A propósito dos cem anos do
Clube «Os Belenenses» que ocorre em 23-9-2019 não posso deixar de manifestar o
meu desagrado pelo facto de o jornal «Diário de Notícias» de hoje 21-9-2019 ter
dedicado um Suplemento Especial ao facto histórico mas ter esquecido dois
daqueles que eu considero elementos chave da memória do Clube azul da cruz de
Cristo. Sobre José Pereira nada ou quase nada sei. Ainda ontem falei com uma
pessoa do Jornal «Badaladas» de Torres Vedras onde ele terá nascido em
15-9-1931 mas nada de concreto fiquei a saber. Sei que jogou no Mundial 1966 ao
lado dos Magriços mas depois foi para Barcelona onde viveu e terá regressado ao
Caramão da Ajuda. Sobre Pepe (1908-1931) apenas uma frase tirada de um poema
dito por Barroso Lopes na Revista «O Mexilhão no Teatro Variedades: «Era a alma
do povo em corpo de rapaz!»
sábado, 21 de setembro de 2019
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
«Noticia historica e topographica da villa de Alcanede» de Simão Froes de Lemos
José Raimundo Noras (m.1980) transcreve,
apresenta e anota este texto clássico de Simão Froes de Lemos (1675-1759)
escrito em 1726. O ponto de partida do historiador é «transcrever e fixar o
texto de Simão Froes de Lemos, dando informações essenciais para uma boa
compreensão desse trabalho (…) mantemos a grafia do texto original por
considerarmos, para além da norma adoptada, que a mesma não prejudica a boa
leitura da crónica.» O texto de Simão Froes de Lemos já tinha sido várias vezes
referido por Mário Rui Silvestre, autor pioneiro na divulgação dos três
manuscritos (Évora, Lisboa, Santarém) a mais recente das quais terá sido em
2014 no livro «Poemas do Centenário». Embora se registe que o texto de 1726
segue o modelo da descrição corográfica do Padre Luís Cardoso não será errado
considerá-lo também um percursor das «Memórias paroquiais de 1758».
Segundo o responsável por esta edição «A Noticia Historica foi dividida em duas
partes: a primeira focada em Alcanede e a segunda em Pernes. O documento
oferece informações importantes para vários campos de estudo: história local,
etnologia, estudos das religiões, arquitetura, geografia humana, toponímia,
história das mentalidades bem como estudos de género.» Um dado muito curioso neste
texto é o primeiro registo escrito das grutas de Mira de Aire na página 209:
«Na serra de Ayre ou serra de Minde como alguns lhe chamam, no termo de Porto
de Mós está o lugar de Minde e ao Noroeste delle está hum campo que tem de
comprimento meya legoa e de largo hum
quarto de legoa pouco mais ou menos no fim deste campo para a parte do Noroeste
está huma gruta que terá de comprido tanto como a Igreja da Misericórdia de
Lisboa ao rocio da mesma cidade, pela qual entra um homem e anda por ella
sempre em pé e à vontade e por baixo e por sima paresse tudo hua só pedra
porque são abodadas da mesma penha; depois de andar a metade do caminho, se
acha hua subida pequena que se a fizessem escada poderia ter dez o doze
degraus; passada esta subida se desce por área tanto como se tem subido e depois
ainda se continau a descer mas he por pedras; e assim se vai andando e descendo
ate que se chega a hum portal feito pela natureza em forma que parecese feito
por maos de officiaes.»
(Edição:
Centro do Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, Apoios:
Município de Santarém, Juntas de Freguesia de Abrã, Alcanede, Amiais de Baixo,
Arneiro das Milhariças, Malhou, Louriceira, Espinheiro, Minde, Pernes e São
Sebastião – Rio Maior)
[Um livro por semana 627]
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Crónica sobre uma aguarela de Joan Sutherland
Primula
Integrifolia é o seu nome e consta no original da aguarela por si assinada. Sei
que os botânicos, os pintores e os arquitectos paisagistas sabem sempre os
nomes latinos das flores. Faz parte do seu trabalho porque cada ofício e
profissão tem as suas palavras exactas, precisas e perfeitas. Minha filha Marta
que vive e trabalha em Sydney (Austrália) soube dizer de imediato que esta flor
em concreto é oriunda da zona dos Pirenéus Atlânticos. No seu caso tenho a
ideia de ter visto um exemplar da flor no seu jardim nos arredores de York em
Inglaterra mas o que me interessa é o rigor do traço, as linhas perfeitas, o
recorte exacto das cores, o equilíbrio de todos os componentes na sua aguarela.
