domingo, 30 de junho de 2019

«Jocasta» e «Dizimar» de Paulo da Costa Domingos



A título excepcional esta semana a rubrica «um livro da semana» refere-se a dois. Trata-se de juntar na mesma ficha de leitura dois livros de poemas de Paulo da Costa Domingos (n.1953); o primeiro de 15 páginas e o segundo de 18. Na intitulada «Nota marginal» de «Jocasta» lê-se: «Jocasta foi a autêntica figura subversora de uma ordem, não meramente no que é político, mas invertida, a rasgar pelo ataque radical à estrutura da família, enquanto átomo do corpo social.»  O poema «Jocasta» na página 7 abre com um sonho («Jocasta humedece um sonho») e conclui com um pesadelo: «Do menos não cortei orelhas / a pretos, posso mesmo dizer / como vim para suavizar / a ferida infecta do Mundo.» Um pouco à maneira de Vitor Matos e Sá (1927-1975) o Mundo é uma «companhia violenta» e o poema final («Funerária») é um balanço (embora provisório) de um trajecto entre a vida e a morte: «Sozinha: como eterna deusa, / onde há morte e não há morte / onde há quem adormeça, se bem que / do lado oposto do espelho a que / ninguém acode apesar de carpir / avonde, e onde impera o luto / depois da luta, depois do bote final; / sozinha: marcada pela devastação pessoal, num campo deserto / há muito da honra e do sentir / alto se ouve ainda o alfabeto / e, muda, a vegetação fecha-se.»
Em «Dizimar» o ponto de partida é um lugar («Este lugar existe, fica / onde as soluções novas / se assemelham ao deserto / dos antigos problemas.») mas não um lugar qualquer: «o Vale das Artes, o Jardim dos Poetas.» O Poeta que recusa o Jardim dos Poetas é um rebelde: «Um rebelde. Recusa-se / ao consumo: apenas / quer ser detentor dos meios de produção / chega de cinzeiros.»Sobre os efeitos da sua proclamação o Poeta não tem dúvidas: «Garantidamente cinquenta ou sessenta / tomarão conhecimento.» Depois de rejeitar a «senhora frígida» («Seu nome é Autoritária») que pode ser lida como junção de duas palavras (Autoridade e Tributária) o Poeta conclui: «Fatiga a luta e ainda / não chegou o pavor./ Certo. Teremos bebido / muito menos que mentiras / dizem os poeta durante / uma greve selvagem.»

(Jocasta – Editora Frenesi, Capa s/foto de Rui Baião, Dizimar – Editora Frenesi, Capa de Carlos Ferreiro)  
       
[Um livro por semana 622]

terça-feira, 18 de junho de 2019

«O sábio de Bandiagara – Esconjuros. Ebriedades e Ofícios» de Zetho Cunha Gonçalves



Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) explica o ponto de partida deste livro de 92 páginas: «Este é um livro de versões, transversões e reconversões de poemas, provérbios, adivinhas, frases soltas e outros materiais potencialmente poéticos, vindos de outras línguas e civilizações – sobretudo africanas e latino-americanas – aqui transplantados para língua portuguesa.» Depois de lembrar Octavio Paz («Sabemos que os astecas recitavam, cantavam e dançavam os seus poemas») o autor, nascido no Huambo (ao tempo Nova Lisboa), regista as semelhanças entre os astecas e os povos de toda a África subsariana e os poemas que lidam com «as cosmogonias, os poemas rituais, os cantos de trabalho, de ninar, de celebração, de entronização e de óbito». Por isso mesmo pode concluir: «não há Poema digno desse nome que não advenha de uma tradição que em si mesmo cria e nela se transmuda inaugural, pela voz criada, impositiva e única, inconfundível, do seu Autor.»
Um dos poemas que melhor espelha a intertextualidade pode ser o da página 12: «Se queres saber quem sou / Se queres que te ensine aquilo que sei / Deixa de ser um pouco daquilo que és / E esquece tudo quanto sabes.»
Entre a Vida (breve) e a Morte (inevitável) só o Amor pode salvar: «Os tempestuosos quinze anos / Os vinte turbulentos / Os trinta sedentos / Os destrambelhados quarenta / Os erráticos cinquenta / Os avançados sessenta / Os serenos setenta / Os exaustos oitenta / Os anestesiados noventa / Os humildes cem anos!»
A vida pode ser uma viagem mas há sempre a adversativa como no poema da página 40: («Embora eu tenha chegado ao fim da viagem / Nunca senti que tivesse chegado») e a única certeza sobre a Vida está na mulher: «Em cada mulher começa o mundo /e o que dizeis tão serenamente /no tom dos graves sussurros /que recordo ter aprendido de minha mãe / os segredos da vossa indagação.»
Perante o desafio do Mundo, o verdadeiro artista, o que não é torpe, tem uma ética na sua prática: «O verdadeiro artista tudo retira do seu coração; / trablha com deleite, faz tudo com calma, com prudência / age como um tolteca, compõe coisas, trabalha habilmente, cria / transforma as coisas, aticula-as, faz com que se ajustem.»
Em conclusão podemos proclamar como o poema da página 81: «Retém o que acabaste de aprender / tu que aprecias sobremaneira o conhecimento /e sabes que o saber vale mais que o âmbar / muito mais que o coral e até mesmo mais que o ouro fino.»

(Editora: Maldoror, Capa e Grafismo: Luís Henriques, Paginação: Diogo Vaz Pinto, Revisão: Andreia Baleiras)

[Um livro por semana 621]

segunda-feira, 10 de junho de 2019

«O Bairro dos Jornais» de Paulo Martins



Titular da carteira profissional de jornalista nº 4149, eu estou no Bairro Alto desde 1977. O primeiro jornal onde escrevi foi o «Diário Popular» em 1978 na Rua Luz Soriano nº 67 e o segundo foi «A Bola» em 1979 na Travessa da Queimada nº 23. O meu primeiro livro («Iniciais») foi publicado em 1981 pela Moraes Editora na Rua de O Século nº 34, antiga redacção de «A Capital».
Nada neste livro de Paulo Martins (n.1962) me é, nem pode ser, indiferente. Desde logo a citação de Norberto de Araújo, ilustre jornalista: «Os jornais, a fogueira que arde e que queima – ilumina daqui a cidade e, nas suas faúlhas que desencontrados ventos nem sempre levam bem, aquece em redor.» Há nos jornais uma mistura de pessoal e de público: «Por isso os apelidos Coelho (Diário de Notícias), Silva Graça e Pereira da Rosa (O Século), Burnay e Bordalo Pinheiro (Jornal do Comércio) Vieira Pinto e Ruella Ramos (Diário de Lisboa), Balsemão (Diário Popular) percorrem as páginas que se seguem. As famílias perdem influência à medida que se consuma o assédio da Banca, entre final dos anos 1960 e o início da década seguinte».
Falar de jornais é falar de Censura: «Ferreira de Castro conta um episódio em torno de uma reportagem da sua autoria, nas minas de São Domingos, detidas por uma empresa inglesa, que foi integralmente suprimida pela Censura. Pereira da Rosa disse ter lido o texto duas vezes, não encontrando razões para o corte. Debalde se queixou pelo telefone ao general investido por essa altura em ministro. Percebeu que o director da mina envolvera no caso o embaixador britânico e argumentou que em situação inversa, nenhum representante diplomático ousaria ir ao Foreign Office pedir que o Governo inglês proibisse os jornais de Inglaterra de se ocuparem dum caso semelhante. De nada valeu.» Na página 264 pode ler-se sobre as relações entre patrão e empregado o seguinte: «Havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista, confirma Baptista-Bastos. Era também um certo paternalismo e uma certa conivência mas a gente sabia para quem trabalhava e falava diretamente com eles.»
Um aspecto curioso é que os redactores dos jornais desportivos não podiam ser sócios do Sindicato dos Jornalistas até 1972 restando-lhes a filiação no Sindicato dos Tipógrafos. Por isso em 1966 foi criado o CNID para permitir as acreditações do Campeonato do Mundo em Inglaterra. Outro aspecto curioso tem a ver com as palavras do assessor de Willy Brandt que afirmou em pleno tempo do «caso República»: «Se querem ganhar dinheiro nunca metam política na primeira página e não metam também notícias importantes, ponham mulheres e crime.» Por fim uma ideia que permanece, apesar dos anos que passaram: «Num país pequeno e analfabeto, era entre o Bairro Alto e o Chiado que se concentravam não apenas as redacções dos jornais mas também as sedes partidárias – quando não partilhavam o mesmo espaço.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Pinheiro, Preparação: Diogo Morais Barbosa, Edição: Francisco José Viegas, Capa. Rui Rodrigues, Foto: Arquivo Municipal, Produção: Teresa Reis Gomes) 

