quinta-feira, 21 de julho de 2022

«O Fascínio da Quadra» de Manuel Barata


Manuel Barata (n.1952) publica regularmente desde 2003 («Quadras quase populares») sendo este o seu sétimo livro. Não surpreende que um dos poemas deste livro se intitule «Teoria da quadra» e conclua: «Uma quadra popular /não, não é arte menor;/engana-se quem achar/que é uma coisa sem valor. /Quando feita com talento /a quadra pode captar/a beleza dum momento/ perfeitamente invulgar.»

Os poemas do livro oscilam entre o «eu» e o «nós», entre o privado e o público, entre o particular e o geral. O poeta fala de si para falar dos outros e dos outros para falar de si. A quadra da página 28 recorda: «Na Beira Baixa nasci/numa paisagem tão dura! /Das muitas outras que vi, /quero esta despida e pura.» Na página 45 podemos ler sobre Salgueiro Maia: «Naquela manhã de Abril/ Maia, o nosso anti-herói/pôs fim a um regime vil/chaga velha que inda dói/ Valente e determinado/ e apoiado pelo povo/Maia, homem indomado/fez cair o Estado Novo.» E na página 47 sobre Yasser Arafat: «Nas ruínas da Mukataa/ - o seu quartel-general - /em campa muito pacata/jaz um mito universal. /Muitas vezes foi vencido/Mas nunca foi derrotado/Do seu povo era querido/pelo mundo respeitado./Era o homem do turbante /por Israel combatido /Físico insignificante? /Sim, mas forte e decidido. / Combatente de primeira /contudo sempre acossado /Era o mastro e a bandeira /da Nação-futuro-Estado.»

Mas a quadra pode ser também um lema de vida como na página 49: «Não queiras hoje acabar/um trabalho, uma obra./ Podes muito trabalhar/que o trabalho sempre sobra./Eu sei de fonte segura/que o trabalho não tem fim/Com pressa nada perdura;/ faz com calma…Vai por mim!/ Guarda algo para amanhã/faz com jeito, devagar/ ninguém faz depressa e bem /diz o saber popular.»

(Capa: Hugo Rios, Foto da contracapa: José Manuel Teixeira)

 [Um livro por semana 689]


quinta-feira, 30 de junho de 2022

«A inscrição dos dias – Cartas para Q.» de Pedro Martins

 


Pedro Martins (n.1949) trabalhou na Banca e na edição de livros tendo colaboração na Revista Alentejo e nos jornais Diário de Lisboa, O Ponto, Notícias da Amadora, Diário do Alentejo, Notícias do Sul e Voz do Povo (2ª série). O prefácio adverte o leitor («livro breve que não é ficção, não é história com maiúscula e não é jornalismo») cabendo ao autor na página 70 uma declaração: «Tenho vinte e três anos, estou na guerra e triste. E também não permitirei que ninguém diga que estes são os mais belos anos da minha vida.» Esta citação de Paul Nizan abre espaço para referência a muitos escritores que o autor convoca apesar das 93 páginas: José Rodrigues Miguéis, Aragon, Manuel da Fonseca, Manuel do Nascimento, Antunes da Silva, Carlos de Oliveira, Fernando Pessoa, Jorge Amado, Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Daniel Filipe, Maiakovski, Nicolás Guillén e José Bação Leal mas não só.

