quinta-feira, 27 de julho de 2017

«O inspector da PIDE que morreu duas vezes» de Gonçalo Pereira Rosa



O subtítulo deste livro com 310 páginas de Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) explica um pouco do conteúdo das 26 histórias que o integram: «e outras gaffes, triunfos e episódios memoráveis do século XX na Imprensa Portuguesa». Embora o título do volume seja escolhido a partir de um dos seus (digamos) capítulos assim como nos livros de contos, esta escolha poderia ter recaído noutro. Não é fácil escolher.
Ao todo são 26 os textos nos quais se conta parte da História do tempo português do século XX. Grande parte dele passado no regime da Censura; veja-se o texto de Jacinto Baptista na página 217: «Sei que por causa da Censura, pela tensão que me causa durante o dia, a toda a hora, pelo acréscimo de trabalho com que sobrecarrega as minhas funções de redactor-paginador, obrigando-me a desfazer e refazer títulos, a desfazer e a refazer páginas – por causa da Censura estou à beira de um colapso nervoso. E vou morrer mais cedo, arrasado, inconformado – por causa da Censura.» Gonçalo Pereira Rosa recorda as palavras de Ribeiro dos Santos sobre a Censura e a cumplicidade das Forças Armadas: «Como então se dizia, as armas eram seis: infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia, aviação e censura».
Vitorino Nemésio definiu de modo certeiro o jornalismo: «Ser jornalista é andar à roda do mundo num só pé. Há ali miséria, efemeridade, glória e o pão que o Diabo amassou». Esse pão que o Diabo amassou, como na história que dá título ao livro, pode ser uma sucessão de acasos: No dia 2 de Outubro de 1960 o «Diário de Lisboa» publica a notícia necrológica do coronel Rui Padrão Pessoa de Amorim, cujo primo era homónimo e subdirector da PIDE. Ele reage desta maneira: «Mataram-me! Ainda por com com uma notícia de merda na necrologia, ao lado de mortos da Rua dos Fanqueiros… Eu que salvei a Pátria duas vezes do abismo…» Tudo termina numa nota do jornal que ninguém lê: «Por lamentável erro de informação, noticiámos ontem o falecimento do distinto oficial do exército (…) Quem faleceu foi o também distinto oficial do exército com o mesmo nome.»
O humor e a graça aparecem na página 304 num texto de Luís Alberto Ferreira quando o director de «O Mundo Desportivo» foi ao Estádio do Bonfim entregar a Taça Disciplina ao Vitória de Setúbal e o jantar ficou reduzido a uns amendoins e um copo de três: «Chamei-lhe bola-de-berlim com bigodes! Foi um escândalo.»
Fica uma pálida ideia destas 26 histórias de jornais e de jornalistas, um mundo difícil como Baptista-Bastos adverte: «Nascer e morrer no mesmo dia pode ser uma epopeia de gigantes mas é uma tarefa fatigante para os simples mortais».
(Editora: Planeta, Prefácio: Francisco Pinto Balsemão, Revisão: Fernanda Fonseca)

(Um livro por semana 560)


quinta-feira, 20 de julho de 2017

«Noite vertical« de Zetho Cunha Gonçalves



Há neste recente livro de Zetho Cunha Gonçalves (n. 1960) uma dupla inscrição: amor e morte. Amor na página 32 («E nenhum rio é como esse / o rosto magnificente da infância / a pátria inaugural da Poesia») e na página 67: «a minha escola primária / foi a sombra duma árvore muito antiga – e a voz / um pêndulo que soletrava / nas crateras debaixo do fogo / horas e números – no horizonte». A morte pode ler-se na página 21 («Os meus mortos deram-me versos, assombros – um rio acampado na memória») e na página 65: «Olho para o Tempo e digo: - Eu estive / onde a morte começou. Insensitiva, / reles, insidiosa, banal.» 
Entre o amor e a morte surge o poema inicial («Os rios tocam-se de águas iluminadas») espécie de janela para o poema da plenitude no qual tudo se liga: «Trago nas minhas mãos – o coração do mundo / o tempo em que os rios ardem / se volto o meu rosto / à tua passagem / na multidão». O poema da página 59 integra um programa de vida e de poesia na voz da Mãe: «Meu filho / se aquilo que sonhaste não chega / para encheres a barriga / ao teu desejo e ao teu sossego / canta / canta com a voz voltada para nascente / enquanto lavras / e lavras a força / e a dança do leopardo.»
O autor convoca versos e frases de Dante Milano, Rainer Maria Rilke, Jacobo Fijman, Friedrich Hölderlin, António José Forte, Fernando Assis Pacheco, Ruy Duarte de Carvalho, Eduardo White e Herberto Helder para homenagear em poemas, aforismos e prosa-poemas figuras diversas das Artes e das Letras: António Ramos, Rosa, Fernando Assis Pacheco, António Prates, David Mestre, Robson Dutra, Roberto Chichorro, José Craveirinha, Ruy Duarte de Carvalho., Eduardo White e Herberto Helder. Nesta oscilação entre «cantar» e «reflectir», Zetho Cunha Gonçalves lembra David Mestre com um poema feito dos títulos dos livros do poeta morto em 1998: «1 - O nome, crónica / do ghetto, sobe / pseudónimo ao poema:/ pulmão / subscrito a giz / nas barbas do bando / 2 – No relógio de Cafucôlo / nem tudo é poesia / lusografias crioulas: são quarenta / e nove anos / obra cega, / do canto à idade.»
(Editora: Língua Morta, Capa: Gustave Doré)

