sábado, 21 de setembro de 2019

Uma memória para José Pereira e Pepe - «Os Belenenses» cem anos depois


A propósito dos cem anos do Clube «Os Belenenses» que ocorre em 23-9-2019 não posso deixar de manifestar o meu desagrado pelo facto de o jornal «Diário de Notícias» de hoje 21-9-2019 ter dedicado um Suplemento Especial ao facto histórico mas ter esquecido dois daqueles que eu considero elementos chave da memória do Clube azul da cruz de Cristo. Sobre José Pereira nada ou quase nada sei. Ainda ontem falei com uma pessoa do Jornal «Badaladas» de Torres Vedras onde ele terá nascido em 15-9-1931 mas nada de concreto fiquei a saber. Sei que jogou no Mundial 1966 ao lado dos Magriços mas depois foi para Barcelona onde viveu e terá regressado ao Caramão da Ajuda. Sobre Pepe (1908-1931) apenas uma frase tirada de um poema dito por Barroso Lopes na Revista «O Mexilhão no Teatro Variedades: «Era a alma do povo em corpo de rapaz!» 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

«Noticia historica e topographica da villa de Alcanede» de Simão Froes de Lemos



José Raimundo Noras (m.1980) transcreve, apresenta e anota este texto clássico de Simão Froes de Lemos (1675-1759) escrito em 1726. O ponto de partida do historiador é «transcrever e fixar o texto de Simão Froes de Lemos, dando informações essenciais para uma boa compreensão desse trabalho (…) mantemos a grafia do texto original por considerarmos, para além da norma adoptada, que a mesma não prejudica a boa leitura da crónica.» O texto de Simão Froes de Lemos já tinha sido várias vezes referido por Mário Rui Silvestre, autor pioneiro na divulgação dos três manuscritos (Évora, Lisboa, Santarém) a mais recente das quais terá sido em 2014 no livro «Poemas do Centenário». Embora se registe que o texto de 1726 segue o modelo da descrição corográfica do Padre Luís Cardoso não será errado considerá-lo também um percursor das «Memórias paroquiais de 1758».
Segundo o responsável por esta edição «A Noticia Historica foi dividida em duas partes: a primeira focada em Alcanede e a segunda em Pernes. O documento oferece informações importantes para vários campos de estudo: história local, etnologia, estudos das religiões, arquitetura, geografia humana, toponímia, história das mentalidades bem como estudos de género.» Um dado muito curioso neste texto é o primeiro registo escrito das grutas de Mira de Aire na página 209: «Na serra de Ayre ou serra de Minde como alguns lhe chamam, no termo de Porto de Mós está o lugar de Minde e ao Noroeste delle está hum campo que tem de comprimento meya  legoa e de largo hum quarto de legoa pouco mais ou menos no fim deste campo para a parte do Noroeste está huma gruta que terá de comprido tanto como a Igreja da Misericórdia de Lisboa ao rocio da mesma cidade, pela qual entra um homem e anda por ella sempre em pé e à vontade e por baixo e por sima paresse tudo hua só pedra porque são abodadas da mesma penha; depois de andar a metade do caminho, se acha hua subida pequena que se a fizessem escada poderia ter dez o doze degraus; passada esta subida se desce por área tanto como se tem subido e depois ainda se continau a descer mas he por pedras; e assim se vai andando e descendo ate que se chega a hum portal feito pela natureza em forma que parecese feito por maos de officiaes.»

(Edição: Centro do Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, Apoios: Município de Santarém, Juntas de Freguesia de Abrã, Alcanede, Amiais de Baixo, Arneiro das Milhariças, Malhou, Louriceira, Espinheiro, Minde, Pernes e São Sebastião – Rio Maior)

[Um livro por semana 627]

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Crónica sobre uma aguarela de Joan Sutherland