O livro parte de uma experiência pessoal: «A Segunda Repartição, a PIDE militar, quis mostrar serviço e violou a correspondência sem brio profissional nem competência. Podiam ter feito desaparecer a carta mas preferiram dizer que a vigilância continua. Rasgaram o envelope, leram a carta, analisaram o conteúdo, talvez o tenham considerado inofensivo ou, mesmo, piegas e deixaram as folhas no saco do correio de Empada.» Mas atinge um olhar sobre a situação geral do País: «Não dá para recuperar a honra perdida dessa instituição que, há muito, constitui o pilar principal desse fascismo rústico, beato, de falinhas mansas, voz esganiçada, amaricada até, que à tortura chama «safanões dados a tempo» e ao campo de concentração, da morte lenta, do Tarrafal, candidamente chama colónia penal, tão bem corporizado por essa figura sinistra que nos chegou de Santa Comba com passagem pelo seminário e Universidade de Coimbra, esse António, esse Oliveira, esse Salazar, esse filho-da-puta» Nesse tempo (1971-1973) havia duas verdades, a oficial e a verdadeira. Oficial: «Por acidente com arma de fogo quando se encontravam de serviço no HMBIS faleceram 02 militares de C. Caçadores.» Verdadeira: Mortos 2 soldados por um outro soldado português internado em Psiquiatria no Hospital Militar de Bissau». O livro «Poesias e Cartas» de José Bação Leal tem um espaço próprio: «Mataram-no em Moçambique, no Hospital de Nampula mas a mãe não o deixou morrer: foi bater à porta dos amigos do filho a quem ele tinha escrito. Juntou cartas aos poemas dele que tinha resgatado do cesto dos papéis para onde ele os atirara e pediu um prefácio a Urbano Tavares Rodrigues.»

(Editora: Parsifal, Prefácio: Francisco Belard. Capa: Pedro Gil. Paginação: Augusto Nunes)

José do Carmo Francisco      [Um livro por semana 688]

 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

«As Batalhas do Caia» de Mário Cláudio

A partir do conto «A Catástrofe», de duas cartas a Ramalho Ortigão, de uma carta de Oliveira Martins e do poema «A Portugal» de Tomás Ribeiro, organiza Mário Cláudio (n.1941) em 153 páginas o romance que Eça de Queirós (1845-1900) planeou e anunciou mas não chegou a concluir. O próprio título sugere um plural que já tinha sido referido na página 55 («os sucessos do Caia») ou na 82 («As batalhas do Caia») mas que noutras páginas (46, 55 e 76) surge no singular como «A Batalha do Caia».Além do título, a ideia de publicar o livro é objecto de reflexão na página 37: «o livro é, por um lado, inoportuno, por outro, um ataque de folha em folha à vizinha Espanha e serve portanto apenas para criar irritação. Por isso era melhor talvez que não se publicasse.» O ponto de partida está na página 152: «a nossa Patriazinha a sofrer tratos de polé às mãos do inimigo tradicional, que assunto melhor, um verdadeiro achado, para espiolhar, se me apetecer?» A mesma Patriazinha pode ser «ditosa pátria» na página 12 ou na página 145 mas aqui na variante «ditosa Pátria».

Não temos em «As Batalhas do Caia» apenas o livro em projecto de Eça de Queirós que Mário Cláudio escreveu «escutando dentro de si a voz de José Maria» como refere a página 153. É Portugal enquanto memória colectiva que estas páginas revelam a partir do percurso particular do multifacetado homem que foi Eça de Queirós: Porto, Lisboa, Coimbra, Évora, Leiria são lugares onde, além de escritor ele foi jornalista e administrador de concelho. Cruzam a narrativa não só as peripécias de Eça de Queirós enquanto cônsul mas outras histórias como por exemplo os vagabundos de Paris que vendem o sangue nos Hospitais ao Instituto Pasteur para voltarem à taberna e a dormir no chão ou Policarpo, herói anónimo que em itálico conta as desventuras dum soldado que é sentinela à porta do Arsenal da Marinha em Lisboa e volta à sua terra: «E ao aparecerem os filhos, uns atrás dos outros, perceberá que está completando a casa que levantaram os avós».

Portugal será no fundo o protagonista deste romance como no aforismo da página 83 («Portugal é como o célebre pescador que desconhecia por completo o nome do próprio filho») ou da página 84 («Portugal é uma alforreca a que nos apetece chamar de medusa») ou na página 14: «Você diverte-me, José porque se diria detestar aquilo que ama em Inglaterra e amar aquilo que detesta em Portugal.» Ficamos por aqui dando razão à frase da página 82: «Não há armistício para as batalhas do Caia». Ou por outras palavras: «Quem leu, leu; quem não leu não sabe o que perdeu.»   

