sexta-feira, 20 de julho de 2018

Dissertação para a voz de Maria Flor Pedroso



Quase nada sei das origens da tua voz, seu timbre e sua altura, seu calor e sua extensão, seu peso e seu rigor. Chamo-lhe calorosa pois sinto nela o calor que sacode o dia, aquece o pão, ferve o leite e convida ao pequeno almoço com ovos e bacon. Quando ouço a tua voz sinto nela o rumor ritmado das ondas de todas as praias e as melodias de todas as orquestras. Melodia, harmonia, contraponto – o que quer que seja musical nas manhãs de Rádio. Porque toda a minha infância cabe numa telefonia Schaub Lorenz. O senhor Messias, o Compadre Alentejano, o Teatro das Comédias, o romance da hora do almoço, o telefone toca do Matos Maia. E também os discos pedidos dos doentinhos dos sanatórios – Serviço 6, Sala 2, Cama 4. Sem esquecer os anúncios: «Candeeiros bem bonitos / modernos, originais / compre-os na Rádio Vitória / não se preocupe mais.» A tua voz é clarim, bandeira, estandarte.  Primeiro avisa, depois convoca, de seguida vem guiar os ouvintes como numa antiga romaria entre o sol que brilha e o pó que não assenta. Havia a Rádio Graça, a Rádio Peninsular, o Clube Radiofónico de Portugal e a Rádio Voz de Lisboa. A Voz de Lisboa era essa mistura feliz do vagar dos eléctricos e da pressa na espuma dos rebocadores, o vagar do sinaleiro e a pressa das fragatas do outro lado do Tejo. Vivi no Montijo entre 1957 e 1961; por isso ser fragateiro era um dos meus destinos possíveis. Aos Domingos à tarde os eléctricos levavam bandeiras de estádios: Luz, Restelo, Tapadinha, Lumiar. À noite saía nos jornais o resumo da jornada com a classificação e os melhores marcadores. Os ardinas voavam nas Escadinhas do Duque. Era a voz de Lisboa. Quase nada sei das origens da tua voz. Sei que nela passa o coração do Mundo. As sombras e as luzes, as sementeiras e as colheitas, a terra e o mar. Tudo cabe na tua voz que não termina e que continua.        

(Crónicas do Tejo 117 – fotografia de autor desconhecido)


terça-feira, 3 de julho de 2018

«No lamaçal da Primavera» de Alice Ruivo



Neste seu quinto livro de ficção, Alice Ruivo (n.1955) retoma o universo sentimental dos seus primeiros romances: O amargo e doce sabor da vida, Matilde, Carlota e Juliana e No dorso do vento. Neste No lamaçal da Primavera o ponto de partida é o casal Aurora e Jaime que vê a sua longa relação sacudida por uma frase de Jaime («Vamos para o divórcio») originando em Aurora uma nova situação: «Não é fácil recomeçar aos cinquenta e cinco anos mas estava decidida a deixar para trás os cacos, as pálpebras vermelhas e os soluços inacabáveis.»
O livro organiza-se em histórias cruzadas de várias gerações, a autora evidencia o mérito de partir sempre do particular para o geral deixando o registo de um certo tempo português entre 1945 e 2015, algo como setenta anos. Foi em 1945 que os pais de Aurora (Severino e Amélia) casaram. Com o divórcio de Aurora e Jaime a transitar em julgado, surge uma aproximação a Mariana: «Mariana colocou a mão sobre a sua nuca, procurou a raiz naquela massa de cabelo. Beijaram-se. Sentiu o seu clitóris endurecer, sair do seu esconderijo para se oferecer à fricção.» Mais à frente acontece o desenlace («não criámos raízes, na verdade muita coisa nos separa») e a conclusão: «Célia era mãe de Severino (pai de Aurora) e de Olinda (mãe de Mariana). Tinham a mesma avó. A avó Célia. Eram primas. Ou meias-primas.» Mais tarde Aurora fará o balanço com Mariana: «Eu não deixei o Jaime, ele é que me deixou. Por isso tu não foste uma troca, da mesma forma eu também não fui para ti. Ou seja: não deixaste a Odete por mim e ainda bem. Por isso aqui ninguém usou ninguém. Acontece entre duas criaturas que são livres e donas da sua pessoa.»
Tal como no caso Aurora/Jaime, com o problema de Constança e Fernando passa-se o mesmo: o conflito passa do privado para o social e a história torna-se exemplar, ganhando assim o estatuto de história de proveito e exemplo. Um livro de 179 páginas que se lê com a sofreguidão de um «policial» não à procura do criminoso mas à descoberta do lugar específico do tecido social onde os dramas se escondem e se revelam.  
  
(Capa: Maria Soledade Centeno, Prefácio: José Luís Outono, Posfácio: Lynda Carvalho - Um livro por semana 590)

segunda-feira, 25 de junho de 2018

«Crónicas de Porcelana» de Soledade Martinho Costa



Soledade Martinho Costa que desde 1973 é reconhecida como autora de livros de poesia, teatro, etnografia e literatura infanto-juvenil, estreou-se no campo da crónica em 2015 com «Uma estátua no meu coração». Este segundo livro de crónicas num total de 214 páginas integra 61 textos divididos em 4 grupos: «Abre-latas», «Histórias da Velha do arco», «Segredos» e «Crónicas de Porcelana». O ponto de partida do livro é uma frase de José Saramago no livro «Deste Mundo e do outro»: «Crónicas que são? Pretextos ou testemunhos?» Mas também um ideia do mesmo autor, citada na página 9, logo a seguir à dedicatória: «A vida, que parece uma linha recta, não o é. Construímos a nossa vida só uns  cinco por cento, o resto é feito pelos outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros.»
Esta ideia de «viver com os outros» (título de um livro de Isabel da Nóbrega) está presente na atitude da autora perante figuras das Artes e das Letras que povoam algumas da crónicas como Sarah Affonso, Amália Rodrigues, Afonso Praça, Tóssan, Carlos Nejar, Luiz Pacheco ou Francisco Lyon de Castro. Para dar uma ideia aproximada do interesse deste livro de crónicas fiquemos por três citações. A primeira sobre a profissão de escritor: «Dirigi-me ao Hospital Novo de Celas, em Coimbra, ali a dois passos. Para meu espanto a funcionária desfez de imediato as minhas dúvidas com a seguinte explicação: - Sabe, é que no nosso ficheiro não consta a profissão de escritora. A palavra mais parecida é escriturária. Por isso é que está assim escrito – e acrescentou: - Já há uns meses, esteve cá um escritor e aconteceu a mesma coisa; nós escrevemos escriturário, lembro-me muito bem. Ele chamou-nos a atenção mas, como disse, essa profissão não consta do nosso ficheiro.» A segunda, a propósito do livro «Os contos exemplares» de Sophia de Mello Breyner é uma situação passada numa livraria de Lisboa: «Não leve. Esse livro é já muito antigo. Foi escrito há muito tempo. Tem aqui outros mais modernos… Não quer ver?» A terceira citação surge na página 85: «são mesmo os Portugueses um povo adverso aos livros e à leitura? Um povo que não lê? Que mal conhece os seus autores? Que prefere o futebol e as tristes cenas de muitos dos programas que entram na nossa casa sem nos pedirem licença, transmitidos pelos canais de televisão? Que tem absoluto desconhecimento da importância da leitura? Ou a razão deste despovoamento nas livrarias tem origem noutras causas? A situação difícil em que os Portugueses vivem (nem todos, é claro!)? A falta de dinheiro para gastar em livros quando a despensa está vazia?»

