[Crónicas
do Tejo 239]
(Óleo de Gary Melchers)
[Crónicas
do Tejo 239]
(Óleo de Gary Melchers)
O mais recente livro de Manuel Simões
(n.1933) indica na capa um resumo («contos, crónicas e afins») e tem 131
páginas. Poeta, ensaísta, tradutor, Manuel Simões tem sido editor («Nova
Realidade»), jornalista (Revista «Vértice»), professor no ensino secundário
(Escola Veiga Beirão) e nas Universidades de Bari, Veneza e Florença, sendo
fundador da Revista «Ressegna Iberística» em Veneza no ano de 1978. Os contos
são cinco, as crónicas são onze e a marginália (afins) inclui dezoito textos
sobre vários temas e autores: Futurismo, Guerra Colonial, Revistas «Vértice» e
«Sol Nascente», Alberto Pimenta, Luís Filipe Barreto, Guilherme de Azevedo,
Soror Violante do Céu, António José Saraiva, Giuseppe Tavani, Padre António
Vieira, José Cardoso Pires, Infante D. Pedro (das sete partidas) , Franco
Menegalli, Luís António Verney, Ana Hatherly e António Mega Ferreira.
Como convite à leitura fica um excerto da
crónica sobre a cidade de Veneza: «Veneza é uma cidade de contrastes.
Parece-nos, à superfície, a mais cosmopolita das cidades histórias mas,
conhecendo-a no seu respirar mais íntimo, revela-se no seu provincianismo
inesperado, no seu mau gosta dos objectos propostos como «lembranças» que
atraem o turista da classe média, sem capacidade para exercer uma «crítica do
gosto». De qualquer modo não é a cidade ideal pata se viver: o clima é frio,
húmido, com os longos dias (ou semanas) de nevoeiro intensíssimo de Outubro a
Abril, quente e asfixiante no Verão; e há ainda os turistas que preenchem
completamente as ruas e as praças («campi»), cada vez em maior número, o que
não permite uma liberdade de movimentos. Estes são, porém, os turistas que a
visitam mais demoradamente, porque a maior parte, a dos grupos de agências de
viagens, dorme em Mestre por ser mais económico, é conduzida de autocarro até à
entrada da cidade, metida nos «vaporetti» até S. Marcos, visita a praça, a
basílica e às vezes o palácio, regressa a Mestre passado pelo Canal Grande e
parte de novo para outro destino: Veneza está vista.»
(Editora: Colibri, Capa: Raquel Ferreira)
[Um
livro por semana 655]
Maria Cecília Correia (1919-1993) é uma autora reconhecida pelos seus livros infanto-juvenis - como, por exemplo, «Histórias da minha rua» (Portugália Editora) vencedor do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho em 1954. A edição recente deste livro de 1976 é comemorativa do seu centenário de nascimento. O título («Pretérito Presente») é um achado pois (todos o sabemos) o passado está sempre presente e o futuro nunca o vivemos, apenas o podemos imaginar.
Trata-se
de um livro de tripla inscrição (crónica, poesia, cartas) que logo na primeira
crónica diz ao que vem: «Nasci no signo da Rosa. É talvez um signo único, mas
um signo como outro qualquer. Em Novembro, no quarto da Mãe, havia uma rosa.
Nada de especial, julgo. Não sei em que jarra, em que cómoda, em que mesa, mas
ela estava lá quando eu nasci. Hoje existe hum velho embrulho, folhas secas,
quase desfeitas e uma letrinha de tinta apagada que diz «flor que assistiu ao
nascimento da pequenina Maria.» Como convite à leitura, citamos um poema na
página 77, «Jardim sem ninguém»: «A sombra das pombas / que bebem no lago: /
dois e dois são quatro. / O voo das asas que escondem o sol: um e um são dois.
/ O banco onde estou sentada sozinha: / Jardim sem ninguém.» Na página 93.
excerto de uma carta a Maria Eulália de Macedo: «Estou apaixonada, Lala. Um
estado de paixão constante mas difusa. Apaixonada por tudo. Ontem parei na
pontezinha do ribeiro e arrumei à água duas flores brancas que boiaram, seguiram, encalharam. Elas
faziam sombra na água limpa; com a sua sombra reflectiam a luz. Tudo era puro.»
Na página 109, um excerto da carta a Alice Gomes: «Também sei o que é perder
casas. Até aos 11 anos perdi três. E a idade nada tem a ver com o que eu senti.
Tinha oito anos quando se vendeu a casa dos meus Avós em Viseu. Compreendi que
poderia esquecer-me dela e então todas as noites a «passava em revista», de alto
a baixo. Escuso de te dizer que ainda hoje a tenho inteirinha.»
(Edição: António Castilho, Capa e Paginação:
António Castilho e Eleonor Castilho, Ilustração: António Castilho, Cronologia:
Eleonor Castilho)
[Um
livro por semana 654]
Neste seu nono livro com o
inspector Jaime Ramos em figura principal, Francisco José Viegas (n.1962)
define o submundo da noite portuense como «uma guerra civil na cidade» e junta,
como numa oração, dois Mundos: o dos Homens e o dos Deuses. Entre o precário da
Vida e o inevitável de Morte, só o Amor resolve e abre uma luz sobre o Mundo.
