quinta-feira, 18 de junho de 2020

«O que eu ouvi na barrica das maçãs – crónicas» de Mário de Carvalho



Mário de Carvalho (n.1944) estreou-se em 1981 com «Contos da Sétima Esfera» e neste seu livro de 254 páginas junta crónicas publicadas entre 1987 e 1996 no «Jornal de Letras» e no «Público». As crónicas são divididas em quatro secções (Divagando, Intervindo, Oficiando e Rememorando) correspondendo a várias facetas do autor: ficcionista, cidadão, comunicador e memorialista. O título é uma homenagem à Literatura e vem do livro «A ilha do tesouro» de Robert Louis Stevenson. Francisco Belard refere no Prefácio «Mário de Carvalho e eu somos da mesma geração, o que explica várias afinidades (…) as afinidades emergem em muitas destas crónicas ou noutras intervenções públicas que teve e tem, a par dos livros.» Uma das crónicas indica 35 espécies de escritores desde o solene, o ansioso e o paranóico até ao erudito, ao obscuro e ao possesso mas sem esquecer o cronista: «Perora sobre tudo, numa olímpica omnisciência. Está convencido que tem muita graça e de que influi profundamente nos destinos do país. Imagina os governantes a lê-lo e a dizerem às mulheres (ou aos maridos): «Tem graça! Olha que este rapaz tem carradas de razão, vou passar a fazer como ele diz». Às vezes é feroz , faz ameaças: «Ah, sim? Então eu desanco-o na minha crónica!» No entanto fica um pouco perplexo se os amigos exclamam jovialmente: «Lá li a tua coisa no Diário Popular; aquela dos rinocerontes, muito gira – quando ele tinha escrito umas considerações hábeis sobre os chalés suíços para o Diário de Notícias.» O autor disserta sobre a crónica em si na página 42: «O leitor conta com uma opinião de actualidade, fluente, cívica, arguta e isenta de complicações.» Sobre Fernando Pessoa surge uma tese: «Na verdade quem morreu em 30 de Novembro de 1935 no Hospital de São Luís dos Franceses não foi Fernando Pessoa mas um vagabundo galego, muito esquálido, contratado para o efeito, que se chamava Paco Ximenez Albarrace. Quanto ao verdadeiro Fernando Pessoa, tinha-se esgueirado de noite, à capucha, disfarçado de freira carmelita para só voltar a ser visto mais tarde, na guerra de Espanha.» O acto de escrever («Não me recordo de uma única indignidade removida por um par de versos») tem as suas ambições e os seus limites: «Na parte que me toca estou convencido de que o que leva alguém a escrever é esta possibilidade de mentir à vontade sem agravo dos bons costumes nem do ordenamento jurídico.» Uma ideia para Portugal está na página 64: «Entre o torrãozinho de açúcar e a choldra lá tem que se mover o cidadão sensato e com noção das proporções.» Ou na página 83: «Somos muito vulneráveis. Não temos reservas nem defesas. Não há nichos, não há abrigos, não há resistências, não há territórios como outros têm.»  Noutra crónica lembra Joaquim Velez, João Camilo e Diniz Miranda na  prisão para concluir «ao lado do portugalinho dos sacanas a ferver de mercenários, oportunistas, videirinhos e minúsculos troca-tintas, também existe gente da têmpera daqueles em que falei.» Mário de Carvalho adverte a sorrir: «Terrível palavra é um «ego». Lido na natural direitura, apenas lhe falece um «c» para não ser «cego» e faz uma previsão em 1993 que se confirma em 2019: «…pode criar-se o clima propício a que um belo dia, meia dúzia de tipos (talvez mesmo quatro) em qualquer cervejaria de qualquer cidade de província…»

(Editora: Porto Editora, Prefácio: Francisco Belard)

[Um livro por semana 630]

terça-feira, 9 de junho de 2020

Saudação breve a Ana Carolina


Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer. Tu não sabes mas minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos a fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes mas nessa tarde choveu muito. As terras por fim encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal, sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade. E tu dormias descansada nos braços do teu avô dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tu não sabes ainda mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas». Pequena e indefesa, oh! Ana Carolina tu não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha onde ficaste e Lisboa onde te escrevo esta saudação breve e emocionada. Vejo, naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer, um anúncio de vida e de alegrai contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de júbilo. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura. Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.      

