domingo, 7 de novembro de 2021

«Os dedos trans-lúcidos do escrevinhador» de Adalberto Alves

Adalberto Alves (n.1939) celebra 40 anos de vida literária com este livro de 94 páginas cujo título vem do poema da página 81: «Os dedos trans-lúcidos do escrevinhador /saberão do poema aquilo que o peixe/ sabe da água em que vai nadando? /ah, mas o peixe ignora tanto a água /como eu o ar transparente que respiro.» Um dos temas inevitáveis é o Balanço: «Não sei o que é mais doloroso/se o veleiro das palavras desgastadas/se o pulsar desgastante do silêncio…» Outro tema óbvio é o da Vida: «sobre o coração eu tenho um nome/com letras, pesponto do mistério/é nome que os homens difamaram / com perfídias geladas e sombrias / a cada batida certa e compassada /tal nome repetido num sussurro /mal posso ouvi-lo; não consigo encostar o meu ouvido ao peito /mas esse nome, eu sei, é VIDA.»

O poeta, ele mesmo, inscreve-se no poema («Fui a todas nunca me poupei /àquilo que a vida me ofereceu») tal como já se tinha inscrito n página 17 («alguém me perguntou quem és ? /respondi: não sei dizer ao certo») e na página 53: «”ao mundo uma carta escrevo” / a carta que ninguém leu /fala de pena e de enlevo/e essa carta sou eu.» A ironia também está presente no poema da página 28: «… uma gorda ratazana /e acabou num cano de esgoto/apesar de nunca se enganar/e raramente ter dúvidas.»

A única possível resposta à Morte é o Amor («Imaculado e santo seja o Amor») como se lê na página 19: «o alfabeto do Amor é bem curto/ mas serve p´ra dizer o que se queira».

Entre o precário da Vida e o frágil do Amor, só a Natureza continua: «a Natureza jamais pára: fervilha, fervilha e desemboca /cumprindo o plano estabelecido, /nem que seja como surda ou cega ou muda, /no alto dos ares ou no fundo dos mares.»

(Editora: Labirinto, Paginação: Marta Toscano, Prefácio: Ronaldo Cagiano, Capa: Daniel Gonçalves, Coordenação: Víctor Oliveira Mateus e Maria João Cabrita)           

[Um livro por semana 675]

 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

«Os Provérbios dos nossos Avós» de José Alves Reis

Este livro de 311 páginas organiza-se por capítulos (ou temas) de A a Z: Agricultura, Água, Ambição, Amizades e Companhias, Animais, Burros, Casamento, Cães e Gatos, Comidas e Bebidas, Conselhos, Crianças, Deus, Diabo, Economia/Dinheiro, Educação/Cultura, Família, Felicidade, Festas e Romarias, Frutos, Homem, Inveja, Lua e Sol, Mentiras e Enganos, Meses/Estações do ano, Morte, Mulher, Natal, Profissões, Religião, Santos, Saúde, Sorte, Tempo, Trabalho, Velhice, Vida, Vinho, Vizinhos. Sem esquecer «Os provérbios dos nosso avós» que dá título ao volume e ocupa as páginas 7 a 125.

Desde criança aprendi a lidar de perto com uma frase muito usada na região de Alcobaça e que funciona também como um provérbio: «A vida é como a morte de São Bernardo; uns a rir, outros a chorar.» Refere-se a um quadro na parede do Mosteiro de Alcobaça em que um grupo de frades chora e outro toca pífaros e tambores na morte do fundador da Ordem.

Claro que todos os provérbios em geral podem ter um oposto; baste pensar naquele clássico «O bom julgador a si se julga» ao lado de uma adversativa - «Ninguém é bom juiz em causa própria».  

Nesta breve nota de leitura não posso deixar de referir um dos provérbios sobre o Amor («O homem tem a idade da mulher que ama)» e outro muito curioso: «Amar é dar a alguém o poder de nos causar sofrimento» e por fim o da página 77: «O amor começa com um sorriso, cresce com um beijo e acaba com uma lágrima.»

E depois de um adversativa («A felicidade é algo que se multiplica quando se divide») termino com um autêntico programa de vida: «Se achas bom ser importante, um dia descobrirás que é mais importante ser bom.»

