sábado, 16 de janeiro de 2021

«Branza» de José Pascoal

Depois de «Sob Este Título», «Antídotos», «Excertos Incertos» e «Ponto Infinito», este livro de 159 páginas reúne poemas escritos entre 2018 e 2019 por José Pascoal (n.1953) natural de Torres Vedras e desde logo o seu título («Branza») remete para a Geografia da zona tal como se indica na página 5: «caruma, sama, agulha de pinheiro».

O ponto de partida é o poema da página 10: «Penso muito nos assuntos /Em que toda a gente pensa: /Na felicidade intensa / E nos queridos defuntos.» A paisagem e o povoamento da infância pessoal do autor está registada nos poemas entre as páginas 46 e 53: O tempo de Dezembro («Na matança do porco /De madrugada»), o lugar do alpendre (»Aqui estou /Aqui sou /À sombra de sombras»), o território sentimental («Aqui me convenço/Aqui te pertenço»),o lugar da inocência («Erva mansa da colina/ Onde se estende a toalha/Bordada pela mãe»), a debulha dos cereais («Ao luar/A eira é uma clareira/ Um castelo de palha»), o calor do pão («A minha avó materna cozia pão de trigo/ A minha avó paterna cozia pão de centeio»), o cofre da casa («No celeiro a luz é fresca»), o ritual do vinho: «O lagar é um lugar/ De índios pé-descalço/ A dançar o fandango».

Mas a inscrição deste livro não se esgota no registo da infância pois entra em diálogo com o Cinema e com a Literatura. No poema da página 91 se referem dois filmes: «O pecado mora ao lado» e «O rio sem regresso».  Nas páginas 27 e 124 são duas as obras literárias revisitadas: «Os Lusíadas» e «A Ilíada». E autores diversos são referidos em vários poemas: Luís de Camões (70), Almada Negreiros (115) Cesário Verde (148), Drummond de Andrade (57), Federico García Lorca (89), Cervantes (78), Camilo Castelo Branco (31), Shelley (66), Maeterlinck (50) ou Jacques Prévert (101).  Ao lado da Natureza está a Cultura.

As palavras são o intervalo entre o Poeta e o Mundo («As palavras de todas as línguas /São animais domésticos») mesmo que esse Mundo seja os chamados três mundos: «Tudo vai bem nos três antigos reinos /Os animais têm direito a voto/Os vegetais são do verde mais esperançoso / Os minerais cintilam sem acinte». Mais do que ser a voz dum Mundo este livro procura e consegue ser um Mundo, ele mesmo.      

(Editora: Editorial Minerva, Pré-impressão: José Ganho)

[Um livro por semana 659]


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

«Com Navalhas e Navios» de Urbano Bettencourt

Neste livro de 159 páginas se juntam alguns poemas publicados entre 1972 e 2012 por Urbano Bettencourt (n.1949), poeta, ensaísta, autor de narrativas e professor.

O ponto de partida do livro é uma quadra («Minha ânsia de caminhos/de caminhos por andar/madrugada de viagens/cansadas de madrugar») e um poema intitulado «De Mafra, com mágoa»: «Por detrás da máscara eu lá estou / sem ódios, nem balas, nem guerras /despido / e com um ramo de cravos / em cada mão.»

Por entre a luz da Vida surge a sombra da Morte, por entre a gramática de paz na Ilha surge o Natal em África na guerra: «sem nozes nem lâmpadas /sem presépio nem padres finalmente/ o natal escorrer de saudade pelos olhos do soldado/ agarrado à breda remuniciada.» Oscilando o seu registo poético entre a Natureza e a Cultura, há nestes poemas um outro diálogo com a Poesia por exemplo a partir de um poema de J.H. Santos Barros na página 75: «Fazer versos dói? Não! As tecnocracias /literárias também fazem fermentar os seus vates voadores/ de cinco e mais estrelas compondo em papel de cor/ e perfumado suaves consolações, perversas constelações /ao Dicionário de Rimas arrebatadas. O que dói é arrancá-los/ assim ao próprio sangue como se um filho fora, erguê-los/ à boca, dar-lhes um nome e nisso inscrever / a nossa morte. A nossa vida.» Ou a Pintura (Domingos Rebelo) como na página 69: «Estaria ausente o pintor quando / no cais antigo as mulheres /desembarcavam os maridos os baús /e as crianças? Talvez não o saibamos nunca, mas alguém nos dirá o que olham estes olhos distantes e perdidos mesmo antes de partidos? /Janelas de Ponta Delgada, que horizontes vos não fixam e se vos negam?» (Este poema citado em excerto é dedicado a Eduardo Bettencourt Pinto e Emanuel Jorge Botelho). Uma nota final para a ironia sempre presente na escrita de Urbano Bettencourt, como na página 131: «Reparem bem nos porcos /eles não lêem não escrevem /nem mesmo o próprio nome soletram /e no entanto/ crescem engordam/ etc e até roncam / na praça pública.» Poesia séria, alta e grave, lembra-me as palavras de Maria Eulália de Macedo: «Para mim, Poesia é estar atento e aberto ao que somos e nos ultrapassa. É uma espécie de fugidio sacramento, a exigente voz das coisas que são verdade – para além da verdade das coisas.»