[Crónicas do Tejo 239]

(Óleo de Gary Melchers)

quinta-feira, 21 de maio de 2020

«Aves migratórias» de Gabriela Ruivo Trindade



Gabriela Ruivo Trindade (n.1970) venceu o Prémio LeYa em 2013 com «Uma outra voz», seguindo-se o conto infantil «A vaca Leitora» de 2016. «Aves migratórias», livro de 63 páginas, é a sua estreia no campo da Poesia e é constituído por seis andamentos: Aves migratórias, Animais marinhos, Orfandade, Sem rosto nem fim, Silêncio e Transpiração.
A invocação de Sebastião da Gama («Pelo sonho é que vamos,/comovidos e mudos») lembra a semelhança entre a viagem e a oração: ligar dois pontos diferentes ou dois mundos separados. Vejamos o poema da página 17 que abre o livro: «o meu coração migrou para outro peito /parece contente / no vazio que deixou cabem lezírias /horas brancas / neblinas» e vejamos o poema da página 63 que fecha o livro: «Era uma mulher de palavra. As palavras nasciam-lhe nos braços e derramavam-se pelas mãos abertas. Fugiam-lhe entre os dedos. Era uma mulher de palavra e ficava sem palavras. A voz perdia-se nos labirintos dos argumentos e emudecia nos becos sem luz das trocas azedas de palavras; palavras gastas à bruta e à pressa, mal nascidas, cuspidas, vomitadas, violadas; a ela, uma mulher de palavra, a voz atraiçoada. Quando cantava abria o peito aos pássaros e esquecia as palavras.»
Embora agradeça aos Poetas da sua vida («A minha vénia e o meu muito obrigada») como José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca e Sebastião da Gama (entre outros) os filhos da autora entram no livro com dois epigramas: «Nunca fica de noite dentro da cabeça de alguém» (David, 7 anos) e «O fogo apaga a água: é quando o sol faz a água ir para as nuvens» (Diogo, 4 anos). Sem esquecer a advertência antes da leitura: «O amor é o mais perto que podemos estar do infinito.» 
 
(Editora: On y va, Capa: Sónia Queimado-Lima, Grafismo: João paulo Fidalgo, Foto: Emanuel Ferreira)

 [Um livro por semana 644]

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Baptista-Bastos - Das capuchas, das piçarras e dos calhabardais



Esta crónica é dedicada a Cecília Milheiro e Manuel Sequeira. A primeira porque diz sempre «bem haja» e faz do balcão da Farmácia na Estrada de Benfica um altar de paz onde as angústias de quem leva na mão uma receita se dissipam devagar; o segundo porque sendo taxista e autor de um Blog («o fogareiro») viaja pelas ruas de Lisboa como quem corre pelos calhabardais dos Montes da Senhora que são seis: Aldeia Cimeira, Monte de Cima, Monte do Meio, Monte de Baixo, Monte do Trigo e Monte do Barbo. A crónica de Baptista-Bastos surge no livro «As palavras dos outros» (Editorial Futura) e começa com estas palavras: «Escrevo no balcão da casa das piçarras negras, no último dos meus dias beirões. O vento da tarde arrasta consigo odores de urze velha e de pinhos novos – e percebo, de repente, que estou a despedir-me. Dobro os olhos para leste, onde a serra de Moradal se rasga num desfiladeiro logo baptizado de Ocreza e a ideia de ficar impõe-se-me de tal força que a ideia de partir vira num sentimento penoso. Pelas taipas de janela da loja, ao lado, saem os fumos do meu jantar da tarde; a miúda Martinha está a observar-me, em silêncio, do terreiro coberto de mato; Chico Canhoto veio com as bestas dos campos de arroteio e ofereceu-me uma saudação fraterna e sorridente; ontem, no largo junto à fonte, vi bandos de raparigas tristes, sem rapazes, na mesma hora em que Carminda, viúva de um vivo que reside temporariamente em Lisboa, depunha flores pobres na campa rasa do filho Armando, morto de tétano, com 2 anos – e, ao fazer o balanço das minhas recordações, percebo, de repente, que estou a despedir-me. Despeço-me destas terras poderosas, verdes como esmeraldas, destas terras cerdosas de cardos, de fetos, de raízes, de xistos – não fecundadas pelo braço jovem que está longe.»         
         
