sexta-feira, 11 de maio de 2018

«O processo de Camilo»



Novo livro de Carlos Querido

Foi apresentado em Caldas da Rainha no passado dia 14 de Abril o mais recente trabalho de Carlos Querido. Nasceu em Salir de Matos (1956), viveu em Santarém cinco anos e é hoje juiz desembargador na Relação do Porto. Autor de Salir d´Outrora (2007 e Praça da Fruta (2009) publicou recentemente Insanus (contos) depois de Príncipe Perfeito – Rei pelicano, coruja e falcão e A redenção das águas. Este livro é um pequeno ensaio de 36 páginas escrito a partir do processo judicial existente no Tribunal da Relação do Porto que narra o drama de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, presos, acusados e julgados pelo crime de adultério. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Correio do Ribatejo 127 anos depois



O jornalista como historiador do quotidiano

Quando comecei a escrever nos jornais (1978) Jacinto Baptista afirmava no «Diário Popular» - «o jornalista é o historiador do quotidiano». Ora o quotidiano português em 9-4-1891 (já lá vão 127 anos) era dominado pelo Ultimato Britânico de 1890 e pelo movimento patriótico que se levantou contra aos ingleses. O patriotismo era comum a toda as classes sociais. Basta lembrar que as comemorações camonianas de 1880 foram financiadas pelo Conde de Burnay, que o Duque de Palmela devolveu as suas condecorações trazidas de Londres ao embaixador inglês em Lisboa e que a Duquesa de Palmela organizou uma «sopa dos pobres» em Lisboa. Associações, Clubes e Filarmónicas ganhavam expressão. Mas não era só Luís de Camões que se comemorava: o 24 de Julho (de 1833) marca a chegada a Lisboa das tropas liberais, o 1º de Dezembro (de 1640) marca a recuperação da independência nacional e sem esquecer a romagem anual ao túmulo de Joaquim António de Aguiar (1793-1871) conhecido como o «Mata Fardes». O Governo inglês sonhava com um corredor continental em África do Cairo ao Cabo mas o chamado Mapa Cor-de-Rosa propunha que Portugal ocupasse o vasto território entre Angola e Moçambique. Em 11-1-1890 o embaixador britânico em Lisboa exigiu a retirada imediata das forças militares portuguesas estacionadas no Noroeste de Moçambique (Chire e Machona) e ameaçando com o uso da força caso o nosso país não aceitasse a exigência até às 10 horas da noite do dia 11-1-1890. O Governo português reúne-se de emergência com o Conselho de Estado e salvo duas excepções, todos os membros do Governo e do Conselho de Estado aceitam a imposição britânica. Claro que a 14-1-1890 o Governo demitiu-se e o novo Governo (regenerador) aceitou o Ultimato. O resto está nos livros, é História. Mas o «Correio do Ribatejo» que hoje, continua o que começou há 127 anos como «Correio da Extremadura», é também, História. O passado dá a todos nós que o fazemos hoje um orgulho, uma vontade e uma força enormes, o futuro é um horizonte de muitas coisas possíveis. O presente é esse intervalo feliz entre o passado e o futuro, espaço no qual o sonho dos pioneiros de 1891 continua activo e desafiador: contar às pessoas as suas próprias histórias, fazer da cada novo jornal um ponto de encontro, ser o historiador do quotidiano de todos nós.


sábado, 28 de abril de 2018

Padre Amílcar Fialho (1944-2001) ou a boa surpresa na página de um livro



A página 180 do livro «O sítio de Benfica e a tradição dominicana» de Artur Santa-Bárbara (edição da Paróquia de São Domingos – Benfica - Lisboa) refere dom Fernando Teles de Menezes como conde de União em vez de conde de Unhão. Má surpresa mas a página 237 mostra o largo sorriso do novo presbítero do Patriarcado, Amílcar Luís Fialho, ao lado de Frei Carlos Santos. A foto não tem data mas deve ser de 1967. Nascido em Santa Catarina (Caldas da Rainha) em 27-4-1944, foi admitido no Seminário de Santarém em 1-10-1955 tendo sido ordenado sacerdote em 1967 e passando a ser pároco nas Lapas e na Ribeira Branca em 1968. Filho de João Fialho e Conceição Fialho, este meu valoroso conterrâneo veio a falecer em 18-5-2001. Da sua passagem pela Direcção do Jornal «O Almonda» regista-se em 24-5-1975 um firme propósito: «Empenhar-me-ei desde o primeiro momento não em servir ninguém mas a Verdade, que é revolucionária.» Mas em 9-11-1979 confessava a sua relativa frustração: «Passados mais de quatro anos de fortes tensões provocadas pela angústia constante de me sentir «bola de pingue-pongue» nos jogos de interesse, verifico, com pena, a necessidade de abandonar o campo por falta de forças físicas. Numa luta permanente e desgastante, obrigando-me, tantas vezes a enfrentar problemas e situação cheias de imponderáveis e contradições, o confronto humano, social e cristão arrasa o sistema nervoso, provocando possíveis doenças de consequências incalculáveis.» 

