quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

«Carmes» de Paulo da Costa Domingos



Este é o novo livro de Paulo da Costa Domingos (n.1953) reunindo em 567 páginas o seu trabalho poético de 1971 a 2918. Na página 7 o autor indica o destinatário dos seus versos: «é a cidade de Lisboa, nas suas sete colinas sobranceiras ao estuário do Tejo. Meditação junto ao Cais das Colunas, onde os degraus de pedra são como que banhados por um muito pessoal Ganges, enquanto escutam aquele que, cedo, se habituou a falar com as pedras da calçada – voz do Mundo no lugar onde a Terra se refresca.»
O título vem do poema da página 275: «A suma fragrância do risco caligráfico / arando a página, sulco da ideia. /Que corre em rebentos selvagens ,  /medicina inequívoca /de carmes da terra /num clamor: mais luz.» O «eu» do poeta está presente na página 276: «Se tivesse sido /um artista, um ourives /da prata coando / o metal fundente / para dentro de moldes. (…) se tivesse sido /pregador da ignorância /como cigarra no furor do Estio /um monarca um político /(com provador privado de todos /os víveres); /tivera eu sido a História /não a economia…»
Impossível resumir em poucas linhas um livro de 567 páginas. Ficam algumas ideias como as dos livros no poema da página 307: «De vez em quando os livros /reduto agrário da memória /e da linguagem do fogo, /têm sorte, alguém aparece /solitário bandeirante /para salvá-los da morte /da cega ruína / de suas girândolas e orelhas /na lixeira pública.» Ou da poesia como matéria artesanal: «Como ele costumava dizer /se bem me lembro da fantasia: / «Minha mãe manda comprar /um quilo de papel almaço /na venda, quero fazer poesia» Ou o tempo actual: «Havia que cumprir objectivos /estudar, casar, inscrever num partido, arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder estudar, casar, arranjar emprego.» O dito acordo ortográfico também faz parte da paisagem desolada deste tempo: «Deportado pelo novo regime /ortográfico, nesta vergonha /de ser-se um involuntário /num caminho que nem a Roam conduzirá, nem /proveito algum ou sabedoria /se lhe extrairá no fim. Sim / expulso do coração da fala.» 

(Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Capa: Margarida Lagarto, Foto: Telma Rodrigues, Paginação: Paulo da Costa Domingos)

 [Um livro por semana 635]

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