Primula Integrifolia é o seu nome e consta no original da aguarela por si assinada. Sei que os botânicos, os pintores e os arquitectos paisagistas sabem sempre os nomes latinos das flores. Faz parte do seu trabalho porque cada ofício e profissão tem as suas palavras exactas, precisas e perfeitas. Minha filha Marta que vive e trabalha em Sydney (Austrália) soube dizer de imediato que esta flor em concreto é oriunda da zona dos Pirenéus Atlânticos. No seu caso tenho a ideia de ter visto um exemplar da flor no seu jardim nos arredores de York em Inglaterra mas o que me interessa é o rigor do traço, as linhas perfeitas, o recorte exacto das cores, o equilíbrio de todos os componentes na sua aguarela. Não por acaso seu filho Ian desenha tão bem e ganhou prémios como arquitecto na cidade de Londres. Seus netos Thomas e Lucas, apesar de serem jovens, já vão no bom caminho como seus discípulos. O meu orgulho de avô em comum é ver os nossos netos a desenharem tão bem apesar da sua idade, treze e oito anos. Pela minha parte acresce o pormenor de ainda ontem (10 de Agosto de 2019) o comissário de bordo no avião que liga Lisboa a Londres ficou encantado com o emblema do Sporting Clube de Portugal a verde na camisola branca do nosso neto Lucas. Tal como há alguns anos atrás em pleno parque de Greenwich junto ao Tamisa (o Tejo de Londres) algumas pessoas gostaram da camisola verde o Thomas, o nosso neto mais velho com estas palavras muito próprias para um lugar como Greenwish Park – «Sporting since 1906». Por simples curiosidade vejo que esta planta tem efeitos positivos em seis campos: anti-inflamatório, defesa do sistema imunológico, na pele, nas cólicas, nas funções hepáticas e no controle emocional.  Nada acontece por acaso, é o que fico a pensar, caríssima comadre.  
      
[Crónicas do Tejo 196]

sábado, 17 de agosto de 2019

«Lisboa – Livro de Bordo – vozes, olhares, memorações» de José Cardoso Pires



José Cardoso Pires (1925-1998) escreveu este livro para a EXPO 98 mas a nova edição integra fotos de José Carlos Nascimento (n.1943) que lhe dão aspecto mais apetecível pois como refere Ana Cardoso Pires «Lisboa é uma cidade de que é fácil gostar.» O ponto de partida está na página 16: «Mas ninguém poderá conhecer uma cidade se não a souber interrogar, interrogando-se a si mesmo. Ou seja, se não tentar por conta própria os acasos que a tornam imprevisível e lhe dão mistério da unidade mais dela.» Dito de outra maneira «isto aqui não é só luz e rio, não é só geografia, revelações ou memórias» há cheiros a reconhecer: «o do peixe de sal e barrica nas lojas da Rua do Arsenal, o da maresia a certas horas das docas do Tejo, o do Verão nocturno nos ajardinados da Lapa, o dos armazéns de aprestos marítimos entre Santos e o Cais do Sodré, o do peixe a grelhar em fogareiro à porta dos tascos de recanto ou de travessa, desde o Bairro Alto a Carnide.» Lisboa é também História: «São Vicente, está provado, entrou no Tejo em cadáver navegante sob a guarda de dois corvos. Já ressequido e mirrado, acrescente-se. Já relíquia de sacrário, boca roída, dentes de fora. Chegou nessa figura e embora santo, não teve uma palavra para a cidade que o recebeu.» Do que este livro mais trata é do Amor a Lisboa: «Se fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa», escreveu Fernando Assis Pacheco num poema tonto de luz (a tão citada luz sempre imprevista). De acordo, mas uma cidade de caprichos como esta nunca o sol a pode iluminar por igual. Tem de se lhe afeiçoar aos contornos e aos instintos desordenados.» A tragédia do Chiado (o incêndio) está na página 59: «Hoje quando atravesso esse rosto corrompido de Lisboa vejo-o como uma ferida aberta na nossa memória colectiva. Mais ainda: é um pouco da memória de mim mesmo que ficou destroçada porque também eu subi o Chiado em diferentes idades dos meus livros e com amigos de diferentes gerações.» E continua: «É possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Sim é possível, Mas mais do que as cidades, é sempre um bairro ou um lugar que caracteriza essa definição e a fidelidade tantas vezes inconsciente que lhe dedicamos. O Chiado, neste caso.»