[Crónicas do Tejo 154]

sexta-feira, 3 de abril de 2020

«Antologia Poética» de Frei Agostinho da Cruz



Organizada por Ruy Ventura (n.1973) este livro de 290 páginas reúne epigramas, epitáfios, odes, sonetos, elegias, éclogas, cartas e outros poemas bem como uma introdução, um glossário e uma bibliografia selecionada. Frei Agostinho da Cruz (1540-1619) era irmão do poeta Diogo Bernardes (1530-1596) e dele escreve Teixeira de Pascoaes em «Os Poetas Lusíadas»: «Camões é o poeta que eu mais admiro. Frei Agostinho da Cruz é o poeta que eu mais amo: o poeta mais sincero e lusíada que Deus abençoou.» Na Introdução o organizador adverte: «trata-se de um veículo que pretende pôr à disposição de um público abrangente uma selecção representativa da obra do frade que viveu numa época conturbada de Portugal e do mundo, com vários pontos cuja semelhança com o nosso tempo qualquer olhar atento descobrirá. Este livro está desprovido de aparatos críticos que uma obra com outra índole, nunca poderia dispensar. Por essa razão, se apresenta apenas um rol selecto de alguma bibliografia de e sobre Frei Agostinho da Cruz, à qual o leitor poderá recorrer, caso esse percurso seja do seu interesse, aí encontrando uma multiplicidade de leituras e a indicação de outros livros e artigos onde terá a oportunidade de beber águas distintas.»
Este livro pode ser lido também como um diário íntimo de alguém que organiza o seu discurso poético num duplo triângulo (Natureza-Palavra-Deus ou Mundo-Poesia-Amor). Nascido em Ponte da Barca, terá vivido em Guimarães e Vila Viçosa; veja-se o poema da página 21: «Nasci e renasci na casa em dia/De Santa Cruz, da Cruz o nome tenho.» Mas viveu também em Sintra, na Serra da Arrábida e em Vale Figueira (Santarém): «Nestes campos do Tejo onde cheguei /Achei graça, bom rosto e gasalhado / Que noutros meus amigos não achei. / E tanto me senti mais obrigado /Quanto mais fraco e enfermo me senti /Sem nunca me sentir desamparado.»  No poema da página 107 se percebe melhor essa pessoal cartografia: «Na ribeira do Lima fui nascido /Na do Mondego e Tejo fui criado / E na serra em que vivo envelhecido / Onde esperando estou o desejado / Fim dos meus longos anos mais vizinho /Quanto de cada vez mais alongado.»

(Editora: Licorne, Contracapa: Nuno Matos Duarte, Retrato do autor: João Salvador Martins, Apoios: Diocese de Setúbal, Fundação Oriente, Câmara Municipal de Ponta da Barca, União das Freguesias de Azeitão - São Lourenço e São Simão)   

[Um livro por semana 643]

domingo, 22 de março de 2020

«A Família Crosse» de Fernando Pessoa



Para quem possa julgar que o processo literário pessoano se fixa apenas nas obras de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, este livro de Nuno Ribeiro e Cláudia Souza vem demonstrar que a família Crosse (A.A. Crosse, Charles Crosse, S.S. Crosse, J.J. Crosse, Thomas Crosse, I.I. Crosse) tem um lugar especial na obra pessoana. Claro que em Fernando Pessoa nada é simples nem óbvio nem fácil de perceber. Numa carta a Ofélia Queiroz em 29-4-1920 Fernando Pessoa refere apenas o «sr. Crosse»; vejamos: «O sr. Crosse mandou antes de ontem uma resposta a concurso, e ontem outra, e hoje vai ainda outra. As duas primeiras são de concursos pequenos, e não há esperança neles. A que vai hoje é de um concurso vulgar, de 250 libras. Uma que deve ir por estes dias é que é de mil libra, ou, antes, para o concurso de mil libras que fecha em 13 de Maio próximo. Há, portanto, tempo.»
O mesmo Fernando Pessoa através de Thomas Crosse assina um curioso texto intitulado «A semelhança entre o espanhol e o português»: «O inglês é mais complexo e conciso do que o espanhol e o português. Por outro lado, o português tem possibilidades de gamas de significado que são inimagináveis mesmo no inglês. Os portugueses têm, por exemplo, um infinito pessoal. Assim a frase que em inglês não pode ser apresentada em menos palavras do que «I tis enough that we exist» ou «that we be» pode ser dita em português apenas em duas palavras - «Basta sermos». O espólio de Fernando Pessoa na BNP conserva uma charada enviada para um jornal inglês assinada por Thomas Crosse. 
Depois de «António Botto: projecto de um livro» (Nuno Ribeiro) e de «Escritos sobre o Tédio», «Poemas à noite», «Poemas ao vinho» e «Rua dos Douradores de Bernardo Soares» (Nuno Ribeiro e Cláudia Souza) este recente trabalho da dupla vem dar o devido relevo a uma colecção de estudos pessoanos que embora intitulada «Fernando Pessoa em porMENOR» nada tem de menor (antes pelo contrário) e já vai no sexto volume.  
   