Uma nota final de agradecimento a Alexandra Xisto e Laura Martinho pela ajuda preciosa nos dados biográficos do padre Amílcar Fialho.     

(Crónicas do Tejo 110)

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O comboio da Sertã, a vila das Caldas, «gralhas» e deslizes



Uma pessoa acorda, toma banho, come, veste-se e vai para a rua e a primeira coisa que vê é uma carrinha frigorífica à porta dum talho com a expressão «São António» em vez de Santo António. Sabe-se que São se usa para João ou Pedro, os santos populares de Junho cujo nome começa por consoante. Minutos depois no comboio a mesma pessoa lê Melecas em vez de Meleças e no Metropolitano vê Marques Pombal em vez de Marquês de Pombal. Ao sair na Praça de Espanha (lê-se Praca Espanha) fica a pensar no nome antigo da estação que era Palhava em vez de Palhavã. A seguir pega num livro e lê uma referência ao comboio da Sertã na página 74 e duas vezes na página 90 às Caldas da Rainha como vila sem esquecer na página 98 a expressão vila termal. Sabe-se que não há nem nunca houve comboios na Sertã e as Caldas são cidade desde 1927. Na página 131 lê-se reouve quando o verbo é reaver ou seja «ter de novo» que é diferente de ouvir.
Pego noutro livro e leio lojistas com «g» na página 130 depois de ter lido na página 125 Dutra Trafaria em vez de Dutra Faria. Li depois no mesmo livro o nome do jornalista Urbano Carrasco como Urbano Camacho referido como sendo do «Diário da Manhã» mas não faz sentido no contexto porque esse jornal era da situação, não da oposição. Leio na página 26 António Régio por António Sérgio e na página 32 «ostão» por estão. Mas para acabar o dia em beleza leio num livro sobre São Domingos de Benfica uma referência ao conde de União que não existe porque se trata do conde de Unhão. Cheguei a casa com o cinto cheio de caça mas terá valido a pena? Talvez sim ou talvez não. Nunca saberei ao certo.  

(Crónicas do Tejo 108 - fotografia de autor desconhecido)



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Mário Duarte a «angústia sem lágrimas» entre o pó e a posteridade



Autor de «Aquário» (1979) e «Jornal Poliédrico» (1989). Mário Duarte (1954-1978) pôs termo à vida em 1978 na Holanda onde vivia como exilado. Na apresentação do segundo livro Fernando Venâncio escreve: «Desconhecemos, ainda, o Diário de Mário Rui. Nele se encontrará, porventura, resposta para a interrogação sobre o grau de consciência que o jovem exilado tinha do seu talento, em particular literário. Do que não resta dúvida é que o escritor Mário Duarte tinha virtudes das que mais recomendam um oficial das letras: era laborioso e era um insatisfeito. Não é impensável que, ultrapassada a euforia dum início de reconhecimento, Mário Duarte repudiasse, garbosamente, os seus ensaios de juventude. Hoje,  eles são todo o acervo de um autor por quem os Desuses já guerreavam.» Citemos um dos textos: «Corredores Os corredores. O Hospital: edifício erecto e escuro. Os rostos semeiam-se na imensidão asséptica das enfermarias. O edifício está esventrado por corredores-gemidos. E os elevadores furam as paredes com pessoas de batas eficientes. As lavandarias produzem as batas entre indescritíveis ruídos brancos. O fumo das roupas acende muito feliz por uma chaminé de metal (um osso desmesurado, oco, em espirais). Os doentes olham os corredores com espanto. As camas disseminam-se. As camas invadem os corredores. Gritam as enfermeiras de touca eriçada. Os doentes emudecem. Os estudantes da Faculdade riem o espaço dos lábios. Os doentes imóveis. As pernas das camas caminham docemente pelas áleas laterais. Gritam os partos. As crianças dolorosas enxameiam os corredores de urina. À mulher dói-lhe o fruto: o nascimento. A cara crispa-se. Os lábios enrugam-se. A criança não quer sair. O útero lateja como um solo de clarinete.» (Fim de citação)   
     
