sábado, 17 de agosto de 2019

«Lisboa – Livro de Bordo – vozes, olhares, memorações» de José Cardoso Pires



José Cardoso Pires (1925-1998) escreveu este livro para a EXPO 98 mas a nova edição integra fotos de José Carlos Nascimento (n.1943) que lhe dão aspecto mais apetecível pois como refere Ana Cardoso Pires «Lisboa é uma cidade de que é fácil gostar.» O ponto de partida está na página 16: «Mas ninguém poderá conhecer uma cidade se não a souber interrogar, interrogando-se a si mesmo. Ou seja, se não tentar por conta própria os acasos que a tornam imprevisível e lhe dão mistério da unidade mais dela.» Dito de outra maneira «isto aqui não é só luz e rio, não é só geografia, revelações ou memórias» há cheiros a reconhecer: «o do peixe de sal e barrica nas lojas da Rua do Arsenal, o da maresia a certas horas das docas do Tejo, o do Verão nocturno nos ajardinados da Lapa, o dos armazéns de aprestos marítimos entre Santos e o Cais do Sodré, o do peixe a grelhar em fogareiro à porta dos tascos de recanto ou de travessa, desde o Bairro Alto a Carnide.» Lisboa é também História: «São Vicente, está provado, entrou no Tejo em cadáver navegante sob a guarda de dois corvos. Já ressequido e mirrado, acrescente-se. Já relíquia de sacrário, boca roída, dentes de fora. Chegou nessa figura e embora santo, não teve uma palavra para a cidade que o recebeu.» Do que este livro mais trata é do Amor a Lisboa: «Se fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa», escreveu Fernando Assis Pacheco num poema tonto de luz (a tão citada luz sempre imprevista). De acordo, mas uma cidade de caprichos como esta nunca o sol a pode iluminar por igual. Tem de se lhe afeiçoar aos contornos e aos instintos desordenados.» A tragédia do Chiado (o incêndio) está na página 59: «Hoje quando atravesso esse rosto corrompido de Lisboa vejo-o como uma ferida aberta na nossa memória colectiva. Mais ainda: é um pouco da memória de mim mesmo que ficou destroçada porque também eu subi o Chiado em diferentes idades dos meus livros e com amigos de diferentes gerações.» E continua: «É possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Sim é possível, Mas mais do que as cidades, é sempre um bairro ou um lugar que caracteriza essa definição e a fidelidade tantas vezes inconsciente que lhe dedicamos. O Chiado, neste caso.»

(Editora: Relógio d´Água, Prefácio: Ana Cardoso Pires, Fotografias: José Carlos Nascimento, Revisão: Anabela Prates Carvalho, Capa: Carlos César Vasconcelos)

[Um livro por semana 626]