(Editora: Sarrabal, Capa: «A feira» de Petrus van Shendel, Revisão: L. Baptista Coelho - Um livro por semana 588)


segunda-feira, 18 de junho de 2018

«Juncos à beira do caminho» de Francisco José Viegas



Embora conhecido como autor de livro de teatro, gastronomia, viagens e ficção (Grande Prémio da A.P.E. em 2005) Francisco José Viegas (n.1962) tem como poeta um percurso de quarenta anos. O seu primeiro livro cujo título é «O Verão e depois» foi publicado em 1978. Este livro recente com o título retirado do poema da página 21, abre com a citação de um verso de Vasco Graça Moura (1942-2014) que lembra o poeta inglês John Keats (1795-1821) - «A thing of beauty is a joy for ever».
O autor regista no livro memórias da terra e da gente: seja de um tio («O meu tio deu a volta / ao mundo; agora está a dois passos da casa / onde nasceu»), de uma tia («Ela despedia-se da vida, era a Páscoa») ou de um avô: «O meu avô vestia a ganga pobre e limpa / dos operários; rosto mais honrado / não conheci.» A morte está muito presente nos poemas deste livro, seja através de uma trilogia («a morte, a doença e a família»), seja na memória dolorida de um lugar («longe de casa, sem saber quem se ama, quem se é, quem pode amparar-nos, ouvir , responder») seja ainda na certeza duma inevitabilidade: «Um a um os meus são enterrados e aguardam-me.»
Se cada poema é um retrato, ele oscila sempre entre a paisagem e o povoamento. Por exemplo o poema da página 60: «A precoce geada de Outono desperta os demónios / da melancolia se recordo aquela paisagem / da província, amável, que nunca me roubou / nem a alegria, nem os nomes que guardei até hoje.»
Conclusão provisória como todas: se o ponto de partida é o balanço amargo da página 32 («Hipertensão, silêncio e más noites») o ponto de chegada é uma lição: «não fazer balanços, / não corrigir o passo, nem tudo pode consertar-se / - não há remédio seguro para os grandes erros, / nem no amor, nem na má educação dos filhos / nem na pequena solidão que nos protege dia a dia / quando todos regressam a casa e tu ficas entre / as mesas dos que foram embora.»

(Editora Caminho, Capa: Rui Garrido, Foto da capa: Rui Rodrigues, Foto da contracapa: Alfredo Cunha - um livro por semana 589)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A última aguardente do Tio Nascimento



Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

(Crónicas do Tejo 113 - fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Celtic 1967 – Os leões de Lisboa na Ribeira do Jamor


A Ribeira do Jamor é bonita mas não tem estatuto para ser «cantada» por quem, como eu, andou a estudar na Escola Primária entre 1958 e 1961. Os afluentes da margem direita do Rio Tejo são: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. A pequena Ribeira do Jamor não tem dimensão para ser referida nos manuais de Geografia mas faz parte da minha memória do ano de 1967. Quando saí do eléctrico com bandeiras de «Estádio» atravessei uma pequena ponte sobre a Ribeira do Jamor. Era um jogo especial porque era a primeira final da Taça dos Campeões Europeus disputada em Portugal. Os vencedores ficaram conhecidos até hoje como os leões de Lisboa. O livro «The oficial little book of Celtic quotes and trivia» compilado por Douglas Russel em 2005 refere um facto quase lendário: os jogadores do Celtic, depois de olharem para os favoritos do Inter, terão recebido instrucções do treinador Jock  Stein para cantarem «The Celtic Song». Podem ter começado a ganhar o jogo nesses momentos. Depois de afastarem o Zurich, o Nantes e o Dukla de Praga, os leões de Lisboa venceram os italianos do Inter com golos de Tommy Gemmel e Steve Chalmers mas na minha memória ficam as jogadas endiabradas de Jimmy Johnstone a rebentar com a defesa italiana onde os jogadores eram todos famosos a começar pelo keeper Sarti e a acabar no lateral Corso que era um polivalente. A famosa empresa Fabergé celebrou a exibição soberba do Jimmy Johnstone com um ovo em sua honra, coisa que apenas tinha contemplado os Czares e as Czarinas do Império Russo no princípio do século XX. Já passaram 50 anos, quase 51, mas parece que nada mudou. Nem o eléctrico nem a Ribeira do Jamor nem o jogo entre o Celtic e o Inter, nem o Tejo ali tão perto, quase a desaguar no Oceano Atlântico.   

