domingo, 11 de outubro de 2026

JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO


JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO

José Mário Silva (n.1972) é jornalista, crítico literário, tradutor, poeta ficcionista e organizou a antologia «Os cem melhores poemas dos últimos cem anos». Este é o seu sexto livro. Reúne 27 ficções e um texto no qual Adelaide Candeias expressa a sua revolta porque numa das ficções («Como desenhar um quadrado») surgem referências que lhe parecem atentatórias do seu «bom nome» e da «verdade» e também porque foi condenada ao anonimato – coisa que não pode admitir e daí o seu recurso a um Direito de Resposta como nas Cartas ao Director dos jornais. É aqui que bate o ponto: na ficção da página 33 o autor organiza fichas biográficas de desportistas locais ocupando as páginas do Jornal Gazeta da Cadrafil cujo director (Amílcar Candeias) é definido como «insigne», «exemplar», «notabilíssimo», «venerável» e «distinto» enquanto o Jornal é «conceituadíssimo». Os atletas são Elias Fagundes, Miquelina Marques, Xavier Toledo, Alzira de Sousa Machado e os próximos são Tibério Moreno, Salvador Tolentino, Pedro Barreirinhas, Valentina Sobral, Conceição Farinha, Catarina Nepumoceno, Samuel Tenreiro e Anabela Candeias. Esta ficção em particular coloca o problema do pó e da posteridade. Neste caso é Cadrafil, uma localidade alentejana que fica «por trás do sol-posto» e é conhecida «pelo queijo de ovelha, pelos tapetes e pelo azeite» mas, ao mesmo tempo, por «um cultura desportiva que pede meças a muita cidade desenvolvida». Este livro de 159 páginas (Editora Parsifal, capa de Pedro Gil, foto de Inês Bernardo) afirma-se como um digno sucessor da «Miscellanea» de Miguel Leitão de Andrada (1629) de «Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (1882) e de «O aprendiz de Feiticeiro» de Carlos de Oliveira (1971). Há uma mistura feliz de vários mundos, vários tempos, vários registos de estilo. Ou como Almeida Garrett queria vem «falar verdade a mentir». Nota – este livro foi apresentado quando em Copenhaga o treinador afastava Cristiano Ronaldo, um técnico conhecido por dizer a jogadores no Restelo «vocês três façam um quadrado». JCF    

sábado, 10 de outubro de 2026

Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)


Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube
(FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)

Na sequência de outros dois livros sobre a vida do Clube (1989, 1999) Carlos Lobão (n.1959) assina este volume de 293 páginas que celebra os 50 anos da colectividade. A escolha deste autor acaba por ser óbvia para a «Comissão dos 50 anos do Futebol Clube dos Flamengos». Natural da freguesia, com uma notável carreira de futebolista (1973-1987) e de treinador de futebol (1989-2004), junta ao percurso desportivo a Licenciatura, a Pós-Graduação, o Mestrado e o Doutoramento em História, sendo autor de duas dezenas de trabalhos publicados no âmbito da História Local. O livro é um meticuloso registo de actividades do Clube que, embora tenha a palavra Futebol no seu nome integra outras actividades desportivas e culturais ou recreativas: Filatelia, Jornal, Conjunto Musical, Folclore, Futebol Feminino, Futsal, Veteranos, Caderneta de Cromos, Andebol, Ciclismo, Damas, Futebol de Salão, Hóquei em Patins, Voleibol e Rally Paper. A narrativa recorre com frequência aos jornais: Correio da Horta, Horta Desportiva, O Telégrafo ou Diário Insular. A página 105 refere o Hino do FCF da autoria de Manuel Correia Gaudêncio e Albino Garcia: «Pelo Vale ecoa o grito/Duma esperança a florescer/Entre a bola e o apito/Faz-se novo o velho dito/Saber ganhar e perder!//Com coragem, Juventude/Aos Flamengos vamos dar/Nova vida e mais saúde/No desporto a praticar.//Caminhando p´rá vitória/Somos a força em corrida/Nova luz na nossa história/E, dos Flamengos, a glória/Em cada nova partida!». Albert Camus (1913-1960) Prémio Nobel da Literatura em 1957 afirmou dever ao Futebol tudo o que sabia sobre a Moral e as obrigações dos homens. Ele foi guarda-redes da equipa Universitária de Argel. De facto uma equipa de futebol é uma escola de virtudes, um palco de sonhos, uma gramática do Mundo. Não é por acaso que muitas equipas da primeira divisão inglesa nasceram em paróquias ou em pubs – algo que se pode traduzir por taberna (no espaço rural) ou café (no espaço urbano). Numa equipa de futebol o todo é sempre mais que a soma das partes. JCF      

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA

 

SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA

Com selecção, tradução e notas de Manuel Simões (ex-professor em diversas Universidades italianas), este livro de 143 páginas é uma edição que inclui poemas de seis livros e alguns dispersos desta «voz obstinada e generosa de um dos maiores poetas do nosso tempo» - segundo a apresentação do tradutor. Salvatore Quasímodo, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1959, traduziu Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Catulo, Ovídio, Virgílio, Moliére, Shakespeare, E.E. Cummings e Pablo Neruda. Organizou duas antologias de poesia italiana e publicou vários livros de ensaios. O seu poema mais conhecido é «A sombra dos salgueiros» do livro «Dia após dia»: «E como podíamos nós cantar/com o pé estrangeiro sobre o coração,/entre os mortos abandonados nas praças/sobre a erva dura de gelo, ao lamento/balido das crianças, ao uivo negro/da mãe que ia ao encontro do filho/crucificado no poste do telégrafo?/À sombra dos salgueiros, como ex-votos/também as nossas cítaras pendiam,/oscilavam leves ao triste vento». Há um poema que recorda o maior massacre de civis em Itália no Outono de 1944 por parte das tropas nazis: «Epígrafe para os caídos de Marzabotto – Os mil oitocentos e trinta do planalto/fuzilados e queimados/por obscura crónica camponesa e operária/entram na história do mundo/com o nome de Marzabotto». Outro poema é dedicado à memória dos sete irmãos Cervi, agricultores da Emília Romagna que foram capturados e fuzilados pelos fascistas em Dezembro de 1943: «Mas eu escrevo ainda palavras de amor/e também esta é uma carta de amor/à minha terra. Escrevo aos irmãos Cervi/não às sete estrelas da Ursa: aos sete emilianos/dos campos. Tinham no coração poucos livros,/morreram jogando dados de amor no silêncio./Não conheciam soldados filósofos poetas/deste humanismo de raça campesina./O amor e a morte num túmulo de névoa pouco fundo». Ficamos com uma ideia mas nada substitui a leitura do livro em boa hora editado num registo bilingue. (Edições Fantasma, Capa: Eva Hiernaux, Paginação: Carlos Ramos) JCF