domingo, 22 de novembro de 2020

Saudação breve a Ana Carolina


Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos a fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras por fim encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal, sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tu não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa, oh! Ana Carolina tu não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo, naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer, um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de júbilo. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.      

[Crónicas do Tejo 239]

(Óleo de Gary Melchers)


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

O cais dos soldados em Londres


Estamos em Blackheath. Na Morden Road passamos à porta da casa do compositor Charles Gounod que aqui viveu nos tempos da guerra entre a França e a Prússia. Vinha à tarde no comboio de Charing Cross e alugava uma carruagem à porta da estação dos comboios. Mais à frente, no planalto, ficamos a saber que a actual A2, um dos itinerários principais de Inglaterra foi, em tempos recuados, a estrada romana para Canterbury. Henrique VIII, entre pompa e circunstância, aqui recebeu Ana de Cléves como futura esposa, no ano de 1540. Por sua vez Wat Tyler juntou em 1381 uma assembleia de camponeses revoltados nesta mesma estrada. Hoje o coração desta imensidão verde recebe mães com crianças, passeadores de cães, papagaios de papel, carrinhos de choque e jogatanas intermináveis de futebol –muda aos seis, acaba aos doze. Os circos, tal como as caravanas de ciganos, já são mais raros. Foi neste relvado sem fim à vista que nasceram alguns clubes de rugby e de futebol. Um deles, o Blackheath Football Club, fez parte dos pioneiros que, em 1863, na Freemason´s Tavern, criaram as leis do moderno futebol, tornando a sua prática independente do rugby. Cruzando em diagonal o Greenwich Royal Park, cedo chegamos à zona do mercado a funcionar em grande aos sábados e domingos. Muito perto das antigas cozinhas onde os velhos marinheiros, sem família e sem dinheiro, vinham às sopas reais, surgem as mais inesperadas lojas. De antiguidades, lhes chamamos em Portugal. São coisas ditas efémeras: mapas, cartazes, postais ilustrados, livros antigos, fotografias, discos LP e EP, pequenos móveis úteis às costureiras antigas, no tempo das libras se dividirem em xelins e em dinheiros. Nessa rua descubro o conceito activo e prático de fundo editorial: compram-se cinco livros por cinco libras, cada livro mais barato do que uma viagem de autocarro. Vejamos um conjunto: uma história breve do Jazz, um livro da Penguin sobre pássaros, uma biografia de Frank Sinatra, a vida do guarda-redes mais lendário do vizinho Charlton Athletic e um guia da Londres, bairro a bairro, de Barnet e Merton, de Ealing a Lewisham.  Mas apetece voltar atrás como se o efémero se pudesse suspender e transformar em permanente, algures numa estante. Não resisti e trouxe uma gravura mostrando Portugal como um leão e Espanha como uma mulher. Gravura antiga, percebe-se pelas bandeiras. Século XIX, sem dúvida. Há lojas de roupa em segunda mão, boa e barata, devidamente limpa e reclassificada que as pessoas já se habituaram a procurar uma vez por semana para ver as novidades. Os lucros dessas lojas revertem para apoio da investigação e da luta contra o cancro. Os ingleses de aqui ao pé da porta gostam de conservar os objectos do passado. Em Blackheath, Age Exchange é o nome desta loja especial na qual se reproduz o ambiente de um estabelecimento comercial dos anos 40, com balcão, balanças e moedas da época da II Guerra Mundial. Já passei férias em Southwark, na City (Barbican) e em Blackheath; faço sempre aproximações a Lisboa. A Southwark chamava Terreiro do Trigo, ao Barbican chamava Gulbenkian e a Blackheath chamo Restelo. No primeiro caso o rio ali mesmo à beira, no segundo os jardins e os prédios com o brutalismo dos anos 60 e 70, no terceiro caso as grandes avenidas com casas bonitas e árvores frondosas. Há uma comum curiosidade. Entre o Terreiro do Trigo e Santa Apolónia havia em temos o Cais dos Soldados. Tal como em Greewich havia o cais de onde partiam jovens marinheiros, soldados da Rainha, os mesmos que anos mais tarde, sem família e sem dinheiro, terão a sua sopa diária nos edifícios da Escola Naval. É dessa rua, do outro lado dessa rua de Greenwich que trago como memória de uma memória, a gravura onde Portugal é um leão e a Espanha uma mulher.

