sexta-feira, 28 de outubro de 2022

«Meu reino por um cavalo» de António Ferra e Rui Castro

Este livro (recomendado pelo Plano Nacional de Leitura) integra 21 poemas e 21 desenhos nos quais António Ferra e Rui Castro elaboram uma homenagem e sugerem um convite à leitura da obra destes poetas, a saber: Reinaldo Ferreira, Mário de Sá-Carneiro, Miguel Torga, Natália Correia, Antero de Quental, Cesário Verde, Manuel da Fonseca, José Régio. Herberto Hélder, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Almeida Garrett, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alexandre O´Neill, Emanuel Félix, Eugénio de Castro, Fernando Assis Pacheco, Vitorino Nemésio, Álvaro de Campos e Florbela Espanca. O título do volume nasce do final da peça «Ricardo III» de Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês (1554-1616). O poema dedicado a Emanuel Félix integra um verso extraído do «Auto da Lusitânia» de Gil Vicente (século XVI). As páginas finais incluem 21 notas biográficas e bibliográficas dos autores aqui seleccionados, clarificando  António Ferra, entre outras particularidades, a diferença entre pseudónimo e heterónimo.

Como convite à leitura vejamos o poema de homenagem a Reinaldo Ferreira: «Dava tudo por um cavalo/ podia ser branco para voar/ de asas enormes para ir depressa/ para junto dos sonhos que vou sonhar// Dava tudo por uma cavalo/menos a pá se fosse padeiro/menos a pena se fosse poeta/menos a espada se fosse guerreiro//Dava tudo por uma cavalo/menos as cores se fosse pintor/menos os números se fosse engenheiro/menos a voz se fosse cantor// Dava tudo por uma cavalo/ menos o riso se fosse palhaço/ menos a máscara se fosse um actor/menos as mãos para dar um abraço//Se tivesse um segredo e quisesse guardá-lo/se eu fosse o rei da sabedoria/dava o meu reino por um cavalo/e depois guardava-o de noite e de dia»  

(Editora: Trinta por uma linha, Design e paginação: Anabela Dias, Colecção: Rimas traquinas)

[Um livro por semana 694]

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

«Viagens sem bola» de Rui Miguel Tovar

Albert Camus, Nobel da Literatura em 1957, escreveu «tudo o que sei sobre a moral e as obrigações dos Homens é ao Futebol que o devo.» Este livro de Rui Miguel Tovar (n.1977) é a prova. O ponto de partida são as viagens para ver futebol e os títulos das trinta crónicas dão uma ideia: Banguecoque, Belo Horizonte, Berlim, Boston, Brasília, Bucareste, Buenos Aires, Cairo, Chernobyl, Corleone, Croácia, Donetsk, Lijiang, Londres, Los Angeles, Lviv, Montevideo, Nova Iorque, Pádua, Paris, São Petersburgo, Rio de Janeiro, Rosário, São Paulo, Teerão, Três Corações, Varsóvia, Veneza, Maldivas e Abu Dhabi. A rubrica «Hoje jogo eu» fez parte da minha educação sentimental como leitor de A BOLA. Num certo sentido este livro é um conjunto de textos à maneira do «Hoje jogo eu». Se o ponto de partida é «pelo mundo fora em busca do inesperado» como refere a capa, o ponto e chegada é um inventário da condição humana no sentido dado à expressão «sangue pisado». Só que nestas 171 páginas junta-se ao sangue pisado a arte, um talento de escrita não ao alcance de qualquer aspirante.