(Um livro por semana 559)


sexta-feira, 14 de julho de 2017

O jornalismo ou carta aberta a Gonçalo Pereira Rosa


Os jornais e as revistas foram a Universidade que não tive. E também foram o meu Liceu. Nasci em 1951 e em 1957 uma senhora muito fina no Montijo afirmou mais ou menos isto à porta de uma pastelaria famosa: «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!». E eu era filho de um motorista; por isso não fui para o Liceu. Naquele tempo o Liceu mais perto do Montijo era o de Setúbal e os rapazes iam de comboio até ao Pinhal Novo e aí apanhavam outro comboio para Setúbal onde estava o poder político e também o poder cultural. A «Gazeta do Sul» no Montijo que eu via ser feito nas Oficinas Gráficas ainda a chumbo e a edição mensal (feita em Rio Maior) de «O Catarinense» que a minha mãe guardava numa caixa de sapatos juntamente com o semanário «Sporting» que eu lia em primeira mão antes do jornal chegar à assinante Dona Teresa, são o princípio de tudo.
Conheci o Gonçalo Pereira Rosa porque fui redactor do jornal «Sporting» de 1988 a 2006 e estreei-me em 1978 no «Diário Popular» mas vamos por partes. Cheguei aos dez anos com a biografia já definida: iria estudar numa Escola Técnica (nunca num Liceu) e iria trabalhar aos quinze anos. Quase não tive férias em 1966 no Verão em Santa Catarina: um telegrama de Secretaria chamou-me para ir trabalhar na Rua do Ouro nº 110, a sede do Banco Português do Atlântico. Antes desse deslumbramento em 1966 dos Suplementos Literários com o «Diário de Lisboa», o «Diário Popular», o «República» e a «Capital» (a partir de 1969) eu vivi em Vila Franca de Xira e ia todos os Domingos à noite comprar o «Diário Popular» por duas razões: o futebol à tarde e a crónica de Santos Fernando. Hoje continuo a pensar como pensava nesse tempo que «Os grilos não cantam ao Domingo».            

(Vinte Linhas 1693)

sábado, 8 de julho de 2017

Lamentação para um tempo passado na foto a preto e branco


Num destes fins de tarde de Lisboa com um céu cheio de nuvens brancas a anunciar trovoadas e bandos de turistas (não viajantes) em calções curtos que sobem as Escadinhas do Duque a gritar «Are you local people?», num destes fins de tarde recebi uma oferta inesperada. Um livreiro em arrumações na sua livraria descobriu desirmanada uma fotografia a preto e branco que me ofereceu. Pode ser a Brigitte Bardot, pode ser uma das jovens actrizes a que os jornais dos anos 60 chamavam «azougadas» e mostravam os seus pequenos biquínis nas praias da Riviera Francesa. O livreiro meu amigo oferece-me a fotografia e com ela o pretexto para uma crónica. Esmo sem estar presente nela esta fotografia tem a ver com esse tempo. Eu era em 1966 um jovem atónito, confuso e perdido na grande cidade. Tinha começado a trabalhar numa sexta-feira nove de Setembro porque nesse tempo trabalhava-se ao sábado até às 13 horas nos Bancos. Não tenho a certeza se actriz é Brigitte Bardot nem isso é agora o mais importante. Sei que este é um retrato desse tempo de guerra e paz, de amor e ódio, de morte e vida. Mesmo quando as manhãs se abriam em esperança as tardes acabavam em amargura. O tempo era triste, a monotonia tudo abarcava, o velho ditador, o monstro de Santa Comba Dão falava na Rádio e na TV para dizer: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!»