Não por acaso seu filho Ian desenha tão bem e ganhou prémios como arquitecto na
cidade de Londres. Seus netos Thomas e Lucas, apesar de serem jovens, já vão no
bom caminho como seus discípulos. O meu orgulho de avô em comum é ver os nossos
netos a desenharem tão bem apesar da sua idade, treze e oito anos. Pela minha
parte acresce o pormenor de ainda ontem (10 de Agosto de 2019) o comissário de
bordo no avião que liga Lisboa a Londres ficou encantado com o emblema do
Sporting Clube de Portugal a verde na camisola branca do nosso neto Lucas. Tal
como há alguns anos atrás em pleno parque de Greenwich junto ao Tamisa (o Tejo
de Londres) algumas pessoas gostaram da camisola verde o Thomas, o nosso neto
mais velho com estas palavras muito próprias para um lugar como Greenwish Park
– «Sporting since 1906». Por simples curiosidade vejo que esta planta tem
efeitos positivos em seis campos: anti-inflamatório, defesa do sistema
imunológico, na pele, nas cólicas, nas funções hepáticas e no controle
emocional. Nada acontece por acaso, é o
que fico a pensar, caríssima comadre.
[Crónicas
do Tejo 196]
sábado, 17 de agosto de 2019
«Lisboa – Livro de Bordo – vozes, olhares, memorações» de José Cardoso Pires
José
Cardoso Pires (1925-1998) escreveu este livro para a EXPO 98 mas a nova edição
integra fotos de José Carlos Nascimento (n.1943) que lhe dão aspecto mais
apetecível pois como refere Ana Cardoso Pires «Lisboa é uma cidade de que é
fácil gostar.» O ponto de partida está na página 16: «Mas ninguém poderá conhecer
uma cidade se não a souber interrogar, interrogando-se a si mesmo. Ou seja, se
não tentar por conta própria os acasos que a tornam imprevisível e lhe dão
mistério da unidade mais dela.» Dito de outra maneira «isto aqui não é só luz e
rio, não é só geografia, revelações ou memórias» há cheiros a reconhecer: «o do
peixe de sal e barrica nas lojas da Rua do Arsenal, o da maresia a certas horas
das docas do Tejo, o do Verão nocturno nos ajardinados da Lapa, o dos armazéns
de aprestos marítimos entre Santos e o Cais do Sodré, o do peixe a grelhar em
fogareiro à porta dos tascos de recanto ou de travessa, desde o Bairro Alto a
Carnide.» Lisboa é também História: «São Vicente, está provado, entrou no Tejo
em cadáver navegante sob a guarda de dois corvos. Já ressequido e mirrado,
acrescente-se. Já relíquia de sacrário, boca roída, dentes de fora. Chegou
nessa figura e embora santo, não teve uma palavra para a cidade que o recebeu.»
Do que este livro mais trata é do Amor a Lisboa: «Se fosse Deus parava o Sol
sobre Lisboa», escreveu Fernando Assis Pacheco num poema tonto de luz (a tão
citada luz sempre imprevista). De acordo, mas uma cidade de caprichos como esta
nunca o sol a pode iluminar por igual. Tem de se lhe afeiçoar aos contornos e
aos instintos desordenados.» A tragédia do Chiado (o incêndio) está na página
59: «Hoje quando atravesso esse rosto corrompido de Lisboa vejo-o como uma
ferida aberta na nossa memória colectiva. Mais ainda: é um pouco da memória de
mim mesmo que ficou destroçada porque também eu subi o Chiado em diferentes
idades dos meus livros e com amigos de diferentes gerações.» E continua: «É
possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin
de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Sim é possível, Mas mais do que as cidades,
é sempre um bairro ou um lugar que caracteriza essa definição e a fidelidade
tantas vezes inconsciente que lhe dedicamos. O Chiado, neste caso.»
