quarta-feira, 4 de março de 2020

O rumor do Mundo em Bernardo Matias



Nasci em Santa Catarina numa casa de músicos. A casa já não existe mas as memórias não se perdem. Minha avó tinha a alcunha de «Flauta» e meu avô tocava trompete; começou com um cornetim de 1923 que hoje em 2020 ainda guardo à entrada de casa. A família Catarinense estava na Filarmónica: meu avô José Almeida, meus tios Álvaro e Armindo, meu tio Joaquim Freire, meu primo Luís Freire, meus primos direitos Reinaldo e Luís Almeida. INICIAIS, o meu primeiro livro individual, foi escrito há 40 anos e publicado há 39. Integra sete poemas dedicados a compositores e intérpretes: Vivaldi, Handel, Keith Jarret, Maria Farandouri, Mikis Theodorakis, Paul Williams e Sandy Denny. Isto vem a propósito do novo CD de Bernardo Matias (n.1996) oferecido pelo primo Luís Almeida junto ao cemitério de Santa Catarina. Pode parecer insólito mas não é: tanto a Música como a Poesia procuram juntar de novo tudo o que a morte separou. Neste caso do CD de Bernardo Matias basta pensar que Isaac Albéniz (1860-1909) vive de novo numa das faixas (Astúrias) do presente trabalho que integra onze temas. O CD junta ao som do saxofone, o piano de João Lucena e Vale na interpretação das peças de Daniel Bernardes, Sérgio Azevedo, Pedro Francisco, Nuno Roque, Daniel Schvetz, Francisco Chaves e Albéniz num arranjo do próprio Bernardo Matias. Não sou crítico musical mas vejo nesta viagem de peças musicais um rumor do Mundo, o mesmo Mundo que vivi de 1951 a 1957 quando se ouvia o comboio de São Martinho do Porto durante as vagarosas sementeiras desse tempo. Ou o oceano a bater nas rochas do lado de lá da baía amena. Os pioneiros de 1428 que se desligaram do Dom Abade de Cister e fizeram uma igreja nova na nossa terra devem estar orgulhosos de Bernardo Matias. Eu sou um obscuro publicista e também estou.       

[Crónicas do Tejo 221]

domingo, 23 de fevereiro de 2020

No tempo de Jesus não havia fotografias



Meu neto Pedro, menino de oito anos, é que fez a inesperada pergunta: «Avô, no tempo de Jesus não havia fotografias?». Apeteceu-me responder que no tempo de Jesus não havia fotografias nem telemóveis nem megafones. Por isso os discípulos de Jesus subiam aos terraços das casas desse tempo para falarem às multidões que O seguiam de terra em terra. A imagem mais divulgada de Jesus é, julgo eu, a de Rembrandt. Um Jesus já perto do julgamento estranho e insólito em que o «juiz» lava as mãos numa bacia colocada numa varanda para significar de modo simbólico o seu «desligar» da condenação de um justo. O sonho da esposa de Pôncio Pilatos não admitia segundas leituras nem interpretações posteriores. Ainda hoje em 2019 se diz «andou de Herodes para Pilatos» quando alguém se sente empurrado ou incompreendido ou «lavar as mãos como Pilatos» quando um outro alguém se pretende desligar de uma decisão incómoda e difícil porque não pacífica. Não esquecer que «Varanda de Pilatos» é o título de um livro de Vitorino Nemésio, uma novela editada pela Imprensa Nacional. Eu mesmo (peço muita desculpa aos leitores) usei num verso essa referência num poema magoado sobre o assassinato de um sócio do Sporting Clube de Portugal no Estádio do Jamor em 1996: «A Varanda de Pilatos/É na Praça da Alegria / Visto isso mais os actos/ Ninguém faz da noite dia.» Conclusão provisória, como todas as conclusões: no tempo de Jesus não havia fotografias mas as imagens continuam vivas e a memória instalada desse tempo agarra-se a muitos de nós como uma segunda pele. Um dia o meu neto Pedro irá perceber. A resposta à sua pergunta sobre as fotografias no tempo de Jesus pode demorar mas vai chegar um dia, talvez de modo inesperado. Mas vai chegar.     