[Um livro por semana 620]

quarta-feira, 29 de maio de 2019

«Um passado imprevisível» de Ernesto Rodrigues



Ernesto Rodrigues (n.1956), poeta, professor, ficcionista, crítico, contista, tradutor e ensaísta, é um fascinante e poliédrico «Homem de Letras» que publica ficção desde 1980 - «Várias bulhas e algumas vítimas». Este romance de 153 páginas termina com duas frases («Esta é a minha pátria. E o fim desta vida de romance.»)e organiza-se em três divisões:  «Budapeste» (da página 7 à 61), «Índico» (da página 63 à 104) e «Turvação» (da página 105 à 153).
O ponto de partida é uma frase da página 8 («Eu só queria atravessar o passado») mas a viagem não é apenas uma revisitação a uma cidade na qual o autor do livro foi professor de Português entre 1981 e 1986. A viagem engloba dois países, duas cidades e dois continentes: Hungria e Moçambique, Budapeste e Maputo, Europa e África. A dupla inscrição (vida/literatura) está na página 26: «A vida é muito estranha. Suspendamos a emoção e sempre agarrado à filha, face contra face, em respiração que vai secando rios de lágrimas, vejo como, da literatura à vida, há uma diferença abissal.»
O lado da vida está por exemplo na dedicatória da página 5 (Rózsa Zoltán e Pál Ferenc) o primeiro dos quais conheci em amena cavaqueira com Jacinto Baptista e António Torrado. A intercepção é dada por exemplo na página 7: «Eu vinha de uma longa busca e de Trieste, Italo Svevo no olhar.» Na página 11 surge uma advertência: «Voltar aos lugares onde fomos felizes torna-nos lentos.» Mas já nas páginas 7 e 8 surgia a oposição entre duas ideias. Por um lado «A mentira salva a Humanidade», por outro lado «A mentira perde-nos».
Este livro mostra como a Literatura pode ser a mistura feliz de sangue pisado e exercício, vida e estilo. Na visita ao passado o autor depara com um Professor em fim de carreira e define-o como membro de «uma geração fora de moda» para concluir: «Ninguém antecipa o alcance dos seus actos. Somos seres do imediato, bebendo tudo da fonte do instante que nem sabemos se voltará a encher.»      
A viagem não é apenas revisitação mas, ao mesmo tempo, uma certa moral de História: «Nessa época, éramos contemporâneos da História. Protagonistas eram poucos. (Sê-lo-á esta lágrima de tinta?)» Depois de ler na página 125 que «A beleza do mundo está bem repartida» talvez seja esta a chave perfeita para o romance - «lágrima de tinta» . Porque o sangue pisado da vida se mistura com o exercício do estilo em doses perfeitas.

