quarta-feira, 10 de novembro de 2021
domingo, 7 de novembro de 2021
«Os dedos trans-lúcidos do escrevinhador» de Adalberto Alves
Adalberto
Alves (n.1939) celebra 40 anos de vida literária com este livro de 94 páginas
cujo título vem do poema da página 81: «Os dedos trans-lúcidos do escrevinhador
/saberão do poema aquilo que o peixe/ sabe da água em que vai nadando? /ah, mas
o peixe ignora tanto a água /como eu o ar transparente que respiro.» Um dos
temas inevitáveis é o Balanço: «Não sei o que é mais doloroso/se o veleiro das
palavras desgastadas/se o pulsar desgastante do silêncio…» Outro tema óbvio é o
da Vida: «sobre o coração eu tenho um nome/com letras, pesponto do mistério/é
nome que os homens difamaram / com perfídias geladas e sombrias / a cada batida
certa e compassada /tal nome repetido num sussurro /mal posso ouvi-lo; não
consigo encostar o meu ouvido ao peito /mas esse nome, eu sei, é VIDA.»
O
poeta, ele mesmo, inscreve-se no poema («Fui a todas nunca me poupei /àquilo
que a vida me ofereceu») tal como já se tinha inscrito n página 17 («alguém me
perguntou quem és ? /respondi: não sei dizer ao certo») e na página 53: «”ao mundo
uma carta escrevo” / a carta que ninguém leu /fala de pena e de enlevo/e essa
carta sou eu.» A ironia também está presente no poema da página 28: «… uma
gorda ratazana /e acabou num cano de esgoto/apesar de nunca se enganar/e
raramente ter dúvidas.»
A
única possível resposta à Morte é o Amor («Imaculado e santo seja o Amor») como
se lê na página 19: «o alfabeto do Amor é bem curto/ mas serve p´ra dizer o que
se queira».
Entre
o precário da Vida e o frágil do Amor, só a Natureza continua: «a Natureza jamais
pára: fervilha, fervilha e desemboca /cumprindo o plano estabelecido, /nem que
seja como surda ou cega ou muda, /no alto dos ares ou no fundo dos mares.»
(Editora:
Labirinto, Paginação: Marta Toscano, Prefácio: Ronaldo Cagiano, Capa: Daniel
Gonçalves, Coordenação: Víctor Oliveira Mateus e Maria João Cabrita)
[Um
livro por semana 675]
quarta-feira, 6 de outubro de 2021
«Os Provérbios dos nossos Avós» de José Alves Reis
Este livro de 311 páginas organiza-se por
capítulos (ou temas) de A a Z: Agricultura, Água, Ambição, Amizades e
Companhias, Animais, Burros, Casamento, Cães e Gatos, Comidas e Bebidas,
Conselhos, Crianças, Deus, Diabo, Economia/Dinheiro, Educação/Cultura, Família,
Felicidade, Festas e Romarias, Frutos, Homem, Inveja, Lua e Sol, Mentiras e
Enganos, Meses/Estações do ano, Morte, Mulher, Natal, Profissões, Religião,
Santos, Saúde, Sorte, Tempo, Trabalho, Velhice, Vida, Vinho, Vizinhos. Sem
esquecer «Os provérbios dos nosso avós» que dá título ao volume e ocupa as
páginas 7 a 125.
Desde criança aprendi a lidar de perto com
uma frase muito usada na região de Alcobaça e que funciona também como um
provérbio: «A vida é como a morte de São Bernardo; uns a rir, outros a chorar.»
Refere-se a um quadro na parede do Mosteiro de Alcobaça em que um grupo de
frades chora e outro toca pífaros e tambores na morte do fundador da Ordem.
Claro que todos os provérbios em geral
podem ter um oposto; baste pensar naquele clássico «O bom julgador a si se
julga» ao lado de uma adversativa - «Ninguém é bom juiz em causa própria».
Nesta breve nota de leitura não posso
deixar de referir um dos provérbios sobre o Amor («O homem tem a idade da
mulher que ama)» e outro muito curioso: «Amar é dar a alguém o poder de nos
causar sofrimento» e por fim o da página 77: «O amor começa com um sorriso,
cresce com um beijo e acaba com uma lágrima.»
