneira «uma compilação avulsa de sugestões de entretenimento». Em termos sintéticos pode dizer-se que os jornais do meu tempo (1978) tinham secções de «Artes e Espectáculos» mas hoje é só espectáculo. Tudo isto pode ser dito de outra maneira: são quatro os conceitos e as palavras-chave para a actual circunstância – património, luxo, arte e turismo. Espinosa nasceu em Amsterdam. De família natural de Vidigueira que foi expulsa de Portugal e refugiou-se na Holanda. Escreve Nuno Nabais: «Sonhava em português, fazia exegese em hebraico, escrevia tratados de ética e filosofia política em latim e dirigia a oficina de lentes em holandês». Nestas palavras está um resumo do escritor que pode vir um dia para o Panteão Nacional ou ter até o seu nome num Prémio Literário.
Fernando Fitas assina um texto sobre os Museus no qual afirma que «o Museu tem de ser um espaço vivo para ser vivido», permitindo aos visitantes manusear as peças das prateleiras. Luís Filipe Maçarico refere dois livros de António Salvado e cita de um deles a frase de um autor francês para quem «o Museu é a Universidade Popular através dos objectos». Shawn Parkhurst da Universidade americana de Louiseville (Kentucky) ocupa a página 8 com um texto de amor ao Rio Douro: «O amor agarrou-me em 1992. Eu já não existo sem o Douro, mesmo estando longe dele». Outras águas são as de Sónia Tomé. Resumem a sua participação no Festival Literário Internacional de Querença em Agosto de 2016. Nesse encontro literário foi patente a flutuação entre dois tempos e dois mundos da água no Alto Barrocal Algarvio: ora escassa, ora excessiva. Muito curiosa é uma das quadras sobre uma realidade que já não volta: a má língua das mulheres quando lavavam a roupa numa pedra da ribeira: «Água nos dá alegria / Lava a alma e o coração / Água lava tudo quanto cria / Só a má língua é que não».
João Coelho recorda os tempos difíceis dos marçanos que com 13 ou 14 anos chegavam da terra e começavam logo a carregar as compras das «senhoras» às costas em cabazes de vime. O pagamento era «cama, mesa e roupa lavada» mas a cama era má, a comida era´péssima e da roupa só era lavada uma muda por semana que o sabão sempre foi caro e a ganância sempre foi forte. Nuno Roque da Silveira conta a história de Joaquim Raposo Dias, um polidor de móveis na Calçada das Necessidades e a memória do seu avô Raposo que tinha um quiosque no cruzamento das ruas Marquês de Fronteira e Artilharia Um. Escreve a certo passo «Caíram-lhe em cima» mas o texto não explica quem caiu em cima do avô. Talvez mariolas como então se dizia e escrevia. Maria Adelaide Furtado lembra a gramática dos toques dos sinos que até há pouco tempo e ainda no século XX regulavam a vida de muitas comunidades. Nos Açores havia uma frase em muitas freguesias que toda a gente acatava: «Trindades batidas, meninas recolhidas» Tanto o sino como o chocalho nascem da arte do fogo. E tanto um como outro continuam a ter uma função comunicativa mas já não tão importante como por exemplo no século XIX em que «era o sino que punha em movimento todo o Universo». Os chocalhos empurravam os rebanhos mas hoje há cada vez menos pastores e menos rebanhos para guardar. José Rodrigues Simão assina um texto de memórias (55 anos depois no título) apesar de no texto se referir a 50 anos e não 55. Embora louve o esplendor da paisagem não existe nele um enquadramento geográfico que o permita localizar de imediato. O mesmo se passa com o texto de Mateus Dias Campeã sobre a memória de uma caçada e o uso do furão. Maria Eugénia Gomes assina as páginas sobre as viagens e os actos eleitorais da ALDRABA e é no seu texto que se percebe melhor o conteúdo da capa da Revista: «Os moinhos do Outeiro são únicos no Mundo em termos de funcionamento». O cartoon de Luís Afonso mantém o nível altíssimo de ironia que num jantar simpático em Serpa o levou a lamentar para mim a saída de Sousa Cintra do lugar de Presidente da Direcção do SCP: «Cada frase daquele homem era já meia anedota. Era só completar.» A Revista fecha com um poema, um belo poema de Izidro Alves que além de tudo o que quase exige o texto da página 8 («terra, poesia e emoção») tem muita oficina e é essa oficina que leva este poema a cumprir aquilo que me parece ser a razão de ser de toda a literatura: ligar de novo tudo o que a Morte separou.