(Crónicas do Tejo 116)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Carlos Pinhão entre o Chiado e o Tejo



Do Largo do Chiado vê-se o Rio Tejo e os cacilheiros até parece que «estacionam» nos telhados dos prédios do Cais do Sodré e da Rua do Alecrim. Quando o jornal desportivo A BOLA era publicado às segundas, quintas e sábados, quando estava algum calor na cidade e não havia ar condicionado na redacção do jornal, o Carlos Pinhão (meu mestre informal de Jornalismo) vinha até à janela que dava para a Rua Diário de Notícias ver as cenas próprias do Bairro Alto: uma taberna, uma velha, um rapaz atrevido a chamar-lhe velha, um berreiro interminável. No fim nascia um poema que eu viria a ler mais tarde num livro de Luiz Pacheco. Longe vai o tempo de Eça de Queiroz escrever «o que um pequeno grupo de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos, decidir no Chiado que Portugal seja – é o que Portugal é.» Lá pelos idos de 1966 ainda se dizia que o Chiado era um Estado dentro do Estado: tinha como qualquer Estado o seu Governo, o seu Parlamento, a sua Academia e a sua Catedral. O facto de um meu livro de crónicas ter o título de «Entre o Chiado e os Açores» levou-me a procurar saber mais sobre este lugar mágico, pitoresco e elegante Sempre ouvi falar do poeta António Ribeiro Chiado como estando na origem do nome do Largo e, por reflexo, do espaço à sua volta. Um belo dia Alberto Pimentel encontra um documento datado de 1567 mencionando um tal Gaspar Dias, de alcunha «o Chiado», como proprietário de uma taberna que se situou um pouco acima da esquina da actual Rua do Carmo com a Rua Garrett. Será o Chiado taberneiro ou o Chiado poeta o tronco genealógico do Chiado artéria alfacinha? Isso não sei nem estou interessado em saber. Sei que, como Carlos Pinhão descobriu há muitos anos, uma taberna é como um poema, um lugar feliz onde ninguém está só. 

(Crónicas do Tejo 115)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Quirino Teixeira – memórias dum jornalismo romântico



Quando refiro (e nunca é de mais) os meus mestres do Jornalismo no «Diário Popular» (Jacinto Baptista) e em A BOLA (Carlos Pinhão) não posso esquecer o que aprendi com Quirino Teixeira na redacção da Revista do Jornal TEMPO. Foi ele que me ensinou o pouco que sei sobre paginação de jornais e revistas, coisa essa que tão útil me foi mais tarde em todos os jornais onde trabalhei primeiro como colaborador e depois como redactor efectivo. Há muitas histórias engraçadas. Um dia, por alturas de uma passagem de ano, sugeri que na próxima semana só se referissem livros infantis sob o título de «Na semana mais pequena, livros para os mais pequenos». Quirino achou piada e disse-me para nunca me acanhar com sugestões. Um fim de tarde, passámos largo tempo a escolher uma capa para a Revista a cores (era uma igreja numa ilha açoriana) e, dois dias depois, quando o jornal saiu para as bancas, a capa era outra. Alguém se tinha chegado à frente com duzentos e cinquenta mil escudos e por isso a capa era uma família feliz – pelo menos na fotografia. Outra vez foi a nota de leitura que assinei sobre um livro do José Agostinho Baptista; ao chegar ao Funchal o poeta recebeu um envelope da sua irmã com vários textos de jornais da Madeira sobre livros recentes deste autor. Alguém, num jornal local, tinha achado que o melhor e mais fácil era copiar na íntegra o que eu tinha escrito no TEMPO. Chamo-lhe jornalismo romântico porque não havia interesses materiais em jogo, as coisas eram feitas pelo prazer de, todas semanas, sair para a rua uma revista onde estava o melhor de nós. Era essa a contrapartida, a moeda de troca. Poderia lembrar que Quirino Teixeira entrevistou Fernando Namora, Salvador Dali, Juan Miró, Antoni Tapiés, Ana Maria Matute, Camilo José Cela ou António Vallejo mas isso já é outra crónica.  
    
(Crónicas do Tejo 114)


sexta-feira, 11 de maio de 2018

«O processo de Camilo»



Novo livro de Carlos Querido

Foi apresentado em Caldas da Rainha no passado dia 14 de Abril o mais recente trabalho de Carlos Querido. Nasceu em Salir de Matos (1956), viveu em Santarém cinco anos e é hoje juiz desembargador na Relação do Porto. Autor de Salir d´Outrora (2007 e Praça da Fruta (2009) publicou recentemente Insanus (contos) depois de Príncipe Perfeito – Rei pelicano, coruja e falcão e A redenção das águas. Este livro é um pequeno ensaio de 36 páginas escrito a partir do processo judicial existente no Tribunal da Relação do Porto que narra o drama de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, presos, acusados e julgados pelo crime de adultério. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Correio do Ribatejo 127 anos depois



O jornalista como historiador do quotidiano

Quando comecei a escrever nos jornais (1978) Jacinto Baptista afirmava no «Diário Popular» - «o jornalista é o historiador do quotidiano». Ora o quotidiano português em 9-4-1891 (já lá vão 127 anos) era dominado pelo Ultimato Britânico de 1890 e pelo movimento patriótico que se levantou contra aos ingleses. O patriotismo era comum a toda as classes sociais. Basta lembrar que as comemorações camonianas de 1880 foram financiadas pelo Conde de Burnay, que o Duque de Palmela devolveu as suas condecorações trazidas de Londres ao embaixador inglês em Lisboa e que a Duquesa de Palmela organizou uma «sopa dos pobres» em Lisboa. Associações, Clubes e Filarmónicas ganhavam expressão. Mas não era só Luís de Camões que se comemorava: o 24 de Julho (de 1833) marca a chegada a Lisboa das tropas liberais, o 1º de Dezembro (de 1640) marca a recuperação da independência nacional e sem esquecer a romagem anual ao túmulo de Joaquim António de Aguiar (1793-1871) conhecido como o «Mata Fardes». O Governo inglês sonhava com um corredor continental em África do Cairo ao Cabo mas o chamado Mapa Cor-de-Rosa propunha que Portugal ocupasse o vasto território entre Angola e Moçambique. Em 11-1-1890 o embaixador britânico em Lisboa exigiu a retirada imediata das forças militares portuguesas estacionadas no Noroeste de Moçambique (Chire e Machona) e ameaçando com o uso da força caso o nosso país não aceitasse a exigência até às 10 horas da noite do dia 11-1-1890. O Governo português reúne-se de emergência com o Conselho de Estado e salvo duas excepções, todos os membros do Governo e do Conselho de Estado aceitam a imposição britânica. Claro que a 14-1-1890 o Governo demitiu-se e o novo Governo (regenerador) aceitou o Ultimato. O resto está nos livros, é História. Mas o «Correio do Ribatejo» que hoje, continua o que começou há 127 anos como «Correio da Extremadura», é também, História. O passado dá a todos nós que o fazemos hoje um orgulho, uma vontade e uma força enormes, o futuro é um horizonte de muitas coisas possíveis. O presente é esse intervalo feliz entre o passado e o futuro, espaço no qual o sonho dos pioneiros de 1891 continua activo e desafiador: contar às pessoas as suas próprias histórias, fazer da cada novo jornal um ponto de encontro, ser o historiador do quotidiano de todos nós.