E depois de um adversativa («A felicidade
é algo que se multiplica quando se divide») termino com um autêntico programa
de vida: «Se achas bom ser importante, um dia descobrirás que é mais importante
ser bom.»
(Editora:
LITEXA, Capa: Carlota Saraiva de Menezes)
[Um livro por semana 674]
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
«A PIDE e os seus informadores – O caso de Inácio» de Paulo Marques da Silva
Paulo
Marques da Silva (n.1966) depois de «Fernando Namora por entre os dedos da
PIDE» (2009), «Condeixa – paisagem, memória e história» (2010), «Deniz Jacinto
entre duas paixões – o Teatro e a Liberdade» e «Pois não te resta ainda o
Mundo?» (2015) sendo dois livros em co-autoria, surge com este «A PIDE e os
seus informadores – O caso de Inácio» (2019) que faz a cartografia tenebrosa
dum tempo (anos 30 a 60 do século passado) e de um lugar (Coimbra e seus
arredores) inventariando as suas instituições e os elementos que não estavam com
o Estado Novo. O ponto de partida é a página 63: «Todos os Organismos Oficiais
estão cheios desta gente, tais como: Correios, Hospitais da Universidade,
Governo Civil, Câmara Municipal, Polícia Judiciária, Polícia de Segurança
Pública, Tribunais, Grémios e Regimentos. As ligações são a toda a hora e
momento, a sua acção estende-se por toda a parte e hoje o Estado Novo é
arrasado, alto e bom som, em todos os pontos da cidade sem o mais pequeno
rebuço. Os jornais da cidade são todos dirigidos por elementos avançados já
referenciados e os correspondentes dos jornais de Lisboa e Porto na mesma.
Todos os Cafés da cidade são pontos de reunião de elementos avançados que,
abertamente, ali fazem o seu trabalho.»
O
delírio de Inácio vai ao ponto de chamar «reviralhista» a Afonso Duarte e
«comunista» a Joaquim Veríssimo Serrão: «… dentro da Universidade e em grupos
desafectos foi bastantes vezes notada a propaganda que o SERRÂO fazia, sendo
notória a sua acção avançada» O uso de certas palavras (seita, perlenga) denota
não só agressividade mas também ignorância: «O alferes Rosa Neto tinha em seu
poder vária papelada e até jornais da Seara Nova». Noutro passo refere o Ateneu
de Coimbra: «São maus e rancorosos. É um agrupamento que, num caso de conflito
interno, vem imediatamente para a rua, constituindo brigadas de choque.» Para
além de propor o encerramento de Clubes e Associações, Inácio critica a pouca
firmeza das autoridades: «Como é sabido não se efectuaram prisões por causa dos
desmandos efectuados e agora os homens do MUD e comunistas andam a apregoar que
se o não fizeram é derivante da fraqueza do Governo que se vê num beco sem
saída e até sem prestígio. O tempo do papão e do Tarrafal já passou, dizem.» O Clube
fechado em Pereira do Campo vai renascer sob o patrocínio da FNAT: «O estudante
Luís Mexia, sobrinho do Dr. Mário de Figueiredo, que eles colocaram à frente, é
um pateta mor, sem personalidade alguma. É comido e levado com facilidade por
tal «malta» que o tem ali apenas como rótulo. É com estas habilidades que o
comunismo vai alastrando e aparece em todos os sectores.»