(Editora: Gradiva, Capa: Armando Lopes, Editor: Guilherme Valente)

[Um livro por semana 619]

sábado, 18 de maio de 2019

«Fogo no mar» de João Falcato com uma capa de Victor Palla



Partindo de «O todo ou o seu nada» de Amadeu Lopes Sabino (Editora Bizâncio) cheguei a este livro é de 1953; conta a história da viagem do cargueiro «Mello» que uma explosão inexplicável consumiu em fogo nas águas sombrias do mar. O livro (Coimbra Editora) é dedicado à memória dos companheiros do autor que encontraram a morte no incêndio do cargueiro português a meio de uma viagem entre Buenos Aires e Lisboa: Álvaro Firmo da Silva, Alberto dos Santos Faria, Álvaro de Almeida Costa, Henrique Torcato Craveiro, Luís Alexandre Júnior, João da Silva Moreira, José Pereira, Herculano José, Joaquim Marques Machado, António Varela, José Simões, António Pais, Joaquim da Silva Pracana, José de Sousa Frade e José Fernandes d´Assunção. Há uma cantiga na página 28: «As ondas do mar são brancas / E no meio amarelas / Pobrezinho de quem nasce / Para morrer no meio delas» mas as primeiras linhas do romance são uma bela crónica de despedida: «Um primeiro puxão fez estremecer o «Mello», negro, sujo de carvão. Em movimentos descompassados, os rebocadores arrastam o corpo inerte e bojudo do navio, da beira do cais. Içada a escada do portaló, desligados os cabos que eram nervos que o faziam ser terra, prático na ponte, mansamente, em estremecimento de quem deseja maior pressa, o seu corpo é levado para o meio da doca. A ponte de Alcântara que fecha a saída, começa a girar numa permissão de passagem solicitada pelo som cavo do apito. Barcos pequenos saúdam com um zumbido quase imperceptível e seguem apressados o seu caminho na água suja da doca. AS chaminés dos rebocadores vomitam fumo negro, espesso, quase sólido. Sentado numa pedra do cais, um pescador solitário tira o chapéu encardido, num mudo desejo de boa viagem.» (fim de citação)           

[Crónicas do Tejo 163]

quarta-feira, 8 de maio de 2019

«O leitor irresponsável» de Vergílio Alberto Vieira



Vergílio Alberto Vieira (n.1950) tem vindo a juntar em livro desde 1993 os seus trabalhos de ensaio e crítica literária publicados com regularidade no Jornal de Notícias (1987-1998) e no Expresso (1999-2000) além de outros jornais e revistas mas adverte que tal tarefa é «dar nome a esse crime sem castigo, que leva alguém a reunir, em livro, o que sobre livros escreveu ao longo de anos, não é questão de profissão de fé, mas ofício de aprendiz sem mestre».
Se eu tivesse de sintetizar este livro de Vergílio Alberto Vieira (204 páginas) poderia dar-lhe o nome de «Almanaque Literário» tal como Carlos de Oliveira fez em «O aprendiz de feiticeiro», um livro de 282 páginas no qual o autor de «MIcropaisagem» revisita livros de autores tão diversos como Marguerite Yourcenar, Afonso Duarte, Abel Botelho, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Erskine Caldwell, Alves Redol, José Gomes Ferreira, James Joyce ou Tchekov.
Neste livro de Vergílio Alberto Vieira são comentados, entre outros, livros de Louis-Ferdinand Celine, William Blake, Pablo Neruda, Ernest Hemingway, Graham Green, Jorge Luís Borges, Italo Calvino, Paul Celan, António Rebordão Navarro, Fernando J.B. Martinho, Pires Laranjeira, José Emílio-Nelson, Luís de Miranda Rocha, Rosa Alice Branco, Amadeu Baptista, Isabel de Sá, Orlando da Costa, Fernando Assis Pacheco, João de Melo e Luiz Pacheco.
Tal como Carlos de Oliveira faz um retrato de Alves Redol («Vejo-o meio sorridente, a boina basca puxada sobre a testa, a conversa pausada (afabilidade, camaradagem, aflorando palavra a palavra), o trato sereno, quase tímido, dum camponês civilizado que conheceu muito mundo e muito meandro sem desgastar toda a pureza inicial.»), Vergílio Alberto Vieira retrata Al Berto: «Nascido em Coimbra pelo ano de 1948, Al Berto , pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares fez obra ao arrepio da sensatez, criou os seus infernos, recusou a quietude, foi homem  de paixão e, se nele havia um «louco» como Emile Cioran admite que há em nós, expulsou-o, cumprindo-se como destino.» Porque os livros não nascem sozinhos, são escritos por um autor.