(Editora: Dom Quixote, Edição: Maria do Rosário Pedreira, Capa: Rui Garrido, Revisão: Madalena Escourido)

[Um livro por semana 687]

 

domingo, 15 de maio de 2022

«Pensamentos inconjuntos» de Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro é especialista no estudo do espólio de Fernando Pessoa, tendo publicado sob sua responsabilidade obras deste poeta e pensador na Europa, nos EUA e no Brasil. O seu trajecto nos estudos filosóficos começou em 2011 tendo continuado em 2016 e 2017 (cinco livros ao todo) e tal como refere Cláudia Souza no prefácio «os seus aforismos dialogam de alguma forma com a filosofia do primeiro romantismo alemão.» O autor segue a ideia da Revista Athenaeum («Um fragmento tem de ser como uma pequena obra de arte») e os seus aforismos dialogam com o pensamento de (entre outros) Pascal, Fernando Pessoa, Angelus Silesius, Shakespeare, Kant, Goethe, Beaudelaire, Ortega & Gasset e Miguel de Unamuno.   O ponto de partida está na página 17 («O problema da ciência é que não pensa; o problema da filosofia é que só pensa») continua na 18 («A ciência procura explicações para hipóteses que não justifica; a filosofia procura refutar as hipóteses da ciência por meio de explicações igualmente injustificadas») para concluir na 20: «Perante as hipóteses da ciência e as explicações da filosofia só nos resta dizer como Francisco Sanches e, presumivelmente antes dele, Arcesilau de Pitane: “nem mesmo sei se nada sei”» O precário das conclusões e explicações percebe-se na página 25: «Nada deve aumentar tanto o sentimento de sem-sentido de todas as nossas explicações como verificar que afirmamos num dia aquilo que podemos negar no outro.» Entre a Arte e a Filosofia fica a força do aforismo: «A diferença entre arte e filosofis reside nisto: a arte não exige a verdade daquilo que constrói, enquanto a filosofia exige a verdade mesmo quando desconstrói.» E fica a definição de fragmento: «O fragmento funciona como um simulacro: remete para uma totalidade que não sabemos sequer se existe ou se se pretende que exista.» Conclusão prematura mas possível: «Talvez a salvação esteja na aceitação e fruição possível daquilo que os deuses têm para nos dar, quer existam, quer não.»  

(Edição: Subterrânea – Colectivo Literário, Prefácio: Cláudia Souza)

 [Um livro por semana 686]


sábado, 30 de abril de 2022

«ente» de António Ferra

O mais recente livro de António Ferra (n.1947) parte do lamento do poeta (ele mesmo) «querem-me mais número de senha que gente» mas mesmo quando lhe dizem que «os poemas são inúteis» ele recomeça porque «um gajo tem de se preparar para a vida eterna».

 O mal-estar do Mundo surge reflectido pelo sujeito do poema: «Ao sábado não trabalho, levanto-me ao meio dia, vale-me o café tardio ao lado dos filósofos de bairro de niilismo em sacos de plástico.» Como solução há uma proposta: «O melhor é ouvir contar uma história / como a daquele trovador de bairro ao terceiro copo / a falar da trela da tia extensível / a passear o cão à noite / de vocabulário a condizer com os sapatos.»

Entre o Amor e a Morte o poema adverte: «basta uma faúlha, um
cigarro mal apagado, uma faísca de raiva logo ardem gritos abafados pelas sílabas do fim»

(Impressão: Gráfica 99, Composição: Pedro Serpa, Desenho: do autor)

[Um livro por semana 685]


quinta-feira, 21 de abril de 2022

«Poemas vadios» de Álamo Oliveira


Autor multifacetado (poesia, romance, conto, teatro, ensaio) Álamo Oliveira (n.1945) surge em novo livro de 3 sequências (Dispersos, Restos, Senil idade) e 69 páginas, cujo ponto de partida é uma reflexão sobre a Poesia e o Mundo: «o que há mais no mundo/são cemitérios de versos/ todos os dias aparecem /versos e mais versos /todos mortos enterrados em livros /no entanto a poesia é contentamento indizível /afecto com carácter de urgência /grito disparado na direcção da liberdade /silêncio em voo de espanto /por isso os versos morrem sempre que alguém os afoga no papel»