(Editora:
Relógio d´Água, Prefácio: Ana Cardoso Pires, Fotografias: José Carlos
Nascimento, Revisão: Anabela Prates Carvalho, Capa: Carlos César Vasconcelos)
[Um
livro por semana 626]
terça-feira, 6 de agosto de 2019
«O livrinho dos campeões» de António Manuel Venda
Com
o subtítulo de «e outras histórias de um adepto do melhor clube do mundo» o
livro integra 25 crónicas em 151 páginas, selecionadas por António Manuel Venda
(n.1968) que explica na nota final: «Estes textos foram escritos ao longo de
muitos anos, desde a segunda metade da década de 1990. São os vinte e cinco
selecionados de centenas que escrevi sobre futebol para meios de comunicação
social (dois inclusive da minha terra, o Jornal
de Monchique e a Rádio Fóia) e também para espaços on-line (como o blog sportinguista
És a nossa fé). Com a derradeira
revisão feita em Agosto de 2017, surgem no final com referências a
acontecimentos a que dizem respeito e com o ano em que foram originalmente escritos.»
O presente volume é dedicado aos filhos do autor (Bernardo, Madalena, Francisca
e Rodrigo) e à memória de Malcolm Allison (1927-2010) treinador do Sporting
Clube de Portugal na época desportiva de 1981/1982. O título do conjunto é
retirado do primeiro texto do livro: «A primeira vez em que vi um jogo do
Sporting ao vivo foi no Estádio do Portimonense, em Portimão, na memorável
época do título com o treinador inglês Malcolm Allison. O resultado está num
livrinho de páginas brancas que fui preenchendo a cada dia em que a equipa
jogava. Numa entrada de quatro de Abril de 1982 surge a minha letra tremida com
o registo de uma surpreendente derrota.» Não é só de vida e de vitória que
estas histórias tratam; também se recorda a morte de um sócio «leonino» numa
final da Taça de Portugal: «sobre o apito inicial do árbitro, um adepto do
Sporting foi atingido no peito por um very
light lançado por alguém das claques do Benfica. Teve morte imediata.» Um
dos registos deste livro é o do humor, como na página 64: «A verdade é que o
árbitro terá ficado pior do que doido ao ver as raparigas a entrarem-lhe pelo
quarto adentro. Quase vinte e quatro horas depois o clube haveria de perder o
jogo e sem grande exibição do adversário. Muitos comentadores acabariam por
falar de uma noite infeliz do árbitro; sem saberem, é claro, que a noite infeliz
tinha sido a anterior.» Outro registo é o futuro como na página 127: «Tenho uma
fotografia das do telemóvel que invariavelmente me deixa espantado. Um torneio
de futebol no Verão de 2014, para miúdos, em Montemor-o-Novo, num campo ao ar
livre. Futebol de cinco, já com a noite a cair. Vejo bem o meu filho mais velho
nessa fotografia e um pouco afastado dele, um colega. Não têm o equipamento
preto do Grupo União Sport.» Uma nota final citando a página 33, talvez o
melhor exemplo daquilo que este livro pode proporcionar, ligando o pó e a
posteridade: «Numa das fotos a mulher está a encher um garrafão de água na
Fonte da Santa, já perto do Alto de Fóia, enquanto Cadorin segura a filha pequenina
pela mão. A casa dos meus pais, onde eu vivia então, fica mais abaixo no sopé
da montanha. Só na entrevista da filha, mais de vinte anos depois, descobri que
ele ia com a família buscar água à minha terra. Quanta energia para os golos
terá conseguido assim?»