(Crónicas do Tejo 107 - fotografia de autor desconhecido)

terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)

quarta-feira, 21 de março de 2018

Uma «Festa Redonda» da Terceira no CCB de Lisboa


António Valdemar, Luísa Costa e Luiz Fagundes Duarte foram os mestres-de- cerimónias da «Festa Redonda» terceirense em pleno CCB de Lisboa. O bilhete indicava a data (10 Mar 18), a hora (15:00), o preço (5,00 €) e o motivo (Dia Literário Vitorino Nemésio) mas não indicava o sentido último da Festa que é (e será sempre) um encontro, um intervalo de alegria e de luz num quotidiano cinzento e monótono. António Valdemar (com erudição e fotografias antigas) apresentou o percurso pessoal de Vitorino Nemésio (1901-1978) desde o seu nascimento (Vila Praia da Vitória) até às cidades que tomou como suas (Lisboa e Coimbra) sem esquecer a passagem pela Horta onde fez o exame do quinto ano do Liceu que lhe foi negado em Angra do Heroísmo. A nota de 10 (dez!) valores a Português e Francês que lhe foi atribuída no Liceu da Horta pode ter sido o impulso para o Prémio Montaigne que recebeu mais tarde e para o seu livro de poemas que foi escrito no idioma de Voltaire. Vitorino Nemésio foi sempre um poeta e (sabe-se) toda a poesia é (sempre) uma resposta. Para fazer uma roda são precisas quatro pessoas e foi Manuel Nemésio, do alto dos seus 87 anos, que acabou por encerrar a sessão. Antes tinha Luísa Costa lido (como só ela sabe) alguns poemas da «Festa Redonda» fazendo com que quem (de olhos fechados) a ouvia, se colocasse numa carroça de Vila Praia da Vitória a caminho de Angra do Heroísmo – quando ainda não havia a EVT e era tudo artesanal. Luiz Fagundes Duarte mostrou um pouco da «oficina poética» do Mestre e uma desconhecida e curiosa «memória justificativa» para a futura (nunca concretizada) segunda edição do livro «Festa Redonda» de Vitorino Nemésio. Por mim não posso deixar de lembrar que o quarto de João Garcia fica na Rua da Rosa. Tal como o de Vitorino Nemésio, ele mesmo.

(Crónicas do Tejo 122)


quinta-feira, 15 de março de 2018

O Saldanha numa memória escrita de Jorge Silva Melo


Em boa hora o jornal «Diário de Notícias» publicou uma colecção de fotografias de Lisboa com o título de «Lisboa antiga». No livro «Século passado» de Jorge Silva Melo (Edições Cotovia) descubro uma crónica notável sobre a vida no Saldanha nos idos anos 60 do século XX. A ler: «Sempre que, agora, por lá passo, pelo Saldanha, sinto-me fechado, angustiado, enterrado, esmagado, Foi ali que abri a minha vida juvenil, início de poemas, ideias de filmes e artigos, artigos, política. E agora quase só lá passo de carro, ponho-me a olhar para o que já não reconheço: há branco a mais, vidro a mais, atafulhamento de volumes, luzes a mais e não percebo o que por ali há, lojas e lojas onde não ouso entrar, marcas a mais, uns cinemas, umas caves, outras lojas, não sei, sei que nada daquele mundo é para mim, agora, parece-me arrabalde, auto-estrada. E foi, durante anos, o centro de Lisboa, da minha vida universitária, da Lisboa conspirativa dos literatos e cineastas, da gente do teatro e dos jornais. E era nos cafés, abertos desde manhã cedo a até de madrugada, abertos aos feriados e aos domingos que tudo se ia passando. A modorra de quem não sabe o que pode fazer para que as coisas mudem, as discussões sobre o filme acabado de estrear na sala ao lado, a análise do livro recenseado no suplemento do «Diário de Lisboa», nossa leitura obrigatória a partir das cinco da tarde, a participação nas polémicas que zurziam, os projectos profissionais. E, ao domingo, era o almoço com a família no Monte- Carlo, almoço demorado com pratos e sobremesas e conversas sobre cinema, o filme que se havia de ver naquela noite, se o Bem-Hur no Monumental, se o Quanto mais quente melhor, lá em baixo no São Jorge.» (Fim de citação…)    
(Crónicas do Tejo 106)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Lisboa e o Tejo a partir de uma gravura do século XVI