terça-feira, 6 de agosto de 2019

«O livrinho dos campeões» de António Manuel Venda



Com o subtítulo de «e outras histórias de um adepto do melhor clube do mundo» o livro integra 25 crónicas em 151 páginas, selecionadas por António Manuel Venda (n.1968) que explica na nota final: «Estes textos foram escritos ao longo de muitos anos, desde a segunda metade da década de 1990. São os vinte e cinco selecionados de centenas que escrevi sobre futebol para meios de comunicação social (dois inclusive da minha terra, o Jornal de Monchique e a Rádio Fóia) e também para espaços on-line (como o blog sportinguista És a nossa fé). Com a derradeira revisão feita em Agosto de 2017, surgem no final com referências a acontecimentos a que dizem respeito e com o ano em que foram originalmente escritos.» O presente volume é dedicado aos filhos do autor (Bernardo, Madalena, Francisca e Rodrigo) e à memória de Malcolm Allison (1927-2010) treinador do Sporting Clube de Portugal na época desportiva de 1981/1982. O título do conjunto é retirado do primeiro texto do livro: «A primeira vez em que vi um jogo do Sporting ao vivo foi no Estádio do Portimonense, em Portimão, na memorável época do título com o treinador inglês Malcolm Allison. O resultado está num livrinho de páginas brancas que fui preenchendo a cada dia em que a equipa jogava. Numa entrada de quatro de Abril de 1982 surge a minha letra tremida com o registo de uma surpreendente derrota.» Não é só de vida e de vitória que estas histórias tratam; também se recorda a morte de um sócio «leonino» numa final da Taça de Portugal: «sobre o apito inicial do árbitro, um adepto do Sporting foi atingido no peito por um very light lançado por alguém das claques do Benfica. Teve morte imediata.» Um dos registos deste livro é o do humor, como na página 64: «A verdade é que o árbitro terá ficado pior do que doido ao ver as raparigas a entrarem-lhe pelo quarto adentro. Quase vinte e quatro horas depois o clube haveria de perder o jogo e sem grande exibição do adversário. Muitos comentadores acabariam por falar de uma noite infeliz do árbitro; sem saberem, é claro, que a noite infeliz tinha sido a anterior.» Outro registo é o futuro como na página 127: «Tenho uma fotografia das do telemóvel que invariavelmente me deixa espantado. Um torneio de futebol no Verão de 2014, para miúdos, em Montemor-o-Novo, num campo ao ar livre. Futebol de cinco, já com a noite a cair. Vejo bem o meu filho mais velho nessa fotografia e um pouco afastado dele, um colega. Não têm o equipamento preto do Grupo União Sport.» Uma nota final citando a página 33, talvez o melhor exemplo daquilo que este livro pode proporcionar, ligando o pó e a posteridade: «Numa das fotos a mulher está a encher um garrafão de água na Fonte da Santa, já perto do Alto de Fóia, enquanto Cadorin segura a filha pequenina pela mão. A casa dos meus pais, onde eu vivia então, fica mais abaixo no sopé da montanha. Só na entrevista da filha, mais de vinte anos depois, descobri que ele ia com a família buscar água à minha terra. Quanta energia para os golos terá conseguido assim?»

(Editora: On y va, Capa: João Paulo Fidalgo, Foto: João Andrés, Contracapa: Rodolfo Begonha)  
          
[Um livro por semana 625]

terça-feira, 23 de julho de 2019

«A festa dos caçadores» de Henrique Manuel Bento Fialho



O mais recente livro deste autor (n.1974) tem 327 páginas e integra 119 contos curtos sendo o título retirado da página 10. «A festa dos caçadores» faz a ligação a uma das «chaves» deste livro: a Vida em si não chega e o Cinema é uma resposta ao seu vazio. Por isso o herói se esconde «atrás dos reposteiros da sala» e, depois vê filmes de cowboys, cujos heróis são conhecidos por «Jesse, Johnny, Pat, Billy ou Shane» para além do estranho, obscuro e sombrio «homem da harmónica». E surge uma conclusão: «Crescer é mais ou menos isto: o grito de um índio a dar lugar ao olhar concentrado e criminoso de uma certa noção de justiça.» Natália Correia escreveu «Nasce-se em Setúbal / Nasce-se em Pequim / Eu sou dos Açores / Mas não é assim / A gente só nasce / Quando somos nós / que temos as dores.» O autor refere três lugares para nascer («uma vila do antigo Oeste», «uma capital de aldeias divididas», «uma falésia do esquecimento») mas na página 11 propõe: «Devo ter nascido em Rio Grande.» Já sobre a morte, podemos ler na página 96 «O último desejo de meu pai foi que lhe lessem, uma a uma, As Elegias de Duíno.» e na 97 a conclusão «Morrer abençoado pelos versos de Rilke terá sido morrer de braço dado com a morte, em profunda intimidade com a morte, sem medo, sem ódio, sem solidão, sem esquecimento, com o pouco que há de eterno dentro de nós.» Entre nascer o morrer, uma citação de Wittgenstein explica e situa: «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo.» O ponto de partida das histórias é o espaço de Caldas da Rainha. Por exemplo «Na Praça da República havia um prédio maior que todos os outros» ou «Hoje morreu um homem aqui perto de casa na estrada que liga a rotunda da Fonte Luminosa à rotunda do CENCAL». Ou então «Arnaldo nasceu e foi criado numa aldeia do concelho de Rio Maior chamada Arrouquelas.» e «A Esther tinha a mania que era boa. Conheci-a numa discoteca de Alhandra.» Mas há histórias com livros («As livrarias estão atoladas de livros escritos por pessoas que não resistem à tentação de partilhar com o mundo as experiências traumáticas por que passaram.» e uma conclusão: «Se os livros são como as cerejas, os autores são como os figos: é preciso certo esforço para encontrar os melhores.» Noutra história o ponto de partida é pessoal («Tive em tempos um trabalho que me colocou em contacto com todos os interessados na feitura de um livro») tal como a conclusão: «Ao contrário do que julgam alguns neo-românticos, o melhor de se  trabalhar numa livraria está longe de ser os livros.» Uma outra tem a ver com jornalismo: «Trabalhei durante quatro meses num jornal regional ali para as bandas de Loures. A redacção ficava na Pontinha e o fecho era feito em Alcântara mas o jornal era de Loures.» Outras histórias evocam não a Cidade mas a Região («O negócio deles era o de quase toda a gente na região, a pecuária») não a Vida mas uma metáfora mais complexa da Vida: «O Campo recolheu-se com a criança nos braços. Às vezes lembra-se da Cidade mas ela nunca mais se lembrou do Campo.» Já Eça de Queirós escreveu que «as ocupações humanas tendem a explorar o homem; só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo»