(Editora: Companhia das Ilhas, Prefácio: Carlos Bessa)

 [Um livro por semana 658]

 

domingo, 20 de dezembro de 2020

Escritos sobre Freud» de Fernando Pessoa

Organizado por Cláudia Souza e Nuno Ribeiro, autores da edição e do estudo introdutório do recente «A família Crosse» (Apenas Livros), este livro de 76 páginas integra múltiplos registos da leitura que Fernando Pessoa fez sobre Freud. Damos relevo apenas a alguns aspectos pois o espaço não permite mais. Primeiro uma observação sobre a crítica literária: «Grande parte da crítica moderna, desde que se intoxicou com freudismos (com ou sem Freud) é uma maneira de se tornarem inutilmente complicadas coisas por vezes simples, outras vezes já de si complicadas e que exigiam antes simplificação que outra complicação.» Depois o excerto dum poema de Álvaro de Campos datado de 17-8-1930: «A liberdade, sim, a liberdade! / A verdadeira liberdade! / Pensar sem desejos nem convicções. / Ser dono de si mesmo sem influência de romances! /Existir sem Freud nem aeroplanos, /Sem cabarets, nem na alma, nem velocidades, nem no cansaço!» Em terceiro lugar uma citação da carta a João Gaspar Simões de 11-12-1931: «Ora a meu ver (é sempre «a meu ver») o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo. É imperfeito se julgamos que nos vai dar a chave, que nenhum sistema nos pode dar, da complexidade indefinida da alma humana. É estreito se julgamos, por ele, que tudo se reduz à sexualidade pois nada se reduz a uma coisa só nem sequer na vida intra-atómica. É utilíssimo porque chamou a atenção dos psicólogos para três elementos importantíssimos na vida da alma e, portanto, na interpretação dela: o subconsciente, a sexualidade e a conversão de certos elementos psíquicos em outros por estorvo ou desvio dos originais» No fim uma citação na qual a ironia de Fernando Pessoa vem ao de cima: «A humanidade divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte, os apreciadores de arte e a plebe. Julgar que ter automóvel é ser feliz é o sinal distintivo do plebeu.» 

(Editora: Apenas Livros, Capa: Imagem do Espólio de Fernando Pessoa na BNP)

[Um livro por semana 657]

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O fascismo ou «tirou a carta mas vai puxar terra para os pés»

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da sua roda pedaleira em descanso. Para os outros era apenas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas até Santarém para tirar a carta de condução. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado de Santarém. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de Domingo anunciando futuros casamentos, «profissão jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos Domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de ligeiros, pesados e serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto da Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguiu tirar a carta de condução, pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/Autoridade, em Santa Catarina, uma pequena aldeia da Estremadura, que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».   

[Crónicas do Tejo 240]

(Fotografia da Colecção de JCF)


domingo, 22 de novembro de 2020

Saudação breve a Ana Carolina


Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos a fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras por fim encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal, sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tu não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa, oh! Ana Carolina tu não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo, naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer, um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de júbilo. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.      

