sábado, 18 de fevereiro de 2023

«Os pássaros cantam em grego» de Rita Ferro

 


Depois de «Veneza pode esperar» (2014) e «Só se vive uma vez» (2015) Rita Ferro (n.1955) regressa ao mesmo registo. No caso concreto trata-se de um «diário» iniciado em 16-1-2019 e concluído em 30 de Dezembro de 2019 com a particularidade de todas as entradas começarem com a palavra «Ribatejo» embora Rita Ferro viva em Foros de Salvaterra. O título do volume está na página 77 que cita o «Diário» de Virgínia Woolf e o «lugar onde» está assim definido: «As pessoas entram e saem, umas vindas de Lisboa, outras, daqui mesmo e tem sido um arraial permanente, facto que nunca previ.» A autora exibe uma enorme lucidez sobre viver cada um em sua casa: «quanto mais idade vamos tendo mais difícil se torna a coabitação». O passado está presente («Nasci assim, destemida e imprudente») e mistura-se á memória na reflexão («Eu era orgulhosa, desafiadora, inconformada e destemperada») que se segue: «Fiz 64 anos mas pouco tenho a dizer sobre a matéria. As pessoas partem da noção ingénua de que a aparência é a verdade mas a verdade é que, para mim, tenho sempre 18 anos.» Entre o passado e o presente ficam as mudanças: «Estive a contar: são mais de quinze as mudanças que já fiz, desde que saí de casa dos meus pais. Gosto de me mudar e de começar de novo, noutro cenário». Na página 16 surge a referência ao local: «Aproveitando a alta do mercado, vendi o apartamento e comprei bem esta casa, a cinquenta quilómetros de Lisboa, em pleno Ribatejo. Mudei-me no dia 11 de Dezembro de 2018 e já passei aqui o Natal.» Claro que nem tudo são rosas: «as amplitudes térmicas daqui são as de Santarém: geladas no Inverno e sufocantes no Verão.» Uma última nota para a página 61 quando Rita Ferro comenta a ascensão social dos antigos criados: «no tempo do Botas este tipo de ultrapassagem popular seria impensável».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Maria Manuel Lacerda, Foto da autora: José Cardigos Bastos, Foto da capa: Matthew Henry, Edição: Cecília Andrade, Revisão: Clara Boléo) 

 [Livros e Autores 06]

 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

«Minha ex-mulher a solidão» de Vergílio Alberto Vieira


Vergílio Alberto Vieira (n.1950) é um autor multifacetado com livros de Poesia, Ficção, Teatro, Tradução, Ensaio e Diários. Neste seu recente livro de 125 páginas, à maneira de Ruben A., Carlos de Oliveira, Camilo Castelo Branco, Miguel Torga e Irene Lisboa (por exemplo), assina um registo em forma de diário – no caso 2014-2018. Tanto pode ser Irene Lisboa («Como tanto tempo lhe sobrou para ganhar o amor e mais amor teve para dar que para receber, quis o destino que, a Irene Lisboa, tempo não faltasse para fazer do pão o entendimento oferenda ao mundo») como uma nota pessoal («De muitos sítios sou mas não sei onde moro, até alguém dizer por mim onde poderei morrer.»), outra sobre familiares desavindos («Uns passam os dias a erguer castelos em estranhos reinos, outros, a derrubá-los em reinos estranhos.») ou sobre as pandeiretas televisivas: «Praça da Alergia, Pareço Certo, As Seitas lá de Casa, venha o diabo e escolha»). A escrita nunca se fixa apenas no «eu»; abre as palavras para o «nós»: «Se as lágrimas, pensavam os antigos, são a chuva que molha a vida inteira, a que hoje desaba sobre a humanidade é sinal de morte: chuva ácida em tempo de «deuses sem altura» ( Saint-John Perse) O ensaísta Manuel Antunes  surge na página 104: «Pelo carácter, pelo escol de pensamento, elegância de estilo; pela elevação do espírito que, a seu tempo, lhe adveio daquela piedade natural da alma, que a medida do silêncio confere aos justos, há que reconhecer em que sentido a lição de Propertius nos legou a arte de, com um remo, tocar a água; com o outro, a margem do rio.» Sempre a reflexão sobre a arte de escrever: «Escrever é ler o mundo conquanto o que lê não saiba ler nem escrever.» Sem esquecer uma bela síntese: «a boa escrita mostra, não diz.» Sendo o autor mais reconhecido como poeta, lá está a página 29 para o lembrar: «CARLOS PAREDES Dedilha pétalas / de rosa / o frio sangue / chama»     