(Vinte Linhas 1692)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

«Há vozes no Charco» de Raul Malaquias Marques e Pierre Pratt


Paisagem e povoamento, já o lembrava Carlos de Oliveira. Tudo nesta história começa com a paisagem: «Não é grande este charco. Podia ser maior, é verdade. Mas, assim como está, está bem. Fosse ele maior, havia logo de vir alguém chamar-lhe lago…» Segue-se o povoamento: além dos simpáticos vizinhos da herdade, no charco existem rãs, um boi e um menino (o Quim) que guardou uma rã na taça de vidro onde a mãe costuma fazer a mousse de manga. Passada uma semana a rã acabou por regressar ao charco, levada pelo menino Quim.
O biólogo que estuda o charco e que conta esta história está preocupado porque se anuncia a construção de uma grande estrada que poderá vir a arrasar o charco: «Os senhores do projecto são categóricos. Dizem eles que nenhum desvio é possível. Não é possível porquê? Não o disseram.»
A história continua porque as vozes do charco são também as dos leitores que o autor convida a manifestarem-se não contra a estrada mas contra o facto de a estrada poder vir a arrasar o charco. Dai as palavras finais: «Vocês vêm comigo? Podemos marcar já o dia?»
Na última página se explica como este livro é «carbonfree» pois para o editar foi preciso cortar árvores e gastar energia para produzir o papel no qual o livro foi impresso. Para compensar as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, a APCC em colaboração com a Ecoprogresso apoiaram um projecto de energia limpa através do calor gerado numa indústria, evitando a emissão de dióxido de carbono por combustíveis fósseis.
(Editora: APCC, Revisão: Clara Boléo, Design: Raquel Castelo)

(Um livro por semana 555)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Revista Aldraba nº 21 Abril 2017 - Homenagem a Maria do Céu Ramos