[Crónicas do Tejo 202]

(Óleo de Rembrandt)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

«A pedra e a nuvem» de Raul Brandão



Raul Brandão (1867-1930) teve a vida em dupla inscrição: foi militar mas também jornalista e escritor. O que José Manuel de Vasconcelos organizou, selecionou e prefaciou foi um breviário brandoniano, um livro para ler todos os dias como quem reza e junta de novo tudo o que a morte separou. Como explica o organizador deste volume de 100 páginas: «O objectivo do presente livro é, sobretudo, o de proporcionar a quem não está familiarizado com a obra do escritor, um primeiro contacto como seu universo, as suas obsessões, as suas inquietações, aquilo a que se poderia chamar os «grumos» do seu pensamento, esse filosofar desagregado, repetitivo, de uma liquidez espessa que problematiza com acentuada expressividade (…) os grandes temas de sempre: o homem, a vida, a morte, o sonho, Desus.»
Mais do que um grande escritor (baste referir Húmus, Os Pescadores e As Ilhas Desconhecidas) Raul Brandão é um assombroso continente de ideias. Fiquemos apenas com duas. Primeira: «A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada… De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos. Esses sim» Segunda: «A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa época é terrível porque já não cremos – e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas, à espera.»
A influência de Raul Brandão é transversal na literatura portuguesa actual. Dois exemplos: Augusto Abelaira publicou um romance com o título de Sem tecto entre ruínas e o meu livro biográfico sobre Vítor Damas arranca com esta frase de Raul Brandão – Ser diferente dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça muito maior.

(Editora: Nova Vega, Capa: Paulo Bacelar, Organização, selecção de textos e prefácio: José Manuel de Vasconcelos, Editor: Assírio Bacelar, Paginação: Jorge Machado-Dias)

[Um livro por semana 640]

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

«Que fazer contigo, pá?» de Carlos Vale Ferraz



O subtítulo («O regresso do herói de uma viagem sem epopeia») dá uma ideia da tessitura narrativa deste livro de Carlos Vale Ferraz (n.1946) e do seu herói Simão Dutra («emigrante, solteiro») que afirma «já não me revejo como Rúben, o libertador. Estou a aprender a ser o Simão Dutra que em tempos foi Rúben!» . Neste romance de 168 páginas cruzam-se algumas histórias pessoais e a História mais geral de Portugal. Rúben é um herói do «25 de Abril» e um derrotado do «25 de Novembro» mas descende de D. António, Prior do Crato. Não é de estranhar que a narrativa sobreponha duas datas – 17 de Agosto de 1583 e 25 de Abril de 1974. De um lado o Portugal de sempre: «As nossas celebrações são à meia-luz, falamos a meia voz, trabalhamos a meio gás, atravessamos as serras pela meia encosta, bebemos vinho palhete, mistura de branco e tinto, a nossa grande matança é a do porco.» Do outro lado o travão aos actos revolucionários: «A hierarquia, a burocracia e a cobardia são os principais inimigos das revoluções!»   
Como qualquer boa história não chega a conclusões que são sempre provisórias mas podemos adiantar duas: Primeira: «Fui revolucionário mas temos o direito a mudar, a esquecer, a desaparecer!». Segunda: «O que permanece de nós é, no melhor dos casos, um cartuxo de papel com cascas secas.» A página 23 justifica o subtítulo de livro: «…Simão, carregando a sua antiepopeia  numa sacola ao ombro.» A página 85 aproxima a ficção (Bar Arlequim, Natália Ferreira) da realidade (Botequim, Natália Correia). Pitões das Júnias é o lugar onde Rúben, o herói revolucionário vive sem ruído na companhia do frade António enquanto «o vermelho desmaia num desbotado cor-de-rosa» e é o lugar para o qual o eremita convoca o protagonista: «Espero por si em Pitões das Júnias» - são as últimas palavras do livro. Não por acaso a norte do Rio Douro existem centenas de sinos: «Quando ouvires os sinos da tua freguesia tocar a rebate, vem para a rua com as armas que tiveres: caçadeiras, pistolas, picaretas, enxadas ou gadanhas!»