sábado, 17 de junho de 2017

«Como a cinza» de José Viale Moutinho



Trata-se da edição autónoma em livro de um conjunto de poemas, um deles, o da página final, incluído no livro colectivo «20 Poemas para Ângelo de Sousa» de 2014. José Viale Moutinho (n.1945) escolhe para título deste seu livro breve (27 páginas) os versos da página 7 que falam da tarde e da cinza: «Como a cinza fica / nas mãos / apagado o lume / que nos devora / assim a tarde / parece um álbum / de retratos a sépia».
A cinza é o que fica depois do fogo, outra maneira de dizer «palavra» ou «desenho»: «só os desenhos ficam numa pasta / à espera, à nossa espera / ninguém os poderá apagar /mesmo o vento se mostra silencioso / com as mãos ocultando o rosto.»
Na ironia do poema o autor convoca «Fra Angélico» (1395-1455) e chama «Fra angelo» a Ângelo de Sousa: «Fra angelo abandona a tela / ninguém se lhe assemelha / devagar, fecha a porta / e sai de casa / nunca mais o tornaremos a ver / nem à mulher.»
«O receio da morte é a fonte da arte» é um verso de Ruy Belo (1933-1978) que este belo livro de José Viale Moutinho confirma ao longo das suas 27 breves mas intensas páginas.
(Editora: Apenas Livros, Direcção: Luís Filipe Coelho, Arte final: Fernanda Frazão)

(Um livro por semana 558)

sábado, 10 de junho de 2017

A seita da verdade suprema não é só em Tóquio



Já passaram uns anos mas o autor destas linhas não se esquece: havia uma seita em Tóquio que atirava gás «Sarin» para as estações de Metro. Chama-se (ou chama-se ainda) «seita da verdade suprema». Em Portugal há uma coisa parecida. Vejamos: numa dessas chamadas feiras de garagem que proliferam pela Cidade de Lisboa aparecerem à venda a preços convidativos vários livros sobre o Sport Lisboa e Benfica. Até aqui nada de mal pois é preferível vender a um euro do que mandar para a guilhotina e destruir. O engraçado é que um desses livros intitulado «Amor à camisola», editado pela «Verso da História» e com prefácio de Luisão publica na página 60 esta pérola: «Eusébio foi, e é, único. E o Benfica, o seu clube de sempre.» Percebe-se a denominação de «pérola» porque isto que se lê é uma mentira monstruosa, ignóbil e repugnante. Eusébio nasceu de facto em 1940 como averiguou o dirigente benfiquista senhor Paiva das Neves, o homem do terceiro anel. Eusébio foi jogador do Sporting de Lourenço Marques e, mais tarde, quando voltou dos E.U.A. jogou no Beira-Mar e no União de Tomar. Foi em Tomar que terminou a sua carreira de futebolista. Aliás o nome da editora (Verso da História) já diz muito sobre o seu lugar no outro lado da verdade. Quem escreve o livro coloca-se no terreno da mentira por oposição à verdade. Isto lembra-me as minhas longas conversas com Cruz dos Santos, o jornalista que aparece a entrevistar Eusébio à chegada no aeroporto de Lisboa. Foi na altura em que Eusébio desatou a dizer disparates sobre o ambiente e a vida desportiva de Lourenço Marques nos anos sessenta. «Não ligue, meu caro. Isso é só para agradar ao terceiro anel. O nome dos directores do Benfica que o recusaram quando veio da América, isso ele não diz.» Cruz dos Santos, como sempre, tinha razão. 