[Crónicas do Tejo 239]

(Óleo de Gary Melchers)


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O cais dos soldados em Londres


Estamos em Blackheath. Na Morden Road passamos à porta da casa do compositor Charles Gounod que aqui viveu nos tempos da guerra entre a França e a Prússia. Vinha à tarde no comboio de Charing Cross e alugava uma carruagem à porta da estação dos comboios. Mais à frente, no planalto, ficamos a saber que a actual A2, um dos itinerários principais de Inglaterra foi, em tempos recuados, a estrada romana para Canterbury. Henrique VIII, entre pompa e circunstância, aqui recebeu Ana de Cléves como futura esposa, no ano de 1540. Por sua vez Wat Tyler juntou em 1381 uma assembleia de camponeses revoltados nesta mesma estrada. Hoje o coração desta imensidão verde recebe mães com crianças, passeadores de cães, papagaios de papel, carrinhos de choque e jogatanas intermináveis de futebol –muda aos seis, acaba aos doze. Os circos, tal como as caravanas de ciganos, já são mais raros. Foi neste relvado sem fim à vista que nasceram alguns clubes de rugby e de futebol. Um deles, o Blackheath Football Club, fez parte dos pioneiros que, em 1863, na Freemason´s Tavern, criaram as leis do moderno futebol, tornando a sua prática independente do rugby. Cruzando em diagonal o Greenwich Royal Park, cedo chegamos à zona do mercado a funcionar em grande aos sábados e domingos. Muito perto das antigas cozinhas onde os velhos marinheiros, sem família e sem dinheiro, vinham às sopas reais, surgem as mais inesperadas lojas. De antiguidades, lhes chamamos em Portugal. São coisas ditas efémeras: mapas, cartazes, postais ilustrados, livros antigos, fotografias, discos LP e EP, pequenos móveis úteis às costureiras antigas, no tempo das libras se dividirem em xelins e em dinheiros. Nessa rua descubro o conceito activo e prático de fundo editorial: compram-se cinco livros por cinco libras, cada livro mais barato do que uma viagem de autocarro. Vejamos um conjunto: uma história breve do Jazz, um livro da Penguin sobre pássaros, uma biografia de Frank Sinatra, a vida do guarda-redes mais lendário do vizinho Charlton Athletic e um guia da Londres, bairro a bairro, de Barnet e Merton, de Ealing a Lewisham.  Mas apetece voltar atrás como se o efémero se pudesse suspender e transformar em permanente, algures numa estante. Não resisti e trouxe uma gravura mostrando Portugal como um leão e Espanha como uma mulher. Gravura antiga, percebe-se pelas bandeiras. Século XIX, sem dúvida. Há lojas de roupa em segunda mão, boa e barata, devidamente limpa e reclassificada que as pessoas já se habituaram a procurar uma vez por semana para ver as novidades. Os lucros dessas lojas revertem para apoio da investigação e da luta contra o cancro. Os ingleses de aqui ao pé da porta gostam de conservar os objectos do passado. Em Blackheath, Age Exchange é o nome desta loja especial na qual se reproduz o ambiente de um estabelecimento comercial dos anos 40, com balcão, balanças e moedas da época da II Guerra Mundial. Já passei férias em Southwark, na City (Barbican) e em Blackheath; faço sempre aproximações a Lisboa. A Southwark chamava Terreiro do Trigo, ao Barbican chamava Gulbenkian e a Blackheath chamo Restelo. No primeiro caso o rio ali mesmo à beira, no segundo os jardins e os prédios com o brutalismo dos anos 60 e 70, no terceiro caso as grandes avenidas com casas bonitas e árvores frondosas. Há uma comum curiosidade. Entre o Terreiro do Trigo e Santa Apolónia havia em temos o Cais dos Soldados. Tal como em Greewich havia o cais de onde partiam jovens marinheiros, soldados da Rainha, os mesmos que anos mais tarde, sem família e sem dinheiro, terão a sua sopa diária nos edifícios da Escola Naval. É dessa rua, do outro lado dessa rua de Greenwich que trago como memória de uma memória, a gravura onde Portugal é um leão e a Espanha uma mulher.

     

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

«Matéria avulsa» de Manuel Simões

O mais recente livro de Manuel Simões (n.1933) indica na capa um resumo («contos, crónicas e afins») e tem 131 páginas. Poeta, ensaísta, tradutor, Manuel Simões tem sido editor («Nova Realidade»), jornalista (Revista «Vértice»), professor no ensino secundário (Escola Veiga Beirão) e nas Universidades de Bari, Veneza e Florença, sendo fundador da Revista «Ressegna Iberística» em Veneza no ano de 1978. Os contos são cinco, as crónicas são onze e a marginália (afins) inclui dezoito textos sobre vários temas e autores: Futurismo, Guerra Colonial, Revistas «Vértice» e «Sol Nascente», Alberto Pimenta, Luís Filipe Barreto, Guilherme de Azevedo, Soror Violante do Céu, António José Saraiva, Giuseppe Tavani, Padre António Vieira, José Cardoso Pires, Infante D. Pedro (das sete partidas) , Franco Menegalli, Luís António Verney, Ana Hatherly e António Mega Ferreira.  