(Editora: Quarto Crescente, Capa: Imhoteb, Bronze, Revisão do texto: Jorge Fernandes, Composição: César Antunes)

[Um livro por semana 618]

domingo, 28 de abril de 2019

«António Botto – Projecto de um livro» de Fernando Pessoa



Nuno Ribeiro, autor de inúmeras edições e estudos sobre a obra de Fernando Pessoa publicados na Europa, no Brasil e nos E.U.A. além de coordenador com Cláudia Souza da «Coleção Pessoana» da Editora Apenas Livros, organiza este livro de 72 páginas que surge na sequência dos anteriores «Escritos sobre o Tédio», «Poemas à Noite» e «Poemas ao Vinho», tem um objectivo («constituir-se como um contributo para o estuda das relações entre a obra de Botto e de Pessoa») e integra textos transcritos directamente do espólio de Fernando Pessoa que se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal.
O ponto de partida é a reflexão de Eugénio de Andrade que define a poesia de António Botto (1897-1959) deste modo: «Sortilégio rítmico, linearidade discursiva, preferência pelas cadências da fala e pela frase directa roçando às vezes pela vulgaridade, concisão próxima da melhor tradição popular, sensibilidade atenta à realidade imediata, ausência de preocupações metafísicas, gosto por um hedonismo esteticista e ainda alguma pobreza ao nível do pensado e do sentido, tornaram esta poesia notada por espíritos exigentes e, simultaneamente, acessível». É um facto que as elites portuguesas preferiram Pascoaes, José Régio e Fernando Pessoa nos anos 20, 30 e 40 em detrimento de António Botto, sendo ele o poeta mais falado. Jorge de Sena, por sua vez, define esta poesia em quatro fases: primeiro juvenil com influência de Correia de Oliveira, Augusto Gil e Lopes Vieira, depois simbolístico-esteticista, a seguir pessoal e original e, por fim, decadência longa e triste.
Fernando Pessoa (1888-1935) dá início ao estudo sobre António Botto com as seguintes palavras: «António Botto é o único poeta português, dos que sabemos que existem, a quem a designação de esteta se pode aplicar distintivamente, isto é, como definição bastante, sem acréscimo nem restrição. É este o teorema; o fim deste breve estudo é demonstrá-lo. Todo poeta, porque todo artista, é forçosamente esteta, pois esteta significa, primariamente, cultor da beleza e todo artista e portanto poeta é, pelo menos, cultor da beleza pela criação dela. Há porém poetas e artistas que criam beleza por um movimento íntimo espontâneo, em que a ideia de beleza não figura como elemento determinantes: assim um Byron ou um Shelley olha menos à beleza possível do que cria ao aliviar a alma do peso de uma emoção e a criação da beleza é mais parte do alívio que preocupação directa. Outros há que, escravos embora da beleza são, todavia, no mesmo tempo, súbditos de outras preocupações , como a religiosa em Dante e Milton e a psicológica em Shakespeare.»