sábado, 28 de abril de 2018

Padre Amílcar Fialho (1944-2001) ou a boa surpresa na página de um livro



A página 180 do livro «O sítio de Benfica e a tradição dominicana» de Artur Santa-Bárbara (edição da Paróquia de São Domingos – Benfica - Lisboa) refere dom Fernando Teles de Menezes como conde de União em vez de conde de Unhão. Má surpresa mas a página 237 mostra o largo sorriso do novo presbítero do Patriarcado, Amílcar Luís Fialho, ao lado de Frei Carlos Santos. A foto não tem data mas deve ser de 1967. Nascido em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em 27-4-1944, foi admitido no Seminário de Santarém em 1-10-1955 tendo sido ordenado sacerdote em 1967 e passando a ser pároco nas Lapas e na Ribeira Branca em 1968. Filho de João Fialho e Conceição Fialho, este meu valoroso conterrâneo veio a falecer em 18-5-2001. Da sua passagem pela Direcção do Jornal «O Almonda» regista-se em 24-5-1975 um firme propósito: «Empenhar-me-ei desde o primeiro momento não em servir ninguém mas a Verdade, que é revolucionária.» Mas em 9-11-1979 confessava a sua relativa frustração: «Passados mais de quatro anos de fortes tensões provocadas pela angústia constante de me sentir «bola de pingue-pongue» nos jogos de interesse, verifico, com pena, a necessidade de abandonar o campo por falta de forças físicas. Numa luta permanente e desgastante, obrigando-me, tantas vezes a enfrentar problemas e situação cheias de imponderáveis e contradições, o confronto humano, social e cristão arrasa o sistema nervoso, provocando possíveis doenças de consequências incalculáveis.» 

Uma nota final de agradecimento a Alexandra Xisto e Laura Martinho pela ajuda preciosa nos dados biográficos do padre Amílcar Fialho.     

(Crónicas do Tejo 110)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O comboio da Sertã, a vila das Caldas, «gralhas» e deslizes



Uma pessoa acorda, toma banho, come, veste-se e vai para a rua e a primeira coisa que vê é uma carrinha frigorífica à porta dum talho com a expressão «São António» em vez de Santo António. Sabe-se que São se usa para João ou Pedro, os santos populares de Junho cujo nome começa por consoante. Minutos depois no comboio a mesma pessoa lê Melecas em vez de Meleças e no Metropolitano vê Marques Pombal em vez de Marquês de Pombal. Ao sair na Praça de Espanha (lê-se Praca Espanha) fica a pensar no nome antigo da estação que era Palhava em vez de Palhavã. A seguir pega num livro e lê uma referência ao comboio da Sertã na página 74 e duas vezes na página 90 às Caldas da Rainha como vila sem esquecer na página 98 a expressão vila termal. Sabe-se que não há nem nunca houve comboios na Sertã e as Caldas são cidade desde 1927. Na página 131 lê-se reouve quando o verbo é reaver ou seja «ter de novo» que é diferente de ouvir.
Pego noutro livro e leio lojistas com «g» na página 130 depois de ter lido na página 125 Dutra Trafaria em vez de Dutra Faria. Li depois no mesmo livro o nome do jornalista Urbano Carrasco como Urbano Camacho referido como sendo do «Diário da Manhã» mas não faz sentido no contexto porque esse jornal era da situação, não da oposição. Leio na página 26 António Régio por António Sérgio e na página 32 «ostão» por estão. Mas para acabar o dia em beleza leio num livro sobre São Domingos de Benfica uma referência ao conde de União que não existe porque se trata do conde de Unhão. Cheguei a casa com o cinto cheio de caça mas terá valido a pena? Talvez sim ou talvez não. Nunca saberei ao certo.  

(Crónicas do Tejo 108 - fotografia de autor desconhecido)



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Mário Duarte a «angústia sem lágrimas» entre o pó e a posteridade



Autor de «Aquário» (1979) e «Jornal Poliédrico» (1989). Mário Duarte (1954-1978) pôs termo à vida em 1978 na Holanda onde vivia como exilado. Na apresentação do segundo livro Fernando Venâncio escreve: «Desconhecemos, ainda, o Diário de Mário Rui. Nele se encontrará, porventura, resposta para a interrogação sobre o grau de consciência que o jovem exilado tinha do seu talento, em particular literário. Do que não resta dúvida é que o escritor Mário Duarte tinha virtudes das que mais recomendam um oficial das letras: era laborioso e era um insatisfeito. Não é impensável que, ultrapassada a euforia dum início de reconhecimento, Mário Duarte repudiasse, garbosamente, os seus ensaios de juventude. Hoje,  eles são todo o acervo de um autor por quem os Desuses já guerreavam.» Citemos um dos textos: «Corredores Os corredores. O Hospital: edifício erecto e escuro. Os rostos semeiam-se na imensidão asséptica das enfermarias. O edifício está esventrado por corredores-gemidos. E os elevadores furam as paredes com pessoas de batas eficientes. As lavandarias produzem as batas entre indescritíveis ruídos brancos. O fumo das roupas acende muito feliz por uma chaminé de metal (um osso desmesurado, oco, em espirais). Os doentes olham os corredores com espanto. As camas disseminam-se. As camas invadem os corredores. Gritam as enfermeiras de touca eriçada. Os doentes emudecem. Os estudantes da Faculdade riem o espaço dos lábios. Os doentes imóveis. As pernas das camas caminham docemente pelas áleas laterais. Gritam os partos. As crianças dolorosas enxameiam os corredores de urina. À mulher dói-lhe o fruto: o nascimento. A cara crispa-se. Os lábios enrugam-se. A criança não quer sair. O útero lateja como um solo de clarinete.» (Fim de citação)   
     
