quinta-feira, 31 de março de 2022

«Pensamentos» de Giacomo Leopardi

Giacomo Leopardi (1798-1837) é um poeta italiano cujo trabalho teve traduções de nomes como Agostinho da Silva, Albano Martins, Margarida Periquito e Miguel Serras Pereira. Na linha de La Bruyére, Montaigne ou La Rochefoucauld, este volume de 165 páginas integra 111 pensamentos no que em termos simples podemos considerar «moralismo». Vejamos a página 11: «Digo que o mundo é uma liga de malandros contra os homens de bem, de vis contra os generosos.» Na mesma linha se pode ler na página 149: «O homem é quase sempre tão malvado quanto lhe convém.» E na mesma página esta ideia: «É curioso observar que quase todos os homens de muito valor são simples de maneiras e que quase sempre as maneiras simples são tomadas por um indício de pouco valor.»

Na página 91 se lê: «Diz La Bruyére uma grande verdade: que é mais fácil um livro medíocre ganhar fama em virtude de uma reputação já adquirida pelo autor do que um autor ganhar reputação por meio de um livro excelente.» E na página 19 «o costume do século é imprimir-se muito e nada se ler.» Sobre o temor da morte e o desejo de velhice lê-se na página 23: «A morte não é um mal porque liberta o homem de todos os males e juntamente com os bens lhe tira os desejos. A velhice é um mal supremo porque priva o homem de todos os prazeres deixando-lhe porém os apetites e trazendo consigo todas as dores.»

Sobre o quotidiano esta ideia: «Um dos graves erros em que incorrem diariamente os homens é o se acreditarem que os outros guardem segredo.» E outra sobre penas e honras: «Tal como as cadeias e as galés estão cheias de pessoas que se declaram absolutamente inocentes, também os cargos públicos e as honrarias de toda a espécie não são exercidas senão por pessoas chamadas para tal e mau grado obrigadas a fazê-lo.»

Sobre ler e escrever uma curiosa opinião: «hoje que todos escrevem e que não há nada mais difícil do que encontrar quem não seja autor, tornou-se um flagelo o vício de ler ou declamar aos outros as próprias composições.» Sobre a felicidade humana lê-se na página 55: «Os homens são infelizes por necessidade e resolutos a julgarem-se infelizes por acidente.» Sobre o tédio está na página 97: «O tédio é, de alguma forma, o mais sublime dos sentimentos.»

Fiquemos por aqui: «Quem nunca saiu de lugares pequenos onde reinam pequenas ambições e avareza vulgar com um ódio intenso de cada um contra cada qual, toma por fábula os grandes vícios bem como as virtudes sociais sólidas e sinceras. Julga a amizade coisa pertencente aos poemas e às histórias, não à vida. E engana-se.»

(Edições do Saguão, Tradução: Andrea Ragusa e Ana Cláudia Santos, Ensaio: Rolando Damiani, Capa: Desenho de Miguel Ferreira, Paginação e capa: Rui Miguel Ribeiro, Revisão: Mariana Pinto dos Santos e Rui Miguel Ribeiro)

 [Um livro por semana 683]

 

domingo, 13 de março de 2022

«A solidão é como o vento» de Graça Pires


Depois de «Espaço livre com barcos», «Uma claridade que cega» e «Fui quase todas as mulheres de Modigliani», Graça Pires volta a publicar na «Poética Edições» quase 30 anos depois do seu primeiro livro («Poemas») que recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. A partir de citações de Herberto Helder e Adonis, o livro de 61 páginas nasce do que podemos designar como poema-resumo: «Encontrou-o à entrada do deserto/absorto, como se conhecesse/todas as invocações do silêncio. /Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento/pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.»

A solidão do título do livro pode surgir expressa no masculino («Sobre os seus ombros apenas a noite/sempre tão húmida, sempre tão humilhante») mas também no feminino: «Grávida da noite /soube desde logo/que o filho não iria pertencer-lhe. /Adoptaram-no./Antes de o entregar/ela lavou-o demoradamente/com as próprias lágrimas.»