(Editora: LITEXA, Capa: Carlota Saraiva de Menezes)

[Um livro por semana 674]

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

«A PIDE e os seus informadores – O caso de Inácio» de Paulo Marques da Silva

Paulo Marques da Silva (n.1966) depois de «Fernando Namora por entre os dedos da PIDE» (2009), «Condeixa – paisagem, memória e história» (2010), «Deniz Jacinto entre duas paixões – o Teatro e a Liberdade» e «Pois não te resta ainda o Mundo?» (2015) sendo dois livros em co-autoria, surge com este «A PIDE e os seus informadores – O caso de Inácio» (2019) que faz a cartografia tenebrosa dum tempo (anos 30 a 60 do século passado) e de um lugar (Coimbra e seus arredores) inventariando as suas instituições e os elementos que não estavam com o Estado Novo. O ponto de partida é a página 63: «Todos os Organismos Oficiais estão cheios desta gente, tais como: Correios, Hospitais da Universidade, Governo Civil, Câmara Municipal, Polícia Judiciária, Polícia de Segurança Pública, Tribunais, Grémios e Regimentos. As ligações são a toda a hora e momento, a sua acção estende-se por toda a parte e hoje o Estado Novo é arrasado, alto e bom som, em todos os pontos da cidade sem o mais pequeno rebuço. Os jornais da cidade são todos dirigidos por elementos avançados já referenciados e os correspondentes dos jornais de Lisboa e Porto na mesma. Todos os Cafés da cidade são pontos de reunião de elementos avançados que, abertamente, ali fazem o seu trabalho.»

O delírio de Inácio vai ao ponto de chamar «reviralhista» a Afonso Duarte e «comunista» a Joaquim Veríssimo Serrão: «… dentro da Universidade e em grupos desafectos foi bastantes vezes notada a propaganda que o SERRÂO fazia, sendo notória a sua acção avançada» O uso de certas palavras (seita, perlenga) denota não só agressividade mas também ignorância: «O alferes Rosa Neto tinha em seu poder vária papelada e até jornais da Seara Nova». Noutro passo refere o Ateneu de Coimbra: «São maus e rancorosos. É um agrupamento que, num caso de conflito interno, vem imediatamente para a rua, constituindo brigadas de choque.» Para além de propor o encerramento de Clubes e Associações, Inácio critica a pouca firmeza das autoridades: «Como é sabido não se efectuaram prisões por causa dos desmandos efectuados e agora os homens do MUD e comunistas andam a apregoar que se o não fizeram é derivante da fraqueza do Governo que se vê num beco sem saída e até sem prestígio. O tempo do papão e do Tarrafal já passou, dizem.» O Clube fechado em Pereira do Campo vai renascer sob o patrocínio da FNAT: «O estudante Luís Mexia, sobrinho do Dr. Mário de Figueiredo, que eles colocaram à frente, é um pateta mor, sem personalidade alguma. É comido e levado com facilidade por tal «malta» que o tem ali apenas como rótulo. É com estas habilidades que o comunismo vai alastrando e aparece em todos os sectores.»      

(Editora: Palimage, Foto da Capa: Maria João Reis Torgal, Colecção: Raiz do Tempo, Apresentação: Luís Reis Torgal)

 [Um livro por semana 673]


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Dissertação para uma fotografia a preto e branco na eira

Há um homem a sorrir que pega na joeira e, com toda a perícia, faz saltar o feijão e a sua palha para que o vento os separe no ar e assim o regresso à joeira seja apenas dos feijões depois de a palha ter sido levada pela brisa. Esse gesto tem sido repetido ao longo do tempo mas as mais recentes gerações já não o dominam sem sequer o lembram; basta neste caso uma fotografia a preto e branco tirada por uma jovem arquitecta portuguesa nascida em Lisboa no ano de 1978. O protagonista da fotografia nasceu em 1927 e é o avô paterno da autora deste retrato em movimento a aproveitar a brisa do Oceano Atlântico que vem do lado de São Martinho do Porto para limpar a palha do feijão em Santa Catarina. Os tempos modernos alteraram essa gramática de sementeira e colheita, esse calendário da terra entre a chuva do Inverno e o sol do Verão, essa regularidade muito antiga e, afinal, de todos os anos; hoje o feijão aparece nas prateleiras das grandes superfícies em latas com origem na China ou na Tailândia. Passa-se com o feijão o mesmo que acontece com os caracóis: descobriram alguns que os mais baratos são os de Marrocos e, por isso, dão mais lucro a quem os cozinha com cebola e orégãos para os vender em pratinhos nas esplanadas ou à beira do mar. O sabor perdeu-se mas o lucro aumentou em termos exponenciais. Apanhados ao romper do dia nas searas e nos canaviais à beira das linhas de água, os velhos caracóis da minha juventude tinham um travo genuíno que se perdeu para sempre com a chegada de toda esta modernidade comercial. Não há nada a fazer contra isso. Basta o pranto e a lamentação desta crónica povoada de nostalgia e de palavras.       

