terça-feira, 27 de março de 2018

«Aquela pequena sabedoria de estrelas repartidas» de Luís Filipe Maçarico



Não é por acaso que o poema que dá o título ao mais recente livro de Luís Filipe Maçarico (n.1952) está datado de 1991 – o ano dos primeiros livros de poemas deste autor. De facto «Da água e do vento» e «Mais perto da terra» são de 1991 e 1992. Vejamos o poema em causa, escrito em 28-8-1991 na viagem de comboio Tunis/Nabeul: «Ao sul / da água / entre camelos / e pedras esbraseadas / a Tunísia / enreda-se / num manto / de dunas / escaldantes / onde cada nómada / traz nas mãos / aquela pequena sabedoria / de estrelas repartidas.»
A relação entre paisagem e povoamento está na origem do poema com data de 14-10-1995 «As oliveiras de Jerba»: «Trago as oliveiras de Jerba / No olhar. Velhas raízes / Atravessando o tempo / Com sede de luz / Trago as oliveiras da ilha / Nas veias / Para escrever o poema». 
Na viagem do poeta (e do poema) o oásis de Tozeur, com as suas 200 nascentes de água, está inscrito no poema de 21-10-1992: «No silêncio rumoroso / Da noite/ Escutarás a água / Irrigando / Os mais deliciosos / Jardins de versos.» Entretanto na ilha de Jerba a praia de Tanit é um apelo a ficar em 17-10-1994: «Neste entardecer de alabastro / O mar é um arado de esmeraldas / A tecer caligrafias de luz».
Mas chega o momento triste da despedida com o poema «País do sonho» datado de 24-10-1995: «Ficaste na obscuridade / Dos lugares onde a poeira / Se entranha na língua / E não há palavras / Que me devolvam a tarde / Onde eu era um sorriso / E tu, a nascente. / É de lama, o dia. As águas / Caíram como uma revolta / No país do sonho. As lágrimas / Guardo-as para quando acordar…»  

(Capa e desenhos: Luís Filipe Maçarico, Textos: Martinho Marques, Eduardo Olímpio, Margarida Almeida Bastos, Miguel Rego, Ana Machado e Salem Omrani)

(Um livro por semana 563)

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