terça-feira, 29 de setembro de 2020

«Assim nasceu uma língua» de Fernando Venâncio

Fernando Venâncio (n.1944) organiza este livro de 311 páginas em quatro partes: «Antes do Português», «Portugal constrói uma língua», «O Galego e o Português» e «Sós e acompanhados». Sendo impossível resumir um livro desta dimensão em poucas linhas faço nesta ficha um convite à sua leitura que nada pode substituir. Trata-se de um livro sobre palavras e, tal como Ruy Belo escreveu em «País Possível» de 1973, «Sempre entre mim e ao que chama coisas há-de haver palavras». O ponto de partida é um texto da página 14: «As línguas são feitas de palavras e a maioria delas acham-se recolhidas em dicionários. São factos, esses, que nenhuma dúvida parecem admitir. Acontece que a palavra, a noção aqui em causa, suscita vários problemas. E o primeiro deles é a sua própria existência. As palavras existem? Existem, sim, mas é com uma existência precária, artificial, baseada num exercício de abstracção. A larga maioria dos habitantes do planeta teria dificuldade em responder à solicitação: «Diga uma palavra». Com efeito, aquilo que produzimos, ao falarmos, não são palavras mas cadeias de sons entendíveis por outrem. Cadeias que podem ser muito breves: «Aí!» ou «Pára!» Daí uma descoroçoante mas muito prática definição de palavra: «um conjunto de letras entre dois espaços em branco». Exacto: a palavra pertence por natureza ao terreno da escrita e só nele tem verdadeiramente sentido.»

Como não podia deixar de ser o chamado «Acordo Ortográfico de 1990» aparece logo na ficha técnica e numa nota na página 200: «não existem e nunca existirão, traduções luso-brasileiras, seja de Proust, de Dan Brown ou de instruções de máquina de lavar. Em matéria de tradução e de edição, o Brasil e Portugal têm cada um, a sua política e a sua indústria , inteiramente independentes . O célebre Acordo Ortográfico de 1990 foi, no mundo real, um devaneio inútil e dispendioso.» Já num artigo no jornal «Público» disponível na Internet Fernando Venâncio chamou ao «AO90» a fórmula do desastre.      

(Editora: Guerra e Paz, Revisão: Ana de Castro Salgado, Capa e paginação: Ilídio J.B. Vasco, Mapas e fotografia: Carlos Filipe Nogueira, Maria Alice Fernandes e Fernando Venâncio)

[Um livro por semana 652]

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Viagem à volta dos prefácios – Santo Fernando