(Editora: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa, Imagem: Henri Bureau/Sygma/Getty Images)

[Um livro por semana 639]

domingo, 19 de janeiro de 2020

«Habeas Corpus» de Carlos Querido



Carlos Querido (n.1956) regressa ao micro-conto depois do anterior «Insanus»  de 2017. O título do conjunto de 33 contos é tirado do texto da página 93 cuja origem vem da velha lei britânica «habeas corpus ad subjiciendum» que dá a garantia de liberdade do indivíduo perante a possibilidade de uma detenção arbitrária. Em termos simples permite agudar julgamento em liberdade. No micro-conto em causa, o conflito surge entre a família do protagonista (Zé Manel) e os amigos «das farras, do futebol e dos poemas». Enquanto os primeiros desejam um enterramento convencional, os segundos fazem uma cremação e para isso levam o corpo e no seu lugar deixam sacos de areia. De um lado o tio padre comandando as operações; do outro os amigos que realiza, a cremação entre whisky e poemas de Ruy Belo e Garcia Montero.   
Num dos micro-contos (página 31) pode ler-se «Tão insondáveis como o universo só os enigmas da alma» e é mesmo de enigmas da alma que trata este livro com várias referências a poemas da Garcia Montero, Ruy Belo, Inês Lourenço ou Ricardo Reis (Fernando Pessoa) além de outras figuras das artes e das letras como Carl Jung, Beethoven, Mozart, Agata Christie ou Gustave Flaubert. Essa ligação à Poesia surge na página 13 de modo mais explícito em «O poema do búzio»: «Vem isto a propósito dum poema sobre um búzio que num dia incerto ofereci a uma rapariga que venho a descobrir que era minha mãe.»
Completa este belo volume de 136 páginas um conjunto de dez fotos de Sal Nunkachov.

(Editora: Abysmo, Capa: Sal Nunkachov, Revisão: Noémia Machado)

 [Um livro por semana 638]

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

«Deuses menores e espíritos do lugar» de Aurélio Lopes


Aurélio Lopes (n.1954) estreou-se nas publicações desta área temática em 1995 com «Religião Popular no Ribatejo». Este recente livro de 183 páginas está organizado em quatro capítulos: O Santo e a Imagem, o Santo e o Lugar, o Santo e a Festa e o Santo e a Promessa.
Na página 139 cita-se um texto de Lourenço Fontes em 1992: «Não é diretamente Deus quem o povo procura; vai ao santo. Nem é o padroeiro, é o taumaturgo; nem é a igreja paroquial, é a capela, a ermida, o santuário; onde é mais fácil a religião popular. Onde, até, não há um padre a controlar, a proibir ou vigiar a fé.»
No final a página 183 o autor resume: «São os santos, hoje como ontem, símbolos e protetores de povos e lugares. Corporizados na sua «imagem», nesta se projetam enquanto foco energético e devocional; numa simbiose, algo indistinta, entre representação e representado. «Imagens» que o povo encara como se dos próprios santos se tratasse. Santos/«Imagens»; optando por aquela comunidade e só por aquela. Em inequívocas e taumatúrgicas opções de pertença. Expressos em lendários míticos que descrevem as sempre milagrosas aparições e remontam (ou fazem remontar) à génese da igreja e da povoação. À semelhança de princípios totémicos servem, assim, de pais e antepassados das populações. Intermediários por definição. Focos de poder por vocação. Nos quais as comunidades se revêem e compreendem. E aos quais apelam e prometem em situações de vulnerabilidade individual e colectiva. Santos que embora vistos em termos populares como dotados de um poder intrínseco, não deixam de ser, em termos conceptuais, intermediários entre a Terra e o Céu.»