(Editora Crescente Branco, Capa: Museu de Atenas, Retrato do autor: Emerenciano, Prefácio: António Cabrita)

[Um livro por semana 698]

 

domingo, 15 de janeiro de 2023

«tal&qual – memórias de um jornalismo» de Gonçalo Pereira Rosa e José Paulo Fafe

 

Gonçalo Pereira Rosa (n.1975) e José Paulo Fafe (n.1961) são os autores deste livro de 171 páginas com 32 primeiras páginas a cores de um jornal que custava 5$00 em 1980 e nasceu para vingar um programa com o mesmo título que um presidente da RTP liquidou com a desculpa de uma entrevista imaginada com José Agostinho de Macedo ter «indisposto» a hierarquia da Igreja – o que foi negado por D. António Ribeiro, cardeal patriarca de Lisboa. Mais do que «memórias de um jornalismo» o que este livro propõe são visitas guiadas a um certo tempo português no qual não havia Internet nem telemóvel.

O texto de Gonçalo Pereira Rosa ocupa 38 páginas, intitula-se «A vitamina do regime» e analisa o contexto da história de um jornal ao longo de 27 com as suas regras de ouro: «As histórias que não saem noutro lado», «Não há vacas sagradas», «Cão de guarda da Democracia», «A voz dos que não têm voz», «A transgressão prova o crime» e «Sem foto, não há história». Os autores dos 22 depoimentos são os seguintes jornalistas: Cristina Arvelos, Victor Bandarra, Sónia Bento, Fernando Brandão, Manuel Catarino, Frederico Duarte Carvalho, Palmira Correia, Paulo Delgado, José Paulo Fafe, João Ferreira, José Ferreira Fernandes, Catarina Vaz Guerreiro, Luís Marques, Jorge Morais, António Nascimento, Isabel Nery, Alexandre Pais, Carla Pernes, Octávio Ribeiro, Tiago Salazar, Paula Silva e Augusto Freitas de Sousa.     

Apenas três notas: página 58 «O jornalista conta histórias, não é a história», página 104 «era uma semanário que causava engulhos à esquerda e à direita, dava voz a quem não tinha voz e era lido tanto pelo ministro como pela senhora que fazia a limpeza ao gabinete ministerial» e página 158 «Livre, irreverente, incómodo, o projecto vivia do que cada leitor pagava por cada exemplar. Sem a almofada da publicidade e dos fretes encapotados, com a queda dos hábitos de leitura em papel, as receitas deixaram de poder garantir o trabalho dos extraordinários repórteres que lhe davam alma.»

(Editora: Âncora, Prefácio: Joaquim Letria, Capa: Cláudia Fonseca)

[Um livro por semana 697]

 

domingo, 18 de dezembro de 2022

«Pensamentos sobre os valores num sentido extra-moral» de Nuno Ribeiro

 


Mais conhecido e reconhecido como especialista no estudo do espólio de Fernando Pessoa, Nuno Ribeiro é autor do recente (2019) volume «Pensamentos inconjuntos» e este livro de 92 páginas permite uma linha de continuidade; não se trata do estudioso mas do autor dum pensamento próprio. Fixemos 8 pensamentos como divulgação e convite à leitura.

A página 18 parte de uma ideia de Kant: «Agir contra as nossas inclinações, como queria Kant, talvez seja uma demonstração de vaidade perante nós próprios.» Já a página 10 tinha referido: «No teatro dos valores morais, o altruísmo tende a ser uma performance em que nos provamos a nós o quão bom podemos ser e em que nós próprios somos o público.» Na página 26 surge a advertência: «No baile de máscaras da convivência humana tende a haver um interminável combate entre a aspiração a realizarmos aquilo que desejamos e o desejo de louvor da parte dos outros.» A comunidade volta na página 28: «Quando várias pessoas se unem para nos censurar, isso significa que estamos a lesar “desejos comunitários”.» Ou dito de outra maneira: «A falta de apreço por parte dos outros é muitas vezes a origem dos nossos juízos de valor acerca do seu carácter.» A relação com o outro tem estratégias como na página 36: «A discrição e o comedimento são frequentemente estratégias para ocultarmos aos outros as nossas falhas.» Ou na 38: «Sermos discretos e comedidos é muitas vezes a máscara da incapacidade de agirmos exactamente como queremos.» Para concluir podemos ficar na página 69: «Muitas das nossas virtudes são máscaras das nossas cobardias.»