(Crónicas do Tejo 107 - fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)

quarta-feira, 21 de março de 2018

Uma «Festa Redonda» da Terceira no CCB de Lisboa


António Valdemar, Luísa Costa e Luiz Fagundes Duarte foram os mestres-de- cerimónias da «Festa Redonda» terceirense em pleno CCB de Lisboa. O bilhete indicava a data (10 Mar 18), a hora (15:00), o preço (5,00 €) e o motivo (Dia Literário Vitorino Nemésio) mas não indicava o sentido último da Festa que é (e será sempre) um encontro, um intervalo de alegria e de luz num quotidiano cinzento e monótono. António Valdemar (com erudição e fotografias antigas) apresentou o percurso pessoal de Vitorino Nemésio (1901-1978) desde o seu nascimento (Vila Praia da Vitória) até às cidades que tomou como suas (Lisboa e Coimbra) sem esquecer a passagem pela Horta onde fez o exame do quinto ano do Liceu que lhe foi negado em Angra do Heroísmo. A nota de 10 (dez!) valores a Português e Francês que lhe foi atribuída no Liceu da Horta pode ter sido o impulso para o Prémio Montaigne que recebeu mais tarde e para o seu livro de poemas que foi escrito no idioma de Voltaire. Vitorino Nemésio foi sempre um poeta e (sabe-se) toda a poesia é (sempre) uma resposta. Para fazer uma roda são precisas quatro pessoas e foi Manuel Nemésio, do alto dos seus 87 anos, que acabou por encerrar a sessão. Antes tinha Luísa Costa lido (como só ela sabe) alguns poemas da «Festa Redonda» fazendo com que quem (de olhos fechados) a ouvia, se colocasse numa carroça de Vila Praia da Vitória a caminho de Angra do Heroísmo – quando ainda não havia a EVT e era tudo artesanal. Luiz Fagundes Duarte mostrou um pouco da «oficina poética» do Mestre e uma desconhecida e curiosa «memória justificativa» para a futura (nunca concretizada) segunda edição do livro «Festa Redonda» de Vitorino Nemésio. Por mim não posso deixar de lembrar que o quarto de João Garcia fica na Rua da Rosa. Tal como o de Vitorino Nemésio, ele mesmo.

(Crónicas do Tejo 122)


quinta-feira, 15 de março de 2018

O Saldanha numa memória escrita de Jorge Silva Melo


Em boa hora o jornal «Diário de Notícias» publicou uma colecção de fotografias de Lisboa com o título de «Lisboa antiga». No livro «Século passado» de Jorge Silva Melo (Edições Cotovia) descubro uma crónica notável sobre a vida no Saldanha nos idos anos 60 do século XX. A ler: «Sempre que, agora, por lá passo, pelo Saldanha, sinto-me fechado, angustiado, enterrado, esmagado, Foi ali que abri a minha vida juvenil, início de poemas, ideias de filmes e artigos, artigos, política. E agora quase só lá passo de carro, ponho-me a olhar para o que já não reconheço: há branco a mais, vidro a mais, atafulhamento de volumes, luzes a mais e não percebo o que por ali há, lojas e lojas onde não ouso entrar, marcas a mais, uns cinemas, umas caves, outras lojas, não sei, sei que nada daquele mundo é para mim, agora, parece-me arrabalde, auto-estrada. E foi, durante anos, o centro de Lisboa, da minha vida universitária, da Lisboa conspirativa dos literatos e cineastas, da gente do teatro e dos jornais. E era nos cafés, abertos desde manhã cedo a até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo se ia passando. A modorra de quem não sabe o que pode fazer para que as coisas mudem, as discussões sobre o filme acabado de estrear na sala ao lado, a análise do livro recenseado no suplemento do «Diário de Lisboa», nossa leitura obrigatória a partir das cinco da tarde, a participação nas polémicas que zurziam, os projectos profissionais. E, ao domingo, era o almoço com a família no Monte- Carlo, almoço demorado com pratos e sobremesas e conversas sobre cinema, o filme que se havia de ver naquela noite, se o Bem-Hur no Monumental, se o Quanto mais quente melhor, lá em baixo no São Jorge.» (Fim de citação…)    
(Crónicas do Tejo 106)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Lisboa e o Tejo a partir de uma gravura do século XVI


A fotografia reproduz a panorâmica da cidade de Lisboa que está num livro na Real Biblioteca de Madrid sendo os autores Georg Braun (1541-1622) e Frans Hogenberg (1535-1596) e cuja legenda na Revista National Geographic Magazine na sua recente edição especial com o título de «A conquista da América», começa deste modo e transcrevo com a devida vénia: «Localizado no estuário do Tejo, o porto de Lisboa foi o ponto de partida da maioria das expedições das Descobertas e de chegada do ouro do Brasil, alicerce da prosperidade do século XVI» Quero dizer na minha o seguinte: o Tejo é sempre o mesmo ainda que pareça novo todos os dias. O estuário do Tejo conhecido em termos populares por Mar da Palha ali está hoje (2017) quando escrevo esta crónica tal como estava no século XVI. Lisboa, sim, está diferente, o terramoto de 1755 deitou abaixo muitas casas. Não esquecer que o palácio da família do Marquês de Pombal era na Rua Formosa que é hoje a Rua de O Século. O arquitecto convidado pelo Marquês de Pombal morava por ali perto na Rua da Rosa e daí não é de admirar que a Baixa Pombalina seja parecida com o traçado do Bairro Alto e não tenha becos mas apenas praças, ruas e travessas. O Bairro Alto (onde esse senhor vivia) também não tem e fico todo arrepiado quando leio algo como «os becos do Bairro Alto». Adiante que se faz tarde. Voltando ao princípio e para terminar, perante esta belíssima imagem do Tejo e da Cidade de Lisboa só me posso lembrar de um verso de Fernando Assis Pacheco. Claro que não sei se o Fernando Assis Pacheco, ele mesmo, conhecia esta gravura mas o seu verso não se sai do pensamento. Algo como isto: «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa.»