(Editora: Relógio d´Água, Prefácio: Ana Cardoso Pires, Fotografias: José Carlos Nascimento, Revisão: Anabela Prates Carvalho, Capa: Carlos César Vasconcelos)

[Um livro por semana 626]

terça-feira, 6 de agosto de 2019

«O livrinho dos campeões» de António Manuel Venda



Com o subtítulo de «e outras histórias de um adepto do melhor clube do mundo» o livro integra 25 crónicas em 151 páginas, selecionadas por António Manuel Venda (n.1968) que explica na nota final: «Estes textos foram escritos ao longo de muitos anos, desde a segunda metade da década de 1990. São os vinte e cinco selecionados de centenas que escrevi sobre futebol para meios de comunicação social (dois inclusive da minha terra, o Jornal de Monchique e a Rádio Fóia) e também para espaços on-line (como o blog sportinguista És a nossa fé). Com a derradeira revisão feita em Agosto de 2017, surgem no final com referências a acontecimentos a que dizem respeito e com o ano em que foram originalmente escritos.» O presente volume é dedicado aos filhos do autor (Bernardo, Madalena, Francisca e Rodrigo) e à memória de Malcolm Allison (1927-2010) treinador do Sporting Clube de Portugal na época desportiva de 1981/1982. O título do conjunto é retirado do primeiro texto do livro: «A primeira vez em que vi um jogo do Sporting ao vivo foi no Estádio do Portimonense, em Portimão, na memorável época do título com o treinador inglês Malcolm Allison. O resultado está num livrinho de páginas brancas que fui preenchendo a cada dia em que a equipa jogava. Numa entrada de quatro de Abril de 1982 surge a minha letra tremida com o registo de uma surpreendente derrota.» Não é só de vida e de vitória que estas histórias tratam; também se recorda a morte de um sócio «leonino» numa final da Taça de Portugal: «sobre o apito inicial do árbitro, um adepto do Sporting foi atingido no peito por um very light lançado por alguém das claques do Benfica. Teve morte imediata.» Um dos registos deste livro é o do humor, como na página 64: «A verdade é que o árbitro terá ficado pior do que doido ao ver as raparigas a entrarem-lhe pelo quarto adentro. Quase vinte e quatro horas depois o clube haveria de perder o jogo e sem grande exibição do adversário. Muitos comentadores acabariam por falar de uma noite infeliz do árbitro; sem saberem, é claro, que a noite infeliz tinha sido a anterior.» Outro registo é o futuro como na página 127: «Tenho uma fotografia das do telemóvel que invariavelmente me deixa espantado. Um torneio de futebol no Verão de 2014, para miúdos, em Montemor-o-Novo, num campo ao ar livre. Futebol de cinco, já com a noite a cair. Vejo bem o meu filho mais velho nessa fotografia e um pouco afastado dele, um colega. Não têm o equipamento preto do Grupo União Sport.» Uma nota final citando a página 33, talvez o melhor exemplo daquilo que este livro pode proporcionar, ligando o pó e a posteridade: «Numa das fotos a mulher está a encher um garrafão de água na Fonte da Santa, já perto do Alto de Fóia, enquanto Cadorin segura a filha pequenina pela mão. A casa dos meus pais, onde eu vivia então, fica mais abaixo no sopé da montanha. Só na entrevista da filha, mais de vinte anos depois, descobri que ele ia com a família buscar água à minha terra. Quanta energia para os golos terá conseguido assim?»