     

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

«Matéria avulsa» de Manuel Simões

O mais recente livro de Manuel Simões (n.1933) indica na capa um resumo («contos, crónicas e afins») e tem 131 páginas. Poeta, ensaísta, tradutor, Manuel Simões tem sido editor («Nova Realidade»), jornalista (Revista «Vértice»), professor no ensino secundário (Escola Veiga Beirão) e nas Universidades de Bari, Veneza e Florença, sendo fundador da Revista «Ressegna Iberística» em Veneza no ano de 1978. Os contos são cinco, as crónicas são onze e a marginália (afins) inclui dezoito textos sobre vários temas e autores: Futurismo, Guerra Colonial, Revistas «Vértice» e «Sol Nascente», Alberto Pimenta, Luís Filipe Barreto, Guilherme de Azevedo, Soror Violante do Céu, António José Saraiva, Giuseppe Tavani, Padre António Vieira, José Cardoso Pires, Infante D. Pedro (das sete partidas) , Franco Menegalli, Luís António Verney, Ana Hatherly e António Mega Ferreira.  

Como convite à leitura fica um excerto da crónica sobre a cidade de Veneza: «Veneza é uma cidade de contrastes. Parece-nos, à superfície, a mais cosmopolita das cidades histórias mas, conhecendo-a no seu respirar mais íntimo, revela-se no seu provincianismo inesperado, no seu mau gosta dos objectos propostos como «lembranças» que atraem o turista da classe média, sem capacidade para exercer uma «crítica do gosto». De qualquer modo não é a cidade ideal pata se viver: o clima é frio, húmido, com os longos dias (ou semanas) de nevoeiro intensíssimo de Outubro a Abril, quente e asfixiante no Verão; e há ainda os turistas que preenchem completamente as ruas e as praças («campi»), cada vez em maior número, o que não permite uma liberdade de movimentos. Estes são, porém, os turistas que a visitam mais demoradamente, porque a maior parte, a dos grupos de agências de viagens, dorme em Mestre por ser mais económico, é conduzida de autocarro até à entrada da cidade, metida nos «vaporetti» até S. Marcos, visita a praça, a basílica e às vezes o palácio, regressa a Mestre passado pelo Canal Grande e parte de novo para outro destino: Veneza está vista.»

(Editora: Colibri, Capa: Raquel Ferreira)

 [Um livro por semana 655]

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

«Pretérito presente» de Maria Cecília Correia

Maria Cecília Correia (1919-1993) é uma autora reconhecida pelos seus livros infanto-juvenis  - como, por exemplo, «Histórias da minha rua» (Portugália Editora) vencedor do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho em 1954. A edição recente deste livro de 1976 é comemorativa do seu centenário de nascimento. O título («Pretérito Presente») é um achado pois (todos o sabemos) o passado está sempre presente e o futuro nunca o vivemos, apenas o podemos imaginar.

Trata-se de um livro de tripla inscrição (crónica, poesia, cartas) que logo na primeira crónica diz ao que vem: «Nasci no signo da Rosa. É talvez um signo único, mas um signo como outro qualquer. Em Novembro, no quarto da Mãe, havia uma rosa. Nada de especial, julgo. Não sei em que jarra, em que cómoda, em que mesa, mas ela estava lá quando eu nasci. Hoje existe hum velho embrulho, folhas secas, quase desfeitas e uma letrinha de tinta apagada que diz «flor que assistiu ao nascimento da pequenina Maria.» Como convite à leitura, citamos um poema na página 77, «Jardim sem ninguém»: «A sombra das pombas / que bebem no lago: / dois e dois são quatro. / O voo das asas que escondem o sol: um e um são dois. / O banco onde estou sentada sozinha: / Jardim sem ninguém.» Na página 93. excerto de uma carta a Maria Eulália de Macedo: «Estou apaixonada, Lala. Um estado de paixão constante mas difusa. Apaixonada por tudo. Ontem parei na pontezinha do ribeiro e arrumei à água duas flores brancas  que boiaram, seguiram, encalharam. Elas faziam sombra na água limpa; com a sua sombra reflectiam a luz. Tudo era puro.» Na página 109, um excerto da carta a Alice Gomes: «Também sei o que é perder casas. Até aos 11 anos perdi três. E a idade nada tem a ver com o que eu senti. Tinha oito anos quando se vendeu a casa dos meus Avós em Viseu. Compreendi que poderia esquecer-me dela e então todas as noites a «passava em revista», de alto a baixo. Escuso de te dizer que ainda hoje a tenho inteirinha.»        