Dezassete anos (1) depois da sua morte caiu sobre a obra de Santos Fernando (1927-1975) um silêncio tenebroso. É tão difícil encontrar nas livrarias os treze livros que publicou como encontrar nas revistas e jornais literários um texto de estudo e divulgação da sua obra. Esta pequena viagem à volta dos prefácios dos seus livros surge como um alerta a quem ainda não o descobriu e uma chamada de atenção a quem já conhece. Todos sabemos o significado da palavra «prefácio» (discurso preliminar, inserto no princípio de um livro) mas Santos Fernando utilizou o prefácio como instrumento privilegiado de comunicação com o leitor: neles se pode descobrir o perfil biográfico ao lado da nota sobre a sociologia da literatura, relações com a crítica, problemas da fortuna editorial e da precária posteridade. Sem esquecer um olhar sobre os disparates do Mundo. Sobre a biografia lê-se em Os Cotovelos de Vénus: «Dizem que nasci em Lisboa, na Travessa do Moinho de Vento à Lapa, no dia 22 de Janeiro de 1927, num quarto exíguo onde mal couberam as três balas disparadas da Cova da Moura, onde se cozinhava uma revolução» E em Areia nos Olhos: «A nossa rua é algo que, mais tarde ou mais cedo, começa a significar alguma coisa para nós. A sua calma secular, aureolada por uma tradição de suspiros de amantes, escondidos em arcas encouradas, vejo-a agora fugir em montões de terra e pedra, que estrondosas viaturas transportam num frenesim apocalíptico.» Sobre o ofício de escritor lê-se em Os Cotovelos de Vénus: «O escritor, parte integrante da vida da sua época, observador firme no meio social, bastas vezes insociável, não pode desempenhar o papel frio e frívolo que volta as costas à cena. A sua missão lógica é estudar a geração a que pertence, de molde a auxiliá-la, gritando-lhe os podres, caricaturando-a, amando-a, em suma.» Mais tarde, em As Uvas Estão Maduras: «A literatura é uma arte famélica numa época de simbioses, mitos e contrastes – opinião para a qual se pode fornecer o seguinte exemplo: naquele prédio há um agregado familiar que morre vítima da fome e uma família que rebenta de indigestão.» Finalmente em Sexo 20: «Não se escrevem já livros extensos. Livros longos e mulheres enormes, assustam e o homem deixou de ter tempo para leituras excessivas.» Sobre o problema da posteridade descobrimos em Areia nos olhos: «Convencionou-se deixar passar o préstito dos artistas para, após terceira badalada, se invocarem então as glórias do defunto, depois da crítica severa dos íntegros infalíveis os ter apunhalado em vida. E eu pergunto: será fundamental, imprescindível chegar ao estado de fertilizante, de repolho, de fóssil, para finalmente se nascer?». Ou em As Uvas Estão Maduras: «Explorado como uma mina de antracite resta ao escritor a imortalidade que, se um dia chega, é já muito depois da transladação dos ossos, dos poucos, ainda assim, que resistiram aos prodigiosos roedores.» Sobre a importância dos prefácios lemos em A Bolsa do Canguru: «Perguntar se alguém costuma escrever os prefácios dos seus livros ou dá-los a outros para que os façam não será o mesmo que inquirir duma pessoa se manda fazer os filhos ao estrangeiro?» Já em As Uvas estão Maduras escrevia: «Eu gosto dos prefácios rosados, redondos, rijos como os seios que despontam às jovens colegiais, quase sem darem por isso, entre as aulas de ginástica e de físico-química. O prefácio é o meu living room. Onde eu aguardo os amigos. Os que gostam de dois dedos de conversa.» Em Os Cotovelos de Vénus reafirmava: «Escrevo estas linhas porque estimo os prefácios que são para a literatura o que um beijo é para as grandes paixões. Mas um prefácio nunca transmitirá bacilos.» Em Seis Gramas de Paraíso advertia: «O Mundo é, às vezes, pequeno para os Homens que cresceram demasiado e – sobretudo – para os que incharam soprados pelo fole hiperóxido da toleima. Talvez que num Mundo hipotético mas bem intencionado, as falsas convicções de vaidade se vistam com o rigor da modéstia; os problemas da matemática diária se resolvam no quadro negro da branca equidade…» E em Areia nos Olhos denunciava o esplendor gritante da nossa época: «Noites de núpcias de alta roda, ventiladas pela revista mundana, até ao pormenor rendilhado da íntima cueca; espirros de magnate com repercussões de abalo telúrico; frases desmioladas de um médio-centro lançadas à venta do indígena como relevantes descobrimentos científicos…» Mas se é preciso defrontar o Mundo com Humor – o que é o Humor? Talvez aquilo que diz o prefácio de A Bolsa do Canguru: «Eça de Queirós afirmava que uma só gargalhada chegaria para abalar uma instituição mas isto só é adaptável à nossa época se a instituição estiver a cair de podre.» Ou mais adiante no mesmo prefácio: «O humorismo, muitas vezes, não é uma gargalhada mas um silêncio que se faz à sua volta. Beaudelaire era da opinião de que o riso é provocado por uma quebra de equilíbrio.» Como nota final estas duas frases amargas dum autor que teve um livro publicado no Círculo de Leitores em 1971 (Consolação número três) no qual afirmou: «Com quem eu me entendo ainda melhor é comigo mesmo. Quando não estou irreflectidamente ao pé de mim.» No prefácio de Sexo 20 advertia: «A cozinha é o cérebro dos povos; o coração a alcova. AS bibliotecas foram condenadas.» Anos antes em Os Cotovelos de Vénus tinha sido profético: «Morrem breve os que, escrevendo para viver, acabam por escrever do mal que vivem.»