A fotografia reproduz a panorâmica da cidade de Lisboa que está num livro na Real Biblioteca de Madrid sendo os autores Georg Braun (1541-1622) e Frans Hogenberg (1535-1596) e cuja legenda na Revista National Geographic Magazine na sua recente edição especial com o título de «A conquista da América», começa deste modo e transcrevo com a devida vénia: «Localizado no estuário do Tejo, o porto de Lisboa foi o ponto de partida da maioria das expedições das Descobertas e de chegada do ouro do Brasil, alicerce da prosperidade do século XVI» Quero dizer na minha o seguinte: o Tejo é sempre o mesmo ainda que pareça novo todos os dias. O estuário do Tejo conhecido em termos populares por Mar da Palha ali está hoje (2017) quando escrevo esta crónica tal como estava no século XVI. Lisboa, sim, está diferente, o terramoto de 1755 deitou abaixo muitas casas. Não esquecer que o palácio da família do Marquês de Pombal era na Rua Formosa que é hoje a Rua de O Século. O arquitecto convidado pelo Marquês de Pombal morava por ali perto na Rua da Rosa e daí não é de admirar que a Baixa Pombalina seja parecida com o traçado do Bairro Alto e não tenha becos mas apenas praças, ruas e travessas. O Bairro Alto (onde esse senhor vivia) também não tem e fico todo arrepiado quando leio algo como «os becos do Bairro Alto». Adiante que se faz tarde. Voltando ao princípio e para terminar, perante esta belíssima imagem do Tejo e da Cidade de Lisboa só me posso lembrar de um verso de Fernando Assis Pacheco. Claro que não sei se o Fernando Assis Pacheco, ele mesmo, conhecia esta gravura mas o seu verso não se sai do pensamento. Algo como isto: «Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa.»

(Crónicas do Tejo 105)

quinta-feira, 1 de março de 2018

«Marta de Jesus – A verdadeira» de Álamo Oliveira


Álamo Oliveira (n.1945) é conhecido pela vasta obra publicada (36 livros) em diversos campos (poesia, teatro, romance, conto e ensaio) mas seria reconhecido não tivesse vindo ao Mundo no Raminho – Ilha Terceira- Açores. O terrível sistema cultural onde estamos inseridos tem destas particularidades; o preconceito e a ignorância fazem o resto (como refere Vamberto Freitas) e vão atirando o pó do esquecimento contra a mais que justa posteridade da obra e do autor. O ponto de partida do livro é a vida na ilha das Flores: «Ali a vida era entendida de forma ervanária. Era como se fossem plantas das valetas ou da horta: nasciam, viviam, morriam e ponto final. Claro que havia os inconformados do sistema mas esses eram os que se atiravam num barco qualquer e iam à procura da terra que lhes estaria prometida.» Existe uma data para o arranque da narrativa («Era o Dia de Reis do ano de 2001 e toda a manhã choveu») e um lugar determinado: «ilha das Flores, assim chamada pela quantidade que delas havia e pela sua congénita formosura.» A protagonista é Marta de Jesus: «Tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura, cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só.» O pano de fundo da narrativa é o tempo da Guerra Colonial («Era já notável o número de mortos, os hospitais enchiam-se de feridos e estropiados») e é nesse contexto que surgem os seguidores de Emanuel Salvador: «O grupo aumentava e criava um ambiente de grande solidariedade e, sobretudo, de comunhão de ideias. Esse grupo designa os seus cronistas tal como os dos Quatro Evangelhos: «Mateus, Lucas, Marcos e João». Os caciques e os  reaccionários locais são nas Ilhas o equivalente a Salazar em Lisboa: «A guerra estoirou forte e feio na Guiné, em Angola e em Moçambique e Salazar começa a ficar sem tropas para mandar para as colónias.» Personagem presente e ausente é Pedro («um jovem poeta que saíra da ilha») e que aparece na página 141 referido pelo seu verso mais citado «califórnias perdidas de abundância». Depois de uma narrativa de 190 páginas com uma dupla inscrição (Os Evangelhos e o Grupo das Flores) o livro conclui: «Se esta foi ou não a verdadeira história de Marta de Jesus, ninguém sabe. Sabe-se que ela nasceu, viveu e morreu na ilha das Flores.» Havia um papel no seu leito de morte sendo «Mistério» a última palavra desse texto. O próprio autor acaba por sugerir: «Será bom que amanhã alguém volte a este assunto.» Livro dedicado a dois poetas (Marcolino Candeias e Vasco Pereira da Costa), trata-se de um texto invulgar, insólito e interminável. Por isso o livro não acaba na página 190 e continua a inquietar e a agitar o espírito dos seus felizes leitores.

(Um livro por semana 582 - Editora: Letras Lavadas, Foto do autor: Eduardo B. Pinto, nota da capa: Vamberto Freitas)