(Crónicas do Tejo 105)

quinta-feira, 1 de março de 2018

«Marta de Jesus – A verdadeira» de Álamo Oliveira


Álamo Oliveira (n.1945) é conhecido pela vasta obra publicada (36 livros) em diversos campos (poesia, teatro, romance, conto e ensaio) mas seria reconhecido não tivesse vindo ao Mundo no Raminho – Ilha Terceira- Açores. O terrível sistema cultural onde estamos inseridos tem destas particularidades; o preconceito e a ignorância fazem o resto (como refere Vamberto Freitas) e vão atirando o pó do esquecimento contra a mais que justa posteridade da obra e do autor. O ponto de partida do livro é a vida na ilha das Flores: «Ali a vida era entendida de forma ervanária. Era como se fossem plantas das valetas ou da horta: nasciam, viviam, morriam e ponto final. Claro que havia os inconformados do sistema mas esses eram os que se atiravam num barco qualquer e iam à procura da terra que lhes estaria prometida.» Existe uma data para o arranque da narrativa («Era o Dia de Reis do ano de 2001 e toda a manhã choveu») e um lugar determinado: «ilha das Flores, assim chamada pela quantidade que delas havia e pela sua congénita formosura.» A protagonista é Marta de Jesus: «Tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura, cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só.» O pano de fundo da narrativa é o tempo da Guerra Colonial («Era já notável o número de mortos, os hospitais enchiam-se de feridos e estropiados») e é nesse contexto que surgem os seguidores de Emanuel Salvador: «O grupo aumentava e criava um ambiente de grande solidariedade e, sobretudo, de comunhão de ideias. Esse grupo designa os seus cronistas tal como os dos Quatro Evangelhos: «Mateus, Lucas, Marcos e João». Os caciques e os  reaccionários locais são nas Ilhas o equivalente a Salazar em Lisboa: «A guerra estoirou forte e feio na Guiné, em Angola e em Moçambique e Salazar começa a ficar sem tropas para mandar para as colónias.» Personagem presente e ausente é Pedro («um jovem poeta que saíra da ilha») e que aparece na página 141 referido pelo seu verso mais citado «califórnias perdidas de abundância». Depois de uma narrativa de 190 páginas com uma dupla inscrição (Os Evangelhos e o Grupo das Flores) o livro conclui: «Se esta foi ou não a verdadeira história de Marta de Jesus, ninguém sabe. Sabe-se que ela nasceu, viveu e morreu na ilha das Flores.» Havia um papel no seu leito de morte sendo «Mistério» a última palavra desse texto. O próprio autor acaba por sugerir: «Será bom que amanhã alguém volte a este assunto.» Livro dedicado a dois poetas (Marcolino Candeias e Vasco Pereira da Costa), trata-se de um texto invulgar, insólito e interminável. Por isso o livro não acaba na página 190 e continua a inquietar e a agitar o espírito dos seus felizes leitores.

(Um livro por semana 582 - Editora: Letras Lavadas, Foto do autor: Eduardo B. Pinto, nota da capa: Vamberto Freitas)



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

António Carmo – Histórias do Tejo num olhar da Madragoa


António Carmo (n.1949) é um pintor que todas as manhãs celebra a festa do encontro numa mesa da pastelaria-café «A Brasileira» no Chiado. Por brincadeira chamo a essa mesa «a mesa dos resistentes» porque nela de facto resistem hoje alguns artistas plásticos portugueses que considero os últimos da geração de Carlos Botelho, Almada Negreiros, Jorge Barradas ou Nikias Skapinakis. Um dos meus livros («Leme de Luz») tem capa de António Carmo e alguns textos meus publicados no jornal «O Ponto» tiveram a sorte e a honra de serem por ele ilustrados. Não somos amigos íntimos mas a admiração e o respeito pelo trabalho de cada um é a regra. Tudo isto tem a ver com o quadro «Histórias do Tejo» porque o meu olhar sobre o Mar da Palha se cruza com o do pintor António Carmo. Em 1957 fui viver para o Montijo e atravessava os estuário do Tejo nos velhos vapores (uma hora de viagem) para apanhar o comboio (automotora) do Rossio para Caldas da Rainha às 17h e 20m. Uma vez durante as cheias do Rio Tejo os empregados do vapor levavam os passageiros ao colo na Estação Sul e Sueste. Em 1966 fui viver para o Bairro de Santa Catarina e trabalhava na Rua do Ouro, estava sempre perto do Tejo. António Carmo tem o olhar da Madragoa sobre o Rio Tejo, todos os dias diferente, todos os dias igual. Pela minha parte até 1996 andei sempre por ali perto: Rua do Ouro, Fontes Pereira de Melo, Rua Castilho, Rua do Instituto Industrial. Sempre perto do Tejo. Quando havia duas horas para almoço, o passeio dos empregados do BPA na Rua do Ouro era até ao Cais das Colunas. Dizia-se «virar o carro», expressão irónica em 1966 para quem, como eu, só teve acesso a automóvel próprio em 1983. Este quadro de António Carmo lembra dois aspectos da travessia do Tejo: a grande aventura das Descobertas e o trabalho quotidiano das fragatas.    

(Crónicas do Tejo 102)


