José Clemente Soares (1928-2010)
uma fotobiografia de Adelina Soares
uma fotobiografia de Adelina Soares
O essencial sobre Luiz
Pacheco
Devo começar por referir circunstâncias que me ligam a Luiz
Pacheco: conheci-o em 1967 e convivi com ele até 2008, (nasceu em 1925), fui o
assinante nº 186 do seu famoso ficheiro e recebia os livros editados pela
CONTRAPONTO antes de eles irem para as livrarias, visitei-o no Montijo, em
Lisboa e em Palmela, entrevistei-o duas vezes para o Jornal semanário OMIRANTE
de Santarém de cuja redacção fiz parte entre 1997 e 2001. Sou por essas razões
um interessado na divulgação do seu trabalho ou de estudos sobre a sua obra e a
sua vida. Mas não aceito tudo nem posso aplaudir tudo. Não me refiro à página
15 onde a palavra «assimetrias» aparece duas vezes no mesmo período, não me
refiro às palavras como recepção, activo, excepcional, aspectos, directamente,
recepção, percepção e muitas outras aqui dizimadas pelo aborto ortográfico. Não
me refiro à página 42 onde surge a palavra sarja por sorja (três vezes) nem à
página 9 onde o nome é Luís embora na página 15 apareça Luiz, não me refiro
ainda aos nomes dos meses em caixa baixa, não me refiro à indicação de que Luiz
Pacheco era filho único (terá perdido uma irmã ainda criança) nem sequer ao
aborto ortográfico que dizima um texto de Luiz Pacheco – na página 77 a palavra
aspecto sem «c» é impossível o autor ter utilizado antes de 1973, data da
segunda edição de «O Libertino passeia por Braga». Apesar da ideia-chave de
síntese, este livro de 122 páginas de Rui Sousa (Imprensa Nacional) parte dos
contributos de Ana da Silva, João Pedro George e António Cândido Franco mas não
pretende confundir-se com uma biografia. Além de escritor, Luiz Pacheco foi
editor; a sua CONTRAPONTO editou autores portugueses como Raul Leal, Manuel
Laranjeira, Mário Cesariny, Vergílio Ferreira, Manuel de Lima, António Maria
Lisboa, Natália Correia e Herberto
Helder ou estrangeiros como Eugène Ionesco, Luigi Pirandello, Karl Jaspers,
Anton Tchekov, Dostoievski e Marquês de Sade. Um livro valioso e oportuno,
prejudicado pelo aborto ortográfico de 1990 que aqui surge na fronteira do
delírio e da alucinação. JCF
Com
edição e introdução de Nuno Ribeiro (n.1983) este livro de 79 páginas (Editora
Apenas Livros) integra doze textos em fac
símile fazendo deste trabalho algo como uma fotobiografia. Fernando Pessoa
(1888-1935) viveu alguns anos na África do Sul onde o segundo marido da mãe
exerceu o cargo de Cônsul de Portugal em Durban. Não se estranha que seja
escrito em inglês uma das suas abordagens do saudosismo: «The social transformation
wich has been taking place in Portugal for the last three generations and which
culminated with the establishment of the Republic , hás been, as is natural, accompained
by a concomitant transformation of Portuguese literature». Nos textos deste
livro Fernando Pessoa oscila entre uma revalorização de elementos saudosistas e
um distanciamento crítico. O estudo introdutório de Nuno Ribeiro ocupa o livro da
página 5 à página 19 e é um excelente ponto de partida para a abordagem deste
16º volume da colecção sobre a obra de Fernando Pessoa. JCF
Woody Allen - Que se passa com o Baum? (romance)
Woody Allen tem a particularidade de ter nascido em Nova
Iorque (EUA) no mesmo dia em que morreu Fernando Pessoa em Lisboa (Portugal) –
30 de Novembro de 1935. Actor de cinema e de teatro, escritor, músico de Jazz e
cineasta, este «Que se passa com Baum?» é o seu primeiro romance. O título
original é «What´s with Baum?», a tradução é de Miguel Martins, a revisão é de
Joana Camões Pereira, a foto é de Soon-Yi Previn, a capa é de Cody Corcoran, o
volume tem 202 páginas e o editor é Edições 70. O herói do romance, Asher Baum, vive em Nova Iorque e começou a
falar sozinho, situação habitual para quem não tem ninguém que o possa ouvir.