(Editora: On y va, Capa: João Paulo
Fidalgo, Foto: João Andrés, Contracapa: Rodolfo Begonha)
[Um
livro por semana 625]
terça-feira, 23 de julho de 2019
«A festa dos caçadores» de Henrique Manuel Bento Fialho
O
mais recente livro deste autor (n.1974) tem 327 páginas e integra 119 contos
curtos sendo o título retirado da página 10. «A festa dos caçadores» faz a
ligação a uma das «chaves» deste livro: a Vida em si não chega e o Cinema é uma
resposta ao seu vazio. Por isso o herói se esconde «atrás dos reposteiros da
sala» e, depois vê filmes de cowboys, cujos
heróis são conhecidos por «Jesse, Johnny, Pat, Billy ou Shane» para além do
estranho, obscuro e sombrio «homem da harmónica». E surge uma conclusão:
«Crescer é mais ou menos isto: o grito de um índio a dar lugar ao olhar
concentrado e criminoso de uma certa noção de justiça.» Natália Correia escreveu
«Nasce-se em Setúbal / Nasce-se em Pequim / Eu sou dos Açores / Mas não é assim
/ A gente só nasce / Quando somos nós / que temos as dores.» O autor refere
três lugares para nascer («uma vila do antigo Oeste», «uma capital de aldeias
divididas», «uma falésia do esquecimento») mas na página 11 propõe: «Devo ter
nascido em Rio Grande.» Já sobre a morte, podemos ler na página 96 «O último
desejo de meu pai foi que lhe lessem, uma a uma, As Elegias de Duíno.» e na 97 a conclusão «Morrer abençoado pelos
versos de Rilke terá sido morrer de braço dado com a morte, em profunda
intimidade com a morte, sem medo, sem ódio, sem solidão, sem esquecimento, com
o pouco que há de eterno dentro de nós.» Entre nascer o morrer, uma citação de
Wittgenstein explica e situa: «Os limites da minha linguagem significam os
limites do meu mundo.» O ponto de partida das histórias é o espaço de Caldas da
Rainha. Por exemplo «Na Praça da República havia um prédio maior que todos os
outros» ou «Hoje morreu um homem aqui perto de casa na estrada que liga a
rotunda da Fonte Luminosa à rotunda do CENCAL». Ou então «Arnaldo nasceu e foi
criado numa aldeia do concelho de Rio Maior chamada Arrouquelas.» e «A Esther
tinha a mania que era boa. Conheci-a numa discoteca de Alhandra.» Mas há
histórias com livros («As livrarias estão atoladas de livros escritos por
pessoas que não resistem à tentação de partilhar com o mundo as experiências
traumáticas por que passaram.» e uma conclusão: «Se os livros são como as
cerejas, os autores são como os figos: é preciso certo esforço para encontrar
os melhores.» Noutra história o ponto de partida é pessoal («Tive em tempos um
trabalho que me colocou em contacto com todos os interessados na feitura de um
livro») tal como a conclusão: «Ao contrário do que julgam alguns
neo-românticos, o melhor de se trabalhar
numa livraria está longe de ser os livros.» Uma outra tem a ver com jornalismo:
«Trabalhei durante quatro meses num jornal regional ali para as bandas de
Loures. A redacção ficava na Pontinha e o fecho era feito em Alcântara mas o
jornal era de Loures.» Outras histórias evocam não a Cidade mas a Região («O
negócio deles era o de quase toda a gente na região, a pecuária») não a Vida
mas uma metáfora mais complexa da Vida: «O Campo recolheu-se com a criança nos
braços. Às vezes lembra-se da Cidade mas ela nunca mais se lembrou do Campo.»