(Editora: Abysmo, Capa: Sal Nunkachov, Revisão: Noémia Machado, Citações: Gustave Flaubert, Teixeira de Pascoaes e Lucia Berlin)

[Um livro por semana 624]

quinta-feira, 11 de julho de 2019

«Veneza pode esperar» de Rita Ferro



Depois de se estrear em 1990 com «O nó na garganta» e de ter publicado romances, crónicas, fotobiografias e literatura infantil, Rita Ferro (n.1955) estreia-se no registo diarístico com este «Veneza pode esperar». O ponto de partida está na página 168: «O meu avô António nasceu há 117 anos – como pode um homem tão moderno ter nascido no século XIX? O João Amaral, da LeYa, desafiou-me a escrever um romance biográfico sobre ele, mas ao fim de meses de tentativas falhadas substituí-o por este diário.» O diário cobre o tempo passado entre Maio e Novembro de 2013 e o título do volume está na página 217. Rita Ferro define-se como uma «sem-terra» da Política: «A esquerda enerva-me por se arrogar de superioridade moral, a direita, por se acreditar socialmente superior, os monárquicos, por acharem que validam os seus pergaminhos prescritos com este pacote suspeito: o fado e as corridas como defesas prioritárias, a religião defendida como uma tribo, o ceptro sem mão que o sustente.» Ao contrário do que escreve na página 201 a autora não «fala sozinha». Este livro de 236 páginas pode ser lido como um coro grego onde cabemos todos e ninguém fica de fora. O ponto de partida para o «coro grego» pode ser uma frase de Woody Allen em «As faces de Harry:« A frase mais bela do mundo não é «amo-te» mas «é benigno». A propósito da Vida e daquilo que viemos aqui fazer: «Uns querem ser felizes, outros aprender. Os primeiros raramente conseguem, desesperam. Os segundos não se ralam com a infelicidade, desde que instrua. O problema é quando a infelicidade nada traz.» Veja-se esta reflexão sobre uma casa que demorou onze anos a construir e que hoje (2013) é só recordação: «Já não tenho a casa nem economias para a reforma, apenas grandes recordações.» Ou esta outra sobre gatos: «Hitler não gostava de gatos, Churchill adorava-os e eu fui educada a detestá-los. A minha mãe achava que ter gatos era um sintoma de solidão desesperada e sentia tanto medo deles como das donas.» Façamos um resumo: o livro lê o diferente, o presente e o futuro. O diferente é dado pela fala de uma mulher que vive em Harare: «Cada dia é uma dádiva e este apego que vocês têm às coisas na Europa, parece-nos absurdo.» O presente tem a ver com o autismo actual: «Chega um casal de espanhóis, cada um carregando o seu iPad. Preparo-me para dizer bom dia mas nenhum contacto é estabelecido. Conversam a um palmo de distância e olham noutra direcção. Nem a vibração do telemóvel os arranca a si mesmos. Quando falo e solto uma gargalhada não movem as cabeças.» O futuro é um dos netos: «Ontem, dando banho àqueles oito quilos de futuro, pensei que a vida tem sempre razão.»
Povoam este livro memórias de Agustina Bessa Luis, Manuel da Silva Ramos, Vergílio Ferreira, Natália Correia, Arur Portela Filho, Afonso Lopes Vieira, Gabriel García Márquez ou Sebastião da Gama – entre outros. Sobre o Prémio PEN Clube atribuído ao livro «A menina é filha de quem?» percebe-se a mágoa por indevidamente o prémio associar nas notícias o seu nome ao cargo político do avô e não ao facto de o mesmo avô ter trazido a Portugal em 1935 escritores como Henri Membré, François Mauriac e Jacques Maritain (entre outros) para ajudar a criar em Portugal um PEN Clube. 
         