Os poemas são registos qualificados daquilo a que chamamos «vida»: «A superstição é ignorância/diziam-lhe os amigos/ Ela enumerava os medos/que lhe habitavam os gestos:/espelhos quebrados/facas cruzadas, gatos pretos/ uma progressão de alarmes/abrigado na memória/pressentindo catástrofes e azares.» Ou ainda do que podemos chamar «amor»: «Rasgou o retrato em pedaços/Enviara-lho uma amiga/ do grupo do ginásio: ele ao lado deles. /Não gostou. /Ainda tinha no sangue /a vertigem solar /do corpo que amara.» Umas vezes o poema fecha-se no «eu»: «Não frequentou a escola/no tempo de criança que lhe coube. /O trabalho instalou-se desde sempre /na orfandade de suas mãos.»Outras vezes abre-se ao grupo, ao «nós»: «O jantar estava excelente/disseram seus amigos/voltando a encher os copos. /Um rumor de vindimas/propagou-se pela sala.»

Cada poema faz a crónica de uma solidão. Seja na página 42 («Elas retêm múltiplas memórias/que definem a vida que lhes coube.» ou seja n página 47: «Procurou a cicatriz dos dias, o risco da vida/e da morte, o choro dos filhos nas horas aflitas». Mas também a confusão entre Arte e Vida na página 50: «E quanta mágoa no olhar do avô /quando o neto lhe disse em arremesso:/mas isto não é um cavalo a sério, como eu queria.»

(Poética Edições)

 [Um livro por semana 682]

 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

«Herdeiro Universal» de José Correia Tavares


Este primeiro livro póstumo de José Correia Tavares (1938-2018) integra nas suas 96 páginas uma divisão com o título de «Cronista da Reino» mostrando que o autor perfila lado a lado (dito de modo simples) o «eu» e o «nós», tal como assinala Mário de Carvalho no prefácio: «junta nos seus versos o absurdo, a ternura, o espanto, a ironia e o sarcasmo». O título do volume está na página 21: «Facturando Bem e Mal/Erecto, só duas pernas/Sou herdeiro universal/Desde o tempo das cavernas».

O poeta apresenta-se em três quadras. Primeira - «Em todo e qualquer momento/Mas sempre de face nua/A mim é que represento/No grande palco da rua.» Segunda - «Por muito gostar de ti/Também pela poesia/Olhei coisas que não vi/Vi coisas que nem havia.» Terceira - «No fim de longa romagem/Por terras que nem sabia/Encontrei a personagem/Da minha biografia.»

Portugal está noutras três. Primeira - «Desde Beja até Marvão/Barros e areias sem nome/São estas terras de pão/Também aquelas da fome.» Segunda - «Ao leme perdeu o norte/Coisa com coisa não diz/Merecia melhor sorte/Este barco – meu país.» Terceira - «Versos que passo ao papel /Com nível, fio de prumo/Doces ou sabendo a fel/O meu país em resumo.»

Entre o Poeta e o País surge a Poesia em mais quadras. Primeira - «Nem sei se isto te magoa/Tanta obra publicada/Basta um livro do Pessoa/Para não valeres nada.» Segunda - «Autoria veneranda /Ou um estilo mais leve/só a palavra comanda /Não quem os livros escreve.» Terceira - «Se achasse não ser nada/O que faço em poesia/Adeus já noite fechada/Nunca mais ninguém me via.»

A cultura está representada em mais três quadras. Primeira - «Eu prefiro a alegria/mais pimba dos arraiais/À grande sensaboria/Destes serões culturais.» Segunda - «O ter dito bem de mim/Deixou-me desconfiado/Elogio dum Caim/Não é letra do meu fado.» Terceira - «É bem do povo miúdo/Minha seiva elaborada/Doutor só pelo canudo/Valeria pouco ou nada.»

Fica a chamada de atenção para um livro fascinante e singular no qual a Morte, as Artes e Letras, o Amor e até o Futebol surgem em quadras certeiras de um trabalho que continua: «Retiro do meu tear/Manta jamais concluída/O fio para enfiar/As contas que deito à vida.»

(Editora: adab Edições Húmus, Prefácio: Mário de Carvalho, Capa: Natércia Tavares, Apoio: Município de Gouveia)     

[Um livro por semana 681]

 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

«A Mãe» de Maximo Gorki

 


A Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto celebra os 100 anos da Revolução Socialista de Outubro e os 150 anos do nascimento de Maximo Gorki  (1868-1936) publicando «A Mãe», edição fac-símile da edição portuguesa (Bertrand) em 1907 com sobrecapas originais de Ana Biscaia, Augusto Baptista, Emerenciano Rodrigues, Inma Doval Porto, João Bicker, Júlia Pintão, Luís Mendonça e Roberto Machado.