Já Eça de Queirós escreveu que «as ocupações humanas tendem a explorar o homem;
só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas
vezes equivale a consolá-lo»
(Editora: Abysmo, Capa: Sal Nunkachov,
Revisão: Noémia Machado, Citações: Gustave Flaubert, Teixeira de Pascoaes e
Lucia Berlin)
[Um
livro por semana 624]
quinta-feira, 11 de julho de 2019
«Veneza pode esperar» de Rita Ferro
Depois
de se estrear em 1990 com «O nó na garganta» e de ter publicado romances,
crónicas, fotobiografias e literatura infantil, Rita Ferro (n.1955) estreia-se
no registo diarístico com este «Veneza pode esperar». O ponto de partida está
na página 168: «O meu avô António nasceu há 117 anos – como pode um homem tão
moderno ter nascido no século XIX? O João Amaral, da LeYa, desafiou-me a
escrever um romance biográfico sobre ele, mas ao fim de meses de tentativas
falhadas substituí-o por este diário.» O diário cobre o tempo passado entre
Maio e Novembro de 2013 e o título do volume está na página 217. Rita Ferro
define-se como uma «sem-terra» da Política: «A esquerda enerva-me por se
arrogar de superioridade moral, a direita, por se acreditar socialmente
superior, os monárquicos, por acharem que validam os seus pergaminhos
prescritos com este pacote suspeito: o fado e as corridas como defesas
prioritárias, a religião defendida como uma tribo, o ceptro sem mão que o
sustente.» Ao contrário do que escreve na página 201 a autora não «fala
sozinha». Este livro de 236 páginas pode ser lido como um coro grego onde
cabemos todos e ninguém fica de fora. O ponto de partida para o «coro grego» pode
ser uma frase de Woody Allen em «As faces de Harry:« A frase mais bela do mundo
não é «amo-te» mas «é benigno». A propósito da Vida e daquilo que viemos aqui
fazer: «Uns querem ser felizes, outros aprender. Os primeiros raramente
conseguem, desesperam. Os segundos não se ralam com a infelicidade, desde que
instrua. O problema é quando a infelicidade nada traz.» Veja-se esta reflexão
sobre uma casa que demorou onze anos a construir e que hoje (2013) é só recordação:
«Já não tenho a casa nem economias para a reforma, apenas grandes recordações.»
Ou esta outra sobre gatos: «Hitler não gostava de gatos, Churchill adorava-os e
eu fui educada a detestá-los. A minha mãe achava que ter gatos era um sintoma
de solidão desesperada e sentia tanto medo deles como das donas.» Façamos um
resumo: o livro lê o diferente, o presente e o futuro. O diferente é dado pela
fala de uma mulher que vive em Harare: «Cada dia é uma dádiva e este apego que
vocês têm às coisas na Europa, parece-nos absurdo.» O presente tem a ver com o
autismo actual: «Chega um casal de espanhóis, cada um carregando o seu iPad.
Preparo-me para dizer bom dia mas nenhum contacto é estabelecido. Conversam a
um palmo de distância e olham noutra direcção. Nem a vibração do telemóvel os
arranca a si mesmos. Quando falo e solto uma gargalhada não movem as cabeças.»
O futuro é um dos netos: «Ontem, dando banho àqueles oito quilos de futuro,
pensei que a vida tem sempre razão.»
Povoam
este livro memórias de Agustina Bessa Luis, Manuel da Silva Ramos, Vergílio
Ferreira, Natália Correia, Arur Portela Filho, Afonso Lopes Vieira, Gabriel
García Márquez ou Sebastião da Gama – entre outros. Sobre o Prémio PEN Clube
atribuído ao livro «A menina é filha de quem?» percebe-se a mágoa por
indevidamente o prémio associar nas notícias o seu nome ao cargo político do
avô e não ao facto de o mesmo avô ter trazido a Portugal em 1935 escritores
como Henri Membré, François Mauriac e Jacques Maritain (entre outros) para ajudar
a criar em Portugal um PEN Clube.
(Editora: Dom Quixote, Revisão: Clara
Boléo, Capa: Maria Manuel Lacerda, Edição: Cecília Andrade)
[Um
livro por semana 623]
domingo, 30 de junho de 2019
«Jocasta» e «Dizimar» de Paulo da Costa Domingos
A
título excepcional esta semana a rubrica «um livro da semana» refere-se a dois.
Trata-se de juntar na mesma ficha de leitura dois livros de poemas de Paulo da
Costa Domingos (n.1953); o primeiro de 15 páginas e o segundo de 18. Na
intitulada «Nota marginal» de «Jocasta» lê-se: «Jocasta foi a autêntica figura
subversora de uma ordem, não meramente no que é político, mas invertida, a
rasgar pelo ataque radical à estrutura da família, enquanto átomo do corpo
social.» O poema «Jocasta» na página 7
abre com um sonho («Jocasta humedece um sonho») e conclui com um pesadelo: «Do
menos não cortei orelhas / a pretos, posso mesmo dizer / como vim para suavizar
/ a ferida infecta do Mundo.» Um pouco à maneira de Vitor Matos e Sá
(1927-1975) o Mundo é uma «companhia violenta» e o poema final («Funerária») é
um balanço (embora provisório) de um trajecto entre a vida e a morte: «Sozinha:
como eterna deusa, / onde há morte e não há morte / onde há quem adormeça, se
bem que / do lado oposto do espelho a que / ninguém acode apesar de carpir / avonde,
e onde impera o luto / depois da luta, depois do bote final; / sozinha: marcada
pela devastação pessoal, num campo deserto / há muito da honra e do sentir /
alto se ouve ainda o alfabeto / e, muda, a vegetação fecha-se.»