Vejamos alguns exemplos desta feliz mistura entre vida (sangue pisado) e estilo (arte): o humor na página 6 - «Do meu ponto de vista Spike Lee é uma velhinha.» e na página 113 «no rugby só se avança se se passar a bola para trás», o poder de síntese na página 15 «tuk-tuk é uma moto com atrelado» ou na 46 «Buenos Aires é a cidade mais rezingona do mundo.», na 31«Boston, cidade de MIT e Harvard, casa dos Celtics (basquetebol) Red Sox (basebol) e Bruins (hóquei no gelo)» ou ainda na 56 «Manuel José, a figura nacional do Cairo. Mais respeitado até que qualquer sinal vermelho». Sem esquecer os franceses a verem um jogo Arsenal-Leyton Orient e a falar «um inglês pior ainda que o do polícia francês do Àllo!Àllo!» Ou o Rio de Janeiro na página 125 «Nevoeiro de manhã, futebol à tarde, destruição à noite, o Rio não está assim tão maravilhoso.» Por fim uma ideia sobre Veneza na página 160: «Veneza a cidade do futuro? Quando muito, sem futuro. Veneza arrisca-se a ser apenas um parque temático de arte e cultura»

O amor está presente na paixão de Elza Soares e Garrincha («Meu Deus, como essa gente é boba, não sabe que vai viver por um tempo tão curto, para quê ficar agarrado a tanta coisa, não vai levar nada» terminando de forma abrupta: «Um homem como ele ser expulso do país é um absurdo» O cinema está muito presente na página 64: «quem não chora com a última cena do Cinema Paraíso, a reposição de todos os beijos censurados pelo padre da aldeia ao longo de anos e anos, aí já não há desculpa». Terminamos esta nota com a memória do Europeu 2016: «Aparece uma bola vinda sabe-se lá de onde, começam-se a marcar penáltis na baliza do Éder. É um festival. De remates, de golos, de cabeça no ar. Não há amanhã. Só hoje. E o hoje não vai acabar. É eterno.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Jesus, Preparação: Diogo Morais Barbosa e Carlos Almeida, Prefácio e edição: Francisco José Viegas, Design de capa: Rui Rodrigues, Foto da capa: Sandro Bisaro, Produção: Teresa Reis Gomes, Foto do autor: Ágata Xavier)

[Um livro por semana 693]

 

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

«Água inquieta – João José Cochofel»- org. José Manuel Mendes


Precoce em tudo na vida, João José Cochofel (1919-1982) nasceu prematuro (5 meses), emancipou-se cedo (13 anos) e estreou-se em livro aos 18 anos (1937). Sua avó (Maria Eugénia) dava-se com gente da «situação» (Albino dos Reis, Bissaia Barreto) enquanto sua mãe (Maria Albina) apoiava Revistas como «Altitude» (1939) e «Vértice» (1945) ou projectos editoriais como «Novo Cancioneiro» (1941) e tinha como seus amigos Joaquim Namorado, Fernando Namora, Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Álvaro Feijó, Vitorino Nemésio, Fernando Lopes-Graça, José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Eduardo Lourenço, Mário Soares e Maria Barroso entre outros. João José Cocohofel é lembrado nestas páginas como «activista cultural, poeta, musicólogo, crítico literário e musical, tradutor, cidadão empenhado e solidário e, acima de tudo, homem raro no seu tempo.»

A origem do título do volume está no poema da página 143: «Não sei como te chamas / locatária de um cacifo com sete filhos / nem tu / que perdeste os melhores anos /numa cela de Peniche ou de Caxias. /Doem e habitam /submersos a quantas braças tem o olvido /a água inquieta /dos meus versos.» José Manuel Mendes explica a razão de ser deste volume de 260 páginas que integra um conjunto de 22 fotografias e 2 caricaturas: «O livro abre com sonetos inéditos do meu amigo Alexandre Vargas, seguramente incluíveis entre os que compôs antes da morte, à luz do entusiasmo e da saudade do João José. Seguem-se, por ordem alfabética a colaboração de quem foi desafiado em nome do afecto, familiar ou não e dos estudos em torno da produção de João José Cochofel. Agradeço a generosidade e o empenho de cada um.»