(Editora: On y va, Capa: João Paulo Fidalgo, Foto: João Andrés, Contracapa: Rodolfo Begonha)  
          
[Um livro por semana 625]

terça-feira, 23 de julho de 2019

«A festa dos caçadores» de Henrique Manuel Bento Fialho



O mais recente livro deste autor (n.1974) tem 327 páginas e integra 119 contos curtos sendo o título retirado da página 10. «A festa dos caçadores» faz a ligação a uma das «chaves» deste livro: a Vida em si não chega e o Cinema é uma resposta ao seu vazio. Por isso o herói se esconde «atrás dos reposteiros da sala» e, depois vê filmes de cowboys, cujos heróis são conhecidos por «Jesse, Johnny, Pat, Billy ou Shane» para além do estranho, obscuro e sombrio «homem da harmónica». E surge uma conclusão: «Crescer é mais ou menos isto: o grito de um índio a dar lugar ao olhar concentrado e criminoso de uma certa noção de justiça.» Natália Correia escreveu «Nasce-se em Setúbal / Nasce-se em Pequim / Eu sou dos Açores / Mas não é assim / A gente só nasce / Quando somos nós / que temos as dores.» O autor refere três lugares para nascer («uma vila do antigo Oeste», «uma capital de aldeias divididas», «uma falésia do esquecimento») mas na página 11 propõe: «Devo ter nascido em Rio Grande.» Já sobre a morte, podemos ler na página 96 «O último desejo de meu pai foi que lhe lessem, uma a uma, As Elegias de Duíno.» e na 97 a conclusão «Morrer abençoado pelos versos de Rilke terá sido morrer de braço dado com a morte, em profunda intimidade com a morte, sem medo, sem ódio, sem solidão, sem esquecimento, com o pouco que há de eterno dentro de nós.» Entre nascer o morrer, uma citação de Wittgenstein explica e situa: «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo.» O ponto de partida das histórias é o espaço de Caldas da Rainha. Por exemplo «Na Praça da República havia um prédio maior que todos os outros» ou «Hoje morreu um homem aqui perto de casa na estrada que liga a rotunda da Fonte Luminosa à rotunda do CENCAL». Ou então «Arnaldo nasceu e foi criado numa aldeia do concelho de Rio Maior chamada Arrouquelas.» e «A Esther tinha a mania que era boa. Conheci-a numa discoteca de Alhandra.» Mas há histórias com livros («As livrarias estão atoladas de livros escritos por pessoas que não resistem à tentação de partilhar com o mundo as experiências traumáticas por que passaram.» e uma conclusão: «Se os livros são como as cerejas, os autores são como os figos: é preciso certo esforço para encontrar os melhores.» Noutra história o ponto de partida é pessoal («Tive em tempos um trabalho que me colocou em contacto com todos os interessados na feitura de um livro») tal como a conclusão: «Ao contrário do que julgam alguns neo-românticos, o melhor de se  trabalhar numa livraria está longe de ser os livros.» Uma outra tem a ver com jornalismo: «Trabalhei durante quatro meses num jornal regional ali para as bandas de Loures. A redacção ficava na Pontinha e o fecho era feito em Alcântara mas o jornal era de Loures.» Outras histórias evocam não a Cidade mas a Região («O negócio deles era o de quase toda a gente na região, a pecuária») não a Vida mas uma metáfora mais complexa da Vida: «O Campo recolheu-se com a criança nos braços. Às vezes lembra-se da Cidade mas ela nunca mais se lembrou do Campo.» Já Eça de Queirós escreveu que «as ocupações humanas tendem a explorar o homem; só essa de contar histórias se dedica amoravelmente a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo»

(Editora: Abysmo, Capa: Sal Nunkachov, Revisão: Noémia Machado, Citações: Gustave Flaubert, Teixeira de Pascoaes e Lucia Berlin)

[Um livro por semana 624]