«A Mãe» é um livro de 1906, um clássico, romance lido pelas mais variadas gerações nas mais diversas geografias. Pélagué parece ser uma mãe como as outras («as mães não desejam senão afagos») mas é algo mais; perante a prisão do filho, oferece-se para introduzir panfletos na fábrica: «Hão-de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os atinge!». O seu comportamento assenta na ideia central do Cristianismo: «creio em Jesus Cristo e nas suas palavras – Amar o próximo como a nós mesmos». Os motivos da prisão de Pavel estão na página 14: «Leio livros proibidos. Proíbem a sua leitura porque dizem a verdade da nossa vida, da vida do povo.» Mas não foram só os livros que o levaram à prisão, também os discursos e as ideias. Vejamos uma afirmação: «Somos nós que construímos as igrejas e as fábricas, que fundimos o dinheiro. Sempre e em toda a parte somos os primeiros no trabalho enquanto nos atiram para os últimos lugares da vida.» e uma conclusão: «não somos idiotas nem brutos, não queremos só comer mas também viver como é próprio dos homens.»

Num livro de 431 páginas o protagonismo não é apenas de Pélagué e Pavel. Vivem e falam neste romance entre outros André, Fedia, Natacha, Maria, Iegór, Sachenka, Rybine e Nicolao. Apenas uma voz difere do tom geral, Isaías, operário com mentalidade de patrão: «Se eu governasse mandava enforcar o teu filho para lhe ensinar a não desnortear o povo.»

Fiquemos com a página 129. «Onde estão os felizes?» Isto porque todos os livros poderiam te como título «Onde está a felicidade» mas Camilo Castelo Branco já o escreveu primeiro…

(Editora: AJHLP, tradução: S. Persky, Versão portuguesa: Augusto de Lacerda, edição original: Antiga Casa Bertrand 1907, Capa: Emerenciano Rodrigues)

[Um livro por semana 680]

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

«José Afonso ao vivo» de Adelino Gomes


Trata-se aqui de um belíssimo livro/disco de 84 páginas com dois CDs e um LP dos concertos de José Afonso em Coimbra (4-5-68) e Carreço (23-2-80). Adelino Gomes (n.1944) chamou-lhe «Uma fagulha colectiva» embora na página 3 se leia «Zeca Afonso inédito» e na capa se leia «José Afonso do vivo». O trabalho deste livro/disco confirma em pleno as palavras de Jacinto Baptista em 1978 no jornal «Diário Popular»: «O jornalista é o historiador do quotidiano». Na verdade Adelino Gomes estava no Cais da Rocha Conde de Óbidos em 9-9-67 e queria entrevistar José Afonso (1929-1987) para o programa PBX no RCP mas a primeira resposta é adversativa: «Porquê? Para quê? Deixei-me dessas coisas. Importantes, umas cantiguetas?» . Adelino Gomes não desiste e recorre a fotografias, recortes de jornais, cartazes, ofícios da GNR, ofícios da PIDE, cartas, bilhetes para espectáculos, convites, recados. Assim organiza uma reportagem, o mesmo é dizer, uma cartografia sentimental dum certo tempo português exacto e definido.

A primeira parte do livro vai de 9-9-67 (chegada da navio «Angola») a 28-12-68, data do espectáculo na Gruta das Lapas (Torres Novas) com intervenção directa do pároco Amílcar Fialho, natural de Santa Catarina. A segunda parte avança para 28-2-1980 com os pormenores do concerto realizado nesse dia às21h30m na Sociedade Instrução e Recreio de Carreço. O resto está no livro e nenhuma nota de leitura pode substituir. Fiquemos com as palavras finais de Adelino Gomes: «Falei com mais de uma centena e meia de pessoas. Pessoalmente, via telefone e inúmeras vezes por email. Apenas uma pequena parte verá o seu nome citado neste trabalho. Esse foi sempre, enquanto jornalista, um dos meus dramas.»      

Resumir um livro de 84 páginas em 23 linhas também pode ser visto como um drama mas como diz o lugar-comum de todos nós «não há-de ser nada» O importante é que o convite a ler o livro e a ouvir os CDs ou o LP seja aceite porque um caso destes só acontece uma vez na vida.