[Crónicas do Tejo 294]

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

As buganvílias de Marta na ADECO

Passaram já trinta e quatro anos mas tudo permanece igual no recreio da ADECO com as paredes caiadas e os pneus dos meninos em sossego mas por pouco tempo. As buganvílias de Marta são uma afirmação do calendário; o seu esplendor está no coração do mês de Maio prestes a despedir-se do Mundo entre o Dia da Mãe e as primeiras cerejas tão vermelhas como as flores. Aqui, no recanto do recreio dos meninos, só os pneus podem dialogar com a exuberante beleza das buganvílias. Com uma diferença: os pneus precisam de perícia, de velocidade e de destreza mas as flores não precisam de nada; elas já são só por si o maior valor acrescentado à luz da manhã no Jardim Infantil.

Na grande seara de lágrimas e de sangue pisado, de saudade e de distância, as buganvílias de Marta na ADECO são mais que uma imagem e uma memória, são o adubo da nova sementeira que todos os anos se repete no pátio onde os meninos velozes correm ao lado dos velhos pneus. Depois do frio e da chuva no Inverno vem o Sol e o calor da Primavera. Como se fosse também um relógio, o tempo dá a sua luz ao esplendor das buganvílias. É assim como a Música, uma melodia com princípio, meio e fim mas que, mesmo depois do último acorde, não se perde mesmo quando se deixa de ouvir. E continua a cantar, como se fosse um leve sussurro, no coração de cada um de nós. (escrito sobre uma foto de Ana Isabel)

[Crónicas do Tejo 286]


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

«Basalto» de Ana Franco

O título do livro vem do poema da página 93: «Basalto, /em ti deixei impressa /a Saudade/ a melodia entre o Mar e a rocha /a paleta de cor e tons…» Há ao longo deste volume de 174 páginas uma dupla inscrição: Natureza e Cultura.

De um lado a Natureza: «Se consultar /o dicionário da alma/impresso está /o encanto. /És mais do que a semente. /Para ti o Mundo/criado foi. /Toda a Natureza /o teu olhar espera.» Do outro lado a Cultura, as Letras e as Artes. Seja Domingos Rebelo e Tomaz Borba Vieira («Se os “Emigrantes” de Domingos Rebelo, pendurado numa das paredes do “Bureau de Turismo”, à guarda do Senhor Silva Júnior me fascinavam no meu tamanho de pigmeu na Vida e na Arte, agora idosa encontro-me diante dos “Regressantes” de Tomaz Borba Vieira. Dilatam-se as pupilas do meu olhar»), seja Lagoa Henriques («Mestre, porque se esconde a sua assinatura na sola do sapato de Fernando Pessoa… Do Fernando Pessoa em bronze porque o de carne, o escrito…todos os dias vivo é e ambos sabem o que mais ninguém sabe.» ou Raul Brandão («As Ilhas desconhecidas mostram bem o teu amor à Natureza por Deus criada») ou ainda António Rego: «Sentei-me no quarto/da minha alma/e perplexa fico /com o seu texto./ Afirmo com/a força do Mar/a cor da lava./A Beleza habita /em si /não em mim. /Agora sei /a cascata/não canta, reza/ As hortênsias /eternas são/ É o mar quem escreve. /A luz que pela janela entra/ a brilhar deixa /o pó que em mim habita. /O orvalho sois Vós/ Senhores das Brisas.»    