De tantas «histórias» fica uma, exemplar e comovente: Fernando Namora, ainda estudante de Medicina, celebra o casamento mas pouco tempo depois de lhe nascer a filha, fica viúvo. Não tendo para onde ir nem quem lhe crie a bebé, é em casa de João José Cochofel que a criança é acolhida e criada, lá permanecendo até Fernando Namora se formar, altura em que vai buscá-la, o que provoca um grande choque na família que já se tinha afeiçoado à criança.

(Editora: Pequenos Livros, Caricaturas: Mário Dionísio e Fernando Namora, Direcção gráfica: José Antunes, Textos: Alexandre Vargas, António Carlos Cortez, António Pedro Pita, António Vilhena, Arquimedes da Silva Santos, Fernando Namora, Joaquim Namorado. José Carlos de Vasconcelos, José Carlos Seabra Pereira, José Manuel Mendes, Judite Cortesão, Luísa Duarte Santos, Mário Vieira de Carvalho, Octávio Quintela, Sofia Quintela, Apoio: Associação Portuguesa de Escritores)

[Um livro por semana 692]


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

«Clara em castelo» de António Ferra


O mais recente livro de António Ferra integra 45 poemas pícaros no sentido não só de «astuto» e «malicioso» mas também aquele que «com arte e dissimulação logra o que deseja». Há nestes poemas uma dupla inscrição: o texto enquanto tal e o referente quotidiano como por exemplo «aceda ao portal das finanças», «estamos abertos ao sábado», «sala no primeiro andar» ou «cartão do cidadão ou BI».

O título do livro vem do poema 27: «O galope da zebra em tango argentino é dança no zoo/ (cagança poética), /com língua de velcro lambe a crina o bicho /de coice e martelo, /mestria de Braque em cubo incolor, /clara em castelo.»

Ao longo dos 45 poemas se percebe a já referida dupla inscrição (discurso poético - legenda trivial) pelo recurso a expressões como por exemplo «amparo de mãe» ou «URSS», figuras das letras e das artes, títulos de livros ou de peças de Teatro: Fernão Mendes Pinto, Braque, Debussy, Gargântua, O valente soldado Svejk, As vinhas da Ira, Beijo técnico.

A ironia atinge um ponto mais alto no verso que refere «a bicicleta de Bernardim» quando se sabe que de Bernardim é o rouxinol – o mesmo é dizer Coimbra.

Fiquemos com o poema 44 como legenda e despedida: «Querida Daisy, /nós por cá todos bem /a poetar na brevidade/de um orgasmo a solo/ o teu sardão morreu de sede/ a caminho do Algarve, /dá notícias, /teu Alfrede.»

(Editora: Douda Correria, Capa: Helena Sanmiguel Urbina, Composição: Joana Pires)

[Um livro por semana 691]


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Hospital de Abrantes: Urgência de cinco estrelas


Num tempo de «bota abaixo» em que é fácil dizer mal de tudo e de todos, vou contra a corrente para dizer bem da Urgência do Hospital de Abrantes. Vitimado por uma síncope no dia 25-7-22 na Praia Fluvial do Penedo Furado, bati com a cabeça nas pedras da zona das merendas. Transportado pelos impecáveis Bombeiros de Vila de Rei, fui sujeito no Hospital de Abrantes a uma Tomografia que felizmente não acusou derrame interno. A maneira competente e simpática como fui tratado durante o «episódio» leva-me a recordar a frase ouvida no ano de 1962 em Vila Franca de Xira sobre um rancho de raparigas da região de Abrantes a caminho da Lezíria: «São sérias, asseadas e danadas para trabalhar!». 

                                                                                                                                                JCF


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

«Amor & Violência» de Cláudia Franco Souza


Tendo-se estreado em 2016 com «Nietzsche & Dostoiévki», Cláudia Souza é autora de quatro ensaios e seis livros de ficção para além de co-autora de dezanove edições do espólio de Fernando Pessoa, com trabalhos editados no Brasil, nos E.U.A. e em diversos países da Europa. Este livro de 49 páginas debruça-se sobre o primeiro amor («O primeiro amor é geralmente o mais violento de todos. O objecto amoroso é nada mais nada menos do que uma abreviatura do Universo») para concluir: «Como se aprende a amar? Como se aprende a conter a violência do amor? Da mesma maneira que se aprende a viver, vivendo com todos os seus descompassos, falhas e vazios. Mão se aprende, vamos vivendo… Não se aprende, vamos amando aos tropeços, com erros e acertos, com tristeza e alegria.»     

