José Fanha - Lisboa, Porta do Mundo Lisboa, Porta de Mim
José Fanha (n.1951) organizou este seu livro de 229 páginas (Âncora Editora, Capa de Sofia Travassos) de modo a cruzar os dois lados da realidade, ter e o ser, o património e o sentimento. Mas organiza a narrativa de modo muito hábil e transforma o texto num património de sentimentos. O mesmo é dizer – dois em um. O autor reconhece que a memória é uma coisa estranha: «Uma espécie de reservatório onde se vão acumulando e misturando recordações verdadeiras e outras que nem por isso. Será essa a razão por que há tantas coisas que recordamos com o seu perfeito recorte de realidade e que nunca aconteceram. Por vezes, no entanto, até parecem mais reais do que se o fossem. Outras há que são memórias autênticas. Fechamos so olhos e elas aí estão a trazer-nos aquilo que já fomos e que é o chão do que viremos a ser». O arco temporal deste trabalho narrativo vai de 1951 a 1980. O jovem José Fanha viveu na Estrada da Luz e foi aluno do Colégio dos Maristas na Rua Artilharia Um: «Na Estrada da Luz nunca foi Inverno, tanto quanto m lembro. Lisboa não é feita para o frio nem para a chuva. E eu também não. Por isso, tanto quanto me recordo, quando chegava aos Maristas já era Primavera e pronto. Lisboa sempre foi assim, feita para a alegria do sol, para aquela luz incomparável que sobe do rio e nos entra no coração». Sobre a cidade de Lisboa lê-se na página 40: «Não recordo onde morava então. Com a minha mãe, andava a mudar permanentemente de casa. Corremos pensões, messes militares, apartamentos por aqui e por ali e talvez seja a própria cidade de Lisboa que mais sinto como aquilo a que tenho podido chamar um lar». E conclui: «…a minha cidade é a do sol, a que está virada para o rio como se ali, nas águas lentas e largas, pudesse encontrar o seu céu e o seu destino». Nem mais. Quem leu, leu; quem não leu não sabe o que perdeu. JCF
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