Aniceto Carmona partiu de Vila
Velha de Ródão e, ao contrário do Tejo que se demora no Mar da Palha, vai
desaguar na Feira da Ladra, Esta Feira e um grande mar de coisas efémeras sempre
à procura da posteridade. Pode ser uma BOLA de 1994 ou um livro de Leopoldo
Nunes sobre Madrid. No largo Trindade Coelho, a mesa do artista da caricatura,
é uma convocatória de amizades e de memórias. Aqui era o escritório do Ezequiel
Carradinha que dava três contos de réis ao jornalista mais o envelope com os
retratos e uma semana depois o livrinho estava pronto. Uns a verde, outros a
azul, outros a encarnado, outros a branco. Jesus Correia chegou a ser campeão
nacional em futebol e campeão do Mundo em hóquei. Tinha um emprego na Rau do
Salitre e à noite comia uma travessa de arroz doce que a mãe lhe deixava na
cozinha. Em 1948 um médico sueco nem sequer sabia o que era arroz doc. Ficou a
saber e levou um prato dessa sobremesa no avião ao regressar a Estocolmo. No
primeiro dia de caricaturista, Aniceto Carmona ouviu no Bairro Ato uma rapariga
queixar-se «Ó filho ainda não me estreei» e mais, tarde, à saída da redacção de
«Os Ridículos» ouviu uma solene advertência: «Eu só faço o natural; se queres
variedades vai ao Teatro» Era o tempo das matriculadas no Governo Civil; tirar
uma mulher da vida começava sempre pela entrega da cédula ao oficial de dia na
Rua Capelo. Há uma pequena colónia de raparigas portuguesas no Pireu em Atenas.
Trabalhavam em bares do Cais do Sodré e foram levadas por marinheiros gregos à
procura de uma vida melhor. Aniceto Carmona coloca vida nas suas caricaturas,
Cada desenho seu convoca uma cidade de fragatas, de polícias sinaleiros e de
eléctricos com atrelado. As fragatas levou-as a Ponte, os sinaleiros foram
levados pelos semáforos, os eléctricos desapareceram e no seu lugar há um
trânsito febril. Aniceto Carmona não esquece uma legenda de Luís Alberto
Ferreira: As três Primaveras. Uma legenda bonita com três mulheres bonitas.
(Crónicas do Tejo 81)
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