Quando «o amor erótico não encontra eco em seu objecto amoroso», conclui a autora «Rios de tinta, de criatividade, de labor artístico correram em todo o mundo ocidental por causa deste tio de desencontro. As mais belas poesias, cartas de amor, peças de teatro, filmes, pinturas, esculturas, foram realizadas graças ao imenso sentimento de amor. E assim será possivelmente até ao fim dos tempos.»

No seu articulado o estudo de Cláudia Souza revisita autores tão diversos como João Guimarães Rosa, Luís de Camões, Bocage, Carlos Drummond de Andrade, Irene Lisboa, Manuel de Barros, Chico Buarque, Paulo Leminski, Manuel Bandeira e David Mourão-Ferreira. Talvez porque a Poesia é uma resposta à solidão e ao desespero. E os seus alicerces são os mesmos do Amor. Cada leitor vai tirar a sua conclusão, provisória mas, mesmo assim, conclusão.

(Editor: Subterrânea – Colectivo Literário)

[Um livro por semana 690]

 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

«O Fascínio da Quadra» de Manuel Barata


Manuel Barata (n.1952) publica regularmente desde 2003 («Quadras quase populares») sendo este o seu sétimo livro. Não surpreende que um dos poemas deste livro se intitule «Teoria da quadra» e conclua: «Uma quadra popular /não, não é arte menor;/engana-se quem achar/que é uma coisa sem valor. /Quando feita com talento /a quadra pode captar/a beleza dum momento/ perfeitamente invulgar.»

Os poemas do livro oscilam entre o «eu» e o «nós», entre o privado e o público, entre o particular e o geral. O poeta fala de si para falar dos outros e dos outros para falar de si. A quadra da página 28 recorda: «Na Beira Baixa nasci/numa paisagem tão dura! /Das muitas outras que vi, /quero esta despida e pura.» Na página 45 podemos ler sobre Salgueiro Maia: «Naquela manhã de Abril/ Maia, o nosso anti-herói/pôs fim a um regime vil/chaga velha que inda dói/ Valente e determinado/ e apoiado pelo povo/Maia, homem indomado/fez cair o Estado Novo.» E na página 47 sobre Yasser Arafat: «Nas ruínas da Mukataa/ - o seu quartel-general - /em campa muito pacata/jaz um mito universal. /Muitas vezes foi vencido/Mas nunca foi derrotado/Do seu povo era querido/pelo mundo respeitado./Era o homem do turbante /por Israel combatido /Físico insignificante? /Sim, mas forte e decidido. / Combatente de primeira /contudo sempre acossado /Era o mastro e a bandeira /da Nação-futuro-Estado.»

Mas a quadra pode ser também um lema de vida como na página 49: «Não queiras hoje acabar/um trabalho, uma obra./ Podes muito trabalhar/que o trabalho sempre sobra./Eu sei de fonte segura/que o trabalho não tem fim/Com pressa nada perdura;/ faz com calma…Vai por mim!/ Guarda algo para amanhã/faz com jeito, devagar/ ninguém faz depressa e bem /diz o saber popular.»