(Editora: Tradisom, Introdução, investigação e texto: Adelino Gomes, Nota do editor: José Moças. Posfácio: Ricardo Romano, Concerto de Coimbra: Jorge Rino, Concerto de Carreço: Manuel Mina, Design: Rodrigo Madeira, Revisão: Laura Alves, Apoios: Fundação INATEL, Municípios de Coimbra, Torre de Moncorvo, Santo Tirso, Setúbal, Viana do Castelo e Grândola)

[Um livro por semana 679]


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

«A mesa está posta» de Jorge Silva Melo


Depois de «Deixar a vida» (2002) e «Século passado» (2007) Jorge Silva Melo (n.1948) surge com este livro de 407 páginas que é de todo impossível sintetizar em 31 linhas. Crítico de cinema e de teatro, actor, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema, JSM trabalhou como assistente de Peter Stein e Giorgio Strehler, sendo fundador do Teatro da Cornucópia e director do Grupo Artistas Unidos. Bastaria a «saga maldita» dos Artistas Unidos no «Espaço A Capital» para organizar um inventário de acções miseráveis, silêncios criminosos, alheamentos perversos, traições canalhas e mentiras tenebrosas: «Fomos para sítios que detestei como o Teatro Taborda onde nem sequer a chave tínhamos! Depois o Convento das Mónicas onde até nos cortaram a electricidade para nos obrigarem a sair…» A sua paixão pelo Teatro nasceu muito cedo: «Foi lá em cima, no Tivoli entrando pela porta das traseiras, que comecei a ver teatro. Foi por 1958-9, Era uma coisa cá comigo, como se fosse um segredo.» Das suas memórias se pode extrair uma ideia de Teatro: «Um segredo ente o palco e quem, deslumbrado, vê?» Ou sobre a Vida: «Mas não é isso a vida, histórias que vamos inventando nessa vida sempre mais pequena do que o nosso desejo?» Sobre Teatro o autor não pergunta mas declara: «O teatro que me interessa não tem nada, nada, nada mesmo nada a ver nem com a magia nem com as variedades.» E sobre o Cinema, mais adiante: «A minha formação é o cinema, estudei cinema, fiz cinco longas metragens e alguns documentários: em que é que escrever uma peça é diferente de escrever um argumento?» A propósito de «A Estalajadeira» de Carlo Goldoni surge uma ideia: «Sim gosto de ver uma senhora a passar a ferro, gosto do realismo, (…) ingénuo, analítico. E quando penso no teatro é raro não pensar logo em copos, pratos, louças, cadeiras, mesas. Sim, venho daí.» Enda Walsh está na página 159 («Andamos todos à volta do Christy») e Tchékhov na 279: «Querem heróis, heroínas, efeitos cénicos. Mas na vida as pessoas não andam aos tiros nem fazem declarações de amor a toda a hora nem a toda a hora se dizem coisas inteligentes.» Ao lado da vida fica a força da morte: «10 de Agosto, 2018. Sei do suicídio, no Porto, de um actor que não conheci, amigo de amigos. Rapaz ainda, 31 anos. Fiquei tão triste. Chamava-se António Alves Vieira. (Que querem?, sinto culpa por não o ter conhecido, gostava de ter estado com ele, de o ter visto, actor. Porque gostava de o ter honrado naquilo mesmo que fazia, o teatro que quis.) Penso nesse rapaz que não conheci.» Uma nota final para uma paixão antiga: «Volto sempre a Goldoni, nasceu ali um teatro, nasceu um mundo. Não terá sido Goldoni a inventar o sorriso, essa forma que ele tem de acariciar as fraquezas dos homens?» Um livro a não perder.

(Editora: Livros Cotovia, Organização: Leonor Buescu, Foto da capa: Jorge Gonçalves, Paginação: Joana Figueira, Apoios: Fundação Calouste Gulbenkian, Direcção Geral das Artes, Ministério da Cultura)

 [Um livro por semana 678]

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

«O pórtico da Glória» de Mário Cláudio

Depois de «A Quinta das Virtudes» e «Tocata para dois clarins», Mário Cláudio (n.1941) encerra neste livro o chamado «tríptico do sangue da tribo» - um conjunto de romances nos quais a ficção e a realidade se cruzam de modo feliz. Não se trata apenas da vida e da morte de um casal (Diego e Hermínia) nem da cartografia das indústrias organizadas por um natural de Béjar (Espanha) a viver no Porto (bisavô do narrador) mas também, em paralelo, o tempo da cidade tripeira entre os finais do século XIX e o início do século XX, o viver coletivo pois revela  o respirar da cidade, sua paisagem e seu povoamento. O título do volume surge com o sonho da página 70: «Saímos ambos da Igreja do Salvador de Matosinhos, tudo conforme ao que, na realidade, se dera e eis que de repente verifiquei que se abria diante de nós um certo pórtico, por onde eu nunca passei, a não ser em estampas e que é chamado da Glória e que confere acesso à Catedral de Santiago de Compostela.»