quinta-feira, 11 de julho de 2019

«Veneza pode esperar» de Rita Ferro



Depois de se estrear em 1990 com «O nó na garganta» e de ter publicado romances, crónicas, fotobiografias e literatura infantil, Rita Ferro (n.1955) estreia-se no registo diarístico com este «Veneza pode esperar». O ponto de partida está na página 168: «O meu avô António nasceu há 117 anos – como pode um homem tão moderno ter nascido no século XIX? O João Amaral, da LeYa, desafiou-me a escrever um romance biográfico sobre ele, mas ao fim de meses de tentativas falhadas substituí-o por este diário.» O diário cobre o tempo passado entre Maio e Novembro de 2013 e o título do volume está na página 217. Rita Ferro define-se como uma «sem-terra» da Política: «A esquerda enerva-me por se arrogar de superioridade moral, a direita, por se acreditar socialmente superior, os monárquicos, por acharem que validam os seus pergaminhos prescritos com este pacote suspeito: o fado e as corridas como defesas prioritárias, a religião defendida como uma tribo, o ceptro sem mão que o sustente.» Ao contrário do que escreve na página 201 a autora não «fala sozinha». Este livro de 236 páginas pode ser lido como um coro grego onde cabemos todos e ninguém fica de fora. O ponto de partida para o «coro grego» pode ser uma frase de Woody Allen em «As faces de Harry:« A frase mais bela do mundo não é «amo-te» mas «é benigno». A propósito da Vida e daquilo que viemos aqui fazer: «Uns querem ser felizes, outros aprender. Os primeiros raramente conseguem, desesperam. Os segundos não se ralam com a infelicidade, desde que instrua. O problema é quando a infelicidade nada traz.» Veja-se esta reflexão sobre uma casa que demorou onze anos a construir e que hoje (2013) é só recordação: «Já não tenho a casa nem economias para a reforma, apenas grandes recordações.» Ou esta outra sobre gatos: «Hitler não gostava de gatos, Churchill adorava-os e eu fui educada a detestá-los. A minha mãe achava que ter gatos era um sintoma de solidão desesperada e sentia tanto medo deles como das donas.» Façamos um resumo: o livro lê o diferente, o presente e o futuro. O diferente é dado pela fala de uma mulher que vive em Harare: «Cada dia é uma dádiva e este apego que vocês têm às coisas na Europa, parece-nos absurdo.» O presente tem a ver com o autismo actual: «Chega um casal de espanhóis, cada um carregando o seu iPad. Preparo-me para dizer bom dia mas nenhum contacto é estabelecido. Conversam a um palmo de distância e olham noutra direcção. Nem a vibração do telemóvel os arranca a si mesmos. Quando falo e solto uma gargalhada não movem as cabeças.» O futuro é um dos netos: «Ontem, dando banho àqueles oito quilos de futuro, pensei que a vida tem sempre razão.»
Povoam este livro memórias de Agustina Bessa Luis, Manuel da Silva Ramos, Vergílio Ferreira, Natália Correia, Arur Portela Filho, Afonso Lopes Vieira, Gabriel García Márquez ou Sebastião da Gama – entre outros. Sobre o Prémio PEN Clube atribuído ao livro «A menina é filha de quem?» percebe-se a mágoa por indevidamente o prémio associar nas notícias o seu nome ao cargo político do avô e não ao facto de o mesmo avô ter trazido a Portugal em 1935 escritores como Henri Membré, François Mauriac e Jacques Maritain (entre outros) para ajudar a criar em Portugal um PEN Clube. 
         
(Editora: Dom Quixote, Revisão: Clara Boléo, Capa: Maria Manuel Lacerda, Edição: Cecília Andrade)

[Um livro por semana 623]