O moínho da capa da Revista ALDRABA nº 21 está parado tal como parou no passado dia 18 de Abril o moínho do coração de Maria do Céu Ramos, vice-presidente da Direcção e associada nº 59 da ALDRABA. Entre o moínho que transforma grão em farinha e o que transforma dias em tempo de viver, as semelhanças são óbvias. Pelo menos para mim que fui convidado para apresentar o conteúdo destas 30 páginas. Num dos meus poemas associei o moínho ao navio: ambos precisam de velas e ambos viajam embora com destinos diferentes. O destino do moínho é o pão, o destino do navio é o porto mais próximo. Nada contra os motores actuais mas isso é outra conversa.  
O texto de José Nelson Cordeniz sobre as danças de Carnaval na Ilha Terceira surge com uma arte final algo descuidada. Além de um abuso dos advérbios de modo (essencialmente, especialmente, propriamente, actualmente, claramente) nota-se que o acordeão vem a página 21 como algo de positivo e na página 19 aparece a concertina como instrumento musical que tem prejudicado a música folclórica. Embora não seja este o local e o momento para tratar este assunto, a verdade é que para a maioria das pessoas acordeão e concertina andam a par. Outro pormenor de descuido está na referência à estrutura das danças: «Saudação, Assunto e Despedida» na página 20 mas «Introdução, Assunto e Despedida» na página 21 embora o texto anuncie que é tudo «igual». Pouco compreensível é na página 21 o texto que refere «um convívio após a Dança recheado de iguarias típicas» mas não é o convívio que é recheado; pode ser a mesa posta. De qualquer modo a mensagem de inventário e notícia chega ao leitor e é esse o objectivo do texto.
Nuno Nabais num artigo de opinião intitulado «Lisboa, a Cultura e Espinosa» refere entre outros pontos de muito interesse esta ideia: «hoje aquilo que interessa à Universidade não é a indústria cultural mas o comércio cultural». Nesse sentido, não é de estranhar que, mais à frente, surja outra ideia sobre a mudança de paradigma: «os suplementos literários foram substituídos por agendas culturais» ou dito de outra maneira «uma compilação avulsa de sugestões de entretenimento». Em termos sintéticos pode dizer-se que os jornais do meu tempo (1978) tinham secções de «Artes e Espectáculos» mas hoje é só espectáculo. Tudo isto pode ser dito de outra maneira: são quatro os conceitos e as palavras-chave para a actual circunstância – património, luxo, arte e turismo. Espinosa nasceu em Amsterdam. De família natural de Vidigueira que foi expulsa de Portugal e refugiou-se na Holanda. Escreve Nuno Nabais: «Sonhava em português, fazia exegese em hebraico, escrevia tratados de ética e filosofia política em latim e dirigia a oficina de lentes em holandês». Nestas palavras está um resumo do escritor que pode vir um dia para o Panteão Nacional ou ter até o seu nome num Prémio Literário.
Fernando Fitas assina um texto sobre os Museus no qual afirma que «o Museu tem de ser um espaço vivo para ser vivido», permitindo aos visitantes manusear as peças das prateleiras. Luís Filipe Maçarico refere dois livros de António Salvado e cita de um deles a frase de um autor francês para quem «o Museu é a Universidade Popular através dos objectos». Shawn Parkhurst da Universidade americana de Louiseville (Kentucky) ocupa a página 8 com um texto de amor ao Rio Douro: «O amor agarrou-me em 1992. Eu já não existo sem o Douro, mesmo estando longe dele». Outras águas são as de Sónia Tomé. Resumem a sua participação no Festival Literário Internacional de Querença em Agosto de 2016. Nesse encontro literário foi patente a flutuação entre dois tempos e dois mundos da água no Alto Barrocal Algarvio: ora escassa, ora excessiva. Muito curiosa é uma das quadras sobre uma realidade que já não volta: a má língua das mulheres quando lavavam a roupa numa pedra da ribeira: «Água nos dá alegria / Lava a alma e o coração / Água lava tudo quanto cria / Só a má língua é que não».
João Coelho recorda os tempos difíceis dos marçanos que com 13 ou 14 anos chegavam da terra e começavam logo a carregar as compras das «senhoras» às costas em cabazes de vime. O pagamento era «cama, mesa e roupa lavada» mas a cama era má, a comida era´péssima e da roupa só era lavada uma muda por semana que o sabão sempre foi caro e a ganância sempre foi forte. Nuno Roque da Silveira conta a história de Joaquim Raposo Dias, um polidor de móveis na Calçada das Necessidades e a memória do seu avô Raposo que tinha um quiosque no cruzamento das ruas Marquês de Fronteira e Artilharia Um. Escreve a certo passo «Caíram-lhe em cima» mas o texto não explica quem caiu em cima do avô. Talvez mariolas como então se dizia e escrevia. Maria Adelaide Furtado lembra a gramática dos toques dos sinos que até há pouco tempo e ainda no século XX regulavam a vida de muitas comunidades. Nos Açores havia uma frase em muitas freguesias que toda a gente acatava: «Trindades batidas, meninas recolhidas» Tanto o sino como o chocalho nascem da arte do fogo. E tanto um como outro continuam a ter uma função comunicativa mas já não tão importante como por exemplo no século XIX em que «era o sino que punha em movimento todo o Universo». Os chocalhos empurravam os rebanhos mas hoje há cada vez menos pastores e menos rebanhos para guardar. José Rodrigues Simão assina um texto de memórias (55 anos depois no título) apesar de no texto se referir a 50 anos e não 55. Embora louve o esplendor da paisagem não existe nele um enquadramento geográfico que o permita localizar de imediato. O mesmo se passa com o texto de Mateus Dias Campeã sobre a memória de uma caçada e o uso do furão. Maria Eugénia Gomes assina as páginas sobre as viagens e os actos eleitorais da ALDRABA e é no seu texto que se percebe melhor o conteúdo da capa da Revista: «Os moinhos do Outeiro são únicos no Mundo em termos de funcionamento». O cartoon de Luís Afonso mantém o nível altíssimo de ironia que num jantar simpático em Serpa o levou a lamentar para mim a saída de Sousa Cintra do lugar de Presidente da Direcção do SCP: «Cada frase daquele homem era já meia anedota. Era só completar.» A Revista fecha com um poema, um belo poema de Izidro Alves que além de tudo o que quase exige o texto da página 8 («terra, poesia e emoção») tem muita oficina e é essa oficina que leva este poema a cumprir aquilo que me parece ser a razão de ser de toda a literatura: ligar de novo tudo o que a Morte separou.