domingo, 18 de fevereiro de 2018

«Filhos da Primavera Árabe» de Paulo Jorge Pereira


Paulo Jorge Pereira (n.1970) avança na Nota do Autor a razão de ser do livro: «Este livro é um grito pela defesa dos inocentes, erguendo a voz em nome dos indefesos para que se diga basta de violência e ganância» explicando a organização da narrativa: «A história que aqui se conta, ficção misturada com realidade, é um símbolo da desgraça e da desigualdade na Síria perante a complacência generalizada.» 
Por sua vez o prefácio de José Manuel Rosendo sintetiza o drama dos protagonistas: «Mekdad e Waffa simbolizam o medo e a esperança, a resistência e o sofrimento. Mostram-nos como algumas decisões são difíceis e como, mesmo perante a adversidade e a morte daqueles de quem gostamos até doer, mesmo assim, é preciso continuar a fazer o caminho»
O casal Mekdad/Waffa vive em Damasco uma vida calma: «Iam ao cinema e ao teatro. As suas conversas não tinham fronteiras. Discutiam livros e filmes, pintura e escultura, banda desenhada e política, música e moda, religião e desporto.» Entretanto surge no livro o «diário» de um jornalista que é uma espécie de contraponto da narrativa e talvez não por acaso surge em itálico. Pode ler-se nas suas páginas uma pergunta: «E como se classifica um líder a arrasar o próprio país e o seu povo para se perpetuar no poder? Um presidente que é médico, licenciado em Oftalmologia e que não podia ser mais cego aos Direitos Humanos.»
Um idoso afegão adverte Mekdad: «Bandos de assassinos semeiam o terror e dizem que é para proteger o povo, a democracia, a bandeira, os direitos e não sei mais o quê. Tudo mentira!»  Estas três linhas narrativas diferentes (os dois protagonistas, o diário do jornalista e as ideias do idoso afegão) são a espinha dorsal desta história. Tudo começa numa frase escrita em Março de 2011 na parede de uma escola («És o próximo, doutor!») a que o jornalista chama na página 69 «movimento de revolta pelas liberdades» mas países como a Tunísia, o Egipto, a Líbia e o Iémen vivem dentro de outros conceitos e as chamadas «liberdades» não são matéria prioritária para esses povos. Na página 99 Mekdad afirma: «Tínhamos um belo país com arte, ciência e cultura, quase três mil locais arqueológicos, profissionais qualificados, estudantes interessados e uma geração com futuro risonho. A guerra roubou-nos tudo.»
A única resposta só pode ser o Amor mas Mekdad adverte Anne já na Alemanha: «Não podes amar alguém que já morreu. Eu estou vivo mas morri na guerra. Todas as razões que tinha para viver desapareceram.»
Uma nota final: os anjinhos do Mediterrâneo já existiram em 1917 na Arménia, em 1948 em Der Iassine, em 1961 em Agadir ou nestes dias na Faixa de Gaza. Vão continuar a existir porque a guerra não acaba, faz parte da vida do Mundo.

(Um livro por semana 581: Editora EGO, Mapa: Tiago Leal, Prefácio: José Manuel Rosendo)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O filme «Dom Roberto», o teatro de rua e as cégadas


Tanto no Montijo (1957-1961) como em Vila Franca de Xira (1961-1966) como na minha terra natal (Santa Catarina) sempre me lembro (1951-1957) de ver o chamado teatro dos robertos. Os primeiros que vi terão actuado junto da casa do «tio» Zé Rebelo (casa que já não existe) talvez no local onde hoje está o pelourinho que ao tempo estava junto da casa do Zé Latoeiro. A minha avó Maria do Carmo não gostava da linguagem dos robertos (tudo à base do «rais ta parta») e levava-me consigo de volta com um argumento forte: «Isto é só miséria!». Entre 1961 e 1966, eles actuavam no Bairro do Bom Retiro em Vila Franca de Xira em frente ao café do Birra, do outro lado do Colégio Sousa Martins. Como a linguagem era a mesma, o meu pai desandava e nunca víamos o fim do espectáculo. Em Lisboa conheci de perto as cégadas a partir de 1966. Não é a mesma coisa pois nas cégadas os actores movimentam-se na rua e nos Robertos estão confinados ao espaço quadrado do pano. Nas cégadas havia sempre um polícia, um janota, uma mulher e um homem. Claro que no fim o polícia batia a torto e a direito no janota para defender a honra do homem. Depois da apoteose surgiam quatro rapazes com um lençol velho para onde as pessoas à janela atiravam moedas para o jantar dos membros da «trupe». A Travessa do Caldeira recebia muitas cégadas que vinham do Bairro da Bica. Recebia também «touradas». Um dia um toureiro improvisado depois de se ver livre da «vaquinha» (ou tourinha) que era uma roda de bicicleta com um par de chifres, estava à espera de aplausos e levou na cabeça com uma panela de água de uma moradora que não gostou da brincadeira. A resposta magoada e triste do actor amador foi fulminante: «Nunca mais trabalho nesta praça!»      

(Crónicas do Tejo 100 – fotografia de autor desconhecido)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

«Velhos são os caminhos» de José Correia Tavares


José Correia Tavares (1938-2018)) apresenta-se numa quadra da página 31: «Constando aí meus rigores / Tudo ciência de ouvido / Muitos e grandes autores / Emendei a seu pedido.» Este livro é especial porque integra uma epígrafe de J. Rentes de Carvalho do livro «Mazagran»: «É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que nascem com a idade.»
Esta capacidade (ironia) de rir de si próprio surge na página 22: «Sou um poeta menor / Flori mas frutos não dei / Talvez, sabendo-as de cor, / Por medo às tábuas da lei.» Noutra quadra se pode ler toda uma sábia acumulação da filosofia: «Na paixão mal conjugados / Os verbos não se entendendo / Tempos e modos trocados / Amar é viver morrendo.» Poesia que não se fecha em si mesma, há nela um olhar sobre o mundo e o tempo: «Um cigarro na caruma / Parecendo não dar guerra / Sem importância nenhuma / Fará arder toda a serra.» Uma quadra faz a antecipação do fim da vida: «Mãos dadas à minha volta / Quando partir, rumo aos céus / Eu preciso duma escolta / Para me encontrar com Deus.» A Guerra Colonial está sempre presente: «Perdi, quando tinha farda / Cristo num fio em Angola/ Resta-me o anjo-da-guarda / Mas não bate bem da bola.» Noutra quadra é a Vida que passa depressa: «As coisas são mesmo assim: / Tendo mais ou menos graça / Passou a vida por mim / Como o sol pela vidraça.» Mas, mesmo passando depressa, a Vida é povoada por filhos da mãe: «Todos uns belos sacanas: / Antigos seminaristas, / Em suas vidas, profanas / Ostentam de bispo as cristas.» Ou então por ladrões: «Tu sempre foste ladrão / Mas escapas, qual enguia / Se um de nós te põe a mão / Vais parar à enxovia.»
Entre o Mundo e a Vida, a voz do Poeta tudo regista, até um canto gregoriano: «O canto gregoriano / Que nos ares se levanta / Mesmo divino, é humano / Pois sai da nossa garganta.» Tal como regista a própria arte poética: «Há coisas essenciais / Para fazer um poema: / Alegrias, também ais / Seja lá qual for o tema.»