Jornalista judeu de meia-idade, percebeu que a sua editora nova iorquina lhe
cortara os contactos e deixou de publicar os seus livros. O seu terceiro
casamento está por um fio e tem problemas com o filho que é um escritor bem
sucedido no seu meio. Não é inocente a referência a um poema de W.H. Auden na
página 11: «Pensamentos da sua própria morte/como o som distante/de uma
trovoada num piquenique». A página 202 revela um curioso diálogo entre o
escritor e o seu irmão Josh quando Asher lhe revela a sua ideia para um novo
livro: «A vida acabou. Não existe nada. O Universo não existe. Não existem
estrelas, nem luz, nem espaço, nem tempo. Absolutamente nada». No seu livro autobiográfico
anterior (»A propósito de nada») Woody Allen considera que «a vida é uma sorte».
A leitura deste romance pode (e deve) ser também uma sorte para os leitores.
Nem mais. JCF
António Manuel Venda - A PRAIA (poesia)
António Manuel Venda (n.1968) junta neste seu sexto livro de
poesia 18 poemas que ocupam 88 páginas. A edição é de «On y va», a foto de
Maria Ramires e o grafismo de João Paulo Fidalgo. O ponto de partida é o poema
«a praia» que, como qualquer poema digno desse nome e desde sempre ao longo da
História, se articula entre a canção e a reflexão; neste caso uma canção triste
entre lágrimas e sangue pisado. «Isto não é para estas urgências» foi a frase
diabólica pronunciada por alguém com maldade de guichet e para quem a palavra
«humanidade» é um mistério e uma coisa distante do seu reduzido horizonte. Não
por acaso o livro é dedicado à memória do pai e da mãe do autor, ela que foi
«abandonada pelo Estado Português e pelas suas Instituições». No início do
livro surge uma citação de Piedad Bonnett «Deitaram sal sobre os meus olhos».
Trata-se do sal das lágrimas do homem que foi menino e esteve com a avó materna
numa feira onde homens de olhos vendados tentavam partir panelas e lá dentro
podia haver água ou um pombo; hoje há um carro funerário onde o homem que foi
menino vê uma urna a caminho do cemitério local mas essa urna parece uma panela
de barro de onde pode fugir um pombo pronto a voar. São dezoito poemas cada um
com a sua particular oficina e resultado. O primeiro e o último do conjunto são
o pranto e a lamentação da morte de quem deu a vida ao autor. Não se trata de
um caso particular, pelo contrário estes poemas não passam ao lado de ninguém.
Perante eles não se consegue ficar indiferente. Nestes poemas, de modo límpido,
incisivo e eficaz, junta-se de novo tudo o que a morte separou. JCF
Sidónio Bettencourt - BALEEIROS EM TERRA
Sidónio Bettencourt (n.1955) é natural dos Arrifes (São
Miguel) mas tem raízes no Pico como se lê na dedicatória: «Ao avô Manuel Moniz
da Papuda, Aos baleeiros, À minha família, Ao Povo das Lajes do Pico». O livro
é editado pelo Instituto Açoriano de Cultura com apoio da Direcção Regional dos
Assuntos Culturais e da Câmara Municipal das Lajes do Pico, capa de Raúl
Resendes, design de Angelina Caixeiro, revisão Margarida Vitória Fonseca,
aguarela de Ferdinand Bouton, fotos de Museu dos Baleeiros, família de Carlos
Cordeiro, Aurélio Machado, Ermelindo Ávila, Helder Silveira, João Melo, Manuel
Moniz Bettencourt, Márcia Olival da Rosa, Raúl Resendes, Sérgio Ávila, António
Sena e Kai-Uwe Franz. O livro de 63 páginas é o mais recente de Sidónio
Bettencourt depois de «Deserto de todas as chuvas» e «Já não vem ninguém»
(autor) e de «A balada das baleias» e «Açores – o poema da luz» (co-autor). A
qualidade e a quantidade das fotografias dão ao volume o estatuto de
fotobiográfico. A vida das baleias e dos baleeiros perdura há muito tempo na
Literatura; por exemplo Bernard Wolf, António Tabucchi, Trevor Housby, Vitorino
Nemésio, Raul Brandão, Herman Melville, Manuel Greaves, Florêncio Terra,
Rodrigo Guerra e Dias de Melo com os seus «Pedras Negras», «Mar Rubro», «Mar
pela Proa», «Vida Vivida em Terra de Baleeiros» ou «Memória das Gentes». A
página 53 afirma: «Morrem os baleeiros mas fica a sua cultura, a sua ética, os
seus rituais e a sua mentalidade». A última baleia foi capturada em 1987 e em
21 de Agosto de 1994 o autor regista: «Isto que nós estamos a viver neste
momento a bordo de uma canoa baleeira – o Ester – não vem descrito nos livros.