(Editora: Apenas Livros, Revisão: Luís Filipe Coelho)

[Um livro por semana 637]


quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

«Oblíquos» de Fernando Chagas Duarte



Fernando Chagas Duarte (n.1964) neste seu quarto livro desde a estreia em 2014, junta poemas de 206, 2017 e 2018 num total de 141 páginas dividido em dois capítulos: «Fábulas e humanidades» (44 poemas) e «Os poetas são cruéis ao Domingo» (62 poemas) num total de 106 poemas.  
O ponto de partida é o poema da página 61: «este porto onde aguardam lugar / uma infinidade de navios / marinheiros, velhos cargueiros / e suas gonorreias / tpdos esperam vez / balançam ao sabor do despudos / teias de canos, caudas / camisas enxutas e apêndices / é entrar, carregar, descarregar / adeus até à próxima»
Pelo meio fica a ideia de viagem: «faço um cerco / a imperfeição / sitiado que estou neste corpo / de carne e ser tão pouco / e traço-lhe a linha recta / na palma da mão: faço a faca / e o meu próprio destino /ser defeito – à deriva / deflicto-me / escreverei hoje a última / ode à dignidade»
Entre o ponto de partida e a viagem o poema revisita não só a Natureza mas também a Cultura: desde a Poesia com Luís de Camões, Manoel de Barros, Federico Garcia Lorca, Torga, Sophia, O´Neill, Beaudelaire, Rimbaud e Maiakowvki até à Pintura de Joan Miró, Picasso, Van Gogh ou à Música de Haendel, Carmina Burana e Billie Holliday sem esquecer Nietzche na Filosofia e Kurosawa no Cinema.
Paira sobre o livro um fino humor como no poema da página 118: «8 apostas para / um prémio Nobel / criadas pelas casas / de bom gosto / financeiro. Aposto / no homem, na mulher / aposto no gajo chinês / no africano – há muito / que um negro não ganha / por isso são chorudas as odds.»

 (Edição: Euedito, Capa: Fernando Chagas Duarte)

 [Um livro por semana 636]

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

«Carmes» de Paulo da Costa Domingos



Este é o novo livro de Paulo da Costa Domingos (n.1953) reunindo em 567 páginas o seu trabalho poético de 1971 a 2918. Na página 7 o autor indica o destinatário dos seus versos: «é a cidade de Lisboa, nas suas sete colinas sobranceiras ao estuário do Tejo. Meditação junto ao Cais das Colunas, onde os degraus de pedra são como que banhados por um muito pessoal Ganges, enquanto escutam aquele que, cedo, se habituou a falar com as pedras da calçada – voz do Mundo no lugar onde a Terra se refresca.»
O título vem do poema da página 275: «A suma fragrância do risco caligráfico / arando a página, sulco da ideia. /Que corre em rebentos selvagens ,  /medicina inequívoca /de carmes da terra /num clamor: mais luz.» O «eu» do poeta está presente na página 276: «Se tivesse sido /um artista, um ourives /da prata coando / o metal fundente / para dentro de moldes. (…) se tivesse sido /pregador da ignorância /como cigarra no furor do Estio /um monarca um político /(com provador privado de todos /os víveres); /tivera eu sido a História /não a economia…»
Impossível resumir em poucas linhas um livro de 567 páginas. Ficam algumas ideias como as dos livros no poema da página 307: «De vez em quando os livros /reduto agrário da memória /e da linguagem do fogo, /têm sorte, alguém aparece /solitário bandeirante /para salvá-los da morte /da cega ruína / de suas girândolas e orelhas /na lixeira pública.» Ou da poesia como matéria artesanal: «Como ele costumava dizer /se bem me lembro da fantasia: / «Minha mãe manda comprar /um quilo de papel almaço /na venda, quero fazer poesia» Ou o tempo actual: «Havia que cumprir objectivos /estudar, casar, inscrever num partido, arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder estudar, casar, arranjar emprego.» O dito acordo ortográfico também faz parte da paisagem desolada deste tempo: «Deportado pelo novo regime /ortográfico, nesta vergonha /de ser-se um involuntário /num caminho que nem a Roam conduzirá, nem /proveito algum ou sabedoria /se lhe extrairá no fim. Sim / expulso do coração da fala.» 

(Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Capa: Margarida Lagarto, Foto: Telma Rodrigues, Paginação: Paulo da Costa Domingos)

 [Um livro por semana 635]

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

«O que fica (Poemas)» de Cristino Cortes



Cristino Cortes (n.1953) junta no livro poemas diversos (83 ao todo) e organizados por capítulos (ou círculos) com 2 de 17, 2 de 13, 2 de 9 e 1 de 5 poemas. Sem esquecer o poema (ou fragmento) de abertura na página 11 que no total soma 84 e é o ponto de partida: «Daquele que consciente vê e vive na cidade / E nela deseja intervir, para melhor / A configurando, aqui canto.»
«O que fica» é o título do poema da página 151: «Fica a poesia, claro, benefício da abertura temporal /De a ela, e com gosto, poder-me entregar. Só aqui / Poderei abalançar-me a um volume de 900 páginas. Li / Assim Homero e Camões, Nemésia, Sophia, agora por sinal.»
No poema «Autoconsolação à sombra de Ricardo Reis» o poeta adverte: «Quantas crianças não morrem enquanto tal e é bem sabido /Levarem cedo os deuses aqueles que escolhem e muito amam. / Não serias o primeiro a preferir morrer de bibe e de calção/ Ou então no fulgor da juventude, dominando o mundo todo. / Mas já que te coube usar fato e gravata vê se estás à altura.» Mais à frente no mesmo poema proclama: «Em tudo, em síntese, mantém humor, tranquilidade, um sábio bom senso. /A alegria vem dessa naturalidade, tão íntima paz. De todo o lugar /Faz a tua cidade. Vive o que tiveres de viver e que jamais / A poesia te falte. Como não faltará decerto bem o sei /Assim estejas atento, grato e disponível no dia a dia, / Ao espelho te maravilhando a flor que só por ti abria.»

(Editora: Calçada das Letras, Prefácio: Luís Serrano, Posfácio: José Fernando Tavares, Capa: Dorindo Carvalho, Grafismo. Estúdio Bonecos Rebeldes)

[Um livro por semana 634]

sábado, 30 de novembro de 2019

«Pequeno roteiro cego» de Levi Condinho



A antologia da poesia de Levi Condinho (n.1941) organizada por António Cabrita e Miguel Martins tem 98 páginas e integra poemas de cinco livros publicados entre 1966 e 2001 e dos 48 poemas divulgados no Jornal «A voz de Alcobaça» entre 1993 e 1997 por José Alberto Vasco. A opinião de Herberto Helder («o seu livro é intenso e livre – qualidades que considero as melhores num ser humano e, particularmente, num poeta») sobre «Para que alguns me possam amar» (1977) pode aplicar-se a toda a obra deste poeta nascido no Bárrio (Alcobaça), facto inscrito num poema: «No princípio de Julho de 1950 foi a Missa Nova / do Padre João de Sousa – missa campal / camponeses ajoelhados no feno seco terra batida / alecrim incenso bandeirinhas de papel searas vinhas / o mar e o Sítio da Nazaré ao longe – à tarde toquei pífaro diante do microfone.»   
Veja-se o poema de abertura: «escrevo estas coisas /para que alguns me possam amar / todos aqueles que sejam humildes / e vistam roupas simples e claras /manchadas mesmo de vinho café ou /nódoas de peixe frito /escrevo estas coisas /para quem nunca teve casa junto ao mar /mas sabe que o mar é uma delícia /como o sol.» A música está sempre presente como no poema da página 27: «Se perguntarem por mim /diz-lhes que me procurem /nas cordas de qualquer violoncelo /ou então nas chaves de um oboé /diz-lhes mais / que se enganaram a meu respeito /e não pensem que lhes farei a vontade /porque a minha vida foi música desde o ventre materno».
O ponto de partida pode ser o poema da página 37 («Juro uma vingança grave sobre / toda esta falta de viver») e o ponto de chegada pode ser a página 27: «se perguntarem por mim /diz-lhes que havia um barco à minha espera /e que finalmente resolvi entrar nele /sem lágrimas». No meio o poeta tem uma procura que não termina («Busco o teu perfil nos torvelinhos de uma cidade frenética») mesmo quando parece: «vamos procurar as árvores dessas ruas e escrever nelas o nosso encantamento / para que o mundo saiba que a redenção dos astros / passou pelos nossos lábios numa noite em que assaltámos /as portas de Deus.»

(Editora: Abysmo, Prefácio: António Cabrita, Capa: Luísa Barreto)

[Um livro por semana 633]