(Um livro por semana 580 - Editora: Húmus, Prefácio: Lídia Jorge)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Jaime Murteira e Alexandre O´Neill – Ribatejo entre água e fogo


Jaime Murteira (1910-1986), pintor hoje recordado, foi discípulo dos artistas Frederico Ayres e António Saúde. Recebeu uma primeira medalha na SNBA, um prémio Silva Porto no SNI e um segundo prémio no Salão da Beira Alta. Tem obra representada nos seguintes Museus: Arte Contemporânea, Soares dos Reis, Ultramar, José Malhoa, Faro, Lagos, Vila Franca de Xira, Guimarães e Figueira da Foz. O quadro aqui reproduzido tem por título «Manhã no Ribatejo». Ora a dita «manhã» pode ter água e fogo como no poema de Alexandre O´Neill (1924-1986) no livro «As horas já de números vestidas» de 1981. O título do poema é «Fogo posto»: «Estou no centro do país, rodeado de incêndios. / Os pinheirais em fogo esbraseiam o ar. / Reguei o telhado e o quintal porque as velhas são muitas / A vizinha cega, sem qualquer progresso, vai tocando o seu órgão Tornado 4./ A irmã apanha velhas, mostra-mas na mão, / apagadas ou parecendo ou quase / e fala do carteiro – motorizada aqui, saco acolá, sapato mais além – que, presuntivo pirómano, a si mesmo se teria apagado nas águas do Tejo.» (fim de citação) O poeta comentou mais tarde numa entrevista a Clara Ferreira Alves (Jornal Expresso) deste modo: «Há um poema sobre fogos-postos de que gosto muito, considero-o um dos mais bem acabados que escrevi até hoje. E emociono-me ao relê-lo. Emociono-me por estar bem feito. Nota final – por uma questão de espaço não é possível citar o poema no seu todo.

(Crónicas do Tejo 97 - Fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

«A pedra não pode ser coração» de Rui Almeida


Rui Almeida (n.1972) mantém desde 2003 o Blog «poesia distribuída na rua» e tem publicado  desde 2009 um conjunto de livros: «Lábio cortado», «Caderno de Milfontes», «Leis da separação», «Temor único imenso», «A solidão como um sentido seguido de Desespero» e «Muito, menos». Poemas seus integram a antologia «Por la carretera de Sintra», organizada e traduzida por Marta López Vilar e publicada pela Editora La Lucerna.
O título deste recente livro de 42 páginas cujos poemas foram escritos entre 28 de Outubro e 1 de Dezembro de 2014, é retirado do poema da página 16: «A pedra que foi coração / É agora corpo parado / Do esquecimento / Com a textura da cinza. / Quando brilha seduz / Mas nunca se deixa encontrar, / Perde a força, falha / Na ternura. A pedra / Não pode ser coração.»
Uma das abordagens possíveis a este livro pode ser feita pelos números. A edição é de cem exemplares. Tanto o poeta como o editor terão percebido que Portugal é um país de analfabetos e quase ninguém lê poesia. Falar de Bocage pelas anedotas, de Bulhão Pato pela gastronomia e de Camões pelo olho perdido em combate é o que nos espera num país que não lê os seus poetas embora proclame, numa abjecta «frase feita» que Portugal é um país de poetas.
O ponto de partida pode ser o tempo: «Tudo quanto começa / Nunca acaba. Não é / Da memória que falo, / Antes da sensação / Física de um coração / A bater diante de ti». O ponto de chegada pode ser a alegria: «Quase eternos, vamos seguindo a luz / Tomando na mão a firmeza da vida, rasto de memória / A construir o fôlego da alegria.» Pelo meio fica a Poesia como lugar de dupla inscrição entre Natureza e Cultura: «A poesia. A vontade de ternura, um / Caderno onde encostar a cabeça.»

Editora: do lado esquerdo.

(Um livro por semana 579)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

«A mais absurda das religiões» de Nuno Costa Santos




Nuno Costa Santos (n.1974), director da Revista literária açoriana Grotta, é escritor e argumentista para além de autor de peças de teatro e documentários sobre poetas (Ruy Belo e Fernando Assis Pacheco) sendo cronista na Revista Sábado. O conjunto destas crónicas escolhidas por Diogo Ourique chega às 208 páginas e divide-se em cinco grupos: «Vida, vidinha», «Produtor de conteúdos», «O pai cronista», «Alguns nomes» e «Dois países».
Na introdução o autor explica o livro («Isto dava uma crónica. Houve uma altura em que estava agarrado à crónica, condição da qual nunca consegui recuperar. Qualquer coisinha trazia, enroscada, uma ideia para escrever uma crónica. Ou para ter a ideia de escrever uma crónica») e explica-se a si mesmo, deste modo: «Aqui o vosso cronista é um bicho atípico (um dia vou escrever um pouco à maneira dos mestres Millôr e O´Neill, um manual de instruções para ser melhor compreendido por aqueles que têm por hábito arrumar as pessoas em gavetas). Mas posso dizer que tenho aspectos conservadores: sou muito apegado aos meus e à minha terra, sou pelo fazer individual (detesto a palavra «empreendorismo»), sou comunitarista: acredito muito no voluntariado, algo que é alvo de desconfiança por uma esquerda estatista. Mas também sou solidário, também sou pela atenção do Estado aos mais desprotegidos socialmente, também sou liberal nos costumes, também quero caminhar para uma sociedade mais justa e mais fraterna.»
O título do livro surge na página 86: «Sentado num café à espera de um amigo que não chega. Escrevo. Num pequeno caderno. E penso que escrever é a mais absurda das religiões. Para quê escrever se posso ver o jogo de ténis na televisão. (Um tipo de pólo verde esta a fazer um serviço.) O amigo é jornalista, desculpa ainda melhor do que a de ser pai de um rapaz de dois meses (que sou).»  
Exemplar é, entre outras, a crónica da página 96 que começa com uma aproximação pessoal («Quando eu tinha 17 anos o meu pai achou que o filho não devia seguir o curso de Comunicação Social porque depois iria ficar no desemprego.») e deriva para uma situação mais geral: «Diz-se e bem que não há democracia sem jornalismo. Direi mesmo: não há democracia sem bom jornalismo, exigente, feito de frescura mas também de experiência, de olhar atento e experimentado, mais sabedor das curvas que a vida pública pode dar.»

Editora Escritório, Organização e Revisão: Diogo Ourique, Capa: Joana Viegas, Design: Dânia Afonso.  
    
(Um livro por semana 578)