(Editora: Subterrânea – Colectivo Literário)

 [Um livro por semana 696]


terça-feira, 22 de novembro de 2022

«Alumbramentos» de Zetho Cunha Gonçalves

 


O título do livro remete para a citação inicial - «Este tempo não ama os alumbrados» do poeta brasileiro Murilo Mendes. Zetho Cunha Gonçalves (n.1960) sabe que o poeta não precisa de dicionários; o seu poema é, já em si, toda a gramática do Mundo.

Aqui embora pareça singular, o destinatário é múltiplo e vário: «Carrega os teus olhos com toda a força do teu Ser. Com a tua vontade inconteste, afronta o Sol e os seus astros menores: o erro, a hipocrisia, o amor, a delicadeza e a paixão serão os mesmos – com outros rostos. Quando uma porta se fecha, volta-lhe as costas – não é outro o secreto mistério dos pássaros, a depudorada leveza; imperturbável, feliz e cantante.» Porque a paixão e o poema são fenómenos da mesma ordem: «Vagarosa e de perfil, da pedra informe e súbita do mundo: magnificência – os astros em derredor, fulminados pelo desejo: rio selvática e delicadamente sôfrego, exacto. Absoluto e fatal, irradiante: paixão e poema – rutila ciência indomável» O terceiro poema mostra de modo hábil como a paixão e o poema se misturam. No início («Toda a paixão nasce unívoca») no espaço central («um nome estremece o mundo pelo corpo que devasta») e na conclusão: «E dasabam relâmpagos sobre os teus olhos – que são nocturnos e perscrutam.» Num tempo e num espaço onde a vida é precária e a morte inevitável, o poema pergunta: «Oh, meu amor – por que morrem os amantes?»

Vejamos o poema que pode ser a chave deste livro breve mas intenso: «É a voz da pedra na caligrafia do Tempo. Bate forte, bate fundo – o coração do mundo estremecendo alto, deslumbradamente vivo. Beijo cravado na idade – flor rodada, constelação. Fende a branca labareda o abrupto relâmpago pela raiz – a noite como um lençol embriagado e lúcido, acautelando os nossos corpos de estrela a estrela, jubilosamente iluminados e fatais.»

(Edição no 60º aniversário do Poeta, Disponível na Livraria Letra Livre, Calçada do Combro – Lisboa)

[Um livro por semana 695]


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

«Meu reino por um cavalo» de António Ferra e Rui Castro

Este livro (recomendado pelo Plano Nacional de Leitura) integra 21 poemas e 21 desenhos nos quais António Ferra e Rui Castro elaboram uma homenagem e sugerem um convite à leitura da obra destes poetas, a saber: Reinaldo Ferreira, Mário de Sá-Carneiro, Miguel Torga, Natália Correia, Antero de Quental, Cesário Verde, Manuel da Fonseca, José Régio. Herberto Hélder, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Almeida Garrett, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alexandre O´Neill, Emanuel Félix, Eugénio de Castro, Fernando Assis Pacheco, Vitorino Nemésio, Álvaro de Campos e Florbela Espanca. O título do volume nasce do final da peça «Ricardo III» de Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês (1554-1616). O poema dedicado a Emanuel Félix integra um verso extraído do «Auto da Lusitânia» de Gil Vicente (século XVI). As páginas finais incluem 21 notas biográficas e bibliográficas dos autores aqui seleccionados, clarificando  António Ferra, entre outras particularidades, a diferença entre pseudónimo e heterónimo.

Como convite à leitura vejamos o poema de homenagem a Reinaldo Ferreira: «Dava tudo por um cavalo/ podia ser branco para voar/ de asas enormes para ir depressa/ para junto dos sonhos que vou sonhar// Dava tudo por uma cavalo/menos a pá se fosse padeiro/menos a pena se fosse poeta/menos a espada se fosse guerreiro//Dava tudo por uma cavalo/menos as cores se fosse pintor/menos os números se fosse engenheiro/menos a voz se fosse cantor// Dava tudo por uma cavalo/ menos o riso se fosse palhaço/ menos a máscara se fosse um actor/menos as mãos para dar um abraço//Se tivesse um segredo e quisesse guardá-lo/se eu fosse o rei da sabedoria/dava o meu reino por um cavalo/e depois guardava-o de noite e de dia»  

(Editora: Trinta por uma linha, Design e paginação: Anabela Dias, Colecção: Rimas traquinas)

[Um livro por semana 694]