(Editora: Apenas Livros, Edição/Introdução: Nuno Ribeiro e Cláudia Souza, Capa: Susana Resende)

[Um livro por semana 642]

domingo, 15 de março de 2020

«Bluff» de António Ferra



O mais recente livro de António Ferra (n.1947) parte da palavra «bluff» no sentido de «burla, engano, logro» do jogo de cartas conhecido por póquer, praticado por quatro elementos com um baralho de 52 cartas. Jogando habilmente com a narrativa e com as falas do quotidiano, o autor começa cada texto usando a ironia como por exemplo «Graziela precisava de uma certidão de emagrecimento, documento imprescindível para voos low cost.» e termina com «Já não faço nada on line, é tudo bluff, desde que nasceu a minha filha deixei-me disso, nem mesmo sexo virtual, tenho medo de engravidar outra vez.»
O ponto de partida é a memória da infância («Eu era ainda muito criança, entrava sorrateiro na cavalariça, tremia naquele esconderijo, em lusco fusco e taquicardia.») mas o ponto de chegada é um «descampado periférico» onde Graziela se queixa «Não, não, é só esta desumanidade que se entranha no corpo.»     
Na homenagem à literatura que toda a literatura, afinal é, julgamos descortinar o louvor dos textos líricos de Daniel Filipe ou Nuno Bragança no diálogo da fuga dos amantes: «- Trazes os documentos? – Estão aqui na mala. – Tudo? – O resto vai na PEN».

(Editora: Douda Correria, Capa: Inês Mateus)

 [Um livro por semana 641]

quarta-feira, 4 de março de 2020

O rumor do Mundo em Bernardo Matias



Nasci em Santa Catarina numa casa de músicos. A casa já não existe mas as memórias não se perdem. Minha avó tinha a alcunha de «Flauta» e meu avô tocava trompete; começou com um cornetim de 1923 que hoje em 2020 ainda guardo à entrada de casa. A família Catarinense estava na Filarmónica: meu avô José Almeida, meus tios Álvaro e Armindo, meu tio Joaquim Freire, meu primo Luís Freire, meus primos direitos Reinaldo e Luís Almeida. INICIAIS, o meu primeiro livro individual, foi escrito há 40 anos e publicado há 39. Integra sete poemas dedicados a compositores e intérpretes: Vivaldi, Handel, Keith Jarret, Maria Farandouri, Mikis Theodorakis, Paul Williams e Sandy Denny. Isto vem a propósito do novo CD de Bernardo Matias (n.1996) oferecido pelo primo Luís Almeida junto ao cemitério de Santa Catarina. Pode parecer insólito mas não é: tanto a Música como a Poesia procuram juntar de novo tudo o que a morte separou. Neste caso do CD de Bernardo Matias basta pensar que Isaac Albéniz (1860-1909) vive de novo numa das faixas (Astúrias) do presente trabalho que integra onze temas. O CD junta ao som do saxofone, o piano de João Lucena e Vale na interpretação das peças de Daniel Bernardes, Sérgio Azevedo, Pedro Francisco, Nuno Roque, Daniel Schvetz, Francisco Chaves e Albéniz num arranjo do próprio Bernardo Matias. Não sou crítico musical mas vejo nesta viagem de peças musicais um rumor do Mundo, o mesmo Mundo que vivi de 1951 a 1957 quando se ouvia o comboio de São Martinho do Porto durante as vagarosas sementeiras desse tempo. Ou o oceano a bater nas rochas do lado de lá da baía amena. Os pioneiros de 1428 que se desligaram do Dom Abade de Cister e fizeram uma igreja nova na nossa terra devem estar orgulhosos de Bernardo Matias. Eu sou um obscuro publicista e também estou.       