(Edição: António Castilho, Capa e Paginação: António Castilho e Eleonor Castilho, Ilustração: António Castilho, Cronologia: Eleonor Castilho)

[Um livro por semana 654]

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

«A luz de Pequim» de Francisco José Viegas

Neste seu nono livro com o inspector Jaime Ramos em figura principal, Francisco José Viegas (n.1962) define o submundo da noite portuense como «uma guerra civil na cidade» e junta, como numa oração, dois Mundos: o dos Homens e o dos Deuses. Entre o precário da Vida e o inevitável de Morte, só o Amor resolve e abre uma luz sobre o Mundo. Tal como na Contabilidade, o escritor assina o Inventário e o leitor estabelece o Balanço que se divide em Activo, Passivo e Situação Líquida. Não por acaso o escritor argentino Jorge Luís Borges se refere a Moncorvo como a terra dos seus avós. Sempre que alguém invoca o seu nome em qualquer parte do Mundo, é Portugal que é lembrado e referido. Não esquecer: foi um apaixonado pela literatura policial. O livro parte de uma descrição de um crime em Moncorvo mas a sua geografia não se limita a Trás-os-Montes e chega a Pequim: as páginas375 e 395 referem de modo explícito «a luz da Pequim».

Jaime Ramos surge na página 15 como «um monumento classificado como velharia que mais tarde ou mis cedo seria removido o seu pedestal e substituído por um halograma» e na 27 como «um homem tolerado, uma sombra do que já fora, uma respiração ofegante que subia degraus numa casa deserta e que conhecia a penumbra da suspeita, uma desconfiança que as novas gerações usavam como método de gestão de recursos humanos» para na 98 ouvir alguém dizer: «Não fazes os relatórios a horas, confias no destino, não respondes aos pedidos de informação, és um empecilho, fazes o que te apetece» e termina na págian 247 a dizer: «Eu não trabalho em homicídio para mudar o mundo nem para fazer do mundo um lugar melhor. É mais para castigar os criminosos e cumprir uma função. Crime e castigo. Punição. Vingança.»

Não é possível resumir um livro de 396 páginas em meia dúzia de linhas mas fica o firme convite à leitura. Mesmo que na página 176 apeteça dizer em voz alta ao «artista» que fala de escritores e fascismo esta coisa elementar: em 1965 a PIDE destruiu a Sociedade Portuguesa de Escritores na Rua da Escola Politécnica por causa do Prémio atribuído ao escritor Luandino Vieira pelo livro «Luanda». Natural de Ourém e José Martins da Graça de seu nome. Mas isso é outra coisa e um livro de ficção vive dessas falas de gente desalinhada e distraída. Uma nota final para a página 395 onde o nome do Bairro em Pequim significa «voltado para o sol» mas Beto e Roberto da Ganga foram encontrados com o rosto voltado para o chão «de poeira e folhagem envelhecida.»

(Edição: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa, Foto: Getty Images)

 [Um livro por semana 653]

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

«Assim nasceu uma língua» de Fernando Venâncio

Fernando Venâncio (n.1944) organiza este livro de 311 páginas em quatro partes: «Antes do Português», «Portugal constrói uma língua», «O Galego e o Português» e «Sós e acompanhados». Sendo impossível resumir um livro desta dimensão em poucas linhas faço nesta ficha um convite à sua leitura que nada pode substituir. Trata-se de um livro sobre palavras e, tal como Ruy Belo escreveu em «País Possível» de 1973, «Sempre entre mim e ao que chama coisas há-de haver palavras». O ponto de partida é um texto da página 14: «As línguas são feitas de palavras e a maioria delas acham-se recolhidas em dicionários. São factos, esses, que nenhuma dúvida parecem admitir. Acontece que a palavra, a noção aqui em causa, suscita vários problemas. E o primeiro deles é a sua própria existência. As palavras existem? Existem, sim, mas é com uma existência precária, artificial, baseada num exercício de abstracção. A larga maioria dos habitantes do planeta teria dificuldade em responder à solicitação: «Diga uma palavra». Com efeito, aquilo que produzimos, ao falarmos, não são palavras mas cadeias de sons entendíveis por outrem. Cadeias que podem ser muito breves: «Aí!» ou «Pára!» Daí uma descoroçoante mas muito prática definição de palavra: «um conjunto de letras entre dois espaços em branco». Exacto: a palavra pertence por natureza ao terreno da escrita e só nele tem verdadeiramente sentido.»