(Capa: Hugo Rios, Foto da contracapa: José Manuel Teixeira)

 [Um livro por semana 689]


quinta-feira, 30 de junho de 2022

«A inscrição dos dias – Cartas para Q.» de Pedro Martins

 


Pedro Martins (n.1949) trabalhou na Banca e na edição de livros tendo colaboração na Revista Alentejo e nos jornais Diário de Lisboa, O Ponto, Notícias da Amadora, Diário do Alentejo, Notícias do Sul e Voz do Povo (2ª série). O prefácio adverte o leitor («livro breve que não é ficção, não é história com maiúscula e não é jornalismo») cabendo ao autor na página 70 uma declaração: «Tenho vinte e três anos, estou na guerra e triste. E também não permitirei que ninguém diga que estes são os mais belos anos da minha vida.» Esta citação de Paul Nizan abre espaço para referência a muitos escritores que o autor convoca apesar das 93 páginas: José Rodrigues Miguéis, Aragon, Manuel da Fonseca, Manuel do Nascimento, Antunes da Silva, Carlos de Oliveira, Fernando Pessoa, Jorge Amado, Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Daniel Filipe, Maiakovski, Nicolás Guillén e José Bação Leal mas não só.

O livro parte de uma experiência pessoal: «A Segunda Repartição, a PIDE militar, quis mostrar serviço e violou a correspondência sem brio profissional nem competência. Podiam ter feito desaparecer a carta mas preferiram dizer que a vigilância continua. Rasgaram o envelope, leram a carta, analisaram o conteúdo, talvez o tenham considerado inofensivo ou, mesmo, piegas e deixaram as folhas no saco do correio de Empada.» Mas atinge um olhar sobre a situação geral do País: «Não dá para recuperar a honra perdida dessa instituição que, há muito, constitui o pilar principal desse fascismo rústico, beato, de falinhas mansas, voz esganiçada, amaricada até, que à tortura chama «safanões dados a tempo» e ao campo de concentração, da morte lenta, do Tarrafal, candidamente chama colónia penal, tão bem corporizado por essa figura sinistra que nos chegou de Santa Comba com passagem pelo seminário e Universidade de Coimbra, esse António, esse Oliveira, esse Salazar, esse filho-da-puta» Nesse tempo (1971-1973) havia duas verdades, a oficial e a verdadeira. Oficial: «Por acidente com arma de fogo quando se encontravam de serviço no HMBIS faleceram 02 militares de C. Caçadores.» Verdadeira: Mortos 2 soldados por um outro soldado português internado em Psiquiatria no Hospital Militar de Bissau». O livro «Poesias e Cartas» de José Bação Leal tem um espaço próprio: «Mataram-no em Moçambique, no Hospital de Nampula mas a mãe não o deixou morrer: foi bater à porta dos amigos do filho a quem ele tinha escrito. Juntou cartas aos poemas dele que tinha resgatado do cesto dos papéis para onde ele os atirara e pediu um prefácio a Urbano Tavares Rodrigues.»

(Editora: Parsifal, Prefácio: Francisco Belard. Capa: Pedro Gil. Paginação: Augusto Nunes)

José do Carmo Francisco      [Um livro por semana 688]

 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

«As Batalhas do Caia» de Mário Cláudio

A partir do conto «A Catástrofe», de duas cartas a Ramalho Ortigão, de uma carta de Oliveira Martins e do poema «A Portugal» de Tomás Ribeiro, organiza Mário Cláudio (n.1941) em 153 páginas o romance que Eça de Queirós (1845-1900) planeou e anunciou mas não chegou a concluir. O próprio título sugere um plural que já tinha sido referido na página 55 («os sucessos do Caia») ou na 82 («As batalhas do Caia») mas que noutras páginas (46, 55 e 76) surge no singular como «A Batalha do Caia».Além do título, a ideia de publicar o livro é objecto de reflexão na página 37: «o livro é, por um lado, inoportuno, por outro, um ataque de folha em folha à vizinha Espanha e serve portanto apenas para criar irritação. Por isso era melhor talvez que não se publicasse.» O ponto de partida está na página 152: «a nossa Patriazinha a sofrer tratos de polé às mãos do inimigo tradicional, que assunto melhor, um verdadeiro achado, para espiolhar, se me apetecer?» A mesma Patriazinha pode ser «ditosa pátria» na página 12 ou na página 145 mas aqui na variante «ditosa Pátria».