O ponto de partida para as 139 páginas é a biografia dos onze filhos que Diego e Hermínia trouxeram ao Mundo. A técnica de conjugar ficção e realidade surge expressa na página 17 («Mas é de clara vantagem para quem escreve, na atenção aos tais incidentes de negligência e dramatismo, com que o acto religioso se preencheu, acrescentar alguma coisa àquilo que quedou por inteiro inventado») e, mais à frente, na 21: «E eu faço com que desapareça agora o austero José e deixo Diogo sozinho, a vaguear por ali, tímido em excesso». Num outro passo se articula de novo esta dupla inscrição: «Chegou a altura de celebrar as núpcias da minha avó Joana II e não encontro caminho para a pena que a arrastará porque junto de nós é que se torna mais difusa a escrita, adulterada pela arbitrariedade das razões que a sustentam.» Um dos aspectos fascinantes deste cruzamento está numa fala da página 65: «…terá a criatura sangue cigano, pois que passa o tempo de terra em terra e nem sabemos donde provém e porque razões se radicou por cá e arrisca-se a mana a que lhe corte ele o pescoço com uma navalha ou a que faça um assado de porco doente que algum lavrador enterrou?». A sombra do grande escritor nascido em Lisboa surge na página 77: «Naquela pequena praça, vizinha dos cenários de mais de um crime hediondo, a que não era alheia a sombra do espectro de Camilo Castelo Branco, principiava assim um entrecho de sucessos e de fracassos, marcado por razoável dose de traições.»

Vencedor do Prémio PEN Clube Português de Narrativa e do Prémio Eça de Queiroz, surge agora em segunda edição. Um livro a não perder por duas grandes razões. Por um lado prova que a Literatura é sempre uma homenagem à Literatura. Por outro lado Mário Cláudio realiza entre memória e ficção um feliz artesanato nestas páginas, juntando de novo tudo o que a morte separou.          

(Editora: Publicações Dom Quixote, Edição: Maria do Rosário Pedreira, Revisão: Madalena Escourido, Capa: Rui Garrido, Retrato original: Fernando Lanhas)

[Um livro por semana 677]


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

«História do Sporting Clube de Portugal» de Luís Augusto Costa Dias com Paulo J.S. Barata

Com o subtítulo de «Uma nova abordagem das origens aos anos Alvalade» este livro de 254 páginas tem o ponto de partida na página 12: «Esta História do Sporting Clube de Portugal é, a vários títulos, nova, antes de mais porque ao inserir a história do clube na história da cultura e do desporto em Portugal, a inscreve na Nova História Cultural, que se coloca no social e radica a análise de factos, pessoas e instituições nos contextos mais amplos das sociedades. Apesar de se tratar de uma nova abordagem, não se pretende fazer aqui uma reescrita de história do Sporting, antes a sua renovação e aperfeiçoamento.» O facto de esta «era» da vida do Clube ser chamada «Anos Alvalade» assenta em Salazar Carreira, conhecido atleta e dirigente que escreveu o seguinte em 1922 no Boletim do SCP: «Quando um dia se escrever a história do nosso clube, já cheia de páginas de glória, ligando intimamente a sua vida à vida do desporto português, salientar-se-á formidavelmente a influência indirecta de José Alvalade no desenvolvimento do desporto nacional.» Afirma-se na página 61 «José Alvalade não foi apenas um criador de instalações desportivas; foi sobretudo um excelente organizador, obstinado, rigoroso, meticuloso. Foi ainda um conceptualizador, um empreendedor e um concretizador de planos. As suas ideias veiculam uma nova noção de desporto e de prática desportiva.» Eis uma citação do seu texto de 1910: «O carácter português é orgulhoso e sobretudo pouco paciente. O seu desideratum é conseguir em pouco tempo, ou para ser mais exacto, é conseguir mais do que pode ser.» Do Sport Club de Belas em 1902 ao Campo Grande Foot-ball Club em 1904 e ao Sporting Clube de Portugal em 1906, é uma «viagem» a não perder.       