A reflexão é do Poeta, ele mesmo: «tremo de medo se a ilha tremer /sinto que a alma sai dentro de mim /cismo que o sismo tem mais que fazer / ai quem me dera ser tempo sem fim. /casas caídas são dores na rua /paira a tristeza sobre o seu olhar /tombam as telhas no colo da lua /a ilha chora nas águas do mar. /esse tremor é pior do que a guerra /é um punhado de pedras de dor / mas uma esperança do ventre da terra /sai a cantar muitos versos de amor.»

Na sequência de nove poemas que começam todos do mesmo modo («perdi a poesia») o da página 34 resiste («perder não é morrer») e o da página 46 faz a ligação ao Amor: «ninguém sabe que os seus olhos /são duas ilhas azuis /a flutuar na liberdade /das palavras e dos amores»

Na sequência final um dos poemas interroga («depois da morte para que serve o medo?») e o último afirma: «O poeta vai continuar a cultivar a veleidade /de que tudo seria mais triste /se não andasse a rimar o pavor da morte /com o sossego infinito do além»

(Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Assistência editorial: Sara Santos, Capa e foto: Rui Melo, Grafismo: Rui Belo)

 [Um livro por semana 684]


quinta-feira, 31 de março de 2022

«Pensamentos» de Giacomo Leopardi

Giacomo Leopardi (1798-1837) é um poeta italiano cujo trabalho teve traduções de nomes como Agostinho da Silva, Albano Martins, Margarida Periquito e Miguel Serras Pereira. Na linha de La Bruyére, Montaigne ou La Rochefoucauld, este volume de 165 páginas integra 111 pensamentos no que em termos simples podemos considerar «moralismo». Vejamos a página 11: «Digo que o mundo é uma liga de malandros contra os homens de bem, de vis contra os generosos.» Na mesma linha se pode ler na página 149: «O homem é quase sempre tão malvado quanto lhe convém.» E na mesma página esta ideia: «É curioso observar que quase todos os homens de muito valor são simples de maneiras e que quase sempre as maneiras simples são tomadas por um indício de pouco valor.»

Na página 91 se lê: «Diz La Bruyére uma grande verdade: que é mais fácil um livro medíocre ganhar fama em virtude de uma reputação já adquirida pelo autor do que um autor ganhar reputação por meio de um livro excelente.» E na página 19 «o costume do século é imprimir-se muito e nada se ler.» Sobre o temor da morte e o desejo de velhice lê-se na página 23: «A morte não é um mal porque liberta o homem de todos os males e juntamente com os bens lhe tira os desejos. A velhice é um mal supremo porque priva o homem de todos os prazeres deixando-lhe porém os apetites e trazendo consigo todas as dores.»

Sobre o quotidiano esta ideia: «Um dos graves erros em que incorrem diariamente os homens é o se acreditarem que os outros guardem segredo.» E outra sobre penas e honras: «Tal como as cadeias e as galés estão cheias de pessoas que se declaram absolutamente inocentes, também os cargos públicos e as honrarias de toda a espécie não são exercidas senão por pessoas chamadas para tal e mau grado obrigadas a fazê-lo.»

Sobre ler e escrever uma curiosa opinião: «hoje que todos escrevem e que não há nada mais difícil do que encontrar quem não seja autor, tornou-se um flagelo o vício de ler ou declamar aos outros as próprias composições.» Sobre a felicidade humana lê-se na página 55: «Os homens são infelizes por necessidade e resolutos a julgarem-se infelizes por acidente.» Sobre o tédio está na página 97: «O tédio é, de alguma forma, o mais sublime dos sentimentos.»

Fiquemos por aqui: «Quem nunca saiu de lugares pequenos onde reinam pequenas ambições e avareza vulgar com um ódio intenso de cada um contra cada qual, toma por fábula os grandes vícios bem como as virtudes sociais sólidas e sinceras. Julga a amizade coisa pertencente aos poemas e às histórias, não à vida. E engana-se.»