(Vinte Linhas 1691)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Os mortos de Der Lassine não tiveram tempo nem fotografia


A foto é do livro «Cronologia Enciclopédica do Mundo Moderno» do Círculo de Leitores (1990) tendo sido «trabalhada» pelo Mestre Carlos Vilas. No dia 17-9-1948 o conde Folke Bernardotte, sueco, mediador da ONU na Palestina, é assassinado por terroristas judeus. O Estado de Israel tinha sido proclamado em 14-5-1948 sendo presidente Chaim Weizmann e Ben Gurion o primeiro-ministro. Pouco antes em 20-4-1943 há um massacre de judeus no Gueto de Varsóvia. Esta foto mostra um menino de mãos no ar e pavor nos olhos. Nesse ano de 1948, no dia 9-4-1948 a Irgun e a Stern avançaram durante a noite para Der Yasin ou Deir Iassine (tanto faz para o caso) e massacraram 254 dos seus 750 habitantes tendo dinamitado dez das 144 casas dessa aldeia. O primeiro-ministro Ben Gurion pediu desculpa ao Rei Abdulah da Transjordânia mas os mortos já jaziam nos poços e os sobreviventes já estavam em fuga, cheios de modo e de pavor. Num certo sentido o mesmo medo e o mesmo pavor dos pobres judeus do Gueto de Varsóvia só que desta vez sem tempo nem fotografia. Foi tudo feito de noite, o trabalho sujo de matar os inocentes, não havia máquinas fotográficas porque a acção terrorista foi concretizada de surpresa. Passado pouco tempo as casas restantes da aldeia de Deir Iassine foram arrasadas e no seu lugar nasceu um aeroporto. Houve meninos que morreram em Agadir (era eu criança) no meio dos quinze mil mortos. Também houve meninos que morreram entre os 96 mortos em 1989 no campo de futebol do Sheffield United, o estádio de Hillsborough. Outros meninos morreram em Erevan quando os rios se encheram de sangue e a água mudou de côr. Em Argel morreram outros meninos entre 1957 e 1962 na batalha de Argel na qual o trabalho sujo foi feito pelos para-quedistas franceses. Nada de novo.

(Vinte Linhas 1689)