Como não podia deixar de ser o chamado «Acordo Ortográfico de 1990» aparece logo na ficha técnica e numa nota na página 200: «não existem e nunca existirão, traduções luso-brasileiras, seja de Proust, de Dan Brown ou de instruções de máquina de lavar. Em matéria de tradução e de edição, o Brasil e Portugal têm cada um, a sua política e a sua indústria , inteiramente independentes . O célebre Acordo Ortográfico de 1990 foi, no mundo real, um devaneio inútil e dispendioso.» Já num artigo no jornal «Público» disponível na Internet Fernando Venâncio chamou ao «AO90» a fórmula do desastre.      

(Editora: Guerra e Paz, Revisão: Ana de Castro Salgado, Capa e paginação: Ilídio J.B. Vasco, Mapas e fotografia: Carlos Filipe Nogueira, Maria Alice Fernandes e Fernando Venâncio)

[Um livro por semana 652]

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Viagem à volta dos prefácios – Santo Fernando


Dezassete anos (1) depois da sua morte caiu sobre a obra de Santos Fernando (1927-1975) um silêncio tenebroso. É tão difícil encontrar nas livrarias os treze livros que publicou como encontrar nas revistas e jornais literários um texto de estudo e divulgação da sua obra. Esta pequena viagem à volta dos prefácios dos seus livros surge como um alerta a quem ainda não o descobriu e uma chamada de atenção a quem já conhece. Todos sabemos o significado da palavra «prefácio» (discurso preliminar, inserto no princípio de um livro) mas Santos Fernando utilizou o prefácio como instrumento privilegiado de comunicação com o leitor: neles se pode descobrir o perfil biográfico ao lado da nota sobre a sociologia da literatura, relações com a crítica, problemas da fortuna editorial e da precária posteridade. Sem esquecer um olhar sobre os disparates do Mundo. Sobre a biografia lê-se em Os Cotovelos de Vénus: «Dizem que nasci em Lisboa, na Travessa do Moinho de Vento à Lapa, no dia 22 de Janeiro de 1927, num quarto exíguo onde mal couberam as três balas disparadas da Cova da Moura, onde se cozinhava uma revolução» E em Areia nos Olhos: «A nossa rua é algo que, mais tarde ou mais cedo, começa a significar alguma coisa para nós. A sua calma secular, aureolada por uma tradição de suspiros de amantes, escondidos em arcas encouradas, vejo-a agora fugir em montões de terra e pedra, que estrondosas viaturas transportam num frenesim apocalíptico.» Sobre o ofício de escritor lê-se em Os Cotovelos de Vénus: «O escritor, parte integrante da vida da sua época, observador firme no meio social, bastas vezes insociável, não pode desempenhar o papel frio e frívolo que volta as costas à cena. A sua missão lógica é estudar a geração a que pertence, de molde a auxiliá-la, gritando-lhe os podres, caricaturando-a, amando-a, em suma.» Mais tarde, em As Uvas Estão Maduras: «A literatura é uma arte famélica numa época de simbioses, mitos e contrastes – opinião para a qual se pode fornecer o seguinte exemplo: naquele prédio há um agregado familiar que morre vítima da fome e uma família que rebenta de indigestão.» Finalmente em Sexo 20: «Não se escrevem já livros extensos. Livros longos e mulheres enormes, assustam e o homem deixou de ter tempo para leituras excessivas.» Sobre o problema da posteridade descobrimos em Areia nos olhos: «Convencionou-se deixar passar o préstito dos artistas para, após terceira badalada, se invocarem então as glórias do defunto, depois da crítica severa dos íntegros infalíveis os ter apunhalado em vida. E eu pergunto: será fundamental, imprescindível chegar ao estado de fertilizante, de repolho, de fóssil, para finalmente se nascer?». Ou em As Uvas Estão Maduras: «Explorado como uma mina de antracite resta ao escritor a imortalidade que, se um dia chega, é já muito depois da transladação dos ossos, dos poucos, ainda assim, que resistiram aos prodigiosos roedores.» Sobre a importância dos prefácios lemos em A Bolsa do Canguru: «Perguntar se alguém costuma escrever os prefácios dos seus livros ou dá-los a outros para que os façam não será o mesmo que inquirir duma pessoa se manda fazer os filhos ao estrangeiro?» Já em As Uvas estão Maduras escrevia: «Eu gosto dos prefácios rosados, redondos, rijos como os seios que despontam às jovens colegiais, quase sem darem por isso, entre as aulas de ginástica e de físico-química. O prefácio é o meu living room. Onde eu aguardo os amigos. Os que gostam de dois dedos de conversa.» Em Os Cotovelos de Vénus reafirmava: «Escrevo estas linhas porque estimo os prefácios que são para a literatura o que um beijo é para as grandes paixões. Mas um prefácio nunca transmitirá bacilos.» Em Seis Gramas de Paraíso advertia: «O Mundo é, às vezes, pequeno para os Homens que cresceram demasiado e – sobretudo – para os que incharam soprados pelo fole hiperóxido da toleima. Talvez que num Mundo hipotético mas bem intencionado, as falsas convicções de vaidade se vistam com o rigor da modéstia; os problemas da matemática diária se resolvam no quadro negro da branca equidade…» E em Areia nos Olhos denunciava o esplendor gritante da nossa época: «Noites de núpcias de alta roda, ventiladas pela revista mundana, até ao pormenor rendilhado da íntima cueca; espirros de magnate com repercussões de abalo telúrico; frases desmioladas de um médio-centro lançadas à venta do indígena como relevantes descobrimentos científicos…» Mas se é preciso defrontar o Mundo com Humor – o que é o Humor? Talvez aquilo que diz o prefácio de A Bolsa do Canguru: «Eça de Queirós afirmava que uma só gargalhada chegaria para abalar uma instituição mas isto só é adaptável à nossa época se a instituição estiver a cair de podre.» Ou mais adiante no mesmo prefácio: «O humorismo, muitas vezes, não é uma gargalhada mas um silêncio que se faz à sua volta. Beaudelaire era da opinião de que o riso é provocado por uma quebra de equilíbrio.» Como nota final estas duas frases amargas dum autor que teve um livro publicado no Círculo de Leitores em 1971 (Consolação número três) no qual afirmou: «Com quem eu me entendo ainda melhor é comigo mesmo. Quando não estou irreflectidamente ao pé de mim.» No prefácio de Sexo 20 advertia: «A cozinha é o cérebro dos povos; o coração a alcova. AS bibliotecas foram condenadas.» Anos antes em Os Cotovelos de Vénus tinha sido profético: «Morrem breve os que, escrevendo para viver, acabam por escrever do mal que vivem.»