(Editora:
Palimage, Foto da Capa: Maria João Reis Torgal, Colecção: Raiz do Tempo,
Apresentação: Luís Reis Torgal)
[Um livro por semana 673]
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
Dissertação para uma fotografia a preto e branco na eira
Há um homem a sorrir que pega na joeira e, com toda a perícia, faz saltar o feijão e a sua palha para que o vento os separe no ar e assim o regresso à joeira seja apenas dos feijões depois de a palha ter sido levada pela brisa. Esse gesto tem sido repetido ao longo do tempo mas as mais recentes gerações já não o dominam sem sequer o lembram; basta neste caso uma fotografia a preto e branco tirada por uma jovem arquitecta portuguesa nascida em Lisboa no ano de 1978. O protagonista da fotografia nasceu em 1927 e é o avô paterno da autora deste retrato em movimento a aproveitar a brisa do Oceano Atlântico que vem do lado de São Martinho do Porto para limpar a palha do feijão em Santa Catarina. Os tempos modernos alteraram essa gramática de sementeira e colheita, esse calendário da terra entre a chuva do Inverno e o sol do Verão, essa regularidade muito antiga e, afinal, de todos os anos; hoje o feijão aparece nas prateleiras das grandes superfícies em latas com origem na China ou na Tailândia. Passa-se com o feijão o mesmo que acontece com os caracóis: descobriram alguns que os mais baratos são os de Marrocos e, por isso, dão mais lucro a quem os cozinha com cebola e orégãos para os vender em pratinhos nas esplanadas ou à beira do mar. O sabor perdeu-se mas o lucro aumentou em termos exponenciais. Apanhados ao romper do dia nas searas e nos canaviais à beira das linhas de água, os velhos caracóis da minha juventude tinham um travo genuíno que se perdeu para sempre com a chegada de toda esta modernidade comercial. Não há nada a fazer contra isso. Basta o pranto e a lamentação desta crónica povoada de nostalgia e de palavras.
[Crónicas do Tejo 294]
terça-feira, 31 de agosto de 2021
As buganvílias de Marta na ADECO
Passaram
já trinta e quatro anos mas tudo permanece igual no recreio da ADECO com as
paredes caiadas e os pneus dos meninos em sossego mas por pouco tempo. As
buganvílias de Marta são uma afirmação do calendário; o seu esplendor está no coração
do mês de Maio prestes a despedir-se do Mundo entre o Dia da Mãe e as primeiras
cerejas tão vermelhas como as flores. Aqui, no recanto do recreio dos meninos,
só os pneus podem dialogar com a exuberante beleza das buganvílias. Com uma
diferença: os pneus precisam de perícia, de velocidade e de destreza mas as
flores não precisam de nada; elas já são só por si o maior valor acrescentado à
luz da manhã no Jardim Infantil.
Na grande seara de lágrimas e de sangue pisado, de saudade e de distância, as buganvílias de Marta na ADECO são mais que uma imagem e uma memória, são o adubo da nova sementeira que todos os anos se repete no pátio onde os meninos velozes correm ao lado dos velhos pneus. Depois do frio e da chuva no Inverno vem o Sol e o calor da Primavera. Como se fosse também um relógio, o tempo dá a sua luz ao esplendor das buganvílias. É assim como a Música, uma melodia com princípio, meio e fim mas que, mesmo depois do último acorde, não se perde mesmo quando se deixa de ouvir. E continua a cantar, como se fosse um leve sussurro, no coração de cada um de nós. (escrito sobre uma foto de Ana Isabel)
[Crónicas
do Tejo 286]
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
«Basalto» de Ana Franco
O título do livro vem do poema
da página 93: «Basalto, /em ti deixei impressa /a Saudade/ a melodia entre o
Mar e a rocha /a paleta de cor e tons…» Há ao longo deste volume de 174 páginas
uma dupla inscrição: Natureza e Cultura.
De um lado a Natureza: «Se consultar
/o dicionário da alma/impresso está /o encanto. /És mais do que a semente.
/Para ti o Mundo/criado foi. /Toda a Natureza /o teu olhar espera.» Do outro
lado a Cultura, as Letras e as Artes. Seja Domingos Rebelo e Tomaz Borba Vieira
(«Se os “Emigrantes” de Domingos Rebelo, pendurado numa das paredes do “Bureau
de Turismo”, à guarda do Senhor Silva Júnior me fascinavam no meu tamanho de
pigmeu na Vida e na Arte, agora idosa encontro-me diante dos “Regressantes” de
Tomaz Borba Vieira. Dilatam-se as pupilas do meu olhar»), seja Lagoa Henriques
(«Mestre, porque se esconde a sua assinatura na sola do sapato de Fernando
Pessoa… Do Fernando Pessoa em bronze porque o de carne, o escrito…todos os dias
vivo é e ambos sabem o que mais ninguém sabe.» ou Raul Brandão («As Ilhas
desconhecidas mostram bem o teu amor à Natureza por Deus criada») ou ainda
António Rego: «Sentei-me no quarto/da minha alma/e perplexa fico /com o seu
texto./ Afirmo com/a força do Mar/a cor da lava./A Beleza habita /em si /não em
mim. /Agora sei /a cascata/não canta, reza/ As hortênsias /eternas são/ É o mar
quem escreve. /A luz que pela janela entra/ a brilhar deixa /o pó que em mim
habita. /O orvalho sois Vós/ Senhores das Brisas.»