sábado, 3 de junho de 2017

«A céu aberto» de Paulo da Costa Domingos


Paulo da Costa Domingos (n.1953) nasceu no mesmo ano em que António Maria Lisboa partiu. Não era um Mundo qualquer, era Portugal: «uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses.» O ponto de partida da sua vida é uma família simples: «eu vinha do nada, nem nome de família, um avô jardineiro e ferozmente anticlerical, outro virado às estradas a abrir caboucos.» O ponto de chegada é uma conclusão: «Porque a leitura faz de nós melhores pessoas; faz de nós pessoas.» Pelo meio livros, traduções, filmes e desenhos de John Osborne, Boris Vian, Carlos de Oliveira, António Maria Lisboa, Pedro Oom, António José Forte, Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes, Aníbal Fernandes, João César Monteiro, Carlos Ferreiro e Vítor Silva Tavares: «Se dizes não é porque tens razão». A estas referências mais ou menos biográficas junto uma outra, pessoal: corria o ano de 1986 e a Revista Seara Nova publicava um texto meu sobre «as novas direcções da Poesia Portuguesa». Paulo da Costa Domingos surge nesse meu inventário devido à importância dos seus livros. Cito de memória «Asfalto», «Travesti», Cabra-cega», «Carmina», «Nas alturas», «Violeta náutica», «Cicatriz» e «Tigres de papel», sem esquecer que criou a Editora Frenesi e organizou com Al Berto e Rui Baião a antologia «Sião».  
É complicado procurar ver na poesia de alguém a sua voz pessoal mas corro esse risco ao fazer a ficha de leitura deste livro de 108 páginas cujo título é retirado de um dos quatro capítulos do mesmo. O ponto de partida é o Outono: «Não será portanto / a mais bela idade da vida / mas não deixa o Outono / de ter o seu peculiar encanto: / a sua dádiva de calma doçura / a mansidão que para vós coa / um magnífico vinho novo.» O olhar do poema fixa-se no horizonte: «Famílias transtornadas em gangues / de assalto à comida, minúsculas ilhas / à deriva, é o salve-se quem puder.» Entre o ponto de partida e o horizonte, a ironia do poema tanto pode devastar a poesia de Augusto Gil («Batem leve, levemente / água abundante e laranjas / do mesmo olival») como arrasar uma canção de Amália Rodrigues («Temente que a achassem feia / tomou o barco negro prá cidade») sem esquecer o cinema («É de evitar mesa posta / para os doze indomáveis patifes») ou a literatura num título de Alexandre Herculano: «A dama pé-de-cabra». Outras vezes o texto poético fica na ironia mais (digamos) simples à volta do real («o real é moscas sobre bosta humana») ou daquilo a que podemos chamar real: «Os que não conseguem / uma chefia/ batem no cão / por serem / celibatários».  O tempo actual pode definir-se no poema «Seita» - «Nem oiro nem sossego / se encontra aqui / nem saúde nem fraternidade / só gente ruim, / avariada». Porque não há saída nem solução: «Veio mesmo para ficar / dizem, a crise dominante / que nos torna inofensivos / suplicantes obrigados.» Ao longo dos tempos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes. No mesmo poema um verso recorda «a solidão dos jardineiros» que podia ser um título possível para este belíssimo livro de poemas. (Editora: Averno, Desenhos: Pedro Calapez )

(Um livro por semana 557)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Recado a Isabel Trigo de MIra


Tirando o contacto para o livro «Vítor Damas - a baliza de prata» (Editora Gato do Bosque) a última vez que estive perto de si foi no Instituto Português de Oncologia onde registei a entrega de material desportivo da IPSS «Leões de Portugal» aos meninos da Pediatria. Ver crianças tão pequenas a sofrer foi comovente e ainda mais quando um dos meninos se identificou como benfiquista mas aceitando com simpatia a oferta de camisolas, bonés e calções com as cores do Sporting Clube de Portugal. A ideia do desportivismo pode ser confirmada no livro referido pelas participações de Toni, Shéu e Humberto Coelho. Hoje quero dar um pequeno testemunho sobre o nosso sistema cultural. Estou quase a fazer 40 anos de jornalismo que iniciei no «Diário Popular» em 1978. No tempo de Cesário Verde o grande poeta era o Cláudio Nunes mas hoje ninguém sabe quem é. No tempo de Camilo Pessanha o famoso era o Augusto Gil. Dos livros do Círculo de Leitores sobre os Reis de Portugal só os homens apresentam data de nascimento. As 17 autoras só registam licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Há uma escritora que enganou toda a gente sobre a sua idade: nasceu em 1922 ma os dicionários referem o ano de 1932. O que se passou com os cachecóis do SLB com o «36» em vez de «33» é que se indicassem «33» já ninguém os comprava. Na verdade as Liga não são Campeonatos porque foram torneios experimentais, privados e particulares. Realizaram-se nos domingos deixados livres pelo Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938 mas como o SLB ganhou 3 tentam (Ricardo Ornelas foi o pioneiro) fazer passar a ideia de que nessas épocas desportivas não existiu o Campeonato de Portugal. Num certo sentido é como insistir na data de 1904 quando o SLB foi fundado em 1908. Basta ver o emblema com a bola e a roda da bicicleta. A coisa é tão repugnante que no livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de António Valdemar e Jacinto Baptista alteram as fontes («O Século» e o «Diário de Notícias») do dia 2-12-1907 acrescentando «e Benfica» que não está nas notícias citadas. O sistema cultural é tão egoísta, duro e egocêntrico que Vítor e Homero Serpa em 2004 num livro dos CTT sobre o Futebol em Portugal até escrevem que o vencedor do Campeonato de 1957/58 foi o SLB quando de facto foi o SCP. Portugal é um país de analfabetos e não há nada a fazer a não ser olhar com serenidade para este e outros desastres. 