Como convite à leitura fica um excerto da crónica sobre a cidade de Veneza: «Veneza é uma cidade de contrastes. Parece-nos, à superfície, a mais cosmopolita das cidades histórias mas, conhecendo-a no seu respirar mais íntimo, revela-se no seu provincianismo inesperado, no seu mau gosta dos objectos propostos como «lembranças» que atraem o turista da classe média, sem capacidade para exercer uma «crítica do gosto». De qualquer modo não é a cidade ideal pata se viver: o clima é frio, húmido, com os longos dias (ou semanas) de nevoeiro intensíssimo de Outubro a Abril, quente e asfixiante no Verão; e há ainda os turistas que preenchem completamente as ruas e as praças («campi»), cada vez em maior número, o que não permite uma liberdade de movimentos. Estes são, porém, os turistas que a visitam mais demoradamente, porque a maior parte, a dos grupos de agências de viagens, dorme em Mestre por ser mais económico, é conduzida de autocarro até à entrada da cidade, metida nos «vaporetti» até S. Marcos, visita a praça, a basílica e às vezes o palácio, regressa a Mestre passado pelo Canal Grande e parte de novo para outro destino: Veneza está vista.»

(Editora: Colibri, Capa: Raquel Ferreira)

 [Um livro por semana 655]

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

«Pretérito presente» de Maria Cecília Correia

Maria Cecília Correia (1919-1993) é uma autora reconhecida pelos seus livros infanto-juvenis  - como, por exemplo, «Histórias da minha rua» (Portugália Editora) vencedor do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho em 1954. A edição recente deste livro de 1976 é comemorativa do seu centenário de nascimento. O título («Pretérito Presente») é um achado pois (todos o sabemos) o passado está sempre presente e o futuro nunca o vivemos, apenas o podemos imaginar.

Trata-se de um livro de tripla inscrição (crónica, poesia, cartas) que logo na primeira crónica diz ao que vem: «Nasci no signo da Rosa. É talvez um signo único, mas um signo como outro qualquer. Em Novembro, no quarto da Mãe, havia uma rosa. Nada de especial, julgo. Não sei em que jarra, em que cómoda, em que mesa, mas ela estava lá quando eu nasci. Hoje existe hum velho embrulho, folhas secas, quase desfeitas e uma letrinha de tinta apagada que diz «flor que assistiu ao nascimento da pequenina Maria.» Como convite à leitura, citamos um poema na página 77, «Jardim sem ninguém»: «A sombra das pombas / que bebem no lago: / dois e dois são quatro. / O voo das asas que escondem o sol: um e um são dois. / O banco onde estou sentada sozinha: / Jardim sem ninguém.» Na página 93. excerto de uma carta a Maria Eulália de Macedo: «Estou apaixonada, Lala. Um estado de paixão constante mas difusa. Apaixonada por tudo. Ontem parei na pontezinha do ribeiro e arrumei à água duas flores brancas  que boiaram, seguiram, encalharam. Elas faziam sombra na água limpa; com a sua sombra reflectiam a luz. Tudo era puro.» Na página 109, um excerto da carta a Alice Gomes: «Também sei o que é perder casas. Até aos 11 anos perdi três. E a idade nada tem a ver com o que eu senti. Tinha oito anos quando se vendeu a casa dos meus Avós em Viseu. Compreendi que poderia esquecer-me dela e então todas as noites a «passava em revista», de alto a baixo. Escuso de te dizer que ainda hoje a tenho inteirinha.»        

(Edição: António Castilho, Capa e Paginação: António Castilho e Eleonor Castilho, Ilustração: António Castilho, Cronologia: Eleonor Castilho)

[Um livro por semana 654]

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

«A luz de Pequim» de Francisco José Viegas

Neste seu nono livro com o inspector Jaime Ramos em figura principal, Francisco José Viegas (n.1962) define o submundo da noite portuense como «uma guerra civil na cidade» e junta, como numa oração, dois Mundos: o dos Homens e o dos Deuses. Entre o precário da Vida e o inevitável de Morte, só o Amor resolve e abre uma luz sobre o Mundo. Tal como na Contabilidade, o escritor assina o Inventário e o leitor estabelece o Balanço que se divide em Activo, Passivo e Situação Líquida. Não por acaso o escritor argentino Jorge Luís Borges se refere a Moncorvo como a terra dos seus avós. Sempre que alguém invoca o seu nome em qualquer parte do Mundo, é Portugal que é lembrado e referido. Não esquecer: foi um apaixonado pela literatura policial. O livro parte de uma descrição de um crime em Moncorvo mas a sua geografia não se limita a Trás-os-Montes e chega a Pequim: as páginas375 e 395 referem de modo explícito «a luz da Pequim».