OS LIVROS DE SANTOS FERNANDO

A, Ante, Após, Até (1957), Seis gramas de Paraíso (1959), A Bolsa do Canguru (1961), Areia nos Olhos (1963), Os cotovelos de Vénus (1963), Tempo de roubar (1964), As Uvas estão Maduras (1965), Consolação número três (1968), Os grilos não cantam ao Domingo (1969), A sopa dos ricos (1970, Absurdíssimo (1972), A árvores dos sexos (1974) e Sexo 20 (1975)

Nota: O texto é de 1993 (Revista Ler nº 22) e entretanto foi publicado (Editora Sulfúria) o livro «Sexo 20»

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

«periferias da luz» de António Ferra



António Ferra retoma neste seu «periferias da luz» os recentes «Já próximo dos Anjos» e «Bluff» num caminho de narrativa em prosa poética. Há na página 63, no capítulo «Luzes periféricas», um verso de Luís de Camões citado em itálico («que para mim bastava amor somente») que pode ser lido como a «chave» deste conjunto de doze sequências poéticas. Esta forma lembra muito Vitorino Nemésio quando lamentava a sorrir «Já não se faz poesia descritiva e é pena». De facto esta poesia de António Ferra «descreve» um mal social não só na paisagem como no povoamento. Temos, por exemplo, o «cheiro a urina», temos um «contentor sem tampa» e um «cartaz de junta de freguesia com instruções de sobrevivência». Mas temos também o lado humano quando um vagabundo a quem deram bons conselhos adverte e reage: «Puta que pariu o Arménio, sabujo de merda, / chulo de gel e sapato bicudo, sabe lá o que é a vida.» Conclusão provisória: temos uma vida breve e uma morte inevitável, só o Amor nos pode resgatar o peso do absurdo.  
O ponto de partida do livro é uma viagem: «deixo-me conduzir pelo carro entre ruas repetidas, / portas fechadas no silêncio da uma da manhã, / as cadeiras de um café, empilhadas, presas por uma / corrente igual à que me prende neste bairro / fora de horas.»
Mas este bairro é um lugar de abandono: «Deixaram-me aqui ou fui eu que os deixei? / Para onde foram, para o estrangeiro, emigraram, cortaram-lhes os telefones, as orelhas, os tomates, numa rixa de café? (…) Para onde foram todos?» Ao mesmo tempo também é um espaço de pensar «o sentido da vida e as recordações da infância» e para concluir «O gato parece dizer-me que ainda sou o poeta das noites suburbanas até à manhã seguinte.»
Tudo afinal se pode resumir a uma palavra – crueldade: «A crueldade começa e não se sabe onde vai parar, /uma pessoa pode ser ainda mais cruel do que é, / arreia-se num chavalo sem saber porquê / e depois dá-se-lhe mais porrada e ele continua a sangrar, / o pessoal não sabe onde parar /isso é que é crueldade.»

(Editora: Eufeme /Capa: Sérgio Ninguém, Revisão: Jorge M. Telhas)

 [Um livro por semana 651]

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

«Mata – Retratos à la Minuta» de Manuel Barata



Manuel Barata (n.1952) junta neste livro de 100 páginas 46 retratos de pessoas naturais da freguesia da Mata ou a ela ligadas. Na página 7 do livro explico num texto de 6-12-2018, de modo resumido, o que sinto pelo livro: «Habituado por quarenta anos de jornalismo dito cultural a resumir, sintetizar e simplificar, vejo neste livro uma autobiografia na terceira pessoa do plural. Parece contraditório mas não é. Porque, contando as histórias dos outros, o autor conta-se a si próprio, integra-se e passa a fazer parte de um todo. O mesmo é dizer uma aldeia só com uma estrada para ir e para vir, os seus conflitos, palavras, sacrifícios, alegrias, ócios e negócios, vida e morte. Em ponto grande. Que é o ponto da paixão. Manuel Barata junta no seu trabalho a herança de dois mestres da nossa Literatura: Camilo e Eça. Do primeiro aquela certeza de que a poesia não tem presente – ou é sonho de futuro ou saudade do passado. Do segundo outra ideia, a de que as ocupações humanas tendem a explorara o Homem mas contar histórias é outra coisa - entretém o Homem o que, quase sempre, equivale a consolá-lo». Dito de outra maneira: uma viagem pelo Mundo da Mata (Castelo Branco) na segunda metade do século XX, uma viagem também ao lado de dentro da alma, uma aldeia em radiografia sentimental.