(Fotografia de autor desconhecido - Vinte Linhas 1688)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

«BioAromas à Mesa» de Rui Lopes, Fernanda Delgado, Conceição Marçal e Eduardo Miguel



Este livro de 156 páginas, com a colaboração especial de Sónia Tomé e Edite Fernandes, é a memória justificativa do projecto que teve início no ano lectivo de 2007/2008 na Escola Básica e Secundária Pedro da Fonseca (Proença-a-Nova) destinado a alunos com necessidades educativas especiais. A finalidade é que os jovens possam «adquirir competências e conhecimentos na realização das tarefas em contexto de trabalho prático, de modo a poderem ingressar, um dia, no mercado de trabalho com alguma experiência e autonomia.» Eles são: André Filipe, Francisco Farinha, Hugo Branco, Sara Cardoso, Soraia Sequeira, Jacinta Fernandes, Ana Ferreira, Davide Lopes, Jéssica Martins, Inês Sequeira, Francisco Tavares, Camila Inácio, Rafael Venâncio e Beatriz Gonçalves. Passada a fase das bolachas, compotas, bombons, bolos, tartes e salgados, foram organizadas seis oficinas gastronómicas: «Os ingredientes da região», «Uma erva por prato», «Ingredientes emblemáticos com CH», «Na cozinha vegetariana», «O mundo dos arrozes» e «Leguminosas». Graça Mafalda e Cristina Dias são parceiros do projecto como Felismina Rodrigues, Isabel Gaspar e Luís Sequeira da Câmara Municipal de Proença-a-Nova cujo viveiro tem sido o espaço das actividades: «sementeira, estacaria, cultivo, corte, recolha, secagem e embalamento». As receitas são variadas e englobam peixe, carne, leguminosas, arroz, saladas, bebidas, sobremesas, doces, infusões, tisanas e chás. A título de exemplo registamos a receita da página 78: Frango do campo perfumado com lúcia-lima: «Comece por limpar bem o frango de vísceras e gorduras, preservando ao máximo a pele. Tempere com um pouco de sal e barre muito bem com a mostarda. Deixe repousar por cerca de 30 minutos. Pré aqueça o forno a 180º C. Coloque o frango num tabuleiro de forno, coloque os dois limões picados com um garfo na cavidade do frango, junte aos limões um ramo de lúcia-lima e coloque no forno até estra assado. Deve regar ou borrifar com u pouco de água a cada 15 minutos para que não seque demasiado. À parte pode preparar um molho de manteiga e sumo de limão para ir regando o frango.» As fotografias são magníficas mas a arte final do livro fica prejudicada pelo aborto ortográfico que dizimou parte do texto das receitas. Por outro lado, o uso dos advérbios de modo torna o texto mais pobre. Há páginas cujo número não aparece embora referido no índice: 9, 11, 13, 29, 41, 57, 109, 119, 121, 141, 149, 151, 153, 155. Na página 37 surge 2 águas em vez de 2 garrafas, na página 41 será «o chícharo consome-se cozido», na página 45 deverá ser «rectificando de sal se necessário», na página 58 em «ovo-lacto-vegetariano» surge um espaço a mais, página 71 será Índico (região do Globo) e não indico (verbo indicar), na página 81 repete a palavra (cariz agrícola, produtos agrícolas), na página 85 «lentilha, grão, fava e soja» serão leguminosas e não feijões, na página 110 falta parêntesis antes de «o linol», na página 110 surge «A manjerona é usada uma planta perene usada como erva», na página 111 faltam vírgulas a seguir a «possuem» e «cicatrizante», na página 113 faltam vírgulas a seguir a «sementes», na página 116 deverá ler-se «as folhas frescas ou secas, inteiras ou moídas» e não «As folhas frescas e secas. Inteiras ou moídas», na página 116 surgem 6 vezes as palavras usado ou usadas, na página 119 há reticências em excesso. «Golpada», «generoso», «reserve» , «espinhar» ou «treliça» poderiam ter figurado num glossário. (Editora: Livros do Corvo, Desenhos e fotografias: Alunos do Projecto Escola BioAromas, Capa e paginação: Carlos Vasconcelos, Revisão: Rita Lavos).  
   