Jaime Ramos surge na página 15 como «um monumento classificado como velharia que mais tarde ou mis cedo seria removido o seu pedestal e substituído por um halograma» e na 27 como «um homem tolerado, uma sombra do que já fora, uma respiração ofegante que subia degraus numa casa deserta e que conhecia a penumbra da suspeita, uma desconfiança que as novas gerações usavam como método de gestão de recursos humanos» para na 98 ouvir alguém dizer: «Não fazes os relatórios a horas, confias no destino, não respondes aos pedidos de informação, és um empecilho, fazes o que te apetece» e termina na págian 247 a dizer: «Eu não trabalho em homicídio para mudar o mundo nem para fazer do mundo um lugar melhor. É mais para castigar os criminosos e cumprir uma função. Crime e castigo. Punição. Vingança.»

Não é possível resumir um livro de 396 páginas em meia dúzia de linhas mas fica o firme convite à leitura. Mesmo que na página 176 apeteça dizer em voz alta ao «artista» que fala de escritores e fascismo esta coisa elementar: em 1965 a PIDE destruiu a Sociedade Portuguesa de Escritores na Rua da Escola Politécnica por causa do Prémio atribuído ao escritor Luandino Vieira pelo livro «Luanda». Natural de Ourém e José Martins da Graça de seu nome. Mas isso é outra coisa e um livro de ficção vive dessas falas de gente desalinhada e distraída. Uma nota final para a página 395 onde o nome do Bairro em Pequim significa «voltado para o sol» mas Beto e Roberto da Ganga foram encontrados com o rosto voltado para o chão «de poeira e folhagem envelhecida.»

(Edição: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa, Foto: Getty Images)

 [Um livro por semana 653]

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

«Assim nasceu uma língua» de Fernando Venâncio

Fernando Venâncio (n.1944) organiza este livro de 311 páginas em quatro partes: «Antes do Português», «Portugal constrói uma língua», «O Galego e o Português» e «Sós e acompanhados». Sendo impossível resumir um livro desta dimensão em poucas linhas faço nesta ficha um convite à sua leitura que nada pode substituir. Trata-se de um livro sobre palavras e, tal como Ruy Belo escreveu em «País Possível» de 1973, «Sempre entre mim e ao que chama coisas há-de haver palavras». O ponto de partida é um texto da página 14: «As línguas são feitas de palavras e a maioria delas acham-se recolhidas em dicionários. São factos, esses, que nenhuma dúvida parecem admitir. Acontece que a palavra, a noção aqui em causa, suscita vários problemas. E o primeiro deles é a sua própria existência. As palavras existem? Existem, sim, mas é com uma existência precária, artificial, baseada num exercício de abstracção. A larga maioria dos habitantes do planeta teria dificuldade em responder à solicitação: «Diga uma palavra». Com efeito, aquilo que produzimos, ao falarmos, não são palavras mas cadeias de sons entendíveis por outrem. Cadeias que podem ser muito breves: «Aí!» ou «Pára!» Daí uma descoroçoante mas muito prática definição de palavra: «um conjunto de letras entre dois espaços em branco». Exacto: a palavra pertence por natureza ao terreno da escrita e só nele tem verdadeiramente sentido.»

Como não podia deixar de ser o chamado «Acordo Ortográfico de 1990» aparece logo na ficha técnica e numa nota na página 200: «não existem e nunca existirão, traduções luso-brasileiras, seja de Proust, de Dan Brown ou de instruções de máquina de lavar. Em matéria de tradução e de edição, o Brasil e Portugal têm cada um, a sua política e a sua indústria , inteiramente independentes . O célebre Acordo Ortográfico de 1990 foi, no mundo real, um devaneio inútil e dispendioso.» Já num artigo no jornal «Público» disponível na Internet Fernando Venâncio chamou ao «AO90» a fórmula do desastre.      

(Editora: Guerra e Paz, Revisão: Ana de Castro Salgado, Capa e paginação: Ilídio J.B. Vasco, Mapas e fotografia: Carlos Filipe Nogueira, Maria Alice Fernandes e Fernando Venâncio)

[Um livro por semana 652]