José
Mário Silva (n.1972) é jornalista, crítico literário, tradutor, poeta
ficcionista e organizou a antologia «Os cem melhores poemas dos últimos cem
anos». Este é o seu sexto livro. Reúne 27 ficções e um texto no qual Adelaide
Candeias expressa a sua revolta porque numa das ficções («Como desenhar um
quadrado») surgem referências que lhe parecem atentatórias do seu «bom nome» e
da «verdade» e também porque foi condenada ao anonimato – coisa que não pode
admitir e daí o seu recurso a um Direito de Resposta como nas Cartas ao
Director dos jornais. É aqui que bate o ponto: na ficção da página 33 o autor organiza
fichas biográficas de desportistas locais ocupando as páginas do Jornal Gazeta
da Cadrafil cujo director (Amílcar Candeias) é definido como «insigne»,
«exemplar», «notabilíssimo», «venerável» e «distinto» enquanto o Jornal é
«conceituadíssimo». Os atletas são Elias Fagundes, Miquelina Marques, Xavier
Toledo, Alzira de Sousa Machado e os próximos são Tibério Moreno, Salvador
Tolentino, Pedro Barreirinhas, Valentina Sobral, Conceição Farinha, Catarina
Nepumoceno, Samuel Tenreiro e Anabela Candeias. Esta ficção em particular
coloca o problema do pó e da posteridade. Neste caso é Cadrafil, uma localidade
alentejana que fica «por trás do sol-posto» e é conhecida «pelo queijo de
ovelha, pelos tapetes e pelo azeite» mas, ao mesmo tempo, por «um cultura
desportiva que pede meças a muita cidade desenvolvida». Este livro de 159
páginas (Editora Parsifal, capa de Pedro Gil, foto de Inês Bernardo) afirma-se
como um digno sucessor da «Miscellanea» de Miguel Leitão de Andrada (1629) de
«Os Narcóticos» de Camilo Castelo Branco (1882) e de «O aprendiz de Feiticeiro»
de Carlos de Oliveira (1971). Há uma mistura feliz de vários mundos, vários
tempos, vários registos de estilo. Ou como Almeida Garrett queria vem «falar
verdade a mentir». Nota – este livro foi apresentado quando em Copenhaga o
treinador afastava Cristiano Ronaldo, um técnico conhecido por dizer a jogadores
no Restelo «vocês três façam um quadrado». JCF
domingo, 11 de outubro de 2026
JOSÉ MÁRIO SILVA- O CADERNO PERDIDO
sábado, 10 de outubro de 2026
Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)
Carlos Lobão a fotobiografia dum Clube (FUTEBOL CLUBE DOS FLAMENGOS 50 ANOS 1974-2024)
Na
sequência de outros dois livros sobre a vida do Clube (1989, 1999) Carlos Lobão
(n.1959) assina este volume de 293 páginas que celebra os 50 anos da
colectividade. A escolha deste autor acaba por ser óbvia para a «Comissão dos
50 anos do Futebol Clube dos Flamengos». Natural da freguesia, com uma notável
carreira de futebolista (1973-1987) e de treinador de futebol (1989-2004),
junta ao percurso desportivo a Licenciatura, a Pós-Graduação, o Mestrado e o
Doutoramento em História, sendo autor de duas dezenas de trabalhos publicados
no âmbito da História Local. O livro é um meticuloso registo de actividades do
Clube que, embora tenha a palavra Futebol no seu nome integra outras
actividades desportivas e culturais ou recreativas: Filatelia, Jornal, Conjunto
Musical, Folclore, Futebol Feminino, Futsal, Veteranos, Caderneta de Cromos,
Andebol, Ciclismo, Damas, Futebol de Salão, Hóquei em Patins, Voleibol e Rally Paper.
A narrativa recorre com frequência aos jornais: Correio da Horta, Horta
Desportiva, O Telégrafo ou Diário Insular. A página 105 refere o Hino do FCF da
autoria de Manuel Correia Gaudêncio e Albino Garcia: «Pelo Vale ecoa o
grito/Duma esperança a florescer/Entre a bola e o apito/Faz-se novo o velho
dito/Saber ganhar e perder!//Com coragem, Juventude/Aos Flamengos vamos
dar/Nova vida e mais saúde/No desporto a praticar.//Caminhando p´rá vitória/Somos
a força em corrida/Nova luz na nossa história/E, dos Flamengos, a glória/Em
cada nova partida!». Albert Camus (1913-1960) Prémio Nobel da Literatura em
1957 afirmou dever ao Futebol tudo o que sabia sobre a Moral e as obrigações
dos homens. Ele foi guarda-redes da equipa Universitária de Argel. De facto uma
equipa de futebol é uma escola de virtudes, um palco de sonhos, uma gramática
do Mundo. Não é por acaso que muitas equipas da primeira divisão inglesa
nasceram em paróquias ou em pubs – algo que se pode traduzir por taberna (no
espaço rural) ou café (no espaço urbano). Numa equipa de futebol o todo é
sempre mais que a soma das partes. JCF
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA
SALVATORE QUASÍMODO - ANTOLOGIA POÉTICA
Com
selecção, tradução e notas de Manuel Simões (ex-professor em diversas
Universidades italianas), este livro de 143 páginas é uma edição que inclui
poemas de seis livros e alguns dispersos desta «voz obstinada e generosa de um
dos maiores poetas do nosso tempo» - segundo a apresentação do tradutor.
Salvatore Quasímodo, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1959, traduziu
Ésquilo, Sófocles, Eurípides, Catulo, Ovídio, Virgílio, Moliére, Shakespeare,
E.E. Cummings e Pablo Neruda. Organizou duas antologias de poesia italiana e
publicou vários livros de ensaios. O seu poema mais conhecido é «A sombra dos
salgueiros» do livro «Dia após dia»: «E como podíamos nós cantar/com o pé
estrangeiro sobre o coração,/entre os mortos abandonados nas praças/sobre a
erva dura de gelo, ao lamento/balido das crianças, ao uivo negro/da mãe que ia
ao encontro do filho/crucificado no poste do telégrafo?/À sombra dos
salgueiros, como ex-votos/também as nossas cítaras pendiam,/oscilavam leves ao
triste vento». Há um poema que recorda o maior massacre de civis em Itália no
Outono de 1944 por parte das tropas nazis: «Epígrafe para os caídos de
Marzabotto – Os mil oitocentos e trinta do planalto/fuzilados e queimados/por
obscura crónica camponesa e operária/entram na história do mundo/com o nome de
Marzabotto». Outro poema é dedicado à memória dos sete irmãos Cervi,
agricultores da Emília Romagna que foram capturados e fuzilados pelos fascistas
em Dezembro de 1943: «Mas eu escrevo ainda palavras de amor/e também esta é uma
carta de amor/à minha terra. Escrevo aos irmãos Cervi/não às sete estrelas da
Ursa: aos sete emilianos/dos campos. Tinham no coração poucos livros,/morreram
jogando dados de amor no silêncio./Não conheciam soldados filósofos
poetas/deste humanismo de raça campesina./O amor e a morte num túmulo de névoa
pouco fundo». Ficamos com uma ideia mas nada substitui a leitura do livro em
boa hora editado num registo bilingue. (Edições Fantasma, Capa: Eva Hiernaux,
Paginação: Carlos Ramos) JCF