(Um livro por semana 554)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bruno Vieira Amaral e a paisagem povoada do Mar da Palha


Fui de Santa Catarina viver para o Montijo em 1957. A casa ficava na Rua Sacadura Cabral nº 68 e, além de estranhar a água quente nas torneiras, há nesses primeiros tempos uma frase  de uma senhora «fina» ouvida numa Pastelaria do Montijo: «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!» Num certo sentido era como a frase do repugnante ditador: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!» Quem não quisesse viver quotidianamente podia ir de férias para o Aljube, Peniche, Caxias ou Tarrafal. Nesse tempo -1957 - a vida no Montijo era dominada pelo Mar da Palha: fragatas em vez de Ponte, galeras em vez de camiões, lentidão em vez de pressa. O lixo de Lisboa vinha em batelões e era descarregado no Porto da Lama. Era vulgar ouvir falar do ciclone de 1941 que matou muitos fragateiros e os sobreviventes apareciam nos ex-votos do Santuário da Senhora da Atalaia. Na rua onde morava havia a passagem de galeras de Pegões carregadas de cortiça; no regresso levavam fardos de palha e ferro para portões. Eu era apanha-bolas do Desportivo no Campo Luís Almeida Fidalgo atrás da baliza do Redol, o lendário guarda-redes. Em 1957 ainda se falava do Padre Cruz (1859-1948) que um dia parou na nossa rua para beber água na fonte da Tia Pagá. O nosso vizinho Ilhéu fazia os melhores torresmos do Mundo, a Delvira morava no Beco do Esteval, eu ia para a Escola Primária e parava com o nariz colado ao vidro das oficinas do jornal «Gazeta do Sul». Foi nas suas páginas que o poeta Sebastião da Gama se estreou. A Rua Sacadura Cabral ficava perto do Cemitério, pelo meio apenas a Rua do Norte. Ainda tenho em mim os gritos de uma mãe que viu morrer o filho atropelado no Afonsoeiro. O livro «hoje estarás comigo no paraíso» de Bruno Vieira Amaral fez-me recordar tudo isto porque o Mar da Palha é o mesmo.