Em
«Dizimar» o ponto de partida é um lugar («Este lugar existe, fica / onde as
soluções novas / se assemelham ao deserto / dos antigos problemas.») mas não um
lugar qualquer: «o Vale das Artes, o Jardim dos Poetas.» O Poeta que recusa o Jardim
dos Poetas é um rebelde: «Um rebelde. Recusa-se / ao consumo: apenas / quer ser
detentor dos meios de produção / chega de cinzeiros.»Sobre os efeitos da sua
proclamação o Poeta não tem dúvidas: «Garantidamente cinquenta ou sessenta /
tomarão conhecimento.» Depois de rejeitar a «senhora frígida» («Seu nome é
Autoritária») que pode ser lida como junção de duas palavras (Autoridade e
Tributária) o Poeta conclui: «Fatiga a luta e ainda / não chegou o pavor./
Certo. Teremos bebido / muito menos que mentiras / dizem os poeta durante / uma
greve selvagem.»
(Jocasta – Editora Frenesi, Capa s/foto
de Rui Baião, Dizimar – Editora Frenesi, Capa de Carlos Ferreiro)
[Um
livro por semana 622]
terça-feira, 18 de junho de 2019
«O sábio de Bandiagara – Esconjuros. Ebriedades e Ofícios» de Zetho Cunha Gonçalves
Zetho
Cunha Gonçalves (n.1960) explica o ponto de partida deste livro de 92 páginas:
«Este é um livro de versões, transversões e reconversões de poemas, provérbios,
adivinhas, frases soltas e outros materiais potencialmente poéticos, vindos de
outras línguas e civilizações – sobretudo africanas e latino-americanas – aqui
transplantados para língua portuguesa.» Depois de lembrar Octavio Paz («Sabemos
que os astecas recitavam, cantavam e dançavam os seus poemas») o autor, nascido
no Huambo (ao tempo Nova Lisboa), regista as semelhanças entre os astecas e os
povos de toda a África subsariana e os poemas que lidam com «as cosmogonias, os
poemas rituais, os cantos de trabalho, de ninar, de celebração, de entronização
e de óbito». Por isso mesmo pode concluir: «não há Poema digno desse nome que
não advenha de uma tradição que em si mesmo cria e nela se transmuda inaugural,
pela voz criada, impositiva e única, inconfundível, do seu Autor.»
Um
dos poemas que melhor espelha a intertextualidade pode ser o da página 12: «Se queres
saber quem sou / Se queres que te ensine aquilo que sei / Deixa de ser um pouco
daquilo que és / E esquece tudo quanto sabes.»
Entre
a Vida (breve) e a Morte (inevitável) só o Amor pode salvar: «Os tempestuosos
quinze anos / Os vinte turbulentos / Os trinta sedentos / Os destrambelhados
quarenta / Os erráticos cinquenta / Os avançados sessenta / Os serenos setenta
/ Os exaustos oitenta / Os anestesiados noventa / Os humildes cem anos!»
A
vida pode ser uma viagem mas há sempre a adversativa como no poema da página
40: («Embora eu tenha chegado ao fim da viagem / Nunca senti que tivesse
chegado») e a única certeza sobre a Vida está na mulher: «Em cada mulher começa
o mundo /e o que dizeis tão serenamente /no tom dos graves sussurros /que
recordo ter aprendido de minha mãe / os segredos da vossa indagação.»
Perante
o desafio do Mundo, o verdadeiro artista, o que não é torpe, tem uma ética na
sua prática: «O verdadeiro artista tudo retira do seu coração; / trablha com
deleite, faz tudo com calma, com prudência / age como um tolteca, compõe
coisas, trabalha habilmente, cria / transforma as coisas, aticula-as, faz com
que se ajustem.»