(Edições do Saguão, Tradução: Andrea Ragusa e Ana Cláudia Santos, Ensaio: Rolando Damiani, Capa: Desenho de Miguel Ferreira, Paginação e capa: Rui Miguel Ribeiro, Revisão: Mariana Pinto dos Santos e Rui Miguel Ribeiro)

 [Um livro por semana 683]

 

domingo, 13 de março de 2022

«A solidão é como o vento» de Graça Pires


Depois de «Espaço livre com barcos», «Uma claridade que cega» e «Fui quase todas as mulheres de Modigliani», Graça Pires volta a publicar na «Poética Edições» quase 30 anos depois do seu primeiro livro («Poemas») que recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. A partir de citações de Herberto Helder e Adonis, o livro de 61 páginas nasce do que podemos designar como poema-resumo: «Encontrou-o à entrada do deserto/absorto, como se conhecesse/todas as invocações do silêncio. /Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento/pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.»

A solidão do título do livro pode surgir expressa no masculino («Sobre os seus ombros apenas a noite/sempre tão húmida, sempre tão humilhante») mas também no feminino: «Grávida da noite /soube desde logo/que o filho não iria pertencer-lhe. /Adoptaram-no./Antes de o entregar/ela lavou-o demoradamente/com as próprias lágrimas.»

Os poemas são registos qualificados daquilo a que chamamos «vida»: «A superstição é ignorância/diziam-lhe os amigos/ Ela enumerava os medos/que lhe habitavam os gestos:/espelhos quebrados/facas cruzadas, gatos pretos/ uma progressão de alarmes/abrigado na memória/pressentindo catástrofes e azares.» Ou ainda do que podemos chamar «amor»: «Rasgou o retrato em pedaços/Enviara-lho uma amiga/ do grupo do ginásio: ele ao lado deles. /Não gostou. /Ainda tinha no sangue /a vertigem solar /do corpo que amara.» Umas vezes o poema fecha-se no «eu»: «Não frequentou a escola/no tempo de criança que lhe coube. /O trabalho instalou-se desde sempre /na orfandade de suas mãos.»Outras vezes abre-se ao grupo, ao «nós»: «O jantar estava excelente/disseram seus amigos/voltando a encher os copos. /Um rumor de vindimas/propagou-se pela sala.»

Cada poema faz a crónica de uma solidão. Seja na página 42 («Elas retêm múltiplas memórias/que definem a vida que lhes coube.» ou seja n página 47: «Procurou a cicatriz dos dias, o risco da vida/e da morte, o choro dos filhos nas horas aflitas». Mas também a confusão entre Arte e Vida na página 50: «E quanta mágoa no olhar do avô /quando o neto lhe disse em arremesso:/mas isto não é um cavalo a sério, como eu queria.»

(Poética Edições)

 [Um livro por semana 682]

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

«Herdeiro Universal» de José Correia Tavares


Este primeiro livro póstumo de José Correia Tavares (1938-2018) integra nas suas 96 páginas uma divisão com o título de «Cronista da Reino» mostrando que o autor perfila lado a lado (dito de modo simples) o «eu» e o «nós», tal como assinala Mário de Carvalho no prefácio: «junta nos seus versos o absurdo, a ternura, o espanto, a ironia e o sarcasmo». O título do volume está na página 21: «Facturando Bem e Mal/Erecto, só duas pernas/Sou herdeiro universal/Desde o tempo das cavernas».

O poeta apresenta-se em três quadras. Primeira - «Em todo e qualquer momento/Mas sempre de face nua/A mim é que represento/No grande palco da rua.» Segunda - «Por muito gostar de ti/Também pela poesia/Olhei coisas que não vi/Vi coisas que nem havia.» Terceira - «No fim de longa romagem/Por terras que nem sabia/Encontrei a personagem/Da minha biografia.»