sábado, 17 de junho de 2017

«Como a cinza» de José Viale Moutinho



Trata-se da edição autónoma em livro de um conjunto de poemas, um deles, o da página final, incluído no livro colectivo «20 Poemas para Ângelo de Sousa» de 2014. José Viale Moutinho (n.1945) escolhe para título deste seu livro breve (27 páginas) os versos da página 7 que falam da tarde e da cinza: «Como a cinza fica / nas mãos / apagado o lume / que nos devora / assim a tarde / parece um álbum / de retratos a sépia».
A cinza é o que fica depois do fogo, outra maneira de dizer «palavra» ou «desenho»: «só os desenhos ficam numa pasta / à espera, à nossa espera / ninguém os poderá apagar /mesmo o vento se mostra silencioso / com as mãos ocultando o rosto.»
Na ironia do poema o autor convoca «Fra Angélico» (1395-1455) e chama «Fra angelo» a Ângelo de Sousa: «Fra angelo abandona a tela / ninguém se lhe assemelha / devagar, fecha a porta / e sai de casa / nunca mais o tornaremos a ver / nem à mulher.»
«O receio da morte é a fonte da arte» é um verso de Ruy Belo (1933-1978) que este belo livro de José Viale Moutinho confirma ao longo das suas 27 breves mas intensas páginas.
(Editora: Apenas Livros, Direcção: Luís Filipe Coelho, Arte final: Fernanda Frazão)

(Um livro por semana 558)

sábado, 10 de junho de 2017

A seita da verdade suprema não é só em Tóquio



Já passaram uns anos mas o autor destas linhas não se esquece: havia uma seita em Tóquio que atirava gás «Sarin» para as estações de Metro. Chama-se (ou chama-se ainda) «seita da verdade suprema». Em Portugal há uma coisa parecida. Vejamos: numa dessas chamadas feiras de garagem que proliferam pela Cidade de Lisboa aparecerem à venda a preços convidativos vários livros sobre o Sport Lisboa e Benfica. Até aqui nada de mal pois é preferível vender a um euro do que mandar para a guilhotina e destruir. O engraçado é que um desses livros intitulado «Amor à camisola», editado pela «Verso da História» e com prefácio de Luisão publica na página 60 esta pérola: «Eusébio foi, e é, único. E o Benfica, o seu clube de sempre.» Percebe-se a denominação de «pérola» porque isto que se lê é uma mentira monstruosa, ignóbil e repugnante. Eusébio nasceu de facto em 1940 como averiguou o dirigente benfiquista senhor Paiva das Neves, o homem do terceiro anel. Eusébio foi jogador do Sporting de Lourenço Marques e, mais tarde, quando voltou dos E.U.A. jogou no Beira-Mar e no União de Tomar. Foi em Tomar que terminou a sua carreira de futebolista. Aliás o nome da editora (Verso da História) já diz muito sobre o seu lugar no outro lado da verdade. Quem escreve o livro coloca-se no terreno da mentira por oposição à verdade. Isto lembra-me as minhas longas conversas com Cruz dos Santos, o jornalista que aparece a entrevistar Eusébio à chegada no aeroporto de Lisboa. Foi na altura em que Eusébio desatou a dizer disparates sobre o ambiente e a vida desportiva de Lourenço Marques nos anos sessenta. «Não ligue, meu caro. Isso é só para agradar ao terceiro anel. O nome dos directores do Benfica que o recusaram quando veio da América, isso ele não diz.» Cruz dos Santos, como sempre, tinha razão. 

(Vinte Linhas 1691)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Os mortos de Der Lassine não tiveram tempo nem fotografia


A foto é do livro «Cronologia Enciclopédica do Mundo Moderno» do Círculo de Leitores (1990) tendo sido «trabalhada» pelo Mestre Carlos Vilas. No dia 17-9-1948 o conde Folke Bernardotte, sueco, mediador da ONU na Palestina, é assassinado por terroristas judeus. O Estado de Israel tinha sido proclamado em 14-5-1948 sendo presidente Chaim Weizmann e Ben Gurion o primeiro-ministro. Pouco antes em 20-4-1943 há um massacre de judeus no Gueto de Varsóvia. Esta foto mostra um menino de mãos no ar e pavor nos olhos. Nesse ano de 1948, no dia 9-4-1948 a Irgun e a Stern avançaram durante a noite para Der Yasin ou Deir Iassine (tanto faz para o caso) e massacraram 254 dos seus 750 habitantes tendo dinamitado dez das 144 casas dessa aldeia. O primeiro-ministro Ben Gurion pediu desculpa ao Rei Abdulah da Transjordânia mas os mortos já jaziam nos poços e os sobreviventes já estavam em fuga, cheios de modo e de pavor. Num certo sentido o mesmo medo e o mesmo pavor dos pobres judeus do Gueto de Varsóvia só que desta vez sem tempo nem fotografia. Foi tudo feito de noite, o trabalho sujo de matar os inocentes, não havia máquinas fotográficas porque a acção terrorista foi concretizada de surpresa. Passado pouco tempo as casas restantes da aldeia de Deir Iassine foram arrasadas e no seu lugar nasceu um aeroporto. Houve meninos que morreram em Agadir (era eu criança) no meio dos quinze mil mortos. Também houve meninos que morreram entre os 96 mortos em 1989 no campo de futebol do Sheffield United, o estádio de Hillsborough. Outros meninos morreram em Erevan quando os rios se encheram de sangue e a água mudou de côr. Em Argel morreram outros meninos entre 1957 e 1962 na batalha de Argel na qual o trabalho sujo foi feito pelos para-quedistas franceses. Nada de novo.