Pancada bem forte; chuva, mar, muito vento e o corpo é só água… Tudo tão
cinzento, cinzento quase breu. Está tanto nevoeiro, tanto mar que tenho
dificuldade em gravar um bocadinho desta chuva terrível e a ilha praticamente
desapareceu. A linha do horizonte está aqui a meia dúzia de metros.» Afinal esta
reportagem de rádio traduzida em livro vem provar que o jornalista é o
historiador do quotidiano. JCF
Vidaul Ferreira
Contributo para o movimento
reorganizativo do Proletariado
Vidaul
(Froes) Ferreira (n.1948) veio ao Mundo no início da NAKBA na Palestina com o
assassinato do diplomata sueco enviado especial da ONU e o massacre de Der
Iassine pelos grupos terroristas Stern, Irgun e Lehi além da entrada em vigor
da Declaração Universal dos Direitos do Homem. O livro de 73 páginas (Editora
Libertação, design e paginação de João Aldeia) é um depoimento comovido que
começa com os primeiros passos do autor: «a minha meninice foi passada em
Angola; nasci em Vila Franca de Xira mas fui para lá com três anos e regressei com
quase treze em meados de 1961. Assisti a acontecimentos que me impressionaram
muito. Regressámos a Portugal por decisão de meus pais quando começou
abertamente a guerra colonial em Angola». O texto recorda a fundação do MRPP:
«A reunião teve lugar em Benfica no fim de semana de 18 de Setembro de 1970 em
casa de Maria José e Filipe Rosas; dormimos lá duas noites, a reunião decorreu
de sexta à tarde até domingo à noite. Foi ali decidido o nome definidor
Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado MRPP». Há uma nota final
sobre o tempo actual ao tempo da escrita do livro – 2018: «Entre socialismo e
capitalismo mais de noventa por cento da Humanidade escolhe o socialismo; o
socialismo é uma necessidade histórica». Além de Vidaul Ferreira (ele mesmo) e
de figuras da política e da cultura como Saldanha Sanches, Vítor Dias, Paula
Godinho ou Amadeu Lopes Sabino, as páginas do livro recordam alunos da Escola
Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira como Álvaro Monteiro Rodrigues
Pato, José Carlos Pereira Lilaia, José do Carmo Francisco e Horácio José
Cecílio Rufino que, mesmo morto no Registo Civil, continua vivo no coração dos
rapazes da nossa turma. JCF
Ana Sofia Brito
O grande
ponto de partida deste grupo de 25 histórias que ocupam um livro de 111 páginas
(Editora On y va, apoio da Câmara Municipal de Albufeira, ilustrações de
Guilherme Limão, grafismo e paginação de João Paulo Fidalgo, foto da autora de
Daniel Azevedo) está na página 6: «Se queremos saber para onde vamos, temos de
saber de onde viemos». A autora é licenciada em Letras, jornalista, actriz e
malabarista e este é o seu quinto livro publicado. Sendo bisneta, neta, filha,
amiga, mãe, prima e tia de gente albufeirense, Ana Sofia Brito escreve sobre
pessoas mas, ao mesmo tempo, faz uma declaração de amor à sua cidade – sua luz,
sua beleza, seu cheiro, suas ruas. No meio das 25 histórias com gente de
Albufeira lá aparece um holandês: «O holandês do Café Sul tinha a mania de que
era o dono da vila e de que tinha chegado para pôr ordem no chiqueiro, como ele
dizia. Não sei onde é que raio aquele estúpido aprendeu a palavra chiqueiro mas
andava sempre com ela na boca quando era para se referir às coisas que lhe desagradavam
em Albufeira». A banda sonora deste livro pode ter Toots Hibbert, Gregory
Isaacs, Bob Marley ou Peyter Tosh e está na página 85. Citando uma das
histórias do livro (Uma barraca na feira) podemos concluir que a vida é feita de