Portugal está noutras três. Primeira - «Desde Beja até Marvão/Barros e areias sem nome/São estas terras de pão/Também aquelas da fome.» Segunda - «Ao leme perdeu o norte/Coisa com coisa não diz/Merecia melhor sorte/Este barco – meu país.» Terceira - «Versos que passo ao papel /Com nível, fio de prumo/Doces ou sabendo a fel/O meu país em resumo.»

Entre o Poeta e o País surge a Poesia em mais quadras. Primeira - «Nem sei se isto te magoa/Tanta obra publicada/Basta um livro do Pessoa/Para não valeres nada.» Segunda - «Autoria veneranda /Ou um estilo mais leve/só a palavra comanda /Não quem os livros escreve.» Terceira - «Se achasse não ser nada/O que faço em poesia/Adeus já noite fechada/Nunca mais ninguém me via.»

A cultura está representada em mais três quadras. Primeira - «Eu prefiro a alegria/mais pimba dos arraiais/À grande sensaboria/Destes serões culturais.» Segunda - «O ter dito bem de mim/Deixou-me desconfiado/Elogio dum Caim/Não é letra do meu fado.» Terceira - «É bem do povo miúdo/Minha seiva elaborada/Doutor só pelo canudo/Valeria pouco ou nada.»

Fica a chamada de atenção para um livro fascinante e singular no qual a Morte, as Artes e Letras, o Amor e até o Futebol surgem em quadras certeiras de um trabalho que continua: «Retiro do meu tear/Manta jamais concluída/O fio para enfiar/As contas que deito à vida.»

(Editora: adab Edições Húmus, Prefácio: Mário de Carvalho, Capa: Natércia Tavares, Apoio: Município de Gouveia)     

[Um livro por semana 681]

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

«A Mãe» de Maximo Gorki

 


A Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto celebra os 100 anos da Revolução Socialista de Outubro e os 150 anos do nascimento de Maximo Gorki  (1868-1936) publicando «A Mãe», edição fac-símile da edição portuguesa (Bertrand) em 1907 com sobrecapas originais de Ana Biscaia, Augusto Baptista, Emerenciano Rodrigues, Inma Doval Porto, João Bicker, Júlia Pintão, Luís Mendonça e Roberto Machado.

«A Mãe» é um livro de 1906, um clássico, romance lido pelas mais variadas gerações nas mais diversas geografias. Pélagué parece ser uma mãe como as outras («as mães não desejam senão afagos») mas é algo mais; perante a prisão do filho, oferece-se para introduzir panfletos na fábrica: «Hão-de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os atinge!». O seu comportamento assenta na ideia central do Cristianismo: «creio em Jesus Cristo e nas suas palavras – Amar o próximo como a nós mesmos». Os motivos da prisão de Pavel estão na página 14: «Leio livros proibidos. Proíbem a sua leitura porque dizem a verdade da nossa vida, da vida do povo.» Mas não foram só os livros que o levaram à prisão, também os discursos e as ideias. Vejamos uma afirmação: «Somos nós que construímos as igrejas e as fábricas, que fundimos o dinheiro. Sempre e em toda a parte somos os primeiros no trabalho enquanto nos atiram para os últimos lugares da vida.» e uma conclusão: «não somos idiotas nem brutos, não queremos só comer mas também viver como é próprio dos homens.»

Num livro de 431 páginas o protagonismo não é apenas de Pélagué e Pavel. Vivem e falam neste romance entre outros André, Fedia, Natacha, Maria, Iegór, Sachenka, Rybine e Nicolao. Apenas uma voz difere do tom geral, Isaías, operário com mentalidade de patrão: «Se eu governasse mandava enforcar o teu filho para lhe ensinar a não desnortear o povo.»

Fiquemos com a página 129. «Onde estão os felizes?» Isto porque todos os livros poderiam te como título «Onde está a felicidade» mas Camilo Castelo Branco já o escreveu primeiro…

(Editora: AJHLP, tradução: S. Persky, Versão portuguesa: Augusto de Lacerda, edição original: Antiga Casa Bertrand 1907, Capa: Emerenciano Rodrigues)

[Um livro por semana 680]