O poema da página 54 pode ser
lido como mensagem final: «Perdão Pintura! / Perdão Desenho! /Escrava vossa
sou. / Mas em liberdade /o Poema flutua».
(Editora: Letras Lavadas,
Prefácio: Carlos Melo Bento, Capa; Pedro Garoupa, Palavras de: Anabela Almeida,
Vamberto Freitas, Jaime Gama e João Bernardo Rodrigues)
[Um livro por semana 672]
quinta-feira, 15 de julho de 2021
«Como se eu tivesse asas – As memórias perdidas» de Chet Baker
O arco temporal desta biografia de Chet
Baker (1929-1988) decorre entre 1946 (Washington) e 1963 (Barcelona) o mesmo é
dizer entre a recruta no Exército americano e mais uma recaída - «tudo recomeçou uma vez mais». Na
introdução deste livro Carol Baker em 1997 afirma: «Chet Baker não pode ser
descrito apenas como músico, toxicodependente, marido ou lenda» pois a sua vida
aqui contada em 112 páginas foi «um irremediável caos impregnado de puro
génio». No resumo possível deste livro podemos realçar os encontros com as
mulheres na vida do músico: Cisella, Sherry, Charlaine, Liliane, Halema e
Carol.
Com treze anos Chet passa do trombone para
a trompete «porque não conseguia chegar bem às posições mais em baixo» o que
prova que o acaso tem muita força. Terá sido por acaso que descobriu a droga:
«O Andy foi também a primeira pessoa que me fez descobrir a erva, abençoado
seja.» Em 1946 entra com 16 anos para o Exército americano, torna-se amigo de
um companheiro de instrução e sente a sorte do seu lado: «Eu e o Dick fomos os
únicos destacados para a Europa no nosso regimento; todos os outros foram
enviados para o Japão e para a Coreia.» Na sua viagem para Bremerhaven descobre
a loucura: «Como não havia álcool para beber, alguns tipos misturavam Aqua
Velva e sumo de frutas. De tanto engolirem aquele cocktail tóxico à base de aftershave
alguns ficaram cegos.» Na Alemanha tudo era possível: «Qualquer soldado podia
mandar para um Volkswagen conduzido por um alemão (desde que o motorista
estivesse sozinho) e este levá-lo aonde quer que fosse por cinco ou seis cigarros.»
É em Berlim que descobre Cisella: «Ela e a irmã tinham sido enviadas para lá
pelos pais na esperança de que viessem a conhecer um soldado – de preferência
um oficial. O plano era casarem ou, no mínimo, receberem comida, roupa e
dinheiro desse militar.» Forte o encontro com Charlie Parker no Tiffany Club :
«Senti-me pouco à vontade e muito nervoso quando ele perguntou à assistência se
eu estava lá e se podia subir e tocar alguma coisa com ele.»
Fica apenas uma ideia deste magnífico
livro de memórias que não se pode perder.
(Editora: VS Vasco Santos, Design: João
Bicker, Revisão: Carina Correia, Tradução: Sofia Castro Henriques)
[Um livro por semana 671]
quarta-feira, 30 de junho de 2021
«Os Tripeiros» de António Coelho Lousada
António Coelho Lousada
(1828-1859) não foi «um jornalista de banca» nas colaborou em diversos jornais
e revistas do Porto como A Lira da Mocidade, A Grinalda, Miscelânea Poética, O
Bardo, Braz Tisana, Clamor Público, A Esmeralda, O Nacional, O Comércio do
Porto ou A Península. A sua vida foi marcada pela paixão por Maria Emília
Braga, irmã dos escritores Alexandre e Guilherme Braga, falecida em 1850.