domingo, 30 de junho de 2019

«Jocasta» e «Dizimar» de Paulo da Costa Domingos



A título excepcional esta semana a rubrica «um livro da semana» refere-se a dois. Trata-se de juntar na mesma ficha de leitura dois livros de poemas de Paulo da Costa Domingos (n.1953); o primeiro de 15 páginas e o segundo de 18. Na intitulada «Nota marginal» de «Jocasta» lê-se: «Jocasta foi a autêntica figura subversora de uma ordem, não meramente no que é político, mas invertida, a rasgar pelo ataque radical à estrutura da família, enquanto átomo do corpo social.»  O poema «Jocasta» na página 7 abre com um sonho («Jocasta humedece um sonho») e conclui com um pesadelo: «Do menos não cortei orelhas / a pretos, posso mesmo dizer / como vim para suavizar / a ferida infecta do Mundo.» Um pouco à maneira de Vitor Matos e Sá (1927-1975) o Mundo é uma «companhia violenta» e o poema final («Funerária») é um balanço (embora provisório) de um trajecto entre a vida e a morte: «Sozinha: como eterna deusa, / onde há morte e não há morte / onde há quem adormeça, se bem que / do lado oposto do espelho a que / ninguém acode apesar de carpir / avonde, e onde impera o luto / depois da luta, depois do bote final; / sozinha: marcada pela devastação pessoal, num campo deserto / há muito da honra e do sentir / alto se ouve ainda o alfabeto / e, muda, a vegetação fecha-se.»
Em «Dizimar» o ponto de partida é um lugar («Este lugar existe, fica / onde as soluções novas / se assemelham ao deserto / dos antigos problemas.») mas não um lugar qualquer: «o Vale das Artes, o Jardim dos Poetas.» O Poeta que recusa o Jardim dos Poetas é um rebelde: «Um rebelde. Recusa-se / ao consumo: apenas / quer ser detentor dos meios de produção / chega de cinzeiros.»Sobre os efeitos da sua proclamação o Poeta não tem dúvidas: «Garantidamente cinquenta ou sessenta / tomarão conhecimento.» Depois de rejeitar a «senhora frígida» («Seu nome é Autoritária») que pode ser lida como junção de duas palavras (Autoridade e Tributária) o Poeta conclui: «Fatiga a luta e ainda / não chegou o pavor./ Certo. Teremos bebido / muito menos que mentiras / dizem os poeta durante / uma greve selvagem.»

(Jocasta – Editora Frenesi, Capa s/foto de Rui Baião, Dizimar – Editora Frenesi, Capa de Carlos Ferreiro)  
       
[Um livro por semana 622]

terça-feira, 18 de junho de 2019

«O sábio de Bandiagara – Esconjuros. Ebriedades e Ofícios» de Zetho Cunha Gonçalves



Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) explica o ponto de partida deste livro de 92 páginas: «Este é um livro de versões, transversões e reconversões de poemas, provérbios, adivinhas, frases soltas e outros materiais potencialmente poéticos, vindos de outras línguas e civilizações – sobretudo africanas e latino-americanas – aqui transplantados para língua portuguesa.» Depois de lembrar Octavio Paz («Sabemos que os astecas recitavam, cantavam e dançavam os seus poemas») o autor, nascido no Huambo (ao tempo Nova Lisboa), regista as semelhanças entre os astecas e os povos de toda a África subsariana e os poemas que lidam com «as cosmogonias, os poemas rituais, os cantos de trabalho, de ninar, de celebração, de entronização e de óbito». Por isso mesmo pode concluir: «não há Poema digno desse nome que não advenha de uma tradição que em si mesmo cria e nela se transmuda inaugural, pela voz criada, impositiva e única, inconfundível, do seu Autor.»
Um dos poemas que melhor espelha a intertextualidade pode ser o da página 12: «Se queres saber quem sou / Se queres que te ensine aquilo que sei / Deixa de ser um pouco daquilo que és / E esquece tudo quanto sabes.»
Entre a Vida (breve) e a Morte (inevitável) só o Amor pode salvar: «Os tempestuosos quinze anos / Os vinte turbulentos / Os trinta sedentos / Os destrambelhados quarenta / Os erráticos cinquenta / Os avançados sessenta / Os serenos setenta / Os exaustos oitenta / Os anestesiados noventa / Os humildes cem anos!»
A vida pode ser uma viagem mas há sempre a adversativa como no poema da página 40: («Embora eu tenha chegado ao fim da viagem / Nunca senti que tivesse chegado») e a única certeza sobre a Vida está na mulher: «Em cada mulher começa o mundo /e o que dizeis tão serenamente /no tom dos graves sussurros /que recordo ter aprendido de minha mãe / os segredos da vossa indagação.»
Perante o desafio do Mundo, o verdadeiro artista, o que não é torpe, tem uma ética na sua prática: «O verdadeiro artista tudo retira do seu coração; / trablha com deleite, faz tudo com calma, com prudência / age como um tolteca, compõe coisas, trabalha habilmente, cria / transforma as coisas, aticula-as, faz com que se ajustem.»
Em conclusão podemos proclamar como o poema da página 81: «Retém o que acabaste de aprender / tu que aprecias sobremaneira o conhecimento /e sabes que o saber vale mais que o âmbar / muito mais que o coral e até mesmo mais que o ouro fino.»

