Álamo Oliveira (n.1945) é autor de poesia, romance, conto,
teatro e ensaio. Apresenta a figura central em quatro frases: «Sou apenas um
velho sem vontade de morrer.», «Sabes, eu venho do tempo em que a liberdade era
uma miragem no deserto da opressão.», «Claro que tenho pena de morrer. Mas já
vivi bastante, rodeado de gente boa e bonita.» e «Não gosto de ser velho.» O
discurso não se centra no «eu» antes se alarga ao «nós»: «A preocupação de dar
aos filhos tudo o que eles querem não deixou tempo para lhes ensinar que o amor
é mais importante que esses aparelhinhos de teclado com bonecos.». Nas
conversas entre o velho e o jovem há um inventário onde cabe a Guerra («As colónias
engoliam os jovens com um apetite insaciável.») mas também a Ilha; do
particular («sempre que o toiro do dólar se deitava, as vacas do escudo iam
todas dormir com ele.») ao geral: «Lembra-te que viver numa ilha é também um
privilégio.» O discurso integra a Autonomia («A autonomia é uma vaca, à solta,
num cerrado de pasto. É livre para comer sempre que lhe apetecer mas não pode
saltar a parede») e o «25 de Abril»; o
presente («Alguém vai perder alguma coisa – regalias e dinheiro. Outros vão
ganhar o que alguns perderam.») e o futuro: «haverá gerações que nunca acreditarão
que o povo português viveu sob uma ditadura, onde a palavra Liberdade nem podia
ser sonhada.» Sem esquecer os caciques: «É uma mistura de tudo o que não
presta.» Não por acaso o fio narrativo conclui em 1-1-80 a lembrar o poema de
J.H. Santos Barros: «Não perecerás ó destruída!». Além da citação de J.H.
Borges Martins, o texto recorda Almeida Firmino («escapou-se pelo mar para
ficar perto do céu») e Carlos Faria: «há meses que partiu, carregado de
saudades, para a sua Golegã». Escrito na Pandemia, este é um livro para todos
os tempos.
(Editora: Companhia das
Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Assistência editorial: Sara Santos,
Capa e arranjo gráfico: Rui Belo, Pintura e foto: Rui Melo, Apoio: Município de
Angra do Heroísmo)
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