Arnaldo Gama considerou-o «Um homem de talento», Pedro da Silveira lembra-o
como «Um moço triste, preso à lembrança de noiva» e Camilo Castelo Branco viu
nele «uma inteligência que será aqui a primeira.» A narrativa arranca no ano de
1384 quando, perante o cerco castelhano a Lisboa, o Mestre de Avis envia Rui
Pereira (tio do Condestável) ao Porto a pedir auxílio aos burgueses da cidade.
Não é fácil tal tarefa pois vozes se levantam contra («Se os de Lisboa carecem
de nós, nós não carecemos deles») até
que um discurso serena os ânimos: «Meteram-vos na cabeça que vos queriam matar
à fome porque se embarca a carne na esquadra mas não se lembrou ninguém que
todos os miúdos cá ficam!» Segundo Camilo Castelo Branco em Os Tripeiros
«sublimemente se explica o epíteto que alguns palermas cuidam soar
indecorosamente para os netos da valente raça de portuenses».
Tal como refere o título do
sexto capítulo este «romace-crónica» cruza no seu articulado «causa pública e
coisas particulares» em 165 páginas. De um lado o Porto: «O Porto tinha de
tudo: súbditos da coroa e súbditos da mitra e moradores que nem reconheciam uma
nem outra; havia cristãos, mouros e judeus. A aljama era a mais pobre; a esnoga
era a mais rica; a cruz era a mais forte.» No pano de fundo geral nascemos
conflitos particulares, os amores de Fernando/Irene ou João/Garifa e surge uma
reflexão sobre o Amor («As mulheres lucram menos com o que recebem do homem em
geral: não as compensamos.» ) ou dito de outra maneira («A pobre não sabia que
o amor não se traduz bem em palavras») ou ainda («maior feitiçaria que a do
amor não pode haver») e conclui, dirigindo-se aos leitores: «os que são
casados, o são por amor e os solteiros e as solteiras ainda não deram um
sorriso, um olhar a dote algum de boa soma, simplesmente pelo dote e nada
mais». Voltando ao lado social da narrativa, lê-se na página 126: «A poesia
nessa época era tida em grande conta e as atenções da assembleia voltaram-se
para o bardo.» E na 148 se lê: «as mouras por aqueles tempos roubavam às
cristãs bastantes corações, tanto de nobres como de peões, o que as obrigava a
crer em poderes ocultos para não se confessarem derrotadas nos encantos.»
(Editora: Associação de
Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Prefácio, notas e revisão: José Viale
Moutinho, Foto: João Paulo Coutinho)
[Um livro por semana 670]
terça-feira, 15 de junho de 2021
«O intervalo entre o raio e o trovão» de Eduardo Jorge Duarte
Um dos aspectos fascinantes
neste livro de estreia é a lucidez como quando o Poeta fala consigo mesmo
(«Também morrerás, poeta, /Fica descansado») ou fala da pressa como inimiga da
Poesia ( «Era qualquer coisa que nos acontecia /E para a qual não tínhamos uma
definição /Nenhuma palavras lhe servia.») ou ainda sobre o acto de ler: «Não
tenho pressa /O caminho é em frente /Uma casa não se começa /Pela telha mais
recente /Como um verso delicado / É um modo alvoroçado /De dizer um sentimento
urgente. /O meu trabalho é paciente /Percorro livros, tapo cada buraco /Deixado
aberto pelo escritor. /A palavra é o meu fato-macaco: /Sou leitor.»
Numa simples nota fica o poema
da página 28, um programa completo: «Deixa tocar o poema/Dá-lhe o tom e a voz
que entenderes. /Se for coisa de saudades ou problema /De amigos ou de mulheres
/Ouve-o, deixa-o falar sossegado /Até que o sentimento mais limpo se revele /E
saibas então entrar na pele /Daquele que não vês do outro lado.»
Pata terminar o poema da
página 57 que conclui: «Entre versos fúteis e opacos /Até um cego pode ver a
voz de Deus.»
(Editora: On y va, Foto do autor:
Luís Costa, Capa: Cristina Viana, Grafismo e paginação: João Paulo Fidalgo)
[Um livro por semana 669]