[Crónicas do Tejo 221]

domingo, 23 de fevereiro de 2020

No tempo de Jesus não havia fotografias



Meu neto Pedro, menino de oito anos, é que fez a inesperada pergunta: «Avô, no tempo de Jesus não havia fotografias?». Apeteceu-me responder que no tempo de Jesus não havia fotografias nem telemóveis nem megafones. Por isso os discípulos de Jesus subiam aos terraços das casas desse tempo para falarem às multidões que O seguiam de terra em terra. A imagem mais divulgada de Jesus é, julgo eu, a de Rembrandt. Um Jesus já perto do julgamento estranho e insólito em que o «juiz» lava as mãos numa bacia colocada numa varanda para significar de modo simbólico o seu «desligar» da condenação de um justo. O sonho da esposa de Pôncio Pilatos não admitia segundas leituras nem interpretações posteriores. Ainda hoje em 2019 se diz «andou de Herodes para Pilatos» quando alguém se sente empurrado ou incompreendido ou «lavar as mãos como Pilatos» quando um outro alguém se pretende desligar de uma decisão incómoda e difícil porque não pacífica. Não esquecer que «Varanda de Pilatos» é o título de um livro de Vitorino Nemésio, uma novela editada pela Imprensa Nacional. Eu mesmo (peço muita desculpa aos leitores) usei num verso essa referência num poema magoado sobre o assassinato de um sócio do Sporting Clube de Portugal no Estádio do Jamor em 1996: «A Varanda de Pilatos/É na Praça da Alegria / Visto isso mais os actos/ Ninguém faz da noite dia.» Conclusão provisória, como todas as conclusões: no tempo de Jesus não havia fotografias mas as imagens continuam vivas e a memória instalada desse tempo agarra-se a muitos de nós como uma segunda pele. Um dia o meu neto Pedro irá perceber. A resposta à sua pergunta sobre as fotografias no tempo de Jesus pode demorar mas vai chegar um dia, talvez de modo inesperado. Mas vai chegar.     

[Crónicas do Tejo 202]

(Óleo de Rembrandt)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

«A pedra e a nuvem» de Raul Brandão



Raul Brandão (1867-1930) teve a vida em dupla inscrição: foi militar mas também jornalista e escritor. O que José Manuel de Vasconcelos organizou, selecionou e prefaciou foi um breviário brandoniano, um livro para ler todos os dias como quem reza e junta de novo tudo o que a morte separou. Como explica o organizador deste volume de 100 páginas: «O objectivo do presente livro é, sobretudo, o de proporcionar a quem não está familiarizado com a obra do escritor, um primeiro contacto como seu universo, as suas obsessões, as suas inquietações, aquilo a que se poderia chamar os «grumos» do seu pensamento, esse filosofar desagregado, repetitivo, de uma liquidez espessa que problematiza com acentuada expressividade (…) os grandes temas de sempre: o homem, a vida, a morte, o sonho, Desus.»
Mais do que um grande escritor (baste referir Húmus, Os Pescadores e As Ilhas Desconhecidas) Raul Brandão é um assombroso continente de ideias. Fiquemos apenas com duas. Primeira: «A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada… De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos. Esses sim» Segunda: «A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa época é terrível porque já não cremos – e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera.»
A influência de Raul Brandão é transversal na literatura portuguesa actual. Dois exemplos: Augusto Abelaira publicou um romance com o título de Sem tecto entre ruínas e o meu livro biográfico sobre Vítor Damas arranca com esta frase de Raul Brandão – Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior.

(Editora: Nova Vega, Capa: Paulo Bacelar, Organização, selecção de textos e prefácio: José Manuel de Vasconcelos, Editor: Assírio Bacelar, Paginação: Jorge Machado-Dias)

[Um livro por semana 640]