(Editora: Maldoror, Capa e Grafismo: Luís Henriques, Paginação: Diogo Vaz Pinto, Revisão: Andreia Baleiras)

[Um livro por semana 621]

segunda-feira, 10 de junho de 2019

«O Bairro dos Jornais» de Paulo Martins



Titular da carteira profissional de jornalista nº 4149, eu estou no Bairro Alto desde 1977. O primeiro jornal onde escrevi foi o «Diário Popular» em 1978 na Rua Luz Soriano nº 67 e o segundo foi «A Bola» em 1979 na Travessa da Queimada nº 23. O meu primeiro livro («Iniciais») foi publicado em 1981 pela Moraes Editora na Rua de O Século nº 34, antiga redacção de «A Capital».
Nada neste livro de Paulo Martins (n.1962) me é, nem pode ser, indiferente. Desde logo a citação de Norberto de Araújo, ilustre jornalista: «Os jornais, a fogueira que arde e que queima – ilumina daqui a cidade e, nas suas faúlhas que desencontrados ventos nem sempre levam bem, aquece em redor.» Há nos jornais uma mistura de pessoal e de público: «Por isso os apelidos Coelho (Diário de Notícias), Silva Graça e Pereira da Rosa (O Século), Burnay e Bordalo Pinheiro (Jornal do Comércio) Vieira Pinto e Ruella Ramos (Diário de Lisboa), Balsemão (Diário Popular) percorrem as páginas que se seguem. As famílias perdem influência à medida que se consuma o assédio da Banca, entre final dos anos 1960 e o início da década seguinte».
Falar de jornais é falar de Censura: «Ferreira de Castro conta um episódio em torno de uma reportagem da sua autoria, nas minas de São Domingos, detidas por uma empresa inglesa, que foi integralmente suprimida pela Censura. Pereira da Rosa disse ter lido o texto duas vezes, não encontrando razões para o corte. Debalde se queixou pelo telefone ao general investido por essa altura em ministro. Percebeu que o director da mina envolvera no caso o embaixador britânico e argumentou que em situação inversa, nenhum representante diplomático ousaria ir ao Foreign Office pedir que o Governo inglês proibisse os jornais de Inglaterra de se ocuparem dum caso semelhante. De nada valeu.» Na página 264 pode ler-se sobre as relações entre patrão e empregado o seguinte: «Havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista, confirma Baptista-Bastos. Era também um certo paternalismo e uma certa conivência mas a gente sabia para quem trabalhava e falava diretamente com eles.»
Um aspecto curioso é que os redactores dos jornais desportivos não podiam ser sócios do Sindicato dos Jornalistas até 1972 restando-lhes a filiação no Sindicato dos Tipógrafos. Por isso em 1966 foi criado o CNID para permitir as acreditações do Campeonato do Mundo em Inglaterra. Outro aspecto curioso tem a ver com as palavras do assessor de Willy Brandt que afirmou em pleno tempo do «caso República»: «Se querem ganhar dinheiro nunca metam política na primeira página e não metam também notícias importantes, ponham mulheres e crime.» Por fim uma ideia que permanece, apesar dos anos que passaram: «Num país pequeno e analfabeto, era entre o Bairro Alto e o Chiado que se concentravam não apenas as redacções dos jornais mas também as sedes partidárias – quando não partilhavam o mesmo espaço.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Pinheiro, Preparação: Diogo Morais Barbosa, Edição: Francisco José Viegas, Capa. Rui Rodrigues, Foto: Arquivo Municipal, Produção: Teresa Reis Gomes) 

[Um livro por semana 620]