(Edição: RVJ Editores Lda, Design: André Antunes, Foto: Irene Felizardo)

[Um livro por semana 650]

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Há sempre coisas que ficam por dizer



Uma crónica é um contrato entre o jornalista, o director do Jornal e os leitores. Os termos podem não ser reduzidos a escrito mas, como nos velhos tempos, vale sempre o aperto de mão e a palavra de honra. O jornalista dá o seu melhor, o director do Jornal concede-lhe um espaço que vale ouro e os leitores dão ao texto a melhor atenção possível. Ao chegar à crónica nº 200 dei por mim a reler algumas delas - desde logo porque queria fazer uma escolha para a edição de um futuro livro no qual se reúnem cinquenta. Na crónica nº 165 publicada em 10 de Maio de 2019 gostaria de ter acrescentado «A tua voz tem o registo da mais alta Poesia, instável mas feliz ponto de encontro entre a saudade e o sonho, entre o passado e o futuro, entre a sombra e a luz. Porque, tal como numa liturgia urbana, há no ouro das alfaias da tua voz um tempo de celebrar, de convocar, juntar e harmonizar de novo tudo aquilo que, no nosso coração, a morte acabou por separar.»Continuo a pensar que o Jornalismo é uma disciplina da Literatura porque o Jornalista é o Historiador de todos os dias. Agora no momento em que escrevo faltam poucos dias para que Cristiano Ronaldo celebre 35 anos mas tudo teria sido diferente se no dia 24 de Outubro de 1999 um grupo de Homens (árbitro, enfermeiro, delegado) não tivesse dado o melhor de si para o salvar de uma taquicardia grave no decurso de um jogo de Iniciados Casa Pia-Sporting. E o jornalista que relatou com fidelidade e pormenor a situação fui eu porque eu estava lá nessa manhã de Domingo. O Jornal «Sporting» foi o único que referiu o problema mas compreende-se: o jogador ainda não era famoso nem em Portugal nem na Europa nem no Mundo. E porque há sempre coisas que ficam por dizer é que desde 1978 ainda não parei de escrever nos jornais. E espero continuar.    

[Crónicas do Tejo 225] 

(Fotografia de Vinicius Carriço)   

domingo, 16 de agosto de 2020

«O Estendal e Outros Contos» de Jaime Rocha



Jaime Rocha (n.1949), poeta, ficcionista e dramaturgo, estreou-se na Poesia com «Melânquico» (1970), na Ficção com «Tonho e as almas» (1984) e no Teatro com «Deuscão» (1988). O conto «O Estendal» que abre o volume de 67 páginas e 9 narrativas oscila entre um registo naturalista («a guerra continuava, os massacres não tinham fim») as termina num tom de surpresa, de insólito e de irreal: «o estendal estava cheio de crianças ainda recém-nascidas. Todas juntas, umas ao lado das outras, muito quietas, penduradas com molas, a secar». Em «O último parente de Justino» a narrativa volta a arrancar num tom muito próximo do real («A última vez que Justino foi visto, avançava em passo lento pela alameda do cemitério, encostado à fila esquerda dos ciprestes onde se localizavam os jazigos mais antigos.») mas conclui de modo insólito: «No dia do funeral do sobrinho, Justino subiu a alameda estreita do cemitério à frente do féretro. Antes que os coveiros descessem a urna, atirou-se ele inesperadamente para dentro da cova.» Em «A mulher que aprendeu a chorar» o ponto de partida volta a se rum olhar lúcido e realista sobre o Mundo («Há uma depressão na terra que atinge as colheitas, os animais. O ar tornou-se irrespirável e já não é possível arranjar tempo suficiente para se passar um serão tranquilo em casa. Os vizinhos destroem as paredes com berbequins, deitam abaixo cozinhas inteiras.») mas a história é povoada por gente insólita, uma mistura entre ficção e realidade, cinema e quotidiano: «A mulher do filme morreu de facto? Claro que não. O mesmo aconteceu com o seu amado. Matou-o mas ele não morreu. Pense é que ele se ausentou para o estrangeiro, abandonou-a..É a coisa mais banal do mundo.» Em «A gaiola do senhor Flor» o princípio da narrativa é «Foi no dia em que o senhor Flor apareceu com uma gaiola na mão que os amigos chegaram à conclusão de que ele tinha endoidecido de vez.» e termina com a porta da gaiola aberta: «A minha mulher disse-me que, para presa, basta ela. Não quer o pássaro aqui dentro.» Fica uma ideia e um convite à leitura deste livro de contos onde de modo hábil e límpido se cruzam os mundos do real e do imaginário.