(Editora: Dom Quixote, Revisão: Clara Boléo, Capa: Maria Manuel Lacerda, Edição: Cecília Andrade)

[Um livro por semana 623]

domingo, 30 de junho de 2019

«Jocasta» e «Dizimar» de Paulo da Costa Domingos



A título excepcional esta semana a rubrica «um livro da semana» refere-se a dois. Trata-se de juntar na mesma ficha de leitura dois livros de poemas de Paulo da Costa Domingos (n.1953); o primeiro de 15 páginas e o segundo de 18. Na intitulada «Nota marginal» de «Jocasta» lê-se: «Jocasta foi a autêntica figura subversora de uma ordem, não meramente no que é político, mas invertida, a rasgar pelo ataque radical à estrutura da família, enquanto átomo do corpo social.»  O poema «Jocasta» na página 7 abre com um sonho («Jocasta humedece um sonho») e conclui com um pesadelo: «Do menos não cortei orelhas / a pretos, posso mesmo dizer / como vim para suavizar / a ferida infecta do Mundo.» Um pouco à maneira de Vitor Matos e Sá (1927-1975) o Mundo é uma «companhia violenta» e o poema final («Funerária») é um balanço (embora provisório) de um trajecto entre a vida e a morte: «Sozinha: como eterna deusa, / onde há morte e não há morte / onde há quem adormeça, se bem que / do lado oposto do espelho a que / ninguém acode apesar de carpir / avonde, e onde impera o luto / depois da luta, depois do bote final; / sozinha: marcada pela devastação pessoal, num campo deserto / há muito da honra e do sentir / alto se ouve ainda o alfabeto / e, muda, a vegetação fecha-se.»
Em «Dizimar» o ponto de partida é um lugar («Este lugar existe, fica / onde as soluções novas / se assemelham ao deserto / dos antigos problemas.») mas não um lugar qualquer: «o Vale das Artes, o Jardim dos Poetas.» O Poeta que recusa o Jardim dos Poetas é um rebelde: «Um rebelde. Recusa-se / ao consumo: apenas / quer ser detentor dos meios de produção / chega de cinzeiros.»Sobre os efeitos da sua proclamação o Poeta não tem dúvidas: «Garantidamente cinquenta ou sessenta / tomarão conhecimento.» Depois de rejeitar a «senhora frígida» («Seu nome é Autoritária») que pode ser lida como junção de duas palavras (Autoridade e Tributária) o Poeta conclui: «Fatiga a luta e ainda / não chegou o pavor./ Certo. Teremos bebido / muito menos que mentiras / dizem os poeta durante / uma greve selvagem.»

(Jocasta – Editora Frenesi, Capa s/foto de Rui Baião, Dizimar – Editora Frenesi, Capa de Carlos Ferreiro)  
       
[Um livro por semana 622]

terça-feira, 18 de junho de 2019

«O sábio de Bandiagara – Esconjuros. Ebriedades e Ofícios» de Zetho Cunha Gonçalves



Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) explica o ponto de partida deste livro de 92 páginas: «Este é um livro de versões, transversões e reconversões de poemas, provérbios, adivinhas, frases soltas e outros materiais potencialmente poéticos, vindos de outras línguas e civilizações – sobretudo africanas e latino-americanas – aqui transplantados para língua portuguesa.» Depois de lembrar Octavio Paz («Sabemos que os astecas recitavam, cantavam e dançavam os seus poemas») o autor, nascido no Huambo (ao tempo Nova Lisboa), regista as semelhanças entre os astecas e os povos de toda a África subsariana e os poemas que lidam com «as cosmogonias, os poemas rituais, os cantos de trabalho, de ninar, de celebração, de entronização e de óbito». Por isso mesmo pode concluir: «não há Poema digno desse nome que não advenha de uma tradição que em si mesmo cria e nela se transmuda inaugural, pela voz criada, impositiva e única, inconfundível, do seu Autor.»
Um dos poemas que melhor espelha a intertextualidade pode ser o da página 12: «Se queres saber quem sou / Se queres que te ensine aquilo que sei / Deixa de ser um pouco daquilo que és / E esquece tudo quanto sabes.»
Entre a Vida (breve) e a Morte (inevitável) só o Amor pode salvar: «Os tempestuosos quinze anos / Os vinte turbulentos / Os trinta sedentos / Os destrambelhados quarenta / Os erráticos cinquenta / Os avançados sessenta / Os serenos setenta / Os exaustos oitenta / Os anestesiados noventa / Os humildes cem anos!»
A vida pode ser uma viagem mas há sempre a adversativa como no poema da página 40: («Embora eu tenha chegado ao fim da viagem / Nunca senti que tivesse chegado») e a única certeza sobre a Vida está na mulher: «Em cada mulher começa o mundo /e o que dizeis tão serenamente /no tom dos graves sussurros /que recordo ter aprendido de minha mãe / os segredos da vossa indagação.»
Perante o desafio do Mundo, o verdadeiro artista, o que não é torpe, tem uma ética na sua prática: «O verdadeiro artista tudo retira do seu coração; / trablha com deleite, faz tudo com calma, com prudência / age como um tolteca, compõe coisas, trabalha habilmente, cria / transforma as coisas, aticula-as, faz com que se ajustem.»
Em conclusão podemos proclamar como o poema da página 81: «Retém o que acabaste de aprender / tu que aprecias sobremaneira o conhecimento /e sabes que o saber vale mais que o âmbar / muito mais que o coral e até mesmo mais que o ouro fino.»

(Editora: Maldoror, Capa e Grafismo: Luís Henriques, Paginação: Diogo Vaz Pinto, Revisão: Andreia Baleiras)

[Um livro por semana 621]

segunda-feira, 10 de junho de 2019

«O Bairro dos Jornais» de Paulo Martins



Titular da carteira profissional de jornalista nº 4149, eu estou no Bairro Alto desde 1977. O primeiro jornal onde escrevi foi o «Diário Popular» em 1978 na Rua Luz Soriano nº 67 e o segundo foi «A Bola» em 1979 na Travessa da Queimada nº 23. O meu primeiro livro («Iniciais») foi publicado em 1981 pela Moraes Editora na Rua de O Século nº 34, antiga redacção de «A Capital».
Nada neste livro de Paulo Martins (n.1962) me é, nem pode ser, indiferente. Desde logo a citação de Norberto de Araújo, ilustre jornalista: «Os jornais, a fogueira que arde e que queima – ilumina daqui a cidade e, nas suas faúlhas que desencontrados ventos nem sempre levam bem, aquece em redor.» Há nos jornais uma mistura de pessoal e de público: «Por isso os apelidos Coelho (Diário de Notícias), Silva Graça e Pereira da Rosa (O Século), Burnay e Bordalo Pinheiro (Jornal do Comércio) Vieira Pinto e Ruella Ramos (Diário de Lisboa), Balsemão (Diário Popular) percorrem as páginas que se seguem. As famílias perdem influência à medida que se consuma o assédio da Banca, entre final dos anos 1960 e o início da década seguinte».
Falar de jornais é falar de Censura: «Ferreira de Castro conta um episódio em torno de uma reportagem da sua autoria, nas minas de São Domingos, detidas por uma empresa inglesa, que foi integralmente suprimida pela Censura. Pereira da Rosa disse ter lido o texto duas vezes, não encontrando razões para o corte. Debalde se queixou pelo telefone ao general investido por essa altura em ministro. Percebeu que o director da mina envolvera no caso o embaixador britânico e argumentou que em situação inversa, nenhum representante diplomático ousaria ir ao Foreign Office pedir que o Governo inglês proibisse os jornais de Inglaterra de se ocuparem dum caso semelhante. De nada valeu.» Na página 264 pode ler-se sobre as relações entre patrão e empregado o seguinte: «Havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista, confirma Baptista-Bastos. Era também um certo paternalismo e uma certa conivência mas a gente sabia para quem trabalhava e falava diretamente com eles.»
Um aspecto curioso é que os redactores dos jornais desportivos não podiam ser sócios do Sindicato dos Jornalistas até 1972 restando-lhes a filiação no Sindicato dos Tipógrafos. Por isso em 1966 foi criado o CNID para permitir as acreditações do Campeonato do Mundo em Inglaterra. Outro aspecto curioso tem a ver com as palavras do assessor de Willy Brandt que afirmou em pleno tempo do «caso República»: «Se querem ganhar dinheiro nunca metam política na primeira página e não metam também notícias importantes, ponham mulheres e crime.» Por fim uma ideia que permanece, apesar dos anos que passaram: «Num país pequeno e analfabeto, era entre o Bairro Alto e o Chiado que se concentravam não apenas as redacções dos jornais mas também as sedes partidárias – quando não partilhavam o mesmo espaço.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Pinheiro, Preparação: Diogo Morais Barbosa, Edição: Francisco José Viegas, Capa. Rui Rodrigues, Foto: Arquivo Municipal, Produção: Teresa Reis Gomes) 