Tal como na Contabilidade, o escritor assina o Inventário e o leitor estabelece
o Balanço que se divide em Activo, Passivo e Situação Líquida. Não por acaso o
escritor argentino Jorge Luís Borges se refere a Moncorvo como a terra dos seus
avós. Sempre que alguém invoca o seu nome em qualquer parte do Mundo, é
Portugal que é lembrado e referido. Não esquecer: foi um apaixonado pela
literatura policial. O livro parte de uma descrição de um crime em Moncorvo mas
a sua geografia não se limita a Trás-os-Montes e chega a Pequim: as páginas375
e 395 referem de modo explícito «a luz da Pequim».
Jaime Ramos surge na página 15
como «um monumento classificado como velharia que mais tarde ou mis cedo seria
removido o seu pedestal e substituído por um halograma» e na 27 como «um homem
tolerado, uma sombra do que já fora, uma respiração ofegante que subia degraus
numa casa deserta e que conhecia a penumbra da suspeita, uma desconfiança que
as novas gerações usavam como método de gestão de recursos humanos» para na 98
ouvir alguém dizer: «Não fazes os relatórios a horas, confias no destino, não
respondes aos pedidos de informação, és um empecilho, fazes o que te apetece» e
termina na págian 247 a dizer: «Eu não trabalho em homicídio para mudar o mundo
nem para fazer do mundo um lugar melhor. É mais para castigar os criminosos e
cumprir uma função. Crime e castigo. Punição. Vingança.»
Não é possível resumir um
livro de 396 páginas em meia dúzia de linhas mas fica o firme convite à
leitura. Mesmo que na página 176 apeteça dizer em voz alta ao «artista» que
fala de escritores e fascismo esta coisa elementar: em 1965 a PIDE destruiu a
Sociedade Portuguesa de Escritores na Rua da Escola Politécnica por causa do
Prémio atribuído ao escritor Luandino Vieira pelo livro «Luanda». Natural de
Ourém e José Martins da Graça de seu nome. Mas isso é outra coisa e um livro de
ficção vive dessas falas de gente desalinhada e distraída. Uma nota final para
a página 395 onde o nome do Bairro em Pequim significa «voltado para o sol» mas
Beto e Roberto da Ganga foram encontrados com o rosto voltado para o chão «de
poeira e folhagem envelhecida.»
(Edição: Porto Editora, Capa:
Manuel Pessoa, Foto: Getty Images)
[Um livro por semana 653]
Fernando Venâncio (n.1944)
organiza este livro de 311 páginas em quatro partes: «Antes do Português»,
«Portugal constrói uma língua», «O Galego e o Português» e «Sós e
acompanhados». Sendo impossível resumir um livro desta dimensão em poucas
linhas faço nesta ficha um convite à sua leitura que nada pode substituir.
Trata-se de um livro sobre palavras e, tal como Ruy Belo escreveu em «País
Possível» de 1973, «Sempre entre mim e ao que chama coisas há-de haver
palavras». O ponto de partida é um texto da página 14: «As línguas são feitas
de palavras e a maioria delas acham-se recolhidas em dicionários. São factos,
esses, que nenhuma dúvida parecem admitir. Acontece que a palavra, a noção aqui
em causa, suscita vários problemas. E o primeiro deles é a sua própria
existência. As palavras existem? Existem, sim, mas é com uma existência
precária, artificial, baseada num exercício de abstracção. A larga maioria dos
habitantes do planeta teria dificuldade em responder à solicitação: «Diga uma
palavra». Com efeito, aquilo que produzimos, ao falarmos, não são palavras mas
cadeias de sons entendíveis por outrem. Cadeias que podem ser muito breves:
«Aí!» ou «Pára!» Daí uma descoroçoante mas muito prática definição de palavra:
«um conjunto de letras entre dois espaços em branco». Exacto: a palavra
pertence por natureza ao terreno da escrita e só nele tem verdadeiramente
sentido.»
Como não podia deixar de ser o
chamado «Acordo Ortográfico de 1990» aparece logo na ficha técnica e numa nota
na página 200: «não existem e nunca existirão, traduções luso-brasileiras, seja
de Proust, de Dan Brown ou de instruções de máquina de lavar. Em matéria de
tradução e de edição, o Brasil e Portugal têm cada um, a sua política e a sua
indústria , inteiramente independentes . O célebre Acordo Ortográfico de 1990
foi, no mundo real, um devaneio inútil e dispendioso.» Já num artigo no jornal
«Público» disponível na Internet Fernando Venâncio chamou ao «AO90» a fórmula
do desastre.
(Editora: Guerra e Paz,
Revisão: Ana de Castro Salgado, Capa e paginação: Ilídio J.B. Vasco, Mapas e
fotografia: Carlos Filipe Nogueira, Maria Alice Fernandes e Fernando Venâncio)
[Um livro por semana 652]
OS
LIVROS DE SANTOS FERNANDO
A,
Ante, Após, Até (1957), Seis gramas de Paraíso (1959), A Bolsa do Canguru
(1961), Areia nos Olhos (1963), Os cotovelos de Vénus (1963), Tempo de roubar (1964),
As Uvas estão Maduras (1965), Consolação número três (1968), Os grilos não
cantam ao Domingo (1969), A sopa dos ricos (1970, Absurdíssimo (1972), A
árvores dos sexos (1974) e Sexo 20 (1975)
Nota: O texto é de 1993 (Revista Ler nº 22) e entretanto foi publicado (Editora Sulfúria) o livro «Sexo 20»