(Editora: Relógio d´Água, Capa e Foto: Carlos César Vasconcelos, Revisão. Anabela Prates Carvalho)
                        
[Um livro por semana 649]

sábado, 1 de agosto de 2020

«Estalagem» de Henrique Manuel Bento Fialho



O mais recente livro de poemas de Henrique Manuel Bento Fialho (n.1974) integra 36 poemas dos quais 28 são de 12 versos, 5 de 16, 1 de 15, 1 de 13 e 1 de 8 versos. O ponto de partida é: «Olho à minha volta e penso em tudo / quanto fui acumulando ao longo dos / anos», o mesmo é dizer um inventário. O ponto de chegada pode ser a morte: «A morte / talvez chegue para nos unir, quem pode sabê-lo?» Pelo meio fica a vida que pode ser a descrição de uma ceia em grupo: «Dezasseis pessoas sentadas à mesa / num restaurante de Óbidos tecem / palavras com agulhas da memória./ Falam da vida enquanto levam à boca / porções de animais mortos». Pode ser em Paris como na página 39: «enquanto o magnata italiano / entra no restaurante acompanhado dos cães /(logo seguido da consorte siliconolizada)» O título do livro apela para a ideia de deambulação, viagem, percurso: «Ofensa é passar a vida feito estátua.»
Um dos pontos fortes destes poemas é a ironia, por exemplo na página 20: «É improvável que alguma vez venha / a ser dos melhores. / Às vezes sonho com medalhas, imagino-me no pódio a receber o aplauso de multidões.» Sendo a Vida efémera e a Morte inevitável, só o Amor nos salva e a Poesia pode ser uma forma de Amor: «Prefiro o canto transparente, solto / na folha absoluta deste vazio.» No poema da página 15, de modo hábil, o autor junta um episódio do quotidiano («A menina  do primeiro andar chora diabolicamente») para se aproximar ao acto da escrita: «Estará convencida de que chorando / transmitirá aos outros dores que são apenas dela».  Estamos perante uma poesia com algumas referências culturais mas sempre com voz própria: passa por José Malhoa, Susanne Valadon, Camões, Fernando Pessoa, Albert Camus, Patrick Kavanagh, James Joyce ou Micah P. Hinson e Jacques Brel – que um poema pode ser também uma canção: «A luz das manhãs no Inverno é uma / canção triste sobre o fim do amor.»

(Editora: Medula, Capa, composição e paginação: Manuel A. Domingos)

 [Um livro por semana 648]

quarta-feira, 22 de julho de 2020

O Tejo e o Mar da Palha em José Rodrigues Miguéis



O livro organizado por Luísa Ducla Soares e editado pela Câmara Municipal de Lisboa intitula-se «Lisboa de José Rodrigues Miguéis» e reúne em 111 páginas citações de diversos livros deste autor português (1901-1980). Sobre o Rio Tejo podemos ler: «Lá ao fundo, o Tejo reluzia como uma colcha de áqua-marina bordada a prata» e, mais à frente, no mesmo «O milagre segundo Salomé», surge: «No Tejo lavado e reluzente, alguns destróiers balouçam languidamente, vaporzitos espertos abrem no ar as sereias estrídulas, um cruzador inglês, todo branco como um iate, vira com a maré em torno da âncora.» E em «A Escola do Paraíso» pode ler-se: (…)«o menino olha os telhados de veludo, o céu sereno, o rio coberto de palhetas de prata cintilantes: são peixinhos que saltam, andam a brincar, brilham à lua (…)» Em «Idealista no Mundo Real» José Rodrigues Miguéis escreveu: «O grito de uma sereia no Tejo rasgou o véu azul da manhã. Baltazar virou-se para as janelas e, com a face apoiada na mão esquerda, ficou a olhá-las. As andorinhas cortavam o ar, explorando os beirais familiares. Adivinhava-se o primeiro espreguiçamento da Primavera no ar quase tépido e, ao fundo, para lá do casario apinhado, a toalha do rio desdobrada ao sol. Nos telhados forrados de musgo, líquenes e gramíneas, enxugava a humidade dos chuveiros de véspera.» Não se fica pela paisagem e pelo povoamento o autor de «O idealista no Mundo Real quando escreve: «A Universidade é uma fábrica de manequins e de burocratas. Porque é que um labrego que sai das unhas negras da Escola há-de ser necessariamente um superior? Quantos génios tivemos nós que nunca por lá passaram – o Herculano, o Oliveira Martins, o Camilo, o Ramalho, o Gomes Leal, o Lúcio de Azevedo – e  os que o foram apesar dela!»     