(Vinte Linhas 1689)

sábado, 3 de junho de 2017

«A céu aberto» de Paulo da Costa Domingos


Paulo da Costa Domingos (n.1953) nasceu no mesmo ano em que António Maria Lisboa partiu. Não era um Mundo qualquer, era Portugal: «uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento, à porta de um dispensário, num coro constante de tosses.» O ponto de partida da sua vida é uma família simples: «eu vinha do nada, nem nome de família, um avô jardineiro e ferozmente anticlerical, outro virado às estradas a abrir caboucos.» O ponto de chegada é uma conclusão: «Porque a leitura faz de nós melhores pessoas; faz de nós pessoas.» Pelo meio livros, traduções, filmes e desenhos de John Osborne, Boris Vian, Carlos de Oliveira, António Maria Lisboa, Pedro Oom, António José Forte, Luiza Neto Jorge, Manuel João Gomes, Aníbal Fernandes, João César Monteiro, Carlos Ferreiro e Vítor Silva Tavares: «Se dizes não é porque tens razão». A estas referências mais ou menos biográficas junto uma outra, pessoal: corria o ano de 1986 e a Revista Seara Nova publicava um texto meu sobre «as novas direcções da Poesia Portuguesa». Paulo da Costa Domingos surge nesse meu inventário devido à importância dos seus livros. Cito de memória «Asfalto», «Travesti», Cabra-cega», «Carmina», «Nas alturas», «Violeta náutica», «Cicatriz» e «Tigres de papel», sem esquecer que criou a Editora Frenesi e organizou com Al Berto e Rui Baião a antologia «Sião».  
É complicado procurar ver na poesia de alguém a sua voz pessoal mas corro esse risco ao fazer a ficha de leitura deste livro de 108 páginas cujo título é retirado de um dos quatro capítulos do mesmo. O ponto de partida é o Outono: «Não será portanto / a mais bela idade da vida / mas não deixa o Outono / de ter o seu peculiar encanto: / a sua dádiva de calma doçura / a mansidão que para vós coa / um magnífico vinho novo.» O olhar do poema fixa-se no horizonte: «Famílias transtornadas em gangues / de assalto à comida, minúsculas ilhas / à deriva, é o salve-se quem puder.» Entre o ponto de partida e o horizonte, a ironia do poema tanto pode devastar a poesia de Augusto Gil («Batem leve, levemente / água abundante e laranjas / do mesmo olival») como arrasar uma canção de Amália Rodrigues («Temente que a achassem feia / tomou o barco negro prá cidade») sem esquecer o cinema («É de evitar mesa posta / para os doze indomáveis patifes») ou a literatura num título de Alexandre Herculano: «A dama pé-de-cabra». Outras vezes o texto poético fica na ironia mais (digamos) simples à volta do real («o real é moscas sobre bosta humana») ou daquilo a que podemos chamar real: «Os que não conseguem / uma chefia/ batem no cão / por serem / celibatários».  O tempo actual pode definir-se no poema «Seita» - «Nem oiro nem sossego / se encontra aqui / nem saúde nem fraternidade / só gente ruim, / avariada». Porque não há saída nem solução: «Veio mesmo para ficar / dizem, a crise dominante / que nos torna inofensivos / suplicantes obrigados.» Ao longo dos tempos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes. No mesmo poema um verso recorda «a solidão dos jardineiros» que podia ser um título possível para este belíssimo livro de poemas. (Editora: Averno, Desenhos: Pedro Calapez )

(Um livro por semana 557)