(Editora: Apenas Livros, Capa: Susana Resende)

 [Um livro por semana 617]

quinta-feira, 18 de abril de 2019

«São feitas de palavras as palavras» de Carlos Nogueira



Carlos Nogueira adverte logo na página 7 deste livro de «Ensaios de literatura portuguesa»: «Nem as palavras são suficientes para dizer o mundo nem nenhum ensaio literário é capaz de falar satisfatoriamente sobre um poema, um romance, um texto literário.» Num certo sentido esta situação (adversativa…) poderia levar o autor deste texto em forma de notícia/resenha a concluir pela impossibilidade de resumir um livro de 407 páginas em 25 linhas. Mas não.
Comecemos pelo princípio. Afirma o autor o seguinte: «De que se trata neste volume é de ler textos literários, de investigar a pluralidade dos seus códigos, a multiplicidade e a infinitude dos seus significantes e das suas relações de significado.»
Aqui se estuda uma parte significativa da Poesia Portuguesa dos séculos XIX e XX: Nicolau Tolentino, João Penha, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Álvaro de Campos, Jorge de Sena, Alexandre O´Neill ,Liberto Cruz, Manuel António Pina e Daniel Faria. No que diz respeito à Ficção os ensaios dizem respeito a obras de Camilo Castelo Branco, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, José Saramago, J. Rentes de Carvalho, Afonso Cruz e Valter Hugo Mãe.
As últimas doze linhas da Introdução do autor acabam por ser também uma reflexão geral sobre o acto de escrever e são exemplares daquilo que este livro proporciona ao leitor: «Escrevemos para preencher vazios, indecisões, medos, desconhecimentos, para suprir o muito que nos falta. É na experiência dessa falta que a palavra literária nasce, mas a nova palavra logo é perturbada pela carência que a origina e, por isso, uma nova palavra ocupa o lugar da anterior Este processo não tem fim, nem na literatura nem na crítica literária. Nem uma nem a outra nos dão a plenitude que buscamos. Em vez disso, põem-nos perante os motivos, os desejos, os sentidos e os mistérios da nossa vida individual e social. Muitas das ausência que nos afectam mas também algumas das expressões triunfantes do que eu entendo que é e deve ser o universo do humano, encontra-se nos ensaios deste livro que é a utopia de um outro livro que eu não soube escrever.» Fica o veemente convite à leitura: este é um livro a não perder, sem dúvida. Quem o lê fica a ganhar sobre o que era antes.

(Editora: Edições Lusitânia, Capa: Andreia Dias)

[Um livro por semana 616]

sábado, 13 de abril de 2019

«Aquilo que não tem nome» de Victor Oliveira Mateus



Victor Oliveira Mateus organiza o volume de 67 páginas em três capítulos: «Rito matinal» (9 poemas), «Poemas de Amor e Morte» (29 poemas) e «Negro com azul ao fundo» (2 poemas). O título está no poema da página 48: «Aquilo que não tem nome / abriga-se no silêncio das ruas / acena no topo dos prédios / fala nas desabrigadas páginas / que o desalento me traz./ Aquilo que não tem nome / invade-me o corpo / enlouquece as memórias / com que insisto este casulo / raiado de melancolia./ Aquilo que não tem nome / oculta-se por entre sinais / e luzes de despedida / pedaço desse mistério / para lá da morte e da vida.» 
Há nestes 40 poemas uma dupla inscrição (Natureza e Cultura) que pode ser lida de outra maneira mas com o mesmo sentido: Geografia e Literatura. De um lado o Rio Varosa: «Agora a gincana é uma coisa ao longe, muito ao longe, fora da mulher que vai acamando as serapilheiras, dos regatos que rumam para o Varosa e dessa inominável brandura que de ti se apodera e completa.» Do outro lado a Arte Poética: «Não tens certeza alguma. Não a tens nem isso / te inquieta. Insistes em não fechar a janela, / essa ardósia rabiscada, essa amálgama de visões / que te deslumbram e perdem. Mas, vendo / bem, que coisa é essa que se diz com palavras / que não te pertencem e nem sequer entendes?»
O ponto de partida é a memória da infância («Nada resta do velho olival da minha infância») afinal uma espécie de «Imitação da felicidade» como é título dum poema - «Tudo era alegria naquele tempo com o meu tio / acenando peluches no canto do postigo e o menino / atrás de uma palmeira, esboçando destinos numa folha / de papel almaço, para que no futuro tudo / desse errado num outro presépio sombrio e lasso.» O ponto de chegada é um lugar onde se sabe que a morte é inevitável («Agora que aqui estás, deixa que o tempo afague este mármore sob o qual te vieste esconder») mas onde o poeta continua a perguntar como Camilo Castelo Branco «Onde está a felicidade?»: «a felicidade é tão só esta espera, esta serenidade entre uma árvore que te ampara e a leveza de um rio que te acena.» Ou como queria Novalis (1772-1801) e escreveu Maria Eulália de Macedo (1921-2011) a Poesia oscila sempre entre «as coisas que são verdade e a verdade das coisas».