[Crónicas do Tejo 223]

(Fotografia de Luís Eme)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

«Pavese no café Ceuta» de Francisco Duarte Mangas



Reunião de 16 narrativas em 184 páginas, deste recente trabalho de Francisco Duarte Mangas se poderá afirmar um conhecido lugar-comum – «toda a Literatura é uma homenagem à Literatura.» Depois de «Diário de Link», «Geografia do Medo» e «Jacarandá» o autor, logo na primeira narrativa, apresenta um retrato da paixão dos livros: («miram o homenzinho a alojar livros como se os metesse dentro dele.») ao lado de uma lucidez magoada («Se um homem das belas letras, à nossa frente, indispõe – que dizer de um magote, como ratinhos em busca de jorna nas remotas searas do Sul?») passando por Eça de Queirós («respeitoso como se olhasse a bandeira e ouvisse o hino») ao lado da amizade: «Se a doutora Luísa Dacosta perguntar por mim, diga-lhe, por favor, fui a Granada.» Em «Lenha verde» pode ler-se uma frase que resume tudo: «Eu escrevo lendo os outros». Ou dito de outra maneira: «Não se vende o que se ama. Em vez de filhos criei heterónimos – impedidos de herdar qualquer legado.» Em «Clandestinos» o ponto de partida é o anúncio de jornal: «Travesti Cláudia, curta temporada. Activa/Passiva. Peito XXL. Meiguinha. Sem pressas.» mas Gabriela sai do livro de Jorge Amado e procura saber algo mais de Gisberta antes de ela ser «fétida melancolia, brinquedo de moleque…» Em «Pavese no café Ceuta» o equívoco é do autor de «O ofício de viver» : «Li todos os livros do poeta que aqui julgava encontrar» mas o poeta português que o italiano procura está no café Progresso e não no café Ceuta.
Herdeiro de Leitão de Andrade, Camilo Castelo Branco e Carlos de Oliveira com as suas Miscelâneas, Narcóticos e Aprendizes de Feiticeiro, Francisco Duarte Mangas avança uma feliz definição da paixão dos livros que está na origem deste livro: «Tenho o vício absurdo de guardador da palavra escrita.» Tal como antes tinha na página 85 referido a Poesia: «A poesia, se não for o lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos, é a mais fútil das ocupações.»

(Edição: Teodolito, Editor: Carlos da Veiga Ferreira)

[Um livro por semana 647]

sábado, 4 de julho de 2020

Vítor Lambert – só agora percebi o peso específico da sua amizade



Somos feitos do que somos até aos sete anos, o resto são apenas remendos. Quis o Destino que o meu neto António seguisse agora (em 2017) as pisadas da minha filha Marta (em 1987) e frequentasse com uma diferença de trinta anos o mesmo Jardim Infantil – a Adeco, ali em Lisboa, ao Príncipe Real. Mas dizer Destino não é pensar no Acaso pois nada acontece por acaso na Vida; foi o Victor Lambert que ao longo do tempo foi mantendo a ligação entre nós e nunca deixou de me enviar as convocatórias para as Assembleias Gerais da Adeco. Sem mais e com a devida vénia transcrevo o texto da «Folha Informativa» nº 20 da Associação Conquistas da Revolução: «A ACR perdeu, em 15 de Fevereiro de 2018, um dos seus sócios fundadores e até à data membro da Direcção da nossa Associação. Além do trabalho que prestou na Direcção e nas iniciativas da nossa Associação, colaborou nos livros «Vasco, nome de Abril» e «Conquistas da Revolução». O funeral, com honras militares, realizou-se no dia 17 de Fevereiro no cemitério dos Olivais. Na altura o presidente da Direcção da ACR proferiu uma intervenção sublinhando: «Honraste a Marinha e os Marinheiros. Vamos sentir a tua falta, nunca estarás só. Sei que caminhas ao nosso lado, nunca deixando de ser um de nós. Até sempre companheiro!» Associaram-se nas despedidas Maria João Gonçalves que leu uma intervenção em nome de um conjunto de amigas, relatando as vivências comuns que ao longo dos anos partilharam, sublinhando as qualidades morais e cívicas de Vítor Lambert e o «Cabo» Geraldo Lourenço, na qualidade de praça mais antiga dos saneados do 25 de Novembro, proferindo u m improviso em que relembrou os tempos da fundação da CDAP e do Clube de Praças da Armada, elogiando a personalidade e a perseverança de Vítor Lambert.» (fim de citação)

[Crónicas do Tejo 124]