(Editora: Contraponto, Edição: Paulo Morais e Raul Couceiro, Revisão: Luísa Pinho e Cristina Dionísio, Design da capa: Diana Cordeiro)

 [Livros e Autores 30]


domingo, 12 de dezembro de 2021

Para acabar de vez com a violência doméstica

Neste trabalho de «Ler e depois» como lhe chamou o ensaísta Óscar Lopes, recebo livros desde Agosto de 1978 quando comecei no «Diário Popular». Estes anos passaram num instante Um dos mais recentes livros que me chegou às mãos foi «Poemas para acabar com a violência doméstica» de Anne Quetzal, edição da Rosmaninho-Editora de Arte de Santarém. O título precipita em mim uma dissertação que engloba a chamada violência contra idosos – a que eu conheço melhor. Um certo jornalismo de castanholas e pandeiretas usa e abusa na Imprensa, na Rádio e na TV da expressão «violência doméstica» aplicada apenas e só a um dos lados da questão como se só existisse agressão da parte do homem contra a mulher ou do jovem contra o mais velho. No caso da chamada violência contra o idoso quero lembrar dois factos do meu conhecimento. Uma senhora de Penedono desloca-se com frequência com a filha e o marido para tratar de análises no Centro de Saúde onde a filha vive. Faz força e finca-pé para levar com ela uma galinha dizendo que «Os ovos do supermercado não prestam e só como ovos da minha galinha!» Claro que os tapetes do automóvel são obrigatoriamente lavados pois o cheiro e a porcaria são insuportáveis. Outro caso é o de um idoso que durante quatro anos recebeu a visita de um dos três filhos todas as segundas feiras para almoçar com ele. A recepção era invariavelmente esta: «Nunca esperei ser tão desprezado!» Com algum esforço se chega à ideia de que ele referia os outros filhos que estavam a trabalhar em Lisboa e não podiam deslocar-se numa segunda-feira de manhã. Conclusão provisória: a violência existe mas tem um sentido muito diferente do que as pandeiretas e as castanholas teimam em afirmar.      

[Crónicas do Tejo 296]


domingo, 28 de novembro de 2021

«O tempo de todas as incertezas» de Álvaro Ribeiro

Álvaro Ribeiro (n.1946) assina este livro de 605 páginas no qual descreve o seu trajecto pessoal a partir da inspecção em Almeirim e da incorporação nas fileiras do Exército em 15-7-1968 nas Caldas da Rainha, passando por Vendas Novas, Tancos, Vila Nova de Gaia e Espinho antes da partida para Moçambique no navio «Vera Cruz».

O Ministro do Exército falava assim em 1961: «Vamos para combater, não contra seres humanos mas contra feras e selvagens. Vamos enfrentar terroristas que devem ser abatidos como animas selvagens.» O Episcopado Português tinha feito uma advertência antes do início das hostilidades em Angola: «Nesta hora em que o Ocidente parece ter perdido a consciência de si mesmo, Portugal é consciente da sua missão evangelizadora e civilizadora e sofre ao ver que ela não é compreendida nem apreciada e até se tenta contestar-lha.» Dito de outra maneira pode ler-se sobre os Portugueses na página 21: «quanto mais distraídos e analfabetos mais controlável era a situação por parte do regime.» Mais à frente a página 27 indica: «Embarcar para a guerra parecia que nada tinha de dramático, tal a regularidade dom que acontecia. Uns chegavam, outros partiam. Era assim o viver das pessoas que se moldavam aos acontecimentos como se não houvesse alternativas. Elas existiam mas não deixavam de ser também dramáticas e traumatizantes.»

Ao lado e em paralelo com o percurso pessoal, o autor integra os nomes dos oficiais, sargentos e praças com os quais se cruzou nas diversas fases (inspecção, recruta, especialidade, formação de batalhão, embarque, viagem, operações no mato, regresso) e torna deste modo este livro num depoimento no plural, uma espécie de cartografia colectiva onde todos os camaradas de armas cabem e se integram.

O livro termina com uma advertência do autor: «As consequências da guerra na sociedade portuguesa constituem um icebergue cuja verdadeira dimensão e carcterísticas ainda ninguém cuidou de avaliar. Entretanto ele flutua à deriva.»

(Editora: Rosmaninho, Capa: Fernando Veríssimo, Colecção: Documentos para a nossa História)

[Um livro por semana 676]