Em
conclusão podemos proclamar como o poema da página 81: «Retém o que acabaste de
aprender / tu que aprecias sobremaneira o conhecimento /e sabes que o saber
vale mais que o âmbar / muito mais que o coral e até mesmo mais que o ouro
fino.»
(Editora: Maldoror, Capa e Grafismo:
Luís Henriques, Paginação: Diogo Vaz Pinto, Revisão: Andreia Baleiras)
[Um livro por semana 621]
segunda-feira, 10 de junho de 2019
«O Bairro dos Jornais» de Paulo Martins
Titular
da carteira profissional de jornalista nº 4149, eu estou no Bairro Alto desde
1977. O primeiro jornal onde escrevi foi o «Diário Popular» em 1978 na Rua Luz
Soriano nº 67 e o segundo foi «A Bola» em 1979 na Travessa da Queimada nº 23. O
meu primeiro livro («Iniciais») foi publicado em 1981 pela Moraes Editora na
Rua de O Século nº 34, antiga redacção de «A Capital».
Nada
neste livro de Paulo Martins (n.1962) me é, nem pode ser, indiferente. Desde
logo a citação de Norberto de Araújo, ilustre jornalista: «Os jornais, a fogueira
que arde e que queima – ilumina daqui a cidade e, nas suas faúlhas que
desencontrados ventos nem sempre levam bem, aquece em redor.» Há nos jornais
uma mistura de pessoal e de público: «Por isso os apelidos Coelho (Diário de
Notícias), Silva Graça e Pereira da Rosa (O Século), Burnay e Bordalo Pinheiro
(Jornal do Comércio) Vieira Pinto e Ruella Ramos (Diário de Lisboa), Balsemão (Diário
Popular) percorrem as páginas que se seguem. As famílias perdem influência à
medida que se consuma o assédio da Banca, entre final dos anos 1960 e o início
da década seguinte».
Falar
de jornais é falar de Censura: «Ferreira de Castro conta um episódio em torno
de uma reportagem da sua autoria, nas minas de São Domingos, detidas por uma
empresa inglesa, que foi integralmente suprimida pela Censura. Pereira da Rosa
disse ter lido o texto duas vezes, não encontrando razões para o corte. Debalde
se queixou pelo telefone ao general investido por essa altura em ministro.
Percebeu que o director da mina envolvera no caso o embaixador britânico e
argumentou que em situação inversa, nenhum representante diplomático ousaria ir
ao Foreign Office pedir que o Governo inglês proibisse os jornais de Inglaterra
de se ocuparem dum caso semelhante. De nada valeu.» Na página 264 pode ler-se
sobre as relações entre patrão e empregado o seguinte: «Havia uma relação muito
estreita entre o patrão e o jornalista, confirma Baptista-Bastos. Era também um
certo paternalismo e uma certa conivência mas a gente sabia para quem
trabalhava e falava diretamente com eles.»
Um
aspecto curioso é que os redactores dos jornais desportivos não podiam ser
sócios do Sindicato dos Jornalistas até 1972 restando-lhes a filiação no
Sindicato dos Tipógrafos. Por isso em 1966 foi criado o CNID para permitir as
acreditações do Campeonato do Mundo em Inglaterra. Outro aspecto curioso tem a
ver com as palavras do assessor de Willy Brandt que afirmou em pleno tempo do
«caso República»: «Se querem ganhar dinheiro nunca metam política na primeira
página e não metam também notícias importantes, ponham mulheres e crime.» Por
fim uma ideia que permanece, apesar dos anos que passaram: «Num país pequeno e
analfabeto, era entre o Bairro Alto e o Chiado que se concentravam não apenas
as redacções dos jornais mas também as sedes partidárias – quando não
partilhavam o mesmo espaço.»
(Editora:
Quetzal, Revisão: Carlos Pinheiro, Preparação: Diogo Morais Barbosa, Edição:
Francisco José Viegas, Capa. Rui Rodrigues, Foto: Arquivo Municipal, Produção:
Teresa Reis Gomes)
[Um
livro por semana 620]
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