[Um livro por semana 620]

quarta-feira, 29 de maio de 2019

«Um passado imprevisível» de Ernesto Rodrigues



Ernesto Rodrigues (n.1956), poeta, professor, ficcionista, crítico, contista, tradutor e ensaísta, é um fascinante e poliédrico «Homem de Letras» que publica ficção desde 1980 - «Várias bulhas e algumas vítimas». Este romance de 153 páginas termina com duas frases («Esta é a minha pátria. E o fim desta vida de romance.»)e organiza-se em três divisões:  «Budapeste» (da página 7 à 61), «Índico» (da página 63 à 104) e «Turvação» (da página 105 à 153).
O ponto de partida é uma frase da página 8 («Eu só queria atravessar o passado») mas a viagem não é apenas uma revisitação a uma cidade na qual o autor do livro foi professor de Português entre 1981 e 1986. A viagem engloba dois países, duas cidades e dois continentes: Hungria e Moçambique, Budapeste e Maputo, Europa e África. A dupla inscrição (vida/literatura) está na página 26: «A vida é muito estranha. Suspendamos a emoção e sempre agarrado à filha, face contra face, em respiração que vai secando rios de lágrimas, vejo como, da literatura à vida, há uma diferença abissal.»
O lado da vida está por exemplo na dedicatória da página 5 (Rózsa Zoltán e Pál Ferenc) o primeiro dos quais conheci em amena cavaqueira com Jacinto Baptista e António Torrado. A intercepção é dada por exemplo na página 7: «Eu vinha de uma longa busca e de Trieste, Italo Svevo no olhar.» Na página 11 surge uma advertência: «Voltar aos lugares onde fomos felizes torna-nos lentos.» Mas já nas páginas 7 e 8 surgia a oposição entre duas ideias. Por um lado «A mentira salva a Humanidade», por outro lado «A mentira perde-nos».
Este livro mostra como a Literatura pode ser a mistura feliz de sangue pisado e exercício, vida e estilo. Na visita ao passado o autor depara com um Professor em fim de carreira e define-o como membro de «uma geração fora de moda» para concluir: «Ninguém antecipa o alcance dos seus actos. Somos seres do imediato, bebendo tudo da fonte do instante que nem sabemos se voltará a encher.»      
A viagem não é apenas revisitação mas, ao mesmo tempo, uma certa moral de História: «Nessa época, éramos contemporâneos da História. Protagonistas eram poucos. (Sê-lo-á esta lágrima de tinta?)» Depois de ler na página 125 que «A beleza do mundo está bem repartida» talvez seja esta a chave perfeita para o romance - «lágrima de tinta» . Porque o sangue pisado da vida se mistura com o exercício do estilo em doses perfeitas.