OS LIVROS DE SANTOS FERNANDO

A, Ante, Após, Até (1957), Seis gramas de Paraíso (1959), A Bolsa do Canguru (1961), Areia nos Olhos (1963), Os cotovelos de Vénus (1963), Tempo de roubar (1964), As Uvas estão Maduras (1965), Consolação número três (1968), Os grilos não cantam ao Domingo (1969), A sopa dos ricos (1970, Absurdíssimo (1972), A árvores dos sexos (1974) e Sexo 20 (1975)

Nota: O texto é de 1993 (Revista Ler nº 22) e entretanto foi publicado (Editora Sulfúria) o livro «Sexo 20»

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

«periferias da luz» de António Ferra



António Ferra retoma neste seu «periferias da luz» os recentes «Já próximo dos Anjos» e «Bluff» num caminho de narrativa em prosa poética. Há na página 63, no capítulo «Luzes periféricas», um verso de Luís de Camões citado em itálico («que para mim bastava amor somente») que pode ser lido como a «chave» deste conjunto de doze sequências poéticas. Esta forma lembra muito Vitorino Nemésio quando lamentava a sorrir «Já não se faz poesia descritiva e é pena». De facto esta poesia de António Ferra «descreve» um mal social não só na paisagem como no povoamento. Temos, por exemplo, o «cheiro a urina», temos um «contentor sem tampa» e um «cartaz de junta de freguesia com instruções de sobrevivência». Mas temos também o lado humano quando um vagabundo a quem deram bons conselhos adverte e reage: «Puta que pariu o Arménio, sabujo de merda, / chulo de gel e sapato bicudo, sabe lá o que é a vida.» Conclusão provisória: temos uma vida breve e uma morte inevitável, só o Amor nos pode resgatar o peso do absurdo.  
O ponto de partida do livro é uma viagem: «deixo-me conduzir pelo carro entre ruas repetidas, / portas fechadas no silêncio da uma da manhã, / as cadeiras de um café, empilhadas, presas por uma / corrente igual à que me prende neste bairro / fora de horas.»
Mas este bairro é um lugar de abandono: «Deixaram-me aqui ou fui eu que os deixei? / Para onde foram, para o estrangeiro, emigraram, cortaram-lhes os telefones, as orelhas, os tomates, numa rixa de café? (…) Para onde foram todos?» Ao mesmo tempo também é um espaço de pensar «o sentido da vida e as recordações da infância» e para concluir «O gato parece dizer-me que ainda sou o poeta das noites suburbanas até à manhã seguinte.»
Tudo afinal se pode resumir a uma palavra – crueldade: «A crueldade começa e não se sabe onde vai parar, /uma pessoa pode ser ainda mais cruel do que é, / arreia-se num chavalo sem saber porquê / e depois dá-se-lhe mais porrada e ele continua a sangrar, / o pessoal não sabe onde parar /isso é que é crueldade.»