O poema da página 54 pode ser lido como mensagem final: «Perdão Pintura! / Perdão Desenho! /Escrava vossa sou. / Mas em liberdade /o Poema flutua».

(Editora: Letras Lavadas, Prefácio: Carlos Melo Bento, Capa; Pedro Garoupa, Palavras de: Anabela Almeida, Vamberto Freitas, Jaime Gama e João Bernardo Rodrigues)

[Um livro por semana 672]

 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

«Como se eu tivesse asas – As memórias perdidas» de Chet Baker

O arco temporal desta biografia de Chet Baker (1929-1988) decorre entre 1946 (Washington) e 1963 (Barcelona) o mesmo é dizer entre a recruta no Exército americano e mais uma recaída  - «tudo recomeçou uma vez mais». Na introdução deste livro Carol Baker em 1997 afirma: «Chet Baker não pode ser descrito apenas como músico, toxicodependente, marido ou lenda» pois a sua vida aqui contada em 112 páginas foi «um irremediável caos impregnado de puro génio». No resumo possível deste livro podemos realçar os encontros com as mulheres na vida do músico: Cisella, Sherry, Charlaine, Liliane, Halema e Carol.
Com treze anos Chet passa do trombone para a trompete «porque não conseguia chegar bem às posições mais em baixo» o que prova que o acaso tem muita força. Terá sido por acaso que descobriu a droga: «O Andy foi também a primeira pessoa que me fez descobrir a erva, abençoado seja.» Em 1946 entra com 16 anos para o Exército americano, torna-se amigo de um companheiro de instrução e sente a sorte do seu lado: «Eu e o Dick fomos os únicos destacados para a Europa no nosso regimento; todos os outros foram enviados para o Japão e para a Coreia.» Na sua viagem para Bremerhaven descobre a loucura: «Como não havia álcool para beber, alguns tipos misturavam Aqua Velva e sumo de frutas. De tanto engolirem aquele cocktail tóxico à base de aftershave alguns ficaram cegos.» Na Alemanha tudo era possível: «Qualquer soldado podia mandar para um Volkswagen conduzido por um alemão (desde que o motorista estivesse sozinho) e este levá-lo aonde quer que fosse por cinco ou seis cigarros.» É em Berlim que descobre Cisella: «Ela e a irmã tinham sido enviadas para lá pelos pais na esperança de que viessem a conhecer um soldado – de preferência um oficial. O plano era casarem ou, no mínimo, receberem comida, roupa e dinheiro desse militar.» Forte o encontro com Charlie Parker no Tiffany Club : «Senti-me pouco à vontade e muito nervoso quando ele perguntou à assistência se eu estava lá e se podia subir e tocar alguma coisa com ele.»
Fica apenas uma ideia deste magnífico livro de memórias que não se pode perder.


(Editora: VS Vasco Santos, Design: João Bicker, Revisão: Carina Correia, Tradução: Sofia Castro Henriques)


[Um livro por semana 671]
 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

«Os Tripeiros» de António Coelho Lousada

António Coelho Lousada (1828-1859) não foi «um jornalista de banca» nas colaborou em diversos jornais e revistas do Porto como A Lira da Mocidade, A Grinalda, Miscelânea Poética, O Bardo, Braz Tisana, Clamor Público, A Esmeralda, O Nacional, O Comércio do Porto ou A Península. A sua vida foi marcada pela paixão por Maria Emília Braga, irmã dos escritores Alexandre e Guilherme Braga, falecida em 1850. Arnaldo Gama considerou-o «Um homem de talento», Pedro da Silveira lembra-o como «Um moço triste, preso à lembrança de noiva» e Camilo Castelo Branco viu nele «uma inteligência que será aqui a primeira.» A narrativa arranca no ano de 1384 quando, perante o cerco castelhano a Lisboa, o Mestre de Avis envia Rui Pereira (tio do Condestável) ao Porto a pedir auxílio aos burgueses da cidade. Não é fácil tal tarefa pois vozes se levantam contra («Se os de Lisboa carecem de nós, nós não carecemos deles»)  até que um discurso serena os ânimos: «Meteram-vos na cabeça que vos queriam matar à fome porque se embarca a carne na esquadra mas não se lembrou ninguém que todos os miúdos cá ficam!» Segundo Camilo Castelo Branco em Os Tripeiros «sublimemente se explica o epíteto que alguns palermas cuidam soar indecorosamente para os netos da valente raça de portuenses».