(Crónicas do Tejo 83 - Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

«hoje estarás comigo no paraíso» de Bruno Vieira Amaral


Este livro de 363 páginas poderia ter o titulo de «A morte minuciosa de João Jorge Rego» mas em vez do livro de Orlando Neves, a preferência de Bruno Vieira Amara vai para uma citação do Evangelho de São Lucas. A questão da posteridade está em textos de Zola e Sienkiewicz. O primeiro afirma «É preciso morrer para nos fazerem justiça e o segundo confirma: «Todo o homem tem em si uma tragédia».
O protagonista é primo em segundo grau do autor («Era filho do irmão mais velho do meu avô paterno») e o ponto de partida é uma suposição lógica: «Os seus restos mortais terão acabado numa vala comum ou num ossário». João Jorge (1963-1985), como quase toda a gente, tinha duas vidas: «um gozão respeitador, um vadio amigo da família». O autor define a sua família deste modo: «A família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações». É essa família que vive entre dois mundos: «Vivíamos isolados na periferia e na infância. Havia o mundo exterior (…) e havia o nosso mundo real e próximo, as idas à praia do Barreiro, os torneiros de futebol de caricas, a mãe do BMX a fumar à janela (…)e era neste mundo que brincávamos, sorríamos, sofríamos e vivíamos».
Osvaldo Peres adverte o autor de que não basta conhecer as experiências dos outros em Luanda, no Bairro Operário, é preciso mergulhar na realidade de um país porque «se o não fizesse, os esforços para compreender a vida de João Jorge seriam em vão». Quando o rapazito de dez anos (João Jorge) afirma «Cuidado comigo que eu sou de Luanda» está a dizer quatro séculos de história de uma cidade – conclui Osvaldo Peres. Claro que há outras maneiras de ver Angola: «Angola é palavras, pacaças, palancas, petróleo e o curso lento e largo do Cuanza, as quitandeiras, as cascatas de Cambambe, conchas de cauri, casas cobertas de colmo e os panos de palma, trompetes de marfim». Em Angola, no ano em que nasceu João Jorge mataram um homem no Rangel: «levou tanto pontapé na cabeça que até lhe saltou um olho, era Sebastião Lutukuta, foi morto em 27 de Agosto de 1963, mataram o preto errado, ali todos os pretos eram o preto errado».
A narrativa de Bruno Vieira Amaral tem antepassados ilustres como Camilo Castelo Branco, Raul Brandão, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires ou Nuo Bragança. O uso excessivo dos advérbios de modo, o itálico sem coerência, a ausência de um glossário no final, a par de uma revisão desatenta (láios por lábios na página 182), a falta de parêntesis na página 253 ou as duplas aspas na página 299, não alteram em nada o fascínio que o livro transporta. Como toda a grande literatura este belo livro «junta de novo tudo o que a morte separou».

(Editora: Quetzal, Capa: Rui Rodrigues, Revisão: Carlos Pinheiro - Um livro por semana 556)


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O castelo de S. Jorge está em frente e o Tejo logo à direita


Nota prévia - A foto original é de José Antunes («Diário Popular») e o trabalho da criação do «postal» é de Carlos Vilas (Centro Comercial Nevada - Estrada de Benfica). Os meninos dos verdes estão na casa dos cinco anos. Nessa idade tudo é de graça - não há preço nem para as lágrimas nem para os beijos. A foto original inclui meninos dos «amarelos» e dos «encarnados», o mesmo é dizer dos três e dos quatro anos. Das monitoras a única que se reconhece é a Guiomar. Por acaso hoje em 2017 a Guiomar já não está no Colégio onde meu neto Pedro repete os passos do pai (Filipe) e das tias (Ana e Marta) no longo caminho de «tornar-se pessoa». Aliás um belo título de Carl Rogers . A crónica já viajou na paisagem e no povoamento e agora fixa-se na figura de Marta. Ela insiste na ideia de que não é aquela segunda menina do lado esquerdo; isto mesmo contra o testemunho da monitora Guiomar, aquela que lidera o grupo dos meninos de verde. Mas não é importante que Marta, hoje com 31 anos, não se reconheça na foto de José Antunes, trabalhada em formato de «postal» por Carlos Vilas. O que conta mesmo, o que vale e o que tudo justifica é a temperatura sentimental da crónica assinada por quem se coloca defronte do teclado. Frente aos meninos está o castelo de São Jorge e, logo à direita, o Rio Tejo. Temos de um lado o tempo cristalizado dos séculos que passaram pelo castelo; do outro lado temos o tempo imparável do rio que se demora algum tempo no Mar da Palha, antes de desaguar no Oceano Atlântico. De um lado séculos; do outro milhões de anos. Frente a esta dupla imagem que os meninos defrontam, a sua idade nada conta. São pequenos, usam bibe verde e trazem no seu olhar toda a esperança do Mundo. E todo o Amor sem o qual nenhuma esperança é possível.

(Crónica do Tejo 82 - Fotografia de José Antunes)