Não temos em «As Batalhas do Caia» apenas o livro em projecto de Eça de Queirós que Mário Cláudio escreveu «escutando dentro de si a voz de José Maria» como refere a página 153. É Portugal enquanto memória colectiva que estas páginas revelam a partir do percurso particular do multifacetado homem que foi Eça de Queirós: Porto, Lisboa, Coimbra, Évora, Leiria são lugares onde, além de escritor ele foi jornalista e administrador de concelho. Cruzam a narrativa não só as peripécias de Eça de Queirós enquanto cônsul mas outras histórias como por exemplo os vagabundos de Paris que vendem o sangue nos Hospitais ao Instituto Pasteur para voltarem à taberna e a dormir no chão ou Policarpo, herói anónimo que em itálico conta as desventuras dum soldado que é sentinela à porta do Arsenal da Marinha em Lisboa e volta à sua terra: «E ao aparecerem os filhos, uns atrás dos outros, perceberá que está completando a casa que levantaram os avós».

Portugal será no fundo o protagonista deste romance como no aforismo da página 83 («Portugal é como o célebre pescador que desconhecia por completo o nome do próprio filho») ou da página 84 («Portugal é uma alforreca a que nos apetece chamar de medusa») ou na página 14: «Você diverte-me, José porque se diria detestar aquilo que ama em Inglaterra e amar aquilo que detesta em Portugal.» Ficamos por aqui dando razão à frase da página 82: «Não há armistício para as batalhas do Caia». Ou por outras palavras: «Quem leu, leu; quem não leu não sabe o que perdeu.»   

(Editora: Dom Quixote, Edição: Maria do Rosário Pedreira, Capa: Rui Garrido, Revisão: Madalena Escourido)

[Um livro por semana 687]

 

domingo, 15 de maio de 2022

«Pensamentos inconjuntos» de Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro é especialista no estudo do espólio de Fernando Pessoa, tendo publicado sob sua responsabilidade obras deste poeta e pensador na Europa, nos EUA e no Brasil. O seu trajecto nos estudos filosóficos começou em 2011 tendo continuado em 2016 e 2017 (cinco livros ao todo) e tal como refere Cláudia Souza no prefácio «os seus aforismos dialogam de alguma forma com a filosofia do primeiro romantismo alemão.» O autor segue a ideia da Revista Athenaeum («Um fragmento tem de ser como uma pequena obra de arte») e os seus aforismos dialogam com o pensamento de (entre outros) Pascal, Fernando Pessoa, Angelus Silesius, Shakespeare, Kant, Goethe, Beaudelaire, Ortega & Gasset e Miguel de Unamuno.   O ponto de partida está na página 17 («O problema da ciência é que não pensa; o problema da filosofia é que só pensa») continua na 18 («A ciência procura explicações para hipóteses que não justifica; a filosofia procura refutar as hipóteses da ciência por meio de explicações igualmente injustificadas») para concluir na 20: «Perante as hipóteses da ciência e as explicações da filosofia só nos resta dizer como Francisco Sanches e, presumivelmente antes dele, Arcesilau de Pitane: “nem mesmo sei se nada sei”» O precário das conclusões e explicações percebe-se na página 25: «Nada deve aumentar tanto o sentimento de sem-sentido de todas as nossas explicações como verificar que afirmamos num dia aquilo que podemos negar no outro.» Entre a Arte e a Filosofia fica a força do aforismo: «A diferença entre arte e filosofis reside nisto: a arte não exige a verdade daquilo que constrói, enquanto a filosofia exige a verdade mesmo quando desconstrói.» E fica a definição de fragmento: «O fragmento funciona como um simulacro: remete para uma totalidade que não sabemos sequer se existe ou se se pretende que exista.» Conclusão prematura mas possível: «Talvez a salvação esteja na aceitação e fruição possível daquilo que os deuses têm para nos dar, quer existam, quer não.»  

(Edição: Subterrânea – Colectivo Literário, Prefácio: Cláudia Souza)

 [Um livro por semana 686]