Tal como refere o título do sexto capítulo este «romace-crónica» cruza no seu articulado «causa pública e coisas particulares» em 165 páginas. De um lado o Porto: «O Porto tinha de tudo: súbditos da coroa e súbditos da mitra e moradores que nem reconheciam uma nem outra; havia cristãos, mouros e judeus. A aljama era a mais pobre; a esnoga era a mais rica; a cruz era a mais forte.» No pano de fundo geral nascemos conflitos particulares, os amores de Fernando/Irene ou João/Garifa e surge uma reflexão sobre o Amor («As mulheres lucram menos com o que recebem do homem em geral: não as compensamos.» ) ou dito de outra maneira («A pobre não sabia que o amor não se traduz bem em palavras») ou ainda («maior feitiçaria que a do amor não pode haver») e conclui, dirigindo-se aos leitores: «os que são casados, o são por amor e os solteiros e as solteiras ainda não deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa soma, simplesmente pelo dote e nada mais». Voltando ao lado social da narrativa, lê-se na página 126: «A poesia nessa época era tida em grande conta e as atenções da assembleia voltaram-se para o bardo.» E na 148 se lê: «as mouras por aqueles tempos roubavam às cristãs bastantes corações, tanto de nobres como de peões, o que as obrigava a crer em poderes ocultos para não se confessarem derrotadas nos encantos.»

(Editora: Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Prefácio, notas e revisão: José Viale Moutinho, Foto: João Paulo Coutinho)

 [Um livro por semana 670]


terça-feira, 15 de junho de 2021

«O intervalo entre o raio e o trovão» de Eduardo Jorge Duarte


Depois de «Montanário» (2017), de ver contos publicados no «Le Monde Diplomatique», no «Jornal de Monchique» e em «Uma coruja nas ruínas» (2018), Eduardo Jorge Duarte (n.1982) estreia-se na Poesia com este «O intervalo entre o raio e o trovão», título do primeiro poema do livro de 84 páginas: «Parecemos perdidos no mundo. /No intervalo entre o raio e o trovão. / Perplexos na tempestade, /Contamos cada segundo /Que vai da luz da solidão/Ao ruído da nossa humanidade. / E só após o estremeção /Lembramos que a vida/ É uma corrente de ar comprimida / Entre o estrondo e o clarão.» No poema da página 21 surge um outro olhar sobre a vida: «Trezentos e sessenta e cinco dias de velhice/ Inteiros, vividos em casas decimais. / O destino bateu-lhes à porta e disse /Que a dor, o amor e tudo o mais/ Que neles se cumprisse /Eram milagres fatais /Da meninice /A morrer de causas naturais.»

Um dos aspectos fascinantes neste livro de estreia é a lucidez como quando o Poeta fala consigo mesmo («Também morrerás, poeta, /Fica descansado») ou fala da pressa como inimiga da Poesia ( «Era qualquer coisa que nos acontecia /E para a qual não tínhamos uma definição /Nenhuma palavras lhe servia.») ou ainda sobre o acto de ler: «Não tenho pressa /O caminho é em frente /Uma casa não se começa /Pela telha mais recente /Como um verso delicado / É um modo alvoroçado /De dizer um sentimento urgente. /O meu trabalho é paciente /Percorro livros, tapo cada buraco /Deixado aberto pelo escritor. /A palavra é o meu fato-macaco: /Sou leitor.»

Numa simples nota fica o poema da página 28, um programa completo: «Deixa tocar o poema/Dá-lhe o tom e a voz que entenderes. /Se for coisa de saudades ou problema /De amigos ou de mulheres /Ouve-o, deixa-o falar sossegado /Até que o sentimento mais limpo se revele /E saibas então entrar na pele /Daquele que não vês do outro lado.»

Pata terminar o poema da página 57 que conclui: «Entre versos fúteis e opacos /Até um cego pode ver a voz de Deus.»

(Editora: On y va, Foto do autor: Luís Costa, Capa: Cristina Viana, Grafismo e paginação: João Paulo Fidalgo)

 [Um livro por semana 669]