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

«Viagens sem bola» de Rui Miguel Tovar

Albert Camus, Nobel da Literatura em 1957, escreveu «tudo o que sei sobre a moral e as obrigações dos Homens é ao Futebol que o devo.» Este livro de Rui Miguel Tovar (n.1977) é a prova. O ponto de partida são as viagens para ver futebol e os títulos das trinta crónicas dão uma ideia: Banguecoque, Belo Horizonte, Berlim, Boston, Brasília, Bucareste, Buenos Aires, Cairo, Chernobyl, Corleone, Croácia, Donetsk, Lijiang, Londres, Los Angeles, Lviv, Montevideo, Nova Iorque, Pádua, Paris, São Petersburgo, Rio de Janeiro, Rosário, São Paulo, Teerão, Três Corações, Varsóvia, Veneza, Maldivas e Abu Dhabi. A rubrica «Hoje jogo eu» fez parte da minha educação sentimental como leitor de A BOLA. Num certo sentido este livro é um conjunto de textos à maneira do «Hoje jogo eu». Se o ponto de partida é «pelo mundo fora em busca do inesperado» como refere a capa, o ponto e chegada é um inventário da condição humana no sentido dado à expressão «sangue pisado». Só que nestas 171 páginas junta-se ao sangue pisado a arte, um talento de escrita não ao alcance de qualquer aspirante.

Vejamos alguns exemplos desta feliz mistura entre vida (sangue pisado) e estilo (arte): o humor na página 6 - «Do meu ponto de vista Spike Lee é uma velhinha.» e na página 113 «no rugby só se avança se se passar a bola para trás», o poder de síntese na página 15 «tuk-tuk é uma moto com atrelado» ou na 46 «Buenos Aires é a cidade mais rezingona do mundo.», na 31«Boston, cidade de MIT e Harvard, casa dos Celtics (basquetebol) Red Sox (basebol) e Bruins (hóquei no gelo)» ou ainda na 56 «Manuel José, a figura nacional do Cairo. Mais respeitado até que qualquer sinal vermelho». Sem esquecer os franceses a verem um jogo Arsenal-Leyton Orient e a falar «um inglês pior ainda que o do polícia francês do Àllo!Àllo!» Ou o Rio de Janeiro na página 125 «Nevoeiro de manhã, futebol à tarde, destruição à noite, o Rio não está assim tão maravilhoso.» Por fim uma ideia sobre Veneza na página 160: «Veneza a cidade do futuro? Quando muito, sem futuro. Veneza arrisca-se a ser apenas um parque temático de arte e cultura»

O amor está presente na paixão de Elza Soares e Garrincha («Meu Deus, como essa gente é boba, não sabe que vai viver por um tempo tão curto, para quê ficar agarrado a tanta coisa, não vai levar nada» terminando de forma abrupta: «Um homem como ele ser expulso do país é um absurdo» O cinema está muito presente na página 64: «quem não chora com a última cena do Cinema Paraíso, a reposição de todos os beijos censurados pelo padre da aldeia ao longo de anos e anos, aí já não há desculpa». Terminamos esta nota com a memória do Europeu 2016: «Aparece uma bola vinda sabe-se lá de onde, começam-se a marcar penáltis na baliza do Éder. É um festival. De remates, de golos, de cabeça no ar. Não há amanhã. Só hoje. E o hoje não vai acabar. É eterno.»

(Editora: Quetzal, Revisão: Carlos Jesus, Preparação: Diogo Morais Barbosa e Carlos Almeida, Prefácio e edição: Francisco José Viegas, Design de capa: Rui Rodrigues, Foto da capa: Sandro Bisaro, Produção: Teresa Reis Gomes, Foto do autor: Ágata Xavier)

[Um livro por semana 693]

 

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

«Água inquieta – João José Cochofel»- org. José Manuel Mendes


Precoce em tudo na vida, João José Cochofel (1919-1982) nasceu prematuro (5 meses), emancipou-se cedo (13 anos) e estreou-se em livro aos 18 anos (1937). Sua avó (Maria Eugénia) dava-se com gente da «situação» (Albino dos Reis, Bissaia Barreto) enquanto sua mãe (Maria Albina) apoiava Revistas como «Altitude» (1939) e «Vértice» (1945) ou projectos editoriais como «Novo Cancioneiro» (1941) e tinha como seus amigos Joaquim Namorado, Fernando Namora, Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Álvaro Feijó, Vitorino Nemésio, Fernando Lopes-Graça, José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Eduardo Lourenço, Mário Soares e Maria Barroso entre outros. João José Cocohofel é lembrado nestas páginas como «activista cultural, poeta, musicólogo, crítico literário e musical, tradutor, cidadão empenhado e solidário e, acima de tudo, homem raro no seu tempo.»