lágrimas e de sangue pisado mas pelo meio surge um tempo de humor: «A bem
dizer, aquilo era uma barraca de meninas, pronto. Os homens assomavam-se a
fazer de conta que compravam pão com banha mas a banha ali era outra». Se não
existisse já um livro com esse título, este poderia chamar-se «Um reino
maravilhoso» não no sentido de maravilha mas de encanto, de amor, de
luminosidade, de oração profana que procura e consegue juntar de novo tudo o
que foi separado pela Morte e pelo esquecimento. As ilustrações de Guilherme
Limão fazem deste livro um álbum, uma bela fotobiografia de um tempo e de um
lugar. JCF
Luís Pequito
PERGULHO – OS TÚMULOS DA MEMÓRIA
As dezanove
fotografias que integram o corpo deste livro de 93 páginas escrito por Luís
Pequito (n.1966) podem levar o leitor a considerar este trabalho como uma
fotobiografia. A edição e o grafismo são do Município de Proença-a-Nova e a
nota de contracapa é de João Lobo. O livro organiza-se em seis blocos de texto:
O ti Chico Boieiro, O ti Manuel Galo, O Domingos da Murteirinha, O Manuel
Isaías, O Padre Armando e Histórias à lareira. Mesmo quando parte de um retrato
pessoal, há sempre o cuidado por parte do autor de o envolver nas coordenadas
do tempo e do espaço geral. Neste livro a paisagem não é mais importante do que
o povoamento. Na linha de Liev Tolstói (1828-1910) para quem «a aldeia é a base
para chegar ao Mundo», estas narrativas cruzam o particular e o geral, o
público e o privado, o real e o simbólico, a crença e a dúvida, a luz e a
sombra. A página 29 do livro adapta uma quadra de Rosalia de Castro (1837-1885)
trocando a palavra Galiza por Pergulho: «Este parte, aquele parte/E todos,
todos se vão/Pergulho ficas sem homens/Que possam cortar teu pão». Embora não
seja portador de carteira profissional de jornalista, o autor leva a cabo neste
livro uma reportagem sentimental não só do tempo mas também do espaço do
Pergulho. Como o Jornalismo é uma disciplina da Literatura, este livro é, na
verdade, (tal como um poema, uma crónica, um conto, uma novela, um romance, um
ensaio ou uma peça de teatro) a possibilidade alcançada de ligar de novo tudo o
que a Morte separou. JCF
O PRIMEIRO MARQUÊS DE ALORNA
RESTAURADOR DO ESTADO PORTUGUÊS DA ÍNDIA (1744-1750)
Com o
subtítulo de «Guerra e Cultura na formação de uma imagem pública setecentista»,
este livro de 300 páginas inclui no seu conjunto várias ilustrações a cores
(nove) e a preto e branco (uma) além de (da página 202 à 300) várias notas,
anexo documental, bibliografia e índice remissivo. Onze quadros e sete mapas
completam o conjunto. Da página 16 à 201 surge o texto do ensaio. O autor
(n.1981) abre o livro com uma frase exemplar: «Clio, a Musa da História tem na
mão um papiro para lembrar que o principal modo de registo da Memória é a
palavra escrita». Por outras palavras - nem lenda nem fantasia. D. Pedro Miguel
de Almeida Portugal (1688-1756), Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo
Novo (1744) e Marquês de Alona (1748) casou em 1715 com D. Maria de Lencastre
filha dos Condes de Vila Nova de Portimão e foi mais tarde Vice Rei de Índia
Portuguesa entre 1744 e 1750. Desempenhou vários cargos de relevo tanto em
termos militares como políticos. (Editora Tribuna da História, Patrocínio
Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e Comissão Portuguesa de História Militar,
Editor Pedro de Avillez,Capa Maia Moura Design, Revisão Manuel Amaral). JCF