(Editora: Gradiva, Capa: Armando Lopes, Editor: Guilherme Valente)

[Um livro por semana 619]

sábado, 18 de maio de 2019

«Fogo no mar» de João Falcato com uma capa de Victor Palla



Partindo de «O todo ou o seu nada» de Amadeu Lopes Sabino (Editora Bizâncio) cheguei a este livro é de 1953; conta a história da viagem do cargueiro «Mello» que uma explosão inexplicável consumiu em fogo nas águas sombrias do mar. O livro (Coimbra Editora) é dedicado à memória dos companheiros do autor que encontraram a morte no incêndio do cargueiro português a meio de uma viagem entre Buenos Aires e Lisboa: Álvaro Firmo da Silva, Alberto dos Santos Faria, Álvaro de Almeida Costa, Henrique Torcato Craveiro, Luís Alexandre Júnior, João da Silva Moreira, José Pereira, Herculano José, Joaquim Marques Machado, António Varela, José Simões, António Pais, Joaquim da Silva Pracana, José de Sousa Frade e José Fernandes d´Assunção. Há uma cantiga na página 28: «As ondas do mar são brancas / E no meio amarelas / Pobrezinho de quem nasce / Para morrer no meio delas» mas as primeiras linhas do romance são uma bela crónica de despedida: «Um primeiro puxão fez estremecer o «Mello», negro, sujo de carvão. Em movimentos descompassados, os rebocadores arrastam o corpo inerte e bojudo do navio, da beira do cais. Içada a escada do portaló, desligados os cabos que eram nervos que o faziam ser terra, prático na ponte, mansamente, em estremecimento de quem deseja maior pressa, o seu corpo é levado para o meio da doca. A ponte de Alcântara que fecha a saída, começa a girar numa permissão de passagem solicitada pelo som cavo do apito. Barcos pequenos saúdam com um zumbido quase imperceptível e seguem apressados o seu caminho na água suja da doca. AS chaminés dos rebocadores vomitam fumo negro, espesso, quase sólido. Sentado numa pedra do cais, um pescador solitário tira o chapéu encardido, num mudo desejo de boa viagem.» (fim de citação)           

[Crónicas do Tejo 163]

quarta-feira, 8 de maio de 2019

«O leitor irresponsável» de Vergílio Alberto Vieira



Vergílio Alberto Vieira (n.1950) tem vindo a juntar em livro desde 1993 os seus trabalhos de ensaio e crítica literária publicados com regularidade no Jornal de Notícias (1987-1998) e no Expresso (1999-2000) além de outros jornais e revistas mas adverte que tal tarefa é «dar nome a esse crime sem castigo, que leva alguém a reunir, em livro, o que sobre livros escreveu ao longo de anos, não é questão de profissão de fé, mas ofício de aprendiz sem mestre».
Se eu tivesse de sintetizar este livro de Vergílio Alberto Vieira (204 páginas) poderia dar-lhe o nome de «Almanaque Literário» tal como Carlos de Oliveira fez em «O aprendiz de feiticeiro», um livro de 282 páginas no qual o autor de «MIcropaisagem» revisita livros de autores tão diversos como Marguerite Yourcenar, Afonso Duarte, Abel Botelho, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Erskine Caldwell, Alves Redol, José Gomes Ferreira, James Joyce ou Tchekov.
Neste livro de Vergílio Alberto Vieira são comentados, entre outros, livros de Louis-Ferdinand Celine, William Blake, Pablo Neruda, Ernest Hemingway, Graham Green, Jorge Luís Borges, Italo Calvino, Paul Celan, António Rebordão Navarro, Fernando J.B. Martinho, Pires Laranjeira, José Emílio-Nelson, Luís de Miranda Rocha, Rosa Alice Branco, Amadeu Baptista, Isabel de Sá, Orlando da Costa, Fernando Assis Pacheco, João de Melo e Luiz Pacheco.
Tal como Carlos de Oliveira faz um retrato de Alves Redol («Vejo-o meio sorridente, a boina basca puxada sobre a testa, a conversa pausada (afabilidade, camaradagem, aflorando palavra a palavra), o trato sereno, quase tímido, dum camponês civilizado que conheceu muito mundo e muito meandro sem desgastar toda a pureza inicial.»), Vergílio Alberto Vieira retrata Al Berto: «Nascido em Coimbra pelo ano de 1948, Al Berto , pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares fez obra ao arrepio da sensatez, criou os seus infernos, recusou a quietude, foi homem  de paixão e, se nele havia um «louco» como Emile Cioran admite que há em nós, expulsou-o, cumprindo-se como destino.» Porque os livros não nascem sozinhos, são escritos por um autor.

(Editora: Quarto Crescente, Capa: Imhoteb, Bronze, Revisão do texto: Jorge Fernandes, Composição: César Antunes)

[Um livro por semana 618]