(Editora: Eufeme /Capa: Sérgio Ninguém, Revisão: Jorge M. Telhas)

 [Um livro por semana 651]

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

«Mata – Retratos à la Minuta» de Manuel Barata



Manuel Barata (n.1952) junta neste livro de 100 páginas 46 retratos de pessoas naturais da freguesia da Mata ou a ela ligadas. Na página 7 do livro explico num texto de 6-12-2018, de modo resumido, o que sinto pelo livro: «Habituado por quarenta anos de jornalismo dito cultural a resumir, sintetizar e simplificar, vejo neste livro uma autobiografia na terceira pessoa do plural. Parece contraditório mas não é. Porque, contando as histórias dos outros, o autor conta-se a si próprio, integra-se e passa a fazer parte de um todo. O mesmo é dizer uma aldeia só com uma estrada para ir e para vir, os seus conflitos, palavras, sacrifícios, alegrias, ócios e negócios, vida e morte. Em ponto grande. Que é o ponto da paixão. Manuel Barata junta no seu trabalho a herança de dois mestres da nossa Literatura: Camilo e Eça. Do primeiro aquela certeza de que a poesia não tem presente – ou é sonho de futuro ou saudade do passado. Do segundo outra ideia, a de que as ocupações humanas tendem a explorara o Homem mas contar histórias é outra coisa - entretém o Homem o que, quase sempre, equivale a consolá-lo». Dito de outra maneira: uma viagem pelo Mundo da Mata (Castelo Branco) na segunda metade do século XX, uma viagem também ao lado de dentro da alma, uma aldeia em radiografia sentimental.

(Edição: RVJ Editores Lda, Design: André Antunes, Foto: Irene Felizardo)

[Um livro por semana 650]

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Há sempre coisas que ficam por dizer



Uma crónica é um contrato entre o jornalista, o director do Jornal e os leitores. Os termos podem não ser reduzidos a escrito mas, como nos velhos tempos, vale sempre o aperto de mão e a palavra de honra. O jornalista dá o seu melhor, o director do Jornal concede-lhe um espaço que vale ouro e os leitores dão ao texto a melhor atenção possível. Ao chegar à crónica nº 200 dei por mim a reler algumas delas - desde logo porque queria fazer uma escolha para a edição de um futuro livro no qual se reúnem cinquenta. Na crónica nº 165 publicada em 10 de Maio de 2019 gostaria de ter acrescentado «A tua voz tem o registo da mais alta Poesia, instável mas feliz ponto de encontro entre a saudade e o sonho, entre o passado e o futuro, entre a sombra e a luz. Porque, tal como numa liturgia urbana, há no ouro das alfaias da tua voz um tempo de celebrar, de convocar, juntar e harmonizar de novo tudo aquilo que, no nosso coração, a morte acabou por separar.»Continuo a pensar que o Jornalismo é uma disciplina da Literatura porque o Jornalista é o Historiador de todos os dias. Agora no momento em que escrevo faltam poucos dias para que Cristiano Ronaldo celebre 35 anos mas tudo teria sido diferente se no dia 24 de Outubro de 1999 um grupo de Homens (árbitro, enfermeiro, delegado) não tivesse dado o melhor de si para o salvar de uma taquicardia grave no decurso de um jogo de Iniciados Casa Pia-Sporting. E o jornalista que relatou com fidelidade e pormenor a situação fui eu porque eu estava lá nessa manhã de Domingo. O Jornal «Sporting» foi o único que referiu o problema mas compreende-se: o jogador ainda não era famoso nem em Portugal nem na Europa nem no Mundo. E porque há sempre coisas que ficam por dizer é que desde 1978 ainda não parei de escrever nos jornais. E espero continuar.    

[Crónicas do Tejo 225] 

(Fotografia de Vinicius Carriço)