(Editora: Coisas de Ler, Posfácio: Ana Paula Dias, Coordenação: Gisela Gracias Ramos Rosa)

[Um livro por semana 615]

terça-feira, 2 de abril de 2019

«Três Meses no Limoeiro» de Faustino da Fonseca



Faustino da Fonseca (1871-1918) deputado, senador, jornalista e escritor foi maçon desde 1895 na Loja Renascença de Lisboa. Foi deputado à Assembleia Constituinte (1911) e eleito senador pelo Círculo Eleitoral de Angra do Heroísmo (1915). Dirigiu o jornal A Vanguarda em 1895 e colaborou nos periódicos Correio da Manhã, O Século, O Mundo e A Luta .Foi director da Biblioteca Nacional entre 1911 e 1918 e sócio da Academia das Ciências de Lisboa. A sua prisão no Limoeiro entre 7 de Agosto e 6 de Novembro de 1896 fiou a dever-se a uma crítica sua no jornal A Vanguarda sobre a falta de prestação de contas da Câmara Municipal de Lisboa no que diz respeito à subscrição nacional motivada pelo Ultimato Inglês.
Como o autor explica neste livro «exponho o que é a cadeia, o que foi, o que deveria ser; colhi, compilei e publico dados estatísticos inéditos; consagro algumas páginas aos acontecimentos que determinaram a minha prisão.» Neste livro de 115 páginas o autor não se limita a falar de si e do seu caso, antes junta elementos para uma memória do Limoeiro; veja-se a página 62: «D. João VI embarcara para o Brasil em 1807, fugindo à invasão de Junot, deixando Portugal como uma péla, sujeita ao jogo de franceses e ingleses. Os cidadãos que lamentavam as desgraças nacionais, os patriotas que pensavam na forma de melhorar a situação, foram perseguidos e presos. Muitos entraram no Limoeiro e Gomes Freire, a mais brilhante figura do exército português, foi encarcerado em S. Julião da Barra e ali sofreu um infame suplício. Os infelizes lançados na cadeia, forma metidos no oratório e sofreram os martírios morais infligidos por padres e frades fanáticos, vendidos em corpo e alma à regência e aos ingleses. Desde o amanhecer do terrível dia, todos os sinos da cidade dobravam a finados. Às duas horas da tarde, saiu do Limoeiro o fúnebre préstito, formado pela misericórdia, confrarias, frades de várias ordens, carrascos, juízes, aguazis e muita tropa. Os onze liberais, coronel Manuel Monteiro de Carvalho, major José Francisco das Neves, alferes José Ribeiro Pinto, ex-alferes António Cabral Furtado de Melo, sargento José Garcia de Morais, José Campelo de Miranda, José Joaquim Pinto da Silva, capitães Manuel Inácio de Figueiredo e Pedro Ricardo de Figueiró, Manuel de Jesus Monteiro e Máximo Dias Roberto iam descalços, de alvas, mãos amarradas, crucifixo pendurado ao peito e corda ao pescoço.»

(Ediora: Fabula Urbis e Apenas Livros, Capa: João Pimentel)

[Um livro por semana 614]