A origem do título do volume está no poema da página 143: «Não sei como te chamas / locatária de um cacifo com sete filhos / nem tu / que perdeste os melhores anos /numa cela de Peniche ou de Caxias. /Doem e habitam /submersos a quantas braças tem o olvido /a água inquieta /dos meus versos.» José Manuel Mendes explica a razão de ser deste volume de 260 páginas que integra um conjunto de 22 fotografias e 2 caricaturas: «O livro abre com sonetos inéditos do meu amigo Alexandre Vargas, seguramente incluíveis entre os que compôs antes da morte, à luz do entusiasmo e da saudade do João José. Seguem-se, por ordem alfabética a colaboração de quem foi desafiado em nome do afecto, familiar ou não e dos estudos em torno da produção de João José Cochofel. Agradeço a generosidade e o empenho de cada um.»

De tantas «histórias» fica uma, exemplar e comovente: Fernando Namora, ainda estudante de Medicina, celebra o casamento mas pouco tempo depois de lhe nascer a filha, fica viúvo. Não tendo para onde ir nem quem lhe crie a bebé, é em casa de João José Cochofel que a criança é acolhida e criada, lá permanecendo até Fernando Namora se formar, altura em que vai buscá-la, o que provoca um grande choque na família que já se tinha afeiçoado à criança.

(Editora: Pequenos Livros, Caricaturas: Mário Dionísio e Fernando Namora, Direcção gráfica: José Antunes, Textos: Alexandre Vargas, António Carlos Cortez, António Pedro Pita, António Vilhena, Arquimedes da Silva Santos, Fernando Namora, Joaquim Namorado. José Carlos de Vasconcelos, José Carlos Seabra Pereira, José Manuel Mendes, Judite Cortesão, Luísa Duarte Santos, Mário Vieira de Carvalho, Octávio Quintela, Sofia Quintela, Apoio: Associação Portuguesa de Escritores)

[Um livro por semana 692]


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

«Clara em castelo» de António Ferra


O mais recente livro de António Ferra integra 45 poemas pícaros no sentido não só de «astuto» e «malicioso» mas também aquele que «com arte e dissimulação logra o que deseja». Há nestes poemas uma dupla inscrição: o texto enquanto tal e o referente quotidiano como por exemplo «aceda ao portal das finanças», «estamos abertos ao sábado», «sala no primeiro andar» ou «cartão do cidadão ou BI».

O título do livro vem do poema 27: «O galope da zebra em tango argentino é dança no zoo/ (cagança poética), /com língua de velcro lambe a crina o bicho /de coice e martelo, /mestria de Braque em cubo incolor, /clara em castelo.»

Ao longo dos 45 poemas se percebe a já referida dupla inscrição (discurso poético - legenda trivial) pelo recurso a expressões como por exemplo «amparo de mãe» ou «URSS», figuras das letras e das artes, títulos de livros ou de peças de Teatro: Fernão Mendes Pinto, Braque, Debussy, Gargântua, O valente soldado Svejk, As vinhas da Ira, Beijo técnico.

A ironia atinge um ponto mais alto no verso que refere «a bicicleta de Bernardim» quando se sabe que de Bernardim é o rouxinol – o mesmo é dizer Coimbra.

Fiquemos com o poema 44 como legenda e despedida: «Querida Daisy, /nós por cá todos bem /a poetar na brevidade/de um orgasmo a solo/ o teu sardão morreu de sede/ a caminho do Algarve, /dá notícias, /teu Alfrede.»

(Editora: Douda Correria, Capa: Helena Sanmiguel Urbina, Composição: Joana Pires)

[Um livro por semana 691]


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Hospital de Abrantes: Urgência de cinco estrelas


Num tempo de «bota abaixo» em que é fácil dizer mal de tudo e de todos, vou contra a corrente para dizer bem da Urgência do Hospital de Abrantes. Vitimado por uma síncope no dia 25-7-22 na Praia Fluvial do Penedo Furado, bati com a cabeça nas pedras da zona das merendas. Transportado pelos impecáveis Bombeiros de Vila de Rei, fui sujeito no Hospital de Abrantes a uma Tomografia que felizmente não acusou derrame interno. A maneira competente e simpática como fui tratado durante o «episódio» leva-me a recordar a frase ouvida no ano de 1962 em Vila Franca de Xira sobre um rancho de raparigas da região de Abrantes a caminho da Lezíria: «São sérias, asseadas e danadas para trabalhar!». 

                                                                                                                                                JCF